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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27609: In Memoriam (567): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): "Maldita pátria amada, odiada, esquecida, / e quase sempre perdoada, / que tantos filhos pariste e rejeitaste!" (Luís Graça)



Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > O Horácio Fernandes e, em segundo plano, à esquerda  o Jaime Silva. (A Tabanca de Porto Dinheiro não existe mais, desde que morreu o seu régulo, o Eduardo Jorge Ferreira, 1953-2019).


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Vista da tasca da Ti Augusta, sobranceira à praia e ao mar 


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
Embarcações de pesca artesanal, todas cokm nomes de... mulher


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > 
A tasca da Ti Augusta,  na altura explorada por um filho, sargento da marinha reformado.


Lourinhã,  Ribamar, Praia do Porto Dinheiro > 18 de agosto de 2011 > Tasca da Ti Augusta > 
A famosa sopa de navalheiras.

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados 


Praia do Porto Dinheiro

por Luís Graça

À memória dos meus antepassados Maçaricos
marinheiros, mareantes, navegantes, mariscadores
pescadores, peixeiros, mercadores, missionários, 
construtores navais... desde Quinhentos

Ao António Fernandes (Patas, também Maçarico)
último construtor naval de Ribamar, Lourinhã,
que irá morrer na Califórnia, talvez nos anos 50.

E ao seu neto, e meu primo e camarada,
Horácio Fernandes (1935-2025).
capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor de "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro cobre as falésias e os caniçais.
Até aqui 
chegavam,   à tua praia, as galés dos romanos
e os barcos dos piratas de perna de pau.
Não sei se o sítio tem padroeiro ou orago, 
mas por certo que por aqui passava o caminho atlântico 
de Santiago.

Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora para escrever o meu testamento vital.
Aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia.
Mas, não: morreria em 69 depois de Cristo 
a observar a  erupção do Vesúvio.

À tua esquerda, a praia do Valmitão.
Ou do Vale do Ermitão.
Podia ter sido ilha de corsário ou baía de tubarão,
mas a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Porto Dinheiro:

Horácio Fernandes
(1935-2025)
Finisterra, p
órtico do tempo, 
és gare, és algar,
porto dos portos das Atlântidas perdidas!

Foste estaleiro de vasos de guerra,
galeões, naus e caravelas
por haver ou nunca havidas,
diz o livro do almoxarife.

Hoje já não se constroem mais catedrais
nas tuas fossas submarinas
nem moinhos de vento  no teu recife de corais,
nem traineiras de grosso cavername
nas rampas das tuas arribas fósseis.

Dóceis são as ondas com que afagas
a pele e apagas
a púbis das raparigas.

Porto Dinheiro: 
o irresistível apelo das algas
que são as hormonas do mar,
espigas, chicotes, valquírias, ninfas, najas, canibais,
que vêm do fundo dos tempos imemoriais
para seduzir os filhos dos homens,
inebriar as suas almas, 
enlear os seus corpos.

Ah!, quantos dos teus não ficaram insepultos
a muitas milhas náuticas de casa!

Porto Dinheiro, Ribamar, Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã:
tens a tua quota-parte na história trágico-marítima de Portugal.
entre 1968 a 2000,  Hades, o rei dos infernos,
contabilizou seis naufrágios de barcos de pesca
e neles morreram três dezenas dos  teus filhos:
Deus é Pai, Certa, Altar de Deus, 
Arca de Deus, Amor de Filhos, Orca II...

Há ainda olhos que perscrutam a linha do horizonte
e rasgam a colina de neblina, por detrás das Berlengas.
O Mar do Cerro, dizia o meu velho.
É de lá que vêm piratas e corsários, 
monstros, mostrengas, adamastores,
dissauros, loucos menestréis, 
contadores de lendas, mouras encantadas, 
mercadores, invasores, conquistadores,
vikings e outros predadores... 

E os bretões com os seus barcos a vapor, 
que vinham aqui pescar lagostas entre as duas grandes guerras,
mais o Bateau ivre, do Rimbaud!

É de lá, do mar fundo,  que vêm os portadores da peste…
Mercator ergo pestiferus, de que Deus nos livre!

Deste nomes de fêmeas aos teus barcos que são machos,
máquinas fálicas de lavrar e violar
o vento, a água, o ar,
Jessica, Mafalda, Sofia,
Inês, Patrícia, Maria.

Porto Dinheiro:
formidáveis muralhas de palavras e moluscos
emparedam-me vivo
na canícula desta tarde de verão.
em que espero em vão 
os mercadores fenícios,
as legiões romanas, 
devidamente equipadas e alinhadas nas suas galeras,
ou as hordas bárbaras, teutónicas, a cavalo, blindado.
Ou, cara ou coroa, 
o simples mensageiro da paz,
o carteiro que me há-de trazer a carta a Garcia,
com a solução alquímica da vida
ou o algoritmo da felicidade
ou a password do sítio 
A gruta de Alibabá e os 40 ladrões.


Porto Dinheiro:
estou sentado na esplanada da tasca da Ti Augusta,
que eu ainda conheci em vida,
depois de saborear uma sopa de navalheiras,
e comer uma posta de arraia frita,
e beber um copo de branco, em vidro fosco e grosso,
recuando ao tempo dos meus avoengos Maçaricos
que tinham tempo e vagar para viver e morrer cedo.
E eram pescadores de moreira e safio.

E aqui penso em como a vida às vezes é tão simples,
se descartada da econometria, 
da sociometria 
e da psicometria…
e da geometria variável do poder.

Dizem que aqui reinou o rei Midas,
o mesmo que transformava lagostas e algas em barras de ouro.

Porto Dinheiro,
dos casais por detrás das tuas colinas,
onde a tua gente se escondia dos piratas e corsários,
até ao mar imenso,
por aqui andaram, Horácio,  os nossos antepassados.


Um dia há de desaparecer nas Américas

o último carpinteiro de naus, 

António Fernandes
 (c. 1890 - c. 1950)
caravelas e traineiras.
Não sobreviveu à industrialização da construção naval
nem à crise do capitalismo dos anos 20.
Já não te lembras dele.
Nem ele chegou a ver netos 
nem filhos com barba,
morreu longe, na Califórnia, 
na diáspora, no exílio, no desterro.
Nunca mais voltou nem deu notícias.
Era Patas e era Maçarico, meu parente, 
teu avô, Horácio.

Maldita pátria amada, odiada, esquecida, 
e quase sempre perdoada,
que tantos filhos pariste e rejeitaste!

Luís Graça (18/11/2011). Revisto em 5/1/026

_______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27605: In Memoriam (566): Nuno Dempster, poeta, escritor (Ponta Delgada, 1944 - Viseu, 2026), pseudónimo literário de Manuel Gusmão Rodrigues, ex-fur mil SAM, CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933 (Farim, Saliquinhedim/K3, Mampatá, Colibuía, Aldeia Formosa, 1967/69)

Vd. poste de2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)

Lourinhã > Ribamar/Porto Dinheiro ou Atalaia/Porto das Barcas ? > c. 1920 > A família Maçarico tinha um estaleiro de construção naval, em Ribamar. Com a industrialização e a modernização dos estaleiros navais, o avô paterno do Horácio Fernandes acabou por emigrar para a América, nos anos 20.  Nunca mais voltou nem deu notícias, deixando na terra a mulher e três filhos menores, entre eles o pai do Horácio.  Soube-se, muito mais tarde (por volta de 1959, quando o Horácio estava para ser ordenado padre e o seu passado da família foi escrutinado, por denúncia)  que já tinha morrido na Califórnia.

Fonte: Cortesia do Espaço Museológico de Ribamar: Olhar o Mar (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Na sua dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), Horácio Fernandes descreve, nas páginas 102-106,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã, que é também a terra da minha bisavó paterna, Maria Augusta (Maçarico) (1864-c.1938), que era irmã da Maria da Anunciação, bisavó paterna do Horácio].

Descreve igualmente as 3 figuras da família que o marcaram: o pai, José Fenandes Nazaré;  a mãe, Elvira Neto; e o avô materno, sacristão  (nascido por volta de 1875)... 

O avô paterno, António Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando oo Horácio disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América, na Califórnia. Foi um dos últimos construtores navais de Ribamar.

O Horácio nasceu em 1935. É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

 A maior parte de nós, que nasceu já dez ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica (aqui resumida, na sua dissertação de mestrado,  em pouco mais de 3 dezenas de páginas). 

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado, não sei se os herdeiros terão intenção de fazer uma 2ª edição ou reimpressão.)

O Horácio Fernandes vestiu o hábito franciscano, tendo sido ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.

Lourinhã > c. 1920 > Alvarina de Jesus Sousa, da família Maçarico. Morreu em 1922, de tuberculose, a terrível doença da época. Era filha de Francisco José Sousa, da Lourinhã, comerciante de peixe, e de Maria Augusta, de Ribamar.



Maria Augusta de Sousa  (Ribamar, 1864- Lourinhã, c.1934). S/ d.

A  avó materna do meu pai Luís Henriques (1920-2012), Maria Augusta, nasceu em 28 de outubro de 1864, em Ribamar, ou melhor, em Casais de Ribamar, hoje integrados na vila de Ribamar. Pertencia ao clã Maçarico: filha de Manuel Filipe e Maria Gertrudes. ( A sua ascendência está documentada até, pelo menos, a meados do séc. XVIII.)  

Veio a  casar na Lourinhã, com um peixeiro, Francisco José de Sousa (1864-1939). O casal teve 7 filhos.   Terá morrido com “cerca de 88 anos”, segundo o meu pai, ou seja no início dos anos 50, o que ponho em dúvida. Já li ou ouvi  algures outras datas: 1920, 1934…

Fotos: arquivo da família.

 

Excertos da dissertação de mestrado "Francisco Caboz: de angélico ao trânsfuga: uma autobiografia" (FPCE / UP, 1995) 

CAPITULO 4º - A CONSTRUÇÃO DA VOCAÇÃO, A MISSÃO E A DESCONSTRUÇÃO DO HABITUS (pp. 102-136)


Parte I -  Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno) (pp. 102/106)

«Casinha de pobre,
Lareira de altar,
Borralho quentinho
E tudo a rezar. »

 (Afonso Lopes Vieira)

(...) "Este capítulo tem um registo assumidamente duplo: é fenomenológico, biográfico, no tratar a vida de Francisco Caboz, tal como ela foi vivida por si e dita; é sociológico, analítico, na medida em que é significativa de uma ordem económica social e política. Da dialéctica das duas resultará, porventura, a nosso ver, a proficuidade do método que utilizamos." (...) (pág. 102)


1- Arribas do Mar

Arribas do Mar, aldeia de Francisco Caboz, estava predestinada a ser viveiro de três vocações sacerdotais nos anos 30/40. Isolada entre dois concelhos «saloios», Lourinhã e Torres Vedras, a agricultura de subsistência e a pesca sazonal eram os seus únicos recursos.

Lisboa, que distava 50 Km, ficava muito longe, já que as estradas que lhe davam acesso eram intransitáveis e o percurso inseguro, sujeitos os transeuntes a frequentes assaltos. Só a pé ou a cavalo é que era possível transpor tão curta-longa distância. O mar era a única saída possível.

Sempre com o credo-na-boca se o mar embravece, esta gente é ao mesmo tempo desconfiada, crente e devota. Quase todos analfabetos, prostam-se e veneram, temendo alguém que é mais do que eles e que constantemente os ameaça. Santos, bruxos, mulheres de virtude, todos são requisitados em marés de azar: doenças dos homens e dos animais, do corpo e da alma, amores estragados e maresias.

A escola existia, mas secundariamente em relação à omnipresença do Mar: o mais importante era saber:

  • fazer um "côvo" para apanhar lagosta, lavagante ou navalheira;
  • fazer um camaroeiro e uma sartela para atrair o peixe na maré vazia;
  •  consertar uma rede;
  • medir os fundões em braças;
  • lançar a poita;
  • manejar a vela, o remo e o leme;
  •  «safar a tralha», o que não se aprendia nos bancos da escola.
A aldeia de Francisco era, digamos assim, a realização nas suas potencialidades mais substantivas do salazarismo, enquanto projecto político: imobilismo social, pobre, conformada, trabalhadora, disciplinada vivendo o quotidiano ao ritmo do anti-quotidiano (...).

-102- 


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2. A família de Francisco



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 - 103 - 

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- 104 - 

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- 106 - 

(Continua)

(Seleção, edição, revisão / fixação de texto, título: LG)


Capa da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, 147 pp. (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27584: In Memoriam (563): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025), ex-alf grad capelão, BART 1991 (Catió, set 67/ mai 69) e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69); nosso grão tabanqueiro nº 565


Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).
Nosso grão-tabanqueiro nº 565, Tem cerca de 3 dezenas de 
referências no nosso blogue



Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a dfireita  os então padres franciscanos  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)

De acordo com o   "livro da família Maçarico", o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs...  

O Júlio, que foi missionário em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe)  e depois foi para o Canadá, já morreu. Saiu da ordem, franciscana,  em 1970. Também era do clã  Maçarico, e portanto meu parente... Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959 (se não erro).

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002,  pag.123


1. Ao chegar à Lourinhã ontem vindo do Norte onde fui passar o Natal, recebo, via telemóvel, por parte do João Crisóstomo, uma triste notícia: morreu o nosso Horácio Fernandes!... Já em novembro passado. 

O João Crisóstomo, a Vilma e o Rui Chamusco passaram ontem, de manhã, por Ribamar e bateram à porta da irmã mais nova... O João, na infância e juventude, frequentava a casa paterna do Horácio, filho de José Fernandes Nazaré e Elvira Neto. 

Era meu conterrâneo, e para mais parente: ambos pertencíamos ao clã Maçarico... Nasceu em Ribamar, em 15 de setembro de 1935.

Eis algumas notas biográficas (*):

(i) alferees graduado capelão, no CTIG (1967–1969)

Horácio Fernandes serviu como alferes graduado capelão integrado no BART 1913, tendo estado colocado em Catió, no sul da Guiné (entre setembro de 1967 e maio de 1969).

Foi uma comissão difícil num dos setores mais fustigados da guerra. A sua presença é recordada pelos camaradas (c0mo o Alberto Branquinho) como a de um homem simples e solidário, que vivia de perto as angústias e as contradições dos soldados.

Em maio de 1969, o BART 1913 acaba a sua comissão e regressa a casa... Como o Horácio é de rendição individual, e ainda lhe faltam alguns meses para terminar a sua comissão, é colocado em Bambadinca, num batalhão que não tinha capelão, o BCAÇ 2852 (1968/70)...

Em conversa com ele, conclui que não se lembrava do ataque, m 28 de maio de 1969, a Bambadinca. Pode ter chegado mais tarde... Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 estávamos a chegar a Bissau no T/T Niassa... Em 2 de junho, passei por Bambadinca a caminho de Contuboel. Menos de dois meses depois, a minha companhia é colocada em Bambadinca, setor L1, como subunidade de intervenção. Nem eu nem o capelão Horácio Fernandes nos haveremos de encontrar nos meses em que estivemos no mesmo sítio, comendo e dormindo a escassos metros um do outro... Lembrava-se de sítios como o Xime, o Xitole, Saltinho...

Eu por lá ficarei, em Bambadinca, até março de 1971. O Horácio só até dezembro de 1969, altura em que, acometido por uma crise de  paludismo, teve de ser evacuado, de heli, para o HM 241, em Bissau. 

Razões possíveis para o nosso desencontro em Bambadinca: (i) eu tive um 2º semestre de 1969 de intensa atividade operacional; (ii) não ia à missa; (iii) já não via o Horácio desde 1959; (iv) o capelão passava boa parte do seu tempo das unidades de quadrícula do setor L1...

Mesmo assim, ainda hoje não me posso perdoar o facto de, a milhares de quilómetros de casa, nunca ter sabido da presença, em Bambadinca, de um conterrâneo meu, e para mais meu parente.

O Horácio participava  nos convívios anuais do pessoal do BART 1913, não tendo ficado com ligações afetivas com o pessoal do BCAÇ 2852. 

(ii) Livro de memórias, "Francisco Caboz: A Construção e a Desconstrução de
um Padre"
 (Papiro Editora, Porto, 2009) (esgotado) (imagem da capa à direita)

É  um testemunho raro e corajoso. Nele, o Horácio usa o heterónimo "Francisco Caboz" para descrever:

  • a sua formação no seminário e a "construção" da sua identidade como padre franciscano;
  • o impacto da Guerra Colonial nas suas convicções
  • o processo de "desconstrução" que o levou a abandonar o sacerdócio em 1972, pouco depois de regressar da Guiné (tendo ainda chegado a ser capelão da marinha mercante antes da rutura definitiva);
  • o início de uma nova vida laica, tendo-se casado na Igreja de Cedofeita, no Porto, cidade onde se radicou;
  • casado com a Emília ("Milita"), natural de Fafe; o  casal têm 3 filhos, Ana, Joana e Ricardo (que vive em Inglaterra).

(iii)  Carreira civil e académica

Após deixar a Igreja, Horácio Fernandes investiu fortemente na educação e na vida académica:

  •  foi professor dos três níveis de ensino (básico, secundário e superior); foi orientador pedagógico, 

  • inspetor superior coordenador na Inspeção Geral da Educação;

  • licenciado em história (Universidade do Porto); mestre em Ciências da Educação (Universidade do Porto; a sua disseração de mestrado de 1995 foi a base para o seu livro posterior);

  • doutor em Ciências da Educação (Universidade de Santiago de Compostela); 

  • autor ainda de diversos livros didáticos na área das ciências sociais e humanas...


(iv) A ligação a Ribamar, Lourinhã,  e ao "Clã Maçarico"


Capa do livro sobre a família Maçarico, que tem centenas de descendentes, originários de Ribamar, Lourinhã. Estão hoje espalhados pela diáspora lusitana (por ex., Brasil, Estados Unidos, Canadá). Há um rano em Mira, que deve ter emigrado para lá no séc. XIX. Uma das caraterísticas dos Maçaricos é que sempre viveram junto ao mar, e ligados a atividades maritímas (desde a marinha mercante à marinha de guerra, desde a pesca à construção naval).

Na sua página na Net pode ler-se: 

"Ribamar na época dos Descobrimentos era já um importante centro de construção naval, tendo ainda existido até cerca de 1930 um estaleiro que situava no local onde está hoje a escola primária.

"E já nesses tempos idos os Maçaricos eram reconhecidos como especialistas nessa área tendo acompanhado diversas expedições navais. E provavelmente estabeleceram-se também noutras localidades onde existiam estaleiros, possível explicação para haver outras famílias Maçarico espalhadas pelo Pais, como por exemplo em Mira."

Apesar de viver no Porto há décadas, o Horácio Fernandes manteve sempre a ligação à Lourinhã. O nosso blogue regista a sua participação em convívios da "Tabanca de Porto Dinheiro"  (em que participaram, entre outros, o seu grande amigo João Crisóstomo, o Eduardo Jorge Ferreira, o Rui Chamusco, o Jaime Bonifácio Marques da Silva, o Joaquim Pinto de Carvalho, entre outros),.

O facto de ser do clã Maçarico reforça essa identidade de uma família resiliente. A sua vida foi um exemplo de como é possível servir o país, questionar as instituições quando a consciência o exige e construir uma segunda vida de sucesso e respeito no mundo civil.

De acordo com o  "livro da família Maçarico", supracitado, o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs... A sua bisavó paterna era a Maria da Anunciação e a minha, a Maria Augusta (1864-1920), as duas únicas mulheres de uma família de 7. Eu e o Horácio somos parentes... Os seus pais, nascidos por volta de 1830, eram Manuel Filipe e Maria Gertrudes... Os seus avós, nascidos no virar do séc. XVIII, eram Joaquim Filipe e Rosa Maria, pelo lado paterno, e Joaquim Antunes e Maria Rosa, pelo lado materno...

A nossa árvore genealógica remonta à época dos Descobrimentos..., quando os nossos antepassados eram arrebanhados como pau para toda a obra e postos ao serviço das caravelas e das naus que demandavam os novos mundos que Portugal dava ao mundo... Também se especializaaram na arte da construçáo naval, na navegação, na marinhagem, na pesca do alto, etc. Incapazes de viver longe do mar, espalham-se hoje ao longo da costa portuguesa, em particular em dois núcleos, Ribamar-Lourinhã e em Mira, para além da diáspora (Lisboa, Brasil, EUA, Canadá,  etc.):

O percurso de Horácio Neto Fernandes, filho de gente humilde de Ribamar da Lourinhã,  foi extraordinário e a sua morte, no Porto, aos 90 anos, encerra o ciclo de uma vida marcada por uma profunda honestidade intelectual e coragem para se reinventar. 

É uma perda significativa para a nosssa memória histórica e familitar, para a nossa  terra, para o clã Maçarico,  e para a comunidade de veteranos da Guiné.  

Em meu nome pessoal e da Tabanca Grande, desejo que descanse em paz.  Infelizmente só agora nos chegou a notícia. Aqui fica a minha solidariedade na dor à família (Milita e filhos), e demais família e amigos do peito (com o João Crisóstomo). (**)

(Seleção, revisão / fixaçãpo de texto, negritos, título: LG)


Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira > Três grandes amigos: João, Horácio e Milita

Foto: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:


24 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9941: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (55): O alf mil capelão Horácio Fernandes, natural de Ribamar, Lourinhã, no álbum fotográfico do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) (ex-fur mil mec arm, CCS/BART 1913, Catió, 1967/69)


16 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14885: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (6): Convívio da Tabanca de Porto Dinheiro, 12 de julho de 2015 (Parte III): Álvaro e Helena do Enxalé, sejam bem-vindos à Tabanca Grande!...Oxálá / inshallah / enxalé nos possamos voltar a reunir mais vezes para partilhar memórias (e afetos)... Vocês passam a ser os grã-tabanqueiros nºs 695 e 696

(**) Último poste da série > 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto

domingo, 23 de agosto de 2020

Guiné 61/74 - P21285: (Ex)citações (368) : "Bem hajas, padre Jaquim, / 'Tás mesmo bom da cachimónia, / Foi linda a cerimónia, / Nunca tive um coro assim." (Luís Henriques, 1920-2012, na missa do seu centenário, em Ribamar, Lourinhã)


Lourinhã, Porto das Barcas, restaurante "Atira-te ao Mar" > 21 de agosto de 2020, 20h22 > Pôr do sol, o momento do dia em que os vivos e os mortos se conectam mais frequentemente... Nesse momento, o fotógrafo pensou no seu pai, Luís Henriques (1920-2012) que deixou a Terra da Alegria em 2012,  antes de completar os 92 anos.  Em vida, adorava esta paisagem atlântica, aonde vinhya "limpar a vista" (sic).


Lourinhã, Porto das Barcas, restaurante "Atira-te ao Mar" > 21 de agosto de 2020, 20h22 > A  (e)terna magia do pôr do sol sobre o nosso Atlântico...


Lourinhã > Cemitério loal > 19 de agosto de 2020 > Um dos netos do Luís Henriques (1920-2020), no dai em que faria 100 anos, junto à campa do avó e da avó Maria da Graça (1922-2014)




Ribamar, 22 de agosto de 2020, 19h57> O padre Joaquim Batalha regressa à sua casa, a Casa do Oeste, ali a 200 metros,  de "elétrico", depois de dizer a missa em que lembrou a memória do seu antigo paroquiano e amigo , o "Luís Sapateiro". Nas fotos, além do pároco de Ribamar, estão o Carlos Silvério [, antigo jogador de futebol, nosso grã-tabanqueiro nº 783, ex-fur mil at cav, CCAV 3378 (Olossato e Brá, 1971/73], a esposa, Zita (, que também fez com ele uma comissão em Bissau...)  e a Alice Carneiro. O Carlos e a Zita vivem em Ribamar, e são meus parentes. Assinalo também, com agrado,  a presença, entre outros parentes, do Luís Maçariço, de 81 anos, que esteve prisioneiro na Índia em 1961/62.

Ao Joaquim Luís Batalha, pároco da freguesia de Ribamar, e um dos mentores e dirigentes da Fundação João XIII - Casa do Oeste, ligam-me laços de afeto, apreço e amizade, desde os anos 80.


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2020). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Ontem na igreja de Ribamar, na missa das 18h30, o padre Joaquim Batalha, um jovem de 81 anos, antigo pároco da Lourinhã, lembrou que a missa também era por alma do Luís Sapateiro, que deixou a Terra da Alegria em 2012. 

Estavam presentes filhos, netos e até bisnetos, mais alguns parentes do clã Maçarico, de Ribamar. As medidas de higiene e de distanciamento social são aqui escrupulosamente cumpridas, e a lotação máxima da igreja sõa menos de 100 pessoas, na atual situação de pandemia de Covid-19. E eu, que já não assstia a um missa, há anos, fiquei muito feliz pelo final inesperado.

No final na missa, o padre Joaquim Batalha, que era freguês e amigo do Luís Sapateiro, na vila da Lourinhã, deu-.lhe os parabéns pelo seu centenário. Cantou-se em coro os "parabéns a você" e os presentes no fim bateram palmas... Foi uma bonita cerimónia. O Carlos Silvério que estava a meu lado, comentou: " E esta, heim?!...Gostava de saber que resposta em verso é que o ti Luís daria ao Jaquim Batalha".

Pois aqui está a resposta que o meu pai, com quem falo com frequência, quando vou ao cemitério,  me mandou esta noite , para entregar ao padre Jaquim Batalha:


Os parabéns me cantaste,

Logo a mim que era uma gralha,

E com essa é que me calaste,

Ó Padre Jaquim Batalha.

 

Por minh’ alma era a missa,

Nos cem anos do nascimento,

Pregaste-me um susto, chiça!,

Com tanto contentamento!

 

C’o as palmas dos teus fregueses

Assustei-me de verdade,

É que eu me esqueço às vezes,

Que já estou na eternidade.

 

Sempre foste um brincalhão,

Quase tanto como o sapateiro,

Mas agora deste-me uma lição,

A mim que morri primeiro.

 

Um bom cristão está nos céus,

Com direito a aniversário,

Mas sempre a velar p'los seus,

Até se esquece do centenário,


Bem hajas, padre Jaquim,

‘Tás mesmo bom da cachimónia,

Foi linda a cerimónia,

Nunca tive um coro assim.


Luís Henriques (1920-2012), 

descendente dos Maçaricos, de Ribamar,  

pelo lado da mãe, Alvarina de Sousa (Lourinhã, c. 1895  - Lourinhã, 1922) ,

casada com Domingos Henriques,

e da avó Maria Augusta (Ribamar, 1864 - Lourinhã, c. 1938), 

casada com Francisco José de Sousa.

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Nota do editor:

Último poste da série > 20 de agosto de 2020 > Guiné 61/74 - P21274: (Ex)citações (367): "O relógio da vida": uma prenda poética do Joaquim Pinto Carvalho e uma palavra de gratidão da aniversariante Alice Carneiro

domingo, 8 de dezembro de 2019

Guiné 61/74 - P20428: Recortes de imprensa (107): Homenagem, em Ribamar, Lourinhã, aos 23 pescadores, de um total de 38 mortos, que ficaram insepultos no mar nos últimos 50 anos ("Alvorada", 15 de novembro de 2019)




Notícia dado no suplemento "Grito Rural", do jornal quinzenário "Alvorada", Lourinhã, 15 de novembro de 2019. Com a devida vénia... (*)

1. Desde 1960,  38 pescadores de Ribamar, Lourinhã, naufragaram no mar, tendo perdido a vida... Desses, houve 23  corpos que  nunca foram recuperados, encontrando no fundo do mar a sua derradeira sepultura.  

É uma imensa e dolorosa história trágico-marítima para uma terra só... 

Ribamar, terra de que me orgulho por ser berço dos meus antepassados Maçaricos, quis fazer uma homenagem a estes "23 pescadores que o mar guardou", erguendo no cemitério local um "Farol Memorial", inspirado por farol do Cabo Carvoeiro que guia os pescadores desta vila, matriculados na capitania de Peniche (onde, atualmente, a maior parte da frota pesqueira, nomeadamente a do mar alto, é de gente de Ribamar)...

Além dos nomes dos homenageados, há uma inscrição onde se lê: "Não importa a distância que nos separa, há um céu  que nos une".

O monumento ‘Memorial aos que não tornaram’ é um projecto executado pela Junta de Freguesia de Ribamar, presidida pelo meu amigo Pedro Alexandre Rato,  através da edição de 2018 do orçamento participativo, do qual foi responsável Nuno Cruz.  A cerimónia teve a presença (inesperada) do Cardeal Patriarca de Lisboa. Apesar da chuva, por vezes torrencial, que caiu na manhã do dia 2 de novembro último, cerca de 120 pessoas não arredaram pé. (Fonte: Alvorada "on line", 5/11/2019).

De entre esses pobres náufragos, há gente meus parentes, e há seguramente alguns que fizeram a guerra do ultramar, tendo passado pela Guiné (**).

Há cerca de quatro anos atrás, foi inaugurado em Ribamar o monumento aos combatentes do Ultramar (***) que contou com a presença ativa de um dos filhos mais conhecidos da terra, o ten gen ref Jorge Manuel Silvério.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Guiné 61/74 - P20240: Pequeno Dicionário da Tabanca Grande, de A a Z (4): 2ª edição, revista e aumentada, Letras M, de Maçarico, P de Periquito e C de Checa... Qual a origem destas designações para "novato, inexperiente, militar que acaba de chegar ao teatro de operações" ?







Lourinhã > Praia da Areia Branca > Vale de Frades > 3 de setembro de 2019 > O Maçarico-das-rochas [Actitis hypoleuco]...


Lê-se no portal das Aves de Portugal:

"Com o seu incessante movimento de balanceamento da cauda, o maçarico-das-rochas é uma das mais irrequietas limícolas, que raramente é vista em repouso. Estatuto de conservação em Portugal:
Vulnerável


"Identificação > Pequena limícola castanha e branca. A cabeça, o peito, o dorso e as asas são castanhas. O ventre é branco, sem riscas, sendo a linha divisória bastante bem marcada. As patas são cinzentas ou esverdeadas. A característica identificativa que mais facilmente permite separar esta espécie de outras limícolas é a pequena “língua” branca que a plumagem forma de ambos os lados do pescoço.

"Abundância e calendário > O maçarico-das-rochas é uma espécie relativamente comum em Portugal e distribui-se um pouco por todo o país, mas como raramente forma grandes bandos não pode ser considerado uma espécie abundante. Frequenta todo o tipo de zonas húmidas, sejam elas de água doce, salobra ou salgada. Pode ser observado ao longo de todo o ano. Na época de reprodução é relativamente escasso e ocorre sobretudo na metade interior do território. Fora da época de reprodução é mais comum, ocorrendo então com regularidade em praticamente todas as zonas húmidas do litoral português." (...)



Fotos (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Na tropa e na guerra (colonial), Maçarico era o "soldado que ainda não terminou a instrução militar", o recruta, o novato, o que acaba de chegar (ao teatro de operações) (*)... 

O termo começou a ser usado em Angola, em 1961, depois estendeu-se à Guiné, sendo aqui substituído por "periquito" ou "pira"... Em Moçambique dizia-se "checa"... O termo aparece nas letras de canções do Cancioneiro do Niassa (**)
A razão de ser desta(s) designação (ões), não sei. O único  vocábulo com esta aceção, da gíria militar, que vem grafado no dicionário, é "maçarico".

maçarico | s. m.

ma·ça·ri·co
(origem duvidosa)

substantivo masculino

1. Aparelho com um tubo pelo qual sai uma chama que se faz incidir sobre a peça que se quer soldar ou derreter.

2. [Informal] Pessoa com pouca experiência. = APRENDIZ, NOVATO

3. [Informal] Soldado que ainda não terminou a instrução militar. = RECRUTA

4. [Ornitologia] Ave pernalta aquática.

5. [Regionalismo] Lebracho com malha branca na frente.

"maçarico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/ma%C3%A7arico [consultado em 12-10-2019].

Talvez algum leitor nos possa ajudar a perceber o porquê destas designações... Porquê "periquito" na Guiné, porquê "checa" em Moçambique ?

O nosso camarada Santos Oliveira já aqui nos deu, em tempos, uma explicação para a origem do termo "Maçarico", usado na Guiné em 1964 (***). Maçarico teria a ver com a cor do caqui amarelo das primeiras tropas. Em comentário o José Colaço dá uma explicação importante para a mudança do nome para "periquito": "Quando apareceram as fardas verdes deixaram de ser maçarico, e foram cognominados de periquitos.Aliás nem fazia sentido um maçarico verde."




Parte da capa do livro sobre a família Maçarico, que tem centenas de descendentes, originários de Ribamar, Lourinhã. Estão hoje espalhados pela diáspora lusitana (por ex., Brasil, Estados Unidos, Canadá). Há um ra,o em Mira, que deve ter emigrado para lá no séc. XIX. Uma das caraterísticas dos Maçaricos é que sempre viverem junto ao mar, e ligados a atividades maritímas (desde a marinha mercante à marinha de guerra, desde a pesca à construção naval


2. No livro "A Vila de Ribamar" (edição  de autor, Ribamar, 2002),  Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio, (n. Ribamar, Lourinhã, 1943,  1º tenente reformado,) reconstruiu a árvore da família (ou clã) Maçarico, cuja origem remontaria, pelo menos, à época dos Descobrimentos.

Nesta época, Ribamar seria um importante centro de construção naval, tendo ainda existido até cerca de 1930 um estaleiro que situava no local onde está hoje antiga a escola primária. E já nesses tempos idos os Maçaricos eram reconhecidos como especialistas nessa área,  tendo acompanhado diversas expedições navais. E provavelmente estabeleceram-se também noutras localidades onde existiam estaleiros, possível explicação para haver outras famílias Maçarico espalhadas pelo País, como por exemplo em Mira.

Uma das minhas bisavós, avó materna do meu pai. era Maria Augusta Maçarico  (Ribamar, 1864-Lourinhã, 1932). Caso com um Sousa, família de negociantes de peixe. (LG)
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 13 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20237: Pequeno Dicionário da Tabanca Grande, de A a Z (3): 2ª edição, revista e aumentada, Letra B

(**) "Checas" é uma das famosas canções do Cancioneiro do Niassa;

I
Ó checa, amigo checa,
Cacimbado ando eu,
Já estou farto disto tudo,
Aqui em Nova Viseu.

II
Já estou farto de picar,
De fazer operações,
De rios atravessar
Com água até aos calções.

III
Já estou farto de buracos,
Feitos pelas marmitas [, minas,]
Já estou farto de ir ao ar
E sem ver os terroristas.

IV
Ó checa, amigo checa,
Na picada, faz favor,
Tu serás paraquedista
Ou piloto aviador.

V
Comes feijão ao almoço,
Comes feijão ao jantar
E quando não é feijão
É punga para variar.

VI
Uma sopa de mosquitos,
E de formas esquisitas,
Dia sim, dia não,
Lá virão os ciclistas.

VII
Ó checa, amigo checa,
Isto aqui é muito chato,
Aturar a chicalhada
Que nunca saem para o mato.

VIII
Esta guerra é dos soldados
E também dos furriéis,
O resto dos graduados
Faz a guerra dos papéis.

IX
Assim é Nova Viseu
E isto ainda aumenta,
Isto é uma charanga
Na trinta e quatro setenta.


Comentário de L.G.:

 Referência à Companhia 3470, aquartelada em Nova Viseu, na região do Niassa.

Desconheço a proveniência do termo checa, o qual designa, se bem entendo, o soldado que acaba de chegar da Metrópole, sem experiência de combate, em suma, o maçarico, o periquito, como nós dizíamos na Guiné em 1969/71: Checa é pior que turra, é o título de uma obra de ficção, publicada em 1996 por Manuel Maria, que esteve em Moçambique entre 1972 e 1974. O romance, edição de autor (Porto, 1996), tem como subtítulo: Caricaturas da guerra colonial.

Quanto ao termo punga, não sei se está está correcto, no contecto em que é usado: segundo o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, o termo seria de origem suaíli e designaria "uma espécie de samba cantado, marcado por tambor, com versos improvisados e que é dançado em roda"...Mas não me parece que seja nesse sentido que o termo é aqui empregue: "Comes feijão ao almoço,/Comes feijão ao jantar / E quando não é feijão / É punga para variar"..

Quanto ao termo picar, significava detectar minas utilizando para o efeito um pau tendo na extremidade um ferro aguçado ou um prego com que se picava o chão, a picada, os trilhos suspeitos de esconderem marmitas ou minas anticarro ou antipessoal). 

Por sua vez, o termo chicalhada era uma forma de se referir, em termos depreciativos, os oficiais e sargentos do quadro das Forças Armadas, o pessoal da carreira militar, os quais eram em geral muito mais velhos do que os soldados do contingente geral, os furriéis milicianos e os alferes milicianos. Meter o chico era um termo depreciativo, designando uma acção desprezível de um furriel ou alferes miliciano que, no final da comissão, optava pela continuação na vida militar: veja-se por exemplo o Fado do Miliciano que o J.M.AS Santos diz ser a versão do Exército do Fado da Marinha.

(***) Vd. poste de  11 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4173: Humor de caserna (10): Como se caçavam Maçaricos em 1964 (Santos Oliveira)


(...) A Guerra do Ultramar veio criar a necessidade de, aos Militares para lá deslocados, um fardamento adequado ao clima, de caqui amarelo-torrado.Os que haviam seguido pelos anos de 1961 ainda sofreram as agruras da regulamentar farda utilizada no Contingente Metropolitano, inadequada, de fazenda cerdosa, grossa, de cor cinzenta (quentíssima cá, como seria por lá???...).

Estes foram os verdadeiros criadores do termo e apelido que nos era atribuído, pela semelhança de cores com a do Maçarico, um tipo de ave, muito comum na Guiné. Com a evolução e renovação do tal fardamento inadequado, todos ficaram amarelos, pelo que somente aos novatos e inexperientes no Ultramar eram apelidados com tal epíteto. (...)