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terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27789: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

Foto do álbum do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas, o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf grad capelão Horácio  Fernandes (9)".

Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ".  

Foto (e legenda): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Chegámos ao fim desta série, baseada na reprodução de  excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, em 1935, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu no passado mês de novembro de 2025,  aos 90 anos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constituiu família, passando a viver no Porto.

Nos dez  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram:  
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno,  o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra natal), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passou a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras, já ao pé de casa);

(vi) seguiu-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela);

(vii) e depois de Coristado de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(viii) no início do 2º semestere de 1967, foi chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(ix)  foi mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado no BART 1913 (Catió, 1967/69);

(x) a sua vocação sacerdotal começou a ser  abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas. 


2. Achámos que era uma história de vida que merecia ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

Considerámos tratar-se de um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem acima, do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão 

por Horácio Fernandes

6. - A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

De novo, e no fim deste desenvolvimento autobiográfico, se coloca a questão de saber qual a relevância científica da descrição fenomonológica de uma vida.

Defendemos (vd. cap 3° da dissertação de mestrado) que a individualidade, não só  não  esgota as explicações estruturais - Francisco é produto de uma construção social em contexto salazarista - como estas podem ser enriquecidas pela análise daquela.

Francisco não se deixou dilacerar, como porventura conviria a uma autobiografia mais épica (mas menos real), prioritariamente por dilemas políticos, ou por dilemas teológicos. 

O trânsfuga, em que o tornaram e em que se tornou, era constituído por uma contradição que não lhe parecia insuperável, mas que as normas institucionais tornaram insuperáveis, entre a busca da sua identidade pessoal e a sua identidade profissional. Contradição essa, constituída prioritariamente por um cadinho de sensibilidades e afectos que ele, por excesso, não conseguia conter, dentro do «ego» que pensou ser o seu, durante 26 anos.

Nos últimos tempos de Capelão Militar, Francisco andava em grande perturbação. Por um lado o habitus (**) predispunha-o e quase o obrigava a regressar à instituição. Por outro, achava que após a experência de uma vida diferente, a força das suas representações esmorecera e já não iria assumir a sua missão, apaixonadamente. 

Abandonar, para ele, também era um terrível obstáculo, pois uma terrível frase não só o matraqueava, como se entranhara nele: tu es sacerdos in aeternum (tu és sacerdote para sempre).

- 133 - 


O habitus,  como dupla personalidade que é, resiste sempre a qualquer reconstrução que contra si se faça. A reconstrução de Francisco não foi fácil.

Lançado em pleno mundo que aprendera a anatematizar, Francisco vê-se, com raras excepções, mal amado como padre e apenas tolerado, como companheiro de viagem.

As representações que tinham sustentado e alimentado o seu longo percurso de domesticação começaram a desvanecer-se: 

  • foi o sonho de ser missionário que ficou desfeito, depois de observar in loco a irracionalidade da Guerra Colonial, a exploração do homem preto pelo branco e a aversão dos professores mais evoluidos a tudo o que fosse vestígio do colonialismo;
  • foi a excelência simbólica da missão de administrador do sagrado, que afinal não era reconhecida pela maior parte dos homens com quem vivera;
  • era a sacralidade da própria instituição divina, a Igreja, tão permeável às «cunhas» e compadrios, e indiferente às injustiças praticadas, na Guerra que apadrinhava.

Estes dilemas não o dilaceravam, nem foram ocasião próxima de tomar uma atitude épica de rompimento. Mentiria, se o empolasse agora. Os dilemas políticos não foram a causa próxima do seu rompimento com a instiuição. Contudo, ajudaram-no a descrer.

Francisco precisava de estar apaixonado por alguma coisa, ou por alguém. Fragilizadas as suas representações, abriu-se um vazio que precisava de ser preenchido A instituição, mergulhada como toda a Igreja, no aggiornamento (vd. cap 2º da dissertação) dos anos 60, debatia-se numa crise de identidade e as deserções multiplicavam-se.

- 134 -

Francisco era um apaixonado e estava a viver os seus 15 anos. As suas irmãs e demais pessoas, que o conheceram na altura da Missa Nova, descreviam-no como um místico, que quando se ordenou vivia o sagrado intensamente em todos os seus gestos. Quando tomou a peito que os alunos fizessem boa figura no liceu, levou até ao sacrifício esse objectivo. Quando se propôs ajudar a sua família, custeando os estudos de suas irmãs, não se poupou a esforços e fê-lo.

Agora, estava numa encruzilhada. Na sua penúltima viagem no «Niassa», carregado de tropas para a Guiné, teve ocasião de conversar com um angélico, não trânsfuga, que lhe contou o seguinte:

Em 1969, quando acabou a Comissão Militar, Francisco confídenciou-lhe que estava desamorado daquilo em que se empenhara e acreditara e se estava a inclinar para outra paixão. Confidenciara-lhe que era um poço de afecto e que se apaixonava com toda a facilidade, faceta que até aí nunca experimentara. Agora, queria viver a vida que não o deixaram viver durante 13 anos e queria vivê-la intensamente. 

Confessou-lhe, então, que mais cedo ou mais tarde preencheria esse vazio. Ainda não individualizara esse afecto, mas quando se apaixonasse, não hesitava em pedir a redução ao estado laical. Sentia-se bem entre as raparigas, embora as suas reacções fossem como os de um jovem imaturo de 15 anos. Por um lado, o 'habitus' a inibi-lo e a lembrar-lhe que o seu compromisso com o sagrado era eterno. Por outro, um instinto quase irresistível para amar.

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Tal como na construção da sua vocação, entra então em cena uma terceira personagem: o seu Prior. É com a sua intervenção que é possível estabelecer negociações entre o 'habitus', a dupla personalidade incutida durante 13 anos pelo Seminário e o agora Francisco de 36 anos, há já quase quatro anos, praticamente fora da instituição. E, novamente, a questão da influência das pessoas singulares na vida das pessoas, se coloca com toda a pertinência (cap. 2º).

Na boa lógica do filho pródigo, as hierarquias tentam reconvertê-lo à causa, e prometem-lhe mesmo, não uma grande festa, com a matança de um carneiro, mas uma parcela do poder, cujo significado ainda é maior. Como persiste em recusar regressar, arrependido, à casa paterna, consideram-no Trânsfuga.

É a lógica do ensino confessional, no tempo do regime salazarista, cuja estrutura organicista permanecia intacta. Se fosse fiel à domesticação, seria bem-aventurado; se não se subordinasse, seria amaldiçoado. A ordem discursiva, essa, serpenteia ao sabor das circunstâncias políticas: ora pede perdão, ora se autolegitima para esconjurar o demónio da racionalidade.

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CONCLUSÃO

Um dos propósitos centrais deste trabalho foi o de explorar a hipótese de saber se é possível ou não penetrar sociologicamente as experiências de vida de alguém, a partir dessas próprias experiências e não apenas, como a sociologia tradicional procede, a partir das estruturas macro-sociais, enquanto instância explicativa.

No final deste percurso de investigação queremos haver construído uma resposta à pergunta que na "Introdução" (da dissertação) formulámos:

«Como penetrar sociologicamente as experiências de Francisco Caboz que cresceu e foi enformado pelo sistema do ensino salazarista, pelo subsistema do ensino confessional, foi domesticado e interiorizou o 'habitus sacerdotal', foi ungido na sua 'missão' simbólica, e se transformou em 'trânsfuga' e regressou ao quotidiano profano?».

Resposta porventura não definitiva, primeiro porque as próprias vidas também não o são, depois porque não há olhar, científico ou não, que esgote totalmente o seu objecto.

Admitimos que outros olhares, outra metodologia teria feito falar a história de Francisco Caboz de outro modo. Todavia, acreditamos ser esta, de todas elas, uma forma de o fazer que menos exaure a própria história de Francisco de possíveis significações e resultados.

Num tempo de mudança de paradigma de cientificidade, em que as distinções entre as Ciências da Natureza e as Ciências Sociais e Humanas são postas em causa (cfr. Sousa Santos, "Para uma Ciência Pós-Moderna", 1979), num tempo em que o modelo positivista da cientificidade, mais do que criticado, tende a ser suplantado por modelos em que a própria cientificidade se intromete substancialmente na própria objectividade científica; finalmente, num tempo em que a literatura e a arte em geral se vê desafiada num potencial de nova cientificidade, ou cientificidade diferente, optamos por um método que possuindo a marca da História e dos seus cuidados metodológicos, possui uma espessura ficcional clara. (Nisbet, 1976: 16). Isto no que concerne à questão da pertinência sociológica da História de Vida de Francisco.

Quanto à segunda interrogação: «quais os processos de domesticação/interiorização do habitus no ensino confessional e sua articulação com os vectores educativos do sistema salazarista?», esses processos, no Seminário tradicional, pretendiam plasmar uma representação de homem em que se miscegenavam as visões febris dos anacoretas do deserto africano, a dualidade maniqueísta medieval e os arroubos simbólicos reinventados pelos hagiógrafos (cf. Rodrigues, 1933).

Centravam-se no aniquilamento do «homem velho», reconstrução do «homem novo» e inteira subjugação do self ao colectivo institucional. Consistiam na ritualização de todos os momentos e a subordinação destes ao Regulamento, num sistema panóptico, sem permitir que a racionalidade profana questionasse a sacralidade dos processos. 

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Obtinha-se, assim,uma dupla personalidade que obedecia cegamente ao rito inculcado e interiorizado. Tudo em nome dos valores simbólicos que constrangiam as subjectividades com dupla violência (Bourdieu, 1978).

Relativamente à articulação com o ensino salazarista, se todo o ensino reflecte a matriz social do regime (Bourdieu, 1978), o ensino confessional exercia funções de complementariedade e articulação, em relação ao sistema de ensino público salazarista:

  • Complementariedade, na medida em que, subsidiado em grande parte pela clientela eclesiástica e «benfeitores», supria as lacunas do ensino público salazarista para os meios rurais, seleccionava os melhores, os vocacionados, na mesma lógica do sistema, incutindo-lhes o habitus para reproduzir a permanência irracional do mesmo constructum simbólico;
  • Articulação, porque embora tutelado pelas instâncias internacionais da Igreja mas não certificado, através de diploma, reproduzia os administradores do sagrado para difundir em todo o Império a Trilogia simbólica que constituía a essencialidade do regime e a subordinação do Outro.

Mais do que orientado pela lógica das conjunturas político-económicas internacionais, a Ditadura autolegitimou-se simbolicamente e enformou a Nação pela matriz sistémica do ensino confessional de que o Ditador fora quer reprodutor, quer paladino. 

As hierarquias eclesiásticas foram cúmplices desta ditadura por terem ofertado o ditador, alimentado-a ideologicamente e à sombra dela se instalarem, à excepção de algumas vozes individuais discordantes, sobretudo da política social (D. António, Bispo do Porto, 1958). As hierarquias perderam a voz, depositando-a nas mãos do regime, em troca dos favores temporais.

Nos anos 60, factores endógenos e exógenos põem em causa o funcionamento pedagógico dos Seminários. O número de vocacionados regride com a certificação liceal imposta, a representação social do padre diminui e as mudanças inerentes ao aggiornamento da Igreja abalam as estruturas panópticas do Seminário tradicional. A crise estende-se à própria classe eclesiástica que começa a pôr em causa não só os processos de inculcação do 'habitus', como a legitimidade do próprio 'habitus' sacerdotal. As deserções multiplicam-se e os grandes Seminários esvaziam-se, procurando novos paradigmas pedagógicos.

Finalmente a História de Vida de Francisco Caboz revela que o micro pode dialectizar com o macro, mas não se esgota nele. Enformado pelas práticas rituais, e conformado por elas, até à «missão», vê-se depois confrontado com o seu self, quando, ultrapassadas as barreiras panópticas «deixa de ser profissional a tempo inteiro do rito» (Saud, 1975). Paulatinamente, vai sendo destruturado o 'habitus' interiorizado, até à libertação dos «instrumentos de censura, e auto-controlo que produziam, sem exame crítico, explícito, mensagens conforme a ortodoxia» (Ibidem).

Em termos de ganhos sociológicos, adiantamos que ao partir da não hipóstase do social e do político, ao substancializá-los em sistemas de agência humana, pretendemos quer completar os «buracos negros» que a sociologia de teor estruturalista sempre deixa em aberto, enquanto formação discursiva quer sublinhar a não reificação das estruturas sociais.

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Com a história de Francisco Caboz pretendemos haver mostrado que o salazarismo não criou apenas salazaristas, que as determinações estruturais deixam margem de acção suficiente para a agência humana se instalar e que o próprio salazarismo, enquanto Weltanchaung [visão do mundo, em alemão], não pode ser reduzido a um mimo do fascismo italiano ou nazismo alemão. Aí, uma outra, muito peculiar, história de vida, teria de se contar, a do próprio Salazar, a do Prefeito do Colégio da Via Sacra. Mas isto seria uma outra Dissertação (cf. 1º capítulo).

Efectivamente, o próprio salazarismo, acreditamos nisso, poderia ver alguns dos seus «buracos negros» preenchidos - histórica e sociologicamente - se com as análises macro se cruzassem as análises micro. O nosso contributo, para a compreensão sociológica do salazarismo, parece concentrar-se aí, por uma dupla via: a via do salazarismo, esclarecido pelo seminarismo de Salazar e a via de uma criança que se fez homem e trânsfuga num Seminário e ambiente de tipo salazarista.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-139 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)

(**) Habitus: conceito central da teoria sociológica do francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Em termos sucintos, efere-se a um sistema de disposições duradouras ( esquemas de perceção, pensamento, ação e avaliação ) que são incorporadas pelos indivíduos através da socialização (família, escola, grupo social, etc.) e que orientam as suas práticas e escolhas de forma inconsciente e adaptativa. Ou por outra palavras,m é a interiorização da estrutura social que molda a forma como agimos, pensamos e sentimos, reproduzindo (ou transformando) as desigualdades e hierarquias do campo social onde nos inserimos.

Pierre Bourdieu esteve na Argélia durante a guerra colonail  como parte do serviço militar obrigatório. Recusou ir como oficial miliciano,  prestou serviço como simples soldado na área administrativa. Depois da desmobilização, tornou-se professor e investigador na Universidade de Argel (1958–1960). Foi durante este período que realizou trabalho de campo etnológico entre os cabilas, um subgrupo do  povo bérbere,  experiência que fundamentou a sua obra "Sociologie de l’Algérie" (1958) e que marcou  a sua transição da filosofia para a sociologia e antropologia.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27716: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII: Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... "pornográfica", em Catió


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió 

"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando. Presença de militares, civis da administração, correios e comerciantes locais.

"Da esquerda para a direita, 

(A) um militar, de camuflado, que não consigo identificar; 

 (B) de costas, o cap médico Morais; 

 (C) o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso; 

 (D) quatro funcionários dos Correios e da Administração; 

(E) o comerciante Sr. José Saad [libanês] e filha; 

(F) o comerciante, Sr. Mota; 

(G) o comerciante, Sr. Dantas e filha; 

(H) o comerciante, Sr. Barros; 

(I) o electricista civil, Jerónimo: 

(J) e, por fim, o alf  graduado capelão Horácio [Neto Fernandes]" [um capelão isolado, mais próximo dos civis do que dos militares, um padre que não está bem com Deus nem com César...].


 Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando. As NT em formatura.



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando.  

Álbum fotográfico do Victor Condeço (1943/2010).

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)-.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos sete postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) e,por fim,  em 1967, a sua mobilização  para a Guiné, como capelão militar. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4.ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga.

Até ser ordenado padre, passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre, ainda antes de completar os 24 anos. Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2.º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII:  Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... pornográfica

por Horácio Fernandes

Cenário 3. - Regresso ao antigo Colégio Angélico como Subprefeito de Disciplina e mobilização para Capelão Militar

Regressado ao antigo Colégio Angélico, por imposição dos Superiores, e sem qualquer explicação, mergulhei novamente no passado. 

Os alunos ainda faziam exames internos e ia ficar sob a jurisdição de alguns dos meus antigos professores e Prefeitos. Contudo, alguma coisa tinha mudado: faziam-se encontros de futebol com outros Seminários e davam-se passeios, sem o traje ritual, embora as normas disciplinares se conservassem as mesmas.

Talvez por isso e porque pouco podia alterar, como Subprefeito que era, dediquei-rne mais à direcção espiritual das freiras e à pregação. Comecei por alguns tríduos e acabei nos sermões de festa. O fundamental era conseguir a técnica, que variava, consoante o auditório. Escrevia todo o texto do sermão e arranjava algumas estórias piedosas para comover o público.

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A princípio, decorava todo o sermão, mas depois comecei a decorar apenas as linhas mestras. Para despertar o auditório, havia exclamações oratórias sonantes, nos momentos cruciais. Neste campo, como nos outros, fui autodidacta, aprendendo com a experiência e os erros.

Passados dois anos, em que já tinha uma clientela razoável, nas freguesias vizinhas, talvez devido à muita procura e escassez da oferta, fui mobilizado pata Capelão Militar, em substituição de um colega a quem tinha morrido a mãe.

Em Agosto de 1967, com 32 anos de idade,  fui convocado para submeter-me a um treino, de cerca de um mês, na Academia Militar, para exercer as funções de Capelão na Guerra Colonial.

Era um Bispo, com o posto de Brigadeiro que estava à frente da Capelania Militar. Nas aulas de Deontologia Mlitar realçava o papel do Capelão, como levando o conforto espiritual aos valentes soldados que lutavam contra os inimigos que pretendiam destruir a civilização cristã e o nosso esforço missionário.

 Contudo, nos dois anos de Capelão Militar, sempre verifiquei que os chefes da Capelania preferiam o conforto do Quartel General de Bissau, a visitar os capelães que estavam em zona de guerra.


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Cenário 4. - Capelão Militar na Guiné. A Guerra Colonial e as minhas guerras.

A mobilização para Capelão Militar significou um corte, quase radical, com as estruturas conventuais; A partir daí, o local de habitação era o quartel, indo aos fins de semana a casa, recebia e administrava o meu vencimento de aspirante e depois alferes graduado capelão. 

Na qualidade de capelão, estava sujeito à jurisdição da Capelania-Mor. Este desenraizamento da instituição, a quem me tinha umbilicalmente ligado, desde os 10 anos, abriu caminho a uma série de interrogações e relacionamentos, até aí impossíveis de conceber.

O treino teve componente teórica e prática. As lições práticas consistiam em exercícios físicos todos os dias e algumas lições de tiro, que nunca foram levadas a sério pelos instrutores, porque diziam que a nossa missão não era essa. Assim se passou um mês, até ao embarque.

Fiquei reprovado a Treino Físico, porque não podia dobrar bem a articulação do joelho esquerdo, mas fui aprovado como os outros.

A distribuição dos capelães pelos batalhões causou-me alguma confusão. Todos os meus colegas tinham grandes «cunhas» e vinham já destinados a batalhões da Marinha e Aviação, as armas mais apetecíveis. 


Mesmo os destinados ao Exército vinham bem recomendados pelos bispos das dioceses, ou padres amigos. Sem conhecer ninguém, senti-me só e desamparado e fui mandado para a Guiné para um Batalhão de Artilhari
a [BART 1913, Catió, 1967/69], que já ia em 8 meses de comissão de serviço.(**)

Embarquei, em setembro de 1967
 [esteve no CTIG, de 1/11/67 a 3/11/69],  no paquete «Uíge», com destino à Guiné, tendo à partida a dizer-me adeus apenas a minha família. 

-129-


Os meus confrades tinham -se esquecido. Este esquecimento e o sistema das «cunhas» entre membros da Igreja, a que não estava habituado, fízeram-me reflectir um pouco. 

Contudo, o momento não era para grandes análises, nem estava habituado a elas, mas a obedecer.

Desde que fui mobilizado parecia um jovem gamo. Tudo era novidade. Parecia que estava a viver a minha adolescência, até aí submersa.

Coincidiu com as férias grandes e gostava de me fazer acompanhar pela gente nova da minha terra. Rapazes e raparigas estudantes eram uma presença permanente em minha casa, durante as três semanas de férias que antecederam a partida. 

Eu representava para meus pais, e restantes famílias de Arribas do Mar a segurança, face à tentativa, sobretudo das raparigas adolescentes, de sacudir a pressão dos familiares, considerados já antiquados. Por isso, organizava piqueniques, festas, idas ao cinema. Um acordeão que me tinham oferecido acompanhava-me para toda a parte, não obstante pouco saber tocar.

Desde que saíra do Seminário, vivia o quotidiano como uma aventura. A ida para a Guiné fazia parte dessa aventura de adolescente, onde não cabia a problemática política, nem os perigos que podia correr.

Ia contactar com a Africa dos meus sonhos de Angélico, em circunstâncias de guerra, de que não fazia a mínima ideia, mas estava acima de tudo curioso.

 Comprei as fardas, recebi os abonos adiantados que fizeram muito jeito aos meus pais e embarquei carregado de trintários (15) pelas almas do purgatório e de presentes para os soldados da freguesia e concelho.

Os 6 dias de viagem foram passados, agarrado a um potente rádio que tinha comprado, a ouvir notícias da Metrópole. Enjoava, e, por isso, sempre que podia, subia ao no convés, para conversar com os cabos e praças de outras companhias. 

Ainda meio atordoado, desembarquei em Bissau, partindo na primeira avioneta militar para o sul da Guiné.

A recepção nunca mais a esquecerei. Os oficiais estavam já à mesa, para o almoço. Deixei as malas no jipe que me foi buscar ao campo de aviação de terra batida e fui sentar-me, onde havia um lugar vazio. Reparei que,  antes da sopa, começou a correr, de mão em mão, um envelope de fotografias em ponto grande, mas não liguei importância. 

Era uma armadilha.

Daí a pouco, o capitão que estava a meu lado, passou-mas e,  ao abrir, verifiquei que continham mulheres nuas, algumas a fazer sexo nas posições mais esquisitas. 

O capitão ia passando-as, uma a uma, diante de mim, concerteza para ver a minha reacção. Eu fiquei muito embaraçado e,  sem o fair play necessário nestes momentos, perguntei-lhe:

- É a sua mulher?
_________________

Nota do autor LG:

(15) Conjunto de trinta missas seguidas com que os familiares costumavam sufragar as almas dos defuntos, por vezes por imposição testamentária.

- 130-

Este incidente estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia tentasse mnimizá-lo. O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido,  e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. 

Só passados vários meses me voltou a falar.

- 131-


(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)
 ____________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos
 
Últimos postes da série: 
 




(**) História da unidade: Batalhão de Artilharia nº 1913

Identificação:  BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia

Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso | 2.° Crndt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes 
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Cornp:

CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa 

CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes

CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges

CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso

Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese da Atividade Operacional:

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector
S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió,
Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação,  e Cabedú, também extinto em
30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança
ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a
recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas
foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de
armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu
seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso. (...)

(...) Tem História da Unidade (Caixa nº 80 - 2ª Div/ 4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pp. 215 e 217

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27704 Tabanca da Diáspora Lusófona (39): (In)confidências: fui para Montariol, em 1954, com 10 anos, pela mão do João Maria Maçarico (n. 1937), e para a tropa aos 19, em 1964... (João Crisóstomo, Nova Iorque)



EUA > Nova Iorque > Mineola > 2018 > Vilma Kracun Crisóstomo e João Crisóstomo,   na Parada alusiva ao Dia de Portugal,  em Mineola, NY, 10 de junho de 2018: 



1. Mensagem do nosso John Crisóstomo, o luso-americano régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona   (*) 

João Crisóstomo, membro da nossa Tabanca Grande, com 290  referências no blogue, a viver em Queens, Nova Iorque, ativista social, ex-alf mil inf, CCAÇ CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).


Data - 4 fev 2026 08:17
Assunto - Comentário ao poste P 27695 (**)

Pus-me a escrever um comentário ao poste 27695 e depois ficou tão grande que não tive coragem de o publicar

Permito-me uma “confissão", uma conversa com os meus camaradas, pois que, como irmãos que somos pelo que todos experimentámos, sei que a maioria vai compreender e aceitar este meu “desabafo", que talvez seja coisa que suceda com outros também. 

Creio que um dos muitos benefícios que este blogue tem proporcionado a muita gente, é exactamente o de uma "catarse" terapêutica (do grego kátharsis, "purificação"). A mim, pelo menos, tem-me ajudado.

É que tenho vindo a seguir, mais ou menos, os postes relacionados com o saudoso Horácio Fermandes (1935-2025) e sei que devia fazer uns comentários ao muito que se tem escrito. E não o tenho feito. "Desculpas de mau pagador" nunca são boas, por melhores que elas sejam e por mais voltas que se lhe deem; e portanto não mereço desculpas.

Não sei se virei “bipolar”, pois de vez em quando tenho momentos de muita energia para logo voltar ao mesmo marasmo. Explicarei apenas que,  de há bastante tempo,  já me sinto muito em baixo e é sempre com esforço que faço algo.

Mas este poste de ontem (**) menciona o nome dum quarto Maçarico, desconhecido  até aqui,  e que eu conheço bem. 

Como o Luís Graça descreve, o João Maria Maçarico era de Ribamar e a casa dele era mesmo junto da casa do Horácio. Eu conhecia-o bem assim como o pai (mas não me lembro da mãe ) e o irmão, o Veríssimo, que emigrou para o Canadá. 

Por instruções do Padre António Alves Sabino, que era meu primo direito e que era na altura subprefeito do colégio de Montariol, o João Maria Maçarico veio-me buscar a minha casa e levou-me pela mão, literalmente, que para que os meus pais ficassem descansados. Foi no dia 7 de setembro de 1954. Eu era muito novo.

O facto do meu aniversário de nascimento ser em fins de junho levou a que eu fosse sempre muito jovem em relação aos meus colegas de cursos. Isso sucedeu até na minha entrada para a tropa onde entrei muito novo em comparação com os outros que entraram nesse dia. É que,  ao sair do seminário de Leiria,  logo verifiquei que não conseguia arranjar qualquer trabalho. Meus pais tinham dificuldades e eu queria trabalhar imediatamente mas não conseguia nada. 



João Maria Maçarico (*):  nascido em 1937, também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico

Foto: cortesia de : Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002.


Recordo-me que entre outros lugares onde fui pedir emprego, foi ao gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Torres Vedras. A resposta foi a mesma que me davam em toda a parte: "faça a tropa primeiro” e depois venha falar comigo. E por isso informei-me como devia fazer para cumprir o serviço militar logo que pudesse. Fui a Santarém e aceitaram-me logo, dando-me as devidas instruções para o fazer. Entrei em Mafra,  em janeiro de 1964,  aos 19 anos! Fiz 20 anos em junho desse ano.

Ainda sobre o João Maria Maçarico: ele veio a minha casa para me acompanhar nessa primeira e longa viagem de comboio de Torres Vedras a Braga. E da estação do comboio de Braga até ao colégio de Montariol onde chegãmos à noite desse mesmo dia e me “entregou" ao meu primo.

Devo dizer que pouco ou muito pouco me valeu o facto de eu ser primo do subprefeito: vivi e sofri física e mentalmente o mesmo que o Horácio viveu e descreve no seu livro “Francisco Caboz : a construção e desconstrução de um padre”.

Eu e o João Maçarico estivemos juntos dois anos em Montariol. Depois disso,  porque ele andava sempre três anos à minha frente,  eu apenas sabia notícias dele pela família. Só o vim a reencontrar anos mais tarde,  quando soube que ele trabalhava em Lisboa na companhia de telefones (TLP, mais tarde Portugal Telecom).

E depois outra vez em 2018 ou 2019: eu soube que havia um encontro de antigos alunos em Ourém e eu quis lá ir. Convidei o Rui Chamusco e fomos. Quando lá chegámos, foi-nos dito que o encontro era apenas por vídeo, embora fossemos bem-vindos se quisessemos participar nesses encontro. E quando através dos écrãs se fizeram as apresentações e eu ouvi o nome do João Maria Maçarico,  eu interrompi para perguntar se este era o João Maria Maçarico, de  Ribamar, Lourinhã. 

Depois ficámos em contacto,  soube que ele tinha feito o serviço militar em Moçambique em 1966/67, como alferes miliciano. Mas um encontro pessoal como eu queria,  nunca foi possível e acabei por perder o contacto pois ele deixou de atender o telefone. 

Este ano, já depois do Ano Novo, quando estive em Portugal soube pela Carmitas, irmã mais nova do Horácio,  que ele está internado num lar na zona do Oeste, na Marquiteira, não longe da casa onde nasceu. Mas foi tudo o que me soube dizer.

PS1 - Estou quase a acabar de ler o livro “Os Có Boys” do Luís da Cruz Ferreira, que comprei no encontro da Magnífica Tabanca da Linha, em 14 de janeiro deste ano,  Não vou fazer comentários sobre ele pois nunca saberei fazer pertinentes comentários como os muitos que foram feitos nos postes dedicados a este livro.

Entre estes,  o teu comentário "as suas observações críticas (mesmo que 'anedóticas') sobre o quotidiano da tropa naquela época merecem, só por si, uma nota de leitura à parte” resume tudo o que se pode dizer. Acrescentarei da minha parte que o Luís Ferreira tem a minha muita admiração.
 
PS2 - Li também algures (agora não encontro onde!) um comentário/resposta a um outro do António Graça de Abreu e sua esposa em que sugeres ou pões a ideia de virem um dia "à casa do João e da Vilma" … Mas que grande ideia!

Quanto a vocês… nós e a nossa casa estamos à vossa espera desde o primeiro dia em que os encontrámos. E,  quanto a eles, eu convidei-os logo no primeiro encontro que tive com eles, se me não engano foi em Algés na primeira vez que lá fui. Se o facto de eles vierem,  ajuda a que tu e a Alice venham finalmente … Abençoados sejam todos, vai ser mesmo “manga de ronco” …

Um grande abraço nosso,
João e Vilma

(Revisão / fixação de texto: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 12 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27310: Tabanca da Diáspora Lusófona (38): Parabéns, João & Vilma, acabados de se unir com a benção de Deus, na igreja eslovena de São Ciro, Nova Iorque...Hoje, âs 10h30 locais, 15h30, em Lisboa.

(**) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971


Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim)


1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.

É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha.  Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor. 


O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.

O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53). 

Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).




Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira




(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor, 
Vila do Conde, 2025, pág. 56)


2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:


Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.

Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.

Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.

É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.

Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).

Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que  os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos. 

Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.

A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.

É autor, entre outros dos livros:

"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).

3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:

(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:

- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;

- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.

Louvores (transcrição):

  • Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):

(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.


"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)

  • Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);

(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.

"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.

"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.

"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)


4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...


O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.

Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.

Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".

Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.

Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."

(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.

"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".

Contactos:

Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com

(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG: