Queridos amigos,
Recapitulando a matéria dada, celebrada a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886, lá para os finais e 1887, o governo português exprimiu o desejo de que se organizasse uma comissão para a delimitação das fronteiras da Guiné, em dezembro desse ano estavam constituídas as equipas portuguesas e francesas, o Capitão Henri Brosselard dirigia a comissão francesa. É toda esta sua narrativa, que ele irá publicar na revista Le Tour du Monde, que aqui estamos a publicar. Viajou para Bolama, que descreve com algum detalhe, encaminha-se para o Rio Nuno, em Samiah recebe a visita do rei dos Nalus e irá a uma receção ao seu palácio; descreve o Rio Nuno e parte para Kandiafara, percorreu florestas espessas, admirou paisagens deslumbrantes, foram atacados pelas formigas, chegaram ao Rio Compony, deu-se o encontro das caravanas francesas. Vamos continuar.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 5
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro"Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Continuando a descrição da viagem da comissão orientada pelo Capitão Brosselard entre o rio Nuno e Kandiafara, concluímos o texto anterior com a referência a um assalto por formigas, em Samiah, em pleno entreposto, damos de novo a palavra aos comentários na primeira pessoa sobre tais vicissitudes. Uma fila longa e espessa de formigas estendia-se pelas paredes e perdia-se no jardim; a cabeça da coluna das formigas invadiu a galeria do primeiro andar. Foi necessário aquecer água toda a noite e lançá-la sobre este tipo de invasores. Sorte bem triste teria o armazém onde chegassem estas formigas vorazes, numa noite desapareceria tudo o que fosse comestível.
Um animal, fosse um cavalo, um boi ou mesmo um homem, atacado pelas formigas negras, é um ser perdido. Não há muito tempo, a prisão em que um indígena estava encarcerado num posto foi invadida por estes animais ferozes: o homem fartou-se de gritar, em vão. No dia seguinte quando lhe foram levar comida, só encontraram um esqueleto assombrosamente limpo, o homem tinha sido devorado pelas formigas.
A 13 de fevereiro atravessámos pelas margens de um rio de nome Tamalagba a povoação de Kantagara. Trepámos para uma espécie de planalto que separa o Tamalagba do rio de Tomboïa. É aqui que se encontra a povoação com o mesmo nome, no meio de uma floresta de uma robustez extrema. Árvores gigantes cujas raízes se espalham por toda a parte; flores que contém um veneno subtil e difundem um perfume irritante que cobre os arbustos que bordejam o carreiro que estamos a percorrer. Uma encosta suave permite descer da povoação, que está acima a uma centena de metros, até ao rio de Tamboïa. Nesta estação passa-se facilmente a vau, o rio tem uma largura de 70 metros, a água que corre sobre a areia é clara e de boa qualidade.
A coluna continua a sua marcha e iremos fazer uma grande paragem perto da povoação de Brandicara, habitada, como Tomboïa, por emigrados de Tenda. No momento em que o Tenente Clerc chegava com a vanguarda da coluna e fazia o reconhecimento do local para bivacar, uma enorme serpente verde saiu das ervas húmidas à volta do riacho, quase aos pés deste oficial, dirigia-se para ele ameaçador; mas ao ouvir os gritos dos negros que acorreram, desapareceu na alta vegetação. Na região que a nossa coluna estava a atravessar, parece que esta serpente é muito comum e faz numerosas vítimas.
À noitinha, o acampamento estava instalado junto de um ribeiro de nome Katiapé. Corre no fundo de uma ravina profunda com os flancos a pique; e imensas árvores cobrem-na com a sua folhagem.
A 14 de fevereiro atravessámos o ribeiro de Camoïn. Agora o país mudara de aspeto; as árvores atingem proporções gigantescas e crescem muito com as copas cerradas; as lianas e as silvas misturavam-se em todas as direções e uma erva alta, aí de 2,50 metros, cobria inteiramente o chão. É a floresta virgem em todo o seu poder vegetal. Sente-se que um considerável curso de água corre ali perto; é impossível ir reconhecê-lo, impraticável naquele matagal cerrado; porém, os barulhos dos hipopótamos confirmam a sua proximidade. A coluna avança lentamente, o carreiro mergulha muitas vezes numa semiobscuridade e pode-se, coisa rara neste país, caminhar com a cabeça descoberta.
O chão está de tal modo deteriorado pelos elefantes que se torna indispensável caminhar com precaução para não se cair nas fendas que se escondem na espessura das ervas. As palmeiras tornam-se cada vez mais numerosas; abruptamente, na curva do carreiro, uma brecha luminosa aparece na floresta e revela um panorama admirável, está exposto à luz tropical.
Saindo da penumbra da floresta, os olhos ficam ofuscados por tanta claridade. Diante de nós, um rio com a largura de 300 metros e com um considerável volume de água. À direita, a algumas centenas de metros, uma barragem de calhaus mostra-se a descoberto, porque estamos na maré-baixa. As águas galgam-na, impetuosas. Na outra margem avistamos a pequena povoação de Kandiafara, construída em anfiteatro sobre as encostas de uma alta colina, no meio de uma vegetação selvagem e exuberante. À esquerda, os declives abruptos mergulham no rio Cogon. Ambas as margens estão guarnecidas por uma espessa cortina de palmeiras e no fundo do bosque vemos as suas coroas entre a folhagem brilhante.
Os rochedos que canalizam o rio retêm as raízes de inumeráveis plantas de variada folhagem cuja ramagem pende no rio. Este rio majestoso que se estende diante de nós é o rio Compony chamado Cogon pelos indígenas; o tratado de 1886 tornou-o possessão da França. Desfraldo as cores nacionais, e em nome da França tomo possessão do Cogon.
O Sr. Galibert tinha chegado na véspera à noite a Kandiafara, a embarcação e a coluna tinham podido cumprir o seu programa e atingir no mesmo tempo a última escala do rio Compony.
Neste duplo reconhecimento feito por terra e por rio através da região compreendida entre o rio Nunez e o Compony, tínhamos percorrido regiões absolutamente desconhecidas, completamente omitidas nas cartas geográficas, reconheceu-se o curso inferior do Cogon, um dos grandes rios chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de Benty, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Perto do riacho de Camoïn, desenho de A. de Bar, segundo uma fotografia
Embarcação do rei Dinah, dos Nalus, desenho de Weber, segundo uma fotografia
Ambiente do interior de uma habitação Fula, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Um chefe de Simbéli, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Desembarcadouro de Kandiafara, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
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Nota do editor
Último post da série de 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)









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