sábado, 22 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15029: In Memoriam (236): Luís Casanova Ferreira (1931-2015), cor inf ref, com duas comissões no CTIG (1964/66 e 1970/74) foi ontem a sepultar no cemitério do Alto de São João, em Lisboa



Guiné > Região de Tombali > Catió > BCAÇ 619 (1964/66) > Grupo de oficiais à mesa, no famoso bar Tombali, em Catió.

Há dois palmeirins, da CCAÇ 728: o alf mil J.L. Mendes Gomes, o 2º a contar da direita, de óculos escuros; e o alf mil Gonçalves, o 1º a contar da esquerda. Os restantes pertenciam à CCS do BCAÇ 619, então sedeado em Catió, com destaque para o major Luís Casanova Ferreira [1931-2015],  de bivaque na cabeça e camuflado, ao fundo: era o homem grande da logística do batalhão e foi um dos mentores e atores do 25 de abril. 

 Da direita para a esquerda, são ainda visíveis o alferes de transmissões do batalhão, o Teixeira; a seguir ao J.L.Mendes Gomes, o alferes, do Pel Art, de apelido Maia); e por fim, o alferes Pires Marques, de cavalaria (Pel Rec). 

Foto do álbum do nosso camarigo J.L. Mendes Gomes.

Foto (e legenda): © J. L. Mendes Gomes (2006). Todos os direitos reservados.

1. Segundo notícia da agência Lusa, Luís António Casanova Ferreira foi ontem a sepultar no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.  Morreu na sequência de doença. Tinha 84 anos.


[Foto à esquerda: Luís Casanova Ferreira, cortesia da página de Joaquim Evónio, Varanda das Estrelícias... Uma das raras fotos deste militar português, disponíveis na Net]


O coronel inf Luís Casanova Ferreira esteve ligado ao 16 de março de 1974 (, a revolta militar que predecedeu o 25 de abril). Foi um dos capitães de abril, ligado á ala spinolista do MFA. Foi preso na sequência do  11 de março de 1975, sendo na altura major, comandante da PSP de Lisboa. Foi libertado uma semana antes do 25 de novembro.

Casanova Ferreira fez duas comissões no TO da Guiné, em 1964/66 e 1970/74.  A Tabanca Grande, que reune centenas de amigos e camaradas da Guiné, cumpre o seu dever de curvar-se à memória deste militar português com quem alguns de nós conviveram e trabalharam no TO da Guiné, e apresenta sentidas condolências à família e amigos.

2. Nota biográfica de Luís Casanova Ferreira, segundo dados fornecidos pelo seu amigo e camarada de armas, o cor inf ref Manuel Bernardo:

(i) nasceu em Lisboa em 14 de frevereiro de 1931;

(ii) cumpriu quatro comissões de serviço em África: Moçambique (1961/64 e 1967/69) e Guiné (1964/66 e 1970/74);

(iii) uma semana depois de regressar da Guiné, participou no 16 de março de 1974, a chamada revolta das Caldas da Raínha, tendo estado preso na Trafaria até ao 25 de abril de 1974;

(iv) passou a comandar a PSP de Lisboa em maio de 1974, instituição que já tinha servido em 1958/60;

(v) foi preso no 11 de março de 1975,  sendo libertado uma semana antes do 25 de novembro de 1975;

(vii) comandou os regimento de infantaria nº 2 (Abrantes) (1977/79) e nº 11 (Setúbal), tendo passado à situação de reserva em 1981 e sido reformado em 1990.

(Fonte: adapt. de Manuel Amaro Bernardo, "Equívocos e Realidades, Portugal 1974-75", pp 425, 2.º vol., 1999).

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Nota do editor:

Último poste da série > 25 de julho de 2015  > Guiné 63/74 - P14930: In Memoriam (235): Manuel Moreira de Castro (1946-2015), ex-Soldado At Inf da CCAÇ 2315/BCAÇ 2835 (Bula, Binar, Mansoa, Bissorã e Mansabá, 1968/69)

Guiné 63/74 - P15028: Parabéns a você (950): Carlos Cordeiro, Amigo Grâ-Tabanqueiro dos Açores, ex-Fur Mil em Angola e J.L. Vacas de Carvalho, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2206 (Guiné, 1969/71)


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Nota do editor

Último poste da série de 21 de Agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15025: Parabéns a você (949): Vasco Santos, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 6 (Guiné, 1972/73)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15027: Memória dos lugares (314): Serra de Montejunto, o moinho de Aviz, de Miguel Luís Evaristo Nobre (Vilar, Cadaval) - Fotos de Luís Graça, parte I















Cadaval > Vilar > Vila Nova > Serra de Montejunto > 20 de agosto de 2015 > O nosso camarada e amigo  Joaquim Pinto Carvalho levou-me, a mim, à Alice e mais uns amigos do norte, o Gusto, a Nita e a Laura,  até ao moínho do Miguel, no alto da serra... Dizem que é o mais alto da península ibérica, dos moinhos ainda a fuincionar.

Daqui tem-se uma vista fantástica sobre o mundo, ou pelo menos sobre o meu/nosso oeste estremenho, do rio Tejo à serra de Sintra... Mas o mais fascinante é o moinho, o mominho de Aviz, e o seu dono, sem esquecer naturalmente a serra de Montejunto e os seus miradouros, a par da aldeia de Pragança que eu, inacreditavelmente (!), ainda não conhecia... O moinho, o moónho de Aviz,  que estava em ruínas há uns anos atrás floi reconstruído e uma beleza de se ver... Tudo somado, ficou-lhe em cerca de 200 mil euros, o preço de um bom apartamento em Lisboa...

Obrigado, Joaquim e Miguel, por esta magnífica tarde, que começou pela tua Artvilla, em Vila Nova, freguesia do Vilar, concelho de Cadaval, no sopé da serra que é familiar a alguns de nós, da FAP, que por aqui passaram no tempo de tropa (Estação de Radar, nº 3, Lamas, Cadaval).

Texto e fotos: © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados


1. Confesso que tenho uma velha paixão pelos moinhos de vento, paixão essa que me vem da infância: nasci e cresci ao som do vento a bater nas velas e a redemoinhar nas cabaças dos moinhos de vento da Lourinhã... a escassos dois quilómetros do mar... Há sons que nunca mais se esquecem.

O vento e o mar, o som e a fúria do vento e do mar, as velas, os mastros, os moinhos, os barcos à vela... A estética solitária e quixotesca do moinho de vento no cimo dos cabeços da minha região natal... E a sua barra azul. E os seus portentosos mastros, a alvura e fortaleza do seu velame... "Redes e moínhos" era o título do jornal da minha terra, quando eu era puto, tendo antecedido o quinzenário "Alvorada" onde trabalhei, como redator-.chefe, antes de ir para a tropa...

Havia alguns milhares de moínhos de vento no oeste, meia dúzia em cada aldeia, no meu tempo de menino e moço... Hoje há uma ciência que se dedica ao seu estudo, a molinologia. E há homens que ainda dominam a "arte ao vento", como o Miguel Luís Evaristo Nobre.

Preciso de mais tempo e vagar para escrever sobre este homem e a sua obra, e em especial sobre este moinho, con heciudo como o moínho de Aviz,  que visitei e fotografei ontem.  Prometo apresentar-vos, na II parte, fotos do interior do moinho... Para já há um sítio na Net, "Arte ao Vento", que merece uma visita... É o sítio da  empresa do Miguel (que vive no Vilar, Cadaval), "dedicada ao Restauro e Manutenção de Moinhos de Vento",

 (Continua)

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Guiné 63/74 - P15026: Notas de leitura (749): "Kassumai", por David Campos, publicado pela Associação Chili com Carne, Dezembro de 2012 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2014:

Queridos amigos,
Um jovem sai do Montijo e aterra em chão felupe como cooperante em colaboração com a AD de Pepito.
A sua vida revoluciona-se na descoberta de coisas simples, na ascensão de grandes vínculos afetivos. Viverá seis meses na região de S. Domingos e cantará em Kassumai a nova grande família que se forjou.
Acho que a cooperação portuguesa devia distribuir um exemplar de Kassumai a todo e qualquer cooperante que partisse para África, tão intensa é esta generosidade, tão autêntica foi esta dádiva, tão festiva é toda esta experiência realçada por um desenho ingénuo, franco e leal, como leal é a amizade que ele estabeleceu com aquele chão felupe, sabe-se lá se para todo o sempre.

Um abraço do
Mário


Kassumai (em Felupe: liberdade, paz e felicidade)

Beja Santos

Chama-se David Campos, visitou a Guiné-Bissau entre Novembro de 2006 e Maio de 2007, no âmbito de um projeto de apoio à população de S. Domingos, numa parceria entre a AD – Acção para o Desenvolvimento e a Câmara Municipal do Montijo. Durante a sua estadia apaixonou-se pelas pessoas que conheceu e escreveu um diário fragmentado de vivências e contactos humanos, possui um desenho sugestivo e terno, temos aqui um potencial grande criador de BD. David Campos nasceu em Medons la Florett (França) mas veio para Portugal aos 4 anos, cresceu no Montijo. Tirou o curso de Formação Profissional de Desenho Animado e também o de Escrita para Multimédia e Audiovisuais. "Kassumai" foi publicado na coleção Lowcccost, publicado pela Associação Chili com Carne (chilicomcarne.com), imprenso em Dezembro de 2012.

Kassumai é um hino à amizade, à solidariedade que se entretece na cooperação. As dificuldades superam-se, os sorrisos valem tudo, as famílias felupes abrem as portas, há muitas privações mas sempre se encontram ovos e latas de salsichas. Existe a rádio Kassumai que até tem o espaço para música romântica. Do chão felupe a Bissau há que atravessar rios e rias, é uma odisseia a jangada de S. Vicente, que já prestava serviço no tempo da guerra, agora chama-se Saco Vaz, em memória de um combatente do PAIGC morto na luta em 20 de Abril de 1974, a jangada faz a travessia do rio Cacheu, é uma viagem que pode demorar entre dez minutos a uma hora, tudo depende das correntes do rio. As amizades vão crescendo, a curiosidade pela etnologia e etnografia não tem limites, os cooperantes interessam-se pelas escarificações, interessam-se pelos ritmos africanos, provam vinho de caju. A missão destes cooperantes é pôr a ludoteca a funcionar. David Campos não esconde a sua alegria quando aquele espaço passou a ter as paredes pintadas, quando um escuro depósito de crianças se tornou num lugar divertido e encantado. Criou-se uma sala de informática no contexto de um centro de formação rural, os cooperantes viajam, trocam experiências, em Cacheu, atónitos, percorrem a fortaleza onde se agigantam fantasmas de pedra, nossos antepassados ilustres que eram estátuas, sobretudo em Bissau, e que o PAIGC, nos primeiros tempos da independência, removeu à pressa, atirou-as para a velha fortaleza de Cacheu, com ingenuidade de que o passado não conta. Os cooperantes estão também impressionados com o isolamento e abatimento de Cacheu.

David Campos descreve a vida da ONG, vê-se que todo o seu desenho transmite o que lhe vai no coração. Diz coisas como estas: “Dou apoio às aulas de costura e tinturaria africana, no bungalow do centro de formação rural. A turma tem a volta de 30 alunos, todas mulheres entre os 16 e 50 e tais, todas do setor S. Domingos, neste espaço também damos aulas de produção de sabão e de português”. E tece o seguinte comentário: “O trabalho duro na Guiné é esmagadoramente representado por mulheres e crianças, são elas que iluminam os quiosques, as praças, os mercados e as bermas da estrada, no fundo são elas que fazem funcionar este país”. Nunca reprime a alegria da descoberta: “Primeira vez que vi um nascer do sol na Guiné foi no caminho para Varela, numa carrinha de caixa aberta. A distância entre S. Domingos e Varela é de 50 km. Estes 50 km podem variar entre duas a quatro horas. A estrada de areia que nos leva até lá é muito acidentada. Passa-se o tempo aos saltos. Cerca de seis meses antes da nossa chegada, esta estrada foi cortada pelos separatistas do Casamansa. Puseram minas e uma candonga rebentou com 30 passageiros a bordo, 14 morreram. Era impossível fazer este trajeto sem fazer um minuto de silêncio. Varela é hoje uma das tabancas mais pobres do país, em Setembro de 2006 entrou oficialmente no tráfico de emigrantes”.

As amizades aprofundam-se, os jovens de idade do David não escondem a sua repulsa pelos dirigentes e ele escreve: “Todos culpavam Nino Vieira pela pobreza do país, chamavam-lhe ditador e tirano, falavam dos carrões, jipes, das casas e dos luxos de Nino, e no estado do país. Luzes se acendiam nos olhos destes jovens quando recordavam Amílcar Cabral e todos eles diziam que se não tivesse sido assassinado se viveria muito melhor”.

É difícil não nos rendermos às alegrias de David Campos, ao retrato que faz à criançada felupe, às amizades constituídas e às saudades que restam. Kassumai é a apologia do simples, da fidelidade nas relações humanas, um credo no desenvolvimento entre pessoas estruturalmente boas. E deixamos alguns desenhos de David Campos para que os nossos confrades avaliem a intensidade da experiência vivida por alguém que não esquece o malogrado Pepito:



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Nota do editor

Último poste da série de 17 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15013: Notas de leitura (748): “Do Colonialismo como Nosso Impensado", Organização e Prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, Gradiva Publicações, 2014 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P15025: Parabéns a você (949): Vasco Santos, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 6 (Guiné, 1972/73)

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Nota do editor

Último poste da série de 20 de Agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15021: Parabéns a você (948): Manuel Amaro, ex-Fur Mil Enf da CCAÇ 2615 (Guiné, 1968/71)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15024: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XI Parte): Mornas e Segundo Encontro com o RDM num mês

1. Parte XI de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 17 de Agosto de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XI

Mornas

Tinha-a conhecido em casa da Dora. Uma cabo-verdiana linda, a pele morena clara, lábios um pouco salientes, desenhada sobre o magro, à volta dos 20.
Trocaram as palavras do costume quando a Dora os mostrou um ao outro.
Teresa.
Teresa quê?
Teresa!
Olhos grandes, claros, esverdeados, ficavam bem com aquela pele. Voz doce, ar curioso. Esquiva e desinteressada, virou-lhe logo as costas, cada um foi para seu lado.
Esteve ali, conversou com este e aquele até se fazerem horas. Quando descia as escadas, ela chamou-o, ar atrevido, pareceu-lhe até demais. Mas já vai, não se despede da gente?
É, voltamo-nos a encontrar um dia, atirou ela, vemo-nos por aí, não? Bissau não é assim tão grande!
Se é meu desejo? Saiu a desconversar, meio desconsolado.

Dias depois, sentado no Bento, viu-a passar. Os olhares dos outros chamaram-lhe a atenção. Todos se viraram, não era fácil passar despercebida. Parecia-lhe mais alta. Os olhos com um verde mais magnífico ainda, levemente sombreados, cabelo liso preto, a pousar nos ombros, elegante num vestido sem mangas, azul-escuro pintalgado de bolinhas brancas, a balançar um pouco acima dos joelhos, sandália de meio tacão. Como se tivessem combinado, dirigiram-se um para o outro, mãos estendidas, cumprimentaram-se com alguma timidez. Os olhares dos outros não os largavam.
Ai, não, não me sento aí no café!
Vamos então andar um pouco, por aí?
Meteram-se no carro1, uma volta pelas ruas, por aí não, é a minha casa. Então para onde quer ir? Saíram da cidade, para os lados da Sacor, estacionaram de frente para o Sol, a desaparecer no Geba. O rádio a passar Capri, c’est fini, ela a cantarolar baixo, até começar a falar.


Quem sou eu? Sou este que está aqui, Teresa!
Mas quem és tu, porque estás aqui?
Aqui, como?
Porque estás aqui comigo? Sabes lá, que resposta!
A conversa assim, até encontrar o fio. Esta guerra, os desencontros, as pessoas para um lado e para outro, muita gente deslocada das suas casas, todos a virem para Bissau, muita tropa também, onde é que isto vai parar. Assim, de um momento para o outro, de rajada.
Depois mais suave, as origens, as famílias, os amigos, os interesses. Frequentava o 7.º no liceu de Bissau, os pais eram de Cabo Verde, tencionava fazer Medicina em Lisboa, estava com "As vinhas da Ira" nas mãos, acabara um livro de Hervé Bazin. “Só ódio”, conheces? Queres que to empreste?
Para quê, se é só ódio?
Pode ser interessante para ti, como sabes que não gostas sem o ler?
O que estava ali a fazer, perguntou-se. Como se tivesse adivinhado ela adiantou que gostava de estar ali, de olhar o Geba, de o conhecer, de olhá-lo nos olhos. Mas quem és tu, ainda não falaste de ti!
O dia a cair como cai em África, noite num momento. Temos que ir, não é?
Deixou-a à porta da Sé, junto à rua dela. Até amanhã, Teresa. O grupo dele saía na madrugada seguinte, para o norte.

No regresso procurou-a. Os olhos, grandes na mesma, pareciam de cor diferente, o rosto mais fechado, algum problema?
Uma semana à espera este tempo todo, começou ela, porque não apareceste? Olha-me de frente, assim não, olha-me nos olhos, assim! O que sou para ti, ora diz? Porque me foges com os olhos?
Séria, os olhos a entrarem por ele dentro, porque andas atrás de mim? Não falas? Responde! Porque não falas? Gosto que me contes tudo! Mais calma, encostada a ele, tão baixo que mal a ouviu, vamos sentar-nos no jardim? Estamos mais à vontade, a mamã não está, se ela aparecer apresento-ta, qual é o mal?
Que gostava, mas agora não. Então logo? Os papás ficam no varandim a aproveitar o fresco, até às 11, depois vão-se deitar.
Que é que te deu, não falas? Tens namorada na metrópole? Todos vocês têm, sei muito bem, como é ela? A boniteza não é só na cara, sabias? Não gostas de mim? Então que estás aqui a fazer?
Estás a olhar assim para mim porquê? Achas que não temos cabeça para pensar, que só somos corpo para vocês gozarem?
Vens logo à noite? Quando os papás se vão deitar fico sempre um bocado à janela.
Atordoado, saiu dali, sem saber o que fazer, nem para onde ir até. Uma mulher diferente!
Depois o tempo passou, o entusiasmo teve altos e baixos, até esfriara, há quase um mês que não se viam.

Do portão viu a Dora ao cimo das escadas. Ambiente animado, pessoal a dançar cá fora, meia dúzia de pares, tudo gente cabo-verdiana, colados uns aos outros, aquele jeito deles, os corpos no ritmo das mornas e coladeras.
Então, bem aparecido, zangado comigo?
Que não, nada de que se lembre, os olhos dele pelo baile, a Teresa a dançar, a um metro bem medido do par, a saia do vestido acima dos joelhos, o decote a mostrar. Mal os olhos se cruzaram, ela encostou-se ao parceiro, a cara para o outro lado.
Passa-se alguma coisa que eu não saiba? Que não, não havia problema nenhum, andava ocupado, aos fins dos dias não tinha vontade de sair, só isso, mais nada.

Despediram-se da Dora, isso agora vai, olhar maroto para as mãos deles. Tinham dançado uma e outra vez, quase só os dois no fim, tão colados que os outros até repararam.
Meteram pela rua de Santa Luzia, de mãos dadas, a brincarem um com o outro, a rirem-se por ali abaixo.
À porta dos pais dela, os rebentamentos que ouviam há já algum tempo soavam mais fortes. Agora é todas as noites isto! Estes tiros onde são?
Jabadadas2, menina, chega-te para cá, para onde vais, Teresa?
Tenho medo, não posso, encosta-te então, não te sentes mais abrigada assim, não é das explosões que tenho medo, então de que é?
Uma mão na perna, a subir, ai, aí não! Respirações atrapalhadas, afastados, um momento que não acabava, a olharem um para o outro, uma sirene bem perto, os lábios a rasparem-se, o gosto da boca dela, a mão dele nos seios, aqui não, anda, não podemos ficar aqui, mãos amarradas, que malucos, que é que estamos a fazer?
Na espreguiçadeira onde se recostava a ler e a sonhar nas tardes quentes de Bissau, ansiosa, não sabia o que queria, a mão dele fazia-lhe comichão no joelho, riso abafado das cócegas e do nervoso. A mão em cima da dele, parecia-lhe que a acalmava. As duas mãos juntas, a subirem por ela acima, não posso, tem cuidado, miminhos só, não me faças mais nada!

Não ando a fazer nada com ela, nem pretendo nada da Teresa, só passar uns momentos entretido. Não sei é se me vou aguentar assim!
Esta história com a Teresa pode dar chatices, pode trazer-te problemas!
No 14-04 com o pára-brisas no capô, vento na cara, a falar com ele, a caminho de Brá.
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Notas
1 - Volkswagen alugado
2 - Flagelações quase diárias a Jabadá, do outro lado do Geba

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O 2.º Encontro com o RDM num mês

‘Nunca louvarei capitão que diga não cuidei’

Tal há-de ser quem quer, com o dom de Marte,
Imitar os ilustres e igualá-los:
Voar com o pensamento a toda parte,
Adivinhar perigos, e evitá-los,
Com militar engenho e subtil arte,
Entender os inimigos, e enganá-los,
Crer tudo, enfim, que nunca louvarei
O Capitão que diga: "Não cuidei".

Lusíadas
Luís de Camões
Canto VIII, 89

Uma história que não gostava nada de recordar e que se esforçava por esquecer, passara-se em Jolmete, na zona de Teixeira Pinto, no noroeste, ainda não há muito tempo.
Uma zona calma, de um momento para o outro transformou-se num barril de pólvora seca.
O grupo “Centuriões” tinha regressado de lá com três feridos, um dos quais logo evacuado para o Hospital da Estrela. A única acção de fogo em que estiveram metidos consistiu na reacção ao primeiro ataque ao aquartelamento de Jolmete, com o grupo acidentalmente lá.
Era a primeira vez que a companhia lá estacionada via fogo a sério. Sabe-se qual é a reacção da grande maioria de quem é atacado. Primeiro, procura-se abrigo, depois se vê.
Só que naquela noite, o vê-se ficou-se no grande celeiro que os abrigava, a ver se o IN se chateava e ia embora. O que não aconteceu, claro. Se não fosse o grupo do Rainha estar cá fora, por não caber mais ninguém no armazém, abrigar-se e responder, muito provavelmente os atacantes podiam ter feito mais estragos.
Ficaram bem impressionados com a resposta do grupo e o capitão das operações do batalhão estacionado em Teixeira Pinto pediu que, ou continuassem ou fossem outros deles para lá. E foi assim que outro grupo apareceu em Teixeira Pinto e nesta história.

Quando chegou, viu uma povoação agradável, para as proporções locais. Arrumada, uma rua larga fazia de centro e de passagem para tudo à volta.
Foi recebido por um tenente-coronel, voz esganiçada, pequena estatura, careca, franzino, pouco mais de 50, talvez, uma caricatura de militar, pareceu-lhe.
Na sala de operações, um quarto com um mapa grande da zona pregado com pioneses na parede, o Tenente Coronel explicou a situação militar da zona do batalhão sob o seu comando. Para além do alferes do grupo de comandos estava presente também o capitão das operações, um homem diferente como veio a comprovar mais tarde.
Estava tudo em ordem, insistia o comandante do batalhão, a pacificação era um acontecimento, só umas pequenas borbulhas lá para os lados do tal Jolmete. Pingalim para o mapa, quero que você e o seu grupo vão aqui, depois ali, para aí a 10 centímetros para norte do primeiro local e depois venham para aqui, Jolmete no pingalim, outros 10 centímetros para leste. Não deixou de esboçar um sorriso, lá no íntimo e não está mesmo seguro que o sorriso não tenha sido visto pelo estratega. No mapa, aquelas voltas todas dava para aí meio metro. Depende da escala, claro, mas meio metro para um dia, mesmo naquele mapa, pareceu muito. Mesmo assim, se houvesse motivos suficientes, iam a isso que era para isso que ali estavam.
É de notar que o tenente-coronel, soube-se depois, ficara algo incomodado com o relatório que o alferes Rainha fizera e que lhe chegara do QG uns dias antes com um pedido de esclarecimento do chefe da 3.ª Rep. indagando as razões que tinham levado o comando do batalhão a permitir que o nativo de nome Antigas, capturado pelo IN e solto dias depois de ter estado num acampamento IN na área de Bugula, quando se apresentou na sede do batalhão, em vez de ter explorado imediatamente o sucesso o deixou abandonar o quartel e andar pela povoação a contar a história.
Nada de processos de intenções, mas é um aspecto que se deve considerar, tendo em conta os acontecimentos que se seguiram.

Para quantos dias, meu tenente-coronel?
Tudo de seguida! Depois de regressarem logo se vê, peremptório.
O alferes olhou-o e viu que tinha pela frente um guerrilheiro com uma larga experiência em secretarias e departamentos similares, sem imaginar que a especialidade que tirara ainda fora mais apurada.
Tribunais Militares, RDMs e secretarias, veio a saber depois, tinham sido os principais campos de batalha que praticara até à data.
O alferes com um ar, diga-se, nada adequado para um caso daqueles, ora bem, meu tenente-coronel, então V. Ex.ª quer que o grupo vá aqui, depois para aqui e depois para aqui, não é? Tudo de seguida?
Porquê um esforço destes, tantos quilómetros de mata, rios e tarrafos, bolanhas, em plena época das chuvas, sem qualquer conhecimento da localização de acampamentos INs que não seja o que se diz aí pelas ruas? Porque não fazer uma saída de cada vez, com objectivos bem definidos, em vez de andar a passear pelo mato?
Os comandos são grupos reduzidos, meu tenente-coronel e até aqui têm sido empregues em golpes de mão, com objectivos bem localizados e com guias de confiança. Outras missões são para outro tipo de tropas!
Não lhe compete dizer o que se deve fazer, aqui quem manda sou eu e o nosso alferes executa.

Uma miséria de abandono, Jolmete era um barraco enorme, onde estavam lá metidos nas piores condições cerca de 100 homens, arame farpado à volta, logo junto ao barracão. O capitão Corte-Real, comandante da companhia, o que não queria era chatices, e verdade seja dita, só deixou de as ter quando, meses mais tarde, foi estraçalhado por uma mina entre Farim e o K3.
O grupo saiu naquela noite como estava combinado, chuva em cima, trilhos e trilhos, tarrafo intransponível, poderiam andar lá dias se não tivesse decidido ir por outro lado. À hora marcada lá estava o PCV3 no ar, o tenente- coronel então onde estão?
Aqui em baixo, onde havia de ser? Assinalar com uma granada de fumos para saber onde estamos? Uma granada de fumos não lanço. Estamos aqui junto a esta bolanha, para norte do seu PCV.
Aí? Mas não foi isso que eu determinei! Volte já para lá, para o local combinado!
A conversa assim toda animada, indique então a posição para onde quer que a gente vá.
Viemos desses lados, vamos voltar aí para quê, está a ver aí de cima alguma posição IN? Nós é que temos que ver aqui em baixo? Olha Álvaro, o soldado do rádio, desliga mas é essa merda!
E o Álvaro cumpriu a ordem.
E andaram por aqueles trilhos dentro de água, o dia todo até à noite quando chegaram mais mortos que vivos a Jolmete.
Espaço para dormirem no barracão não havia, para comer havia umas excelentes bolachas, daquelas que só vão para baixo com meio litro de água.
Abrigaram-se debaixo das árvores que havia por ali, a tentar dormitar, com pingas de água a cair-lhes em cima.
De madrugada, tocaram-lhe no ombro, o comando do batalhão estava a enviar-lhe uma mensagem.
Explique com urgência os motivos do não cumprimento da missão. Que a missão estava em marcha, voltaria a sair, para o outro ponto indicado, às 5. Não! Vai sair mas é para outro lado, para aqui, para Teixeira Pinto, debaixo de prisão, vou mandar uma coluna buscá-lo.
Foi assim que o alferes foi transportado, numa viatura, por um compreensivo capitão com os elementos do grupo a fazerem o caminho a pé.
No quarto de operações, o tenente-coronel aguardava-o, com o capitão das operações. Que não tinha cumprido a missão e ainda fora mal educado para um oficial superior.
Um auto de averiguações, duas horas para responder por escrito a 34 quesitos.
Um criminoso de guerra, um desertor, ou quê?
Veja lá como fala, sou seu superior, sou tenente-coronel, sou o comandante deste Batalhão! E o nosso alferes está aqui às minhas ordens, com todas as consequências, não se esqueça!

Tinha na frente um bravo militar, esqueceu-se e não devia. Está-se a ver o que aconteceu. Um auto de averiguações transformou-se num auto corpo de delito, numa hora ou menos, uma rapidez que nem no tribunal militar territorial de Tomar!
E 5 dias de prisão disciplinar, o máximo da competência do tenente-coronel.
Tinha acabado de ouvir as razões do castigo, os oficiais, todos em sentido no tal quarto. Sim, que ouvira o que fora lido, que ouvia bem. E que ia reclamar da redacção da punição por, no seu ponto de vista, a redacção não corresponder aos factos. Aguente aí, alferes, o capitão das operações a murmurar baixo, a mexer-se.
Tem que pedir licença para reclamar! De qualquer maneira, concedo-lha.
Cá fora, em conversa com alguns alferes que assistiram à cerimónia ficou a saber que o tenente-coronel era muito disciplinador.

Depois foi o regresso a Bissau. Mal chegou não descansou enquanto não contactou com um dos ajudantes de campo de Governador-Geral, um alferes conhecido de outros gabinetes. Dias depois foi chamado ao Palácio, apresentou-se no gabinete do General Schulz. O General veio até cá fora, ao jardim, e foi aí que teve conhecimento, pela sua boca, dos factos.
Se acha que está a ser injustiçado, recorra, senhor alferes, foi a primeira resposta que ouviu.
Agradeceu ao general o conselho. Mas a principal razão que o levara a pedir que o recebesse tinha a ver com o crachá que o General lhe tinha entregado em mão no final do curso. E que estava ali para o devolver se o general, a partir deste caso de Jolmete, não o considerasse apto a chefiar uma unidade de comandos.
O General mudou o charuto para a outra mão, deu dois passos e olhou-o.
Continue o seu trabalho e faça tudo para que não voltem a ocorrer situações dessas, rematou o Governador-Geral de mão estendida.

Um caso que se arrastou meses e meses. Mudou o capitão dos comandos, mudou o Brigadeiro Comandante Militar, o tenente-coronel de Teixeira Pinto foi transferido para o sul, Catió mais precisamente, muita coisa andou, nada de resposta à reclamação que apresentara. Nem ninguém, desde a 1.ª à 4.ª Rep. sabia onde parava a folha de papel de 25 linhas.

Em meados de Fevereiro do ano seguinte, o novo comandante da Companhia de Comandos disse-lhe que o Comandante Militar, o Brigadeiro Reymão Nogueira, queria pôr ponto final naquela questão, que era melhor ir lá falar com ele.
Alferes, estas questões não adiantam nada ao andamento da guerra, só atrapalham. Claro que são importantes, especialmente quando, como parece ser o caso, não houve motivos assim tão sérios para uma tão severa punição. O que aconteceu foi que o alferes demorou a cumprir uma ordem de um oficial superior. Facto grave! Por outro lado, há que ver as atenuantes que eu acho que não validam a sua atitude, ajudam a compreendê-la.
É do seu conhecimento que a sua punição não sofreu até agora qualquer agravamento. Nem eu nem o nosso Governador-Geral a agravaram. Bom, o que tenho a dizer é o seguinte. O alferes retira a queixa contra o nosso tenente-coronel e eu, não lhe agravo a punição. E é de regra, o Ministro não mexer em penas que não tenham sido agravadas pelos Comandantes Militares.
Finalmente, e isto é muito importante, a sua punição, já publicada em Ordem de Serviço, está registada, não há nada a fazer. Não ocorrendo mais nenhum problema disciplinar, ainda temos de pensar como vamos encerrar o assunto, ok? Entendido?
Cansado, aquele processo há meses a moê-lo, muitas outras coisas na cabeça, optou pela retirada. Dá licença que me retire, meu Brigadeiro?
Enquanto descia as escadas o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi pirar-se dali para fora, desertar!
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Nota
3 - Posto de comando volante ou de comando aéreo, normalmente a bordo de um Dornier.

(Continua)

Texto e foto: © Virgínio Briote
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Nota do editor

Postes anteriores da série de:

28 de Junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14803: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (I Parte): Introdução, Dedicatória e A Caminho

30 de Junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14814: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (II Parte) Em Cuntima, na fronteira Norte com o Senegal (1)

30 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14817: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (II Parte) Em Cuntima, na fronteira Norte com o Senegal (2)

2 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14827: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (III Parte): Morreu-me um gajo ontem

7 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14845: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (IV Parte): Comandos do CTIG

9 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14857: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (V Parte): Brá, SPM 0418

14 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14876: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (VI Parte): A nossa causa é uma causa justa

23 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14922: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (VII Parte): Clara; Apanhado à mão e Entre eles

30 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14951: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (VIII Parte): "Hotel Portugal"; "Um guia" e "Artigo 4.º do RDM"

6 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14975: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (IX Parte): Mais dois lugares è mesa; Bomba em Farim e Rumo a Barro
e
13 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14998: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (X Parte): Barro, Bigene; Bigene, Barro

Guiné 63/74 - P15023: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (20): História de paz com (muita) guerra atrás

1. Em mensagem do dia 10 de Agosto de 2015 o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), manda-nos mais uma história, das que só ele sabe contar, para a sua série "Outras Memórias da Minha Guerra".


Outras memórias da minha guerra

19 - História de paz com (muita) guerra atrás

O Cláudio Reis é um dos meus maiores amigos no mundo dos ex-combatentes. Vive aqui perto de Crestuma - que visita frequentemente - e alinha em quase todos os convívios e patuscadas dessa malta grisalha. Falamos de tudo, com destaque para a nossa vivência da guerra da Guiné, onde ambos estivemos a actuar em larga escala. Eu, porque pertenci a uma Companhia de Intervenção e ele, porque fazia parte dos Pára-quedistas. Chegámos a participar em simultâneo numa OP na zona do Cantanhez.

Posteriormente, enquanto eu me dedicava ao desporto da Canoagem, ele seguia a sua paixão pela prática do Pára-quedismo. Sentados na esplanada do Bar do Clube Náutico de Crestuma, após uma breve olhada sobre algumas fotos de destaque, colocadas no hall de entrada da sede, falávamos desta vez da Canoagem, das Astúrias e do Descenso del Sella, a prova mais popular do Mundo.

https://www.google.pt/search?q=descenso+del+sella&espv=2&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ved=0CB4QsARqFQoTCML84riQl8cCFQyb2wodoWAAzA

Realiza-se desde 1930, entre Arriondas e Ribadesella. O seu fundador foi um tal D. Dionísio de la Huerta, um ricaço catalão que costumava vir passar férias naquela estância balnear. Primeiramente, desceu o rio só com os seus amigos, mas logo provocou o entusiasmo dos aventureiros da canoagem. Devido à guerra civil, o evento foi interrompido de 1936 a 1942. Desde então, teve uma evolução acentuada, assumindo-se como “La Fiesta de las Piráguas”.
Gente de todo o Mundo vem ocupar aquelas duas pequenas cidades, durante vários dias, por forma a participar, dentro ou fora d’água, no primeiro Sábado do mês de Agosto. São mais mil canoas e “kayaks” a cobrir as águas do Rio Sella.

Os portugueses, cuja Federação só viria a ser fundada em 10.3.1979, já participavam desde 1951, através de uma representação da Escola de Remo da Mocidade Portuguesa do Porto.
Desde 1981, ano da sua fundação, que o Clube Náutico de Crestuma participa nesta prova. Acresce dizer que, até o ano de 2015, a competição só uma vez foi ganha por portugueses. Foi no ano de 1995, pelo K2 de dois Crestumenses: José Silva e João Gomes. Recentemente acompanhei estes campeões a mostrarem aos filhos a lápide de bronze com os seus nomes, assente no Hall da Fama, junto à ponte da meta, em Arriondas.


 José Silva e João Gomes, ontem e hoje

Enquanto pôde, quem fez de Juiz Árbitro, durante cerca de 60 anos, foi D. Jacinto Regueira Alonso. Figura de grande prestígio internacional, no mundo da Canoagem, foi o promotor dos primeiros árbitros portugueses, vindo a ser homenageado em 1987 como Sócio Honorário da Federação Portuguesa de Canoagem. Foi também Juiz Árbitro da Maratona Internacional de Crestuma.
D. Jacinto Regueira foi meu amigo, meu professor e meu conselheiro. Era conhecido também como D. Jacinto Incorruptível e D. Jacinto Regulamentos. Foi das pessoas mais fascinantes que conheci. Era um senhor. Educado e formal, mas também divertido.

Todavia, ele não gostava de falar sobre a sua vida privada. Um dia, em minha casa, na véspera de mais uma Maratona de Crestuma, após o jantar, ficámos os dois a conversar muito para além do habitual. Dizia ele:
- Ferreira, não fazes a mais pequena ideia do que é uma guerra civil. Por muito que se queira contar, não há hipóteses de transmitir os horrores que se praticam entre amigos, vizinhos e a própria família. A guerra civil é uma coisa tão absurda e tão estúpida que até me custa falar nela.

Lembrei-lhe que eu estivera na guerra e em combate mas que não havia sentido esse tipo de horrores.

Guernica, painel pintado por Pablo Picasso em 1937

- Quando iniciou a guerra civil de Espanha eu era Inspector Escolar no País Basco. Fui perseguido e preso por ser da Galiza, terra do Juan Franco. Estive para ser executado mais de uma vez.
Um dia, num grupo de prisioneiros, foram chamando um de cada vez, para ser executado. Ouviam-se os disparos e logo vinham buscar outro, para nova execução. Não sei o que se terá passado que fiquei sozinho à espera que me viessem buscar.

Emocionado, continuou:
- O meu irmão que era oficial da Marinha, veio atacar Oviedo onde vivia a nossa mãe com a sua mulher e filho menino. O seu Comandante insistiu na orientação do fogo dos canhões para atingir também esse bairro. Felizmente, a casa não sofreu nada.

Após alguns momentos de silêncio, ele voltou-se para mim:
- E queres saber o que me aconteceu no fim da guerra? Regressei logo para a Galiza, para Ferrol, minha terra natal. Mas, como vinha da zona controlada pelos antifranquistas, fui de novo perseguido e preso por desconfiança e retaliação. Passei tempos difíceis e muito magoado, à espera que me devolvessem o trabalho de ensino escolar.
- Impressionante! - Dizia o Cláudio que se mostrava atento a tanta narrativa.

De seguida abordámos o conhecimento daquela região lindíssima de Galiza, Astúrias e Cantábria. E, aqui, foi a vez do Cláudio falar da sua “guerra” mais recente.
- Tenho uma história incrível, passada lá nas Astúrias, mais concretamente em Gijon.
Como sabes, depois que saí da guerra continuei no pára-quedismo. Aliás, segui de instrutor durante os anos que pratiquei, enquanto solteiro.
Todos os anos se disputava ali o Torneo de Pára-quedismo Principe de Asturias. Foi lá que conheci uma rapariga excepcional. A Sarita (Sara Martinez) era uma “rapaza” morenaça, jeitosa e a mais competente naquela actividade de saltos de pára-quedas. Todos os homens lhe deitavam o olho. No entanto, a presença de um português, “expert” nessa matéria do “bem saltar”, criou uma empatia reciproca, de efeitos quase imediatos. Foram dias de grande convívio e de relações intensas.
Terminado o Torneo, senti que o relacionamento com a Sarita não podia ficar assim. No convívio do encerramento, estreitámos mais a relação e, envolvidos naquele ambiente de festa e de despedida, acabámos por prolongar essa relação no hotel. A Sarita mostrou algum incómodo, sempre que acentuava a sua excitação erótica. Pensei que isso era natural, uma vez que compreendia a sua suposta condição de mulher virgem. Confortava-a, acalmava-a e transmitia-lhe o carinho e a compreensão que ela precisava. Na cama, ela pediu-me que reduzisse a luz e meteu-se debaixo do lençol. Nos preliminares ela evitou que lhe acariciasse a vagina e facilitou que a penetrasse pelo lado de trás. Como não consegui, forcei a mudança de posição e coloquei-me por cima, na posição mais natural e mais propícia ao desfloramento. Quando apontei o pénis à vagina, senti algo maior que um clítoris. Perdi logo a erecção e ela começou a chorar. O “incidente” provocado pela presença daquele clítoris, transformado em pequena “pollahermafrodita”, proporcionou-nos um prolongado diálogo com lamentos mas também com muita compreensão e muita franqueza, seguidos de acentuado reconforto. Calmamente, com amor, carícias e muito carinho, assumimos a situação com normalidade.
E foi assim que após termos vivido todos esses momentos de entrega, o pleno prazer se consumou. Já passava das onze horas da manhã. A satisfação foi evidente e recíproca. Descansámos e dormimos, prolongando os prazeres de um sonho inesquecível.

Passados mais de 15 anos, levei as minhas mulher e filha a passear por aquela zona. Convenci-as a ir ver também o Torneo que estava a decorrer. Deixei a mulher e a filha no bar e aproximei-me do local de concentração e enquanto me embrenhava na azáfama dos participantes, ouvi chamar:
- Cláudio, Cláudio, como estás?
Voltei-me naquela direcção e, surpreso, enfrento a Sarita que se aproximou. Sarita, estás boa? Que andas por aqui a fazer?
- Tenho vindo cá todos os anos e sempre pensei encontrar-te.
Fez uma pausa, olhou-me nos olhos, acusando alguma emoção e continuou:
- Precisava de te ver e de te dar uma palavrita. Estou bem e feliz. Casei, tenho dois filhos maravilhosos e um homem encantador. Todavia, sinto uma enorme gratidão pelo que fizeste por mim. Foste tu que alteraste a minha vida e me abriste a porta para a felicidade. E isso eu nunca poderia esquecer. Deixa-me abraçar-te.

Silva da CART 1689
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Nota do editor

Último poste da série de 1 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14958: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (19): Samuel e os amores desfasados

Guiné 63/74 - P15022: Convívios (703): Ponte de Lima, 29 de agosto, pelas 10h: homenagem aos 52 combatentes limianos que morreram na guerra do ultramar... Há ainda seis cujos restos mortais estão por resgatar (António Mário Leitão)





1. Mensagem do nosso leitor e camarada António Mário Leitão  com data de hoje:

 Camaradas e Amigos:

Junto envio o cartaz sobre a 4ª Homenagem aos Heróis Limianos da Guerra do Ultramar, que vamos promover no dia 29 de Agosto, sábado, em Ponte de Lima.

Em 40 anos esta é de facto, e apenas, a quarta cerimónia comemorativa da memória desses Soldados que deram a vida pela Pátria. Oxalá no futuro ocorram outras homenagens!

Elas são absolutamente merecidas e obrigatórias, como bem sabemos!

Acresce, contudo, que a sua celebração anual poderá contribuir para resgatar os seis corpos de seis militares limianos que ficaram abandonados em África!

Esse é o nosso desejo mais profundo e é uma missão que nesta data declaramos assumir!

Agradecemos a divulgação no vosso sítio, caros amigos!

Com um abraço de

Mário Leitão

[O Mário Leitão, natural de Ponte de Lima, foi furriel mil na Farmácia Militar de Luanda (Laboratório Militar), de 1971 a 1973]

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Guiné 63/74 - P15021: Parabéns a você (948): Manuel Amaro, ex-Fur Mil Enf da CCAÇ 2615 (Guiné, 1968/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15018: Parabéns a você (947): Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 763 (Guiné, 1965/66)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P15020: Manuscrito(s) (Luís Graça) (63): Lourinhã, paisagens jurássicas


Lourinhã, Praia do Caniçal > 4 de agosto de 2015


Lourinhã, Praia do Vale de frades > 4 de agosto de 2015


Lourinhã, Praia da  Areia Branca > 4 de agosto de 2015 > A nossa grã-tabanqueira Alice Carneiro na maré-baixa...Há 150 milhões de anos, no Jurássico Superior, podia-se ir daqui até... Nova Iorque, a pé...


Lourinhã, Praia da  Areia Branca > 4 de agosto de 2015 > Mariscadores-recolectores (1)


Lourinhã, Praia da  Areia Branca > 4 de agosto de 2015 > Mariscadores-recolectores (2)


Lourinhã, Praia do Paimogo > 4 de agosto de 2015 >  Enseada e forte de Paimogo (séc. XVII)


Lourinhã, Praia do Paimogo > 4 de agosto de 2015 >  Forte de Paimogo (séc. XVII)


Lourinhã, Porto das Barcas, > 9 de agosto de 2015 >  Choco frito...


Lourinhã, Porto das Barcas, > 9 de agosto de 2015 >  Olha a bela sapateira...


Lourinhã, Porto das Barcas, > 9 de agosto de 2015 >  Dizem que é o porto lagosteiro mais antigo do mundo.. No concelho da Lourinhã há dois grandes viveiros de marisco (Porto das Barcas e Casal Novo) que fornecem as marisqueiras de Lisboa mas também... de Luanda.



Lourinhã, Porto das Barcas, > 9 de agosto de 2015 > > Tabela do marisco vivo... nos viveiros dos Frutos do Mar (passe a publicidade).,.. No concelho da Lourinhã há dois grandes viveiros de marisco (Porto das Barcas e Casal Novo) que fornecem as marisqueiras de Lisboa mas também... de Luanda.  No caso dos viveiros dos Frutos do Mar, é um negócio que passa por 4 gerações da mesma família.



Texto e fotos: © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados


Paisagens jurássicas

por Luís Graça


Praia de Paimogo:
estas pedras estão aqui
há milhões e milhões de anos,
e eu não sei dizer-te
por que é que estas pedras estão aqui
há milhões e milhões de anos.

Uma enseada, uma cratera, um lago,
a Praia de Paimogo foi talhada
a ferro e fogo,
mas se eu fosse deus,
o deus Vulcano,
todo poderoso senhor,
ou até simples rei mago,
tê-la-ia desenhado,
com muita ternura,
sob a forma de perfeito coração
ou de simples ferradura
só para ti, meu amor.

Estas pedras estão aqui
muito antes dos dinossauros
evoluírem e dominarem o planeta azul,
que afinal não era assim tão azul
quanto o pintavam.

Visto da janela do teu quarto,
em Candoz,
o vale era o mundo e era verde,
na aguarela do Eça de Queiroz,
em A Cidade e as Serras,
muito antes de descobrires o mar,
e o pôr do sol sobre o mar,
muito antes de saberes
onde ficava a praia da minha infância.


Nem vale, nem pombas, nem praia,
na Praia do Vale de Pombas,
procuro uma outra errância,
sinais de antigas e feras guerras,
mas aqui nunca te trouxe.
À maré cheia, à praia-mar,
há apenas um fio de água doce,
correndo entre juncos e canaviais,
que mantém os cordões umbilicais
do infinitamente pequeno da vida
ligados ao infinitamente grande
dos corpos celestiais.


Praia do Caniçal:
aqui gostaria de deixar a minha caixa preta,
antes de trepar
pela tua árvore genealógica, como o salmão,
até ao paleolítico superior,
pelo leito dos rios que sobem, secos,
pelo interior do planeta,
até às grandes fossas marinhas.

Praia de Vale de Frades:
mas que sabemos nós, amor, de cronogeologia
para dizer que estas pedras estão aqui
há tantos milhões de anos ?!
Sabes apenas que, de acordo com a teoria
das probabilidades,
estas pedras vão ficar aqui,
muito depois da tua morte,
muito depois da extinção da nossa espécie.


Praia da Areia Branca:
não te conseguiram amar
sem te possuir e violar.
Livro Sexto, de Sophia.

Praia do Areal:
há uma seta
que indica o sol, o sul,
a zona dos chapéus,
a bandeira azul,
o espaço rigorosamente vigiado
dos amantes,
o risco de cancro da pele,
a rota da seda,
a sede,
o desejo,
os amores de verão,
a morte a mais a norte,
a fuga do caranguejo,
o coração que bate forte.
Saio noutra estação.

Praia da Peralta:
o melhor do mês de agosto, amor,
é enterrar a cabeça na areia
e escutar,
o mar,
a voz rouca do mar
que chegou até aqui,
muito antes de mim e de ti,
e que vai ficar aqui
muito depois de mim e de ti.

Não há farol na Peralta,
para tu poderes avisar a malta,
enquanto o teu país arde
ou o que resta dele.
Aqui passam navios ao largo,
como manadas de elefantes,
tapando o sol, vermelho.
Na malhada grande,
poderíamos ter sido felizes, meu amor,
entre apanhadores de polvos, lapas e ouriços,
mesmo sabendo
que estas pedras estão aqui,
muito antes de ti e de mim,
há milhões e milhões de anos.

Porto das Barcas:
Aqui não há ciência, apenas sapiência,
que é a mais antiga das virtudes,
e o pensamento selvagem
dos molúsculos e dos crustáceos.
Um navio fantasmagórico
entra pela terra adentro,
daqui avistamos as Berlengas,
e a Nau Catrineta, em fim de viagem,
e que já nada tem para nos contar.
Nem encantar.

Praia do Zimbral:
aqui qui caiu uma chuva de estrelas e meteoritos,
hei de levar-te lá um dia
na hora mortal do nevoeiro matinal.
Para ouvires, nos búzios,
os náufragos e os seus gritos.

Porto Dinheiro:
um espesso nevoeiro
cobre as falésias.
Até aqui chegavam as galés dos romanos,
e muito antes os fenícios,
e depois os barcos de vikings e piratas.
Não sei se o sítio tem padroeiro
ou orago,
nem sei se por aqui passava
o teu caminho de Santiago.
Aqui deito contas à vida,
aqui conto as marcas do tempo,
aqui lanço a âncora,
aqui fui carpinteiro de naus,
aqui, Plínio, o Velho,
poderia ter fundado a paleontologia
mas, não: morreu em 69 a. C. a observar
a erupção do Vesúvio.


Praia do Valmitão,
ou do Vale do Ermitão:
podia ter sido ilha de corsário
ou baía de tubarão,
a ter bandeira, só a preta, com caveira.

Praia de Vale de Frades,
ao domingo,
na baixa-mar:
à volta de um prato de sardinhas,
a vida pode não ter
metafísica nenhuma
e mesmo assim ser
pura, emoção pura,
e simples, prazer simples.
Mandei pôr mais um prato
na mesa, sem toalha,
virada para o sul,
para o mar do Serro.
Não me esqueci do pão,
das sardinhas,
das batatas,
dos pimentos,
da salada e do vinho...
E eu esperava por ti,
que eras a oficiante da vida.

Volto à Peralta,
dando o dito por não dito,
o mar do Serro em frente,
para partilhar contigo,
como sempre,
a magia do sol posto
no Atlântico norte,
o amor em agosto
e, com sorte,
um prato de choco frito.


Lourinhã, Prais, agosto de 2004-2015

In: GRAÇA, L. (2015 ) - Amor(es), Guerra(s), Lugar(es): vol 1. Amor(es) (pré-publicação)



Lisboa > Beira Tejo > 5 de novembro de 2011 > Pôr do sol no Atlântico, no momento em que passava um porta-contentores na linha do horizonte... Uma foto feliz, tirada no estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso)...

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados
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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14928: Manuscrito(s) (Luís Graça) (62): "I want you, dead or alive"

Guiné 63/74 - P15019: Os nossos seres, saberes e lazeres (111): Un viaggio nel sud Italia (2): De Roma para Salerno (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Julho de 2015:

Queridos amigos,
Já estou em Salerno e o comboio deixa-me em pouco tempo perto de grandes belezas.
Sempre sonhei ir a Pompeia, e ficou comprovado que é um lugar espantoso. Pesto também me atraía muito, nós estudávamos no 3.º ano de História a expansão dos gregos em colónias que se estendiam até à Itália, a Magna Grécia, ora Pesto oferece-nos o que há de melhor em templos dóricos.
De seguida, vou viajar até Nápoles, outro sonho, tem a ver com romances de aventuras, capa e espada, talvez livros de história, sempre me seduziram aqueles filmes a mostrar ruas antigas, com enormes palácios. Vamos ver o que o destino me reserva, a temperatura não desce dos 40º, é uma contradição entre tanta curiosidade e o desejo de ficar à sombra, a saborear um refresco.
A aventura continua, este calor é menos palustre que o da Guiné...

Um abraço do
Mário


Un viaggio nel sud Italia (2) 

Beja Santos

As primeiras viagens na Campânia: Pesto e Pompeia

Ocorreu-me que a melhor homenagem que podia prestar a Curzio Malaparte era trazer a sua obra-prima, para esta viagem, "Kaputt" é o livro mais horrivelmente cruel e divertido que até hoje se escreveu sobre todas as guerras. O nome deste grande escritor é ainda motivo turístico em Capri a Villa Malaparte, que ele mandou construir, é mostrada pela sua peculiar modernidade. E há descrições de Nápoles em "Kaputt" que raiam o sublime. Estamos no início da obra, Malaparte foi visitar Axel Munthe em Capri, em plena guerra, falam da Alemanha e do seu povo doente. Vejamos o diálogo entre Malaparte e Axel Munthe:
“- Eles têm medo. Têm medo de tudo e de todos. Matam e destroem por medo. Não é que receiem a morte; nenhum alemão teme a morte. Também não têm medo do sofrimento. Têm medo de tudo aquilo que vive para além deles – e também de tudo aquilo que é diferente deles. O mal que sofrem é misterioso. O medo deles acordou sempre em mim uma profunda piedade.
- Então são ferozes? Então é verdade que eles massacram as pessoas sem nenhuma piedade? – interrompeu-me Axel Munthe.
- Sim, é verdade – respondi -,matam pessoas desarmadas, enforcam os judeus nas árvores das praças das vilas e aldeias, queimam-nos vivos nas suas casas como ratos, fuzilam os camponeses e os operários nos pátios dos kolkhozes e das fábricas. Viu-os rir, comer e dormir à sombra de cadáveres que se balançam nos ramos das árvores”.

Tinha saudades de Malaparte, trouxe-o até à Campânia, é uma estadia curta, bem queria percorrer o Golfo de Nápoles, visitar Caserta, Herculano, Avelino, passar um dia a olhar o Vesúvio. Há que disciplinar o tempo, o pior é o corpo espapaçado pela temperatura a roçar os 40º. Apanha-se um comboio ronceiro em Salerno, tem-se como companhia uma venezuelana que é guia turística e que refere a delicada situação económica da Itália, com um desemprego juvenil maciço e a chegada permanente dos norte-africanos, 40 minutos depois chega-se a Pesto ou Paestum, uma das jóias mais preciosas da arqueologia.


A lenda atribui a fundação de Pesto aos Argonautas, mas na realidade foram os habitantes de Síbaris que a fundaram no século VII antes de Cristo com o nome de Poseidonia, converteu-se num dos centros mais florescentes do Mediterrânio. Não dá para ver, mas Pesto conserva as melhores muralhas do mundo antigo, nenhuma ruína arqueológica lhe rivaliza, são quase cinco quilómetros. É a maior cidade da Grécia Antiga na costa do mar Tirreno. Faz parte da Magna Grécia.




A particularidade deste parque arqueológico são três templos dóricos do século V antes de Cristo, estão entre os melhores conservados da Antiguidade: o Templo de Neptuno, a Basílica e o Templo de Ceres. Os dois primeiros estavam destinados ao culto da deusa Hera. Atrelei-me a um grupo que tem um guia francês, é minucioso a descrever as riquezas destes templos dóricos, as conquistas posteriores até chegarem os romanos que enriqueceram a cidade de grandes edifícios, há belos vestígios do Fórum, das termas, do anfiteatro e do Templo da Paz. Depois veio o declínio, a vegetação tomou conta de tudo, estes templos dóricos ficaram a olhar para o mar. O fenómeno do Grand Tour, as viagens culturais de escritores, poetas, artistas e aristocratas das mais diversas nacionalidades, fenómeno que começou na primeira metade do século XVIII, levou à redescoberta deste prodigioso lugar. Olha-se e não é preciso pensar duas vezes que a arquitetura neoclássica europeia e norte-americana foi influenciada por este estilo dórico.


As obras mais espetaculares, em termos arqueológicos, de Pesto, Herculano e Pompeia, devem ser vistas em museus arqueológicos em Nápoles e mesmo Roma. Mas há um museu em Pesto, com uma rica exposição de documentos arqueológicos que vão da Pré-História à Idade Média. Esta peça é célebre no mundo inteiro, o desenho é encantador e, pasme-se, faz parte da arte funerária.


Regresso a Salerno, o meu habitáculo é na Via dei Mercanti, em pleno bairro medieval. Enquanto caminho ofegante pelo calor que não dá tréguas, depara-se-me esta cena, uma pizzaria suportada por uma coluna, sabe-se lá de que edifício romano veio. Encontra-se esta reciclagem por toda a Itália, preparem-se para mais surpresas. Salerno tem muito que ver: o castelo de Arechi, lá no alto, faz jus ao seu período de esplendor, creio que ainda não referi que por este ponto da Campânia andaram lombardos, normandos e depois os espanhóis. Não há nenhum médico que não saiba que a instituição médica mais antiga do Ocidente foi a Escola Médica Salernitana, um farol da ciência até ao século XVI. O passeio marítimo, com o nome de Trieste, é muito aprazível com as suas palmeiras e a sua vista espetacular do Golfo de Salerno.


E há um detalhe que não resisto a contar, os Apeninos, nunca vi uma cordilheira tão constante em toda esta Itália, é a barreira natural para onde se espraiam belezas naturais, vestígios arqueológicos, terras fecundas. Não sei se foi Goethe, Shelley ou Piranese que chamou a esta paisagem “Campania felix”, talvez induzido pela história milenária, os magníficos cenários naturais, e os Apeninos a resguardar Pompeia e Herculano e a Costa Amalfitana… Amanhã cedo, convicto que a temperatura vai baixar, tomo novo comboio até Pompeia, a cidade romana soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 depois de Cristo, camadas de cinza com 6/7 metros de espessura mataram-lhe a vida.


Pompeia é seguramente o lugar arqueológico mais famoso do mundo. Percorrem-se termas, templos e altares evocativos, o Fórum, os mercados, os edifícios da administração, um sem-número de casas particulares, e sentimos que houve ali uma tragédia, e aquela gente morreu asfixiada, aliás veremos no museu os corpos agonizantes. Pompeia reserva-nos uma viagem única no tempo, aquela catástrofe permitiu congelar em boas condições a vida na Antiguidade, a vida pública e privada, temos ali objetos intactos, é tudo impressionante, ainda por cima cercados por uma gloriosa paisagem natural.







Desengane-se o leitor, não o vou atormentar com a planta arqueológica de Pompeia, não haverá descrição do Fórum, do Templo de Apolo ou de Vespasiano, as termas, as ruas, e até o picante lupanar, um edifício de dois andares com pinturas que retratavam os serviços oferecidos aos clientes, por ali cirandei a ouvir os risinhos de meninas asiáticas e nórdicas; e há as casas das grandes famílias, com mosaicos, frescos, pinturas em cores vivas sobre um fundo vermelho, os templos, os ginásios, os anfiteatros e teatros. Selecionei alguns detalhes, considero-os chamarizes, esta cidade é tão completa sobre o que era a civilização romana, com os seus deuses, os seus hábitos alimentares, os seus hortos, triclínios, estabelecimentos, arcos forrados de mármore e quem se preparar previamente mais usufruirá, não creio que fora de Pompeia seja possível encontrar tantas provas da existência da vida, tantas manifestações do génio romano na arquitetura e nos engenhos da vida doméstica.

Regresso amochado pelo calor, nunca bebi tanta água na minha existência, agora vou preparar o dia seguinte, Nápoles, tenho muita pena que seja só uma manhã e uma tarde, paciência, há mais marés que marinheiros, se tiver sorte e um dia ameno, pelo menos as ruas de Nápoles terão de conversar comigo.

(Continua)
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Nota do editor

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