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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)















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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Virgínio  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



Virgínio Briote: (i) nascido em Cascais: (ii) frequentou a Academia Militar, em 1962, que abandonou em seguida; (iii) foi Alf Mil em Cuntima, CCAV 489 / BCAV 490 (Jan-mai1965); (iv) 8ez o 2º curso de Comandos do CTIG; (v) comandou o Grupo Diabólicos (Set 1965 / set 1966); (vi) regressou em Jan 1967; (viii) casado com a Maria Irene, orfessora de liceu reformada;  (ix) foi quadro superior de uma empresa da indústria farmacêutica.



1. Comentário do Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado, ao poste P28263 (*):


A propósito deste excelente texto saltou-me rapidamente à memória um caso que vi e vivi de perto, talvez demais. 

Anos 60. Um pai funcionário público, dois filhos com diferença de meia dúzia de anos. Pai extremoso, severo, homem honrado, justo, fiel adepto de Salazar e do Cardeal [Cerejeira, patriarca de Lisboa].

Segundo o seu desejo, expresso aos amigos e colegas, "um dos meus filhos vai para militar e o outro para padre" . 

Os filhos foram ouvindo esta ordem do pai enquanto estudavam, um num Liceu numa cidade do Norte e o outro na Escola Primária. 

Quando o mais velho concluíu o 5º ano,  foi para Ciências,  contrariado. 

− Como vais para Ciências se foste sempre um aluno de 10 / 11 e bom aluno, apesar de seres pouco aplicado, na área de Letras? 

− Eu gostava de ir  para Letras mas o meu pai matriculou-me em Ciências.

O mais velho lá foi tropeçando na Física, na Matemática, na Biologia, na Mineralogia... até que acabou o Liceu em 1962.

Papelada, concurso para a Academia Militar, Lisboa, e em meados do verão guia de marcha para a Gomes Freire. 

−  Para onde, Pai? 

−  Para a Academia Militar, para seres oficial do Exército. 

Sem mais história, concorreu e em outubro de 62 deu entrada na Academia Militar, Amadora. 

Na 1ª semana, na 1ª aula de equitação,  ministrada pelo capitão Marques Pereira, escolheu o cavalo mais alto, preto, irrequieto com o chicote no ar. E tentou montar. Tentou, porque,  quando tomou balanço, o cavalo levantou a garupa e atirou-o ao chão. Quando se ia a levantar,  apoiado pelos gritos do instrutor, levou um coice na zona do estômago. 

Saltando estes momentos, quase desmaiado,  viu-se em cima do cavalo, mãos bem amarradas às argolas. Chicote no ar, cavalos em disparada, uns por um lado,  outros em sentido contrário... E minutos depois estava na camarata, nos urinóis  a fazer chi-chi com sangue. Enfermaria, ambulância, Hospital da Estrela, três dias depois outra vez na Amadora. 

O interesse foi-se esvanecento, não era o que desejava, os meses e as aulas iam correndo, divertia-se na Educação Física, atletismo, corridas de obstáculos, manobras nos arredores da Amadora, na Carregueira, Sta Margarida...

A Deontologia Militar, as Físicas,as Matemáticas e outras teóricas passava-as a dormir. Em junho de 64, foi enviado para Mafra e um mês depois era aspirante miliciano. 

Alguns dias de férias, o pai,  de má cara,  não lhe falava e em setembro foi para os Açores. 

Quando saíu do BII , não sei se o 17 [Angra do Heroísmo],  se o 18 [Angra do Heroísmo], foi passar o Natal a casa com os pais, o irmão deve ter consoado no Seminário, certamente. 

Meados de janeiro estava a pôr os pés em Bissau e dias depois estava no mato, seguramente. Já no meio da comissão,  o pai escreveu-lhe dizendo que o irmão tinha fugido do Seminário!

Para finalizar esta história que fui seguindo de perto, ao regressar a Lisboa,  depois de uma comissão consecutiva de 24 meses,  os pais e o irmão esperaram-no no cais. E, para acabar a viagem, seguiram para o Norte, talvez com uma paragem nos Pedro dos Leitões  [na Mealhada], não sei.

A vida continuou. O mais velho empregou-se, o mais novo foi para Coimbra para Direito até ser chamado para Mafra, com o curso talvez a meio, não sei. 

O jovem foi mobilizado para Moçambique, veio de férias, lembro-me, ainda foi padrinho de uma sobrinha recém-nascida e regressou ao Chai, Macomia, julgo eu.

Alguns dias depois, o pai recebeu ao jantar um telegrama de uma entidade do Exército a informar que o seu filho havia sido gravemente ferido. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Agradeço ao Vb a oportuna partilha destas suas memórias já com sessenta e muitos anos... É um verdadeiro "conto mural ao fundo".., passado no fim do salazarismo, em que o paradigma de autoridade  dominante ainda era o da "santíssima trindade"...Deus, Pátria e Família,

Mas neste caso a realidade e a ficção fundem-se. Impossível saber onde acaba uma e começa outra...

Não tenho dúvidas que este caso, que "ele viu e viveu de perto, talvez até demais" (sic), é verídico. 

E, na época, não terá sido único.  Pessoalmente conheço mais casos, e até alguns mais recentes,  em que os pais, invocando a sua autoridade e experiência de vida, traça(va)m o caminho dos filhos (e das filhas)... O caminho que julga(va)m ser  "melhor" para eles  e elas (e para a família)... 

Estamos numa época em que os pais, "amando profundamente os seus filhos" (está fora de questão pôr isso em dúvida!), os infantilizavam e tomavam decisões (neste caso, "quase de vida ou de morte"!) por eles... 

Mas não era só a nível das opções escolares e das carreiras profissionais ("vais para o colégio de freiras, vais para o Magistério Primário, vais para o seminário, vais para a Academia Militar"...), era também até noutras matérias ainda mais sensíveis e delicadas, com o namoro, as amizades,  o casamento... 

Estamos a falar de pais de certos estratos sociais, correspondentes às classes alta, média-alta média, excluindo portanto as classes populares (média-baixa, baixa). Nestas, a que pertencia maior parte de nós, começava-se mais cedo (na família, na escola, na rua, no trabalho, na "moina", nas "tainadas", nos "bailaricos", na  noite, na tropa...) a experimentar e a conhecer os desafios, os riscos e os limites da aventura da liberdade. 

O Vb aparece aqui como um mero  narrador... E inclusive não chegou, por lapso, a assinar o comentário. Depois corrigiu, sob chamada de atenção minha.  Vi, logo desde o princípio, que o texto era dele, pelo seu inconfundível estilo narrativo que já conheço  de há 20 anos, no blogue..

 Ao relê-lo, e agora ao fazer o guião para esta BD, fiquei com a "suspeita" de que poderia ser um texto autobiográfico (ou com traços autobiográficos)... Há pormenores coincidentes... O capitão Marques Pereira, por exemplo, era na época o instrutor de equitação da Academia Militar. A cidade do do Norte será Braga (onde o Vb fez o examde admissão ao liceu). 

Em suma, o "irmão mais velho" que vai, contrariado, para a Academia Militar, terá semelhanças com a história militar  do nosso querido Vb, que em 1962 também entrou para a Academia Militar... 

Mas o texto não me autoriza a que tire esta conclusão.   E eu, portanto,  não tenho  mais  o direito de estar aqui a especular... O Vb, se assim o entender, poderá dar mais informação circunstanciada sobre este caso que o tocou tanto ao ponto de acompanhar, tão intimamente,  o percurso destas duas vidas... trocadas.

Se não é, em todo o caso, bem poderia ser a história dele e do seu irmão mais novo... (que julgo que ele tem). Ou, como diz o provérbio italiano, "se non è vero, è ben trovato" (se não é verdade, é bem achado).

quinta-feira, 26 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27860: In Memoriam (576): Fafe também teve os seus heróis, entre eles o meu amigo e companheiro de escola, Coronel José Augusto Nogueira Ribeiro (1940-2017) (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)

IN MEMORIAM



Coronel José Augusto Nogueira Ribeiro
(Fafe, 6 de Janeiro de 1940 - Guarda, 8 de Janeiro de 2017)




Milhares, muitos milhares de jovens perderam uma boa parte da sua juventude ao longo da guerra colonial.

Fafe, como todo o país, respondeu ao chamamento e muitos por lá deixaram a vida ou vieram estropiados.

Fafe também teve os seus heróis, sendo de destacar o meu amigo e companheiro de escola, Coronel José Augusto Nogueira Ribeiro que, com a devida vénia, aqui exalto, valendo-me do livro “Os últimos Guerreiros do Império”:




Alf mil Nogueira Ribeiro, 4ª CCAÇ,
Bedanda, c. 1964/66.
Arquivo do blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
(i) nasceu na freguesia de São Gens, concelho de Fafe em 6 de Janeiro de 1940 e faleceu na cidade da Guarda, cidade que adotou, em 8 de Janeiro de 2017;

(ii) aluno inteligente e vivo, frequentou a escola primária da freguesia, seguindo os estudos no Seminário Diocesano de Braga até ao 7.º ano;

(iii) continuou estudando, agora no Ensino Secundário em Guimarães e no Porto; foi aluno da Faculdade de Direito de Lisboa até ser incorporado no Serviço Militar;

(iv) em 1963, como Oficial Miliciano, foi mobilizado para o CTI da Guiné-Bissau onde cumpriu a primeira comissão até Maio de 1966, na 4ª CCAÇ (Bedanda, 1964/66) (futura CCAÇ 6, a partir de 1967):

(v) em1967-1969 cumpre a segunda comissão na Região Militar de Moçambique;

(vi) regressado à Metrópole, é colocado no RI 5 (Caldas da Rainha) de onde segue para mais uma comissão, desta vez, Angola, 1973-1975;

(vii) em Agosto de 1974 ingressou no Quadro Especial de Oficiais (QEO) e em 1975 foi colocado no Batalhão de Infantaria da Guarda e, de 1979 a 1990 no Batalhão de Infantaria Mecanizada da 1.ª Brigada Mista Independente; nesse período, mais propriamente, em 1983, foi promovido, por distinção, ao posto de Major;

(viii) foi ferido duas vezes em combate.

(ix) recebeu várias condecorações, como:

- Grau de Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, de Lealdade e Mérito, com Palma;
- Medalha da Cruz de Guerra de 2ª. Classe;
- Medalha da Cruz de Guerra de 3ª. Classe, Medalha de Cruz de Guerra de 4ª. Classe;
- Medalha de Mérito Militar de 2.ª. Classe;
- Medalha de Mérito Militar de 3.ª. Classe;
- Medalha da Ordem de Aviz – Grau de Cavaleiro;
- Medalha de Prata de Comportamento Exemplar;
- Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar;
- Medalhas Comemorativas das Campanhas da Guiné, de Moçambique e de Angola;
- Prémio Governador Geral da Guiné e 22 louvores, 12 dos quais em Combate.

Manuel Barros Castro
Fafe, 24 de Março de 2026.


terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27789: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

Foto do álbum do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas, o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf grad capelão Horácio  Fernandes (9)".

Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ".  

Foto (e legenda): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Chegámos ao fim desta série, baseada na reprodução de  excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, em 1935, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu no passado mês de novembro de 2025,  aos 90 anos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constituiu família, passando a viver no Porto.

Nos dez  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram:  
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno,  o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra natal), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passou a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras, já ao pé de casa);

(vi) seguiu-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela);

(vii) e depois de Coristado de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(viii) no início do 2º semestere de 1967, foi chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(ix)  foi mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado no BART 1913 (Catió, 1967/69);

(x) a sua vocação sacerdotal começou a ser  abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas. 


2. Achámos que era uma história de vida que merecia ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

Considerámos tratar-se de um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem acima, do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão 

por Horácio Fernandes

6. - A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

De novo, e no fim deste desenvolvimento autobiográfico, se coloca a questão de saber qual a relevância científica da descrição fenomonológica de uma vida.

Defendemos (vd. cap 3° da dissertação de mestrado) que a individualidade, não só  não  esgota as explicações estruturais - Francisco é produto de uma construção social em contexto salazarista - como estas podem ser enriquecidas pela análise daquela.

Francisco não se deixou dilacerar, como porventura conviria a uma autobiografia mais épica (mas menos real), prioritariamente por dilemas políticos, ou por dilemas teológicos. 

O trânsfuga, em que o tornaram e em que se tornou, era constituído por uma contradição que não lhe parecia insuperável, mas que as normas institucionais tornaram insuperáveis, entre a busca da sua identidade pessoal e a sua identidade profissional. Contradição essa, constituída prioritariamente por um cadinho de sensibilidades e afectos que ele, por excesso, não conseguia conter, dentro do «ego» que pensou ser o seu, durante 26 anos.

Nos últimos tempos de Capelão Militar, Francisco andava em grande perturbação. Por um lado o habitus (**) predispunha-o e quase o obrigava a regressar à instituição. Por outro, achava que após a experência de uma vida diferente, a força das suas representações esmorecera e já não iria assumir a sua missão, apaixonadamente. 

Abandonar, para ele, também era um terrível obstáculo, pois uma terrível frase não só o matraqueava, como se entranhara nele: tu es sacerdos in aeternum (tu és sacerdote para sempre).

- 133 - 


O habitus,  como dupla personalidade que é, resiste sempre a qualquer reconstrução que contra si se faça. A reconstrução de Francisco não foi fácil.

Lançado em pleno mundo que aprendera a anatematizar, Francisco vê-se, com raras excepções, mal amado como padre e apenas tolerado, como companheiro de viagem.

As representações que tinham sustentado e alimentado o seu longo percurso de domesticação começaram a desvanecer-se: 

  • foi o sonho de ser missionário que ficou desfeito, depois de observar in loco a irracionalidade da Guerra Colonial, a exploração do homem preto pelo branco e a aversão dos professores mais evoluidos a tudo o que fosse vestígio do colonialismo;
  • foi a excelência simbólica da missão de administrador do sagrado, que afinal não era reconhecida pela maior parte dos homens com quem vivera;
  • era a sacralidade da própria instituição divina, a Igreja, tão permeável às «cunhas» e compadrios, e indiferente às injustiças praticadas, na Guerra que apadrinhava.

Estes dilemas não o dilaceravam, nem foram ocasião próxima de tomar uma atitude épica de rompimento. Mentiria, se o empolasse agora. Os dilemas políticos não foram a causa próxima do seu rompimento com a instiuição. Contudo, ajudaram-no a descrer.

Francisco precisava de estar apaixonado por alguma coisa, ou por alguém. Fragilizadas as suas representações, abriu-se um vazio que precisava de ser preenchido A instituição, mergulhada como toda a Igreja, no aggiornamento (vd. cap 2º da dissertação) dos anos 60, debatia-se numa crise de identidade e as deserções multiplicavam-se.

- 134 -

Francisco era um apaixonado e estava a viver os seus 15 anos. As suas irmãs e demais pessoas, que o conheceram na altura da Missa Nova, descreviam-no como um místico, que quando se ordenou vivia o sagrado intensamente em todos os seus gestos. Quando tomou a peito que os alunos fizessem boa figura no liceu, levou até ao sacrifício esse objectivo. Quando se propôs ajudar a sua família, custeando os estudos de suas irmãs, não se poupou a esforços e fê-lo.

Agora, estava numa encruzilhada. Na sua penúltima viagem no «Niassa», carregado de tropas para a Guiné, teve ocasião de conversar com um angélico, não trânsfuga, que lhe contou o seguinte:

Em 1969, quando acabou a Comissão Militar, Francisco confídenciou-lhe que estava desamorado daquilo em que se empenhara e acreditara e se estava a inclinar para outra paixão. Confidenciara-lhe que era um poço de afecto e que se apaixonava com toda a facilidade, faceta que até aí nunca experimentara. Agora, queria viver a vida que não o deixaram viver durante 13 anos e queria vivê-la intensamente. 

Confessou-lhe, então, que mais cedo ou mais tarde preencheria esse vazio. Ainda não individualizara esse afecto, mas quando se apaixonasse, não hesitava em pedir a redução ao estado laical. Sentia-se bem entre as raparigas, embora as suas reacções fossem como os de um jovem imaturo de 15 anos. Por um lado, o 'habitus' a inibi-lo e a lembrar-lhe que o seu compromisso com o sagrado era eterno. Por outro, um instinto quase irresistível para amar.

- 135 -

Tal como na construção da sua vocação, entra então em cena uma terceira personagem: o seu Prior. É com a sua intervenção que é possível estabelecer negociações entre o 'habitus', a dupla personalidade incutida durante 13 anos pelo Seminário e o agora Francisco de 36 anos, há já quase quatro anos, praticamente fora da instituição. E, novamente, a questão da influência das pessoas singulares na vida das pessoas, se coloca com toda a pertinência (cap. 2º).

Na boa lógica do filho pródigo, as hierarquias tentam reconvertê-lo à causa, e prometem-lhe mesmo, não uma grande festa, com a matança de um carneiro, mas uma parcela do poder, cujo significado ainda é maior. Como persiste em recusar regressar, arrependido, à casa paterna, consideram-no Trânsfuga.

É a lógica do ensino confessional, no tempo do regime salazarista, cuja estrutura organicista permanecia intacta. Se fosse fiel à domesticação, seria bem-aventurado; se não se subordinasse, seria amaldiçoado. A ordem discursiva, essa, serpenteia ao sabor das circunstâncias políticas: ora pede perdão, ora se autolegitima para esconjurar o demónio da racionalidade.

- 136 - 

CONCLUSÃO

Um dos propósitos centrais deste trabalho foi o de explorar a hipótese de saber se é possível ou não penetrar sociologicamente as experiências de vida de alguém, a partir dessas próprias experiências e não apenas, como a sociologia tradicional procede, a partir das estruturas macro-sociais, enquanto instância explicativa.

No final deste percurso de investigação queremos haver construído uma resposta à pergunta que na "Introdução" (da dissertação) formulámos:

«Como penetrar sociologicamente as experiências de Francisco Caboz que cresceu e foi enformado pelo sistema do ensino salazarista, pelo subsistema do ensino confessional, foi domesticado e interiorizou o 'habitus sacerdotal', foi ungido na sua 'missão' simbólica, e se transformou em 'trânsfuga' e regressou ao quotidiano profano?».

Resposta porventura não definitiva, primeiro porque as próprias vidas também não o são, depois porque não há olhar, científico ou não, que esgote totalmente o seu objecto.

Admitimos que outros olhares, outra metodologia teria feito falar a história de Francisco Caboz de outro modo. Todavia, acreditamos ser esta, de todas elas, uma forma de o fazer que menos exaure a própria história de Francisco de possíveis significações e resultados.

Num tempo de mudança de paradigma de cientificidade, em que as distinções entre as Ciências da Natureza e as Ciências Sociais e Humanas são postas em causa (cfr. Sousa Santos, "Para uma Ciência Pós-Moderna", 1979), num tempo em que o modelo positivista da cientificidade, mais do que criticado, tende a ser suplantado por modelos em que a própria cientificidade se intromete substancialmente na própria objectividade científica; finalmente, num tempo em que a literatura e a arte em geral se vê desafiada num potencial de nova cientificidade, ou cientificidade diferente, optamos por um método que possuindo a marca da História e dos seus cuidados metodológicos, possui uma espessura ficcional clara. (Nisbet, 1976: 16). Isto no que concerne à questão da pertinência sociológica da História de Vida de Francisco.

Quanto à segunda interrogação: «quais os processos de domesticação/interiorização do habitus no ensino confessional e sua articulação com os vectores educativos do sistema salazarista?», esses processos, no Seminário tradicional, pretendiam plasmar uma representação de homem em que se miscegenavam as visões febris dos anacoretas do deserto africano, a dualidade maniqueísta medieval e os arroubos simbólicos reinventados pelos hagiógrafos (cf. Rodrigues, 1933).

Centravam-se no aniquilamento do «homem velho», reconstrução do «homem novo» e inteira subjugação do self ao colectivo institucional. Consistiam na ritualização de todos os momentos e a subordinação destes ao Regulamento, num sistema panóptico, sem permitir que a racionalidade profana questionasse a sacralidade dos processos. 

- 137 - 

Obtinha-se, assim,uma dupla personalidade que obedecia cegamente ao rito inculcado e interiorizado. Tudo em nome dos valores simbólicos que constrangiam as subjectividades com dupla violência (Bourdieu, 1978).

Relativamente à articulação com o ensino salazarista, se todo o ensino reflecte a matriz social do regime (Bourdieu, 1978), o ensino confessional exercia funções de complementariedade e articulação, em relação ao sistema de ensino público salazarista:

  • Complementariedade, na medida em que, subsidiado em grande parte pela clientela eclesiástica e «benfeitores», supria as lacunas do ensino público salazarista para os meios rurais, seleccionava os melhores, os vocacionados, na mesma lógica do sistema, incutindo-lhes o habitus para reproduzir a permanência irracional do mesmo constructum simbólico;
  • Articulação, porque embora tutelado pelas instâncias internacionais da Igreja mas não certificado, através de diploma, reproduzia os administradores do sagrado para difundir em todo o Império a Trilogia simbólica que constituía a essencialidade do regime e a subordinação do Outro.

Mais do que orientado pela lógica das conjunturas político-económicas internacionais, a Ditadura autolegitimou-se simbolicamente e enformou a Nação pela matriz sistémica do ensino confessional de que o Ditador fora quer reprodutor, quer paladino. 

As hierarquias eclesiásticas foram cúmplices desta ditadura por terem ofertado o ditador, alimentado-a ideologicamente e à sombra dela se instalarem, à excepção de algumas vozes individuais discordantes, sobretudo da política social (D. António, Bispo do Porto, 1958). As hierarquias perderam a voz, depositando-a nas mãos do regime, em troca dos favores temporais.

Nos anos 60, factores endógenos e exógenos põem em causa o funcionamento pedagógico dos Seminários. O número de vocacionados regride com a certificação liceal imposta, a representação social do padre diminui e as mudanças inerentes ao aggiornamento da Igreja abalam as estruturas panópticas do Seminário tradicional. A crise estende-se à própria classe eclesiástica que começa a pôr em causa não só os processos de inculcação do 'habitus', como a legitimidade do próprio 'habitus' sacerdotal. As deserções multiplicam-se e os grandes Seminários esvaziam-se, procurando novos paradigmas pedagógicos.

Finalmente a História de Vida de Francisco Caboz revela que o micro pode dialectizar com o macro, mas não se esgota nele. Enformado pelas práticas rituais, e conformado por elas, até à «missão», vê-se depois confrontado com o seu self, quando, ultrapassadas as barreiras panópticas «deixa de ser profissional a tempo inteiro do rito» (Saud, 1975). Paulatinamente, vai sendo destruturado o 'habitus' interiorizado, até à libertação dos «instrumentos de censura, e auto-controlo que produziam, sem exame crítico, explícito, mensagens conforme a ortodoxia» (Ibidem).

Em termos de ganhos sociológicos, adiantamos que ao partir da não hipóstase do social e do político, ao substancializá-los em sistemas de agência humana, pretendemos quer completar os «buracos negros» que a sociologia de teor estruturalista sempre deixa em aberto, enquanto formação discursiva quer sublinhar a não reificação das estruturas sociais.

- 138 - 

Com a história de Francisco Caboz pretendemos haver mostrado que o salazarismo não criou apenas salazaristas, que as determinações estruturais deixam margem de acção suficiente para a agência humana se instalar e que o próprio salazarismo, enquanto Weltanchaung [visão do mundo, em alemão], não pode ser reduzido a um mimo do fascismo italiano ou nazismo alemão. Aí, uma outra, muito peculiar, história de vida, teria de se contar, a do próprio Salazar, a do Prefeito do Colégio da Via Sacra. Mas isto seria uma outra Dissertação (cf. 1º capítulo).

Efectivamente, o próprio salazarismo, acreditamos nisso, poderia ver alguns dos seus «buracos negros» preenchidos - histórica e sociologicamente - se com as análises macro se cruzassem as análises micro. O nosso contributo, para a compreensão sociológica do salazarismo, parece concentrar-se aí, por uma dupla via: a via do salazarismo, esclarecido pelo seminarismo de Salazar e a via de uma criança que se fez homem e trânsfuga num Seminário e ambiente de tipo salazarista.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-139 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)

(**) Habitus: conceito central da teoria sociológica do francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Em termos sucintos, efere-se a um sistema de disposições duradouras ( esquemas de perceção, pensamento, ação e avaliação ) que são incorporadas pelos indivíduos através da socialização (família, escola, grupo social, etc.) e que orientam as suas práticas e escolhas de forma inconsciente e adaptativa. Ou por outra palavras,m é a interiorização da estrutura social que molda a forma como agimos, pensamos e sentimos, reproduzindo (ou transformando) as desigualdades e hierarquias do campo social onde nos inserimos.

Pierre Bourdieu esteve na Argélia durante a guerra colonail  como parte do serviço militar obrigatório. Recusou ir como oficial miliciano,  prestou serviço como simples soldado na área administrativa. Depois da desmobilização, tornou-se professor e investigador na Universidade de Argel (1958–1960). Foi durante este período que realizou trabalho de campo etnológico entre os cabilas, um subgrupo do  povo bérbere,  experiência que fundamentou a sua obra "Sociologie de l’Algérie" (1958) e que marcou  a sua transição da filosofia para a sociologia e antropologia.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27716: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII: Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... "pornográfica", em Catió


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió 

"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando. Presença de militares, civis da administração, correios e comerciantes locais.

"Da esquerda para a direita, 

(A) um militar, de camuflado, que não consigo identificar; 

 (B) de costas, o cap médico Morais; 

 (C) o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso; 

 (D) quatro funcionários dos Correios e da Administração; 

(E) o comerciante Sr. José Saad [libanês] e filha; 

(F) o comerciante, Sr. Mota; 

(G) o comerciante, Sr. Dantas e filha; 

(H) o comerciante, Sr. Barros; 

(I) o electricista civil, Jerónimo: 

(J) e, por fim, o alf  graduado capelão Horácio [Neto Fernandes]" [um capelão isolado, mais próximo dos civis do que dos militares, um padre que não está bem com Deus nem com César...].


 Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando. As NT em formatura.



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando.  

Álbum fotográfico do Victor Condeço (1943/2010).

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)-.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos sete postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) e,por fim,  em 1967, a sua mobilização  para a Guiné, como capelão militar. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4.ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga.

Até ser ordenado padre, passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre, ainda antes de completar os 24 anos. Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2.º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII:  Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... pornográfica

por Horácio Fernandes

Cenário 3. - Regresso ao antigo Colégio Angélico como Subprefeito de Disciplina e mobilização para Capelão Militar

Regressado ao antigo Colégio Angélico, por imposição dos Superiores, e sem qualquer explicação, mergulhei novamente no passado. 

Os alunos ainda faziam exames internos e ia ficar sob a jurisdição de alguns dos meus antigos professores e Prefeitos. Contudo, alguma coisa tinha mudado: faziam-se encontros de futebol com outros Seminários e davam-se passeios, sem o traje ritual, embora as normas disciplinares se conservassem as mesmas.

Talvez por isso e porque pouco podia alterar, como Subprefeito que era, dediquei-rne mais à direcção espiritual das freiras e à pregação. Comecei por alguns tríduos e acabei nos sermões de festa. O fundamental era conseguir a técnica, que variava, consoante o auditório. Escrevia todo o texto do sermão e arranjava algumas estórias piedosas para comover o público.

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A princípio, decorava todo o sermão, mas depois comecei a decorar apenas as linhas mestras. Para despertar o auditório, havia exclamações oratórias sonantes, nos momentos cruciais. Neste campo, como nos outros, fui autodidacta, aprendendo com a experiência e os erros.

Passados dois anos, em que já tinha uma clientela razoável, nas freguesias vizinhas, talvez devido à muita procura e escassez da oferta, fui mobilizado pata Capelão Militar, em substituição de um colega a quem tinha morrido a mãe.

Em Agosto de 1967, com 32 anos de idade,  fui convocado para submeter-me a um treino, de cerca de um mês, na Academia Militar, para exercer as funções de Capelão na Guerra Colonial.

Era um Bispo, com o posto de Brigadeiro que estava à frente da Capelania Militar. Nas aulas de Deontologia Mlitar realçava o papel do Capelão, como levando o conforto espiritual aos valentes soldados que lutavam contra os inimigos que pretendiam destruir a civilização cristã e o nosso esforço missionário.

 Contudo, nos dois anos de Capelão Militar, sempre verifiquei que os chefes da Capelania preferiam o conforto do Quartel General de Bissau, a visitar os capelães que estavam em zona de guerra.


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Cenário 4. - Capelão Militar na Guiné. A Guerra Colonial e as minhas guerras.

A mobilização para Capelão Militar significou um corte, quase radical, com as estruturas conventuais; A partir daí, o local de habitação era o quartel, indo aos fins de semana a casa, recebia e administrava o meu vencimento de aspirante e depois alferes graduado capelão. 

Na qualidade de capelão, estava sujeito à jurisdição da Capelania-Mor. Este desenraizamento da instituição, a quem me tinha umbilicalmente ligado, desde os 10 anos, abriu caminho a uma série de interrogações e relacionamentos, até aí impossíveis de conceber.

O treino teve componente teórica e prática. As lições práticas consistiam em exercícios físicos todos os dias e algumas lições de tiro, que nunca foram levadas a sério pelos instrutores, porque diziam que a nossa missão não era essa. Assim se passou um mês, até ao embarque.

Fiquei reprovado a Treino Físico, porque não podia dobrar bem a articulação do joelho esquerdo, mas fui aprovado como os outros.

A distribuição dos capelães pelos batalhões causou-me alguma confusão. Todos os meus colegas tinham grandes «cunhas» e vinham já destinados a batalhões da Marinha e Aviação, as armas mais apetecíveis. 


Mesmo os destinados ao Exército vinham bem recomendados pelos bispos das dioceses, ou padres amigos. Sem conhecer ninguém, senti-me só e desamparado e fui mandado para a Guiné para um Batalhão de Artilhari
a [BART 1913, Catió, 1967/69], que já ia em 8 meses de comissão de serviço.(**)

Embarquei, em setembro de 1967
 [esteve no CTIG, de 1/11/67 a 3/11/69],  no paquete «Uíge», com destino à Guiné, tendo à partida a dizer-me adeus apenas a minha família. 

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Os meus confrades tinham -se esquecido. Este esquecimento e o sistema das «cunhas» entre membros da Igreja, a que não estava habituado, fízeram-me reflectir um pouco. 

Contudo, o momento não era para grandes análises, nem estava habituado a elas, mas a obedecer.

Desde que fui mobilizado parecia um jovem gamo. Tudo era novidade. Parecia que estava a viver a minha adolescência, até aí submersa.

Coincidiu com as férias grandes e gostava de me fazer acompanhar pela gente nova da minha terra. Rapazes e raparigas estudantes eram uma presença permanente em minha casa, durante as três semanas de férias que antecederam a partida. 

Eu representava para meus pais, e restantes famílias de Arribas do Mar a segurança, face à tentativa, sobretudo das raparigas adolescentes, de sacudir a pressão dos familiares, considerados já antiquados. Por isso, organizava piqueniques, festas, idas ao cinema. Um acordeão que me tinham oferecido acompanhava-me para toda a parte, não obstante pouco saber tocar.

Desde que saíra do Seminário, vivia o quotidiano como uma aventura. A ida para a Guiné fazia parte dessa aventura de adolescente, onde não cabia a problemática política, nem os perigos que podia correr.

Ia contactar com a Africa dos meus sonhos de Angélico, em circunstâncias de guerra, de que não fazia a mínima ideia, mas estava acima de tudo curioso.

 Comprei as fardas, recebi os abonos adiantados que fizeram muito jeito aos meus pais e embarquei carregado de trintários (15) pelas almas do purgatório e de presentes para os soldados da freguesia e concelho.

Os 6 dias de viagem foram passados, agarrado a um potente rádio que tinha comprado, a ouvir notícias da Metrópole. Enjoava, e, por isso, sempre que podia, subia ao no convés, para conversar com os cabos e praças de outras companhias. 

Ainda meio atordoado, desembarquei em Bissau, partindo na primeira avioneta militar para o sul da Guiné.

A recepção nunca mais a esquecerei. Os oficiais estavam já à mesa, para o almoço. Deixei as malas no jipe que me foi buscar ao campo de aviação de terra batida e fui sentar-me, onde havia um lugar vazio. Reparei que,  antes da sopa, começou a correr, de mão em mão, um envelope de fotografias em ponto grande, mas não liguei importância. 

Era uma armadilha.

Daí a pouco, o capitão que estava a meu lado, passou-mas e,  ao abrir, verifiquei que continham mulheres nuas, algumas a fazer sexo nas posições mais esquisitas. 

O capitão ia passando-as, uma a uma, diante de mim, concerteza para ver a minha reacção. Eu fiquei muito embaraçado e,  sem o fair play necessário nestes momentos, perguntei-lhe:

- É a sua mulher?
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Nota do autor LG:

(15) Conjunto de trinta missas seguidas com que os familiares costumavam sufragar as almas dos defuntos, por vezes por imposição testamentária.

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Este incidente estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia tentasse mnimizá-lo. O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido,  e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. 

Só passados vários meses me voltou a falar.

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(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos
 
Últimos postes da série: 
 




(**) História da unidade: Batalhão de Artilharia nº 1913

Identificação:  BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia

Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso | 2.° Crndt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes 
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Cornp:

CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa 

CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes

CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges

CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso

Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese da Atividade Operacional:

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector
S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió,
Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação,  e Cabedú, também extinto em
30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança
ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a
recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas
foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de
armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu
seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso. (...)

(...) Tem História da Unidade (Caixa nº 80 - 2ª Div/ 4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pp. 215 e 217