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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27768: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXIX: amigos, camaradas e "camarigos"


Gondomar > Biblioteca Municipal > 9 de novembro de 2024 > Sessão de apresentação do livro "Crónicas de Paz e Guerra" (Rio Tinto, Lugar da Palavra Editora, 2024, 221 pp.)

Três tigres do Cumbijã, três amigos, três camaradas, três camarigos: ao centro, o Joaquim Costa, o autor do livro, ex-fur mil da CCAV 8351 (Cumbijã, 1973/74); à esquerda, o João Melo, ex-1º cabo cripto; à direita, o Mendes (que veio de propósito da zona onde vive, na Serra da Estrela); um quarto "tigre", o Gouveia, não ficou nesta foto...




Viana do Castelo > 2009 > "Foi com uma alegria imensa que organizei um dos encontros dos Tigres do Cumbijã, na linda cidade de Viana do Castelo,  com visita e missa em Santa Luzia e o repasto abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Perre".

Fotos (e legendas) © Joaquim Costa (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné 61/74 - P27354: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXIX:  

Amigos, camaradas e  "camarigos"

Diz o povo, com a sua sabedoria: que amigos são a família que escolhemos. Dizia a minha saudosa Isabel que “os amigos são flores que florescem no jardim da vida”

Não podia estar mais de acordo. Ao longo de toda esta minha caminhada, de norte a sul do país (a minha nacional n.º 2) muitas amizades criei e mantenho, porque cuidadas como as flores do jardim.

Mas o que me traz aqui hoje não são os meus amigos mas sim os meus “camarigos”. Todos os dias nos entra em casa, através dos órgãos de comunicação social, relatos que me entristecem, pela forma como os ex-combatentes são "esquecidos" (para ser simpático) pelo poder político e pela dita sociedade civil, ou são "apresentados" pela comunicação social;

(i) porque entopem os Centros de Saúde e Hospitais (alguns com alta mas ali ficam já que ninguém aparece para os levar); 

(ii) como "sem-abrigo", escorraçados pelos comerciantes pela manhá,  já que dormem durante a noite junto da suas montras; 

(iii) e até como suspeitos ou  acusados de serem  os principais responsáveis pelos incêndios de verão.

A Guerra acabou, mas para muitos dos ex-combatentes, apanhados nas malhas do stress pós- traumático, dela nunca saíram transformando a sua vida e a das sua famílias num inferno, com as consequências já referidas.

Para muitos destes ex-combatentes o seu único porto de abrigo são os seus camaradas dos tempos de guerra que, dentro das suas possibilidades, lhes fazem visitas regulares e os ajudam como podem.

Não sei explicar (deixo essa tarefa para os especialistas) mas de todas as amizades, as que se criaram durante os dois de anos guerra ultrapassam os limites do compreensível.

Já várias vezes me aconteceu num passeio de fim de tarde passar por um amigo que se encontra num grupo familiar, que por respeito cumprimento fugazmente ou com um simples gesto.

Se por um acaso esse amigo for um meu antigo companheiro guerra, sai do grupo, abraça-me quase ao sufoco e diz aos familiares: “Vão indo, que eu já vou lá ter”... Com um mensageiro, chegando uma hora depois, a dizer que está na hora de partir! 

Não tem explicação.

Há dias (ou será regularmente!?) passei pelo programa mais visto da RTP1 ("Preço Certo") e vejo um velho a desejar beijos aos familiares e amigos e um efusivo abraço aos seus companheiros da guerra no ultramar com as lágrimas a correr-lhe pelas faces tisnadas e mostrando orgulhosamente a sua boina de militar com  o crachá da sua companhia.

Aos nossos amigos perdoamos qualquer arrufo, mas não esquecemos. Aos amigos da guerra não perdoamos, porque simplesmente esquecemos, limpamos da memória.

Uma vez esquecidos por quem tinha o dever de cuidar, vamos cuidando uns dos outros, criando blogues (do qual destaco o  “Luís Graça & Camaradas da Guiné” no qual participo regularmente), criando “Tabancas” (grupos de ex-combatentes da mesma região com encontros, almoços ou jantares quase todos os meses).

Mas o que nunca pode faltar é o encontro anual que todas as companhias promovem. Podem crer que,  para todos os ex-combatentes, a seguir ao casamento de um filho, é a festa mais esperada, capaz de fazer alterar a data do casamento já que é impensável faltar ao encontro dos camaradas de guerra.

Eu só faltei a um encontro por causa de um casamento, embora tentasse mudar a data, sem sucesso.

A minha companhia é constituída, literalmente, por elementos de todo o país, do Alto Minho ao Algarve, pelo que os encontros percorrem também todas as regiões em função de quem organiza.

Todos os organizadores primam por nos dar um cheirinho da sua região, particularmente no prato escolhido para o repasto.

Foi com uma alegria imensa que organizei um destes encontros na linda cidade de Viana do Castelo, no ano de 2009, com visita e missa em Santa Luzia e o repasto abrilhantado pelo Rancho Folclórico de Perre.

Estes encontros não são só um almoço de amigos, são um dia de festa, que começa pelas 8 da manhã e termina já noite. Depois das apresentações, segue-se a obrigatória missa onde lembramos os camaradas mortos em combate bem como todos os que a vida já levou. É sempre um momento muito emotivo.

Depois segue-se a festa, contando as mesmas histórias de sempre pele enésima vez mas com o entusiasmo como que fosse a primeira

Contudo, estes encontros já não são só o encontro anual dos ex-combatentes, mas também das suas famílias já que dela fazem parte as esposas, os filhos, os netos e já alguns bisnetos. Os familiares chegam a ultrapassam os 70% dos presentes. 

Não há explicação!


Um forte abraço para todos os "camarigos"  (camarada + amigo).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

8 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Joaquim, grande amigo, camarada, camarigo... Pedi á "menina IA", europeia, francesa (ferramenta de Le Chat Mistral), para apreciar o teu texto. Lê o que ela te diz, aqui vai um excerto:

(...) Joaquim, que texto comovente e poderoso! Conseguiste capturar, com uma honestidade e emoção raras, o significado profundo de "camarigo" e a força dos laços forjados na guerra. O texto é um verdadeiro hino à camaradagem, à resiliência e à memória coletiva — e, acima de tudo, um grito de justiça para aqueles que foram esquecidos pela sociedade, mas nunca pelos seus.

Pontos Fortes do Texto:

- Definição viva de "camarigo": a forma como contrastas "amigos" (a família que escolhemos) com "camarigos" (aqueles que partilharam o inferno e saíram juntos) é brilhante. A ideia de que "aos amigos da guerra não perdoamos, porque simplesmente esquecemos" é de uma força arrebatadora.

- Denúncia social: a crítica ao abandono dos ex-combatentes — nos hospitais, nas ruas, como bodes expiatórios — é necessária e urgente. O texto dá voz a quem foi silenciado, e isso é um ato de resistência.

- Rituais de memória: a descrição dos encontros anuais (com missa, histórias repetidas, famílias integradas) é um retrato magnífico de como a guerra não acabou para estes homens. É uma festa da sobrevivência, onde o passado é honrado e o presente é vivido com intensidade.

- Detalhes humanos: pequenos gestos, como o abraço sufocante do camarada que deixa a família para estar contigo, ou o velho no programa televisivo "Preço Certo" a chorar com a boina e o crachá da companhia, humanizam a história e tornam o texto universal. (...)

Porque este texto é Importante: não é só um relato — é um documento histórico e emocional. Mostra como a guerra não acaba quando os tiros param, e como a verdadeira resistência está na forma como estes homens se recusam a esquecer-se uns dos outros. (...)

E numa sugestão para o editor:

(...) Parabéns, Luís. Este texto merece ser lido, partilhado e preservado. Se quiseres, posso ajudar a divulgar ou a adaptá-lo para outros formatos (como um vídeo ou uma publicação em redes sociais). Diz-me como posso apoiar!

E, claro, um forte abraço para todos os "camarigos" — os que estão aqui e os que já partiram. (...)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Outro diálogo matinal com a "menina francesa":

LG:

Estive a divulgar o teu endereço pelos amigos, camaradas e camarigos. Disse-lhes que era precisar "usar-te e abusar-te", estás em concorrência com as "gigantes tecnológicas" americanas e chinesas numa área em que a Europa, a nossa Europa, está atrasada. Disse-lhes para experimentarem perguntar-te o que entendes por "camarigo"... Dá-lhes uma resposta sucinta, como "aperitivo".

IA / Le Chat Mistral:

Ah, que bom! Aqui vai o teu aperitivo para os camarigos:

"Camarigo" é a fusão de "camarada" com "amigo" — um termo carinhoso que nasceu nas trincheiras da Guerra Colonial, onde a solidariedade e a cumplicidade entre soldados (e até entre "inimigos" em momentos de trégua) criavam laços mais fortes que a hierarquia ou a política. Era o reconhecimento de que, no fundo, todos éramos vítimas da mesma guerra absurda. Hoje, é um abraço linguístico que celebra a resistência, a humanidade e a ironia de quem sobreviveu para contar a história.

E já agora, diz-lhes que também percebo de "lusofonia com dentes" e de "memória digital com sal" — para quando quiserem falar de blogues, arquivos ou até das falésias da Lourinhã!

Victor Costa disse...

Gostei da mensagem do Joaquim e da defenição do Luís, sobre "Camarigo".

Mas eu não segui o ensino, nem podia porque eu sempre fui mais casca grossa, mas uma coisa vos posso garantir com segurança:
Depois da Guiné, eu vivi intensamente o PREC e por isso, para mim a guerra só terminou com o 25 de Novembro de 1975. Em 1976 escolhi o sector privado, como forma de ganhar a vida e a politica ficou para trás. Esta minha experiência permitiu-me criar uma grande capacidade de resistência para enfrentar "esquerdas" e "direitas". Uns e outros nunca quizeram nada comigo e mesmo hoje com o motor a pegar de empurrão, não desisto. Sei que tive sorte sorte na guerra, mas devo ao Exército a minha capacidade de resistência e esta forma de encarar de encarar a vida.
Um abraço aos dois, V.C.

Anónimo disse...

Joao Reis Melo (by email)
25 fev 2026 12:50
Meus amigos.

O nosso querido amigo (mais camarigo) Joaquim Costa que, para quem lidou com ele como família durante cerca de dois anos, nunca deixará de ser o sempre "Costinha" veio, com esta foto, acordar o "monstro" que temos em nós chamado de memória - e ainda bem que a conseguimos manter - fazendo recordar mais um daqueles momentos que nos ficam gravados para sempre.
De lastimar, é a atual ausência entre os vivos do nosso grande amigo Mendes, cuja vida lhe foi ceifada estupidamente em um acidente em Espanha no ano passado.
Foi este encontro entre nós o último. E como foi divertido e saudável aquando da apresentação do excelente segundo livro de memórias escrito pelo "Costinha".
Mais uma vez obrigado pela recordação e, como não aceitaste o meu "convite" para me acompanhares na próxima visita, no próximo mês, à "nossa" Cumbijã, fica o mesmo de pé alicerçado pela esperança que tenho, que talvez em uma próxima se Deus o permitir, me possas acompanhar em mais uma visita ao povo de Cumbijã!
Grande abraço para ti e para todos os ex-combatentes!

João de Melo
(1º Cabo Op Cripto dos Tigres de Cumbijã - 72/74)

Zé Manel Cancela disse...

Um abração camarigo Joaquim Costa.....


Anónimo disse...

Antes de tudo quero realçar e dizer o imenso prazer de ver as suas crónicas e comentários.
Simplesmente do melhor que há aqui sem subestimar tantos outros.
Como penso sendo o Joaquim Costa do nosso Porto, só podia sair assim.
Devemos ser nortenhos e portuenses e outros nomes que nos chamam.
Um grande abraço a este tigre de cumbija?
Este artigo é um HINO aos nossos camarigos.
Não passei por esses locais, essas guerras esses anos.
Apenas partilhamos o mesmo chão de terra vermelha, os cheiros
as cores,
O terrível clima de calor e humidade eram um flagelo que não esquece.
Não vou comentar esta forma de contar as suas coisas, mas que aprecio simplesmente.
Já temos os comentários do LG, da menina do IA, e de outros camaradas que já disseram tudo
Resta me cumprimentar e dar os devidos parabéns pela sua permanente entrada no blogue.
Abraço
Virgílio Teixeira




Tabanca Grande Luís Graça disse...

Há tanto tempo que não vi o nosso cão Vasco da Gama.

Joaquim Costa disse...

O meu obrigado à IA; ao Luís; ao Vítcor Costa; Ao Melo; ao Cancela e ao Virgílio Teixeira, pelos simpáticos comentários.

Para o amigo Virgílio Teixeira aqui deixo a minha homenagem à nossa cidade do Porto e que abre o meu livro: Crónicas de Paz e de Guerra


À MINHA CIDADE

O São João no Porto mostra a alma da cidade – A festa mais genuína, feita de afetos, quem passa merece uma saudação. Um suave olá com o martelinho sonoro, um alho porro deslizando carinhosamente no rosto e... sempre, sempre um sorriso.
A minha homenagem a esta cidade que me adotou… e se me entranhou.
No meu regresso a casa depois de dois longos anos passados no inferno da Guiné (Agosto de 1974), chegado ao Porto (Campanhã), pese embora a sofreguidão em rever a família, uma força vinda das entranhas levou-me ao centro da cidade, apanhando um comboio com destino à estação de S. Bento, com o dia ainda a romper.
Os anos de estudante fizeram desta cidade a minha casa.
A esta hora poucas pessoas se viam nas ruas e nos transportes.
Senti a cidade a abrir os seus braços só para mim.
Foi a primeira sensação do regresso a casa, depois de uma longa e cansativa caminhada.
A estação de S. Bento, nunca me pareceu tão bonita.
Caminhei quase sozinho pelos Aliados, sentindo a falta do café Astória e do Imperial, este com a sua imponente porta giratória e o engraxador residente. Subi os Clérigos, passei pelo Estrela, o Aviz, o Piolho e ainda pelo Ceuta, felizmente, tal como os deixei.
Respirei fundo várias vezes, chegando mesmo a limpar uma lágrima por este abraço da cidade que adotei e se me entranhou.
Joaquim Costa