Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28221: Reencontro e memórias em Cacheu-Teixeira Pinto (José Macedo, 2.º Ten RN)
1. Mensagem do nosso camarada José Macedo, 2.º Ten da RN, DFE 21 (Cacheu e Bolama, 1973/74), enviada ao nosso blogue através do Formulário de Contacto do Blogger em 16 de Julho de 2026:
Reencontro e memórias em Cacheu-Teixeira Pinto
Em 1973 quando estive aquartelado em Vila Cacheu com o DFE 21, o comando operacional da Zona (na área de Canchungo/Biangue, (no contexto do PAIGC) estava a cargo do Batalhão de Caçadores n.º 3863.
Pouco tempo depois da minha chegada ao DFE 21, acompanhei o meu comandante, Tenente José Maria da Silva Horta, numa deslocação para uma reunião com o comandante do Batalhão 3863. Para minha surpresa — e talvez também para eles — reconheci o Tenente-Coronel António Joaquim Correia, comandante do Batalhão de Caçadores 3863, e também o Major João José Pires, que era o seu segundo comandante e oficial de operações.
A surpresa foi ainda maior porque eu já conhecia o Tenente-Coronel Correia havia cerca de dois anos, em São Vicente, Cabo Verde. Naquele tempo, ele era o Comandante Militar de Cabo Verde e, além disso, era pai de um colega meu do Liceu Gil Eanes.
Quanto ao Major João José Pires, eu também o tinha conhecido antes: ele tinha sido meu professor de Educação Física no mesmo Liceu Gil Eanes.
As voltas que o mundo dá
Foi então que percebi, com toda a força, que o mundo dá mesmo “as voltas”: relações que começam na escola voltam a encontrar-se em contextos completamente diferentes, e memórias pessoais acabam por cruzar-se com realidades históricas e institucionais.
Mantenhas do Zeca Macedo
Tenente FZE-DFE21
Guiné-Bissau, Cacheu-Bolama 73-74
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quinta-feira, 9 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)
Ex-1.º Cabo Radiotelegrafista António Castro
Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494
O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC 6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.
Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM)
Créditos: Página dos Especialistas do AB4
A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo - como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.
Foi ali, naquele pedaço de terra árida e luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de ligação ao mundo que estava a deixar para trás.
Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.
Durante o mês que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele era o chefe do STM (Serviço Telecomunicações Militares) no Agrupamento TRMS no Quartel de Santa Luzia, e abriu-me a porta como se eu fosse um filho que chegava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu-me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a normalidade possível - tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Bissau - 1972, 1.º sarg. Caldas em primeiro plano, eu, de costas
Bissau 1972 - Agrupamento das TRMS
Ali aprendi não apenas a transmitir - aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.
A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.
Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias.
O destino final era o Xime. E o Xime não era apenas um aquartelamento - era um teste diário à resistência de cada homem.
Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo - pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.
O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que éramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (Racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR-28) e com o AVP-1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.
O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso - e era preciso muitas vezes.
Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação.
A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.
Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente Canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG 7, RPG 2 e Foguetões.
A guerra molda-nos sem pedir licença. E quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.
Voltei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Foram 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa
Créditos: Página dos Especialistas do AB4
Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.
E cada vez que nos juntamos, cada convívio, cada abraço, cada história repetida, é como se o rádio voltasse a ganhar vida - e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.
Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.
António Castro,
ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026
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Nota do editor
Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)
domingo, 18 de janeiro de 2026
Guiné 61/74 - P27645: Frase do dia (8): "Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos. Vamos colonizar a África e o Brasil e deixamos crescer a erva, à nossa porta." (Texieira de Pascoaes, "Livro de Memórias, 1928)
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| Teixeira de Pascoaes (877-19525) |
"Adoramos a ausência e desprezamo a presença. Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos. Vamos colonizar a África e o Brasil e deixamos crescer a erva, à nossa porta."
"Muito bem! Muito bem!"
"Também eu desprezo o presente, e me refugiei no Passado, para salvar da minha morte algumas das minhas lembranças mais queridas."
"Que Deus tenha compaixão delas e de mim!"
In: Teixeira de Pascoaes - Livro de Memórias. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pág. 143.
(O texto original é de 1928).
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Nota do editor LG:
Último poste da série : 18 de abril de 2023 > Guiné 61/74 - P24232: Frase do dia (7): "Amílcar Cabral tinha tanto de génio como de ingénuo", diz uma das personagens do conto "A doença do Alemão", de Luís Graça
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Guiné 61/74 - P27447: Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do Fim da Guerra do Ultramar, 18 de novembro de 2025: Simbolismo das coroas de flores depositadas no Monumento aos Combatentes do Ulramar (Luís Graça ) - Parte I
Foto nº 1 > Ministério da Defesa Nacional
Foto nº 2 : Forças Armadas de Portugal
Foto nº 3 > Força Aérea Portuguesa
Foto nº 4 > Marinha Portuguesa
Foto nº 6 > Deputados da Comissão de Defesa da Assembleia Nacional
Foto nº 7 > Guarda Nacional Republicana (GNR)
Foto nº 9 > Grupo de Adidos Militares Estrangeiros Acreditados em Portugal
Foto nº 10 > Ambassade de France au Portugal / Embaixada de França em Portugal
Foto nº 11 > Cruz Vermelha Portuguesa (CVP)
Foto nº 12 > Associação Nacional dos Prisioneiros de Guerra
Foto nº 13 > Amicale des Anciens Combattants et Militaires Français au Portugal (AACMFP) / Associação dos Veteranos e Militares Franceses em Portugal
Foto nº 15 > Coroas de flores no Monumento aos Combatentes do Ultramar (1)
Foto nº 16 > Coroas de flores no Monumento aos Combatentes do Ultramar (2)
Foto nº 17 > Coroas de flores no Monumento aos Combatentes do Ultramar (3)
Foto nº 18 > Coroas de flores no Monumento aos Combatentes do Ultramar (4)
Lisboa > Belém> Forte do Bom Sucesso > 18 de novembro de 2025 > 10h00 > Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do Fim da Guerra do Ultramar, Coroas de flores junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar
Fotos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
1. Fui, como convidado, e pela primeira vez (que me lembre!), participar numa cerimónia comemorativa do fim de uma guerra, aliás duas, a da I Grande Guerra (1914/18) e a da Guerra do Ultramar (1961/74), organizada pela centenária Liga dos Combatentes (LC).
A cerimónia decorreu entre as 10h00 e as 12h30 do passado dia 18 de novembro. Tendo chegado um pouco mais cedo, pus-me a observar e a fotografar as coroas de flores (mais de uma dúzia) colocadas na base do Monumento aos Combatentes do Ultramar, localizado junto ao Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa. Ao centro, e alinhada com a "passadeira vermelha" para os VIP, estava a coroa do Ministério da Defesa Nacional, organizador do evento em conjunto com a Liga dos Combatentes. A cerimónia foi presidida, se não erro, pelo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas.
Por (de)formação profissional, gosto de pôr a mim próprio, mentalmente, questões sobre o que vejo ou apreendo: o quê, onde, quando, como, porquê, por quem e para quem...
De entre as formas de homenagem aos combatentes mortos nas guerras avulta a tradicional deposição de coroas de flores funerárias. De repente intrigou-me a forma, as cores e o tipo de flores das coroas funerárias, bem como a sua disposição espacial, na base do monumento, e em torno de um tapete vermelho por onde circulariam depois os representantes das entidades oficiais.
Ora tudo isso não acontecia por acaso. Quis saber o simbolismo e o significado profundo que tem o uso das coroas de flores na nossa cultura e na nossa sociedade, em cerimónias como estas em que se homenageiam os mortos caídos pela Pátria.
Com a ajuda das ferramentas de IA (ChatGPT e Gemini) e outras consultas na Net, fui respondendo a algumas das minhas questões. Para já fiquemos pela primeira parte: cores e espécies de flores, forma e estrutura das coroas.
Numa segundo poste, falaremos da ordenação espacial das coroas das flores, que devem obedecer a um protocolo institucional. (A tropa tem horror ao vazio e ao improviso, embora na Guiné, em teatro de guerra, nos mandasse "desenrascar"...)
1. Têm um simbolismo que vai muito além da estética: representam memória, valores, emoção e, em última análise, a forma como uma sociedade encara o sacrifício (supremo) dos seus soldados. O uso de coroas funerárias remonta à Antiguidade Clássica, Greco-Romana. Afinal, já fomos escravos e colonizados pelos romanos. (Não sabemos a língua que falava o nosso Viriato.)
Embora cada cultura possa ter nuances próprias, há alguns sentidos amplamente reconhecidos para as cores:
(i) Vermelho=sacrifício, coragem, heroísmo e sangue derramado
O vermelho é uma das cores mais usadas, sobretudo em rosas, cravos, antúrios, gerberas Representa:
- o sangue derramado pelos combatentes;
- a nobreza;
- a coragem no campo de batalha;
- a lembrança viva do sacrifício;
- amor eterno e admiração.
É por isso tão comum no Dia do Armistício, no 10 de Junho, no Dia da Memória e outras efemérides, em vários países.
É cor mais comum, simbolizando:
- o desejo de paz duradoura após o conflito;
- a pureza das intenções dos combatentes;
- luto e reverência.
É uma forma de homenagear não só quem morrer, mas também a esperança de que os infaustos eventos, como a guerra (incluindo a guerra civil), não se repitam.
(iii) Amarelo=lembrança e esperança
Em algumas culturas, o amarelo representa:
- lembrança perene;
- esperança na reunião espiritual;
- luz e eternidade.
(iv) Roxo=luto profundo e espiritualidade
O roxo, poço usado em arranjos florais, está muitas vezes associado a:
- cerimónias mais solenes;
- respeito espiritual;
- reflexão sobre a morte e o seu significado;
- luto.
2. Porque se usam flores em homenagens fúnebres ?
Para além das cores, as próprias flores têm um profundo significado:
- são símbolos de vida, beleza e fragilidade;
- lembram-nos que a vida dos combatentes foi preciosa e efémera;
- representam a continuidade, a passagem de testemunho, a partilha;
- mesmo após a morte, a memória floresce; e a vida renasce;
- criam um momento de beleza num contexto doloroso, um gesto de humanidade face à brutalidade da guerra e do sacrifício da própria vida,
O sentido mais profundo: no fundo, estas cores não são apenas um elemento meramente decorativo; são signos, são uma linguagem simbólica que permite expressar:
- respeito e gratidão;
- memória coletiva;
- humanização do luto;
- compromisso com a vida, com a liberdade e com a paz.
É uma forma silenciosa, mas poderosa, de dizer que os mortos não ficam "inumados na vala comum do esquecimento" (como gostamos de dizer na Tabanca Grande) e que o seu sacrifício tem significado na história das famílias, dos grupos, da comunidade, do País.
3. As cores usadas nas cerimónias e flores não são apenas escolhas simbólicas tradicionais, mas também refletem frequentemente as cores dos brasões e insígnias das entidades que prestam a homenagem (chefe de estado, assembleia da república, governo, forças armadas, associações de combatentes...). E isso acrescenta um significado institucional e histórico muito forte.
(i) Representação institucional
Quando o exército, o governo, as ligas de combatentes, embaixadas ou outras entidades colocam coroas ou arranjos florais, é comum que:
- escolham as cores do seu próprio brasão oi insígnias;
- usem as cores da bandeira nacional;
- ou combinem ambas.
Isto serve para:
- mostrar que a homenagem não é apenas pessoal, mas oficial e coletiva, institucional;
- marcar que a entidade assume publicamente a memória dos seus combatentes;
- dar continuidade a uma tradição cerimonial formal.
(ii) Identidade e continuidade histórica
A utilização das cores dos brasões reforça o vínculo entre:
- os combatentes homenageados;
- a instituição ou a arma a que pertenciam (exército, marinha, força aérea):
- e a história da própria instituição ou da arma.
Por exemplo: o Exército pode usar o verde e vermelho (cores nacionais) ou detalhes dourados e pretos das suas insígnias; a Liga dos Combatentes utiliza as cores do seu emblema, reforçando a missão de preservar a memória; embaixadas estrangeiras usam frequentemente as cores da bandeira do país que representam, simbolizando respeito internacional.
(iii) Um gesto simbólico e protocolar
Ao usar as cores dos brasões:
- reforça-se a ideia de que os combatentes não foram esquecidos pela Pátria;
- mostra-se a unidade entre Estado, instituições militares e sociedade civil, incluindo associações de veteranos;
- cumpre-se o protocolo cerimonial militar e diplomático.
(iv) Complemento ao simbolismo emocional das flores
Assim, há dois níveis de significado:
- emocional e universal; cores que expressam luto, sacrifício, paz e memória;
- institucional e histórico: cores dos brasões que reforçam a identidade e a responsabilidade da entidade homenageante.
Ambos se complementam para criar uma homenagem mais completa e cheia de significado.
4. Mas não são apenas as cores, mas também as formas e a estrutura das coroas que carregam simbolismo. Em cerimónias militares e de Estado, a forma da coroa ou arranjo floral transmite mensagens subtis, ligadas à tradição, ao protocolo e à identidade da entidade que presta homenagem. Muitas vezes estas coroas são extremamente elaboradas e visualmente muito atrativas, porque representam não só o luto, mas também a honra, a hierarquia e a memória colectiva.
(i) Formas geométricas com significado
As coroas podem ser circulares, ovais, em escudo, em coração, em cruz ou mesmo em arranjos verticais.
Círculo= eternidade e continuidade
- simboliza a vida eterna, ou o eterno retorno;
- representa a memória que não tem início nem fim;
- transmite a ideia de unidade nacional e de solidariedade intergeracional.
Variante da coroa circular, a coroa de louros é um símbolo clássico de honra, vitória e glória, remontando ao mito de Apolo e Dafne, e sendo historicamente associada a conquistas e estatuto elevado; é frequentemente usada em homenagens a militares e figuras de Estado em Portugal.
Forma de escudo=honra militar
Algumas coroas são feitas à maneira de um brasão ou escudo militar:
- reforçam a ligação ao corpo ou Ramo das Forças Armadas;
- simbolizam proteção e bravura;
- recordam que o combatente serviu uma instituição com identidade própria.
Formas religiosas (cruz, palma, espiga)
- usadas sobretudo por entidades com tradição cristã;
- simbolizam fé, sacrifício e esperança na vida espiritual, ressurreição;
- muito usadas por governos ou associações que seguem protocolos históricos.
Outras formas, como o Coração (amor profundo e afeição) também podem ser usadas, embora a forma circular ou de louros seja mais prevalente em cerimónias públicas militares.
(ii) Coroas elaboradas com detalhe e complexidade
As coroas mais ornamentadas aparecem geralmente quando:
- a entidade é de alto nível (Presidente da República, Governo, Chefes militares, Embaixadas);
- a cerimónia é oficial ou de Estado;
- o local é de grande significado (Túmulo do Soldado Desconhecido, Mosteiro da Batalha ou dos Jerónimos, Monumento aos Combatentes do Ultramar, campos de batalha, cemitérios militares, outros monumentos nacionais).
Estas coroas:
- reforçam a solenidade;
- representam a dignidade do cargo que presta homenagem;
- procuram traduzir visualmente o respeito máximo.
(iii) Elementos específicos que acrescentam significado:
Muitas coroas possuem detalhes que parecem apenas decorativos, mas não são:
Fitas com inscrições
Contêm:
- nome da instituição;
- palavras como “Homenagem”, “Glória”, “Honra”, “Memória”;
- cores da bandeira ou brasão ou insígnia da entidade.
Ramos de louro ou oliveira
Muito usados em coroas militares:
- o louro simboliza vitória e honra;
- a oliveira simboliza paz e reconciliação.
Outras flores e folhagens (verdura)
por exemplo, o verde (folhagens): representa renovação e esperança;
as flores podem ser escolhidas, para além da sazonalidade, pelos seus significados simbólicos, que se adaptam ao contexto de homenagem a um combatente.
Elementos dourados ou metálicos
Reforçam:
- a solenidade;
- o carácter oficial;
- a antiguidade histórica da instituição.
(iv) O significado mais profundo das formas elaboradas
No fundo, a forma da coroa é uma linguagem simbólica, tão importante quanto as palavras proferidas no discurso de homenagem. Cada forma e detalhe transmite a mensagem de que:
- o combatente é lembrado com identidade, respeito e história;
- a sua morte não é apenas um facto individual, mas um elemento da memória coletiva do país;
- a homenagem é proporcional à importância do sacrifício.
5. Simbolismo das coroas funerárias (síntese)
| Elemento | Significado comum | Contexto militar/Honra |
| Louro | Vitória, Honra, Glória | Essencial em coroas militares, simboliza o triunfo e o sacrifício; remonta ao mito de Apolo e Dafne |
| Sempre- -Vivas | Força, Resistência, Memória Eterna | Representam a permanência da memória e a resistência do espírito |
| Carvalho (Folhas) | Sabedoria, Força, Robustez | Associado a Zeus (na mitologia helénica) , simbolizando a resiliência |
| Rosas Brancas | Reverência, Respeito, Pureza, Paz | A escolha clássica para expressar respeito profundo e paz espiritual |
| Rosas Vermelhas | Amor, Respeito, Coragem, Sacrifício | Simboliza o amor profundo e a coragem, especialmente relevante para um combatente |
| Lírios Brancos | Pureza, Tranquilidade, Paz Espiritual | Usados para transmitir serenidade e a renovação da alma / espírito |
| Crisân- temos | Luto e Homenagem (em muitas culturas) | Usados tradicionalmente em funerais, simbolizam a nobreza da alma / espírito |
(Continua)
Pesquisa LG + Net + IA (ChatGPT, Gemini)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Guiné 61/74 - P27418: Em memória de Sissau Sissé, que me acompanhou durante muitos anos no meu trabalho de terreno em Contuboel (Eduardo Costa Dias)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de hoje, 13 de Novembro de 2025:
Queridos amigos,
Em 12 de novembro almocei no restaurante da Sociedade de Geografia de Lisboa com o meu amigo Eduardo Costa Dias, professor universitário aposentado, com tese de doutoramento baseada na agricultura Mandinga de Contuboel, onde fez trabalho de campo. Falámos de amizades inextinguíveis e sempre, sempre, dessa Guiné que gostaríamos de ver em trilhos de democracia, equidade, desenvolvimento, sempre em compasso de espera, para não dizer em regressão. À tarde, deixou-me no mail esta recordação tão terna, que tanto me surpreendeu. Perguntei-lhe seguidamente se permitia a sua publicação no blogue, prontamente disse que sim. Se procurarem no Google, terão provas dos trabalhos académicos guineenses, ali se expõem as suas colaborações nacionais e internacionais.
Sinto muito orgulho em ver o meu amigo Eduardo Costa Dias a participar no blogue.
Abraço do
Mário
********************
Sissau SisséEduardo Costa Dias
Sissau Sissé acompanhou-me durante muitos anos no meu trabalho de terreno em Contuboel. Mestre, tradutor e, mais do que tudo, amigo. Sissau era fluente - falava, lia, escrevia em português, crioulo, fula e mandinga e em mais duas ou três línguas do grupo linguístico malinké. “Desenrascava-se bem” ainda em francês e árabe.
Membro de uma importante família de mouros com ramificações no Senegal, no Mali e na Guiné-Conacri, frequentou em simultâneo a “escola de branco” (anos 1960) e, durante longos anos, a madraça onde o avô, o pai, os tios e, a partir de certa altura, primos ensinavam. Durante dois anos frequentou intermitentemente uma madraça no outro lado do Geba, em Djabicunda. Muito religioso, Sissau Sissé não era exatamente um expert em textos corânicos. Era, sim, um excelente conhecedor dos, escrevendo à antiga, usos e costumes dos Mandingas e, sobretudo, um grande genealogista. Conhecia a história toda das grandes famílias Mandingas e, como ninguém, “lia” as ligações.
Os meus primeiros (e decisivos) contactos com a “floresta” da “genealogia religiosa muçulmana” foram por ele guiados. Devo-lhe, por exemplo, ter aprendido depressa o significado de palavras como baraka, distribuição de baraka, herança de baraka e o conteúdo de silsila: fulano aprendeu com o seu mestre X que por sua vez já tinha aprendido como seu mestre Y, que por sua vez já tinha aprendido do seu mestre W.
Tábua escrita por alunos de uma escola corânica em Galugada Mandinga
Tirei hoje esta fotografia - uma tábua escrita por alunos de uma escola corânica em Galugada Mandinga, no dia da festa Eid-al-Adha que o Sissau Sissé considerava o centro do ano muçulmano e no mês em que fez 30 anos que morreu.
Acometido de uma apendicite aguda em Contuboel foi trazido por um jeep do DEPA para o hospital Simão Mendes em Bissau. Morreu durante a operação… tendo precisado de oxigénio… o hospital não tinha, sendo mais preciso: não havia oxigénio porque tinha sido desviado e possivelmente, como na época acontecia bastante, vendido no Senegal ou na Gâmbia.
Sissau, Saudades tuas
Sissau Sissé na foto de babuk creme
Sissau Sissé na foto com babuk azul escuro
_____________sexta-feira, 7 de novembro de 2025
Guiné 61/74 - P27395: Notas de leitura (1859): "Amok", por Stefan Zweig; Lisboa: Relógio D'Água, 2022 (Jaime Bonifácio da Silva, ex-Alf Mil Paraquedista)
1. Mensagem do nosso camarada Jaime Bonifácio Marques da Silva, ex-Alf Mil Paraquedista da 1.ª CCP/BCP 21 (Angola, 1970/72), com data de 5 de Novembro de 2025:
MEMÓRIAS (À MARGEM) DA GUERRA
Notas de leitura do livro de Zweig, Stefan (2024). AMOK. Lisboa: Relógio d´Água. Esta obra foi publicada pela primeira vez, na Alemanha, em 1922.
Preâmbulo ao uso do termo amok
Na vida, quando olhamos, ao acaso, para os títulos dos livros bem arrumadinhos, algures numa estante, alguns deles, num ápice, espoletam em nós memórias e transportam-nos para locais e vivências, há muito tempo, arrumadas no sótão do esquecimento.
Aconteceu-me isso, recentemente, quando descobri este livro com o título AMOK.
Recordou-me o momento, em que, pela primeira vez, ouvi prenunciar a frase: deu-lhe o amok. Foi em Ninda, leste de Angola – Terras do Cú de Judas. Em fevereiro de 1970, quando fui render o Tenente paraquedista Grão no comando do 3.º Pelotão da 1.ª CCP do BCP 21. A companhia estava em plena fase operacional e, segundo me fui apercebendo, cada um dos 4 pelotões tinham encontrado forte resistência na zona.
Entretanto, nas conversas que ia travando com os meus novos camaradas de armas, ouvia-os pronunciar, regularmente, uma expressão que nunca tinha ouvido e desconhecia: “deu-me o amok, assaltámos a base e demos cabo daquilo tudo” ou, ainda, “cuidado com o gajo porque ele hoje, está com o amok” ou, ainda, “ninguém pode falar contigo, vai-te curar, estás com o amok”.
Com o tempo fui interiorizando o significado desse termo. Fui percebendo que se referia a alguém que se tinha “passado dos carretos”, “não via nada à sua frente” ou que “estava apanhado do clima”!... Foi neste contexto que fui assimilando o sentido do termo, de tal modo que, ao longo da vida, com alguma frequência e, em circunstâncias de menor ânimo, dizia para comigo: “hoje, não estás bem!... Hoje, estás com o amok”!...
1. Sobre o livro AMOK
Porém, ao folhear o livro de Stefan Zweig, vim a descobrir a origem e o significado do conceito de amok.
“ é um termo retirado da cultura Indonésia e significa “lançar-se furiosamente na batalha”. As pessoas afetadas por este estado psíquico têm ataques de fúria cega e procuram aniquilar os que consideram seus inimigos e quem quer que se interponha no seu caminho, sem consideração pelo perigo que correm”. (Zweig, 1992, capa)
Sobre o termo, transcrevo, ainda, o diálogo travado entre duas personagens do livro Amok:
“… O senhor sabe o que é o amok?
- Amok?... A palavra diz-me qualquer coisa… Não é uma espécie de inebriamento entre os malaios?
- É mais do que um inebriamento… é a perfeita loucura, uma espécie de raiva que atinge o ser humano… um ataque de monomania assassina, irracional, sem qualquer termo de comparação com outra forma de intoxicação alcoólica… eu próprio, durante a minha estadia nos trópicos, estudei alguns casos de amok –
“(…) tem, de certa forma, a ver com o clima, com aquela atmosfera abafada e sufocante que se abate, qual trovoada, sobre os nossos nervos até explodir, por fim…” (…) … mas quem está sob o domínio do amok, fica cego e não vê para onde se precipita … (…) não houve nada nem ninguém, não vê nada à sua volta.” (Ibidem, 39 a 41)
Stefan Zweig na obra AMOK coloca o “narrador a contar a sua viagem de Calcutá para a Europa a bordo do Oceania. Num passeio noturno na coberta do navio, encontra um médico preocupado e assustado e que evita qualquer contato social. Este vai contar-lhe o que o levou a uma relação obsessiva por uma mulher que o colocou em estado de amok” (Ibidem: contra capa).
2. Sobre a biografia do autor
Como se refere na capa do livro, Stefan Zweig nasceu em Viena em 1881. Era filho de um industrial e estudou História, Literatura e filosofia. Aos 17 anos escreve já em revistas modernistas. Praticou os mais diversos géneros literários, do romance ao teatro. Em todos os géneros procurou detetar as forças do irracional no coração da natureza humana.
Com a subida de Hitler ao poder em 1933, vê as suas obras serem destruídas em Munique. É forçado a partir para a Grã-Bretanha, de onde viaja para o Brasil em 1936 e depois para Nova Iorque, tendo visitado Portugal em 1938.
A 10 de setembro de 1939 escreve a Romain Rolland (1886-1944): “Não vejo qualquer saída para este terrível lamaçal”. Regressa ao Brasil em 1940 e em 1942 suicida-se com a mulher em Petrópolis.
As suas memórias, O Mundo de Ontem, de 1942, terminam com uma frase: “em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só aqueles que experimentaram a luz e as trevas, a guerra e a paz, a ascensão e a queda viveram verdadeiramente.”
Jaime Silva, Lourinhã, 1.11.2025
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Nota do editor
Último post da série de 3 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27382: Notas de leitura (1858): "Atlas Histórico do 25 de Abril", por José Matos; Guerra e Paz, 2025 (1) (Mário Beja Santos)
As suas memórias, O Mundo de Ontem, de 1942, terminam com uma frase: “em última análise, cada sombra é também filha da luz, e só aqueles que experimentaram a luz e as trevas, a guerra e a paz, a ascensão e a queda viveram verdadeiramente.”
Jaime Silva, Lourinhã, 1.11.2025
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Nota do editor
Último post da série de 3 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27382: Notas de leitura (1858): "Atlas Histórico do 25 de Abril", por José Matos; Guerra e Paz, 2025 (1) (Mário Beja Santos)
terça-feira, 16 de setembro de 2025
Guiné 61/74 - P27224: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (11): O Soldado Castro
1. Mensagem do nosso camarada do Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (,Tite e Fulacunda, 1968/69), com data de 5 de Setembro de 2025:
Desta vez, relato uma das implicações para que, durante 22 meses, não pude gozar férias por ter sido punido com detenção cumprida no mato.
Um abraço.
J.Caldeira
O SOLDADO CASTRO
Nunca percebi porque, sendo eu apenas um simples furriel, menos que sargento, tivesse que assumir funções que pertenceriam a oficiais ou, na sua ausência, a sargentos.
Desta vez, relato uma das implicações para que, durante 22 meses, não pude gozar férias por ter sido punido com detenção cumprida no mato.
Um abraço.
J.Caldeira
O SOLDADO CASTRO
Nunca percebi porque, sendo eu apenas um simples furriel, menos que sargento, tivesse que assumir funções que pertenceriam a oficiais ou, na sua ausência, a sargentos.
Em mais um regresso de Nova Sintra, comandando uma força de cerca de 30 homens, na qual se incluía o soldado Castro que até era da secção do sargento Faria, também integrante da força, sofremos uma emboscada. Mas antes o Faria tinha oferecido o cantil de aguardente ao Castro e, este, não se fazendo rogado, bebeu talvez em quantidade razoável. Ficou grogue e, durante o tiroteio, resguardou-se debaixo de umas raízes de embondeiro e por lá adormeceu. Tropa fandanga.
No final da emboscada, reunido o pessoal, certifiquei-me de que não tinha havido danos pessoais e, após comunicar com a sede do batalhão, certifiquei-me de estávamos todos e mandei prosseguir.
No final da emboscada, reunido o pessoal, certifiquei-me de que não tinha havido danos pessoais e, após comunicar com a sede do batalhão, certifiquei-me de estávamos todos e mandei prosseguir.
Passadas duas horas fui informado de que faltava o Castro. Pensei logo o pior. Que talvez estivesse morto ou ferido e que, por eu nem sequer o conhecer - estávamos há muito pouco tempo na Guiné e ele nem pertencia à minha unidade - não tinha dado pela sua falta. O Faria também não. Nova comunicação para o batalhão a informar da falta de um elemento.
Recebo ordens para prosseguir e informaram que pessoal da companhia de Nova Sintra, por estar mais perto do local da emboscada, iria procurá-lo. Mas não o encontrou.
Quando acordou, ainda sob o efeito da cachaça, dando pela nossa falta, caminhou errante para Nova Sintra. Chegou lá no dia seguinte. Foi um heli buscá-lo para Tite. E eu tive um processo disciplinar que resultou em castigo de dois dias de detenção que vim a cumprir fora do quartel, a caminho de Bissássema.
Como não podia deixar de ser, estes processos são demorados e só vim a saber da minha punição uns meses depois. Precisamente no dia 2 de Maio, data do meu aniversário.
Como não podia deixar de ser, estes processos são demorados e só vim a saber da minha punição uns meses depois. Precisamente no dia 2 de Maio, data do meu aniversário.
Até foi giro. O capitão presenteou-me com uma lembrança, um álbum para fotografias e a nota de culpa.
Quanto ao Castro, por remorso tentou dar um tiro na boca e eu fui chamado para o impedir. Não me foi difícil convencer do seu erro, mas sei que ficou marcado para sempre.
Quanto ao Castro, por remorso tentou dar um tiro na boca e eu fui chamado para o impedir. Não me foi difícil convencer do seu erro, mas sei que ficou marcado para sempre.
Uns anos mais tarde, fui chamado para ser sua testemunha num processo em que pedia uma pensão de reforma, que lhe foi concedida por incapacidade motivada por stress de guerra. Perdi-lhe o rasto, mas gostava de reencontrá-lo.
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Nota do editor
Último post da série de 8 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27195: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (10): Ataque à Tabanca de Feninquê
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Nota do editor
Último post da série de 8 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27195: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (10): Ataque à Tabanca de Feninquê
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
Guiné 61/74 - P27195: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (10): Ataque à Tabanca de Feninquê
1. Mensagem do nosso camarada do Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69), com data de 5 de Setembro de 2025:
Boa tarde, caro Luís
Desta vez vai uma das noites que marcaram a minha presença em Tite.
Um abraço e bom fim de semana.
J.Caldeira
TABANCA DE FENINQUÊ
Quem ainda se lembra de uma tabanca a sul de Tite, composta por meia dúzia de palhotas e habitada por uma população que era fiel à nossa bandeira? Pelo menos assim parecia e pareceu. Chamava-se Feninquê.
Mais uma noite de muita chuva. Onze na noite. A aldeia estava a ser atacada e pelo que se ouvia, tínhamos a certeza de que estava a ser dizimada.
O já Coronel Hélio Felgas manda que a 15.ª Companhia de Comandos, nessa noite em passagem por TITE, vá em socorro da aldeia. Não sei o que se passou para que o seu comandante se escusasse e, ironia, não foi a Companhia de Caçadores 2314 que saiu em defesa daqueles pobres? Nunca percebi porquê, mas de uma companhia, foi resolvido que quem iria era o 2.º pelotão. E, como não podia deixar de ser, fui eu a comandar.
Acertadas as logísticas de aproximação, havia que evitar um campo de minas colocado na picada, foi-me entregue um mapa com as coordenadas rigorosas para eu seguir e, após avistar a tabanca, informar a sede do batalhão para onde deveria ser feito fogo de obus para neutralizar o IN e possibilitar-me o resgate da população.
Cheguei tarde. Só encontrei morte e destruição à minha chegada. Ainda assim, pressentindo que o IN estivesse em fuga pela margem esquerda do rio, pedi fogo nessa direção, o que não resultou em nada.
Reuni os habitantes que sobreviveram e, com a ajuda dos homens válidos, improvisámos umas macas para transportar os feridos que seriam tratados pelo médico do Batalhão de Tite. Encetámos o regresso já de dia bem alto e sem chuva. À chegada foi como se nada se tivesse passado. Apenas me ordenaram que elaborasse um relatório da operação.
Afinal, as companhias de Comandos, bem formadas e bem equipadas, também se escusavam a cumprir tarefas que pudessem comportar algum perigo. Será que ainda alguém se lembra deste episódio?
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Nota do editor
Último post da série de 31 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27170: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (9): O perfume da Enfermeira Paraquedista
Boa tarde, caro Luís
Desta vez vai uma das noites que marcaram a minha presença em Tite.
Um abraço e bom fim de semana.
J.Caldeira
TABANCA DE FENINQUÊ
Quem ainda se lembra de uma tabanca a sul de Tite, composta por meia dúzia de palhotas e habitada por uma população que era fiel à nossa bandeira? Pelo menos assim parecia e pareceu. Chamava-se Feninquê.
Localização da tabanca de Feninquê a sudoeste de Tite
Infogravura: © Luís Graça & Camaradas da Guiné. Carta de Tite 1:50.000
Mais uma noite de muita chuva. Onze na noite. A aldeia estava a ser atacada e pelo que se ouvia, tínhamos a certeza de que estava a ser dizimada.
O já Coronel Hélio Felgas manda que a 15.ª Companhia de Comandos, nessa noite em passagem por TITE, vá em socorro da aldeia. Não sei o que se passou para que o seu comandante se escusasse e, ironia, não foi a Companhia de Caçadores 2314 que saiu em defesa daqueles pobres? Nunca percebi porquê, mas de uma companhia, foi resolvido que quem iria era o 2.º pelotão. E, como não podia deixar de ser, fui eu a comandar.
Acertadas as logísticas de aproximação, havia que evitar um campo de minas colocado na picada, foi-me entregue um mapa com as coordenadas rigorosas para eu seguir e, após avistar a tabanca, informar a sede do batalhão para onde deveria ser feito fogo de obus para neutralizar o IN e possibilitar-me o resgate da população.
Cheguei tarde. Só encontrei morte e destruição à minha chegada. Ainda assim, pressentindo que o IN estivesse em fuga pela margem esquerda do rio, pedi fogo nessa direção, o que não resultou em nada.
Reuni os habitantes que sobreviveram e, com a ajuda dos homens válidos, improvisámos umas macas para transportar os feridos que seriam tratados pelo médico do Batalhão de Tite. Encetámos o regresso já de dia bem alto e sem chuva. À chegada foi como se nada se tivesse passado. Apenas me ordenaram que elaborasse um relatório da operação.
Afinal, as companhias de Comandos, bem formadas e bem equipadas, também se escusavam a cumprir tarefas que pudessem comportar algum perigo. Será que ainda alguém se lembra deste episódio?
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Nota do editor
Último post da série de 31 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27170: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (9): O perfume da Enfermeira Paraquedista
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