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sábado, 14 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27821: Os nossos seres, saberes e lazeres (726): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247): A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer: Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
São fotografias avulsas, fruto de situações desirmanadas, recolhidas entre a manhã e o anoitecer, para falar com mais propriedade, entre o alvorecer e a queda do dia. Tomadas como instantâneos de carácter pessoal, como serve de exemplo passar junto de um vendedor de mancarra, caju e cola, ali no Rossio, fixar o olhar naquelas nozes que, pasme-se, até serviram de refrigério para a sede, quando se passava uma noite inteira no planalto de Mato de Cão, viera-se com um cantil de água, estava previsto transitar por ali barcos às oito da noite, passaram afinal com a primeira luz do dia, e de Mato de Cão a Canturé, onde se podiam apanhar as toranjas mais ácidas do mundo, eram 7Km e a língua encarquilhava pelo caminho, era nisto que uma mão amiga me dava um pedaço de noz para mascar, assim se apaziguava a tortura da sede, era impossível não estar ali deleitado com a recordação de coisas vividas há mais de meio século. Há recordações da natureza, há saudades de caminhadas, o leitor que de desculpe com aquilo que eu chamo os acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (247):
A câmara clara e a câmara escura de manhã ao anoitecer:
Acasos e descasos de exultação do fotógrafo remendão


Mário Beja Santos

As imagens que agora se desfilam cabem perfeitamente na categoria de acasos e descasos, passou-se por ali e o acaso é quando a memória entra em rotação, chega a produzir efeitos retroativos, logo o caso da primeira imagem, saiu-se do metro no Rossio, caminha-se pela Praça D. Pedro IV, são umas centenas de metros até à Sociedade de Geografia de Lisboa, há ali uns bancos, penso que por usucapião, pertença de homens grandes, alguns deles prontos para a venda ambulante, coisas da Guiné de lá vindas, ou coisas cá feitas para guineenses. O olhar fixa-se naquele saco aberto, coração estremece, toca a sineta das lembranças, puxa-se conversa com vendedor, se me dá licença que remexa nas nozes de cola, explico como elas me são familiares, como me ajudaram a matar a sede, mesmo com o seu grau de acidez peculiar, quem estava sentado faz perguntas, onde e quando esteve, já partimos mantenhas, escuso-me de prolongar a conversa, parto com recordações vívidas, dê por onde der, a Guiné vai dos cinco sentidos ao que há dentro da pele. Pois bem, vou justificar-me da razão das imagens que se seguem.
Nozes de cola à venda na Praça D. Pedro IV
Caminhava-se para o Natal, há sempre um pretexto para fazer um grupo e ir ver as iluminações da baixa. Só dei pelo aparato da imagem em casa, este rei D. José I terá dado muito trabalho a Machado de Castro, mas se o leitor decidir ir visitar o Museu Militar será surpreendido com uma construção ciclópica feita para transportar todo este peso até ao Terreiro do Paço. Francamente, o que mais gosto é ter o monarca bastante esfumado e mergulhado na escuridão com aquele casario estranhamente azulado, seguramente um acidente na operação do fotógrafo.
Ponho-me ali pasmado a conversar com a árvore luminosa, nem sei mesmo se aquela luz lá no cimo é a estrela de Belém, o que me deslumbra em toda esta cenografia da luz é o espetáculo das compras que a luminotecnia favorece, por ora anda-se ali em multidão só para desfrute da Baixa iluminada, ponho muitos pontos de interrogação se quem anda a esta hora aqui a passear vem amanhã ao longo do dia participar no frenesim das compras.
Não escondo que sou um aficionado da Feira da Ladra, venho cedo fundamentalmente por causa da compra de livros, mas sempre deitando um olho à variada traquitana. O grande fornecedor dos apetecíveis livros ainda não chegou, avanço para junto do antigo Hospital da Marinha que vai seguramente ser um condomínio de prestígio e apanho em simultâneo as luzes amarelecidas da noite que escapa e daquele céu que clareia na outra banda, com o Tejo de premeio.
Vou depois deambular pelos fascinantes murais opostos ao paredão do Jardim de Santa Clara, gozo com o artifício das luzes amareladas, que não existem na realidade neste monumental azulejar, ali predominam os tons azuis e as cores berrantes, enfim são artifícios só possíveis porque a noite ainda não acabou e o dia ainda não nasceu.
É quase um espetáculo fantástico aqui no Largo de Santa Clara, estão a chegar os vendedores, vão tirar todos os seus trastes das carrinhas e ocupar os espaços demarcados, os agentes da polícia municipal a vigiar os movimentos, mas o que me interessa é a luz esborratada do céu a conjugar-se com aquele amarelo da noite agonizante.
Sou um grande apreciador do artista Jacinto Luís, tenho dele um óleo e uma serigrafia, cativa-me o seu claro-escuro que podem ser edifícios ou até naturezas mortas, e quando me voltei para o Panteão de Santa Engrácia foi instantaneamente a lembrança que me ocorreu, estivesse aqui o Jacinto Luís, certo e seguro de que teríamos tiro e queda para quadro a óleo ou serigrafia.
Estou no terraço do meu casebre no Reguengo Grande, a última freguesia no concelho da Lourinhã já a bordejar o Bombarral, fantasio que vem lá do cimo do mar e tem o oceano a menos de 20Km toda esta Glória dos céus, mais do que o anúncio do fim do dia encho-me de felicidade com esta cavalgada de céu sanguíneo, há para ali uma mensagem em que me convida a amar a vida e a bendizer o dia que fenece e a agradecer a Deus a bênção do dia seguinte.
Desço um caminho escalavrado a partir de minha casa, cumprimento a Susana e o Henrique, depois o casal alemão da casa ao lado, meto-me numa vereda e minutos depois estou em Vale Cornaga, um mundo que me parece perdido, terá tido moinhos, campos lavrados, possui recantos idílicos, e nesta invernia água não falta; todo este caminho é frequentado por pedestres e há quem para aqui traga os seus cães, nos declives houve outrora culturas, agora é tudo abandono e as próprias habitações entraram em derrocada. É um vale que nos mostra o significado da interioridade, a pouco mais de 70Km de Lisboa, a perto de 60Km da vastíssima Loures, uma das dimensões suburbanas da Área Metropolitana. É assim o nosso Portugal desigual.
Toda a Igreja de Nossa Senhora de Fátima é património incomparável que saiu do traço do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro e do génio de Almada Negreiros. Sempre que posso venho contemplar os vitrais de Almada e a harmonia que se respira de todo o conjunto. É inevitável a visita ao batistério, aqui fui batizado em julho de 1945, da comunicação entre Pardal Monteiro e Almada resultou esta efervescência de luz e a transbordante espiritualidade que nos evoca o princípio da caminhada na crença de um amor de Deus que se reparte pelos outros humanos.
Um dia, o meu amigo João Sousa Pires, que foi furriel em Missirá, no Regulado do Cuor, mostrou-me esta imagem, a chegada da água da fonte em bidons para o então horrível balneário, um recinto rodeado de folheta, alguma dela ferrugenta, onde muita gente se golpeou, antes ou depois de se lavar naquela água a cheirar a petróleo ou coisa parecida. O que importa neste momento é ver na caixa da viatura Cido Indjai, militar brioso, caçador exímio, não percebia bem porque é que eu não gostava nem da carne do porco do mato nem da gazela; a caminhar para nenhures vejo em tronco nu Nhaga Macque, primeiro-cabo, fumava cachimbo e tinha as maneiras de um príncipe. Saudades de dois amigos que não voltarei a ver.
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Nota do editor

Último post da série de 7 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27803: Os nossos seres, saberes e lazeres (725): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (246): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 2 (Mário Beja Santos)

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27410: Efemérides (472): Fotos da Festa do Fanado que decorreu em Tite no mês de Novembro de 1969 (Aníbal José Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)


1. Em mensagem de 5 de Novembro de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos algumas fotos da Festa do Fanado que decorria neste mês de novembro.

Caro Carlos Vinhal
Para uma próxima publicação, em anexo envio um pequeno texto e fotografias, com relação à Festa do Fanado, que costumava ocorrer durante o mês de Novembro na Guiné-Bissau.

Um forte abraço
Aníbal Silva



FESTA DO FANADO NA GUINÉ BISSAU EM 69/70

Genéricamente, o “Fanado”é um ritual de iniciação da vida adulta, praticado por rapazes (trata-se, entre outras coisas, da circuncisão) e raparigas (em alguns casos envolvendo a prática da excisão, criminalizada na Guiné-Bissau desde 2011) e era efetuado por várias etnias, variando a idade dos intervenientes, a periodicidade com que era praticado ou a sua duração.

Com o Fanado, os jovens tomavam consciência da sua função social e da sua personalidade, passando em algumas etnias, um período na floresta ou no mato, no cumprimento de uma série de cerimónias envoltas em grande secretismo de que não deviam falar quando regressassem e assumissem o seu novo papel na sociedade.

Este assunto está amplamente divulgado em 29 Postes deste Blogue, autoria de vários Tabanqueiros.

A minha vinda a terreiro a este tema, é simplesmente para dar a conhecer e partilhar as fotografias anexas, que tirei em Tite em Novembro de 1970, não sei se no início, se no fim da festa do Fanado.

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Nota do editor

Último post da série de 6 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27392: Efemérides (471): Convite do Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-general Joaquim Chito Rodrigues, para a cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza no dia 18 de novembro de 2025, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa, durante a qual será condecorado, com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes, o nosso editor Luís Graça

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27283: Agenda cultural (904): Continuação da minha visita em 21 de setembro à exposição “Venham mais cinco, o olhar estrangeiro sobre a revolução portuguesa, 1974-1975”. Para ver até 23 de Novembro de 2025, no Parque Tecnológico da Mutela, Almada (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
"Venham mais Cinco, O Olhar Estrangeiro Sobre a Revolução Portuguesa, 1974-1975", é uma exposição soberba como auxiliar da História, por nos trazer à memória eventos que acompanhámos na época, mais não seja pelos órgãos de comunicação social. Como se escreve na folha de sala, "De um dia para o outro aterraram em Lisboa fotógrafos das maiores agências internacionais, jovens e veteranos, que captaram imagens por todo o país, acompanhando a sucessão vertiginosa dos acontecimentos. Muitos vieram em missões de curta duração, outros instalaram-se vários meses para perceber e retratar o que se passava. Quase tudo era surpreendente para os estrangeiros: a situação política inédita num país europeu, o quotidiano dos portugueses, a forma como a política entrava na vida da população. Eram fotógrafos experientes. Tinham um olhar incisivo, procuravam imagens para as capas de revistas de maior tiragem, mas também revelavam empatia, encantamento e genuíno interesse antropológico. Durante cerca de um ano e meio fotografaram tudo e transmitiram ao mundo esse novo conceito: a revolução dos cravos. Após 50 anos, alguns arquivos desapareceram. Assim, em casos excecionais, quando não houve acesso a negativos nem a provas de papel, decidiu-se reproduzir fotografias publicadas em livros. À data de hoje é a única forma de partilhar imagens únicas, de um período decisivo da história e que nunca estiveram reunidas em Portugal."

Um abraço do
Mário



Continuação da minha visita em 21 de setembro à exposição “Venham mais cinco, o olhar estrangeiro sobre a revolução portuguesa, 1974-1975”.

Exposição de visita obrigatória, ajusta-se à Educação para a Cidadania, oxalá que percorra o País todo

Mário Beja Santos

A exposição decorre no Parque Tecnológico da Mutela, em frente das ruínas da Lisnave, pode ser vista até 23 de novembro. Porquê Venham mais cinco? É o título de uma canção de José Afonso, inicialmente escolhida para ser tocada na Rádio Renascença na madrugada de 25 de abril de 1974, como senha do início do golpe militar. Mas, como esta canção estava proibida na rádio, a senha acabou por ser substituída por Grândola, Vila Morena. Através deste título, os organizadores prestam homenagem a José Afonso.

Na folha de sala o curador da exposição, Sérgio Tréfaut, recorda in memoriam Margarida Medeiros, pelo seu papel essencial neste levantamento único de imagens:
“Venham mais cinco foi uma ideia que surgiu no verão de 1993, quando Margarida Medeiros e Ana Soromenho propuseram que se fizesse uma grande exposição com as imagens dos fotógrafos estrangeiros que haviam retratado o processo revolucionário português. No ano seguinte seria comemorado o vigésimo aniversário do 25 de abril. Margarida e eu rumámos a Paris e mergulhámos nos arquivos das grandes agências internacionais, vasculhando milhares de provas de contacto.
Três décadas depois, a expedição abre as suas portas. Entre o início da nossa pesquisa, no outono de 1993, em Paris, e o seu recente desaparecimento, Margarida Medeiros tinha-se transformado numa das maiores especialistas de fotografia em Portugal, autora de livros de referência, curadora de exposições e responsável pela formação de várias gerações de estudantes. Esta exposição nasceu da nossa amizade.”


Na primeira visita pus o foco nos acontecimentos ligados ao 25 de abril e às primeiras transformações sociopolíticas e económicas ocorridas no país. Senti, no entanto, que ainda havia algumas imagens a captar, seguindo depois para os acontecimentos da Reforma Agrária, as eleições do 25 de abril, as independências e o retorno de muitos, e, finalmente, o 25 de novembro, com este evento diminuiu drasticamente o interesse do olhar estrangeiro sobre a Revolução portuguesa. Vamos, pois, a este punhado de imagens que tenho o maior prazer em partilhar convosco.

Começa-se pelas secções A Festa da Liberdade e Novas Formas de Poder
Henri Bureau, Getty Images, 1º de maio 1974, Lisboa
Guy Le Querrec, Magnum Photos, julho 1974, Lisboa
Guy Le Querrec, Magnum Photos, maio 1975, Beira Alta. Campanhas de Dinamização Cultural, Veterinários do MFA vacinam suínos

Imagens representativas da Reforma Agrária e as mudanças no Alentejo:
Vojta Dukát, 1975, Aljustrel
Sebastião Salgado, 1975, Aljustrel. Trabalhadores na sede do PCP
Sebastião Salgado, julho de 1975, Alentejo. Conversas entre trabalhadores agrícolas
Sebastião Salgado, outubro 1975, Alcácer do Sal. Ocupação de um latifúndio por trabalhadores agrícolas
Guy Le Querrec, Magnum Photos, 25 de abril 1975, Baleizão. Primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte
Jean-Paul Paireault, 1975, Beja. Comício do PCP, Álvaro Cunhal, secretário-geral do partido, ao centro

Imagens das independências:
Jean-Claude Francolon, setembro 1974, perto de Tete, Moçambique. Imagem da reconciliação tirada a pedido do fotógrafo
Sebastião Salgado, dezembro 1975, Angola. Hospital recebe soldados feridos da Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA) e civis atingidos durante a fuga
Alain Mingam, Getty Images, 11 de novembro de 1975, Luanda. Crianças-soldado durante um desfile no dia da independência
Alécio de Andrade, ADAGP, Verão de 1974, porto de Lisboa. Retornados chegam da Guiné-Bissau
Alain Keler, Agence Myop, setembro de 1975, Padrão dos Descobrimentos, Belém. Caixotes dos retornados
Sebastião Salgado, 1974, Fátima. Antigo combatente vem agradecer à Virgem Maria

Imagens de um país dividido:
Alain Mingam, Sipa Press, 12 de novembro de 1975, Lisboa. Deputados passam a noite no Palácio de São Bento, cercado pelos manifestantes
Sebastião Salgado, 7 de julho de 1975, Rio Maior. Primeiro grande ataque às sedes do PCP

Imagem do 25 de novembro:
Alain Mingam, Getty Images, 26 de novembro de 1975, Tancos. Paraquedistas rendem-se às forças vitoriosas

(Fotos editadas por CV)
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Notas do editor:

Vd. post de 26 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27258: Agenda cultural (902): "Venham Mais Cinco", o olhar estrangeiro sobre a revolução portuguesa, 1974-1975, exposição fotográfica para ver até 23 de Novembro de 2025, no Parque Tecnológico da Mutela, Almada (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27270: Agenda cultural (903): Convite para a Conferência Círculo do Mar - "Dar Voz Às Guarnições" - Ultramar 1961-1974, dia 16 de Outubro de 2025, pelas 17 horas, a ter lugar na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Palácio da Independência, Largo de São Domingos, Lisboa (José Maria Monteiro, ex-Marinheiro Radiotelegrafista)

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27258: Agenda cultural (902): "Venham Mais Cinco", o olhar estrangeiro sobre a revolução portuguesa, 1974-1975, exposição fotográfica para ver até 23 de Novembro de 2025, no Parque Tecnológico da Mutela, Almada (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Para mim, é a exposição do ano, poder mergulhar nas imagens que grandes fotógrafos estrangeiros tiraram do nosso período revolucionário. Exposição inigualável, seguramente irrepetível, goza de todos os condimentos para poder percorrer o país. Impressionou-me a afluência, a alegria e a espontaneidade das observações de quem observava as chaimites, os soldados prostrados pelo cansaço, aquele memorável 1.º de maio, a maior festa que houve em Portugal. Cingi-me às muitas dezenas de imagens que falam do período libertador, voltarei para mergulhar na revolução, nos conflitos militares, na reforma agrária, no desaguar do PREC. É bom sentir-me um octogenário que vibra com imagens daquele passado transformador, estão ali as raízes da nossa democracia, e este olhar estrangeiro sobre a revolução portuguesa dá-nos acalento.

Um abraço do
Mário



Venham mais cinco, o olhar estrangeiro sobre a revolução portuguesa, 1974-1975:
De visita obrigatória, própria para a Educação para a Cidadania, oxalá que percorra o País todo


Mário Beja Santos

A exposição decorre no Parque Tecnológico da Mutela, em frente das ruínas da Lisnave, pode ser vista até 23 de novembro. Porquê "Venham mais cinco"? É o título de uma canção de José Afonso, inicialmente escolhida para ser tocada na Rádio Renascença na madrugada de 25 de abril de 1974, como senha do início do golpe militar. Mas, como esta canção estava proibida na rádio, a senha acabou por ser substituída por "Grândola, Vila Morena". Através deste título, os organizadores prestam homenagem a José Afonso.

Na folha de sala o curador da exposição, Sérgio Tréfaut, recorda in memoriam Margarida Medeiros, pelo seu papel essencial neste levantamento único de imagens:
“Venham mais cinco foi uma ideia que surgiu no verão de 1993, quando Margarida Medeiros e Ana Soromenho propuseram que se fizesse uma grande exposição com as imagens dos fotógrafos estrangeiros que haviam retratado o processo revolucionário português. No ano seguinte seria comemorado o vigésimo aniversário do 25 de abril. Margarida e eu rumámos a Paris e mergulhámos nos arquivos das grandes agências internacionais, vasculhando milhares de provas de contacto.
Três décadas depois, a expedição abre as suas portas. Entre o início da nossa pesquisa, no outono de 1993, em Paris, e o seu recente desaparecimento, Margarida Medeiros tinha-se transformado numa das maiores especialistas de fotografia em Portugal, autora de livros de referência, curadora de exposições e responsável pela formação de várias gerações de estudantes. Esta exposição nasceu da nossa amizade.”


Dá-se hoje ao leitor uma imagem muito parcelar da exposição, o nosso património histórico fica muitíssimo mais enriquecido com os olhares de grandes profissionais que por aqui passaram desde o golpe de Estado até ao fim do PREC. Procurei focar-me na primeira secção centrada nos atos libertadores, também tenho direito à comoção, a memórias que ganham eletricidade, podendo apanhar um metropolitano à porta de casa até ao Cais do Sodré, meter-me num barco Transtejo e um autocarro da Metropolitana, preferi uma visita mais cuidada, que irei continuar nas próximas semanas, esta exposição inesquecível merece que se venha e que se volte, há imagens luminescentes que vieram completar o nosso acervo e a obra dos nossos grandes fotógrafos. Prometo continuar.

Entrada do Parque Tecnológico da Mutela, Almada, exposição a aguardar visitas até novembro
Henri Bureau, Sygma/Corbis via Getty Images, 27 de Abril 1974, Lisboa
Jean-Claude Francolon, Gamma-Rapho via Getty Images, 26 de Abril 1974, Rua do Alecrim, Lisboa
Henri Bureau, Sygma/Corbis, via Getty Images, 26 de Abril 1974, Lisboa
Jean-Claude Francolon, 1º de Maio 1974, Lisboa, entrada do estádio onde tem lugar o comício
Henri Bureau, Sygma/Corbis, via Getty Images, 1.º de Maio 1974, Avenida Almirante Reis, Lisboa
Henri Bureau, Sygma/Carbis, via Getty Images, 28 de Abril 1974, Estação de Santa Apolónia, Lisboa, multidão espera Mário Soares, líder do Partido Socialista no seu regresso do exílio
Elementos da PIDE/DGS presos em Caxias, 1975
Jean-Claude Francolon, Gamma via Getty Images, 26 de Abril 1974
Largo do Carmo, Lisboa
Paola Agosti, Abril 1974, Lisboa
Jean-Paul Miroglio, Lisboa, 1975, Crianças saúdam a passagem de una manifestação
Serge July Fotolib/Bibliothèque Historique de la Ville de Paris
Abril 1975, Lisboa, Visita de Jean-Paul Sartre a Portugal
Jean-Paul Miroglio, 1975, Alverca, Cantina da Fábrica Mague, Arroz-doce
Guy Le Querrec Magnum Photos, maio de 1975, Parada de Ester, Beira Alta, Campanhas de Dinamização Cultural, Convívio de militares e camponeses
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27247: Agenda cultural (901): Convite da Liga dos Combatentes para a Festa do Livro, a decorrer entre os dias 25 e 28 de Setembro nos Jardins do Palácio de Belém, conforme o programa