Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui chegavam, à tua praia, as galés dos romanos
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago,
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico
aqui conto as marcas do tempo,
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo
À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.
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Horácio Fernandes (1935-2025) |
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.
a pele e apagas
a púbis das raparigas.
Porto Dinheiro:
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas,
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
É de lá que vêm piratas e corsários,
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis,
contadores de lendas, mouras encantadas,
vikings e outros predadores...
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!
É de lá, do mar fundo, que vêm os portadores da peste…
Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.
Porto Dinheiro:
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão
os mercadores fenícios,
as legiões romanas,
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.
Porto Dinheiro:
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
se descartada da econometria,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.
Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio, os nossos antepassados.
Um dia há de desaparecer nas Américas
o último carpinteiro de naus,
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António Fernandes (c. 1890 - c. 1950) |
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
morreu longe, na Califórnia,
Maldita pátria amada, odiada, esquecida,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!
Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026
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(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)
Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)





































