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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)









Capa da brochura "Memórias da CCAÇ 2402 (Guiné 1968/1970), Volume II", mimeog", 2008, páginas inumeradas,il. (Coordenação: Raul Albino, 1944-2020).


Ele foi um dos colaboradores deste II Volume, juntmente com o ex-cap inf Vargas Cardoso, também já falecido em 2023,  e de outros camaradas como o Carlos Sacramemto, Carlos Santiago, Carlos Costa, Joaquim Ramalho, Maurício Esparteiro, António Maria Veríssimo, António Fangueiro da Silva, e o próprio Raul Albino. O João Bonifácio é membro da nossa Tabanca Grande desde 1 de dezembro de 2006.

Em homenagem ao Raul Albino, ex-alf mil da CCAL 2402, que nos deixou em plena pandemia  (, aliás foi o próprio João Bonifácio que nos deu a triste notícia),  reproduzimos no poste P21652 dois aponatmentos sobre o Natal de 1968 e de 1969, da autoria do João, incluidos naquela brochura.

As fotos de cima (e as legendas) são do João G. Bonifácio, ex-fur mil SAM, da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), a viver no Canadá (Oshawa, Ontario).

Fotos (e legendas): © João Bonifácio (2008. Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






A história da minha ida para o Canadá, em 1974

por João Bonifácio

Vamos ver como vou ser justo, porque tanto o Luís como o João Crisóstomo querem saber como é que eu vim parar ao Canadá. 

As histórias são quase todas semelhantes. Nem tudo correu bem, e eu nem queria acredita ter servido o exército por 37 meses ( 21 meses e quatro dias npo CTIG). Na verdade eu até nem precisava de emigrar, estando bem empregado. 

Creio que o descontentamento de tudo o que se estava a desenrolar em Portugal, fez com que eu assim decidisse ir para o Canadá. Sair de Portugal foi na verdade o mesmo que deixar tudo e todos a chorar de saudade, mesmo antes de embarcar. Em 15 de fevereiro viajei na TAP para Toronto.

A Montreal chegamos atrasados e por isso estivemos à espera de um avião da Air Canada. À chegada a Toronto, e já numa hora tardia, tínhamos à espera uma tempestadade de neve, frio e uns amigos que nos foram esperar ao aeroporto. 

No dia 16 de fevereiro eu fazia anos. Quando acordei e espreitei pela janela, tudo era um manto branco de neve e as ruas completamente vazias. Também aqui não foi fácil, pois entrámos no Canada no meio de uma depressão económica. Fui ultrapassando estas pequenas/grandes tormentas e fui trabalhar para uma fábrica de sofás, onde não estive muito tempo..

Mudei para o Hospital de Oshawa onde estive 26 meses. Aqui melhorei o inglês e até me ajudou a adaptar ao convívio com pessoas de várias etnias.

No hospital aprendi muito. Do hospital mudei para a Chrysler, na indústria automóvel, onde tínhamos um vencimento bastante bom e com todos os benefícios inerentes, negociados pelo sindicato. Com trabalho extra até arrecadava um cheque semanal muito positivo. 

A minha vida mudava todos os dias. Durante este período fiz escritas de pequenas empresas, trabalhei em duas agências de viagens e um dia até fiz radio em Toronto, a 50 kms da minha morada. A rádio foi a cereja no topo do bolo. Fiz anúncios, notícias e conheci artistas de Portugal e do Brasil.

A idade não perdoa e a certa altura eu comecei a fazer menos. Mudei para a GM Canada onde desempenhei varias tarefas desde a montagem, à inspeção e preparação de documentos para exportação. Cheguei ao fim com 30 anos de serviço e fiz a maior asneira possivel. Vendi tudo e fui embora para a terra do sol.

Portugal já não era o mesmo, e ao fim de um ano e pouco embrulhei tudo e regressei ao Canadã. Todos os meus planos e desejos cairam por terra. Isto aconteceu em marco de 2011 e agora tudo mudou. 

Consegui uma reforma muito confortável e com um pacote de benefícios invejável. Praticamente nada pago na saúde. Contudo o custo de vidaé levado, mas vamos gerindo tudo com calma. É uma vida diferente, e notamos que não ha imigração como na Europa. 

Agora temos os filhos de portugueses que cresceram e constituíram familia.  Tive a honra de formar o Clube Portugues de Oshawa em fevereiro de 1978, com a ajuda de uns amigos, é lá que ainda passamos horas de convívio,

Hoje posso dizer que estou integrado e,  como estudei em Beja, estou bem com o inglês e o francês, para além do meu português que me tem ajudado a fazer traduções e que me faz muito orgulhoso. 

Como gosto de ajudar, estou bem em lidar com o departamento de desemprego, de impostos e finançaas, serviços de saúde e sociais, onde a ajuda aos menos afortunados é muito apreciada. 

Esta é a história da minha vinda para o Canadá. Para os que ainda sonham emigrar, apenas sugiro que deixem o tempo ajudar a adaptação. Com o tempo tudo fica bem. O Canada não é Portugal. Cada um com as sus próprias valências e motivações de futuro risonho. 

Portugal é apenas o resultado da falta de cuidado. Incêndios, desmoronamentos, acidentes e crime sem razãoo, e muitas dificuldades de todo o género. Estou à espera de melhorar um pouco para poder ir até Lisboa. 

Obrigado a todos os que lerem este testamento e também que respondam ao que não gostarem. Ao Luís e João por favor bebam um cafe a meio deste desabafo. Fiquem bem e até breve.

João Bonifácio
ex-fur mil do SAM
CC2402 / BCAÇ 2851
(Có, Mansabá, Olossato, 1968/70)

Oshawa, Ontario, Canada (***)

(Fica a c. 60 km, a nordeste de Toronto, capital da província de Ontario)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd- pposte de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

(...) O ex-alf mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. 

Saí de Portugal a 15 de fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão. (...)

(...) Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

(...) Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... 

Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. 

João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda.  (...) 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)



Fonte: Governo da Guiné-Bissau > Ministério das Pescas > Potencialidades (com a devida vénia)


Guiné > Região do Cacheu > Carta de Pelundo (1953) (Escala 1/50 mil) > Posição relativa de Có, Rio Mansoa, Rio de Co (afluente do Rio Mansoa) e Ponta Augusto Barros...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros

por cor inf  ref Viegas Cardoso (1935-2023)

1. O nosso saudoso Raul Albino (1944-2020), alf mil at inf, CCAÇ2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) 1968/70,  deixou-nos duas notáveis brochuras com a história da unidade e as "memórias de campanha" da sua companhia. Tem 64 referências no blogue. É dos veteranos da Tabanca Grande, para a qual entrou em 17/9/2006, pela mão do Beja Santos (que também fez parte da CCAÇ 2402, acabando por ir comandar, em rendição individual, o Pel Caç Nat 52).

Temos muito boas recordações dele. O Carlos Vinhal e eu.  Era informático na IBM, Portugal. Sempre amável e prestável. Trocávamos ideias sobre o futuro do blogue, e sobre a sua sobrevivência,  depois da nossa morte física. Infelizmente, ele partiu mais cedo, em plena pandemia de covid-19. Temos a obrigação de o recordar. 

Publicamos um excerto, bem humorado, das memórias do ex-cap inf, Vargas Cardoso, cmdt da CCAÇ 2402, "Lynces de Có", também ele já falecido, em 2023.  Para este Volume II ele contribui com 20 textos (não participou no volume I). As suas histórias, em geral, são bem humoradas. Estão numeradas de 1 a 18 (**). Preocupava-se, para além da segurança e do desempenho operacional, com a alimentação e o bem-estar do seu pessoal.

Desta companhia, temos ainda como membros da Tabanca Grande






Fonte: Vargas Cardoso, cor inf ref (1935-2023) - "8. Como se pescava na Ponta Augusto Barros: o mistério do peixe mole". In: Memórias de campanha: Companhia de Caçadotres 2402 (Guiné, 1968/70),  inumeradas. (coordenação: Raul Albino), vol. II, s/l, 2008, inumeradas.

(Seleção, digitalização, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27752: Humor de caserna (240): Olha a Maria Turra, Sardeira!... (Juvenal Amado, ex-1º cabo cond auto, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1972/74)

(**) Vd. poste de 6 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24372: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte II: A imaginação que era preciso ter para se comer "atacadores da PM com estilhaços"!... Trocando carne do restaurante "Solar dos 10", em Bissau, por produtos locais de Có (camarão, ostras, tomate...) (Mário Vargas Cardoso, 1935-2023)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27755: Tabanca Grande (579): Luís da Cruz Ferreira, grão-tabanqueiro nº 913: foi 1.º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72, "Os Có Boys" (Có, 1972/74): natural da Benedita, Alcobaça, vive em Cascais, e é também membro da Tabanca da Linha


Luís da Cruz Ferreira, grão-tabanqueir nº 913;  natural da Benedita, Alcobaça, vive  em Cascais; é empresário na área da restauração coletiva

 

Capa do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhos da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)


1. Luís da Cruz Ferreira (de alcunha, o "Beatle", já antes da tropa), natural da Benedita, Alcobaça, teve o posto de 1.º cabo aux enf, mas também foi "barman" e depois professor do Posto Escolar Militar n.º 20, na tabanca (reordenada) de Có, chão mancanha, onde a companhia, 2ª C/BART 6521/72, esteve sediada, de 1972 a 1974.

"Os Có Boys", um  nome de guerra que só por si é um achado, tinham uma divisa que podemos considerar, no mínimo,  como pícara, divertida e irreverente: "Quatro Chapos e Bolinha Baixa"...

Luís, não tínhamos até agora nenhum representante dos "Có Boys" na Tabanca Grande. Passas tu a sentar-te no lugar nº 913, à sombra do nosso poilão. 

Aceitas, com muito agrado, o convite que te formulámos no passado dia 14 de janeiro, por ocasião ao 63.º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha, de que tu também fazes parte. 

Conheces as nossas regras de convívio.  Aqui falamos da Guiné e das nossas memórias de tropa e de guerra. Deixamos à porta da Tabanca Grande a G3 e as eventuais diferenças que nos podem dividir (opiniões, perceções, representações, preferências, etc.), nomeadamente em matérias como a politica, a religião e o futebol. 

Como camaradas de guerra que fomos, tratamo-nos por tu. E cultivamos o bom humor. Tudo isto para te dizer que a vossa divisa "Quatro Chapos e Bolinha Baixa" não pode  aqui ser aplicada à letra...

Ficamos  a saber, com satisfação que este teu livro, que estamos a seguir com interesse e a partilhar com os nossos leitores (**),  faz parte de um projeto autobiográfico mais vasto, a tua história de vida. Para já cumpre a função de um roteiro de memórias desse  tempo.

Vamos falando e vamo-nos encontrando, nomeadamente em Algés. Vá dando notícias. E traz mais "có boys" para o nosso blogue.


Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) >A tabanca de Có, incendiada, na sequência do segundo ataque ao aquartelamento, em 12 de Outubro de 1968,ao cair da noite.


Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) > 13 de outubro de 1968: O brigadeiro  Spínola observando os destroços nas zonas atingidas, acompanhado do comandante da CCAÇ 2401, o cap inf Vargas Cardoso

Fotos (e legendas): © Raul Albino (2007). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 25 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27670: Tabanca Grande (578): António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857; GA 7; COP 6; CAOP1 e BCAÇ 3884 (1970/72), senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar 912

(**) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)


Guiné > Região de Cacheu > Có > C. 1968/7o> Vista aérea

Foto do álbum do Raul Albino (1945-2020), ex-alf mil, CCAÇ2402/BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato 1968/70.

Foto (e legenda) : © Raul Albino (2006)Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Prosseguindo  a nossa leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, il., 184 pp,) (ISBN 978-989 -33.7982-0) (*). (Revisão / fixação de texto: J. Pinto de Carvalho.)

Sinopse dos postes anteriores:

(i) o Luís,  de alcunha o "Beatle",  empregado de hotelaria e restauração, nascido na Benedita, Alcobaça;

(ii) é mobilizado para a Guiné, indo formar batalhão, o BART 6521/72, no RAL 5, Penafiel (jun / set 1972);

(iii) não tendo sido "repescado" para o CSM, tira  a especialidade de 1º cabo auxiliar de enfermeiro, em Coimbra, no RSS (Regimento de Serviços de Saúde) (jan/mai 1972);

(iv) parte  para o CTIG, por via aérea (TAM), em 22/9/1972;

(v)  no CIM de Bolama, faz a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional. 

O tom que ressalta deste livrinho de memórias é irónico, e às vezes pícaro, jocoso e burlesco, a raiar o absurdo. Vêmo-lo em Bolama, outrora capital, ultrapassada por Bissau e em 1972, já completamente decadente. Decididamente não gostava da CUF nem da Casa Gouveia, que para ele são os donos daquilo tudo. 

Após a realização da IAO, a 2ª C/ BART 6521/72 seguiu, em 290ut72 para Có, sector do Pelundo,  a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. 

É do cais de Bolama que o Luís e os "có boys" partem para  o seu novo destino, Có, "chão mancanha", via Bissau e João Landim. 

O quartel de Có é igual a muitos outros no CTIG, feitos a pá e pica, com muito suor e alguma da Engenharia Militar (no final da guerra contam-se mais  de 220 aquartelamentos e destacamentos, sem falar nas tabancas em autodefesa).

- 64 - 

Claro, também como muitos outros, era um quartel construído perto de uma povoação. Neste caso, uma tabanca grande, um "reordenamento", recente, construído no âmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", com cerrca de 4 mil habitantes, alguns dos quais (talvez bastantes), tivessem framiliares no "mato", o mesmo é dizer que estavam condenados a jogar com um pau de dois bicos, a acolher os guerrilheiros do PAIGC à noite, e sorrir aos "tugas" durante o dia.

O aquartelamento em si, com 160 camas, não tinha capacidade hoteleira para alojar condignamente duas companhias, os "velhinhos" (CCAÇ 3308) e os "periquitos" (2ª C/ BART 6521/72). 

A parte fraca teve que se "desenrascar", como mandava a tropa, tanto em tempo de paz como de guerra (pp. 67-71). "Onde comer e dormir esta noite ?"... tornou-se durante 3 semanas a preocupação dos pobres "có boys"... 

Os enfermeiros vão ficar na enfermaria, deitados em macas (da II Guerra Mundial)  e numa marquesa (pág. 69). Melhor do que dormir ao relento, debaixo do poilão. 

A 2ª C/ BART 6521/72 tinha seguido  em 290ut72 para Có, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308. E,  menos de um mês depois, em 25Nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando entregues a si próprios.

E lá ficaria quase até ao fim: em 22Ago7, é substituída por um pelotão da 1ª C/BCAÇ 4615/73 e outro da lª C/BCav 8320/73 e parte para a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso (através dos TAM).

Mas ainda voltando à descrição do "resort" turístico que calhou aos "Có Boys" ficamos a saber mais coisas, através do autor, o Luís da Cruz Ferreira:

(i) a religiosidade cristão já não era grande, a avaliar por alguns indícios: a "casa de Deus" era um mísero telheiro que, fora das horas de serviço, funcionava também como espaço de arrumos; o capelão do batalhão, instalado no Pelundo, vinha de vez em quando fazer uma visita e rezar a missa (se tivesse quórum; se não voltava para o Pelundo, quiçá agastado, não estava para gastar o seu latim);

(ii) eram todos iguais, os "tugas", mas uns mais iguais do que outros,  sempre foi assim desde o início da nacionalidade: os oficiais e sargentos tinham uma"boa  messe" (pág. 65), mas as praças não tinha refeitório, tinham que fazer fila, de marmita na mão, para levar a comida para o abrigo, a caserna ou o mangueiro mais perto;

(iii) a cantinha, acanhada e mal equipada, era de terra batida; havia um jogo de matraquilhos "caça-niqueis";

(iv) a boa notícia é que a grande maioria já  tinha a quarta classe, alguns furriéis o segundo ciclo, e os oficiais, esses, tinham as habilitações que a tropoa exigia: 7º ano ou equivalente, frequência de curso universitário, etc. (pág.66).
 

- 65- 


- 65 . 



- 66 - 


~
Crachá da 2ª C/BART 6521/72
(Có, 1972/74)
Pormenor interessante: era uma companhia entregue aos milicianos e às praças do contingente geral (como de resto muitas outras no CTIG).  

Só o 1º sargento, o António José do Ó, era do quadro permanente. 

O comandante era  o cap mil art Américo Licínio Romeiro da Rocha. 

Milicianos também eram os comandantes das outras duas unidades de quadrícula: cap mil cav Cav Casimiro Gomes (1ª companhia, que estava no Pelundo); e cap mil art Luís Carlos Queiroz da Silva Fonseca e cap mil inf  Edmundo Graça de Freitas Gonçalves (3ª companhia, em Jolmete). (Náo registos, na Net, referentes a estes nossos camaradas.)

Para a CCS, foi um oficial SGE, aliás dois, primeiro um capitão e depois um tenente.. Já ninguém aguentava uma comissão inteira!

Os oficiais superiores do comando do batalhão, esses, coitados, lá se iam aguentando,  como podiam, à espera que a guerra acabasse por inércia, como todas as guerras acabam, mesmo até a guerra dos Cem Anos. 

Apesar de tudo o nosso "Beatle" teve sorte: foi colocado em "trabalhos melhorados", no bar de oficiais, e mais tarde no Posto Escolar Militar nº 20. Que isto de andar com "a bolsa de enfermagem do tempo da Segunda Guerra Mundial" não era para um rapaz da Benedita, c0m o 5º ano quase completo e sobretudo experiência e formação em hotelaria e restauração (ramo onde ele hoje é um empresário de sucesso).

Espero vir a poder conhecê-lo pessoalmemte na próxima quarta feira, em Algés, no 63º Convívio da Magnífica  Tabanca da  Linha. Estamos ambos inscritos.



- 67 -

Fonte: Excertos de Luís da Cruz Ferreira, "Os Có Boys: nos trilhas da memória" (edição de autor, 2025, pp. 59-67)

(Revisão/fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

Último poste da série > 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27629: Notas de leitura (1884): "As Lágrimas de Aquiles", de José Manuel Saraiva, com prefácio de Manuel Alegre; Oficina do Livro, 2001 (Mário Beja Santos)

domingo, 11 de junho de 2023

Guiné 61/74 - P24387: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte III: O segredo do comandante dos "Lynces de Có". cap inf Mário Vargas Cardoso

 

Guiné > Região do Cacheu > Pelundo > Có > CCAÇ 2402 (1968/70) >A tabanca de Có, incendiada, na sequência do segundo ataque ao aquartelamento, em 12 de Outubro de 1968. O brig António Spínola observando os destroços nas zonas atingidas, ladeado à sua direita pelo seu ajudante de campo, cap cav Almeida Bruno, e à sua esquerda, o cmdt da CCAÇ 2402, Vargas Cardoso.(»)

Foto (e legenda): © Raul Albino (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  O nosso saudoso camarada e amigo Raul Albino (1945-2020), ex-alf mil at inf, MA, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), publicou ainda em vida dois volumes com a história da sua unidade. 

O Raul Albino com a ajuda do fotógrafo Maurício Esparteiro, ex-1º cabo,  concebeu e realizou uma ideia original: um livro da CCAÇ 2402 onde todos e cada e um são gente... Do capitão ao soldado básico, toda a gente teve lá a sua foto, o seu espaço (**)... 

Além disso, cada um dos camaradas da CCAÇ 2402 podia ter uma versão única e original do livro, com registos exclusivos sobre a sua pessoa... Com uma pontinha de orgulho, o Raul e o Maurício mostraram-me, no encontro em Pombal, em 2007,  um exemplar do seu livro: cada exemplar saíu da tipografia a 8 euros, sendo vendido a 10 euros, para cobrir as quebras e as borlas ...

No II Volume, que continuou a ter  a coordenação fotográfica do Maurício Esparteiro, o Raul contou ainda com a participação especial do ex-cmdt da companhia, Vargas Cardoso, e do ex-fur mil SAM, João Bonifácio (que vove hoje no Canadá).  

Hoje publicamos mais uma pequena história (***) do Mário Vargas Cardoso (1935-2023), ex-cor inf ref, que há dias nos deixou,  e e, que fez uma confidência: terá sico em Có que o "periquito" do brigadeiro António Spínola, inspirando-ase no exemplo  dos "Lynces de Có", que se reuniam regulamente com os "homens grandes" e restante população local, decidiu criar os famosos "Congressos do Povo".

No nosso blogue, o Raul Albino também já havia publicado, no devido tempo, 18 postes com episódios da história da CCAÇ 2402 (*).

Mário Vargas Cardoso (1935-2023)


Spínola: "Ó Vargas, deste-me uma ideia: vamos lá fazer essas reuniões de Có mas a nível de toda a Guiné, e chamar-lhe Congressos do Povo"

por Vargas Cardoso

Uma das atividades dos "Lynces de Cõ" em que fomos originais, e que muito contribuiram  para o êxito no cumprimento da nossa missão, foram as reuniões no domingo logo pela manhã.

(...) Pela manhã dos domingos, ao içar da Bandeira Nacional, o comandante da CCAÇ 2402 dava indicação a todos os "homens grandes", chefes da tabanca (...) para comparecerem no quartel, e, às crianças da escola primária, para virem ao quartel também, juntando-se todos próximo do mastro da bandeira.

(...) À hora indicada, formava-se o pessoal de guarda; ao lado as crianças da escola, e o Vargas com os "homens grandes" atrás da formatura.

A bandeira era içada, o corneteiro tocava, os "homens grandes" descobriam a cabeça, e os miúdos da escola, algum tempo depois, já cantavm o hino nacional.

Após a cerimónia, o comandante com os "homens grandes" iam para o refeitório, onde se servia um pequeno almoço, café e pão com marmelada, aos chefes da tabanca. Depois com os oficiais e sargentos com funções de "governar" na nossa área, decorria uma reunião, onde os chefes da tabanca colocavam os pedidos de ajuda que precisavam: transporte de mancarra ou coconte para Bissau, apoio sanitário, escola, proteção para colheitas, etc. 

O nosso furriel Coelho, ou depois o Vieira (salvo erro), tinha a função da atividade psicossocial, tomavam nota dos pedidos e depois era a nossa vez de pedir a colaboração das populações. Por exemplo:  tantos homens para capinar; na 3ª feira, 40 galinhas; noutro dia, outro produto que nos fizesse falta. etc.

(...) Logo em outubro de 1968, já depois do ataque a Có (*). nós estávamos numa dessas reuniões quando chegou o héli com o nosso general Spínola [na aitura ainda brigadeiro]  (****), o qual convidei para assistir ao que estávamos a fazer.

Nunca vos contei o que agora  resolvo tirar do segredo da História. Como sabem, quando ia Bissau, normalmente o nosso "Homem Grande", convidava-me para almoçar no palácio do Governo com outros oficiais de passagem por Bissau. (...)

Depois dessa visita o gen Spínola disse-me um dia: "Ó Vargas, deste-me uma ideia. Vamos fazer essas reuniões que tu fazes lá em Cõ, mas com toda a Guiné. Vou-lhes chamar Congressos do Povo". (...)

[Seleção / Revisão e fixação de texto / Subtítulo / Negritos / Parêntses retos: LG]

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Notas do editor

(*) Vd. poste de 31 de julho de 2007 > Guiné 63/74 - P2016: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (6): O grande ataque a Có, em 12 de Outubro de 1968

(**) Vd. postes de:

23 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1105: Como escrever um livro de memórias de guerra 'à la carte' (Raul Albino, CCAÇ 2402)

4 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1246: O meu livro Memórias de Campanha da CCAÇ 2402 (Raul Albino)


6 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24372: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte II: A imaginação que era preciso ter para se comer "atacadores da PM com estilhaços"!... Trocando carne do restaurante "Solar dos 10", em Bissau, por produtos locais de Có (camarão, ostras, tomate...) (Mário Vargas Cardoso, 1935-2023) 

(****) António Sebastião Ribeiro de Spínola, então brigadeiro, assumiu as finções de Governador e Comandante-Chefe da Guiné, em 24 de maio de 1968, em substituição do gen Arnaldo Schulz. Foi promovido a general em 4 de julho de 1969. Cessou funções em 27 de agosto de 1973.

O I Congresso do Povo da Guiné realizou-se em 1970. O IV em 1973... Baseava-se em cinco princípios: (i) direito absoluto de justiça social; (ii) respeito pelas nossas instituições tradicionais africanas; (iii) desenvolvimento económico e social;   (iv) participação ativa das gentes da Guiné, progressivamente mais elevada,  na administração dos seus própios interesses; (v) restabelecimento da Paz.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Guiné 61/74 - P24372: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte II: A imaginação que era preciso ter para se comer "atacadores da PM com estilhaços"!... Trocando carne do restaurante "Solar dos 10", em Bissau, por produtos locais de Có (camarão, ostras, tomate...) (Mário Vargas Cardoso, 1935-2023)

Pombal > 28 de Abril de 2007 > II Encontro Nacional da Tabancva Grande  > Dois representantes da CCAÇ 2402/ BCAÇ 2851 (1968/70), o Raul Albino (1945-2020)  (assinalado com um círculo a amarelo) e o Maurício Esparteiro (a verde)... (Na foto, há outros camaradas que já nos deixaram, além do Raul Albino: Jorge Cabral, Carlos Santos, Fernando Franco, Victor Barata... Mas outros, felizmente ainda estão vivos!)

Foto (e legenda): © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição : Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1.  O nosso saudoso camarada e amigo Raul Albino (1945-2020), ex-alf mil at inf, MA, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), publicou ainda em vida dois volumes com a história da sua unidade. 

O Raul Albino com a ajuda do fotógrafo Maurício Esparteiro (vd. foto acima) concebeu e realizou uma ideia original: um livro da CCAÇ 2402 onde todos e cada e um são gente... Do capitão ao soldado básico, toda a gente teve lá a sua foto, o seu espaço (*)... 

Além disso, cada um dos camaradas da CCAÇ 2402 podia ter uma versão única e original do livro, com registos exclusivos sobre a sua pessoa... Com uma pontinha de orgulho, o Raul e o Maurício mostraram-me, no encontro em Pombal, em 2007,  um exemplar do seu livro: cada exemplar saíu da tipografia a 8 euros, sendo vendido a 10 euros, para cobrir as quebras e as borlas ...

No II Volume, que continuou a ter  a coordenação fotográfica do Maurício Esparteiro, o Raul contou ainda com a participação especial do ex-cmdt da companhia, Vargas Cardoso, e do ex-fur mil SAM, João Bonifácio.  

Hoje publicamos mais dois pequenos textos do Mário Vargas Cardoso (1935-2023), ex-cor inf ref, que há dias nos deixou, e que ilustram bem o sentido da divisa dos "Lynces de Có": "Se é impossível, há de fazer-se" (**)...

No nosso blogue, o Raul Albino também já havia publicado, no devido tempo, 18 postes com episódios da história da CCAÇ 2402 (***).

Mário Vargas Cardoso (1935-2023)


50 kg de tomate produzidos por dia na bolanha de Có...

Ao chegarmos a Có, os indígenas começaram a aparecer com tomates do tamanho de batatas novas, pois não sabiam plantar tal fruto.

Então a Companhia com as sementes que levávamos, começou por fazer os viveiros em caixotes e o Moreira e o Ferreira, salvo erro,  encarregavam-se de chamar as indígenas (as mulheres é que trabalhavam na lavoura) e ensiná-las a fazer o viveiro, até as plantas terem determinada altura.

Depois era preparar o chão e transpalntar essas plantas de forma ordenada e com espaços entre os pés dos tomateiros; regar quando preciso; encanar as plantas quando começavam a precisar de apoio; continuar a regar; e colher quando estivessem em condições de o fruto ser apanhado...

Como se devem recordar,  algumas semanas depois, naquela bolanha para o rio, em Cõ já se produziam mais de 50 kg de tomate por dia...


... que chegámos a trocar, com outros produtos locais (camarão e ostras), com o restaurante "Solar dos 10", de Bissau

Uma das dificuldades com que nos deparámos na Guiné, todos se lembram, era no respeitante à possibilidade de obter produtos frescos...

Todos se recordam que,  desde o início da comissão, exceto no período que estivemos em Mansabá, sempre tivemos uma horta cavada e tratada pelos nossos militares. 

Mas no respeitante a carne, a situação era muito difíciil. As populações não produziam gado para vender aos militares. Para eles  o gado era uma riqueza pessoal.

A Manutenção Militar tinha dificuldade em enviar carne fresca, para as unidades instaladas no mato, e estas tinham de se "desenrascar". 

Mas os "Lynces de Có", que às vezes se viam obrigadas a "requisitar" alguma vaca aos africanos, pagando ao preço estipulado pelo Governo da Pronvíncia, também utilizaram outros processos legais.

Lembro-me que, por duas vezes, se a memória não me falha, conseguimos carne vinda de Bissau, de forma expedita mas arcaica. 

Então o processo foi este: através do Bonifácio [ o fur vagomestre, nosso tabanqueiro, a viver hoje no Canadá encomendámos às indígenas que nos trouxessem ostras, camarão e tomate. Entretanto,, via rádio, para o delegado do nosso batalhão em  Bissau, de acordo com código que estabeleci com ele, pedia-lhe para obter junto do sr. proprietário do restaurante "Solar dos 10", peças de carne e levá-las em dia combinado, até João Landim, local onde se fazia a cambança do rio Mansoa, na jangada ali existente,

Por sua vez, a Companhia organizava uma coluna que, saindo de Có, levava tudo o que se fosse necessário mandar para Bissau, mais os produtos que os indígenas nos vendiam: 20 kg de camarão; 1 pipo de vinho cheio de ostras, e 80 kg de tomate.

Para a troca trazíamos para  Có cvrne que o deleghado pedira ao "Solar dos 10", que por sua vez nos ficava com os produtos que referi. E assim sempre se podia comer "os atacadores da PM [leia-se: esparguete...]  com estilhaços"...

Vargas Cardoso, ex-cmdt, CCAÇ 2402 (Cõ,. Mansabá er Olossato, 1968/70)


[Seleção / Revisão e fixação de texto / Subtítulo / Negritos ( Parèntses retos: LG]
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Notas do editor:

(*) Vd. postes de:

23 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1105: Como escrever um livro de memórias de guerra 'à la carte' (Raul Albino, CCAÇ 2402)

4 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1246: O meu livro Memórias de Campanha da CCAÇ 2402 (Raul Albino)

(**) Último poste da série >  5 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24368: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte I: Tempo(s) de Homofobia(s) (Mário Vargas Cardoso, 1935-2023)

(***) Vd. último poste da série > 19 de setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7010: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (18): Terceiro ataque ao Olossato

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Guiné 61/74 - P24368: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte I: Tempo(s) de Homofobia(s) (Mário Vargas Cardoso, 1935-2023)

  

Capa do II Volume do documento policopiado "Memórias de Campanha  da Companhia de Caçadores 2402 (Guiné, 1968/70) (Raul Albino, ed. lit.), 2008,  inumerado.


1.  O nosso saudoso camarada e amigo Raul Albino (1945-2020), ex-alf mil at inf, MA, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), publicou ainda em vida dois volumes com a história da sua unidade. 

No II Volume, que teve a coordenação fotográfica do Maurício Esparteiro, contou ainda com a participação especial do ex-cmdt da companhia, Vargas Cardoso, e do ex-fur mil SAM, João Bonifácio.  Hoje publicamos um pequeno texto do Vargas Cardoso, ex-cor inf ref, que há dias nos deixou (*). No nosso blogue, o Raul Albino também publicou, no devido tempo, 18 postes com episódios da história da CCAÇ 2402 (**).


O transmissões que era gay...

por Vargas Cardoso 

Durante o período de preparação das unidades que mobilizavam para o Ultramar, quando já tinha conhecimento do teatro de operações do destino, e se preparavam os exercícios finais, que em 1968 se faziam no Continente / Metrópole, apresentavam-se na unidade mobilizadora (no nosso caso, o Regimento de Infantaria nº 1, na Amadora) os chamados especialistas, ou sejam os elementos do comando da companhia.

De entre os condutores, enferfermeiros, mecânicos, radiotelegrafistas, trabsmissões, etc., apresentou-se-me um futuro cabo de transmissões, que durante a habitual entrevista que tive com todos os militares da CCAÇ 2402, me causou alguma preocupação, pois pareceu-me denunciar um comportamento de tipo sexual, à época, bastante anómalo.

Já não me recordo como obtive informações complementares, mas lembro-me que dias depois,  e uma vez confirmadas (em princípio) as minhas suspeitas, falei com o nosso médico, o dr. João Dória (***), manifestando-lhe os meus receios, por estar em vias de embarcar para a Guiné, um militar que iria ter uma actividade muitas vezes sozinho no seu posto de serviço.

Ficou decidido, entre mim e o nosso clínico, conseguir que o rapaz baixasse ao Hospital Militar da Estrela onde foi sujeito ao chamado teste do "prato de farinha" (****). Face às diligências do dr. Dória com os seus colegas do Hospital, chegou-se à conclusão que o rapaz era o que agora se designa por "gay".

Resultado, embarcámos com um militar de transmissões a menos, mas escapámos aos problemas que aquele militar, sendo "doente", nos poderia levantar.

Vargas Cardoso, cor ref 

Excerto de: Parte II - Comando da Companhia, textos de Vargas Cardoso. In: Memórias de Campanha  da Companhia de Caçadores 2402 (Guiné, 1968/70) (Raul Albino, ed. lit.), II Volume, 2008, documento em pdf, inumerado.

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 3 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24363: In Memoriam (478): Mário Vargas Cardoso, cor inf ref (1935-2023), ex-cap inf, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) e ex-cmdt do BCAÇ 3884 (Bafatá, 1972/74) (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, 1968/70, a viver no Canadá); Manuel Oliveira Pereira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 3547, Contuboel, 1972/74)

(**) Vd. último poste da série > 19  de setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7010: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (18): Terceiro ataque ao Olossato

(***) Julgamos tratar-se do dr. João Dória Nóbrega (1934-2021), ginecolista e obstetra.

(****) O "teste da farinha ou  do prato da farinha" era uma prática infamante, homofóbica, que esteve em voga em diversos exércitos, incluindo o brasileiro e, ao que parece, também no português.

sábado, 3 de junho de 2023

Guiné 61/74 - P24363: In Memoriam (478): Mário Vargas Cardoso, cor inf ref (1935-2023), ex-cap inf, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) e ex-cmdt do BCAÇ 3884 (Bafatá, 1972/74) (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, 1968/70, a viver no Canadá); Manuel Oliveira Pereira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 3547, Contuboel, 1972/74)



Guiné > Região do Oio > Có > CCAC 2402 (1968/70) > s/d > De pé: alf mil Francisco Henriques da Silva, alf mil Raul Albino (1945-2020) e Cap Vargas Cardoso (*)


Amadora > RI 1 > 1968 > CCAÇ 2402, em formação > Da esquerda para a direita, o primeiro é o Raul Albino (19945-2020), o segundo é o Francisco [Henriques da] Silva e a seguir o Medeiros Ferreira. Só falta nesta fotografia de grupo o Beja Santos. Também aqui falta o comandante da companhia, cap imnf Vargas Cardoso (1935-2023).  O Medeiros Ferreira, o histórico dirigente estudantil da crise académica de 1962,  não compareceu no embarque, a 24 de julho de 1968, no N/M "Uíge", com destino ao  CTIG, desertando para a Suiça; por seu turno, o Beja Santos iria um mês depois, em rendição individual, comandar o Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70). Acabou por ser uma cruz pesada, sobretudo  para o futuro alf mil at inf MA Raul Albino, que teve que lidar, no início da comissão, com duas baixas de vulto dos seus amigos e camaradas, Beja Santos e Medeiros Ferreira (**)

Fotos (e legendas): © Raul Albino (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso camarada John Bonifácio, a viver no Canadá:

Data - quinta, 1/06/2023, 04:00
Assunto - Mais uma baixa na CCAÇ 2402  / BCAÇ 2852  (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

Este e-mail serve para informar todos os militares que conviveram em Angola e Guiné com o nosso querido amigo Coronel Ref Mário Vargas Cardoso.(***)

Fiz parte da sua CCAÇ 2402 e entre 1968/70 tivemos a oportunidade de servir Portugal. Informo todos que o nosso Capitão de então, deixou esta madrugada de 31 de Maio de fazer parte da nossa família militar. O sr Coronel Vargas Cardoso faleceu. 

Quero em meu nome pessoal e de todos os camaradas da 2402, enviar à sua esposa e toda a restante família, as mais sinceras condolências. O Sr. Coronel Vargas foi um militar de carreira que tudo fez para que todos os seus militares se pudessem sentir jovens válidos e orgulhosos. Poderia testemunhar muitos episódios que, como Furriel Milicino do SAM do seu comando, ambos vivemos uma camaradagem própria e que, om todo o desempenho do resto de Companhia, foi um passo importante para o sucesso da nossa 2402.

Amigo Luís, fico muito grato por esta publicação. Paz à sua alma e um etermo descanso.
Por tudo o que nos ensinou, a nossa saudade.

João G Bonifácio
Ex-Furriel Mil do SAM
CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 
Oshawa, Ontario, Canadá

2. Poste de Manuel Oliveira Pereira na página do Facebook da Tabanca Grande, 31 de maio, 13h39:

A noticia que não gostaria de dar...

O meu ex-comandante de Batalhão (BCAÇ 3884, Bafatá, 1972/74), na Guiné, Coronel Mário José Vargas Cardoso, e meu particular amigo, partiu para outra dimensão. Fica o adeus, já com imensa saudade, do "Mano novo para o Mano velho" (forma carinhosa como nos tratamos). 

Descansa em paz "Mano velho"!...
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Notas do editor:

(**) Vd. poste de 8 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21622: In Memoriam (376): Raul Albino (1945-2020): recordando as peripécias da formação e partida da CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, com menos duas baixas de vulto, à chegada a Bissau