sábado, 3 de outubro de 2015

Guiné 63/74 - P15192: O segredo de ... (27): A minha prenda de Natal de 1963: a destruição de Sinchã Jobel, com o meu engenhoso fornilho montado numa mala de cartão... (Alcídio Marinho, ex-fur mil at inf MA, CCAÇ 412, Bafatá, 1963/65)



Leiria > Monte Real > Palace Hotel > 4 de Junho de 2011 > VI Encontro Nacional da Tabanca Grande > O Alcídio Marinho (Porto, Miragaia), o porta-estandarte da CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65).


Foto: © Manuel Resende (2011). Todos os direitos reservados.




Leiria > Monte Real > Palace Hotel > 4 de Junho de 2011 > VI Encontro Nacional da Tabanca Grande > A Rosa Marinho (Porto, Miragaia), empunhando com elegância, firmeza e determinação o estandarte dos Capacetes Verdes (réplica do original).


Foto: © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados.




Guiné > Mapa geral da província > Escala de 1/500 mil  > 1961 > Detalhe: posição relativa de Sinchã Jobel, a norte de Bambadinca e a noroeste de Bafatá...

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


1. Mensagem de Alcídio Marinho [ ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65)]


Data: 25 de setembro de 2015 às 16:09

Assunto: A aestruição da tabanca de Sinchã Jobel


A DESTRUIÇÃO DA TABANCA DE SINCHÂ JOBEL


Como já referi noutro comentário, quando estive no Enchalé, de outubro de 1963 a janeiro de 1964, fizemos diversos patrulhamentos a Mato Cão, a Sucuta, mas a Sinchã Jobel só fomos 2 vezes e eu pessoalmente só uma vez. 

Duas semanas antes do natal de 1963, fomos a Mato Cão que não deu em nada pois os turras descobriram-nos e fugiram, na direção de Sucuta, fazendo fogo de longe sem nenhum efeito. 

Na semana seguinte, resolvi fazer uma patrulha apeada, com 5 soldados, 1 cabo e comigo, junto ao rio Geba, subindo em seguida, para norte em direção à estrada Geba-Saliquinhé-S. Belchior-Flora-Porto Gole. Começamos a ouvir um barulho, pum-pum, parei a malta e fomos ,o cabo e eu, verificar o que se tratava e vimos um grupo de turras a fazer um buraco no chão para montar um fornilho. 

A malta queria atacá-los mas conferindo as cartucheiras deles, elas estavam vazias, só tinham o carregador da G3 e granadas nem vê-las. Determinei:
- Fiquem calados, esperando que eles se fosse embora. 

Assim, eles montaram o fornilho e foram embora. Claro que assistimos,  parecia que estavamos a ver um filme, 10 individuos armados com 2 PPSH (costureirinhas), 2 espingardas(?), várias pistolas e um a montar o fornilho. Eles estavam atentos ao ruidos de carros, só e apenas. depois vimos eles seguirem pela estrada, descontraidos, descendo a encosta, atravessaram o pontão, pela recta de Saliquinhé e subiram a picada para Sucuta junto ao ribeiro que levava muita água (estávamos fim da època das chuvas). 

Fui, em seguida, ao fornilho, desatei o cordão de algodão (mias de 6 metros), deixando-o ficar lá como estava, retirei o detonador do disparador, peguei num prego (que utizava nas armadilhas) enterrei-o no chão e apertei-o novamente o cordão, com um nó. Seguimos para o quartel, para almoçar e todos os soldados tiveram fazer um reforço à Benfica.

No dia 24 de Dezembro, às 5.30 horas carregamos três vacas na GMC, para vendermos, uma para o BCaç 507, outra para o Esq Cav 385 e, outra para o mercado de Bafatá e uma perna da tinha ficado para nós, para a nossa Companhia.
O preço era 900 pesos. Na bolanha do Enchalé, havia para cima de 200 vacas.

Tomamos a estrada, seguindo no meu jipão, de pé, escrutinando a estrada. Quando chegamos em frente ao sitio do fornilho, desci, fui ver o mesmo e estava como quando o havia deixado. Segui a pé e olhando para junto ao pontão, um pouco mais à frente, a terra estava mexida e com uma pequena nuvem de vapor de água. Alto para todas a viaturas, e toca a fazer a segurança nas bermas da estrada.

Desloquei-me ao local e com a minha faca de mato, comecei a retirar muito devagar a terra e lá apareceu a mina nti-carro. Voltei junto do alferes Cardoso Pires
- Pires,  é uma mina!

- Marinho,  e agora?

- Agora, o Condez (furriel miliciano) que estenda para mais largo a segurança e eu vou levantá-la, para não fazer barulho.

Peguei na corda, com cerca de 8 metros, que trazia sempre no jipão e voltei para a mina. Alguns soldados queriam ir para junto de mim, mas eu não deixei,

Continuei, a retirar a terra de cima e dos lados para ver se estava armadilhada, mas não estava. Atei-a no puxador , estendi-a, puxando de esticão, retirei a mina.

Esperei 5 minutos,  e rodando o prato no sentido contrário do relógio, retirei o detonador, e a mina ficou desactivada. Tapei o buraco com a terra e as viaturas passaram junto dele, para que, se viessem ver, os rodados estavam fora do local da mina e eles não mexeriam na terra, esperando que alguém passassem por cima.

Seguimos para Bafatá e tratamos de tudo, regressando cerca das 13.30 horas. Chegamos entretanto à entrada da tal reta - Saliquinhé, Com os meus soldados subi a encosta, para vigiar, continuando a coluna na referida reta, mas,  na subida da encosta, começou o tiroteiro. Com um tiro furaram a coxa a um soldado. Eram 14.30 e a emboscada durou até ás 18 horas.

Mais tarde, contarei as peripécias dessa emboscada

Como montava armadilhas, resolvi fazer uma que tivesse um poder de destruição enorme

Assim, numa mala de cartão castanha, preparei a armadilha. Utilizei trotil e C4, corpos de granadas desactivadas e serrados, pregos (galeotas), bocados de panelas de ferro fundido e parafusos. Arranjei na Mecânica uma mola e esferas de rolamentos.

Alcído Marinho, foto atual... Um dos nossos
"veteraníssimos"...Um, camarada que tem muitas
histórias por contar...
Na mala enchi com o C4, fiz um buraco onde coloquei a esfera de metal e a mola ficou em obliquo. No aro no fundo da mola atei um terminal do detonador eléctrico, o outro terminal liguei-o ao terminal duma canoa de pilhas de um rádio.

O outro terminal da canoa ficou com a ponta no meio da circunferência no fundo da mola. Assim, se mala se mantivesse direita e ao alto nada acontecia, no entanto de a virassem, a esfera saia do buraco, entrava na mola e nada a parava, indo embater com o outro terminal completando a explosão.

Fechei a mala com a chave e levei-a para a berma da estrada no cimo da encosta, para Saliquinhé, onde a deixei como se alguém se tivesse esquecido dela.

Ficamos internados no mato à espera. Cerca da 11 horas apareceu um grupo de turras,  passaram junto ao fornilho e um viu a mala, tentou abri-la, mas o comandante, um cabo-verdiano, disse-lhe qualquer coisa e começaram a descer rapidamente a encosta, verificando o local da mina, seguindo pela reta, e chegando ao fim, começaram a subir para Sucuta e Sinchã Jobel.

Ficamos a ver o grupo, e o transportador da mala, com ela na mão, dançava, e eu pedia a todos os deuses para que ele não virasse a mala, para não explodir.

Já era quase meio dia e nós olhavamos na direção de Sinchã Jobel, à espera da explosão.

Então ouvimos distintamente uma grande explosão seguida de outras, que duraram mais de um quarto de hora, seguramente.

Voltamos, então, para o quartel, e foi um falatório, contando por todos, para o Alferes, outros furrieis e os outros camaradas que não tinham visto o fumo, mas tinham ouvido as explosões

No dia 26 vieram de Bafatá, outras forças e fizemos uma batida mas não chegamos a Sinchã Jobel, no entanto, apanhamos diverso material e detivemos vários guerrilheiros que, reportaram no Batalhão, que a tabanca havia sido totalmente destruida, com dezenas de mortos.

Explicaram que o portador "da carta a Garcia",  isto é a armadilha, havia sido levada para a morança  do paiol e,  ao tentarem abri-la, ela explodiu, e por simpatia todas as munições. Por isso nós ouvíamos explosões e tiros, eram as munições e os sobreviventes a fazer fogo, pois pensavam que estavam a ser atacados

Assim, foi destruida a tabanca de Sinchã Jobel

Alcidio Marinho 
CCaç 412

Cumprimentos

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3 comentários:

Luís Graça disse...

Alcídio:

O primeiro fornilho usado pelo PAIGC terá sido em julho de 1963, na estrada São João - Fulacunda.. A primeira mina anticarro, também na zona de São João, foi em agosto... Portanto, em finais de 1963 o PAIGC já devia ter "sapadores" a trabalhar no leste, como se depreende do teu relato...

Obrigado pela partilha do teu "segredo"... Os "velhinhos" de 1963 têm ainda muitas histórias por contar, guaradadas no "bau da memória"... Infelizmente, poucos deles usam a Net e conhecem o nosso blogue...

Que o teu exemplo frutifique. Incentiva a malta da tua companhia, que se reune todos os anos, a partilhar com os restantes camaradas (e amigos) ds Guiné as vossas histórias e fotos que um dia destes se vão perder para sempre...

Abraço grande, do Luís

Luís Graça disse...

Como já aqui foi referido, há 10 anos atrás, em 2005 (, estamos velhinhos!) pelo A. Marquesz Loopes, Sinchã Jobel em finais de 1967 passou a ser uma ZLIFA (Zona Livre de Intervenção da Força Aérea): só os T 6 e os Fiat Fiat G91 iam lá, de vez quando, despejar umas bombas... Algumas nem rebentaram, como pôde testemunhar o A. Marques Lopes quando lá voltou 40 anos depois...

No meu tempo (1969/71), ouvíamos em Bambadinca as explosões, ao longe, em Sinchã Jobel. Registei isso no meu diário, pelo menos uma vez... LG

Chapouto disse...

Grande companheiro também fui algumas para essas zonas, Sinchã Jobel fui lá em Julho de 66 até chegarmos lá levantei duas armadilhas à nossa chegada tinha-mos o fogo de artifício à nossa espera só faltava a banda, tivemos dois feridos ligeiros do outro lado rastos de sangue e nada mais para esta operação saímos de Sara Banda as outras vezes foi pelo lado de Banjara, mas sempre com emboscadas e tiroteio durante algum tempo
Um forte abraço
Fernando Chapouto