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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27716: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII: Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... "pornográfica", em Catió


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió 

"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando. Presença de militares, civis da administração, correios e comerciantes locais.

"Da esquerda para a direita, 

(A) um militar, de camuflado, que não consigo identificar; 

 (B) de costas, o cap médico Morais; 

 (C) o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso; 

 (D) quatro funcionários dos Correios e da Administração; 

(E) o comerciante Sr. José Saad [libanês] e filha; 

(F) o comerciante, Sr. Mota; 

(G) o comerciante, Sr. Dantas e filha; 

(H) o comerciante, Sr. Barros; 

(I) o electricista civil, Jerónimo: 

(J) e, por fim, o alf  graduado capelão Horácio [Neto Fernandes]" [um capelão isolado, mais próximo dos civis do que dos militares, um padre que não está bem com Deus nem com César...].


 Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando. As NT em formatura.



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando.  

Álbum fotográfico do Victor Condeço (1943/2010).

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)-.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos sete postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) e,por fim,  em 1967, a sua mobilização  para a Guiné, como capelão militar. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4.ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga.

Até ser ordenado padre, passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre, ainda antes de completar os 24 anos. Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2.º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII:  Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... pornográfica

por Horácio Fernandes

Cenário 3. - Regresso ao antigo Colégio Angélico como Subprefeito de Disciplina e mobilização para Capelão Militar

Regressado ao antigo Colégio Angélico, por imposição dos Superiores, e sem qualquer explicação, mergulhei novamente no passado. 

Os alunos ainda faziam exames internos e ia ficar sob a jurisdição de alguns dos meus antigos professores e Prefeitos. Contudo, alguma coisa tinha mudado: faziam-se encontros de futebol com outros Seminários e davam-se passeios, sem o traje ritual, embora as normas disciplinares se conservassem as mesmas.

Talvez por isso e porque pouco podia alterar, como Subprefeito que era, dediquei-rne mais à direcção espiritual das freiras e à pregação. Comecei por alguns tríduos e acabei nos sermões de festa. O fundamental era conseguir a técnica, que variava, consoante o auditório. Escrevia todo o texto do sermão e arranjava algumas estórias piedosas para comover o público.

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A princípio, decorava todo o sermão, mas depois comecei a decorar apenas as linhas mestras. Para despertar o auditório, havia exclamações oratórias sonantes, nos momentos cruciais. Neste campo, como nos outros, fui autodidacta, aprendendo com a experiência e os erros.

Passados dois anos, em que já tinha uma clientela razoável, nas freguesias vizinhas, talvez devido à muita procura e escassez da oferta, fui mobilizado pata Capelão Militar, em substituição de um colega a quem tinha morrido a mãe.

Em Agosto de 1967, com 32 anos de idade,  fui convocado para submeter-me a um treino, de cerca de um mês, na Academia Militar, para exercer as funções de Capelão na Guerra Colonial.

Era um Bispo, com o posto de Brigadeiro que estava à frente da Capelania Militar. Nas aulas de Deontologia Mlitar realçava o papel do Capelão, como levando o conforto espiritual aos valentes soldados que lutavam contra os inimigos que pretendiam destruir a civilização cristã e o nosso esforço missionário.

 Contudo, nos dois anos de Capelão Militar, sempre verifiquei que os chefes da Capelania preferiam o conforto do Quartel General de Bissau, a visitar os capelães que estavam em zona de guerra.


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Cenário 4. - Capelão Militar na Guiné. A Guerra Colonial e as minhas guerras.

A mobilização para Capelão Militar significou um corte, quase radical, com as estruturas conventuais; A partir daí, o local de habitação era o quartel, indo aos fins de semana a casa, recebia e administrava o meu vencimento de aspirante e depois alferes graduado capelão. 

Na qualidade de capelão, estava sujeito à jurisdição da Capelania-Mor. Este desenraizamento da instituição, a quem me tinha umbilicalmente ligado, desde os 10 anos, abriu caminho a uma série de interrogações e relacionamentos, até aí impossíveis de conceber.

O treino teve componente teórica e prática. As lições práticas consistiam em exercícios físicos todos os dias e algumas lições de tiro, que nunca foram levadas a sério pelos instrutores, porque diziam que a nossa missão não era essa. Assim se passou um mês, até ao embarque.

Fiquei reprovado a Treino Físico, porque não podia dobrar bem a articulação do joelho esquerdo, mas fui aprovado como os outros.

A distribuição dos capelães pelos batalhões causou-me alguma confusão. Todos os meus colegas tinham grandes «cunhas» e vinham já destinados a batalhões da Marinha e Aviação, as armas mais apetecíveis. 


Mesmo os destinados ao Exército vinham bem recomendados pelos bispos das dioceses, ou padres amigos. Sem conhecer ninguém, senti-me só e desamparado e fui mandado para a Guiné para um Batalhão de Artilhari
a [BART 1913, Catió, 1967/69], que já ia em 8 meses de comissão de serviço.(**)

Embarquei, em setembro de 1967
 [esteve no CTIG, de 1/11/67 a 3/11/69],  no paquete «Uíge», com destino à Guiné, tendo à partida a dizer-me adeus apenas a minha família. 

-129-


Os meus confrades tinham -se esquecido. Este esquecimento e o sistema das «cunhas» entre membros da Igreja, a que não estava habituado, fízeram-me reflectir um pouco. 

Contudo, o momento não era para grandes análises, nem estava habituado a elas, mas a obedecer.

Desde que fui mobilizado parecia um jovem gamo. Tudo era novidade. Parecia que estava a viver a minha adolescência, até aí submersa.

Coincidiu com as férias grandes e gostava de me fazer acompanhar pela gente nova da minha terra. Rapazes e raparigas estudantes eram uma presença permanente em minha casa, durante as três semanas de férias que antecederam a partida. 

Eu representava para meus pais, e restantes famílias de Arribas do Mar a segurança, face à tentativa, sobretudo das raparigas adolescentes, de sacudir a pressão dos familiares, considerados já antiquados. Por isso, organizava piqueniques, festas, idas ao cinema. Um acordeão que me tinham oferecido acompanhava-me para toda a parte, não obstante pouco saber tocar.

Desde que saíra do Seminário, vivia o quotidiano como uma aventura. A ida para a Guiné fazia parte dessa aventura de adolescente, onde não cabia a problemática política, nem os perigos que podia correr.

Ia contactar com a Africa dos meus sonhos de Angélico, em circunstâncias de guerra, de que não fazia a mínima ideia, mas estava acima de tudo curioso.

 Comprei as fardas, recebi os abonos adiantados que fizeram muito jeito aos meus pais e embarquei carregado de trintários (15) pelas almas do purgatório e de presentes para os soldados da freguesia e concelho.

Os 6 dias de viagem foram passados, agarrado a um potente rádio que tinha comprado, a ouvir notícias da Metrópole. Enjoava, e, por isso, sempre que podia, subia ao no convés, para conversar com os cabos e praças de outras companhias. 

Ainda meio atordoado, desembarquei em Bissau, partindo na primeira avioneta militar para o sul da Guiné.

A recepção nunca mais a esquecerei. Os oficiais estavam já à mesa, para o almoço. Deixei as malas no jipe que me foi buscar ao campo de aviação de terra batida e fui sentar-me, onde havia um lugar vazio. Reparei que,  antes da sopa, começou a correr, de mão em mão, um envelope de fotografias em ponto grande, mas não liguei importância. 

Era uma armadilha.

Daí a pouco, o capitão que estava a meu lado, passou-mas e,  ao abrir, verifiquei que continham mulheres nuas, algumas a fazer sexo nas posições mais esquisitas. 

O capitão ia passando-as, uma a uma, diante de mim, concerteza para ver a minha reacção. Eu fiquei muito embaraçado e,  sem o fair play necessário nestes momentos, perguntei-lhe:

- É a sua mulher?
_________________

Nota do autor LG:

(15) Conjunto de trinta missas seguidas com que os familiares costumavam sufragar as almas dos defuntos, por vezes por imposição testamentária.

- 130-

Este incidente estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia tentasse mnimizá-lo. O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido,  e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. 

Só passados vários meses me voltou a falar.

- 131-


(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)
 ____________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos
 
Últimos postes da série: 
 




(**) História da unidade: Batalhão de Artilharia nº 1913

Identificação:  BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia

Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso | 2.° Crndt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes 
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Cornp:

CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa 

CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes

CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges

CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso

Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese da Atividade Operacional:

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector
S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió,
Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação,  e Cabedú, também extinto em
30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança
ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a
recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas
foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de
armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu
seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso. (...)

(...) Tem História da Unidade (Caixa nº 80 - 2ª Div/ 4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pp. 215 e 217

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971


Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim)


1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.

É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha.  Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor. 


O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.

O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53). 

Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).




Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira




(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor, 
Vila do Conde, 2025, pág. 56)


2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:


Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.

Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.

Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.

É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.

Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).

Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que  os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos. 

Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.

A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.

É autor, entre outros dos livros:

"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).

3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:

(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:

- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;

- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.

Louvores (transcrição):

  • Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):

(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.


"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)

  • Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);

(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.

"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.

"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.

"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)


4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...


O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.

Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.

Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".

Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.

Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."

(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.

"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".

Contactos:

Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com

(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:




terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre


Lisboa > Carnide > Seminário Franciscano da Luz > "O Seminário de Nossa Senhora da Conceição da Luz, vulgarmente conhecido como Seminário da Luz, ou Seminário Franciscano, ocupa um antigo palácio neoclássico, mandado construir em 1878 por Jacinto José de Oliveira. Os frades da Ordem Franciscana adquiriram o palácio em 1939 e, no ano seguinte, iniciaram obras de ampliação e adaptação às novas funções. A fachada principal, virada a ocidente, aberta sobre o Largo da Luz, é densamente decorada"




Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Horácio Fernandes,  falecido no passado mês de novembro, foi capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer  37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  cinco  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia  (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela)  e depois de  Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution".

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 
.
Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

 
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

Recorde.se que, além do Horácio Neto Fernandes (nº 42,  de uma lista de 113 capelães militares) houve mais seis da Ordem dos Frades Menores (OFM), que estiveram no CTIG (de 1961 a 1974). Eis os nomes, por ordem alfabética:

  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sousa Brandão (nº 79): de 25/9/1871 a 22/12/1973;
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI:  Corista de filosofia e teologia e depois  padre 

por Horácio Fernandes


4.3. - Corista de Filosofia

A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anos [em Leiria, no Convento da Portela ou de Sáo Francisco ].

Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo. 

Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.

O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio. 

- 120 - 

Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.

Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.

Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche,  não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias. 

Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.

Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.

Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos. 

Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto,  e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar. 

Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .

Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono. 

Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor. 

Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.

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Entretanto; alguém deu o alarme e  os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.

Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto   adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela, com uma pneumonia e depois com uma osteamilite  , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber  visita da família.

 Apenas o Director Espiritual me visitava  a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação   passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam   entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente   um médico, amigo do Seminário.

Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro,  se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:

- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?

Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que,  se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.

Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano  de Teologia, em 1956.

- 122 - 

4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.

 Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].

Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização. 

O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.

O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.

A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.

Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional. 

Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.

Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas  debaixo do hábito, ou quando passavam pelo   Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar. 

Embora  os Mestres evitassem o contacto dos Coristas  com eles, era inevitável, o que me fazia   questionar porque para uns havia uma Regra  e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações   não abalavam a confiança na instituição. O  'habitus' estava bem arreigado.

- 120 -

4.4. Corista de Teologia e Padre

Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o  estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.

 Primeiro  aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença,  aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro  e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica   ao fémur, já em Lisboa. 

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Apenas no  2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).

No primeiro ano de Teologia, quase não  saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso,  ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas. 

Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por  professores e Mestres de Coristas. 

Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico,  que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.

A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos. 

Para mais facilmente  captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio  entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.  

O contacto com as crianças das escolas primárias era  uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.

A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo  aturado das Disciplinas Teológicas.  

Empenhado nestas tarefas,  vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.

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4.4.  A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).

 Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.  

O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e,  mesmo  ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio,  era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'toties quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).(**)

Circunscritos ao microcosmo do Seminário, a mundividência dos Coristas não ultrapassava os altos muros da quinta. 

Acesso aos meios de comunicação social não tinha, e as notícias chegavam-me filtradas pela tripla censura: política, eclesiástica e do próprio 'habitus'.  

Em contrapartida, este Seminário de Teologia tinha padres muito importantes que tinham um estatuto à parte e quase só apareciam na comunidade, nas festas. 

Os mais «respeitáveis» eram geralmente os mais próximos de famílias importantes da finança, política ou da cultura, e, que, por intermédio deles, eram«benfeitores» do Seminário. 

Estes «benfeitores» tinham direito a missa particular nas suas quintas, não fossem os serviçais cometer o  pecado de faltarem ao preceito dominical, ouvindo as homilias de domesticação.

Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias   ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.

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 Talvez por  isso estive, quase completamente, alheado do momento quente   das eleições de 1959 (***).

 Lembro-me,  apenas, que me mandaram  e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».

Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.

Outra recordação que conservo viva,  foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado. 

Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois,  o  que nos nos obrigou  a acabá-lo depois dos outros três colegas.

Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).

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Notas do autor:

(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.

(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2°  ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).

(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.

(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio. 

Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).

(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.

(13) Vd. nota (10).


(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, negritos,  itálicos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

(**) A exressão latina "toties quoties" quer dizer em português  "tantas vezes quantas" ou "tantas indulgências plenárias quantos os terços (ou orações) que rezar".

É uma locução usada principalmente no contexto litúrgico católico para indicar uma indulgência plenária /ou um benefício) que pode ser ganha repetidamente ("tantas vezes quantas" se cumprir a condição).

(***) Lapso do autor,  que trocou o ano; queria referir-se às eleições presidenciais de 1958, a 8 de junho, em que o regime de Salazar foi posto à prova:  num escasso milhão de votos (cerca de 70% dos recenseados), Américo Tomás foi eleito  com 75%, contra Humberto Delgado (23%), graças também à fraude (como o próprio Horácio Fernandes, de resto,  aqui candidamente exemplifica : votou duas vezes, uma de manhã e outra tarde).

Os franciscanos, vítimas do anticlericalismo primário da ( e expulsos pela) República em 1910, eram naturalmente gratos e afetos ao Estado Novo.