sábado, 15 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8910: In Memoriam (94): António Dias das Neves (1947-2001), Sold At Cav, CCAV 2486 (Bula, 1969/70), "o meu herói" (Marisa Neves)

Folha da caderneta militar de António Dias das Neves

 Sold At Cav António Dias das Neves

O Sold At Cav António Dias das Neves montado num obus 10,5...A CCAV 2486  (1969/70) passou por Teixeira Pinto, Bula, Pete e Bula.  Foi comandada pelo Cap Cav João Soares de Sá e Almeida e pelo Alf Mil Inf  José Manuel Duarte Fernandes.



O jovem futebolista António Dias das Neves, na sua terra natal, Ramada, Odivelas

 Outra foto do jovem futebolista António Dias das Neves.

O António Dias das Neves na Alemanha... Em 1968, Portugal tinha celebrado um acordo com a a Alemanha, ao abrigo das facilidades pela utilização de Base de Beja, para tratamento e recuperação de deficientes, no Hospital de Hamburgo,  com a participação da Cruz Vermelha

O António Dias das Neves  em casa... O "meu herói", diz a filha Marisa Neves

Fotos: © Marisa Neves (2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados

1. Texto de Marisa Neves [, foto à esquerda, 2009], baseado em comentários ao poste P8887 (*)  e troca de emails com os editores:

(i) Sr. Luís Graça,  só lhe posso dizer que o meu pai era e será sempre o meu herói, ainda por cima por ter passado por isso tudo e ter ficado sem 2 pernas aos 21 anos. Mas graças a Deus que se adaptou o melhor possível, conseguiu-o,  e quem não soubesse também não sabia que ele não tinha as pernas. 


Gostei muito de ter encontrado este blogue e pessoas que estão dispostas a ajudar-me. Pois o meu pai sempre me contou muitas coisas sobre o ultramar, mas já passaram 10 anos da sua morte e na altura ainda só tinha 21 anos, não assimilei tudo. 

Agora em conjunto com uns amigos, vamos fazer uma exposição da nossa terra, Ramada, e nessa exposição haverá um cantinho especial para o filho da terra, o meu pai [Neves).  

(ii) O meu pai foi ferido a 18 Outubro de 1969,  está na caderneta militar e também ele me dizia isso. Sei, sim, que o meu pai foi condecorado com a cruz de guerra [de 4ª] e um louvor. O louvor está comigo, a cruz de guerra infelizmente o meu pai ''chateado'' com o que lhe aconteceu amandou-a da ponte 25 de abril a baixo.

O meu pai quando foi ferido foi enviado para o hospital militar na Alemanha, onde esteve em recuperação. Posso lhe dizer que a pessoa que sabe muito sobre o meu pai é o ex-alferes Fernandes, pois ele ficou muito amigo do meu pai e cOstumava dizer:
- Este homem salvou-me a vida, se não fosse ele tinha sido eu a pisar a mina.

Palavras ditas em pleno funeral do meu pai pelo ex-alferes Fernandes. Gostava imenso de poder ter O contacto do agora Tenente Corenel  (aposentado). Se me puderem pôr em contacto com ele, agradeço.  Pois ele ia ajudar muito naquilo que vou fazer ao meu pai,  o memorial [, aqui em Ramada].

Quando tiver tudo ok,  concerteza que vós informarei do dia e local da exposição. O meu super herói será sempre o meu pai, esteja ele onde estiver pois faz parte de mim, se não fosse ele eu hoje não era aquilo que sou, e com muito orgulho digo que sou filha do Neves.
Cumprimentos,

(iii) O meu pai nasceu a 15 Junho de 1947 na Ramada, hoje concelho de Odivelas. Morreu no dia 21 de Agosto de 2001, devido aos vários aneurismas que já tinha espalhados pelo corpo, tendo feito a operação ao aneurisma da artéria que vai do coração à aorta, mas passado uma semana da intervenção não resistiu e teve uma paragem cardíaca.

Serviço militar:  Isto é o que está escrito na Caderneta Militar


António Dias das Neves - Nº de matrícula 19081/585/68 em 1968 
Arma em serviço - Cavalaria
Alistado em 5/07/1967 
Incorporado em 30/07/68
Pronto da escola de recrutas em 17/11/1968 
Especialidade - atirador de cavalaria.

Depois tenho isto assim na caderneta que não sei o que é.

Colocação durante o serviço

UNIDADE - C.T.S.C        30/07/1968

UNIDADE - R.C.7            28/09/1968
UNIDADE - OG/R.M.L     1/07/1972  


Nº DE ORDEM - 3948
 

Ocorrências extraordinárias

Embarcou em 28/2/69 no navio ''UIGE'', com destino ao CTIG fazendo parte da CCav 2486. Desembarcou em Bissau em 1/03/69. 


Evacuado para o HMP em 6/11/71 por despacho de 30/12/70 de sua Excia o Secretário do Estado do Exército.  

Foi ferido em combate a 18/10/69 quando pisou a mina que lhe tirou o pé esquerdo  e depois estilhaçou-lhe a outra perna, tiveram que lhe cortar  as 2 pernas até ficar tudo em condições.

Guiné 100% desde 1/3/69 até 30/12/70.
 

Também tem assim [contagem do tempo de serviço]:
1968 - 155 dias
1969 - 365 dias
1970 - 364 dias

Há muitas coisas que estão escritas na caderneta mas infelizmente não consigo perceber.


Em relação aos hospitais,  infelizmente não sei datas concretas, acho que ele foi 1º para Bissau [HM 241] e depois veio para Portugal. A seguir foi transferido para Alemanha. Sei que esteve algum tempo na Alemanha em tratamentos e recuperação para adaptação das próteses.


A pessoa que pode-lhe dar todos os dados fidedignos é sem dúvida o ex-Alferes Fernandes, agora Tenente-Coronel aposentado. 
Além de ter estado sempre ao lado do meu pai, ficou bastante amigo dele depois disso. Era um homem que muitas vezes o meu pai ia ao encontro dele, onde ele estivesse destacado e almoçava lá com ele nas messes, lembro-me de ser pequenina e ir com o meu Pai.
 
Se conseguir falar com ele,  vai conseguir todas as respostas, aquelas que eu também precisava.

Então segue uma foto minha, foi difícil encontrar pois as minhas fotos são aquelas todas com a minha filhota, mas depois de muito procurar lá encontrei esta que estou sozinha e não fiquei mal...lol


Fico muito feliz pela homenagem que farão ao meu pai no vosso blogue.


Obrigado mais uma vez.
 
Cumprimentos

Marisa Neves



2. Comentário de L.G.:

Não podemos ficar indiferentes à tenacidade e à dedicação filial da Marisa, que viu o seu pai partir, ainda novo (aos 54 anos), tinha ela 21... Dez anos depois, quer-lhe fazer a devida homenagem, na sua terra natal. E para isso, quer saber mais coisas da sua história passada, como militar no TO da Guiné, onde foi gravemente ferido...



Da nossa troca de comentários e emails, nasceu este poste, que é também a nossa pequena mas merecida homenagem a um dos nossos camaradas que deu o melhor da sua vida, como soldado, tendo sido gravemente ferido, por mina A/P, em 18 de Outubro de 1969, no decurso da Op Ostra Amarga (ao 7º dia, na região de Badapal, a norte de Bula).

O António já não está entre nós, mas o gesto de amor da sua filha Marisa obriga-nos a recordá-lo, doravante, na nossa lista dos membros da Tabanca Grande que da terrível lei da morte se vão libertando...

Ele será mais um dos irãs bons que poisarão no nosso poilão, fazendo-nos  lembrar sempre que aquela guerra, onde fomos protagonistas, teve - para a nossa geração - um enorme preço em sangue, suor e lágrimas. Obrigado à Marisa pelas ternas recordações do seu pai, que foi juntando, peça a peça, desde o seu tempo de jovem futebolista a deficiente das forças armadas, amargurado e revoltado, ao ponto de lançar fora, à águas do rio Tejo,  a sua cruz de guerra...

Vou pedir ao nosso colaborador permanente José Martins, que mora em Odivelas, para estar atento à iniciativa desta jovem de Ramada, que deve ser apontada como um exemplo à geração dos nossos filhos. Queremos estar presentes na exposição de homenagem que vai ser organizada em Ramada.
__________________

Notas do editor

(*) Vd. poste de 11 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8887: O Nosso Livro de Visitas (120): Sold At Cav António Dias das Neves, da CCAV 2486, ferido por mina A/P no dia 18/10/1969, no decurso da Op Ostra Amarga (Marisa Neves / Virgínio Briote)

Guiné 63/74 - P8909: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (9): Oficial não Cavalheiro

1. Em mensagem do dia 11 de Outubro de 2011, o nosso camarada José Ferreira da Silva* (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), enviou-nos esta outra memória da sua guerra.

Caros camaradas
Confesso que não sinto prazer algum em divulgar esta história. Diria mesmo que era preferível esquecer que isto aconteceu. Porém, vejo-me na obrigação de contribuir para o registo das memórias da nossa guerra colonial.

Um abraço do
Silva


Outras memórias da minha guerra (9)

Oficial não Cavalheiro

Como é do conhecimento geral, durante a Guerra do Ultramar, salvo raras excepções (“ricamente” trabalhadas), todos os jovens eram aproveitados para prestação do serviço militar obrigatório. Por isso, não é de admirar que tenham aparecido indivíduos das mais variadas aptidões e estranhas características. Efectivamente, estava ali, exceptuando os “fugidos”, o retrato real da juventude portuguesa. De soldados básicos a oficiais, eram inúmeros os casos estranhos que chegavam ao nosso conhecimento.

Havia quem lhe chamasse Alferes Chanfrado e outros até diziam que era o “Atraso de Vida”. Porém, não fora a seu mau desempenho de militar graduado e os incómodos que causou aos seus camaradas, poderia até, ter uma denominação sinónima de “Chico Esperto”.

Veio de uma das ilhas onde a beleza, a poesia e a pacatez são reinantes. Trouxe o inconfundível sotaque que tanto caracteriza aquele nobre povo. O aspecto de imberbe e frágil e o comportamento nervoso denunciavam evidente imaturidade.

Digamos que era um jovem que, ali, estava deslocado. Não se adaptava ao ambiente militar e, também, parecia nada fazer para isso. Colocado na posição de alferes, sentia imensas dificuldades em impor-se aos seus comandados. Valeram-lhe os Furriéis, especialmente um, militarmente mais preparado, que comandou efectivamente o Pelotão nas Operações.

Amedrontado e (talvez) mal preparado, não ajudava nada, antes pelo contrário. No mato, acusando o medo ia quase sempre em último do seu Pelotão. Por isso, logo num dos primeiros combates, constava ter atingido com um tiro, um militar do seu próprio Pelotão. Constava que para os seus subordinados ele, de arma nas mãos, era um perigo. Tentou sempre “desenfiar-se” (doenças, idas prolongadas a Bissau, etc.). O Capitão, que parecia tolerá-lo, acabou por lhe mostrar algum descontentamento.

O Capitão lidava com o tal Furriel (que era bem aceite pelos militares) para os aspectos operacionais. O Alferes, quando presente, acusando insegurança, chegou a não levar arma para as Operações, e assim se foi passando o período de Intervenção.

Em Cabedu, apesar da realidade existente, já era, pelos militares, quase considerado descanso, antes da partida para o norte (Canquelifá). Aí, e já depois do Capitão ter sido ferido e evacuado da Operação Bola de Fogo (construção de Gandembel), passou-se por alguns apertos devido ao entusiasmo guerreiro do seu substituto temporário, um Alferes do quadro, seguidor da sigla – morte ou glória. Por esse motivo, a situação “inoperacional” do tal Alferes, manteve-se.

Porém, quando a Companhia seguiu para norte, este Alferes ficou com o seu Pelotão, durante dois meses como Comandante de um destacamento. Sem o Capitão, que o controlava, sem guerra e sem os outros colegas para o referenciar, entrou numa de verdadeiro Comandante.

Agora, de botas engraxadas tipo cavaleiro, de varinha na mão e a bater nas botas, corria o Destacamento de um lado para o outro, a meter-se em tudo, da cozinha à enfermaria e, até, com os familiares dos milícias. E para mostrar a sua autoridade, começou a chatear e a abrir processos disciplinares aos militares mais destacados, incluindo o próprio Furriel, conhecido por ter estado sempre ao lado de todos. Este teve um processo, dirigido ao Ministro da tutela, acusando-o de ter ... “alterado o talhe de barba” (usava “ pêra”)”. Uns sete ou oito militares também tiveram processos ridículos que seguiram para a base da Companhia, para o novo Capitão lhes dar seguimento.

Valeu-lhes uma posição colectiva dos graduados, junto do Capitão, lá na sede da Companhia, esclarecendo-o sobre o Alferes e o Furriel visado, visto que, para o novo Capitão, eram, ainda, desconhecidos.

São várias as histórias ali passadas que, ainda hoje, quando recordadas, se reflectem em comentários agressivos e condenatórios do comportamento do dito Alferes.

Para amedrontar os subordinados e, em especial, o Furriel, que sabia ser anti-salazarista, gritava amiúde, ameaçando:
- Vão parar a "Penamacor!” (aludindo ao estabelecimento prisional lá existente).

Avesso ao desporto, não queria que se jogasse futebol. Um dia, verificou que 3 dos 4 militares que estavam a jogar à malha, eram dos tais bons militares de quem ele não gostava (porque não o respeitavam, à sua maneira). Aproveitou estar na hora do almoço, dirigiu-se para a sineta, pendurada no embondeiro e tocou violentamente para que se desse início ao almoço. O jogo, que terminava aos 30 pontos, estava em 28-27 e, claro, fizeram mais uma jogada para acabar. Fez três participações por desobediência e retirou uma - a do... que lhe era mais humilde.

E, percebendo que alguém o pudesse acusar, chegou a proibir o estafeta (que era “Gila”) de levar para a sede da Companhia outro correio, para ser enviado, que não fosse o seu.

O ambiente no destacamento era já insuportável. Esperava-se ansiosamente a substituição do Pelotão e o regresso à sede da Companhia. Os dois meses de Destacamento, que se poderiam considerar um tempo de férias, foram-se transformando numa espécie de “degredo”, comandado por um louco.


Um dia, ouviram-se gritos do Alferes:
- Acudam, acudam, que me querem matar!

E ninguém se aproximava. Voltava ele, a gritar:
-Simões, Furriel Simões, acuda-me que me querem matar!

O Furriel correu para a parada, ao encontro do Alferes que, agarrado ao pulso por um soldado, o acusava:
- Acuda-me que este gajo me quer matar.

- Este gajo não! - respondia o soldado, ao mesmo tempo que o abanava energicamente, através do braço preso.
- Diga Salvador Martins Domingues, pai de duas filhas e mais homem que o senhor. Repita comigo. - Salvador Martins... Repiiiiita, seu cobarde!

O soldado, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces, virou-se para o Simões:
- Meu Furriel, fui ferido em combate, participei em todas as operações que pude, nunca recuei um metro sequer, e agora, a poucos meses de ver as minhas filhinhas, posso ficar desgraçado para toda a vida, por culpa deste garotito, que não vale nada.

E elevando a voz:
- Este cobarde não tem qualquer categoria para ser soldado, repito, ser soldado, do nosso Pelotão!

O Simões acalmou-o e indicou-lhe o caminho para a caserna.
Quando se virou, para trás, já o Alferes se tinha afastado. Porém, o Simões apressou-se, foi apanhá-lo e avisou-o:
- Nem pense em fazer mais qualquer participação. - Acabou!!! - Repito: - A... ca... bou!!! - Salvei-o desta vez, mas não o salvarei na próxima!

Pouco tempo depois, já na Companhia e em tempos de paz, antes de uma saída, para patrulhamento de rotina, o Furriel Sousa informou o colega Simões de que o Alferes mandara dizer que a partir de agora, não deveria ir no Pelotão e ficar no Quartel.

- O quê? – diz o Simões revoltado. Depois de nunca ter faltado a uma única Operação, salvo o tempo de um mês de férias e de ter estado sempre na frente, durante os combates, vem este anormal, querer mostrar-se em tempo de paz? A quem? Ao novo Capitão?

- Penso que te quer premiar. – Diz o Sousa.

- Não, não abandonarei nunca os meus verdadeiros camaradas de guerra! Sabes que saímos juntos, que sofremos juntos e que terei muito orgulho em regressar com eles.

O Simões, acabou de tomar o pequeno almoço. Depois dirigiu-se para a parada, onde o Pelotão já estava alinhado para sair.

Quando se aproximava, vê o Cabo “Rio Tinto” dar dois passos em frente e:
-Meu Alferes, dá licença?

-Sim.

- Ouvimos dizer que o nosso Furriel Simões já não nos vai acompanhar até ao fim. Quero dizer-lhe, em nome de todos os meus camaradas do Pelotão, que preferimos o Furriel Simões ao nosso Alferes. Ele é que nos acompanhou e orientou sempre na guerra e o Alferes não nos faz falta alguma, nem nunca fez.

- Não?! Anda aí confusão e não é verdade?! – Respondeu o Alferes, cabisbaixo e meio comprometido.


Silva da Cart 1689

(Nota: Este Alferes fez toda a viagem de regresso, sem vir ao convés do navio. É que estava convencido que havia militares com coragem para o lançarem ao mar. E eu também.)
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 1 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8844: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (24): Os Bravos do 13.º Pelotão sob o Comando do Furriel Montana

Vd. último poste da série de 23 de Junho de 2011 > Guiné 63/74 - P8466: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (8): O grande choque

Guiné 63/74 - P8908: Antologia (69): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (2): Ilha do Como, 16 e 17 de Janeiro de 1964






Fonte: © Armor Pires Mota (1965-2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


Continuação da publicação de Tarrafo; crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed., Aveiro, 1965. Parte 2 (Ilha do Como, Jan / Mar 1964), pp. 52-55. (*)

Segundo o nosso camarada Mário Dias, outro cronista da Op Tridente (**),  a luta pela reocupação da Ilha do Como travou-se entre 14 de Janeiro e 24 de Março de 1964. A ilha, onde não havia qualquer autoridade administrativa portuguesa, fora ocupada pelo PAIGC logo em 1963.

(...) As tabancas existentes são relativamente pequenas e muito dispersas. Possui numerosos arrozais, o que convinha aos guerrilheiros pois aí tinham uma bela fonte de abastecimento, acrescido do factor estratégico da proximidade com a fronteira marítima Sul e o estabelecimento de uma base num local que facilitava a penetração na península de Tombali e daí poderia ir progredindo para Norte.

"Não tinha estradas. Apenas existia uma picada que ligava as instalações do comerciante de arroz, Manuel Pinho Brandão (na prática, o dono da ilha) a Cachil. A partir desta localidade o acesso ao continente (Catió) era feito de canoa ou por outra qualquer embarcação. A casa deste comerciante era, se não estou em erro, a única construída de cimento e coberta a telha". (...)




Croquis da Op Tridente (Jan/Mar 1964) (Fonte:©  Mário Dias, 2005. Todos os direitos reservados)


Planeada pelo Com-Chefe,  a Operação Tridente envolveu numerosos efectivos, divididos em 4 Agrupamentos, conforme nos explica o Mário Dias (que ia integrado no grupo de 20 comandos do Alf Saraiva, enquanto o Alf Mil Mota fazia parte do CCAV 488, do Dest B)

AGRUPAMENTO A: (Cmdt Major Cav Romeiras)
CCAV 487 (Cap Cidrais)
7º Dest de Fuzileiros Especiais (1º Ten R. Pacheco)

AGRUPAMENTO B: (Cmdt Cap Cav Ferreira)
CCVA 488 (Cap Arrabaça)
8º Dest de Fuzileiros Especiais (1º Ten Alpoim Calvão)

AGRUPAMENTO C: (Cmdt Cap Cav Cabral)
CCAV 489 (Cap Pato Anselmo)

AGRUPAMNETO D: (Cmdt 1º Ten Fuz Faria de Carvalho)
2º Dest de Fuzileiros Especiais (1º Ten Faria de Carvalho)

AGRUPAMENTO E: (Cmdt Cap Aires)
CCAÇ 557
(Nota: salvo erro, este agrupamento fazia a segurança imediata da Base Logística)

OUTRAS FORÇAS:

1 Grupo de Combate / BCAÇ 600
Grupo de Comandos (20 homens) (Cmdt Alf Saraiva)
1 Pelotão de Paraquedistas
1 Pelotão de Caçadores Fulas
Pelotão de morteiros / BCAÇ 600
2 Bocas de fogo de obus 8,8 do BAC (Cmdt Alf Carvalhinho)
Equipas de Sapadores (distribuídas pelos vários agrupamentos)
Elementos do Serviço de Intendência
73 carregadores indígenas.
Tudo somado eram aproximadamente 1000/1200 pessoas.

Estima-se que o PAIGC tivesse 300 combatentes, incluindo alguns militares da Guiné-Conacri.

Comandante das Forças Terrestres: Ten Cor Cav Fernando Cavaleiro. (Cmdt do BCAV 490)

DA MARINHA:

Fragata Nuno Tristão.
4 lanchas de fiscalização
4 LDP
2 LDM

Havia ainda várias embarcações civis pertencentes aos Serviços de Marinha da província que transportavam víveres, água e demais material necessário.

DA FORÇA AÉREA:
Aviões T6 – Aviões F86 – PV2 e PV2-5 (Apoio de combate)
Helicópteros Alouette (transporte e evacuações)
Aviões Auster e Dornier (transporte e reconhecimento)

Sem se conhecerem pessoalmente, Mário Dias e Armor Pires Mota ficaram perto,  na zona de Cauane, como de depreende do relato do Mário;

(...) "Ao nascer do dia 15 [de Janeiro de 1964], surgiram os aviões de ataque ao solo ao mesmo tempo que as peças de bordo [dos navios da marinha] e artilharia de Catió bombardeavam os locais de desembarque cobrindo o avanço das tropas que iam ao assalto das praias para instalarem testas de ponte que permitissem a chegada do grosso dos efectivos e instalação da logística.

"O Grupo de Comandos não fez parte desta 1ª vaga. Como disse o alferes Saraiva, estávamos guardados para outras missões. Nem fazíamos uma pequena ideia de como elas se viriam a revelar tão difíceis.

"(…) Finalmente. Chegou a nossa vez. No bojo de uma LDM rumámos a terra. Alcançada, baixada a rampa de desembarque, pisámos a areia do Como. Nada de tiros. O IN, naquele local, já não mandava nada. Populações e guerrilheiros que se encontravam na orla do mar já se haviam refugiado na densa mata do interior. Não fora a azáfama da tropa e dos carregadores a amontoar caixas de ração de combate, cunhetes de munições e de granadas, jericãs de plástico com água, barris de vinho, grades de cerveja – que tanto jeito deu para compensar a tremenda falta de água potável naquela ilha - não fora essa azáfama, e julgaria estar numa paradisíaca ilha do Pacífico. Linda praia… local de sonho.

"Rajadas, não muito longe, acordaram o meu devaneio. Era em Cauane, disseram, onde se encontrava a CCAV 488 e o 8º Dest Fuz na tabanca que era o posto mais avançado e próximo do IN e que viria a ser o local de maior resistência à nossa penetração na mata. Era para lá que iríamos. (…)

"Um pouco mais à frente surgiu um braço de ria, na altura com pouca água por ser baixa-mar, com o indispensável e habitual lodo e tarrafe. Para atravessar, bem no fundo daquela vala, um tronco de árvore já muito gasto pelo uso e que só permitia passagem na maré vazia. Devido a esse inconveniente, mais tarde, juntamente com os fuzileiros, cortámos alguns troncos de palmeira – abundantes nas margens desse e de outros cursos de água – e com eles foi improvisada uma ponte que permitia a passagem a qualquer hora. Mais tarde ainda, essa ponte foi substituída por outra construída por pessoal da Engenharia com tubos de andaime e madeira.

"Atravessado sem percalços este obstáculo natural, eis – nos na extensa bolanha que se estende até Cauane e à mata de Cachil mais a Norte. Aí, só era possível andar sobre os estreitos ouriques pelo que lá vamos nós em coluna por um (a célebre "bicha de pirilau", na gíria militar) nada aconselhável em terrenos descobertos" (...)
_________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste anterior da série > 14 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8905: Antologia (68): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (1): Ilha do Como, 15 de Janeiro de 1964

(**) Vd. I Série,  postes de: 15 Dezembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias) 

16 Dezembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXV: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): II Parte (Mário Dias) 

17 Dezembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXX: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): III Parte (Mário Dias)


 

Guiné 63/74 - P8907: Convívios (381): Operação Bácoro Risonho: CCAÇ 6 e outras forças aquarteladas em Bedanda (António Teixeira / Mário Bravo)




1. Mensagem, de 8 do corrente, que nos chegou "by air", por intermédio do António Teixeira, que integra o estado-maior da operação Bácoro Risonho:

Aos Excelsos Comandantes:
        Cap. Ayala Botto
        Cap. Gastão Silva
        Cap. Limpo Salvada

Conhecimento: Toda a Companhia
 
Assunto: Operação Bácoro Risonho.
 
URGENTE E CONFIDENCIAL

(Esta mensagem já foi descriptada pelo 1º Cabo Cripto Vasco)

Senhores Comandantes:

Como é do vosso conhecimento, vai-se desenrolar a Operação "Bácoro Risonho", a ter início na manhã de 5 de Novembro (*).

As tropas devem-se reunir perto da Mealhada, onde será montada uma emboscada, devendo ser interceptados todos os elementos IN que,  como os nossos informadores já nos transmitiram, virão disfarçados de rissóis, croquetes, chamuças e até de postas de bacalhau. 

Após a emboscada será feito um golpe de mão, de forma a aproveitar o efeito surpresa para  aniquilar completamente todos os bácoros bairradinos que aparecerem.

Cuidado no manuseamento das granadas de mão, sobretudo as de maduro tinto. Ter também em atenção,  e sobretudo,  aos roquetes do inimigo, da marca espumante da Bairrada, que devemos subtrair ao IN e destruí-las, pois são bastante perigosas, sobretudo devido ao gás inebriante que libertam e que facilmente sobe ao cérebro.

Claro que esta operação só terá sentido, SOB A VOZ DOS NOSSOS COMANDANTES. Sem eles, estaremos órfãos e a operação poderá estar destinada ao fracasso.  

Por isso, caros chefes e comandantes, está na hora de reunir as tropas, e sob a vossa voz e vosso comando, levar a bom porto esta difícil missão.

QG em Bedanda, aos tantos dias e Mês deste ano


2. Mensagem do António Teixeira, de 13 do corrente:

 Caros amigos [bedandenses]:

Reenvio a mensagem (vinha em cripto, mas o Vasco já decifrou) que me acaba de chegar às mãos, vindo do sector da "Saúde" desta Companhia, acerca da grande operação que se aproxima.

Para todos vós, os meus votos de bom fim de semana.
 
3. Mensagem do Mário Bravo [, foto à esquerda,], de 13 do corrente:

Assunto: Re: Operação Bácoro Risonho

Assistência Médica /Enfermagem

Meus Caros Companheiros de Armas

Nada poderia ser realizado sem a colaboração deste valioso sector operacional, "Os seringas". Lá estaremos em força e com toda a vitalidade e táctica guerrilheira, no sentido de conseguir um êxito . Bom, para esse sucesso e,  como responsável deste sector, prometo que iremos "atacar" com toda a nossa força e boa vontade, para que nada respire após o nosso golpe! Só precisamos de oportunidades, e que os nossos Comandantes não limitem a nossa acção.!! Bom fim de semana para todos.
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Nota do editor:

Últimop poste da série > 10 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8882: Convívios (373): 2º Almoço/Convívio da CCAÇ 1477, em Fátima, 14 de Agosto de 2011 (António Rama)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8906: Quem conheceu os GUC (Gabinetes de Urbanização Colonial) e/ou os projetos de reordenamentos das populações ? Pedido de informações e contactos (Eduardo Costa Dias, antropólogo, ISCTE)


1. Do nosso amigo e antropólogo Eduardo Costa Dias, professor do ISCTE [, fotp à direita, Bissau, 2008]


De: Eduardo Costa Dias [ecostadias@netcabo.pt]
Data: 11 de Outubro de 2011 11:07
Assunto: Pedido

Caros amigos,

Bom dia a ambos

Trago-vos um pedido.

Estou integrado num projecto de investigação sobre os Gabinetes de Urbanização Colonial/ultramarina (GUC) dirigido pela Arquitecta Ana Vaz Milheiro e no âmbito do qual acabo de passar, com ela e com um outro colega (Paulo Tormenta Pinto), uma semana na Guiné. Como com todos os projectos em que estou metido, este projecto na Guiné conta também com o generoso apoio do nosso comum amigo Carlos Schwarz [, Pepito].

Peço-vos contactos de pessoas que directa ou indirectamente durante a sua estadia como militares na Guiné  contactaram de perto/trabalharam para os GUC, inclusive nos projectos das chamadas aldeias de reagrupamento*. 

É nossa intenção,  depois de completada a recolha de informação e feito um tratamento mínimo,  dela fazer um encontro ou,  como agora se diz,  um workshop de apresentação e discussão dos materiais; em muito ganharia o projecto e o workshop se pudesse contar com a experiência e o saber de amigos que,  por uma razão ou outra contactaram a "realidade" da arquitectura e  urbanismo  na Guiné nos anos da guerra.

 Muito obrigado

 Com amizade
 Eduardo


* a parte mais significativa destes reagrupamentos não passou pelo GUC, foi directamente planeado, projectado e implementado pelas FFAA. Interessa-nos tanto os dos GUC como os das FFAA !

2. Comentário de L.G.:

Eduardo, julgo que te queres referir aos "reordenamentos" das populações. Era o termo (mais soft que reagrupamento) que usávamos para as tabancas, construídas de raiz pelas populações locais com materiais e mão de obra especializada fornecida pela tropa.  Estes "reordenamentos" podiam atingir as três centenas  e meia de moranças, como o foi o caso do aglomerado habitacional, "sob duplo controlo",  de Nhabijões, no sector de Bambadinca. 

Temos uma dúzia de postes com este marcador (reordenamentos). Vê em especial os postes P2100 e P2108 [A política da Guiné Melhor: os reordenamentos das populações > Reprodução do documento Os reordenamentos no desenvolvimento sócio-económico das populações. Província da Guiné, Bissau: Comando-Chefe das Forças Armadas da Guine. Quartel General. Repartição AC/AP. s/d.

Guiné 63/74 - P8905: Antologia (68): Tarrafo, crónica de guerra, de Armor Pires Mota, 1ª ed, 1965 (1): Ilha do Como, 15 de Janeiro de 1964











In: Armor Pires Mota: Tarrafo: crónica de guerra. Aveiro, 1965, edição de autor (livro retirado do mercado). Início da transcrição da parte 2 [Operação Tridente, Ilha do Como, Janeiro-Março de 1964], pp. 47-51. Cortesia do autor

Fonte: © Armor Pires Mota (1965-2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.

1. Armor Pires Mota já não precisa de apresentação. Embora não pertença formalmente à nossa Tabanca Grande, tem no nosso blogue pelo menos 25 marcadores ou referências (Seguramente mais, se considerarmos a I Série, de Abril de 2004 a Maio de 2006).

Para além de ter sido camarada nosso, é um hoje já um escritor consagrado, com cerca de 3 dezenas de títulos, entre crónica, poesia, romance e ensaio, um parte dos quais sobre a sua experiência humana e operacional  no T0 da Guiné, entre Junho de 1963 e Junho de 1965. 

Em  Tarrafo: crónica de uma guerra,  ele relata, na primeira pessoa do singular, o seu quotidiano como alferes miliciano, da CCAV 488/BCAV 489 (1963/65), primeiro na região do Oio (parte 1), depois na Ilha do Como (parte 2) e por fim na região de Farim (parte 3).

Tenho andado, desde as férias de verão, a cotejar as duas edições de Tarrafo (1965 e 1970). o meu coração e a minha razão pendem, inequivocamente para a primeira edição, para a sua escrita espontânea, potente, telúrica, sem autocensura... Na edição de 1970, revista, o autor aceitou - ou foi obrigado a aceitar - os "cortes" impostos pelos censores da época. A 2ª edição (autorizada) perde em vigor, frescura, autenticidade. Uma e outra estão esgotadas. Pelo que eu pensei proporcionar o prazer da leitura destas primeiríssimas crónicas da guerra da Guiné, dos anos de brasa de 1963/65, através da publicação, no nosso blogue, de uma parte de Tarrafo [, imagem da capa, no lado direito; edição de 1965].


2. Em conversa com um amigo e vizinho do Armor Pires Mota, igualmente nosso camarada, o José Marques Ferreira, ativo colaborador do nosso blogue,  fiz-lhe o seguinte pedido, a 5 do corrente:

Camarada Ferreira: Já que o Armor Pires Mota [, foto à esquerda, no lançamento, em Lisboa, 2010, da 2ª edição do seu romance 'Estranha Noiva de Guerra,'] é teu vizinho e estás em contacto com ele, transmite-lhe o meu pedido de autorização para publicar, no nosso blogue, as crónicas relativas à Ilha do Como (Op Tridente, Jan/Mar 1964)... Refiro-me à 1ª edição de Tarrafo (1965).

Lembra-lhe igualmente que continua de pé o nosso convite para ele integrar a nossa Tabanca Grande, convite que lhe enderecei pessoalmente na sessão de lançamento, em Lisboa, da 2ª edição da Estranha Noiva de Guerra. Um abraço para os dois bairradinos. Luís Graça


3. A resposta do J.M. Ferreira [, foto atual à esquerdaq,] não se fez esperar, por email, enviado a 6: 

Meu caro camarada Luís: Acabei de falar com o Armor Pires Mota. Uma conversa agradável, como sempre. Não se mostrou surpreso nem reticente quanto ao solicitado, que lhe foi lido.

1º - Autorização dada, quer «para a tabanca grande, quer para a tabanca pequena, enfim, para toda a gente», disse.

2º - Anda com a vida um pouco atribulada, por ter muito que fazer na área da especialidade (escritor). E eu até sei disso…

3º - Contei-lhe o belíssimo trabalho que o Luís anda a fazer com o seu (dele) «Tarrafo».

4º - Ele diz que gostaria de ver (ler), mas para ele «navegar» é um grande problema. 
 
5º - Diz que até ao mail ainda vai. Mas daí para a frente, nada feito.

6º - Pede ao Luís que esse trabalho lhe seja enviado por mail para: armor@jb.pt

7º - Só assim é que ele toma conhecimento. Eu gostaria que ele lesse o que tem sido escrito.

8º - Pede-me para transmitir, além da autorização já citada, que pelo Natal vai enviar, para o blogue, um conto desta época. 

E envia «mantenhas» para todos…Parece que é tudo da conversa havida. Um Ab. JM Ferreira

4. Comentário de L.G.:

Meu caro Ferreira: Mais célere não podias ser tu a levar a "carta a Garcia"... Na volta do correio, transmite ao teu amigo, vizinho e camarada (sei que estiveram os dois na mesma altura no TO da Guiné, tu em Ingoré, com a tua CCAÇ 462, ) o meu agradecimento muito sincero pela sua lhaneza de caráter, e pela sua resposta pronta e amável ao nosso pedido. Ficarei a aguardar, com especial carinho, o prometido conto de Natal. E, por outro lado, cresce a minha esperança de que o nosso Armor Pires Mota um dia destes, vencida a fobia da Internet,  se decida a sentar-se, também ele, no bentém da nossa Tabanca Grande, sob o nosso mágico, fraterno, sagrado, inspirador, protetor e secular poilão... Diz-lhe que precisamos de ter, no nosso poilão, irãs bons como ele, além de reforçar o lóbi bairradino...

Começo, a partir de hoje, a publicar as crónicas do Tarrafo, relativas à Ilha do Como (15 de Janeiro a 15 de Março de 1994) utilizando para oi efeito a primeira edição (pp. 47 a 85), incluindo essa sublime Oração (pp. 77/78) que os censores, estupidamente, cortaram de alto a baixo. Pelas minhas contas, 15 crónicas darão origem a 7/8 postes. Irei digitalizar o exemplar, fotocopiado, que tenho em meu poder, e que pertence à Biblioteca da Tabanca Grande. Este exemplar tem a particularidade (e a raridade) de mostrar as muitas páginas com os "cortes" ou "marcas" (traços, sublinhados, exlamações...) da censura. Boa leitura e melhores comentários. LG

PS - O nosso camarada Armor Pires Mota nasceu, em 1939, em Oiã, Oliveira do Bairro, região da Bairrada.

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Nota do editor:

Último poste da série > 3 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2403: Antologia (67): As Duas Faces da Guerra: Como si la guerra fuera un simple juego de ajedrez (Álex Tarradelas)

Guiné 63/74 - P8904: O Monumento aos militares mortos na Guerra Colonial de Castro Verde precisa de manutenção (José Colaço)

1. Mensagem do nosso camarada José Colaço* (ex-Soldado Trms, CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65), com data de 25 de Setembro de 2011:

Castro Verde
Monumento aos soldados mortos na Guerra Colonial

Hoje dia 25/09/2011 numa das minhas curtas visitas a Castro Verde visitei o Monumento erigido em homenagem aos militares mortos do Concelho de Castro Verde.

O Memorial , uma peça "sóbria e Digna" criada pela arquiteta Helena Passos "reinterpreta o obelisco e a coluna comemorativa, desenvolvida maioritariamente em ferro e em torno de um elemento instaurador em betão" - Explica o Município no seu folheto de apresentação, o qual te envio em anexo.

Duas coisas se apercebe o observador por mais incauto que seja.

Não estou a por em causa o valor da obra e o trabalho de todos aqueles que empenharam o seu esforço para que o monumento fosse um dado concreto.

Parte do material usado na peça de certeza que o ferro sem tratamento adequado não é o melhor para perdurar ao meio ambiente.

A degradação que está a sofrer só com dois meses de ali estar já se vê uma grande corrosão do oxido de ferro, as letras gravadas quase na cor da base tira se uma foto e não se consegue ler quase nada.

Havia e há uma lapide a entrada de Castro Verde ao lado do Aparthotel no sentido Lisboa - Algarve inaugurada em 5/10/ 2002. Também esta já se encontra um pouco degradada.

Segue também em anexo fotos que penso possam ou devam fazer parte do arquivo do Blogue.



Lápide à entrada de Castro Verde, ao lado do Aparthotel, inaugurada em 5 de Outubro de 2002.

Monumento inaugurado em 25 de Julho de 2011 em frente ao cemitério local.

Um abraço
Colaço
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 1 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8845: O que se comprava em Bissau, com o patacão da guerra ? Os produtos e as marcas que não havia em Lisboa... ou eram "proibitivos" (5) (Magalhães Ribeiro/José Colaço)

Guiné 63/74 - P8903: Notas de leitura (287): Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Setembro de 2011:

Queridos amigos,
Trata-se da mais detalhada antologia poética, decorre de um projecto de considerável dimensão, contou com o apoio dos autores, de entidades, de editores e de arquivos. Temos aqui a guerra e o seu esconjuro, o poema que liberta pela denúncia ou a ode que expõe o vate aos deveres do combate, a poesia como força de exemplo, a poesia para cantar ou para espantar fantasmas.
Quem poetou tem aqui lugar, independentemente da sua ideologia, das suas concordâncias e discordâncias. É um monumento a todos os poetas da guerra colonial. É uma antologia que a todos nós diz respeito.

Um abraço do
Mário


Antologia da memória poética da guerra colonial

Beja Santos

“Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial”, organizada por Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi (Edições Afrontamento, 2011) é sem dúvida alguma uma iniciativa para saudar, pela compilação de centenas de documentos, porventura a maior comunidade de memória poética da guerra colonial até hoje elaborada. É uma recolha de valiosos testemunhos subjectivos de, como escrevem os responsáveis pela antologia, de “eus estilhaçados por uma guerra”. Como se justificam: “A feitura desta antologia não pressupôs apenas um exigente trabalho de investigação, recolha, leitura e selecção. Implicou também um relevante esforço crítico para recolocar a questão do que é a poesia, sobretudo quando ela é portadora de uma memória subjectiva – memória poética – e, de qualquer modo, de uma memória ameaçada”.

Os autores preferem falar mais da memória poética da guerra colonial, abandonando discretamente o tratamento da poesia da guerra colonial. Esta memória é heterogénea, é o património de uma geração, há o material poético e a comunicação que dela emana: perdas e ganhos; exaltação e exultação; saudade e quebranto, ruptura com a solidão, ultrapassagem do precário ou do contingente. Uma antologia onde toda uma geração se pode rever, para lá das suas posturas ideológicas, porque essa memória poética é polifónica, é irmanada pela dor, fala do país, do inimigo, da paz, do apelo à vida. Os organizadores entenderam pôr esta memória poética em diálogo com as fotografias de Manuel Botelho. O produto final é manifestamente ousado, o precário da escrita olha-se ao espelho de um contraponto montado que fala da guerra com os olhos de hoje. Uma ousadia estética que torna a edição da antologia mais ambiciosa e intemporal.

A obra estrutura-se em “partidas e regressos”, “quotidianos”, a linguagem da morte, o dar guerra à guerra, o cumprir o dever da guerra, o pensar a guerra e a sua memória, os seus diferentes cancioneiros, elaborados ou populares. Como expressam os autores, uma antologia é sempre um olhar, entre a cumplicidade e a preocupação em acolher o maior denominador comum. Estão lá poetas dos três teatros de operações, estão lá poetas que contestaram na retaguarda ou que deram, nessa mesma retaguarda, ânimo ao sonho do império. Escusado é dizer que se procede a uma mera chamada de atenção para alguma da poesia de ex-combatentes da Guiné ou que por causa da Guiné versificaram. Está lá Armor Pires Mota que nos diz “Mãe, o teu filho anda na guerra:/ Traz os olhos gretados de lágrimas e medos/ e o pão amassado em sangue é boca a sangrar”.

Está lá Cristóvão de Aguiar e José Vale de Figueiredo com um poema intitulado “Gandembel, Natal 68”. Há poemas de Graça Padrão e de Álamo Oliveira, de José Brás, de Gustavo Pimenta que nos incita ou apela: “O meu País/ (o meu País existe, inteiro, na minha ideia)/ chora/ porque em seu nome combato/ descombato/ desbravo mato/ e mato./ O meu País/ está em sentido ao meu lado/ ressentido do meu fado/ mas orgulhoso porque diz/ que se me não curva a cerviz./ O meu País/ urge ser reinventado”.

Está lá, de Ruy Cinatti, o “Poema de uma guerra longe”, que veio por carta até Missirá, em resposta ao relato que eu lhe fizera de uma emboscada, já consta de diversas antologias, entreguei-o à Sociedade de Geografia de Lisboa, exactamente assim: “Sete horas húmidas, algures./ Progressão, fardas ensopadas./ Silêncio na terra de combate./ Silêncio nos corpos./ Estacas calcinadas./ O piar das aves, o olhar súplice/ Dois tiros quase num só eco./ O desabar das folhas, ramos rápidos./ Um grito que se apaga./ Missão cumprida, a meta adivinhada./ Febre sem alma ou acordo./ O peso súbito de um morto/ Caindo nos ombros estreitos,/ Doloridos,/ Da minha miséria”. Está lá “Os mortos de Pidjiquiti”, de Fernando Grade.

Está lá o mais belo de todos os poemas de todas as frentes de combate “Nambuangongo meu amor”, de Manuel Alegre. Como está lá, em nome de todas as guerras, “O menino da sua mãe”, de Fernando Pessoa. E o cancioneiro faz-se representar pelo inesquecível “Adeus Guiné”, de Mário Ferreira, que todos nós ouvíamos na rádio na interpretação do Conjunto Típico Armindo Campos. E há espaço para rimas de gosto popular como aquelas que são da responsabilidade de Santos Andrade: “Enquanto estivemos aquartelados/ nos arredores de Farim,/ passou-se o bom e o ruim/ mas hoje estamos descansados./ Houve o regresso de uns refugiados/ e o chefe dos CTT se deixou apanhar./ Depois de muito se lutar/ Canjambari se ocupou,/ e uma pista se arranjou/ para a avioneta aterrar”. Há também espaço para o brejeiro e o chocarreiro, caso do “Turismo da Guiné”, de Florêncio Silva e outros: “A situação na Guiné/ É melhor do que se pinta,/ Tente ir de bicicleta/ De Ganturé até Binta” ou “Pulseiras de prata bonita/ Adquirem-se em Bafatá,/ Uma bojarda nos cornos/ Apanha-se em Canquelifá”.

No posfácio, os organizadores, a propósito do registo estético, subjectivo e imediato, ou da produção pós-traumática da guerra, analisam a Poesia 61, com os seus poéticos críticos da retaguarda (caso de Gastão Cruz ou Luiza Neto Jorge), as diferentes incursões de poetas nacionalistas, antes e depois do 25 de Abril, detêm-se na poesia de José Bação Leal, Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco, os três unidos por aquilo que se poderá chamar a geração “habitada pela mesma ferida” e finalmente tecem considerações sobre a produção cultural desta poética, entrosando-a com a própria canção de protesto.

É uma longa viagem ao património de sofrimento que esta poesia expõe e possibilita a construção de futuras memórias.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 10 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8885: Notas de leitura (285): Até Lá Abaixo, de Tiago Carrasco (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 13 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8900: Notas de leitura (286): Lugar de Massacre, de José Martins Garcia (José Manuel M. Dinis)

Guiné 63/74 - P8902: Recortes de imprensa (52): Anjos na Guerra: a aventura das enfermeiras paraquedistas portuguesas, livro de de Susana Torrão (Diário de Noticias / Rosa Serra)

1. Transcrição, com a devida vénia, do DN- Diário de Notícias, 'on line', de 6 do corrente:
  Oficina do Livro > "Anjos na Guerra" de Susana Torrão já nas livrarias   
DN - Diário de Notícias,  6 Outubro 2011

A criação do corpo de enfermeiras paraquedistas da Força Aérea Portuguesa, em 1961, levou pela primeira vez as mulheres para as Forças Armadas. O livro relata a história dessas pioneiras improváveis, que quase passaram despercebidas ao seu país mas que acabaram por lhe dar uma lição de coragem. 



Sinopse: 

Estas mulheres que caiam do céu para tratar dos feridos e travar o sofrimento enfrentaram, ao lado dos soldados, a dureza do mato e a violência dos combates. Mas não só. Enfrentaram também o preconceito de uma sociedade conservadora, onde a ideia de enviar mulheres para um cenário de conflito era vista com enorme desconfiança. Em África, as enfermeiras faziam evacuações dos feridos da frente para os hospitais militares e prestavam apoio às populações civis, mas em Lisboa a sua acção era desconhecida para a maioria.

Sobre a Autora

Susana Torrão nasceu em 1972 e é jornalista. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, trabalhou no Diário de Noticias, Semanário, Semanário Económico e Focus. Trabalha como freelancer desde 2006 e, ao longo dos últimos anos, escreveu para publicações como Sábado, Exame, Notícias Magazine, NS, Público ou Fora de Série.

Anjos na Guerra é o seu primeiro livro. PVP 14,90 euros. 168 págs. [Editora: Oficina do Livro, Alfragide, 2011. ]

2. Comentário de L.G.: 

Ontem, 13, pelas 16 horas, quatro das nossas camaradas enfermeiras paraquedistas Cristina Silva, Rosa Serra, Gisela Pessoa e a Maria Francis, estiveram, no programa do João Baião e Tânia Ribas de Oliveira, "Portugal no Coração”,  RTP 1, acompanhadas pela Susana Torrão, autora do livro "Anjos na Guerra". Foi a Rosa Serra, membro da nossa Tabanca Grande, quem nos fez chegar a notícia, oportunamente divulgada pelo nosso correio interno.
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