sábado, 3 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15195: Agenda cultural (428): "Festival 6 Continentes", realização do Lions Clube da Lusofonia, dia 17 de Outubro pelas 21h30, no Auditório da Cooperativa de Habitação Económica "SETE BICAS" - Senhora da Hora - Matosinhos (Jaime Machado)

1. Mensagem do nosso camarada Jaime Machado (ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70) com data de 2 de Outubro de 2015:

Caro Camarada e Amigo Carlos Vinhal 
Mais uma vez venho à tua presença com um pedido de publicação no Blogue. 

Desta feita venho solicitar-te o favor de fazeres a divulgação por todos os nossos Camaradas do espetáculo Festival 6 Continentes que o Lions Clube da Lusofonia vai realizar no dia 17 de Outubro próximo pelas 21h30 no Auditório da Cooperativa de Habitação Económica "SETE BICAS" (Rua Padre António Porto - Senhora da Hora - Matosinhos) o qual nos foi gentilmente cedido para o efeito. 

Remeto em anexo o suporte informativo do espetáculo do Festival 6 Continentes, que tem como objetivo a promoção e defesa da Língua Portuguesa e das diferentes culturas Lusófonas pelo Mundo.

O bilhete de ingresso no espetáculo terá o preço simbólico de 2,5 euros por pessoa.
Para compra de bilhetes, por favor contactem pelo telem 967 409 449 ou jmrodrigues47@gmail.com

Aceita as nossas melhores Saudações Lionísticas. 
Um abraço
Jaime Machado


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Nota do editor

Último poste da série de 3 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15194: Agenda cultural (427): Início do 14.º Ciclo das Tertúlias "Fim do Império" com a apresentação dos livros "Dois Amigos, Dois Destinos" e "De Bragança a Macau", no dia 8 de Outubro de 2015, pelas 15h00, na Messe Militar, Praça da Batalha - Porto (Manuel Barão da Cunha)

Guiné 63/74 - P15194: Agenda cultural (427): Início do 14.º Ciclo das Tertúlias "Fim do Império" com a apresentação dos livros "Dois Amigos, Dois Destinos" e "De Bragança a Macau", no dia 8 de Outubro de 2015, pelas 15h00, na Messe Militar, Praça da Batalha - Porto (Manuel Barão da Cunha)



1. Mensagem do nosso camarada Manuel Barão da Cunha, Coronel de Cav Ref, que foi CMDT da CCAV 704/BCAV 705, Guiné, 1964/66, com data de 2 de Outubro de 2015:

Caríssimos camaradas e amigos,
No próximo dia 8, começa o 14.º ciclo das tertúlias «Fim do Império», no Porto, na Messe Militar, na Praça da Batalha, 15h00, 120.ª tertúlia em quase 7 anos (ver anexo)...

Deverão participar o General Chito Rodrigues, Presidente da Liga dos Combatentes, e os autores. Esperamos ter o gosto de os ver.

Fiquem bem,
MBC.

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Nota do editor

Último poste da série de 25 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 -P15155: Agenda cultural (426): "Desesperança no chão de medo e dor": novo llivro com meia centena de poemas recentes do escritor e jornalista guineense Tony Tcheka (n. Bissau, 1951)... Sessão de lançamento, hoje, 6ª feira, às 17h00, na Mala Posta, Odivelas (metro Sr. Roubado)... Apoio da RDP - África

Guiné 63/74 - P15193: Convívios (714): Encontro do pessoal da CCAÇ 2797 e Pel Canh SR 2199, a realizar no próximo dia 10 de Outubro de 2015, em Fátima (Luís de Sousa)

1. O nosso Camarada Luís de Sousa (ex-Soldado TRMS da CCAÇ 2797, Cufar, 1970-72), enviou-nos uma mensagem datada de 30 de Setembro de 2015, anunciando o próximo encontro do pessoal da sua Companhia e do Pel Canh SR 2199:


Caro Vinhal, 
Aqui me tens mais uma vez a solicitar a publicitação de mais um almoço-convívio da CCAÇ 2797 e Pelotão de Canhões S/Recuo 2199 que prestaram serviço em Cufar em 1970/72. 

Terá lugar em Fátima, no próximo dia 10 de Outubro no restaurante D. Nuno, desta vez com organização do ex-Furriel Vieira, telemóveis: 919 301 884 e 917 610 379. 

A concentração far-se-á junto à Capelinha das Aparições a partir das 10 horas. 

Preço de repasto: 25€ 

Muito obrigado, e saudações amigas
Luis de Sousa
ex-Soldado TRMS
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15181: Convívios (713): O XII Encontro do pessoal da CCAÇ 4540 realizou-se no passado dia 19 de Setembro em Sangalhos (Vasco Ferreira)

Guiné 63/74 - P15192: O segredo de ... (27): A minha prenda de Natal de 1963: a destruição de Sinchã Jobel, com o meu engenhoso fornilho montado numa mala de cartão... (Alcídio Marinho, ex-fur mil at inf MA, CCAÇ 412, Bafatá, 1963/65)



Leiria > Monte Real > Palace Hotel > 4 de Junho de 2011 > VI Encontro Nacional da Tabanca Grande > O Alcídio Marinho (Porto, Miragaia), o porta-estandarte da CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65).


Foto: © Manuel Resende (2011). Todos os direitos reservados.




Leiria > Monte Real > Palace Hotel > 4 de Junho de 2011 > VI Encontro Nacional da Tabanca Grande > A Rosa Marinho (Porto, Miragaia), empunhando com elegância, firmeza e determinação o estandarte dos Capacetes Verdes (réplica do original).


Foto: © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados.




Guiné > Mapa geral da província > Escala de 1/500 mil  > 1961 > Detalhe: posição relativa de Sinchã Jobel, a norte de Bambadinca e a noroeste de Bafatá...

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


1. Mensagem de Alcídio Marinho [ ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65)]


Data: 25 de setembro de 2015 às 16:09

Assunto: A aestruição da tabanca de Sinchã Jobel


A DESTRUIÇÃO DA TABANCA DE SINCHÂ JOBEL


Como já referi noutro comentário, quando estive no Enchalé, de outubro de 1963 a janeiro de 1964, fizemos diversos patrulhamentos a Mato Cão, a Sucuta, mas a Sinchã Jobel só fomos 2 vezes e eu pessoalmente só uma vez. 

Duas semanas antes do natal de 1963, fomos a Mato Cão que não deu em nada pois os turras descobriram-nos e fugiram, na direção de Sucuta, fazendo fogo de longe sem nenhum efeito. 

Na semana seguinte, resolvi fazer uma patrulha apeada, com 5 soldados, 1 cabo e comigo, junto ao rio Geba, subindo em seguida, para norte em direção à estrada Geba-Saliquinhé-S. Belchior-Flora-Porto Gole. Começamos a ouvir um barulho, pum-pum, parei a malta e fomos ,o cabo e eu, verificar o que se tratava e vimos um grupo de turras a fazer um buraco no chão para montar um fornilho. 

A malta queria atacá-los mas conferindo as cartucheiras deles, elas estavam vazias, só tinham o carregador da G3 e granadas nem vê-las. Determinei:
- Fiquem calados, esperando que eles se fosse embora. 

Assim, eles montaram o fornilho e foram embora. Claro que assistimos,  parecia que estavamos a ver um filme, 10 individuos armados com 2 PPSH (costureirinhas), 2 espingardas(?), várias pistolas e um a montar o fornilho. Eles estavam atentos ao ruidos de carros, só e apenas. depois vimos eles seguirem pela estrada, descontraidos, descendo a encosta, atravessaram o pontão, pela recta de Saliquinhé e subiram a picada para Sucuta junto ao ribeiro que levava muita água (estávamos fim da època das chuvas). 

Fui, em seguida, ao fornilho, desatei o cordão de algodão (mias de 6 metros), deixando-o ficar lá como estava, retirei o detonador do disparador, peguei num prego (que utizava nas armadilhas) enterrei-o no chão e apertei-o novamente o cordão, com um nó. Seguimos para o quartel, para almoçar e todos os soldados tiveram fazer um reforço à Benfica.

No dia 24 de Dezembro, às 5.30 horas carregamos três vacas na GMC, para vendermos, uma para o BCaç 507, outra para o Esq Cav 385 e, outra para o mercado de Bafatá e uma perna da tinha ficado para nós, para a nossa Companhia.
O preço era 900 pesos. Na bolanha do Enchalé, havia para cima de 200 vacas.

Tomamos a estrada, seguindo no meu jipão, de pé, escrutinando a estrada. Quando chegamos em frente ao sitio do fornilho, desci, fui ver o mesmo e estava como quando o havia deixado. Segui a pé e olhando para junto ao pontão, um pouco mais à frente, a terra estava mexida e com uma pequena nuvem de vapor de água. Alto para todas a viaturas, e toca a fazer a segurança nas bermas da estrada.

Desloquei-me ao local e com a minha faca de mato, comecei a retirar muito devagar a terra e lá apareceu a mina nti-carro. Voltei junto do alferes Cardoso Pires
- Pires,  é uma mina!

- Marinho,  e agora?

- Agora, o Condez (furriel miliciano) que estenda para mais largo a segurança e eu vou levantá-la, para não fazer barulho.

Peguei na corda, com cerca de 8 metros, que trazia sempre no jipão e voltei para a mina. Alguns soldados queriam ir para junto de mim, mas eu não deixei,

Continuei, a retirar a terra de cima e dos lados para ver se estava armadilhada, mas não estava. Atei-a no puxador , estendi-a, puxando de esticão, retirei a mina.

Esperei 5 minutos,  e rodando o prato no sentido contrário do relógio, retirei o detonador, e a mina ficou desactivada. Tapei o buraco com a terra e as viaturas passaram junto dele, para que, se viessem ver, os rodados estavam fora do local da mina e eles não mexeriam na terra, esperando que alguém passassem por cima.

Seguimos para Bafatá e tratamos de tudo, regressando cerca das 13.30 horas. Chegamos entretanto à entrada da tal reta - Saliquinhé, Com os meus soldados subi a encosta, para vigiar, continuando a coluna na referida reta, mas,  na subida da encosta, começou o tiroteiro. Com um tiro furaram a coxa a um soldado. Eram 14.30 e a emboscada durou até ás 18 horas.

Mais tarde, contarei as peripécias dessa emboscada

Como montava armadilhas, resolvi fazer uma que tivesse um poder de destruição enorme

Assim, numa mala de cartão castanha, preparei a armadilha. Utilizei trotil e C4, corpos de granadas desactivadas e serrados, pregos (galeotas), bocados de panelas de ferro fundido e parafusos. Arranjei na Mecânica uma mola e esferas de rolamentos.

Alcído Marinho, foto atual... Um dos nossos
"veteraníssimos"...Um, camarada que tem muitas
histórias por contar...
Na mala enchi com o C4, fiz um buraco onde coloquei a esfera de metal e a mola ficou em obliquo. No aro no fundo da mola atei um terminal do detonador eléctrico, o outro terminal liguei-o ao terminal duma canoa de pilhas de um rádio.

O outro terminal da canoa ficou com a ponta no meio da circunferência no fundo da mola. Assim, se mala se mantivesse direita e ao alto nada acontecia, no entanto de a virassem, a esfera saia do buraco, entrava na mola e nada a parava, indo embater com o outro terminal completando a explosão.

Fechei a mala com a chave e levei-a para a berma da estrada no cimo da encosta, para Saliquinhé, onde a deixei como se alguém se tivesse esquecido dela.

Ficamos internados no mato à espera. Cerca da 11 horas apareceu um grupo de turras,  passaram junto ao fornilho e um viu a mala, tentou abri-la, mas o comandante, um cabo-verdiano, disse-lhe qualquer coisa e começaram a descer rapidamente a encosta, verificando o local da mina, seguindo pela reta, e chegando ao fim, começaram a subir para Sucuta e Sinchã Jobel.

Ficamos a ver o grupo, e o transportador da mala, com ela na mão, dançava, e eu pedia a todos os deuses para que ele não virasse a mala, para não explodir.

Já era quase meio dia e nós olhavamos na direção de Sinchã Jobel, à espera da explosão.

Então ouvimos distintamente uma grande explosão seguida de outras, que duraram mais de um quarto de hora, seguramente.

Voltamos, então, para o quartel, e foi um falatório, contando por todos, para o Alferes, outros furrieis e os outros camaradas que não tinham visto o fumo, mas tinham ouvido as explosões

No dia 26 vieram de Bafatá, outras forças e fizemos uma batida mas não chegamos a Sinchã Jobel, no entanto, apanhamos diverso material e detivemos vários guerrilheiros que, reportaram no Batalhão, que a tabanca havia sido totalmente destruida, com dezenas de mortos.

Explicaram que o portador "da carta a Garcia",  isto é a armadilha, havia sido levada para a morança  do paiol e,  ao tentarem abri-la, ela explodiu, e por simpatia todas as munições. Por isso nós ouvíamos explosões e tiros, eram as munições e os sobreviventes a fazer fogo, pois pensavam que estavam a ser atacados

Assim, foi destruida a tabanca de Sinchã Jobel

Alcidio Marinho 
CCaç 412

Cumprimentos

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Guiné 63/74 - P15191: Parabéns a você (968): Carlos Alberto Prata, Coronel Inf Ref (Guiné, 1973/74) e Hélder Valério Sousa, ex- Fur Mil TRMS do STM/CTIG (Guiné, 1970/72)


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Nota do editor

Último poste da série de 29 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15172: Parabéns a você (967): António Bastos, ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953 (Guiné, 1964/66)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15190: História de vida (40): Casei-me, em 31/7/1966, nove meses depois do regresso da guerra; quinze dias depois, embarquei no paquete Império, a caminho de Angola onde trabalhei como professor primário e quadro bancário (José Augusto Miranda Ribeiro, ex-fur mil, CART 566, 1963/65)





Cerimónia de casamento , em 31 de julho de 1965, do José Augusto e da Adriana...

Fotos: © José Augusto Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: LG]


1. Texto enviado hoje, às 0h14 pelo José Augusto Miranda Ribeiro (ex-fur mil da CART 566, Ilha do Sal - Cabo Verde, Outubro de 1963 a Julho de 1964, e Olossato - Guiné, Julho de 1964 a Outubro de 1965; professor do ensino básico, reformado, que vive em Condeixa):

Camarada amigo, Luís Graça:

Regressei da Guiné no dia 1 de novembro de 1965 e fui colocado como professor na Escola do Magistério de Coimbra. 

Casei-me nove meses depois, do regresso da Guiné, no dia 31 de Julho de 1966 (*). 

Partimos para Angola 15 dias depois do casamento, no Paquete Império e fui trabalhar como professor em Sá da Bandeira, onde nasceu o meu filho João, que tem agora 48 anos, casado há já 20 anos, mas não tem descendentes.

Em 1968, saí de Sá da Bandeira e fui para Luanda, a 1100 Km,  trabalhar no Banco de Angola, para dar oportunidade à minha mulher de ntirar o curso do Magistério. Teve a nota de 17 valores, que nunca ninguém ultrapassou. 

Regressei de Angola em 1975 e voltei a trabalhar como professor em Condeixa, até à aposentação em 1999. 

Em Luanda nasceu a filha Helga que tem agora 43 anos e 3 filhas. A Carolina tem 17 anos e está no 12º ano e pretende ser arquiteta, a Matilde tem 13 anos e frequenta o 8º ano e, por fim a Filipa faz dois anos no próximo domingo. Sou um "avô babado"  e, com muito gosto, sou também o taxista delas todas, e da avó Adriana,  que nunca teve nenhum acidente, mas deixou de conduzir desde que lhe foi aplicada, há 4 anos, uma prótese, na anca direita. 

Desculpa, Luís Graça,  ter roubado o teu tempo a ler parte da "história da minha vida". (**)

Um abraço. José Augusto Miranda Ribeiro

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Notas de leitura:

(*) Vd. poste de 2 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15188: Inquérito "on line" (1): "Camarada, casaste antes, durante ou depois da guerra ?"... Respostas aceitam-se, até ao dia 7, 4ª feira, às 12h30

(...) Também podem contar histórias do vosso casamento e mandar fotos... Referimo-nos, naturalmente ao primeiro, que é o que tem graça, o casamento antes, durante ou depois da Guiné... 

A pouco e pouco vamos conhecendo melhor o perfil sociodemográfico do "camarada da Guiné"... que hoje tende a ser, tipicamente, um avô e até bisavô babado. (...)


(**) Último poste da série > 24 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15152: História de vida (39): Voltar finalmente, não mais rico mas diferente (Juvenal Amado)

Guiné 63/74 - P15189: Notas de leitura (762): “Morto em Combate”, de António Silveira, publicado na Caminho Policial, Editorial Caminho, 1990 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Novembro de 2014:

Queridos amigos,
Afinal, aquele morto em combate, que até merecia ser medalhado, foi vilmente abatido pelas costas, executado por um capitão com a consciência embotada. Releva a figura suprema da obra, o alferes Sobral, detetive, bravo contra-guerrilheiro e justiceiro.
Trata-se de um livro policial, o único que eu conheço, sobre a temática da guerra colonial. Tem um momento alto, a operação em que se realizará um ajuste de contas, preparado metodicamente a frio por Sobral. Fala-se na picada Zemba-Santa Eulália. E Calunga Samba. Estamos na terra dos Dengos.
A Casa da Mariquinhas acompanha o romance do principio ao fim, obsidiante.
Não sendo extraordinário, nem coisa parecida, é uma agradável surpresa, não vos posso esconder.

Um abraço do
Mário


Morto em combate: a literatura policial e a guerra colonial

Beja Santos

Tanto quanto me é dado saber, é a única incursão da literatura policial no contexto da guerra colonial. “Morto em Combate”, de António Silveira foi publicado na Caminho Policial, Editorial Caminho, 1990. Escreve-se na contracapa: “Único prémio literário do género em língua portuguesa, o já consagrado Prémio Caminho de Literatura Policial é atribuído de dois em dois anos é um livro inédito. Por vezes, o júri, pela qualidade da obra, recomenda outro livro para publicação. Foi o caso, com toda a justiça, de Morto em Combate. Com ele, António Silveira dá um contributo importante não só para o romance policial português mas também para a literatura tem como pano de fundo a guerra colonial. É doloroso, mas necessário, acrescentar que, quando o júri se reuniu e recomendou esta obra, António Silveira, vítima de acidente de viação, se encontrava em estado de coma. Não chegou a saber que o seu livro, o seu primeiro livro iria ser publicado”.

Estamos na terra dos Dembos, em 1970. O Capitão Miliciano João Soares, da CCAÇ 2509, andava na mata com dois pelotões. Pela primeira vez, ouvem-se versos do fado A casa da Mariquinhas, na sede da unidade, será uma constante de toda a obra. O operador de rádio comunica que a força está a ser atacada e há mortos, os oficiais vão aparecendo. A força atacada entretanto regressa. “As circunstâncias em que ocorreu o ataque eram simples. De volta da antiga Fazenda de Pedro Afonso um tiro de pistola acertara no Segundo-Sargento Simão, o quinto ou sexto da fila. O tiro atingiu a base da coluna vertebral. Na região dos tomates para ser mais exato. No dizer do Capitão Miliciano João Soares a bala de 9mm destroçara os ossos da coluna e da bacia. E isso o capitão devia saber, pois intercalava períodos de estudo de medicina com outros de serviço na tropa, em períodos de crise financeira mais aguda”. O autor vai-nos apresentando os diferentes alferes desta CCAÇ 2509. O capitão quer celeridade no processo do Simão, considera que o segundo sargento deve ter uma medalha a título póstumo. Vê-se que António Silveira não era grande apreciador dos oficiais superiores: “O tenente-coronel era um homem boçal, de óculos, com o cabelo à escovinha já todo grisalho”. E descreve a mesa dos oficiais, mesa única, comprida, com o comandante do batalhão à cabeceira: “De cada lado ficava o major, o de operações à esquerda, o segundo-comandante à direita, depois dois capitães, o da CCS e o da companhia de caçadores. O comandante da CCS era um capitão oriundo da classe de sargentos, a sua preocupação enquanto a reforma não chegasse era aumentar a sua coleção de selos e construir engenhocas eletrónicas. Logo a seguir vinha o tenente Portela da secretaria de batalhão, também do serviço geral, magro, quase esquelético, homem com uma certa cultura. Seguiam-se os alferes da CCS: Salgado das Transmissões, Martins do Material, Sousa da Administração, Coelho dos Sapadores, Faustino do Pelotão de Reconhecimento e de Informações. Medeiros, o padre-capelão, andava em missão de evangelização por algumas das outras companhias, normalmente a que estava numa zona habitada ou mesmo pelos cabarés de Luanda. Na outra cabeceira pontificava o tenente miliciano (ou amador como ele preferia) médico. Magro, brincalhão de resposta fácil. Ladeavam-no os alferes da CCAÇ 2509: Gama, Sobral, Silva e Nunes e o comandante do pelotão de morteiros de 81mm. Albuquerque, com os seus compridos bigodes, que tratava o comando do batalhão e da CCS com uma espécie de altivo distanciamento”.

O Alferes Sobral quer saber mais pormenores do ataque, começa a fazer as suas investigações. O Silva, que ia no patrulhamento onde morreu Simão, dá a sua versão. Sobral apercebe-se que há ali uma história montada, alguém preparou a cilada a Simão, prossegue os seus interrogatórios. Deixa de ter dúvidas, houve um crime. Sobral conversa com o Major Laranjo e o Tenente Portela, dá-lhes conta das suas cogitações:
- "Durante a caminhada para a antiga Fazenda de Pedro Afonso o nosso Capitão Soares escolheu local próprio para efetuar a emboscada que tinha planeado ao sargento. O local foi bem escolhido. A mata é densa. A antiga picada faz uma curva e desce para o ribeiro onde um pseudo-guerrilheiro se pode emboscar desenfiado do fogo das armas de tiro tenso. As outras não são utilizáveis. A companhia passou provavelmente as duas noites junto das ruínas da fazenda. Na manhã do terceiro dia regressaram pelo mesmo caminho. O risco nem era grande, de facto, a zona não é habitada, só sítio de passagem. Ao chegar ao local previamente escolhido o capitão fez a encenação de coxear. Passou o Cabo Rui para a frente e ele pôs-se atrás. O facto de ser o segundo permitiu que o cabo se distanciasse o suficiente para se emboscar e fazer o papel de atacante. Foi para isso que o básico serviu, para fazer de cortina para o resto da companhia. Assim um básico assustado seguia o vulto do seu capitão, para os lados não devia ver mais que uma mancha verde indistinta. Mas entre eles e o pelotão, à cautela, ainda estava o condutor. Também era para isso que ele lá estava”.

Sobral procura descobrir o motivo. Simão andava a fazer a conferência do armamento pouco antes de “morrer em combate”. Far-se-á uma nova conferência, tinham desaparecido armas, para Sobral é inequívoco que o capitão fizera a venda daquele armamento a fazendeiros para pagar dívidas dos bródios em Luanda. E como sabia que eram a fazendeiros? É Sobral quem responde: “Vê-se pelas armas em falta. Mauser para a caça. Walter para defesa pessoal, FBPs para terem nas fazendas. Nada de G3 para a guerra a sério. O Simão deve ter-se posto a fancos. O capitão contou-lhe umas histórias quaisquer, mais já não serviam. O Simão devia andar a chateá-lo para resolver a situação”.

A trama desenvolve-se. O Major Laranjo é colocado em Luanda. O capitão apercebe-se das diligências de Sobral, prepara-lhe também uma cilada. E vamos ter uma operação que é o ponto alto da obra, Sobral prepara os seus homens, previne-os de como é que o capitão irá procurar agir. Na sede do batalhão, em Zemba, ficam dois grupos de oficiais divididos: os oficiais superiores, que esperam que Soares limpe o sarampo a Sobral, e o grosso de oficiais milicianos, conhecedor da manobra que Sobral gizara para neutralizar Soares e os seus homens. E aqui o policial torna-se num policial de ação, é a vez do feitiço se voltar contra o feiticeiro, no Batalhão 3033 aguardam-se notícias no decorrer da operação. Feita justiça entre militares, começa a guerra a sério, com gente da UPA e do MPLA, Sobral dá provas de liderança e de bravura no combate. E tal como Soares fizera, dá uma versão dos acontecimentos irrebatível. Ficaram para trás os momentos de equívoco que se estabelecera em Zemba para saber qual tinha sido o oficial que morrera em combate. Como um justiceiro, Sobral põe condições aos oficiais superiores para a natureza do seu relatório: “Os senhores podem arquivar o relatório, esquecê-lo, não tocar mais no assunto. Pretendo apenas que o Sargento Simão fique ilibado de qualquer responsabilidade pela falta do material. Quanto à sua morte, nada podemos fazer para julgar os culpados, fica arrumado por natureza”. E tudo isto se passa sob a zoada da voz de Amália que vem dum rádio transistorizado:  
“… Pois dar de beber à dor é o melhor 
Já dizia a Mariquinhas…”.
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Nota do editor

Último poste da série de 28 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15167: Notas de leitura (761): “Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-Verde”, de André Álvares d’Almada (1594) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P15188: Inquérito "on line" (1): "Camarada, casaste antes, durante ou depois da guerra ?"... Respostas aceitam-se, até ao dia 7, 4ª feira, às 12h30



Lourinhã > Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira > 14 de dezembro de 2014 > ADL - Associação para o Desenvolvimento da Lourinhã > Exposição de fotografias antigas > Escola primária da década de 1960 > Mapa de Portugal Insular e Ultramarino > Detalhe: Guiné

Foto (e legenda): © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados-


A. Mensagem enviada ontem ao pessoal da Tabanca Grande,  especialmente dirigida aos "camaradas da Guiné":

Está em marcha mais uma "sondagem", ou melhor, "inquérito on line" (ou em linha, ou seja, com resposta direta no blogue, no canto superior esquerdo). Tecnicamente, só é possível fazer uma pergunta de cada vez...

A votação termina 4ª feira, dia 7, por volta do meio dia...

O que os editores desta vez querem saber é quando é que a rapaziada se casou: se foi antes, durante ou depois da Guiné...

Temos ideia que soldados e cabos se casavam mais cedo do que os sargentos e oficiais milicianos... Alguns já iam casados para a Guiné, e até com filhos, ou esperando filhos... Um ou outro de nós casou-se durante as férias... Ou até por procuração... Alguns,  felizardos,  tiveram a esposa na Guiné, uma parte do tempo ou até durante toda ou quase toda a comissão... Mas a maior parte casou-se depois do regresso a casa, logo nesse ano ou no ano a seguir, até cinco anos depois... Um ou outro foi mais retardatário, casando-se já próximo dos 30 ou até mesmo trintão... 

 De facto, quase todos nós entrámos no mercado de trabalho, depois do regresso da guerra, muitos já trabalhavam, alguns de tenra idade... Uma parte de nós continuou os seus estudos, ou emigrou, tendo casado mais tarde... E alguns provavelmente terão ficado solteiros...

A resposta que se quer é simples, factual e... anónima. Ninguém fica a saber quem se casou aos 18, aos 20, aos 25, aos 30... E até quem não se casou...

 Vamos a isso ? Também podem contar histórias do vosso casamento e mandar fotos...  Referimo-nos, naturalmente ao primeiro, que é o que tem graça, o casamento antes, durante ou depois da Guiné... 

A pouco e pouco vamos conhecendo melhor o perfil sociodemográfico do "camarada da Guiné"... que  hoje tende a ser, tipicamente, um avô e até bisavô babado...

 Segundo a Pordata, da Fundação Manuel dos Santos, há diferenças de mais de cinco anos na idade média ao primeiro casamento, quando se compara o já longínquo ano de 1960 (26,9 anos de idade, em média, para o sexo masculino) com os nossos dias (32,1 anos de idade, em média, para os rapazes)...

Grosso modo, a malta hoje casa-se muito mais tarde, quando se casa... tanto rapazes como raparigas (estas, aos 24,8 anos de idade, em média, em 1960; e aos 30,6 anos de idade, em média, em 2014)... A vida e as condições de vida mudaram muito: veja-se, por exemplo, a esperança média de vida, ao nascer: era de 60,7 anos para os rapazes, e 66,4 para as raparigas em 1960; aumentou significativamente, sendo em 2013 de 77,2 e 83,0, respetivamente.

Obrigado a todos, em meu nome e dos demais editores. Esforcem-se por serem felizes, que bem o merecem.

Luís Graça


B. Resultados preliminares (com um total de votos de 62 à 1h00 de hoje):


1. Já era casado, quando fui para a tropa > 8 (12%)


2. Casei-me durante a tropa, antes de ir para a Guiné > 3 (4%)


3. Casei-me na Guiné, por procuração > 0 (0%)

4. Casei-me durante a comissão, quando fui de férias à metrópole > 1 (1%)

5. Casei-me logo depois de vir da Guiné, nesse ano ou ano a seguir > 32 (51%)

6. Casei-me só mais tarde, dois a cinco anos depois de vir da Guiné > 15 (25%)

7. Casei-me muito mais tarde (mais de cinco depois) > 1 (1%)

8. Nunca me cheguei a casar > 1 (1%




Votos apurados: 62 [até às 1h de 2/10/2015]
Dias que restam para votar: 5 [até dia 7, 4ª feira, às 12h30]

Guiné 63/74 - P15187: Álbum fotográfico de Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70) - Parte XIV: As cheias de Bambadinca na época das chuvas


Foto nº 1


Foto nº 2



Foto nº 2 A


Foto nº 2 B


Foto nº 3

Foto nº 3 A

Foto nº 3 B


Foto nº 4


Foto nº 4 A

Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > Época das chuvas > c. 1968/69 > Pel Rec Daimler 2046 (1968/1970) > Pequenas inundações na zona ribeirinha da povoação.


Fotos: © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: LG]


1. Continuação da publicação do álbum fotográficos do Jaime Machado, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968 / fevereiro de 1970, ao tempo dos BART 1904 e BCAÇ 2852) (*).

[foto atual à esquerda; o Jaime Machado reside em Senhora da Hora, Matosinhos; mantém com a Guiné-Bissau uma forte relação afetiva e de solidariedade, através do Lions Clube; voltou à Guine-Bissau em 2010]


A ordem de publicação não é a da sequência cronológica, mas sim a do conteúdo: são imagens (de "slides" digitalizados) que nos chegaram, sem legenda... Estas imagens são da época das chuvas (1968 ou 1969), sendo provavelmente da mesma altura em que foram tiradas as fotos do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), contemporâneo do Jaime Machado.

Vemos uma coluna logística, a chegar a Bambadinca (foto nº 2), vindo muito provavelmente de Bafatá. Na coluna é visível a presença de uma viatura Daimler (fotos nº1 e 2). A coluna estava atravessar a baixa ribeirinha de Bambadinca. É possível que sejam fotos diferentes, porque numas o fotógrafo vem, numa viatura, no sentido ascendente (fotos nºs 1, 2 e 4) e noutras no sentido descendente (foto nº 3).

Nalgumas fotos é visível um dos ícones de Bambadinca, a fonte, cuja contrução era de 1948.

Talvez o fotógrafo depois nos possa ajudar a legendar melhor estas magníficas imagens. No tempo das chuvas, recordo-me que era habitual haver pequenas inundações na zona fluvial de Bambadinca. O rio Geba Estreito transbordava. Por outro lado, o quartel e o posto administrativo (cujo acesso se fazia por uma rampa relativamente íngreme, visível  na foto nº 2) ficavam num pequeno morro ou planalto, rodeado de bolanhas... Na época das chuvas, era mais fácil a acumulação de água nas zonas baixas, e nomeadamente na margem esquerda do rio. Havia sempre pequenas inundações na zona ribeirinha, afetando algumas moranças e casas de comércio. No entanto, não impedia o trânsito de viaturas.

A chegada das chuvas, por volta de meados de maio, era sempre uma festa para pequenos e graúdos. Ia até meados de novembro. Os meses de maior pluviosidade eram o julho e o agosto. Aumentava também, nesta época, o risco de paludismo.

2. Esclarecimento do Jaime Machado, em 2/10/2015, 14h34

 Caro Luis


Estas fotos foram todas tiradas em setembro de 1969,  em plena época das chuvas.

Regressavamos de uma coluna a Bafatá.
Reconheço-me de costas nas fotos 2 e 2A com boina castanha e sentado numa Daimler.

A loja dp Zé Maria era à esquerda na direcção do quartel mais ou menos a meio da reta, a do Rendeiro era à direita de facto [entre a fonte a rampa de acesso ao qrartel].

Abraço

«Jaime

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15186: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XV Parte): ME-14-04; Partir mantenhas; Buba, outra vez e Vamos ser independentes

1. Parte XV de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 30 de Setembro de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XV

ME-14-04

Um ano e pouco depois da formação dos grupos, a sangria continuava, uns incapacitados e outros a acabarem as comissões. 
Dos 4 grupos iniciais ficaram dois, os que tinham alferes, os Diabólicos e os Vampiros. Os que sobraram dos Apaches e dos Centuriões foram repartidos pelos outros dois grupos. 
Dos outros dois chefes de grupo, um seguiu o seu caminho, psiquiatria primeiro, baixa a librium e triptyzol, às vezes com água, outras vezes não, até que teimou em pedir alta. Foi convalescer para Guilege, na altura um dos sítios mais aquecidos da Guiné. O camarada de Brá acompanhou-o a Bissalanca, beberam uma água no bar do aeroporto à espera do embarque no Dornier. Amigos e companheiros de quarto durante meses despediram-se, sem palavras, com um abraço. 
Quando lá chegares diz qualquer coisa! 
Dois ou três dias depois dizia-se em Brá que tinha sido bem recebido pela NT e pelo IN também, que logo na noite da chegada não quis faltar, convidando-o a assistir e a participar na festa, metido nos buracos até acabarem as comemorações. 
Continuava assim o seu percurso, só lhe faltava mudar o líquido, o que parece não ter demorado muito. 
A permanência dele por lá não foi fácil, como se calculava. E quando a comissão foi dada por terminada, no aeroporto em Bissalanca não era capaz de falar, só abanava a cabeça, a chamada para o embarque na TAP, o abraço do camarada e amigo, lá ia ele sem o saco de viagem. E quando subia as escadas para o avião, parece que não queria deixar aquela terra, escorregou, ainda desceu um ou dois degraus desamparado, a amarrar-se a um dos corrimões, a hospedeira a tentar dar-lhe a mão, o camarada a respirar melhor quando a porta do avião se fechou. O outro alferes adoeceu quase logo no início da actividade operacional do grupo, ficou de baixa, embora se ocupasse na instrução física, em que era bastante competente. O sargento Mário Dias chefiou o grupo até chegar a vez dele acabar a comissão e os Apaches mantiveram um desempenho excelente. 

O capitão continuava a sua saga, endireitá-los a qualquer custo. Assim não estranhava que não estivesse nada satisfeito, mas mesmo nada, com a comunicação que a PM lhe tinha apresentado naquela manhã. Um jipe dos comandos com seis gajos dentro, a entrar por um campo de mancarra, junto ao hospital? Que é isto? Estas brincadeiras ainda não acabaram? Não quero mais histórias destas aqui! 
Estendeu-lhe a participação da PM assinada pelo comandante, Capitão Matos Guerra. Trate de averiguar o que se passou. 
Mudando de assunto, amanhã tenho tarefa para si. Vai levar a Nhacra o 1.º Cabo Pinto. 
Quem, meu capitão? 
A D. Cecília Supico Pinto do M. N. F., parece que agora quer que que lhe chamem 1.º Cabo Pinto e vem com a D. Renata, também da organização. 
O que vai fazer? Vai escoltá-las até Nhacra, deixá-las lá. Amanhã passam cá a manhã, mostramos-lhes as instalações, almoçam connosco, pega no seu grupo e leva-as a Nhacra. Depois regressa. 
Foi mesmo assim, no dia seguinte entre duas Mercedes, o 14-04, já recomposto, foi entregar as senhoras ao pessoal de Nhacra.

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Partir mantenhas1

Temos aqui um guia apanhado aos terroristas e outro daqui, um caçador nativo, bom conhecedor da região e homem da nossa confiança, o tenente-coronel de óculos chegados à ponta do nariz, cócegas no mapa com o pingalim. 

Deixaram Aldeia Formosa pelas 15 horas daquela tarde, dois grupos de combate de uma companhia de caçadores atrás, mais um pelotão de milícias, uma Fox à frente, outra a fechar a coluna. 
Estava prevista a chegada à base de ligação, Saala Delta, pelas 18h30, deixar aí o apoio, e começar a progressão rumo ao objectivo, que deveria ser alcançado ao alvorecer. Segundo a ordem de operações, os grupos de combate da companhia de apoio deveriam estacionar, emboscados na estrada, frente a Nhantafará. 
Paragens, algumas demoradas, devidas a problemas com uma das viaturas e alguns atascamentos atrasaram a caminhada. Saala Delta só foi atingida pelas duas da madrugada. 
Pararam, chamaram o intérprete, falaram com um guia, depois com o outro. O guia IN dizia não conhecer a estrada, o caçador que estávamos mesmo, mesmo, em Saala Delta, um soldado das milícias que já passou, que talvez seja para trás. Melhor esperar pelo acordar do dia, progredir depois. 
Por volta das cinco, o grupo reiniciou a progressão, companhia para trás, emboscada. A certa altura, de um momento para o outro, o tal guia apanhado aos terroristas ajoelhou-se e não quis continuar. Bem se insistiu, tentou saber-se o que se passava, nada. Embora tivessem perdido tempo a tentar resolver o assunto não ficaram com dúvidas que estavam no rumo certo, que o objectivo estava próximo. Prosseguiram com cautelas redobradas até que avistaram, recortadas na neblina, duas ou três barracas. 
Duas equipas destacaram-se com o guia, o tal caçador da inteira confiança do comandante do batalhão. Enquanto os dez homens procuravam dispor-se em linha, com os olhos no acampamento, deixaram de prestar atenção ao caçador. E quando o soldado guineense que o acompanhava se lembrou dele ainda o viram, mas a desaparecer entre as casas de mato.

Na mesma altura, como se estivesse tudo combinado, aparece o PCV2 às voltas em cima deles, a solicitar indicação de posição.
Uma rajada foi disparada sobre os intrusos. Ataque imediato à tabanca mesmo em frente, alguns guerrilheiros com armas nas mãos e população a correrem, cada um para seu lado, todos misturados, mulheres e crianças aos gritos.
Os atacantes a recolherem as crianças, as mães, os anciãos e o IN a esgueirar-se de qualquer maneira, a disparar sobre aquela gente toda, sem contemplações.
Nada mais havia a fazer, só tirar dali as pessoas e procurar abrigo. A pouco mais de cem metros, foram disparados roquetes para a zona do abarracamento. E pelo mesmo caminho, com os civis à frente, dirigiram-se ao reencontro da companhia de apoio. Uns quilómetros depois ainda se ouviram alguns rebentamentos, vindos da mata do acampamento que tinham deixado a arder.

Quatro mulheres, 6 crianças, 3 velhos, uma pistola Seska, cinco calças de caqui, duas camisas, um par de polainitos, três barretes, seis bornais, três almotolias de óleo, três centenas de cartuchos de calibres diversos, caixas de fósforos do Ghana, suspensórios, recipientes de material de limpeza, portas-cartucheiras Simonov, calças civis, prospectos "Faúlha", documentos em marabú, uma revista francesa sobre África, quatro exemplares de "O nosso primeiro livro de leitura", cadernos escolares de Augusto Sanco, exemplares de jornais "Libertação", foi tudo, meu tenente-coronel.

Uma aselhice que, afinal, acabou por trazer algum benefício ao batalhão. Sem que ninguém se apercebesse, as duas equipas a organizarem-se para o ataque, e o guia de toda a confiança do tenente-coronel a ir “partir mantenhas” com os parentes que tinha no acampamento do PAIGC. 
Alguém do batalhão disse mais tarde que o comandante tinha recebido a informação que o guia morrera durante a fuga, nas proximidades do acampamento. 
A Fox à frente, luzes no máximo, os picadores a pé a abrirem caminho à coluna, o regresso interminável a Buba, os olhos a fecharem-se-lhes de cansaço e sono, uma sensação de frustração que nem visto. 
Depois, no cais, em Buba, continuaram a dormitar, à espera da lancha para Bolama. 
Chegaram já quase à noite, àquela cidade do passado. Parada nos tempos, mesmo assim uma beleza. 

Bolama, Hotel Turismo. Imagem do blogue de Luís Graça e Camaradas da Guiné. A devida vénia.
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Notas
1 - Cumprimentar
2 - Posto de Comando Volante, ou PCA, Posto Comando Aéreo, normalmente em Dornier

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Buba, outra vez3

“Reconhecimentos aéreos confirmam a existência de uma base IN junto ao pontão de Buba Tombó. Na última operação ali efectuada, as NT foram emboscadas por um grupo calculado em cerca de 100 elementos. Na mesma acção foram levantadas 2 minas a/c e um fornilho na estrada Buba-Buba Tombó. Sabe-se que o mesmo itinerário se encontra minado e que a picada Sare Tuto-Buba Tombó também devia estar minada contra pessoal pois nele já foi accionada uma mina a/p. O acampamento de Buba Tombó serve de ligação entre as bases de Antuane e Injassane para os reabastecimentos IN e corta a estrada em Buba e Fulacunda. Não há guia para o acampamento, apenas guias conhecedores da zona”.

Quinze homens do grupo de comandos saíram de Buba pouco passava das 21h00, iniciando a progressão pela estrada na direcção de Buba Tombó. A cerca de três quilómetros desta tabanca, local indicado por um dos guias da zona, tentaram entrar na mata através de várias pontuadas. Sem sucesso. Visibilidade zero, lua escondida e vegetação densa. Decidiu-se aguardar o amanhecer, entrar na mata e procurar um caminho para o acampamento.
Já com a mata em frente, a estudá-la com os olhos, com uma pequena bolanha a separá-la, surgiu a parelha de T-6. Procurou estabelecer-se a ligação rádio, o que não foi possível. As frequências tinham sido alteradas, sem conhecimento do grupo! Estabelecida uma ligação verificou-se que os indicativos também não estavam certos.
Os T-6 começaram a picar sobre a mata, deviam ter avistado algo com interesse, e o grupo que já se encontrava muito próximo abrigou-se o melhor que pôde. Com as frequências e os indicativos alterados não havia a certeza de quem estava a falar com quem e os pilotos dos T-6 decidiram afastar-se.
O grupo de comandos torneou a bolanha e, não encontrando carreiros de acesso ao acampamento, foi-se internando na mata até avistar um elemento IN que disparou uma longa rajada de PPSH, atingindo um milícia, conhecedor da zona que os acompanhava, gravemente no ventre. Com os intestinos pendurados, uma equipa ficou a prestar-lhe o socorro possível, enquanto as outras duas se lançaram na direcção do guerrilheiro. Apareceram as barracas, recolheu-se o material que foi possível transportar, o de menor interesse destruiu-se. O acampamento era constituído por duas casas com 12 camas numa e 8 noutra e defendidas por abrigos cavados no terreno à volta.

Abrigos com disposição idêntica a esta. Foto na net.

Não sendo possível evacuar o ferido no local, foi transportado numa maca improvisada, a corta-mato, enquanto o IN fazia fogo de morteiro e de RPG sobre o acampamento, sem consequências para o grupo, já a retirar pela mata.
Viram os T-6 a sobrevoá-los quando já se encontravam a caminho de Buba.
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Nota
3 - Operação "Olinda", Buba

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Vamos ser independentes 

Naquele fim de tarde, quando, vindo da Amura, descia a rua em direcção à Sé, viu o pai da Teresa, de calção, no pequeno jardim, a tratar da relva e das flores. Aliás, viram-se um ao outro ao mesmo tempo, um a desviar os olhos para o outro lado, para uma montra de uma casa de fotografias, o pai mais demorado, a endireitar-se, sacho na mão, talvez a magicar, se calhar é aquele o tipo que anda atrás da Tesa.

Sé de Bissau

Lá em baixo, acabada a missa da tarde, Teresa, véu dobrado numa mão, braço na mãe, ia começar a subida da rua para casa quando o viu. E agora, perguntou-se ele.

A mãe conhece-te de vista, já te viu da janela mais que uma vez, uma tardinha perguntou-me até se te conhecia. 
Sei lá, mãe, um militar qualquer, como hei-de saber, queres que lhe pergunte o nome, porque está a passar na rua? 
Que atrevida que estás, Tesa, julgas que tenho os olhos fechados? 
E se nós mudássemos a conversa, mãe? 

Uns tempos mais tarde viu-me a falar contigo, junto ao jipe. Quando me viu voltar a correr, fez-se desentendida, desceu para o jardim, para a minha beira, eu calada, com o livro na mão. Desconfiei da chegada tão repentina, fiz de conta que não entendi, falou-me da carta da tia de Santo Antão a dizer que vinha passar um tempo connosco. Fiz-me ausente, desinteressada, ah sim, quando? 
E não me largava, a perguntar-me como iam as aulas. 
Tentei evitar até não poder mais, a mamã não saía dali, sempre com perguntas. 
Sim conheço-o, tem mal, mãe? 
Que não, desde que eu lhe contasse tudo, que tivesse cuidado, que vocês, militares longe das famílias, saudosos das namoradas, estavam aqui de passagem, só queriam divertir-se. 
Um dia que calhe eu apresento-to, está bem mamã? E arrumei os livros e o assunto.

Mais coisa menos coisa, a conversa terá sido assim, contara-lhe ela, dias depois.

Rua de Bissau. © Foto do blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné.

De saída da missa, então, de braço dado com a mãe, mudou de passeio e subiam a rua, ele a olhar para o chão, como quem não quer a coisa, até ficarem frente a frente.
A mãe Benilde, um amigo, as mãos estendidas.

A mamã gostou de te conhecer, acha-te simpático, é verdade! Que pareces atinado.
É, depende dos dias e dos momentos, também acho, agora simpático, como as aparências enganam, se ela te conhecesse melhor! Mas gosto de estar contigo, embora haja coisas que nos separam.
O quê? Esta guerra! Nem entendo porque te envolves assim tanto. Porquê?
Porque sou soldado!

Na guerra mostramos quem somos. Em combate não há capitães, sargentos ou alferes, somos todos soldados. Soldados com as caras sujas, olhos muito abertos, o crepitar das metralhadoras, balas a riscarem a noite, rebentamentos surdos dos morteiros, ouvidos a zunirem, pó a cair com folhas de árvores, gritos, sangue nas fardas rasgadas, nó na garganta, a sensação de não estar nem vivo nem morto, confusão, o silêncio, os soldados e as fardas lavadas, os emblemas a brilharem ao sol, os tambores a rufarem, o clarim a tocar aos mortos, o frio pela espinha, os jipes, os camiões, as lagartas dos carros de assalto, o barulho dos helis.

Não sei, Teresa, sei lá!
Não sentes uma ponta de remorso pelo que andais a fazer? Custa-te a entender a luta deste povo? Nem sequer te interessa o assunto!

Claro que estamos a fazer tropelias, não o devíamos fazer, não é para isso que estamos aqui. Ficamos fora de controlo, às vezes. Lutamos pelo gosto da luta. Gostamos disto, desta adrenalina. Mas odeio a guerra, esta ou qualquer outra. Não quero morrer, nem quero que os outros morram. Mas, por mim, não a vamos perder. 

Não respondes?
Um assunto muito pessoal, só teu? Para outras conversas és íntimo comigo, porque é que esta é diferente, tens outras vidas de que não queres falar comigo?
Obrigo-te a estar aqui?
Quando vai ser, não sei. Já estivemos mais longe. Eu era menina, andava para aí no 3.º ano, quando tudo começou a sério. Até 63, tirando o caso do Pijiguiti4, ao que ouvi dizer, era só conversa. Nem me lembro de alguma vez ter ouvido falar em independência.
Depois a história passou a escrever-se de outra forma. Foi pena, mas para trás tem sido sempre assim, não se consegue quase nada a bem, é pena, mas é assim. Já pensaste no que farias se fosses guineense ou cabo-verdiano? Alistavas-te no partido ou no colonialismo?
Olha, não vai ser já já, vai demorar ainda uns anos, mas tenho a certeza que a nossa bandeira vai subir no mastro do palácio, lá em cima na praça, e eu vou estar no meio do povo, a vê-la ao vento. Podes crer! As minhas aulas vão andando, obrigada!

O barulho dos ramos das árvores e um mocho ou uma coruja lá para trás, dos lados do cemitério, os dois sentados na espreguiçadeira que mal dava para um.
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Nota
4 - Manifestação de trabalhadores do porto de Bissau em 3 Agosto de 1959. A repressão causou mais de 50 vítimas segundo o PAIGC e 16 segundo as autoridades de então.

(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior da série de 24 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15149: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XIV Parte): Fuzileiros, Páras e Felupes; O que se terá passado em Catió; Casamento com data marcada e Ponto da situação em Brá

Guiné 63/73 - P15185: O nosso querido mês de férias (13): Os soldados não se podiam dar o luxo de ter férias (José Manuel Cancela, ex-sold ap metr, CCAÇ 2382, 1968/70) / Proporcionei a alguns soldados do meu grupo de combate umas modestas férias em Bolama (António Murta, ex-alf mil inf., 2.ª CCAÇ / BCAÇ 4513, 1973/74)

A. Comentários ao poste P15182 (*), a propósito do nosso inquérito sobre as férias na metrópole:


(i) José Manuel [Moreira] Cancela [, foto à esquerda, ex-Soldado Apontador de Metralhadora da CCAÇ 2382, BulaBuba, Aldeia Formosa, Contabane, Mampatá e Chamarra, 1968/70]
Amigo Luis:

Admiro-me, que fiques admirado pelo facto de, na resposta ao inqérito,  só um em cada cinco não terem tido férias (*). 

Sabes quanto ganhava um soldado? No meu e no teu tempo,  cerca de quatrocentos e cinquenta escudos. 

A viagem de avião custava entre 4 a 5 contos. Era esta a principal causa de não haver férias para uma grande parte, como foi o meu caso. Ainda tentei fazer férias em Bissau, mas na secretaria só davam férias a quem vinha cá, à metrópole...

Vou ficar por aqui, para não dizer tudo o que penso...

Um abração para ti. Muita saúde... E sobretudo, obrigado...


(ii) António Murta [ex-alf mil inf Minas e Armadilhas, 
2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74)] [, foto à direita]

Camarada e amigo Luís Graça.

Tem razão o camarada Cancela. Os soldados faziam parte dos contingentes militares em campanha, na minha opinião o elemento mais decisivo, pois os graduados eram uma minoria, e, está bem de ver, a esmagadora maioria deles nunca veio de férias à Metrópole.

Vou repetir um comentário que fiz há dias com o propósito de explicar, até com um exemplo, aquilo que o Zé Manel Cancela acaba agora de afirmar, mas não sei como procedi que o comentário voou. Já não estive para voltar ao princípio.

Para encurtar limito-me ao exemplo:

A determinada altura da minha comissão, o Comando do Batalhão ou Comando da minha Companhia, já não recordo, pediram para que os cmdt de pelotão indicarem  três (ou quatro?) nomes, entre os melhores, para serem contemplados com umas férias em Bolama. Também não recordo se com alguma comparticipação nas despesas. 

Juntei o pessoal do grupo e fez-se o apuramento dos nomes a indicar, por um método que também já não recordo nem vem ao caso. Todos de acordo, desfez-se a “assembleia” e comuniquei os nomes ao capitão. 

Não passou muito tempo até que fosse abordado pelos soldados escolhidos, explicando, consternados, que nenhum tinha meios de fazer aquelas férias. Podia tentar escolher outros, mas nunca o faria, por demais injusto. Com eles tentei orçamentar por alto umas férias modestas em Bolama, de modo a que se encaixasse nas suas possibilidades económicas. 

Negativo. Nada se encaixava. Disse-lhes que lhes daria do meu bolso a quantia a que tínhamos chegado, mas não queria que ficassem sem férias. Com a indicação de que, caso fosse insuficiente, desencadeassem o regresso sem dívidas, de modo a concluir as férias na Unidade. Ficaram contentes e concluíram todo o período de férias.

Não se tirem outras ilações desta inconfidência: só a faço para que se compreenda a verdadeira dificuldade da maioria dos soldados. 

Já não recordo se houve dificuldades semelhantes entre os soldados dos outros grupos de combate mas, quase jurava, não poderiam ser muito diferentes. (**)

Grande abraço a todos,
António Murta.

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Notas do editor:

(*) Vd, poste de 30 de setembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15182: Sondagem: Num total de 198 respostas, só 1 em cada 5 não teve férias... Um terço veio uma vez de férias, a meio da comissão... Outros mais sortudos e felizardos (40%) vieram mais do que uma vez, de férias, à metrópole

(...) Pois o nosso "inquérito de opinião" sobre as férias na metrópole, apontam para resultados que, de certo modo, me surpreenderam, a mim, pessoalmente:

(i) a baixa proporção dos que nem sequer tiveram férias (1 em cada 5);

(ii) a relativamente alta proporção dos que vieram à metrópole duas vezes (38,4%) e até três vezes (3,5%)...

(iii) eu que vim uma vez (tal como um 1/3 dos respondentes) já me considerava um sortudo e um felizardo por ter vindo a casa, a meio da comissão, mesmo não tendo felizes recordações por ali além dessas já longínquas férias... (Em boa verdade, fiz tudo para esquecê-las!). (...)

Guiné 63/74 - P15184: Da Suécia com saudade (51): Mais um detalhe da pequena história do auxílio sueco ao PAIGC: a emissão, ultrassecreta, de 40 mil selos de correio, para comemorar a independência (unilateral) em 24 de setembro de 1973 (José Belo)






Guiné-Bissau > 4 selos dos correios, de 1, 2.5, 5 e 10 pesos, respetivamente, com a efígie de Amílcar Cabral (1924-1973), "fundador da Nacionalidade", comemorativos da proclamação (unilateral) da independência, em 24 de Setembro de 1973, alegadamente na região do Boé.  [Oficialmente, o peso foi a moeda da Guiné-Bissau de 1975 até 1997; e a sua subunidade compreendia 100 centavos; o peso foi depois substituído pelo franco CFA; portanto, o novo país já tinha selos de correio, em pesos, antes de ter moeda; mas a moeda colonial, emitida pelo Banco Nacional Ultramarino continuou a circular até 1976, é uma história ainda mal conhecida...].

Como se conta a seguir, os primeiros selos foram emitidos na Suécia na tipografia dos irmãos Tofter, da cidade de Österväla, na província de Västmanland.  Tratou-se de um emissão (limitada) de 40 mil exemplares...

Para além do valor documental (e, eventualmente, sentimental, icónico, estético), estes selos têm hoje algum valor comercial para os filatelistas...  Já os vi por aí, na Net,  oferecidos a 2,76$ (dólares) (mais 1$ para portes de correio)...

São imagens digitalizadas de originais, não carimbados, da coleção do nosso camarada João Lourenço, da Figueira da Foz, ex-alf mil, comandante do PINT (Pelotão de Intendência) 9288, Cufar, 1973/74) (*)

Fotos: © João Lourenço (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: LG]


1. Mensagem do José Belo:


[ foto atual à esquerda: José Belo, ex-alf mil inf, CCAÇ 2381 (Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70); atualmente é cap inf ref e vive na Suécia há quase 40 anos, e onde constituiu família]

Data: 29 de setembro de 2015 às 18:41
Assunto:  Auxílio sueco ao PAIGC

Camaradas: 

Aí vai mais um detalhe da pequena história do auxílio sueco ao PAIGC [, artigo escrito por Karin Alfredsson; tradução  e adaptação de J. B., que não indica a fonte, mas que nós localizámos: Bygdeband Sveriges].

Para uma detalhada e abrangedora descrição do que foi o auxílio sueco aos movimentos de libertação africana recomenda-se a leitura de dois livros de Tor Sellström :

(i) "A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Mocambique e Guiné-Bissau" [, disponível aqui, em formato pdf]:

(ii)  e o segundo volume "Solidariedade e Assistência entre 1970-1994"  [, disponível aqui, em inglês].

Ambos foram publicados pelo Nordisk Afrikaninstituted, de Uppsala.

Um abraço do José Belo


2. Os selos de correio comemorativos da proclamação [unilateral] da independência da Guiné-Bissau em 1973

por Karin Alfredsson

Ao proclamar a independência da Guiné-Bissau,  o PAIGC necessitava de criar novos selos do correio para o país.

Por razões de segurança a impressão dos mesmos deveria ser secreta até à data da proclamação.

Uma impressora de Nova York tinha-se oferecido para efectuar a encomenda gratuitamente. 

Receando-se que isso viesse a chegar ao conhecimento dos portugueses, foi escolhida a tipografia sueca dos irmãos Tofter, da cidade de Österväla [ hoje com c. 1600 habitantes], na província de Västmanland.

Esta tipografia já tinha anteriormente impresso para o PAIGC numerosos livros escolares e cartazes de propaganda vária.




Foto do secretário geral do PAIGC, Amílcar Cabral (1924-1973), incluída em O Nosso Livro de Leitura da 2ª Classe, editado pelos Serviços de Instrução do PAIGC - Regiões Libertadas da Guiné (sic). Tem o seguinte copyright: © 1970 PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Sede: Bissau (sic)... A primeira edição teve uma tiragem de 25 mil exemplares, tendo sido impressa em Östervåla, Uppsala, Suécia, em 1970, na tipografia dos irmão Tofter [ Tofters / Wretmans Boktryckeri AB]. 


Temos um exenplar deste livro que nos foi gentilmente cedido pelo Paulo Santiago (que vive em Águeda e foi alf mil, comandante do Pel Caç Nat 53, Saltinho , 1970/72).  


Fonte: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007)





O novo Estado deveria ser declarado independente a 21 de Setembro [de 1973], e os selos deveriam estar prontos em Agosto.

Para maior segurança, os modelos dos selos de correio não deveriam ter impressos nem a data nem o seu valor, aparentando deste modo serem simples modelos para futuros cartazes.

A decisão quanto à encomenda só ficou decidida a 16 de Setembro, dispondo a tipografia unicamente de cinco dias para os efectuar e distribuir.

O material chegou à Guiné a tempo [aqui pode-se perguntar..."Qual delas?", Bissau ou Conacry ?(JB)].

No dia marcado para a independência,  as notícias da rádio, TV e jornais foram cuidadosamente seguidas pelos tipógrafos. Nada surgiu durante o dia quanto ao novo país.

Foram então visitados por um representante do PAIGC que os informou ter a data sido adiada. Os portugueses teriam tido conhecimento do local onde a cerimónia iria decorrer e de imediato tinham bombardeado a zona.

A nova data da proclamação seria a 24 de Setembro, sendo agora necessários 40.000 novos selos com a nova data impressa.

Aparentemente tudo acabou por se resolver tendo os selos, mais uma vez, chegado a tempo.

Karin Alfredsson




O "recorte de imprensa" onde é contada esta história da "ultrassecreta" emissão de selos de correio da independência da Guiné-Bissau. Disponível em formatop pdf, aqui [portal Bygdeband Sveriges].
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Notas do editor:

(*) 12 de setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4940: Filatelia(s) (1): Amílcar Cabral (1924-1973), "fundador da nacionalidade" (João Lourenço)

(...) Meu caro Luís Graça: Encontrei, nos meus arquivos do tempo, esta recordação. Nem sei se, para além do valor sentimental, vale alguma coisa. Se entre os nossos bloguistas algum filantelista souber, que o diga... São, ao que julgo, a 1ª edição de selos da Republica da Guiné-Bissau e comprei-os lá.

Um AbraçoJoão Lourenço (...)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Guiné 63/73 - P15183: O nosso querido mês de férias (12): Era para entrar de Licença em Agosto, mas fui vítima de uma injustiça, acabando por a gozar de 22 de Setembro a 26 de Outubro (Mário Vitorino Gaspar)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68) com data de 27 de Setembro de 2015:

Caros Camaradas da Tabanca Grande
O Tema proposto é óptimo. Há muito a dizer.
Era para entrar de Licença em Agosto, mas fui logo vítima de uma injustiça, acabando por gozar a Licença desde 22 de Setembro (sexta-feira) a 26 de Outubro (quinta-feira) – a Licença era de 30 dias, mais 5 dias ao abrigo de…

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Pode ler-se: "Até ao dia 22…" 

"Pouca coisa há que contar disto, embora haja muito que contar. Eu não me sinto em condições propícias para o fazer e nunca me encontrarei. Isto aqui é mau de mais para falarmos”

Viemos de Licença eu e o Furriel Miliciano Manuel Ferreira Jorge. Deslocámo-nos para Bissau de avioneta fretada. Depois de solicitarmos que o piloto desse umas cambalhotas, o que veio a fazer, acabámos por ver guerrilheiros do PAIGC a fugirem quando sobrevoávamos a zona.
Em Bissau ficámos numa Pensão – não recordo o nome, era um casal e a ideia que tenho, visto não conhecer a cidade, situada junto do Posto da PSP. Ficava, julgo que, perto do Café Benfica.
Poucos dias em Bissau, mas histórias não faltaram.
Desde Janeiro de 1967 que não cortava o cabelo. Todas as manhãs íamos ao Café Benfica comer um prego, especialidade da casa. Um Tenente-Coronel assistia ao nosso pequeno-almoço: prego com um pão enorme e cerveja. E o Senhor Oficial olhava muito, nada dizia devido estarmos vestidos à civil.
No dia da véspera do embarque tivemos de vestir a farda. Com um cabelo enorme metido dentro da boina. Quando a tirava da cabeça era o bonito, o cabelo em pé. Pois o Senhor Coronel ao nos ver fardados pergunta:
– Pertencem a que Unidade?
Respondemos, depois de muitas perguntas, inclusive a Companhia e em que zona e local estava, ainda esta:
– Quem é o vosso Comandante de Companhia?
– Capitão Mansilha.
– Conheço bem, quando chegarem de Licença digam que o Coronel f… manda cumprimentos!
Seguimos para o Quartel-General e depois para a Agência de Viagens Sagres. Balcão longo, e no lado direito 3 Capitães. Depois de falarem entre eles, olharam-nos profundamente, e um deles, disse:
– Não sabem cumprimentar os superiores? O Jorge respondeu prontamente:
– Então, bom dia!
Zangados os três, disse o Jorge:
– Estamos em Gadamael Porto, no sul em pleno mato, não em Bissau, e lá o cumprimento militar não existe. Existe o respeito a amizade. No mato não há nada disso.
No dia seguinte seguimos para o aeroporto, e o Boeing 700 e tal tinha sido inaugurado na partida do mesmo para Bissau. No avião tentámos namoriscar as Hospedeiras de Bordo. Quando almoçámos, isto por os pratos serem pequenos exigimos, de brincadeira, pratos para adultos. Curioso que nos foi facultado este atrevido pedido.

Chegados a Lisboa corremos para a saída, lá estavam os três Capitães. Como se estivéssemos numa Operação, sem trocarmos entre nós uma palavra, o Jorge pela direita e eu na esquerda, corremos e empurrámos os tipos, ficámos à frente. O Jorge seguiu para Amadora e eu para Alhandra. Tínhamos combinado encontros em Lisboa.
Sozinho e abandonado na carruagem. Triste e penso, convicto que iria passar os 35 dias, os últimos da minha vida. É difícil viver com a morte a bater à porta, e viver é ignobilmente um sonho. Vivemos nas trevas do nada. Aquela guerra é a guerra deles, embora seja a minha, vivo-a por acreditar na liberdade. Eles lutam por ela, e eu?
Desde o dia em que nasci, a morte sorria. Todos sabemos que a morte é o fim, só desconhecemos quando vai chegar esse fim. Estou enterrado nesse fim misterioso. O problema é que eu penso, se não tivesse esse condão de pensar tão fácil seria a vida. Uma vida sem nada. Mas penso, penso no amor. Se existisse efectivamente amor, problemas não existiam. As guerras com amor nunca existirão. Amor nas guerras? Creio que sim... Mas amor, amor não há guerras.
A minha mãe, que me ama disse que nasci e chorei. Queria viver a rir, não choro… Nem sequer recordo ter chorado. As lágrimas que verti caíram na alma. Sinto-as mergulharem e encharcarem o meu ser. O amor conhece-me, amo… Se não amasse não o conhecia.
E a morte? Pressinto-a do mesmo modo que está junto de mim quando posto perante um engenho explosivo. Aí domino eu, mas olhar para a frente, uma curva. É nessa curva que me encontro. Se a passasse… Mas não sei o que está para lá da curva. Somente vejo a curva, o início dela. Sucede o mesmo quando leio, só até à última letra da página. A página seguinte… É a curva, o virar da página e ler essa página. Viramos uma, outra? Para ganhar algo nesta vida, existirá alguém que fica a perder e se acreditar na verdade, se amar a verdade, amo a vida. Amo a vida, mas do modo como vejo aquilo lá no fundo, quem luta por algo vencerá. Mas acredito que posso ajudar, sendo ajudado. Não acredito naquilo que fizeram de mim.
Cumprirei a missão. Não vou esquecer. Tentarei amar aquilo que sofro. Disse para mim: Goza enquanto é tempo!
E assim iniciei os 35 dias de Licença, certo que iria cumprir.

A alegria da chegada.
Corri para o “cais 14”, e as fragatas imperiais e as bateiras dos pobres avieiros? Os golfinhos aguardavam a minha chegada. Riram e mais parecia me quererem falar. Após o encontro com a mãe e o pai, vieram os irmãos, cunhadas e sobrinhos.
Iria passar o tempo praticamente em Lisboa.
Estava preocupado, os 35 dias tinham de ser gozados e não gastos. Entretanto a minha mãe pede que vá com o meu pai a Casegas, à sua terra, Beira Baixa. Tinha combinado com o Jorge irmos à Feira de Vila Franca de Xira que começava no sábado, dia 30 de Setembro. Teríamos de regressar a 29.
Viajámos num Renault, mas contra a minha vontade. Acabara de sair do mato e ia para o mato.
Meu pai imensamente contente, e aguardava que o meu primo António acordasse, após uma noite de trabalho. Nesse primeiro dia, junto de uma fonte juntavam-se pessoas, umas atrás de outras para encherem as bilhas de água. A terreola é muito pobre.
Espantado ao ver um indivíduo, mais ou menos da minha idade, a apalpar tudo o que havia para apalpar. Acabava de comprar um maço de tabaco e fumava. Depois de o ver apalpar uma mulher – parecia-me que para ele tanto fazia quer fosse solteira, casada, divorciada ou viúva – eu comecei por ficar preocupado. Toda aquela gente que se juntava naquele Largo se calava. Por mero acaso – julgo que foi mesmo um acaso – ele olhou para mim. Mais parecia estar numa operação militar e disse para aquela criatura, que não conhecia:
– Ouve bem o que te digo!...
O indivíduo – pretendendo sorrir – olhou-me bem nos olhos, e deve ter verificado que estava zangado. Com o indicador virado para baixo na direcção da ponte medieval digo em tom agressivo:
– … Só vais parar na ribeira. Corre… Se não correres corro contigo…
Todo aquele pessoal me conhecia, eu ia reconhecendo um ou outro.
Chegou o meu primo António. Ainda não me vira e cumprimentou-me, dizendo em voz alta após saber o que fizera àquela figura da terra:
– Sabem, é o meu primo Mário, somos uns palermas… Foi preciso o meu primo estar aqui para que este imbecil fosse avisado. Coitado, também é uma vítima. Os pais por tanto quererem que estudasse acabou nisto.
Eu e o meu primo – um amante da cerveja – que era igualmente a minha companhia.

O tempo passa. Regressámos. O meu pai para cumprir aquilo que dissera, acelerou, embora a feira fosse no dia seguinte. Feira de Outubro, neste caso iniciada em Setembro.
Encontrei-me com o Jorge que chegara de comboio, seguimos para Vila Franca de Xira e jantámos num restaurante montado todos os anos, no mesmo local. Os empregados já me conheciam. Comemos chocos com tinta e alguma poeira. Começámos a percorrer e ouvia-se, com frequência o rebentar de uns estalinhos colocados na zona da frente de um carro que percorria uns carris e estalava, no impacto contra uma superfície lisa. Uns carros lançados com mais força era o suficiente para nós combatentes nos lançarmos na areia que secava sobre terra molhada. Risotas de todo o lado. Ficava calado e o Jorge corria atrás das pessoas. Entretanto depois do Jorge dormir na casa dos meus pais seguiu para Amadora. Marcámos o local dos encontros.

Passei o fim-de-semana com os familiares, saí e foi o reencontro com os amigos. As oportunidades para beber umas cervejas foram muitas, assim passei os dois dias, não deixando de me juntar com uns amigos no Café Ritejo. A minha tertúlia, lá estava o João Luís, e tive então de falar na estúpida da guerra. Uns velhotes amigos e meus mestres dessa universidade cumprimentaram-me e tive de lhes contar por alto o que passava. Não eram aquelas conversas que me entusiasmavam, pelo contrário, fugia delas. Aproveitei então visitar as madrinhas de guerra, em especial uma. Estava com dúvidas e realmente nem sequer sabia que atitude tomar. Estava a ser incorrecto. Dei um pouco de mim a cada uma, mas estava a agir mal. Tinha de tomar uma posição, não devia enganá-las. Gostava de todas, tal era o labirinto da minha cabeça. Namorava todas… Seria que namorava? Pouco tempo tinha ocupado, sentindo-me incapaz de olhar de frente qualquer delas. Meus dedos ramos de arbustos crescem e apoderam-se de tudo. Insensato. Este meu sonho! Carícia trémula bater de asas. Bebo lágrimas e suores que correm nas fontes dos meus olhos são salpicos. Já nem sei o que dizer. Asneiras! Penso nos poemas que escrevo às toneladas, mas são armas apontadas ao «eu», estilhaços aos bocados.
E nesta terra distante da guerra continuo em guerra, não discuto a guerra que continua. Choro o silêncio inexistente da paz.
E a verdade da liberdade? A liberdade morre na fantasia e harmonia da palavra. A terra enterra e desenterra cruzes que tremem ao vento. Interessava que fossem gozados aqueles últimos dias em terras de Portugal, longa desse Portugal inventado que nos esperava… Que me esperava.

Na segunda-feira fui para Lisboa sozinho. Segui para o Parque Mayer, depois de beber uma bica no Café Lisboa – local de encontro das velhas coristas – fui para o interior do parque. Vestia calças claras e casaco de xadrez. Fui pescado por uma senhora de 55/60 anos. Rosto com uns traços cuidados e pele enrugada. Com uma cana-da-índia, curvada na ponta, puxou-me. Peixe de África, da bolanha. Estava numa barraca dos tiros: “Vai um tiro, freguês?”
Conversámos, chegando entretanto uma rapariga simpática – mais ou menos com a minha idade – fez-nos companhia, e sempre insistiram nos tirinhos.
Um indivíduo musculado aparece e dirige-se à moça, segredando-lhe ao ouvido. Percebi o que pretendia. Elegantemente tira de entre os seios uma nota de 500$00.
Quando estendia a mão com o montante, segurei-a e com mão esquerda e dei à nossa companheira o dinheiro com a direita.
Ele avançou… Eu também. Até que só eu avançava. A criatura paralisada, e disse-lhe:
– Não apareças enquanto cá estiver. Deixa a Senhora em paz. Desaparece!
A rapariga assustada disse que “não deveria meter-me com aquele estúpido, tinha de ter cuidado”. Pediu-me para esperar por ela, após falar com a outra companheira. Decerto pedindo para se ausentar mais cedo. Lanchámos numa Pastelaria, bebi umas cervejas. Levou-me para um quarto, curiosamente limpo. Disse-lhe carinhosamente: “Tu é que vais gozar”! Retirando peça por peça, a nudez encarece e ele entontece e aquece. Aparece, endurece e cresce. Gozo. Império do Rei Gozo. Eu gozei, to não gozaste… Ela gozou. Sempre lhe ia dizendo: “Tu é que vais gozar”!

Retirei-me da cama sem uma palavra e fui ao duche. Enquanto corria, sem ser necessário o púcaro que não o era, mas sim lata mascarada de púcaro, senti umas mãos acarinharem-me o corpo. Após secar enterrei-me na cama e nela. Era um dos 35 dias… Classificado por mim com nota “20”. Saímos, ela não pagou o quarto, era amiga da casa, fomos jantar a uma Cervejaria, bebi algumas cervejas. Levei-a ao Parque Mayer e segui para a Estação do Rossio para apanhar o comboio dos Teatros, das Revistas e dos Filmes.
Em Alhandra – já o sabia – estava aberta a Cervejaria Soltejo. Conversei com o Senhor Manuel, e pedi um copo de 2 decilitros de vinho verde.
Abriu uma nova garrafa “Três-Marias”, e para a despedida mais um copo.
Convite para aparecer sempre.

O primeiro encontro foi nos Restauradores, Palácio do SNI. E uma moça bonita estava encostada à parede. O Jorge diz-me:
– Vou atravessar, entre ela e a parede!
Rindo tento desviá-lo, desvincular-se da ideia. Pediu licença à garota e passou.
Fomos então ao Parque Mayer e existiam as barracas dos tiros, mas só para falar a já entrada na idade. Prostitutas. Salazar tinha proibido. Conversámos e ri para a minha companheira, fazendo-lhe sinal. A oportunidade iria surgir. Combinado entre mim e o Jorge que “amigo não empata amigo”, no momento próprio cada um de nós seguiria seu caminho. Existia sempre o “ponto de encontro”.
Depois de me encontrar com a Cabíria (será este o nome que usarei quando falar da minha menina dos tiros). Cabíria, põe-se o nome de uma personagem que adorei Giulietta Masina do Filme “Noites de Cabíria” do realizador Federico Fellini.
O encontro foi muito semelhante ao primeiro, mais requintado, ainda estávamos no início de uma relação que em princípio teria a duração de menos de um mês. Mais parecia estar a viver um amor, um amor impossível, visto eu ter uma duração de 35 dias, dias que pretendia serem gozados, neste caso com prazer, os últimos. Ela sabia que esses dias iam terminar. Dissera que tinha as minhas madrinhas de guerra – algumas – até uma bonita sueca loira e de olhos azuis com quem escrevia desde os 13 anos.

Naquele dia reencontrei o Jorge, fomos para um bar e demos uma nalgada em cada rabo de mulher, sentada ao balcão. Sentámo-nos e pedimos, decerto cerveja. Aquela que estava mais próxima da nossa mesa pediu licença e sentou-se. Ouvimos:
– Não pagam nada? – O Jorge respondeu:
– Vai uma gasosa?
– Brincalhões! A gasosa é uma seca! Não os conheço, não os costumo ver por aqui.
Respondi:
– Somos africanos, e caçadores
– São ricos?
– Não vês que sim!
– Apalpam bem. Mexeram e aproveitaram o açoite.
Mandámos vir um gim gordon’s, e conversámos enquanto despejávamos umas cervejas e ela chamara já uma colega para acompanhar o Jorge que chamou a atenção:
– Somos caçadores mas outro tipo de caçadores, não caçadores que caçam, mas também os que são caçados…
E todos bem bebidos saímos os quatro para quartos bem perto, e vimos que bem defronte havia um outro Bar, teríamos oportunidade de o visitar. Desta vez estávamos na mesma. Foi divertido, as moças mereciam, sabiam já que éramos simplesmente militares da guerra a pretenderem divertir-se.

O Jorge seguiu para Amadora e eu no comboio dos Teatros, para Alhandra. Fui um pouco à tertúlia do Café Ritejo e conversei, já tarde mas ainda estava o João Luís e uns tipos a jogarem bilhar na Cervejaria Soltejo o Ti Manel. E disse-lhe, hoje trago-lhe uma surpresa, encontrei o livro “Palavras Cínicas”, vamos ler aqui umas curiosidades:
– Escreve este homem, escritor: "Vi que a vida era má e escrevi estas cartas"... – E continua:
 – Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar; "A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom – tolice – não venhas. Aqui para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita, e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso querias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga. Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar. Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfia-o às gargalhadas. Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeia os que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazer que o Amor".

Isto são alguns exemplos de “Palavras Cínicas” de Albino Forjaz Sampaio. Fui sempre contra as guerras, mas estou numa e cumpro. Não desertei por dois motivos: o primeiro tem a ver com o amor pela minha mãe e em segundo lugar foi ter à minha responsabilidade homens, e em seu nome parti não de braços descobertos, mas de arma na mão, pronto para tudo, até ter de matar para viver. a um determinado momento lê-se em Palavras Cínicas:
"Tu és filho de uma prostituta pois a tua mãe só foi de teu pai e o teu pai foi o primeiro a quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si...".

Depois, é sempre a mesma conversa, até faz a pergunta:
- "Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar".

Acrescenta:
 – "... Todos aqueles a quem fazemos bem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé... ". (...) "Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem".

Existe muita verdade nas palavras. A vida é vida, há-de ser vivida. Os dias passados, não são passados, talvez vividos. O amor surge e evapora-se por vezes, mas não morre, o amor vive connosco os dias todos. Prometo que amarei eternamente. Amo-te, desconhecida, aquela mais à frente amo eternamente, e a outra lá ao fundo amarei neste e noutro mundo. Amar a única maneira de alcançarmos o Amor no Mundo, uma Terra sem Ódios nem Guerras. Tudo isto é negado nas oito cartas de Albino Forjaz Sampaio. Adeus ao Mundo e para todos os amigos, mesmo todos. Meditem, vale a pena, é o que ele pensa, possivelmente que nem sequer em tal tínhamos ouvido falar, surgiu, concordamos ou não. No negativo, não esquecer que na multiplicação o menos por mais dá menos...
O Ti Manel escutou e sorriu. Despediu-se dizendo:
– Não desistas. Ele tem razão em muito do que diz.
Lá estava o copo de verde. Bebera demais. Dirigi-me para o Cais 14 ver o amado Tejo e despejar os vapores.
Fiz a visita a umas madrinhas de guerra e entre encontros e desencontros, alguns encontros – na cama. Noutro caso: – “mim cá nega”! – Tal como nos faziam as bajudas.

Depois de um encontro nos Restauradores, seguimos para a Portugália, e entre cervejas, eram as cervejas. O empregado verificando estarmos os dois metidos por entre copos de imperiais bebidas trazia consigo uma bandeja, com vontade de retirar os copos vazios. Eram muitos. O Jorge disse:
– Daqui não sai nenhum, deixe que os alinho. São todos da mesma altura, é fácil. Já está! Ó amigo espere, mas pode puxar aquela mesa para aqui e ficam os copos melhor. e nós também.
O empregado assim fez, acabámos por beber litros de cerveja e retirámos para o Parque Mayer. Aí pedi à Cabíria que ajudasse o Jorge a arranjar uma companheira. Assim foi. A mesma volta, encontros amorosos e demorados, não sabendo como iam decorrendo o novo amor do Jorge.
Depois de irmos levá-las de retorno, visitámos o Bar de rabos de fora dos bancos, e a tal palmada, escutámos:
– Hoje há outro! – Respondendo outra:
– Esse também já cá esteve!...
Bebemos duas ou três cervejas, como não estavam as moças da primeira vez saímos, deslocámo-nos para o outro Bar. Tinha uma portinhola. Tocámos a campainha, este era diferente. Surgiu um tipo que respondeu pelo postigo:
– Não podem entrar!
– Não podemos entrar? Mas que ideia essa! Temos dinheiro!
– Não entram!...
O Jorge põe a mão no bolso do casaco e tira a Licença dada no Quartel-general, em Bissau e o Bilhete de Identidade Militar e toca a campainha. Surge o mesmo tipo que fecha o postigo. O Jorge, bem bebido, toca novamente a campainha, tento desistir dizendo-lhe termos outros sítios para passarmos algum tempo. Toca consecutivamente até que a porta se abre e vemos um homem grande. Nessa altura já o Jorge tomava balanço para rebentar a porta. Algo impossível visto ser muito forte. O Jorge disse apontando o indicador direito e na esquerda a papelada, enquanto os abanava:
– Estou de licença e vim da guerra na Guiné. Lá mato pretos… Aqui mato brancos!
O grandalhão respondeu:
– Podem entrar!
Puxava pelo braço do Jorge, com força, dizendo:
– Vamos embora!
Acabámos por seguir, a verdade é que se tivéssemos entrado estávamos bem arranjados. Por entre mortos e feridos…
O Jorge e eu fomos na direcção da Estação de Caminhos de Ferro do Rossio. Cada um seguiu o seu caminho.

Em Alhandra, no Ritejo ainda restavam alguns amigos da Tertúlia, já velha. Falei um pouco com o João Luís que foi comigo até ao Soltejo, e a tratar de fechar a caixa, volto a interromper o Manuel. Abre uma garrafa de vinho verde “Três-Marias” e vai um copo. O Manuel diz:
– Queres dar uma volta comigo?
Como ele também sabia não ter nada para fazer, e eu interessado mais em me despedir. E, pensei, com o copo de verde na mão enquanto o Manuel acabava de arrumar o balcão. Pois aquilo vai mal, a passagem por Ganturé não foi famosa e o “corredor”? Para quem não quer guerra, muito menos esta… Cumpro, e comprometo o meu interior. O consciente apoquenta-me, assumi e como responsável só tenho de aguentar. Neste nono mês, se cumprissem, estou a 9 meses… Mais uma vez nove. Quem emprenhou?
Ando em baixo, não me parece que isto dê certo. Aquelas trampas das poesias, pareço estar a brincar denominar de poesias. São sepulturas, isso sim. Mortes!
- Estás a pensar em quê, anda daí! – Disse o Manuel.
Entrámos no carro. Nem perguntei para onde íamos.
– Vamos para Vila Franca?
– Já vais saber!...
Vila Franca mesmo.
– Ó Manuel leva-me para o “Zé Barbeiro”, possivelmente nem sabe que conheço muito bem esta casa de petiscos. E então para aqueles que gostam de comer uma perdiz, codorniz ou coelho bravo… Não falando dos pequenos camarões do Tejo.
Entrámos, ao analisar os rostos vejo conhecer a grande maioria dos presentes. Tinha convivido de perto com alguns. Tudo empregados e donos de restaurantes, cervejarias, tascas e até de pensões.
Todos sentados. Começaram a surgir nas mesas codornizes, depois seguem as imperiais. Inicia-se o repasto.
– Bom apetite a todos! – Disse o Zé Barbeiro, dono da casa.
Não estava ali para comentários, era mais um pedaço dos 35 dias de despedida. Segurei uma codorniz na mão e bebi meio copo de cerveja. Ao fim de dez minutos, olhei para o Manuel ao meu lado, e para toda a sala, ornamentada de utensílios e fotos de caça e caçadores. Verifico que um empregado que bem conhecia tinha umas quatro imperiais à sua frente. E continuo a percorrer a vista pelas mesas – não era preciso ir mais longe, na minha mesa – havia quem tivesse duas, três, quatro imperiais à sua frente. Vou desvendar este mistério. O Manuel arranjou alguma parecida com ele. Tenho meio copo, lá vai… E agora?
– Mais uma rodada? Será mesmo… E é!
Uma golada, outra imperial posta à minha frente. Zás, outra rodada! É isso, se alguém bebe o copo da última rodada, vem outra rodada. Muitos saem bêbedos daqui, mas eu não! A festa continuou, e o Manuel ria. Verdade que ele acompanhava o ritmo, mas existiam alguns com quase uma dúzia à frente. E as codornizes iam seguindo o ritmo. Terminada a maratona, ponho a mão no bolso para pagar o que me cabia, o Manuel segura-me a mão e diz:
– És aquele que nada tem a pagar, vamos embora!
Tropeçavam uns nos outros, e lá saímos e seguimos para Alhandra, o Manuel rindo, disse:
– Pregaste a partida àqueles palermas que se julgam bons bebedouros.
Lá fui para casa, a minha mãe estava acordada, ralada comigo e era bem cedo. O meu pai saíra de casa para o trabalho.

Recomecei novo dia conversando com a minha mãe e logo vou ao encontro do meu pai na Padaria. Era Padeiro, como eu e os meus irmãos não quiséssemos ser padeiros restou ao meu pai entrar para uma Sociedade Panificadora. Chegou mais uma hora da verdade. O dinheiro que ficava cá o meu pai colocava no Banco, e pedi 5 mil escudos, tendo ele respondido:
– Vê bem o que andas a fazer?
Retirou de um cofre o dinheiro e deu-mo na mão. Conversámos, sei que o enganava mas, em relação à minha mãe, tinha a certeza que não ia nas minhas conversas. Isto no que diz respeito à guerra. Enviava fotos sempre à civil mas enganá-la…

Seguiram-se mais uns dias. Namoro; encontros com madrinhas, com cama… E sem cama; “mim cá nega!”; Lisboa e as meninas… Não só a do Parque… Resumindo: Muito amor, até fartar e despejar de cervejas e não só…
Comboio para o Rossio, deixara de me encontrar com o Jorge, mas os locais eram os mesmos, variavam os restaurantes onde almoçava ou jantava.
Junto do Teatro Tivoli um andarilho pediu-me a licença de isqueiro ao me ver acender um cigarro. Ri com um certo aparato e o tipo fica zangado. Pedia e voltava a pedir e eu ria, até que me diz:
– Deite o isqueiro para cima do telhado e não paga imposto!
– Mas não pago imposto, nem deito o meu Ronson para o telhado.
Tinha o “V” de vitória. Tinha-o comprado em Bissau. E o homem insiste:
– Vem esta PIDE – não é outra coisa – chatear-me com a licença do isqueiro! Desampara-me a loja!
Ele sumiu-se. Fui até ao Parque Mayer. Outro dia igual, depois de almoçarmos, mas qual o meu espanto quando a Cabíria me diz:
– Larguei o Júlio, o tipo que ficava com o meu dinheiro, sabes a razão? Se quiseres acredita, tenho de te dizer, gosto de ti… Mas não rias, estou disposta a arranjar trabalho, sou nova, espero por ti…
– Eu não interesso a ninguém, sou peça de caça morta… Vou ser caçado e nunca mais me vês. Até hoje safei-me… Mas no dia 26 de Outubro que se aproxima, irei com uma arma apontada à minha cabeça. Estou como o outro, vamos festejar… O quê? Não sei… Olha! Vamos aquecer a alma! Anda e deita-te, e se me amas prova-o… Sou teu e faz de mim o que quiseres. Aviso-te que cair de focinho, não! Estivemos até à noite, a Cabíria não tirava os olhos de mim, o que me deixava preocupado. Estaria ela mesmo a esperar que regressasse?
Não a vi mais, tinha sido a minha companhia numa boa parte dos 35 dias que se aproximavam do fim.

Regressei de comboio. Fui a Cais 14 e sentei-me num dos degraus. Tomara banho naquele sítio. O Tejo, meu irmão. Tinha de ir visitar os meus amigos golfinhos. Oiço uma voz:
– Então estás bem? – Perguntava um paneleiro da terra.
Respondi-lhe:
– Sabes o que vais fazer? Corres até ao Largo da Praça… Vai, vai…
– Olha-me este se calhar julga que manda em mim… Parvo
– Segue em frente, é sempre a direito.
De manhã acordei e dediquei a manhã à família. Já faltavam poucos dias e dedicara pouco tempo aos amigos. Estivera com o Doutor Armando Diogo, com o Baptista Pereira, mas tive pouca vontade de lhes responder, sempre a guerra.
O Doutor recordava-se da conversa que tivéramos sobre o livro “Palavras Cínicas”, de Albino Forjaz Sampaio.
Pensei visitar a malta em Vila Franca de Xira, com aquela metida na cabeça dos 35 dias, os últimos 35 dias, esquecera-me.
Quando chego ao Maioral, é uma festa e lá estavam alguns dos meus camaradas da Tertúlia semanal com o Escritor Alves Redol. O meu primo que frequentava Direito disse ter uma prenda para mim. Deu-me algo embrulhado, julguei estar escondido. Abri, era um livro sobre Che Guevara. E o meu primo começou:
– A PIDE foi à Faculdade de Direito e apanhou-nos a Edição deste livro, fizeram uma fogueira e deitaram fogo aos livros que iam apanhando, saquei deste e pensei em ti. No livro há um discurso em que o camarada Che Guevara fala da Guerra de Guerrilha na Guiné.
Fiquei contente com tal prenda, mas fugi de falar da guerra. Talvez por isso segui para Alhandra após me despedir de um modo pouco digno da minha parte de amigos de anos. Soubera terem passado por situações que só quem não quer, não vê termos um regime opressor. Após quase 500 anos aquilo que vi nada glorifica os portugueses que nada levaram àqueles povos que nem falam português.
Fui apanhar em Alhandra alguns amigos, falei com o Gineto dos “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes – Joaquim Baptista Pereira que me contou as últimas e com o Doutor Armando Diogo falámos dos Processos que moveram na Guiné, tendo o Processo Militar sido dirigido pelo Capitão da Companhia 1620 e o Processo Civil pela PIDE, isto após ter rebentado uma granada quando os negros civis estavam num Batuque e morrera 10, ficando feridos mais de 20.
Fiquei por Alhandra e na Cervejaria Soltejo falei com o Ti Manel. Recordámos as conversas havidas antes do embarque. Ele quase implorara que eu desertasse. Assumi e estou nestes risonhos e gozados 35 dias á espera de morrer. E perguntei ao sábio Ti Manel:
– Como é possível ter-se o prazer de gozar quando se espera o fim, a marcha final? Pode um homem novo morrer numa guerra que detesta e já mesmo antes de ser um dos protagonistas? Pouco tempo mas se do ventre materno nasce o ser… Trajando o nu, igual, destino de boas e más gentes!
O Ti Manel respondeu:
– E acrescento. Só caminhou pela vida pecadora, e sem pecar rompeu o silêncio com gritos, gemidos e ais. Cresceu, Roberto, títere comandado de atilhos. Aprisionado de mãos opressoras. Libertou-se.
Respondi:
– Livre? Pairo na solidão que me mordeu as entranhas, as vísceras… Caio e não me ergo!
O Ti Manel, ouvindo interrompe:
– A fome transforma os prisioneiros em oprimidos e os donos de searas e de fábricas comandam os cordéis. Este mundo que olhas, por que o vês, repleto de cactos, de ervas daninhas e de homens, semeia algures a paz!
Olhando para o Ti Manel renasci:
– Nascentes nas areias que matam a sede do homem só, um mundo de tal bela natureza! Pássaros de voo livre esvoaçam, por entre castelos celestiais de nuvens desenhadas. O mundo, de todos e pertence a todos? O homem semeia! Oh mundo de tal bela natureza! Por vezes tão satânico. Com seus horrores anormais: sismos e inúmeros cataclismos. Mortes sem conta – sem olhar a quem, o bom e também o mau. Plantando cruzes em cemitérios e covas fundas. Oh homem… Oh homem de tal bela natureza! Planta a Paz, o Amor no Mundo. Apetece-me Ti Manel, mas tenho dificuldades neste momento em acreditar plenamente.

E estava no final da licença. Fui ver o rio Tejo, o meu Tejo. Lá estagnei.
Jantei e voltei ao Soltejo. Bebi e esperei pela noite.
O Manuel olhava-me, todos haviam abandonado a cervejaria.
O velho copo de vinho verde. Outro. Oiço o Manuel com as chaves do carro na mão:
– Queres vir?
Não sabia para onde, respondi de modo risonho e brincalhão:
– É mais uma voltinha… Para aquela menina de amarelo.
Entrei no carro, após uns minutos começo a ver não conhecer aquele percurso. O carro parou. O Manuel entrou num prédio novo e de portas abertas, começou por subir os degraus de uma escada e tocou uma campainha. Aberta a porta e depois de dar o primeiro passo vejo aquilo que nunca vira. Um mundo novo. Bacanal.
Ouvimos de dentro:
– Descalcem-se!
Tirei a camisa, os sapatos, as meias, calças e cuecas. Era uma festa profunda. Eu quero lá saber. Vi uma moça que conheço, estava sozinha, quem sabe… À minha espera. Tinha-a desejado, eis que cai nos meus braços. Pleno século XX. Olhei para o Manuel, das surpresas, que ria e já acompanhado. Bebidas e frescas. Levei uma fresquinha para minha menina, a coelhinha. Na mão levei uma cerveja, dei um gole. Agarrei-a e ela abriu os braços e puxou-me!
Pela noite fora, não esqueço…
Regressámos e no dia seguinte partimos para Bissau após as despedidas do cais.
Havia razões para o meu estado de espírito. Disseram-nos que o Amigo Pestana e o Costa tinham morrido com rebentamento de uma granada. Afinal a morte não me levou – por enquanto – mas percebera que ela andou bem perto.
A morte?
Em Bissau falava-se de uma grande Operação no sul da Guiné, no nosso Sector. Aliás era preferível estar-se em combate do que viver o clima de Bissau. Só se falava em Guerra.

Em Bissau no final da Licença 

Vim de Licença em 1968 pelo Carnaval (Terça-Feira de Carnaval a 19 de Fevereiro), mas foi diferente muito embora tivesse ido a Abitureiras – Santarém entregar alguns haveres à família de Vítor José Correia Pestana, este encontro foi traumático, morto a 12 de Outubro de 1967 no rebentamento de uma granada armadilhada, depois de se ter lançado para cima do engenho explosivo após ter tropeçado no fio, tentando salvar os camaradas. Ficou com a barriga perfurada e membros superiores e inferiores presos por fios. Ainda foi assistido pelo Médico tendo pedido aos camaradas que lhe dessem um tiro na cabeça. O Soldado Costa teve morte imediata.

No topo da Mesa, na Ida para a Guiné, Fur Mil Vítor José Correia Pestana Morto a 12 de Outubro de 1967

Esta Licença foi diferente, não existia o estado de espírito e a presença da morte, muito embora faltasse bastante tempo para o final da Comissão… Em termos Operacionais o Ano de 1968 foi rigorosamente mais farto em Operações. O PAIGC melhor armado, mas estava positivamente mais preparado.

Mário Vitorino Gaspar
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de Setembro de 2015 > Guiné 63/73 - P15178: O nosso querido mês de férias (11): vim duas vezes... e na segunda casei-me (Hélder Sousa); vim duas vezes... e na segunda já não regressei (António Murta)