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sábado, 3 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P 28397: O vinho... pró branco de 2ª e pró tinto de 1ª (5): o "uísque de Sacavém"

 


Anúncio do "Diário de Lisboa", no tempo em que se começou a fazer grande publicidade ao "Scotch Whisky", bebida até seleta mas a partir daí cada vez mais popular entre os combatentes da guerra do Ultramar (e dos "colonos" de África)...Era um dos "presentes" mais cobiçados na época, entre amigos e familiares... Traziam-se caixotes de garrafas de uísque de Guiné, de Angola, de Moçambique. Algumas, as últimas, vamo-las esvaziando nas efemérides mais importantes: a partida do T/T Niassa ou do T/T Uíge, os cinquenta anos da "peluda", as bodas de ouro, os 75 anos de vida...Nos bares de "alterne", da grande Lisboa, da Reboleira aos Cais do Sodré, bebia-se muito uísque marado, que ficou popularmentre conhecido como "whisky de Sacavém"... Lembro-me ainda na tropa, nas Caldas da Rainha ou em Tavira, ter conhecido o "capitão Vat 69"...


1. "Uísque de Sacavém" e "vinho a martelo" são duas das expressões mais castiças e conhecidas do calão português para designar bebidas alcoólicas falsificadas, adulteradas ou de péssima qualidade, muitas vezes associadas ao mercado negro e à vivência popular das décadas de 1960 e 1970.


A elas junta-se frequentemente a "água de Lisboa", uma expressão mais antiga, de que falaremos em próximo poste.

Há testemunhos de antigos combatentes recordando os soldados fulas (que eram abstémios, por imposição da sua cultura e religião)  a dizerem, com bastante graça, “água de Lisboa, manga de cabeça grande!”,  isto é, uma bebida que embriagava (como o vinho de palma, consumido pelos "cristãos" / grumetes e  "animistas" / balantas, papéis, etc....)  e que não era necessariamente de má qualidade ("água de Lisboa manga de sabi").

O que poucos sabem é a origem e o significado da expressão "uísque de Sacavém", apesar de ter estado muito em voga durante a guerra colonial em que os portugueses começaram a ter acesso, em África, ao bom uísque escocês, bebiba até então só para ricos e estrangeirados.

E porque não "uísque do Beato" ?  

No Beato, Poço do Bispo, Marvila, na margem direita do estuário do rio Tejo, onde havia grandes armazéns de vinho e onde se dizia que o vinho era batizado com a água do Tejo, e daí talvez a origem da expressão "água de Lisboa", como chamavam os nossos camaradas guineenses ao nosso vinho... 

Mas a origem desta última expressão deve ser mais antiga, relacionada com o abastecimento de água a Lisboa, no início do séc. XVIII e com os impostos que eram cobrados sobre o vinho e os gnéneros alimentícios para financiar a construção e o funcionamento do Aqueduto das Águas Livres.

A verdade é que também se dizia,  em Portugal. nessa época (anos 60/70) que "da água também se fazia vinho"... A frase, injustamente, era atribuída ao grande agricultor e empresário Abel Pereira da Fonseca, com vinhas no Bombarral e armazéns no Beato,

O Beato/Poço do Bispo/Marvila era efectivamente uma importante zona vinícola de Lisboa, com grandes armazéns e comerciantes de vinho a granel. E o nome de Abel Pereira da Fonseca aparece inevitavelmente nesta história. Na memória popular ficou uma frase que provavelmente nunca saiu da boca do Abel Pereira da Fonseca, em versões diferentes: “Enquanto houver água no Tejo, nunca há-de faltar vinho a Lisboa.” Ou: “Lembrem-se, meus filhos, que até da água se faz vinho.”

Não encontrámos fonte histórica suficientemente sólida para afirmar que ele tenha realmente pronunciado essas palavras, e muito menos à hora da morte. Elas pertencem à anedota popular criada em torno dos grandes armazenistas de vinho de Lisboa.

Mas essa anedota ganhou uma segunda vida entre os militares que passaram pela guerra colonial / guerra do ultramar, No caso da Guiné, aparece documentada a expressão “água de Lisboa” para designar depreciativamente o vinho fornecido pela Intendência. Ou seja, como sinónimo de vinho "batizado" (e, pior ainda, a "saber a cânfora", que era para tirar a tusa aos combatentes do mato: excesso de testosterona afetava o moral da tropa, suspeitavam os senhores da guerra).
 
“Água de Lisboa” e “vinho de Sacavém” são duas alcunhas com geografias diferentes. 
Não é fácil, na ausência de investigação séria sobre estes tópicos, de encontrar o fio à meada...Há. contuda, uma  pequena histórias de 1966 que liga Sacavém ao uísque falsificado...

Uísque de Sacavém: a  falsificação lendária

De facto, o "produto" até tem certidão de nascimento. Ou melhor, a expressão. Terá nascido a 5 de fevereiro de 1966, quando o jornal Diário Popular noticiou o desmantelamento da primeira fábrica de uísque falsificado em Portugal, localizada justamente num armazém em Sacavém.
 Quando a guerra do Ultramar, já ia a meio, acrescentamos hoje nós (que sabemos que ela acabou em 1974, mas em 1966 todos já pensávamos que ia ser a guerra dos 100 anos, e que iria sobrar para toda a nossa geração).
O esquema era engenhoso: os falsificadores compravam garrafas vazias de marcas escocesas conceituadas (como Johnnie Walker ou Vat 69) e enchiam-nas com uma mistura bombástica de álcool etílico puro, um cheirinho de uísque verdadeiro e pastilhas corantes para imitar a cor original. O álcool puro era comprado, ao garrafão, dia sim dia não, numa farmácia próxima na "fábrica clandestina" onde se martelava a mistela...
O "Diário Popular" desse dia refere que "o caso despertou a maior curiosidade entre a população de Sacavém, interrogando-se então, apreensivamente, algumas pessoas acerca da verdadeira origem das garrafas de whisky que adquiriram em data mais ou menos recente» (Fonte: Diário Popular,  nº 8373, de 5 de fevereiro de 1966, 24º ano de publicação, pág. 17.)
O produto era vendido clandestinamente a bares, buates e cabarés de Lisboa e arredores. O caso gerou tanta troça popular que a gíria "uísque de Sacavém" passou a designar qualquer bebida alcoólica contrafeita, barata ou que causasse uma ressaca terrível no dia seguinte.
Portanto, o “uísque de Sacavém” tem uma origem histórica muito concreta e datável — a falsificação descoberta em 1966. Alguns apreciadores (?) desta bebida consideraram ser difícil distinguir esta falsificação do produto original... O problema nápo era a cópia ser melhor do que o original, mas sim a inexistência de um tradiçáo de consumo de uísque escovès em Portugal.

Este acontecimento teve grande repercussão, dando origem a muitas piadas. Havia quem pedisse, na brincadeira, um “whisky de Sacavém”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida esta falsificação que apresentava rótulos de consagradas marcas escocesas.  

Já a “água de Lisboa” parece ser uma alcunha popular muito mais antiga e difusa, alimentada pelos impposto ssobre o vinho, pela fama dos grandes armazéns vinícolas lisboetas e pela proverbial suspeita de que o vinho destinado aosmercados africanos ("o vinho p'ró preto") (isto é, para o branco de 2ª, o colono, e o preto de 1ª, o assimilado) era de qualidade inferior.

E há ainda uma deliciosa inversão colonial: o soldado português ia para África e descobria o "Scotch whisky" genuino (importado exclusivamente para as Forças Armadas Portuguesas e fornecidas, sem impostos, pela Intendência aosl "heróis de Portugal" que combatima pela Pátria em África, enquanto o guineense olhava para a garrafa de vinho que vinha de Lisboa e chamava-lhe, entre deliciado e desconfiado,  "água de Lisboa.”

Estas expressões ajudam-nos a reconstituir a história através de três bebidas: o “Scotch” genuíno,  o “uísque de Sacavém”, marado,  e a “água de Lisboa” / "vinho a martelo",  três expressões que dizem muito sobre a sociedade portuguesa dos anos 60/70 e sobre a experiência colonial / ultramarina / africanista de todos nós.  (vd.  Sons de Abril da RTP/Antena 1).
 
Acrescente-se que, na altura, nos famigerados anos 60/70 (em que já se avolumavam os sinais premonitórios do fim de uma época e do regime de Salazar), era frequente aparecer no mercado vinho de proveniência duvidosa, popularmente conhecido por "vinho a martelo". Porém, segundo as autoridades da época, parece ter sido a primeira vez que uma fábrica de whisky falsificado, como a de Sacavém em 1966,  foi descoberta em Portugal.

Mas hojem provavelmente, passados 60 anos, já ninguém se lembra do "uísque de Sacavém".  

Confesso que não sei se chegou a haver, na Intendência, casos notórios de falsificação, em grande escala, do precioso líquido que vinha, da Escócia para a Guiné, "with love", para dessedentar a tropa portuguesa e  retemperar o  ânimo dos combatentes... Ainda bebi algum do bom (para não dizer "manga de garrafas"...), com "auguinha" de Perrier.

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Nota do  editor LG:

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28045: Em busca de... (334): camaradas que tenham conhecido o meu amigo, do Porto, ex-alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT (Pelotão de Intendência), em Bissau, no período de 1967/69 (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)




Guiné > Bissau > Café Bento (ou 5ª Rep) > Fev 1968 > São todos do Porto. Três são do BCAV 1915, que eu fui render em setembro de 1967. 

Da esquerda para a direita: 

(i) Nelson, furriel mil amanuense; 

(ii) a seguir eu, Vt, de óculos escuros; 

(iii) depois um furriel que trabalhava com o Nelson de que não me lembro do nome;

(iv) o alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT [Pelotão de Intendência];

(v)  e a seguir o alf mil SAM, como eu, do CA do BCAÇ 1915, de seu nome Fragateiro, que foi para Bula (nunca nos relacionámos bem, talvez por causa da passagem de testemunho em outubro de 1967; depois da "peluda", foi delegad de propaganda médica)

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

1. Mensagem do Virgílio Teixeira, eex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69):


Data - domingo, 22/03/2026, 01:06
Assunto - Quem se lembra do Alferes Miliciano Alberto Fontão?


LG,  na sequência de outros apelos gostava de saber se há algum camarada que se lembre deste meu amigo de juventude, o Alberto Fontão, que esteve na Guiné no nosso tempo, 67 a 69.

Ele pertencia a uma companhia de transportes, sediada na Amura. Levava os abastecimentos em colunas, via terrestre. Lembro de ele falar em Buba, Binar, Bula,  Farim, Mansoa, Mansaba e tantas outras. Levava mantimentos e armamento vário.

Como teve problemas pessoais, viveu com a mulher e filha, Eunice, de 2 anos em Bissau.

A mulher trabalhava nos escritórios de uma farmácia que muitos podem conhecer. Ele morava perto das oficinas de automóveis, junto com o cunhado e a mulher, ambas irmãs que eu conhecia muito bem. As irmãs eram colegas da minha mulher na Escola Comercial, Filipa de Vilhena, na zona do parque do Covelo.

Quando eu ia a Bissau visitava todos, a filha quando ouvia o trabalhar da motorizada, dizia logo aos pais que vinha o Virgílio.
 
O amigo Fontão concordou com a minha ideia, mas disse que não queria falar ou escrever sobre esta aventura.

Esteve no HM241 internado na psiquiatria juntamente com o alferes Alberto Leite, da CHERET. A
mbos vieram evacuados no mesmo avião militar.
 
Não sabe sequer o número da companhia, e as viagens eram ir e vir no mínimo tempo, por isso não teve grandes relacionamentos com as companhias onde se deslocava.

Divorciou-se quando acabou o mesmo curso de economia que eu.  Foi quadro do BPA  (Banco Português do Atlântico) no Porto, até se reformar. Ambas as mulheres já faleceram.
 
A irmã da mulher foi sempre casada com o Joaquim Pinto Gomes, já formado em Economia,  e foi para Bissau, de onde nunca saiu para os arredores. Era revisor das contas dos CA (Conselhos Administrativos) dos batalhões na chefia de contabilidade (QG/CTIG). 

Tenho uma fotografia, que tirei no Bento à noite com um grupo quase familiar.

São todos do Porto. Três são do BCAV 1915, que fui render em setembro de 1967. Da esquerda para a direita (foto acima): Nelson, furriel mil amanuense; a seguir eu, Vt; depois um furriel que trabalhava com o Nelson de que não me lembro do nome; o alf mil Alberto Fontão, comandante de um PINT [Pelotão de Intendência]; e a seguir o alf SAM, como eu, do CA do BCAÇ 1915, de seu nome Fragateiro que foi para Bula.

Temos um grupo no WhatsApp que partilhamos e fazemos 6 almoços (por ano).

Para já não me lembro de mais nada. Abraço e vou dormir

Virgílio Teixeira

2. Comentário do editor LG:

Vt, num poste anterior disseste que o teu amigo, Alberto Fontão, tinha sido c0mandante de um Pelotão de Intendência (PINT)... E agora dizes que integrou uma Companhia de Transportes... Houve pelo menos 6 companhias de transportes, no CTIG, desde 1964:; a primeira a CTransp 735 (1964/66) e a última, a CTransp 9040/72 (1973/74).

É mais provavável que ele tinha estado num PINT. Era importante saber o nº desse PINT.  Havia, de facto, pouca interação da malta do mato  com os camaradas da Intendência.

Vê se descobres algo mais sobre a subunidade em que o Alberto  Fontão esteve. E, se possível, em que data desembarcou em Bissau.  

Nalguns portos fluviais, como Bissau, Mansoa, Farim, Bambadinca, Buba  e Catió, por exemplo, havia destacamentos de Intendências, guarnecidos por PINT (além do BINT -Batalhão de Intendência, com sede em Bissau, que era casa-mãe). 

O serviço de intendência era o "back office" da guerra, tal com os CA dos batalhões, a que tu pertenceste...

Julgo que o único comandante de um PINT que temos na Tabanca Grande é o João Lourenço,  ex-alf il SAM, PINT  9288 (Cufar, 1973/74), que mora na Figueira da Foz. 

Não vai ser fácil descobrir malta que tenha conhecido o teu amigo Alberto Fontão,  para mais tendo ele regressado à metrópole, sem completar o tempo de comissão. Mas aqui fica o apelo (e o convite, para ele integrar a Tabanca Grande).
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27965: Em busca de ... (333): José Serafim Gonçalves procura camaradas da CCAÇ 417 que esteve em Empada, Bissau e Cabo Verde nos anos de 1963 e 1964

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27344: O "back office" da guerra (i): Serviço de Intendência: obrigado, camaradas "intendentes", pela "bianda nossa de todos os dias"...

 







Sinais convencionais militares (28Rep/EME/ME-1972)



CTIGuiné > c. 1971 > O BINT (Batalhão de Intendência) tinha sede em Bissau e destacamentos (Pelotões de Intendência, PINT) , além de Bissau, Farim, Bambadinca e Buba e, depois em Cufar, a partir de 1/8/1973 (o Pel Int 9288/72).

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 73 e  542/543 



1. O que seria dos "atiruenses" ( os "amanuenses do gatilho"), o "front office", naquela guerra, naquele cu de Judas, que era a nossa "Guinezinha", sem o "back office", os serviços de apoio, da Intendência ao Material, da Engenharia à Saúde, das Transmissões aos Transportes...

 Façamos, pois, justiça aos nossos "caixeiros", "padeiros", "magarefes", "cantineiros" e  outros "intendentes", sem esquecer os estivadores civis da Companhia de Terminal, nem a tripulação dos "barcos-turra" ao serviço da Intendência... Sem esquecer ninguém  dos que ficavam por de trás da guerra, no "back office", numa guerra que não tinha frente nem  linhas da frente, era ubíqua. Uma guerra traiçoeira, que  não se fazia anunciar, como no dia de 2 de março de 1974, em Cufar... Um dia de tragédia para a Intendência (Pel Int 9288/72) e as NT em Cufar, que era então a sede do CAOP1 (*). (Não encontrámos nenhuma referência no livro da CECA, 2015, a esta ação do IN.)

Não esquecemos os nossos vagomestres, médicos, enfermeiros, cozinheiros, amanuenses, capelães, juristas, engenheiros, pedreiros, carpinteiros,  mecânicos, bate-chapas, criptos, juristas, etc.,   tantos camaradas anónimos que, na retaguarda, com os seus saberes e competências,  nos ajudaram a "encher o peito às balas" e, em última análise, a regressar  a casa, sãos e salvos, dois anos depois de, meninos e moços, termos sido retirados da casa dos nossos pais para ir defender os restos do velho império lusitano de 500 anos, na África longínqua...

Todas as guerras se ganham pelos exércitos que combinam os três melhores componentes da  "warfare": (i) hardware; (ii) software; (iii) humanware.

Os nossos "maiores" diziam-nos que tínhamos os melhores soldados do mundo... Certo. Mas não chega para ganhar as guerras. Os melhores do mundo cansaram-se da guerra, dizem os críticos dos nossos "maiores". Ou foi a guerra que se cansou de nós...Tanto faz.

 No fim, tem de haver sempre umas palavras de agradecimento. Nas vitórias e nas derrotas. Na vida e na morte. Sob pena da Pátria ser ingrata... A Pátria, nós, a começar pelos antigos combatentes.  

Comecemos pelos "intendentes". Obrigado pela "bianda nossa de todos os dias"...(Mas eles não nos abasteciam só de víveres, também nos forneciam os artigos de cantina, em suma os comes & bebes: forneciam-nos também combustíveis e lubrificantes, fardamento, impressos e material diverso)...

APOIO DE SERVIÇO DE INTENDÊNCIA (CECA, 2015, pp 72/74)

I. Abastecimento

(i) Víveres e artigos de cantina

As Unidades fazem os seus pedidos directamente ao Órgão de Intendência (01), que as apoiam.

Para certos artigos de cantina os pedidos são feitos à Sucursal das OGFE (Oficinas Gerais de Fardamento do Exército), em Bissau.

Os 01 requisitam à Chefia os víveres e artigos de cantina necessários à manutenção dos níveis determinados.

(ii) Combustíveis e lubrificantes

As Unidades requisitam directamente às empresas gasolineiras ou através dos Orgãos de Intendência (01).

Os 01 mantêm os níveis determinados através de requisições feitas à Chefia de Serviço, em Bissau.

A Chefia de Serviço acciona as empresas gasolineiras no sentido de fornecerem aos 01 ou às Unidades os combustíveis e lubrificantes requisitados.

(iii) Fardamento

As Unidades requisitam aos Pel Int  (Pelotões de Intendência) ou Depósito Base de Intendência (DBI), conforme forem apoiados por uns ou outros, os artigos necessários.

Os Pel Int requisitam por sua vez à Chefia os artigos indispensáveis à manutenção do nível determinado.

A Chefia acciona o DBI de acordo com o solicitado pelos Pel Int.

(iv) Impressos

As Unidades requisitam os impressos directamente ao DBI. Através dos Pel Int o DBI encaminha-os para as Unidades.

A Chefia do Serviço mantém o controlo deste material junto do DBI por forma a não haver faltas.

(v) Material diverso

Os pedidos são feitos directamente à Chefia que acciona o DBI para o efeito. Este envia o material à Unidade que fez o pedido.

Os artigos críticos são pedidos à 4a Repartição/QG que os acciona em ligação com a Chefia do Serviço.

II. Evacuação

(i) Fardamento

A evacuação dos artigos de fardamento é feita das Unidades para o Pel Int que as apoiam.

(ii) Material diverso

As evacuações são feitas directamente das Unidades para o DBI.

pag 72/73

III. Síntese da actividade operacional do Batalhão de Intendência da Guiné (CECA, 2015, pp. 488/489

(...) "O BInt foi criado com base em QO aprovado por despacho ministerial de 21Nov63 e englobou uma Companhia de Intendência, umaCompanhia de Depósito, então constituidas, e os Destacamentos d Intendência (4), então existentes em Bissau, Tite, Bula e Bafatá, este depois instalado em Bambadinca, a partir de 02Jun66, e, mais tarde, outro Pelotão instalado em Farim, a partir de OlJan67, sendo considerado uma unidade da guarnição normal.

Em OlAbr68, as funções da Companhia de Depósito passaram a ser executadas por um novo órgão, então criado, o Depósito Base de Intendência e a partir de O1Set68, o Batalhão passou a ser constituídoelas subunidades designadas por Companhia de Intendência de AlD,Companhia de Intendência de AlG, e Pelotões de Intendência, tendoainda sido instalado outro Pelotão em Cufar, a partir de OlAg073.

Nesta situação, forneceu o apoio logístico às unidades e subunidadesem serviço na Guiné, efectuou a reparação dos meios de frio, máquinas de escritório e de bobinagem, entre outros, para o que dispunhatambém de equipas itinerantes.

Ministrou também instrução de formação de especialistas de Intendência de padeiros, magarefes, caixeiros e outras. Manteve ainda as reservas de combustíveis e lubrificantes e acionou o funcionamento dos centros de fabrico de pão e de abate.

Em l40ut74, após entrega das instalações e equipamentos ao PAIGC,  Batalhão foi desactivado e extinto." (...)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 12 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5258: A tragédia de Cufar, sábado, dia do Diabo, 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)

(...) "Os homens ardiam como tochas, gritavam, vinham direitos a mim. O inferno deve se um lugar bem mais agradável do que aquelas dezenas de metros de picada com pessoas a serem consumidas pelas chamas, o ar, o escuro da noite empestado por um horrível, um nauseabundo cheiro a carne humana queimada. Despi a minha camisa e com ela tentei apagar restos do fogo que cobria aqueles homens. Meti quatro negros no carro, dei a volta com o jipe e subi, acelerando em direcção a Cufar. Uma viatura blindada Fox (do Pel Rec Fox  8870/72) descia a picada com os faróis e as metralhadoras apontadas para nós.

"Eram os primeiros militares que acorriam à explosão dos barcos. Gritei-lhes para pararem. Ficaram espantadíssimos por encontrarem ali o alferes Abreu em tronco nu com homens todos queimados dentro do jipe. Rodeei a Fox com dificuldade – ocupava quase toda a picada, – e em segundos cheguei com os desgraçados à enfermaria de Cufar. Foram deitados em macas e regados com água. Dois grupos de combate da CCAÇ 4740/72, bem armados, desciam entretanto para o porto interior e havia mais pessoas atingidas pela gasolina a arder, a caminho. Não era mais comigo."  (...) 

Vd. também postes de:

 21 de outubro de 2011 >  Guiné 63/74 - P8933: Memória dos lugares (158): Cufar e o porto do rio Manterunga, extensão do inferno na terra : 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)

17 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4366: Tabanca Grande (144): João Lourenço, ex-Alf Mil, PINT 9288, Cufar (1973/74)

16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1284: A Intendência também foi à guerra (Fernando Franco / António Baia)

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27335 O vinho... pró branco de 2ª e pró tinto de 1ª (4): transporte e recipientes


Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > Pel Rec Fox 42 > 1964 > Fev / mai 1964 >  Ganturé > O sold cond auto Armando Fonseca na hora do repouso do guerreiro  a escrever, sentado, à porta da sua morança; em segundo plano, do lado direito, assinalado a amarelo, um garrafão de 10 litros,  usado pela Manutenção Miliutar para distribuir o vinho pelos destacamentos, guarnições mais pequenas que os aquartelamentos. Eram também usados pelos militares (e pela população) para transporte de água.

Foto (e legenda): © Armando Fonseca (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Região de Tombali > Guileje > Pel Caç Nat 51 (1969/70) > Em 1972/73, a fonte que abastecia o aquartelamento e a tabanca de Guileje, distava cerca de 4 km. Ficava no Rio Afiá. No tempo da CART 2140 (1969/70 e do Pel Caç Nat 51, o abastecimento era manual e fazia-se com recurso a bidões, jericãs e garrafões (de 10 litros) (assinalado um, a amarelo). No tempo da CCAV 8350, a companhia que retirou de Guileje em 22/5/1973, havia já um bomba de água de água, a motor. 

Foto  do álbum do Armindo Batata, comandante do Pel Caç Nat 5 (1969/70)

Foto (e legenda): © Armindo Batata / AD - Acção para o Desenvolvimento (2007). Todos os direitos reservados [Ediºão e legendcagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

..

Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/73) > O fur mil op esp José Casimiro Carvalho, cuidando do jardim...Em segundo plano um conjunto de barris, já desconjuntados...  No tempo da CCAÇ 3325, em 1971,  terão tido melhor uso...

Foto: © José Casimiro Carvalho (2007). Todos os direitos reservados.  [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]



Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 > 1971 > O com-chefe gen António de Spínola a chegar (faria duas visitas nesse ano). Originalidade: o pavimento do acesso do quartel à pista de aviação (a chamada entrada VIP) era revestido com milhares de garrafas de cerveja. 

Numa série de barris sobrepostos (de 100 litros, parece-nos), no lado direito, lê-se, em Português, a inscrição a tinta branca "Boa-V(iagem)". Por baixo, a frase árabe بيت السلام (Bayt al-Salam):
  • بيت (Bayt) significa "Casa".

  • السلام (al-Salam) significa "A Paz".


É a nossa leitura com a ajuda da IA (Perplexity  e Gemini).  Ambas as frases exprimem votos, a quem chega,   de boa jornada, estadia e segurança naquele contexto (que era de guerra).

​Foto nº 18 do álbum fotográfico do cor inf ref Jorge Parracho

Foto: © Jorge Parracho (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]


 Transporte e recipientes do vinho



1. Num excerto do jornal "O Século", de 15 de janeiro de 1899 (citado por José Capela, "O Vinho para o Preto", Porto, Afrontamento, 1973, pág. 61), fomos encontrar expressão "barris de quinto ou décimo". 

O que eram exatamente estas medidas ? 

1. A "pipa"

No comércio vinícola português do século XIX (sobretudo no Norte), a pipa era a principal unidade de medida de capacidade para o vinho, equivalente a cerca de 520 a 550 litros, dependendo da região e do tipo de vinho. No Douro, por exemplo, 1 pipa ≈ 550 litros (às vezes também chamada “pipa de vinho do Porto”). Equivalente a 25 almudes.

A pipa fazia fazia parte do sistema das antigas unidades  de medida de capacidade para líquidos. A unidade da pipa acima era o tonel (2 pipas). O terno ficou no nosso léxico atual
 

Barril de 100 litros,
em castanho,´
já industrial. Dimensões (em cm):;
altura=80; bojo=50,
diâemtro da cabe=40
Fonte: Loja Agropecuaria

2.  “Barril de quinto” e “barril de décimo”

As expressões “barril de quinto” e “barril de décimo” indicam a quinta parte ou a décima parte de uma pipa.

Assim:

  • Barril de quinto = 1/5 de pipa ≈ 105 a 110 litros

  • Barril de décima = 1/10 de pipa ≈ 52 a 55 litros

Portanto, tratava-se de submúltiplos da pipa, usados sobretudo em contextos de comércio, transporte marítimo e exportação, quando não se justificava enviar uma pipa inteira, mais difícil de manobrar e acondicionar nos navios.

Esses recipientes (em madeira, em carvalho ou castanho, feitos pelos tanoeiros) eram menores do que a pipa,por  isso  mais manejáveis nos navios e nos portos africanos, e adequados ao comércio por retalho ou escambo com intermediários locais (muitas vezes “lançados”, afro-luso-descendentes ou comerciantes cabo-verdianos).

Por outro lado, o uso de medidas fracionadas da pipa permitia ajustar melhor os volumes exportados conforme as taxas alfandegárias e o poder de compra nos destinos africanos.

 3.  O transporte de vinho da Manutenção Militar para a Guiné (1961/74)

O fornecimento de géneros alimentícios, incluindo o vinho, ao CTIG, era da responsabilidade do Serviços de Manutenção Militar... No entanto, a forma como esse vinho chegava  ao BINT (Batalhão de Intendência), em Bissau, e às unidades e subunidades no mato,  revela os enormes desafios logísticos daquele teatro de operações.

A Guiné era, de facto, um território logisticamente muito complicado, dependente de transporte aéreo (helicóptero, DO-27, ou paraquedas, etc.), fluvial (lancha da marinha, barco civil ou "barco-turra") ou terrestre (coluna auto,  sujeita a minas e emboscadas).

Tudo indica que o transporte de Lisboa para Bissau fosse feito originalmente em barris (sobretudo de 100 litros) e não em pipas. Mais tarde (não sabemos exatamente quando, mas mais para o fim da guerra) terão aparecido os bidões metálicos, de 200/210 litros. 

Nenhuma das plataformas de IA por nós consultadas refere o transporte do vinho, metropolitano, para o CTIG em navios-tanque ou conbtentores. Será que havia em Bissau infraestruturas portuárias para descarregar esses tanques e esses contentores ? Em Luanda e Lourenço Marques haveria. Mas Bissau  também recebia navios-tanque com combustíveis...E eram as próprias "gasolineiras" (c0mo a Sacor) que abasteciam diretamente as guarnições militares no mato,  pelo menos as mais acessíveis por via fluvial. Enfim, é uma questão que fica em aberto, a do transporte do vinho em navios-tanque.

Na Guiné, o vinho era fornecido pela Manutenção Militar (MM), com origem em Portugal continental. O circuito habitual era:

Portugal → Bissau (por navio) → Depósito do BINT →  Depósitos Regionais (Bissau, Tite, Bula, Bafatá, Farim, Bambadinca e Catió, com os respetivos PINT - Pelotões de Intendência).

Quanto aos recipientes, dependia da fase da guerra, do meio de transporte  e da acessibilidade do local:

  • na origem (Metrópole), o vinho era expedido em barris de 100 litros e, mais tarde, bidões metálicos de 200–210 litros, dependendo do tipo de transporte e destino;
  • os bidões metálicos devem ter aparecido, de facto,  já mais para o fim da guerra: o  nosso camarada João Lourenço, ex-alf mil SAM, cmdt do PINT 9288 ( Cufar, 1973/74), escreveu:  "O vinho era fornecido pela MM [Manutenção Militar] em bidões de 215 lts, salvo erro, e usado assim mesmo, devido ao calor havia por vezes o hábito de usar um bidão sem a tampa onde eram colocadas barras de gelo feitas com água tratada e potável claro, o que dava sobras";
  • nos depósitos regionais (onde havia Pelotões de Intendência: Bissau, Bula, Bambadinca, Tite, Farim, Cufar), o vinho podia ser redistribuído em garrafões de 5 ou 10 litros, de vidro (mas já revestido a plástico, no caso dos de 5 litros, ou vime/tiras de madeira, os de 10 litros); ou seguir em barris de 100 litros e, mais tarde, em  bidões  de 200/210 l (para boa parte dos aquartelamentos);
  • os barris de 50 l ou 100 l (os tais barris de décimo e de quinto), em madeira de castanho ou carvalho, eram uma solução tradicional e robusta para o transporte de vinho; eram relativamente manobráveis; além, náo tinham que ser devolvidos à Intendência: a malta acaba por aproveitá-los para fazer cadeiras reclináveis, bancos, mesas, mobiliário diverso, etc. , ou então comno lenha;
  • nos quartéis e destacamento do mato, os garrafões de 5 e 10 litros eram os mais práticos e comuns, porque podiam ser transportados  por Unimog,  jipe ou até à mão; eram demasiado frágeis para o transporte em condições de guerra (lançamento por paraquedas, transporte em camiões por picadas minadas); eram mais usados para o fornecimento das messes de oficiais ou sargentos, que por vezes recebiam vinhos de melhor qualidade em separado;
  • os bidões metálicos de 200/210 litros (semelhantes aos de combustível, mas estanhados por dentro, para não oxidar o vinho) eram mais utilizados para transporte em massa; esta era, muito provavelmente, a forma mais comum de transportar o vinho  a granel para os depósitos dos PINT (Pelotões de Intendência (Bissau, Tite, Bula, Bambadinca, Bafatá, Farim, Cufar); estes bidões (semelhantes aos de combustível) eram extremamente robustos: podiam ser rolados ou içados  (embora não houvesse monta-cargas na maior parte dos sítios; havia gruas e pequenos guindastes nos portos fluviais, como Bambadinca).
Em suma: o vinho chegava a granel ao teatro de operações da Guiné em barris sobretudo de 100 litros e, mais tarde, bidões metálicos de 200/210 litros; a Intendência fazia a redistribuição para as 220 e tal guarnições militares do território (aquartelamentos e destacamentos). Se o transporte fosse em coluna auto, poderia ir nos próprios barris ou bidões. Se fosse por lancha para sítios mais isolados (rio Cacheu, rio Cumbijã, rio Cacine, por exemplo), o vinho era muitas vezes recondicionado em recipientes mais pequenos e manobráveis: aqui, barris de 50 l ou outros recipientes metálicos robustos (como jerricãs, embora menos comuns para vinho) seriam preferíveis aos frágeis garrafões.

 Os problemas logísticos ditavam que a robustez da embalagem era mais importante do que qualquer outra consideração. 



4. A cor dos bidões metálicos para vinho

 Quando apareceram  os bidões metálicos, de 200/210 litros, para vinho, tinha uma  cor exterior que permitia distinguí-los logo dos restantes bidões usados para combustíveis e óleos:
  • Vermelho = Gasolina
  • Azul = Gasóleo
  • Verde-Claro = Petróleo branco
  • Amarelo = Óleos

Os bidões metálicos de vinho, utilizados durante a guerra colonial na Guiné Portuguesa, mas já mais para o fim (1973/74), tinham geralmente um volume de 200 a 210 litros, eram estanhados por dentro (para evitar a corrosão do recipiente e  a contaminação do vinho) e, no exterior, eram pintados de cor prateada ou cinzento-metálico (ou  cor metálica natural ou tinta alumínio) (vd. imagem à direita, de um bidão moderno, "made in China").

Os bidões para vinho não seguiam o mesmo código cromático que os combustíveis e óleos (vermelho, azul, verde-claro, amarelo), pois não transportavam produtos inflamáveis. Podiam ser  reaproveitados para outros fins, devendo ser em princípios devolvidos à Intentência.  (Ou não ?... Fica para confirmar.)

Em 1969/71, não me lembro de os ver em Bambadinca... Devem aparecido mais tarde. (Mas eu, confesso, nunca fui visitar o destacamento da Intendência, no cais fluvial de Bambadinca,)

 5. 
Conclusão provisória

Segundo a(s) assistente(s)de IA que consultámos, não foi encontrada, nas fontes de acesso aberto,   
descrição normativa padronizada do acondicionamento específico do vinho para a Guiné, ao tempo da guerra colonial (barris de 50 L,  barris de 100 l, bidões de 200-210 L, garrafões de 5 e 10 l, etc.). A Intendència foi-se adaptando também, conforme a tecnologia de acondicionamento dos líquidos, a par da modernização dos portos, da estiva e dos transportes marítimos. 

 Em conslusão, o "vinho ... pró branco de 2ª"  (que foi o Rosinha em Angola e todos nós na Guiné...) era fornecido a granel, em embalagens de grande capacidade, para facilitar o transporte e reduzir custos (inicialmente em barris de 100 l).  Para o interior, para o mato, foi encontrando soluções à medida, conforme as necessidades e os obstáculos. 

Veremos, em detalhe, em poste a seguir, os problemas logísticos que levantavam o abastecimento de vinho às NT.

 (Contimua)

(Pesquisa: LG + Assistente de IA (ChatGPT, Gemini, Perplexity, Meta, Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

___________________

Nota do editor LG:


Último poste da série > 18 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27330: O vinho... pró branco de 2ª e pró tinto de 1ª (3): a ração diária do "tuga" seria de 1/4 de litro, o que dava 90 litros em média por ano, diz a "Sabe-tudo"

domingo, 1 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26871: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - Parte VI: o pesadelo do tenente-coronel: as batatas e o frango congelado!...



Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3

Fotos > Legendas > 

Foto nº 1 >   Quartel de transmissões, em Santa Luzia, Bissau, com edifícios no estilo da ChefInt e outros do QG/CTIG;  

Foto nº 2 > Viaturas Berliet e Unimog utilizadas nas colunas de reabastecimento ao interior; 

Foto nº 3 > LDG (Lancha de Desembarque Grande),  utilizada nos reabastecimentos ( esta é a no. 101)


(Cortesia do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Continuação de "Recordações de um Furriel Miliciano, Guiné 1973/74":



O Carlos Filipe Gonçalves, Kalu Nhô Roque (como consta na sua página no facebook):

(i) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde; 

(ii) foi fur mil amanuense, ChefInt, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; 

(iii) ficou em Bissau até 1975; 

(iv) radialista, jornalista, historiógrafo da música da sua terra, escritor, vive na Praia;

(v) membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, nº 790; 

(vi) tem 2 dezenas e meia de referências no nosso blogue.(*)


Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) (*)

Parte VI:  o pesadelo do tenente-coronel: as batatas e o frango congelado!...



Depois da minha chegada, tive de me adaptar ao calor intenso, descobri a cidade Bissau, conheci muita gente. 

Hoje descrevo: o trabalho, a rotina no dia-a-dia, o ambiente de guerra que se vivia na calma aparente de Bissau

O tempo passa e paira sobre nós o ultimato do tenente-coronel, para esvaziar as prateleiras dos mais de mil “autos de víveres e artigos de cantina” que estavam ali numa estante. Por isso, tenho de aprender depressa e logo iniciar o trabalho de minutar a análise e propostas de decisão.

O alferes vai-me ajudando a escrever a respectiva “informação” para despacho superior. O colega furriel veterano também me ajuda, dá-me uns toques e assim vou aprendendo a linguagem jurídica; mas o que considero um trabalho de aprendizagem, foi logo submetido ao chefe, sem que eu ainda tivesse a necessária experiência. Não tarda, o tenente-coronel chama-me ao gabinete para me admoestar: “Então, nosso furriel? Como é que é?” E blá blá blá… etc.

O alferes lá me desculpava, assumia os erros… e assim fui apanhando traquejo e experiência.

Neste ambiente de guerra e mortes, a tropa no mato, tem quase tudo do bom, para manter o moral e boa disposição! As cantinas disponibilizam boas bebidas, desde whiskies (de qualidade) a licores Glayva, Tríplice, aguardente velha, etc., vinhos engarrafados (do melhor), muita cerveja, os mais diversos artigos de toilete, etc. etc. E são enviados os mais variados produtos para a confecção da alimentação diária. 

A quebra, destruição deste «stock» devido à manipulação aquando do embarque e descarga e transporte, bombardeamentos, etc. dá origem aos autos que são enviados para apreciação na «Secção de Autos» onde trabalho…


A CHEFINT resolve ainda autos de fardamento, controla os consumos de víveres, fiscaliza a contabilidade das unidades, enfim tudo e mais alguma coisa. Manuel Amante, um velho amigo e colega do liceu que foi colocado no final de 1973 na Chefia da Intendência, explica:

“Nós fornecíamos material e equipamentos e tudo… aliás a Manutenção Militar estava sob a coordenação ou orientação da… Chefint – Chefia da Intendência) e eu fui colocado na secção que… vá lá, digamos, a «secção funerária», onde nós é que geríamos os caixões, portanto, eu fui chefe dessa pequena secção onde nós geríamos os caixões de chumbo, de madeira, de zinco, consoante a naturalidade de quem tivesse morrido, assim se distribuía.

 Portanto, eu, mais ou menos nessa altura, eu tinha uma ideia de como é que eram as operações. Apesar dos quartéis terem um stock de caixões, quando faltavam, eles requeriam e nós dispensávamos isso."


Com o passar dos dias sinto-me integrado na secção d
e autos de víveres, onde o ambiente é de conversa e conhecimento mútuo. Os três civis, colegas de serviço são: o Demba Baldé, que tem uma cara horrível, toda desfeita por queimaduras…, é ele quem trata do arquivo; há um vivaço chamado, Issa Baldé que é o dactilógrafo; o Claudino, trata de expedientes administrativos, é um homem na casa dos 30 anos, de pele clara, tem um bigodaço, parece ser cabo-verdiano.

O alferes comenta a brincar: 

“Olha, na Guiné são todos: Mané, Baldé, Turé… Camará, Embaló, Djaló, Dabó… Eu confundo sempre os nomes!”

Apesar de muitos terem apelidos homónimos, não são, nem familiares, nem parentes. Há mais civis nas outras secções, a maioria guineenses, mas também há descendentes de cabo-verdianos.

O Demba ao me ver sair várias vezes para ir beber e voltar todo molhado em suor – acho que sentia pena de mim – certo dia ao me ver assim, não resistiu e disse: 

“Oh! Gonçalves, assim não vais poder aguentar a comissão! Tens de te adaptar ao calor! Toma lá, põe na boca, um pedacinho chega!"

Estendeu a mão com algo e diz:

"Vai ajudar-te a controlar a sede!”

Perguntei o que é isso, ele responde:

“Noz de cola! Põe isso num canto da boca!”

Desconfiado, tomei o pedacinho daquele fruto verde por fora, branco por dentro, a textura parecia a de um pedaço de tâmara meio verde, mas não meti na boca. Aceitei a oferta por cortesia. Demba também não comentou a minha atitude. Passados uns dias, vendo a minha aflição, Demba voltou a alertar-me:

“Põe o pedacinho de cola na boca e a sede vai acabar!”

Assim fiz, senti então uma sensação de frescura na boca e na cara, a saliva aumentou… Agora o meu problema é: ir frequentemente cuspir na casa de banho! Passadas umas semanas, comecei a adaptar-me ao calor intenso da Guiné, já nem utilizava a noz de cola, bebia normalmente.

Demba Baldé é muçulmano, reza todos dias às 11 da manhã e à tarde às 17 horas; ele levanta-se, vai a um canto, estende um pequeno tapete no chão e faz as suas orações. 

Demba, notou o meu espanto por ele estar muitas vezes a rezar com um rosário nas mãos enquanto trabalhava; por isso ele tomou a iniciativa de me explicar os preceitos da fé muçulmana, um mundo que eu desconhecia: no Ramadão, tinham de rezar todo o dia e fazer jejum, só comiam à noite; quem pode frequentar a mesquita; peregrinação a Meca, quem lá foi, passa a ter título de «El Haaj», ou “Aladje”; e isso e aquilo… etc. e tal.

Curioso, perguntei apontando, o que era aquele rosário que ele tinha nas mãos? Fez-se de desentendido, não insisti. Prosseguiu explicando que nomes da Bíblia que se diz, serem cristãos, vêm do árabe: Abraão é Ibrahim, José vem de Youssef, etc. 

Quanto ao rosário, a explicação veio pelo Issa Baldé: chama-se “tashby”. O Issa diz que também é «Fula», explica que o seu nome significa «Jesus» em árabe, aliás fez questão de sublinhar, «Issa» é que é o verdadeiro nome de Jesus! 

Mas, este nosso dactilógrafo, embora muçulmano, não era praticante, fumava muito e dava-se muito bem com o Claudino,  outro grande fumador,  gozava com o Demba, quando ele me contava estas estórias de religião ou da etnia «Fula».

Demba também me explicou que é da etnia «Fula» com orgulho diz: 

“Nós somos diferentes das outras etnias da Guiné porque sabemos ler e escrever, temos o nosso próprio alfabeto!"

O ex-militar Manuel Dinis, comentou anos mais tarde: 

"Os fulas, ardentes propagandistas do islão, propagavam a escolaridade em árabe. A população manifestava-se algo colaborante, mas assumia uma posição neutra em relação ao IN (inimigo) de maneira a, agradando a uns, não desagradar aos outros.”

Comecei então a ter uma outra noção da Guiné e da sua diversidade. Ao mesmo tempo tentava descobrir alguma ligação minha, com esta terra e com a sua gente. Minha mãe, dizia sempre que a avó dela, era da Guiné, que era filha de um régulo «Fula»! Ou era «Papel»? 

Bem, não importa… Desde pequeno que ouvia contar que a minha bisavó tinha sido levada da Guiné para Cabo Verde pelo meu bisavô, um «badio» branco, filho de metropolitano,  natural de Vilar de Mouros, norte de Portugal,  que se casou com uma branca da Ilha do Fogo (ela foi sepultada no cemitério da Praia em 1700 e tal… e lá estão outros membros da família “Abreu Rodrigues Fernandes”),

Mamã contou-me, naquela época, foi um escândalo na cidade da Praia, quando o director da alfândega (o meu bisavô),  branco loiro, olhos azuis, apareceu amantizado com uma preta da Guiné, onde esteve destacado em serviço. 

Mamã dizia que ela cozinhava aquelas comidas da Guiné e contava aquelas «estórias» fantásticas do mato e animais selvagens… Explicou: foi vovô (meu bisavô) quem a ensinou a ler e escrever, ter boas maneiras, comprava-lhe roupas caras! Viveram felizes até quando já velhinhos a morte os separou.

Mas, nunca contei esta minha história ao pessoal da repartição de autos, nem a qualquer outra pessoa em Bissau! Conto hoje, pela primeira com a devida vénia e orgulho…

Enquanto se trabalhava no duro para limpar as prateleiras, daqueles mais de mil autos e outras tantas dezenas que iam entrando todos os meses, falávamos uns com os outros e havia muita camaradagem, mas com o devido respeito pela hierarquia e funções de cada um. 

O alferes era quem brincava muito e gozava com as coisas mais simples, era uma forma de se manter moral alto e passarmos o tempo menos angustiados. Porque, não podíamos fugir dos acontecimentos do dia-a-dia, sempre sangrentos, que nos chegavam, ora sob a forma de «relatos» comentados à boca fechada, ou nos relatórios que acompanhavam alguns autos, como justificativa de ataques e flagelações…

Havia também informações que chegavam através da ERG (Emissor Regional da Guiné) nos programas «Guiné Melhor» entre as 19 e 20 horas. Em crioulo, português e línguas nativas, apresentava-se a visão oficial dos acontecimentos no teatro de operações (TO). Muitas vezes havia relatos de militares ou de outras pessoas sobre os ataques a colunas de transporte, emboscadas, etc. seguidos de comentários por gente da emissora.

De passagem por Bissau, vinham do mato muitos militares, uns a caminho de férias na metrópole, outros por evacuação médica, outros simplesmente enviados, para uns dias de folga para descansar, porque já estavam «marados» e tinham comportamentos estranhos… 

Toda esta malta trazia novidades, tinha «estórias» para contar, que esclareciam muitos boatos que circulavam… No fundo não eram boatos, mas sim notícias truncadas ou distorcidas de acontecimentos reais. A malta da companhia de transportes estava muito perto de nós, num quartel ao lado do QG. Quando voltavam das missões de reabastecimento contavam as ocorrências.

Recorde-se, Bissau está cercada por um campo de minas, por arame farpado e pela guerra! Não se pode ir a nenhum lugar no interior porque é perigoso! Nhacra, uma localidade muito próxima, é atacada com uma certa regularidade. 

Eu consegui ir uma vez a um pouco mais perto, a Safim… foi em maio de 1973, fui comer umas ostras frescas, mas era perigoso. Havia lá um restaurante, fui logo apresentado ao dono e à esposa, ambos com um excesso de peso que salta à vista, mas são muito simpáticos, sabem receber os fregueses. Decorreu, então, um agradável petiscar de ostras, claro, muita conversa, nem me passou pela cabeça a guerra, ou qualquer perigo, que estava ali perto.

A circulação pelo território da Guiné nesta altura só é feita através de colunas militares e pelas LDG (as lanchas militares de desembarque  grandes) também usadas nas operações de reabastecimento; os barcos civis muitas vezes são escoltados. Os meios aéreos destinam-se às operações militares, algumas vezes fazem operações urgentes de reabastecimento... lançamentos de víveres em paraquedas, caso do frango congelado e rações de combate.

Nos relatórios «confidenciais» que acompanhavam os autos e passavam pelas minhas mãos, vinham muitas vezes descrições dos ataques e a lista dos danos causados, claro, a mim só interessava a lista dos artigos de cantina destruídos: tantas centenas/caixas de garrafas de cerveja partidas, tantos disto e daquilo… destruído, molhado, etc. 

Impressionava-me a menção final da quantidade de munições utilizadas na resposta ao IN: disparados tantos mil cartuchos de tantos milímetros, lançadas tantas granadas, etc. etc.


O termo "svenska schack", em sueco,   quer dizer  "xadrez sueco": lê-se no tabuleiro em cima da mesa... Presume-se que tinha sido uma oferta ao PAIGC, pelo Estado Sueco ou por uma associação sueca que apoiava a causa do partido de Amílcar Cabral...  A foto deve ser c. início dos anos 70. Em primeiro plano, uns óculos de sol e a ponta de uma arma (talvez uma Kalash) (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Casa Comum | Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05222.000.141 | Título: Júlio de Carvalho, Tchifon, Cláudio Duarte e Valdemar Lopes | Assunto: Os combatentes caboverdianos Júlio de Carvalho [Julinho], Tchifon, Cláudio Duarte e Valdemar Lopes [da Silva] jogando xadrez numa base do PAIGC | Data: 1963 - 1973 | Observações: Valdemar Lopes da Silva foi professor no Centro de Instrução Política e Militar (CIPM) do PAIGC, a partir de 1970 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias


Citação:
(1963-1973), "Júlio de Carvalho, Tchifon, Cláudio Duarte e Valdemar Lopes", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43496 (2025-5-31)

(Reproduzido com a devida vénia...)



Um dia chamou-me a atenção num desses relatórios a alusão a um tal «JJ» que era descrito como um cabo-verdiano que andava por aí com um bigrupo do PAIGC cujos ataques, dizia-se, eram destemidos e implacáveis. Parecia uma desculpa para tanta destruição descrita! Outra vez, vi uma referência a um tal «Chifon» que juntamente com o «JJ» fizeram um grande ataque, houve dificuldades na resposta ao IN. 

[ Nota do editor LG: Esse JJ seria o Júlio de Carvalho, "Julinho" ? Ou o Jaime Mota, morto em Canquelifá, em 7 de janeiro de 1974 ? Ou ainda o Joaquim Pedro Silva, "Baró" ?.Ou, mais provavelmente, o João José Lopes da Silva ?... Por outro lado, no Arquivo Amílcar Cabral, há uma foto, que reproduzimos acima em que aparece o "Tchifon", seguramente nome de guerra, a observar uma partida de xadrez.]

Dizia-se claramente naqueles relatórios que os cabo-verdianos e cubanos é que eram culpados ou lideravam ataques tão violentos, isso parecia uma justificação. Lia essas informações, mas nunca comentei com ninguém. Documentos classificados é ler e esquecer. 

Algum tempo depois, pelos autos que íamos resolvendo daquela pilha dos mil e dos outros tantos, que iam chegando, saltava à vista: a «batata» era o grande e maior problema na logística. Devido ao clima, apodreciam toneladas de batata, que constituíam perdas enormes! A tropa gostava de batata e era reticente no consumo de feijões e massas, que requisitavam, mas iam comendo aos poucos, logo, muitas vezes, acabavam por exceder o prazo, apodreciam, constituindo mais perdas e claro, dando origem a autos…

O tenente-coronel andava preocupado, por isso me solicitou um gráfico sobre perdas de batata por meses desde o ano anterior. Para evitar o apodrecer de toneladas e toneladas de batata, até tinham sido instalados aparelhos de ar condicionado em muitos armazéns!

Depois da batata, o pesadelo do tenente-coronel era o frango congelado. É que o pessoal no mato não cumpria as regras de descongelamento estipuladas nas NEP, logo, quilos e mais quilos de frango ficavam impróprios para o consumo… O calor encarregava-se do resto… eram elaborados autos e mais autos… cuja decisão era quase sempre: a pagar pelo pessoal responsável!

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 27 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26853: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - Parte V: aqui sinto-me em casa, encontro tias, primos, vizinhos, colegas de escola e do liceu...

(**) Vd. poste de de 31 de dezembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23935: Antologia (88): Cabo Verde: história das suas forças armadas, constituídas a partir de um núcleo de antigos combatentes do PAIGC (excertos de artigo de Pedro dos Reis Brito, "Revista Militar", n.º 2461/2462, de fev / mar 2007)