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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
É agora a ocasião se sabermos algo mais sobre o proprietário do estabelecimento fotográfico Foto Câmera, Álvaro de Barros Geraldo, um bom conhecedor da Guiné, trabalhou com a imprensa e a RTP, é autor de um filme até agora não localizado e foi um fotógrafo que trabalhou assiduamente com o Governador Spínola, terá fixado residência em Bissau em meados da década de 1950, foi responsável por uma primeira exposição fotográfica de Usos e Costumes da Guiné as suas muitas milhares de imagens repartem-se pela atividade social, a chegada e partida de unidades militares, acompanhar o comandante-chefe em operações, imagens que depois iam ser transmitidas para a metrópole, um sem número de tranches fotográficas que nos revelam até a excisão feminina, vêem-se slides de brancos em festa, a alegria da inauguração do cinema de Bolama, Spínola a falar com um guerrilheiro, o jovem capitão Salgueiro Maia, porventura no Cumeré, à sua chegada em 1971. Um belíssimo livro/catálogo que merecia um maior destaque editorial.

Abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

No texto anterior, vários autores pronunciaram-se sobre a problemática arquivística, o legado deste importantíssimo espólio de Álvaro de Barros Geraldo, o historiador Pedro Aires Oliveira contextualizou a governação de Spínola que o fotógrafo acompanhou com a maior das regularidades, vamos agora ver alguns dados biográficos deste fotógrafo até agora pouco analisado. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993) viveu e trabalhou na Guiné-Bissau entre, pelo menos, 1955 e 1974. Poucos elementos biográficos transparecem do espólio. O seu nome não consta no Arquivo Histórico Militar. Terá fixado residência em Bissau, onde realizou, entre 1955 e 1956, a primeira Exposição Fotográfica de Paisagens, Tipos, Usos e Costumes da Guiné Portuguesa, no Museu da Guiné, e era o proprietário da loja e laboratório Foto Câmera, pelo menos desde 1964. Realizou o filme Guiné, Princesa Africana, uma obra cujo paradeiro permanece até hoje desconhecido.

Foi chefe do departamento de fotografia e cinema do Centro de Informação e Turismo da Guiné, correspondente da RTP e chefe do Gabinete Fotográfico do Jornal Voz da Guiné, fundada em janeiro de 1972. Terá também colaborado com a Agência Geral do Ultramar. Ele tornou-se o fotógrafo de confiança do General Spínola. Barros Geraldo regressou a Portugal um pouco antes do 25 de abril. Em Portugal exerceu atividade como fotojornalista no Jornal do Comércio e, mais tarde, no Jornal de Notícias. As curadoras da exposição procuraram obter informações junto de pessoas que com ele trabalharam. José Manuel Barroso, assessor de imprensa do General Spínola, e João Egreja, fotocine ao serviço do exército português convergem na descrição de um homem de trato difícil.

Após a morte do fotógrafo, o seu acervo foi adquirido pela Fundação Gulbenkian, que o doou, em 2000, ao Arquivo Histórico Ultramarino.

Caracterizando a essência deste espólio, diz-se previamente que a exposição não pretendeu ser o resultado de uma investigação exaustiva, é uma seleção de imagens dos tais 82.300 negativos, centenas de provas de contacto, diapositivos, bobines de película etc. etc. A exposição também mostra jornais onde o fotógrafo colaborou. O foco incidiu sobre a Guerra Colonial, mostrou imagens do programa psicossocial Por uma Guiné Melhor, onde se tentou o empoderamento de chefes locais; não faltam imagens de prisioneiros políticos, de armamento apreendido ao PAIGC, fotografias de chefes islâmicos regressados de Meca, acampamentos da Mocidade Portuguesa, abertura de um novo edifício da PIDE/DGS, a presença de Rafael Barbosa, então presidente do Comité Central do PAIGC, a apoiar o programa político Por uma Guiné Melhor.

As curadoras observam:
“Ainda que de forma involuntária, as imagens denunciam a escassez de realizações concretas e expõem a incapacidade estrutural do Governo português em consolidar o seu domínio. Através deste espólio, percebemos como, em plena Guerra Colonial, foi precisamente o conflito que obrigou o regime a tentar efetivar a sua ação colonizadora. Por sua vez, a incapacidade do regime em responder eficazmente à prolongada guerra acabou por catalisar a formação do MFA.”


Referem as mesmas curadoras que a colonização da Guiné só se tornou uma realidade efetiva com o início da Guerra Colonial, apreciação que não aceitamos, pois em período anterior, correspondente ao mandato do Comandante Sarmento Rodrigues foi encetado um esforço administrativo integral, digamos que o General Spínola, em termos de desenvolvimento socioeconómico e cultural deu impulso, com invulgares meios recebidos, ao ímpeto desenvolvimentista impulsionado por Sarmento Rodrigues.

Não se partilha igualmente a opinião das curadoras quanto às imagens dos corpos das mulheres, sugerindo que aparecem em poses manifestamente de dominação, revelando uma posição de autoridade colonial, bem como outros testemunhos que não uma apropriação do olhar etnográfico que não passa de mero protesto de documentação científica.

Se tomarmos em consideração o importante volume de João Loureiro sobre os bilhetes postais da Guiné Portuguesa, constata-se que há um longo histórico, a partir do século XIX de mostrar mulheres seminuas, como, aliás, homens de todas as idades e crianças de todas as idades. Admitamos, em retrospetiva, que esta enormidade de imagens exige reflexão. Aquando da Exposição Colonial do Porto, em 1934, as senhoras protestaram com as mulheres africanas de peito ao léu, acontecimento que deu origem a muitas excursões no Norte para ver um acontecimento nunca visto. Henrique Galvão, o comissário da exposição, foi perentório face ao protesto ético das ditas senhoras e até membros da clerezia: é assim que estes povos vivem, não se pretende esconder a realidade.

A exposição inclui também o período revolucionário, as curadoras recordam a força de elite que era o Batalhão de Comandos Africanos:
“Estes combatentes negros permaneceram à margem das narrativas dominantes sobre o fim da guerra. Foram não só secundarizados neste espólio, como também foram excluídos tanto das celebrações das independências da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, quanto do novo regime democrático que então se instaurava em Portugal. A última fotografia do espólio do fotógrafo tem a ver com um incêndio em barracas de cabo-verdianos em Algés de Cima, 1975, o que nos remete para as condições de habitação degradantes destes migrantes que desde o início da década eram uma das forças motrizes da construção civil e dos novos equipamentos urbanos."

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
Inauguração do cinema, Bolama, 4 de março de 1971
Slide, sem título, sem data, lê-se no cartaz de pano Nhacra Felicita Homem Grande
Horácio Caio, considerado o primeiro repórter de guerra da televisão portuguesa, chega a Bissau em 15 de janeiro de 1974. Diz no texto que o acompanha em segundo plano Baltazar Rebelo de Sousa, então Ministro do Ultramar, o que não é verdade. Mas, efetivamente, nesse dia chegou a Bissau o Ministro em visita oficial.
Acampamento da Mocidade Portuguesa, Quinhamel, 1 de abril de 1969, à esquerda pode-se ver o Secretário-Geral do Governo, Tenente-Coronel Pedro Cardoso.
Chegada de tropas e despedida de fuzileiros, 11 de julho de 1971. O capitão Salgueiro Maia em destaque.
Operação Sul, 21 de abril de 1972
Governador em entrevista com um elemento do PAIGC, 14 de junho de 1970
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Notas do editor:

Vd. post de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28082: Casos: a verdades sobre... (75): O meu tio paterno Agnelo António Monteiro de Macedo (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1972), chefe de posto de Catió, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e depois transferido compulsivamente para Moçambique (José Macedo, EUA)





Guiné > Região do Cacheu > Cacheu > DFE 21 (1973/74) > O então 2º ten fuzileiro especial posando, à civil,  na sua mota. Em 1971 tinha frequentado o 1º ano da Escola Naval e preparava-se para ingressar nos fuzileiros. Nesse verão, conheci-o e convi com ele na Lourinhã. Arranjou um trabalho sazonal no parque municipal de campismo  da Praia da Areia Branca.

Foto e legenda): © Zeca Macedo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



1. O nosso amigo e camarada de guerra, da Guiné, a viver nos EUA, desde 1977 (onde é advogado),  José Macedo, fez-nos um pedido sobre um tio paterno, que integrou  a carreira na administração ultramarina e passou pela Guiné nos anos 60.

Sabemos alguma coisa sobre esse tio, mas não o suficiente para poder ajudar o sobrinho. Recorremos  tambéma a algumas ferramentas de IA (Hemini/ Google, ChatGPT / Open AI)-


2. Mensagem do José Macedo (EUA); 

Data - sexta, 5/06/2026, 17:55

Assunto - Agnelo Macedo, chefe de posto na Guiné e depois em Moçambique

 Camarada Luís: o meu tio Agnelo Macedo, irmão do meu pai, era Chefe de Posto em Catió, na Guiné. Foi preso pela PIDE, enviado para a Ilha das Galinhas em 1962 ou 1963 por alegadamente ter tido reuniões com dirigentes do PAIGC. 

Gostaria de saber se alguém da(s) unidade(s) estacionada(s) em Catió durante esse período se lembra desse episódio da prisão do chefe de posto . 

Mantenhas, Zeca. 

PS1 - Quando saiu da Ilha das Galinhas foi enviado para Moçambique onde foi chefe de posto em Nacala, concelho de Nampula. Teve problema nos rins, possivelmente pela “porrada” que levou na “prisão” veio a falecer em Lisboa em 1972. Obrigado pela tua assistência.

PS2 - (...) Em 62 João Bacar Jaló foi nomeado Chefe dos Caçadores Nativos no Sector Catió/Cacine. E Foi em Catió que o meu tio conheceu os pais do Zikky (Sayeg) de quem era padrinho. Mantenhas e obrigado.



Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972):: quando joveme na idade adulta

Fonte: Genealogia...https://www.barrosbrito.com/8286.html (com a devida vénia)


3. Resposta do editor LG:

 O teu tio, que tem o mesmo nome do teu mano, Agnelo Macedo (n. 1952, capitão-de-mar-e-guerra, na situação de reforma) é este teu patrício, nascido em 1925. Descobri em:  https://www.barrosbrito.com/8286.html . 

Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972): 

  • data e local de nascimento: 4 mar 1925, N. Senhora da Conceição, São Filipe, Fogo, Cabo Verde;
  • data e local do óbito: 23 mai 1972, Lisboa, com 47 anos de idade;
  • era filho de Joaquim Botelho da Costa Monteiro de Macedo (1894-1943) e de Palmira Monteiro (1903-1983);
  • o pai era engenheiro electrótecnico, nascido a 16/12/1895, em S. Filipe, casado (1º casamento) com Palmira Monteiro, natural do Fogo; formado pela Universidade de Toulouse, França; foi nomeado em 17 jan 1922 administrador do concelho da Ilha de S. Vicente mas foi exonerado a seu pedido, dois meses depois  (tendo sido nomeado para substituí-lo o seu primo Simão José Barbosa); foi nomeado presidente da câmara municipal do Fogo em 3 jul 1928;
  • o Agnelo Monteiro era, em 1944, estudante, solteiro, residente na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde;
  • em 26 fev 1946 entrou para os Correios e Telégrafos de Cabo Verde; 
  • desportista, foi um dos sócios-fundadores do Boavista Futebol Clube,  da cidade da Praia (3 de março de 1948);
  • em data que não podemos precisar, seguiu como funcionário administrativo para a Guiné (então portuguesa); dali foi transferido para o nordeste de Moçambique (Nacala, distrito de Nampula).

3. Contexto 

Com base nos dados fornecidos e no cruzamento com o contexto histórico-administrativo e militar da época (transição de 1961 para 1963), aqui estão os caminhos e os factos que ajudam a reconstituir e a validar o pedido do Zeca Macedo. São os anos da contestação nacionalista na Guiné, e também os  "anos de chumbo", de forte repressão das autoridades locais (PIDE, polícia administrativa, exército).

(i) Catió e a prisão (1961/63):

O relato do Zeca Macedo é historicamente muito verosímil e enquadra-se no xadrez político da Guiné naqueles anos cruciais.
 
A região de Catió (no sul da Guiné, junto à fronteira com a Guiné-Conacri) foi a zona escolhida pelo PAIGC para a infiltração inicial e mobilização política, culminando no início oficial da luta armada na "Frente Sul" em 23 de janeiro de 1963 (com o ataque ao quartel de Tite, na região de Quínara). 

A partir de 1961/62, a rede clandestina do PAIGC operava intensamente nos regulados de Quínara e de Tombali e à volta dos postos administrativos daquela zona.

(i) O papel do Chefe de Posto: 

Se o Agnelo esteve de facto em Catió, pode-se levantar a questão de se saber se era Chefe de Posto ou Administrador... Catió, em 1971, já era Concelho...

Como Chefe de Posto Administrativo em Catió (ou no concelho de Catió), Agnelo Macedo controlava o território, a cobrança do imposto de palhota e o contacto direto com as populações locais (maoritariamente nalus e fulas na região, mas também balantas, grandes orizicultores). 

O Chefe de Posto Administrativo era responsável pela menor unidade administrativa (o Posto), em contacto direto com as populações locais, as autoridades tradicionais (régulos) e os assuntos quotidianos. O Administrador de Circunscrição (ou de Concelho), de 3.ª, 2.ª e 1.ª classe, era o magistrado administrativo que governava uma área geográfica mais vasta (a Circunscrição ou Concelho), coordenando vários postos e detendo amplos poderes civis, policiais e de fomento de instrução.

O facto de o Agnelo ser natural de Cabo Verde (São Filipe, Fogo) colocava-o frequentemente sob a mira de especial desconfiança por parte da PIDE, que receava a simpatia ou a colaboração das elites intelectuais e administrativas cabo-verdianas com o movimento liderado por Amílcar Cabral. Em muitos casos, havia laços familiares entre os cabo-verdianos, emigrados na Guiné e os militantes do PAIGC (que rapidamente se transformou em partido armado).

(ii) A Colónia Penal da Ilha das Galinhas: 

Situada no arquipélago dos Bijagós, funcionava precisamente como o destino principal para os presos políticos na Guiné (tanto guineenses como cabo-verdianos),  acusados de subversão ou cumplicidade com o PAIGC, antes e durante os primeiros anos da guerra (e até ao fim da guerra). 

A detenção por "alegadas reuniões com dirigentes do PAIGC" era o modus operandi clássico da delegação da PIDE em Bissau para neutralizar funcionários suspeitos de passar informações ou facilitar a logística nacionalista.

Mas tudo indica que o "suspeito" esteve detido (quanto tempo ?) na Ilha das Galinhas sem culpa formada e sem nunca ter sido julgado. Não se tendo provado que era "militante" ou "simpatizante" do PAIGC, terá sido deixado em paz mas transferido para longe, compulsivamente, para Moçambique. Caso contrário, poderia ter ido parar, no mínino, ao Tarrafal.

(iii) As unidades militares em Catió 

Para responder à dúvida do Zeca sobre quem se poderá lembrar desse episódio, seria fundamental identificar as subunidades militares que estavam estacionadas ou operavam em Catió no biénio de 1962/1963. Tarefa que é muito difícil ou praticamente impossível: em meados de 1962, haveria apenas uma secção a guarnecer Catió, segundo as nossas contas. 

Em todo o Sul (que abrangia as regiões de Qínara e Tombali), havia apenas, já em 1963,  um batalhão, o BCAÇ 237 (sem unidades orgânicas) (jul 61/out 63), com o comando sediado em Tite, e tendo sob o seu dispositivo e manobra  a CCAÇ 152 (em Buba) e CCAÇ 153 (em Aldeia Formosa) (mai 61/jul 63). 

Esta  última, comandada pelo cap inf José dos Santos Carreto Curto, manteve  "forças destacadas em Cufar, Catió e Bolama, por períodos variáveis" (forças essas que podiam ser de 1 secção, 1 secção reforçada, menos de 1 pelotão, 1 pelotão ou 1 pelotão reforçado, nunca uma companhia). E havia em Bedanda a 4ª CCAÇ Indígena (a partir de abril de 1967, CCAÇ 6).


Dispositivo das NT em 8 de agosto de 1962, assinalando-se com uma seta a vermelho Catió (que devia ter uma secção)

Fonte:  Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014),  pág. 61.
 

Em 7/2/1963, a CCAÇ 153 foi rendida pela CCaç 274 (jan 62/ jan 64) e colocada em Bissau.  Esta fez operações no sector de Catió.

Sabemos por informações recolhidas pelo PAIGC, que Catió  tinha uma delegação da PIDE e ainda  "poucos soldados", por esta altura (c. 1962/63).

É hoje praticamente impossível encontrar  algum militar, ainda vivo, que tenha passado em 1962/63 por Catió e que se lembre de "ter ouvido falar desta história"... o desaparecimento ou a detenção abrupta do Chefe de Posto Agnelo Macedo pela PIDE. 

(iv) A Transferência para Moçambique e o fim prematuro de vida

A transferência de funcionários públicos "sob suspeita" ou após cumprirem períodos de detenção e inquirição  administrativa era uma prática comum do Ministério do Ultramar para afastar, dos palcos de conflito,  
os elementos ativos sem necessariamente os demitir de imediato (o que criaria mais contestação local).

O Agnelo Macedo morreu em maio de 1972, então o alegado episódio da prisão pela PIDE em Catió, em 1962 ou 1963, ocorreu cerca de dez anos antes da sua morte. Isso significa que ainda teria tido uma década de vida após esse acontecimento.

Ora, em muitos casos semelhantes da administração colonial, funcionários suspeitos de "simpatias nacionalistas" eram:

  • presos preventivamente pela PIDE;
  • sujeitos a inquérito;
  • transferidos compulsivamente para outro território ultramarino;
  • afastados de determinadas funções;
  • ou então demitidos da função pública.

A PIDE, apesar de tudo, não terá conseguido "provar" que o Agnelo Macedo era "turra"... O envio para Moçambique (um território imenso e, até 1964, ainda sem frente de guerra ativa) servia como uma espécie de "exílio administrativo". Agnelo Macedo terá continuado a sua carreira   na Administração Civil de Moçambique, como chefe de posto em Nacala,  no nordeste de Moçambique, durante a década de 1960.

O facto de ser cabo-verdiano é relevante. Nos anos que antecederam a guerra, vários funcionários cabo-verdianos da administração colonial mantinham relações pessoais e familiares com quadros nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde. Isso não significa que fossem militantes do PAIGC, mas explica por que motivo alguns ficaram sob vigilância da PIDE.

Aliás, Catió era uma zona particularmente sensível. Mais tarde tornar-se-ia um dos principais teatros de operações do sul da Guiné. A partir do início da década de 1960, a polícia política observava atentamente funcionários administrativos, comerciantes e professores suspeitos de contactos com o movimento nacionalista.

O seu  óbito, registado em Lisboa a 23 de maio de 1972, com apenas 47 anos, sugere uma evacuação médica de Moçambique para a metrópole,  possivelmente devido a doença prolongada, uma realidade que afetava muitos dos funcionários que serviam em postos de isolamento e clima insalubre no Ultramar (com a agravante, neste caso, de ter sido preso e muito provavelmente torturado pela PIDE e internado na Colónia Penal da Ilha das Galinhas).

(v) Pistas para investigação adicional

Para robustecer  esta pesquisa e trazer respostas mais concretas ao Zeca Macedo, os caminhos documentais mais eficazes em Portugal são:

  • Arquivo Histórico Ultramarino (AHU): onde repousa o processo individual de Agnelo António Monteiro de Macedo enquanto funcionário do Quadro Administrativo Comum do Ultramar (Guiné e Moçambique); ali constam as nomeações, louvores, licenças e as notas de transferência;  seria importante saber, aqui, quem foram os administradores e chefes de posto de Catió entre 1958 e 1964, por exemplo;
  • Arquivo da PIDE/DGS (no Arquivo Nacional da Torre do Tombo): a consulta pelo nome completo no índice da PIDE/DGS poderá revelar a existência da ficha de cadastro político, o auto de detenção em Bissau e a ordem de internamento na Ilha das Galinhas entre 1962 e 1963;
  • Através do Digitarq 2026 (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), descobri que o processo deste antigo funcionário público ultramarino está na Torre do Tombo (ANTT): código de referência: PT/TT/DGAP-DIA/001/014275; pasta em papel, não está tratado arquivisticamente; produção: 1963 (?) - 1974 (?).
  • Condições de acesso: Não é comunicável. O acesso da documentação é regido pelo disposto no Decreto-Lei n.º 16/93, de 21 de Janeiro, tendo sido considerado que em matéria de comunicabilidade nos termos do ponto n.º 2 do artigo 17.º "não são comunicáveis os documentos que contenham dados pessoais de caráter judicial, policial ou clínico, bem como os que contenham dados pessoais que não sejam públicos, ou de qualquer índole que possa afetar a segurança das pessoas, a sua honra ou a intimidade da sua vida privada e familiar e a sua própria imagem, salvo se os dados pessoais puderem ser expurgados do documento que os contém, sem perigo de fácil identificação, se houver consentimento unânime dos titulares dos interesses legítimos a salvaguardar ou desde que decorridos 50 anos sobre a data da morte da pessoa a que respeitam os documentos ou, não sendo esta data conhecida, decorridos 75 anos sobre a data dos documentos"; e nos termos do ponto n.º 3 do artigo 17.º estabelece que "os dados sensíveis respeitante a pessoas colectivas, como tal definidos por lei, gozam de proteção prevista no número anterior, sendo comunicáveis decorridos 50 anos sobre a data da extinção da pessoa coletiva, caso a lei não determine prazo mais curto".
  • Veremos, em poste a seguir, que tendo o Agnelo morrido em 1972, portanto há mais de 50 anos, os familiares podem pedir o acesso ao processo.
No portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, não aencontrámos, numa pesquisa rápida,  nenhuma referência ao nome do Agnelo Macedo.

(Pesquisa: LG + Página de Barros Brito + Digitarq «  IA (Gemini IA / Google)
(Condensação, revisão/fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Como o meu interesse filatélico é praticamente nulo, os aficionados que tiverem a paciência de ler esta narrativa me perdoem se nela houver alguma besteira. Encontrei este livro no alfarrabista, era irresistível a sua aquisição, creio que nunca falámos da filatelia guineense, nomeadamente deste período de transição da dependência da Cabo Verde até ao estado de Província autónoma. Os primeiros governadores, impossibilitados de terem selos próprios emitidos pela Casa da Moeda ou pela Imprensa de Bolama, recorreram aos selos Coroa de Cabo Verde sobrecarregando-os do termo Guiné em minúsculas e em maiúsculas, Guiné pequena e Guiné grande. O General Oliveira Pinto, autor da obra, faz um resumo histórico entre 1879 e 1897, estudou a fundo toda a documentação atinente que encontrou no Arquivo Histórico Ultramarino, dá-nos conta das discussões havidas entre filatelistas e tira as suas conclusões. Estou ciente que trouxe a público um assunto que interessa a poucos, mas a Guiné aqui é estudada sem pensar em maiorias ou minorias.

Um abraço do
Mário



Um manjar para filatelistas acérrimos:
Os Selos Coroa da Guiné


Mário Beja Santos

Este livro intitulado "Os Selos Coroa da Guiné", muito provavelmente só terá interesse para os filatelistas, sobretudo aqueles que colecionam selos das antigas colónias portuguesas, mas creio que as informações que se dão sobre a história destes selos poderão interessar a muitos mais. 

Diz-se no prefácio da obra que se vai procurar provar que as raras “Guinés” pequenas terem sido as primeiras a aparecer sobre os selos Coroa de Cabo Verde, que tradicionalmente circulavam na Guiné sem sobrecarga, isto em primeiro lugar. Mas o autor, o General Oliveira Pinto, deixa uma síntese histórica do território e revela aspetos interessantes da História Postal; o livro inclui a documentação que o autor pesquisou no Arquivo Histórico Ultramarino sobre o assunto.

Logo nas generalidades, o General Oliveira Pinto recorda que até junho de 1941 todos os catálogos, nacionais e estrangeiros, sem exceção, mencionavam os selos da emissão Coroa com a sobrecarga Guiné pequena como os primeiros selos a circular na Guiné depois da sua autonomia em relação a Cabo Verde, e só depois os de sobrecarga Guiné da Casa da Moeda, sobrecarga vulgarmente conhecida como Guiné grande. 

Como sou ignorante no tema, fui bater à porta de uma loja filatélica para saber o significado do que são selos Coroa, Guiné grande e Guiné pequena e sobrecarga. Os selos Coroa é um termo para todo o selo que incorpora no espaço central a Coroa régia, Guiné pequena, como se pode ver na capa da obra, inclui a impressão de Guiné em letras pequenas e Guiné grande em letras maiores, sobrecarga é o significado da impressão sobre um selo já existente, tanto em Guiné pequena como em Guiné grande.

Ficamos a saber que o 2.º Governador da Guiné, Pedro Inácio de Gouveia foi quem, em meados de 1882, por faltar em Bolama selos de várias taxas, das de sobrecarga Guiné, em grandes caracteres, mandara sobrecarregar com a mesma palavra, em caracteres mais pequenos e na Imprensa do Governo da Província uma certa quantidade de selos de Cabo Verde, que existiam em cofre, ainda do tempo em que a Guiné não era Província autónoma.

A discussão entre filatelistas sobre o aparecimento dos primeiros selos com a sobrecarga Guiné tem em consideração depoimentos da época. Vivia nessa altura na Guiné um inglês de nome John Marsden, que era da opinião que os Guiné pequena tinham sido os primeiros, portanto os Guiné pequena apareceram em 1879 e os Guiné grande circularam entre 1881 e 1884. Sabe-se igualmente que foram dadas ordens à Casa da Moeda para providenciar selos com a legenda Guiné Portugueza.

Passando adiante ao resumo histórico sobre a Província da Guiné, o autor dá-nos a relação das casas comerciais aí existentes em 1881, as empresas francesas com destaque, temos depois um acervo de imagens de documentação que o autor analisou no Arquivo Histórico Ultramarino, aparece depois a Imprensa na Guiné, a sua principal responsabilidade era tipográfica, a publicação regular do Boletim Oficial da Província da Guiné. 

Temos depois o elenco das remessas de selos, a partir de 1879 onde podemos ver claramente a sobrecarga de Guine pequena. A partir de 1884 os selos vão ter a efigie de D. Luís I, mas durante um bom lapso de tempo a Casa da Moeda foi satisfazendo as requisições da Guiné com os selos tipo Coroa, terá sido uma situação que se arrastou até 1886 ou mesmo 1887.

O autor discreteia sobre os correios na Guiné, como os selos e postais existiram em Bissau, Cacheu, Bula, Geba e Farim. Havia diretor dos correios nomeado em 1879, tinha a designação de Superintendente dos Negócios Postais da Guiné; tecem-se breve considerações sobre os serviços dos correios, fica-se a saber que o correio estava instalando no mesmo edifício da alfândega e assim o autor chega às conclusões: 

“Os selos Coroa, que começaram a sua circulação na Guiné em 1879, deviam ter terminado em 1886, quando começaram a circular os selos com a efigie do monarca.” 

Tinham sido proibidos todos os selos Coroa para Lisboa. Acontece que as contas da Alfândega de Cacheu, na listagem dos selos existentes em 1891, eram referidas estampilhas antigas de 40 e 100 reis, o que é o mesmo que o tipo Coroa.

O autor dá-nos algumas notas sobre John Marsden (1857-1939) como filatelista. Ele viveu em Bissau na época em que ainda circulavam os selos Coroa. Era um filatelista de fama mundial, quando vendeu a sua coleção de selos de Portugal e colónias ela foi considerada a maior do mundo naquela época. Podemos ver na imagem um seu retrato publicado no Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho de 1885. Esteve na Guiné um pouco mais de um ano, teria então 28 anos. Elaborou catálogos e colaborou com revistas de renome. Os seus artigos publicados em jornais e revistas da especialidade eram tidos como fundamentais. No jornal Le Timbre Poste deu conta dos selos existentes na Guiné:

“Quando cheguei a Bissau e depois a Bolama, eu procurei saber nos Correios e em toda a parte e verifiquei para minha surpresa que ninguém tinha visto ou ouvido falar destas sobrecargas pequenas. Até o Governador da Província, cuja esposa era colecionadora de selos, não tinha ouvido falar neles.

Considerei aquela compra um mau negócio e cheguei à conclusão de que eram falsos, até que numa manhã cedo, meses depois, quando saí com a minha arma, passeando ao longo da praia em Bissau, eu vi um pequeno envelope enrolado nas ondas, e para minha satisfação vi que ele tinha no verso um selo de 20 reis e outro de 5 reis, ambos com a sobrecarga pequena e o envelope era dirigido ao padre de Bissau. Eu conhecia-o muito bem e tinha-o ajudado a tratar-se durante um par de dias quando ele estava a sofrer um forte ataque de febre.

Quando lhe mostrei o envelope e lhe disse o que queria, respondeu: ‘a carta era do meu amigo Cleto da Costa, o Chefe dos Correios de Cacheu’. Não perdi tempo a enviar a Cacheu mensageiro, três dias de jornada, pedindo-lhe para me enviar um selo de cada taxa que ele tivesse no correio. Quando em abril de 1881, o Governo recebeu o primeiro fornecimento de selos com a sobrecarga grande, todos os outros existentes em Bissau e Bolama sem sobrecarga, foram sobrecarregados em pequenos caracteres na Imprensa do Governo e enviá-los para Cacheu onde ficaram esquecidos até eu os descobrir.”


Outro filatelista contesta as afirmações de Marsden, não me sinto habilitado a saber qual o rigor dos argumentos de uns e outros, mas o autor nas conclusões volta a falar de Marsden dizendo que este chegou à Guiné em 1884, portanto cinco anos depois de terem feito as sobrecargas que estavam em circulação. 

No fundo, as autoridades da Guiné pretendiam tornar os selos diferentes dos de Cabo Verde, para poderem fiscalizar as receitas, logo sobrecarregando-os. Diz o autor que desconhece com que fundamentos Marsden, que começou por considerar a emissão dos Guiné pequena em 1881 veio depois a alterar, e bem, essa data para 1889.

O autor procede a um resumo dos pontos de vista de alguns filatelistas que já escreveram sobre a ordem cronológica das emissões, caso de Faustino António Martins, Carlos Trincão, Carlos George, Pires de Figueiredo, Vitorino Godinho. E assim se chega às conclusões finais quanto à cronologia das emissões dos selos da Guiné com as sobre cargas Guiné pequena e Guiné grande. Conclui o autor que a primeira emissão com selos da Guiné como Província autónoma foi a emissão com sobrecarga pequena.

Peço desculpa ao autor se acaso o estou a enfastiar com as considerações feitas pelo General Oliveira Pinto neste seu livro editado em junho de 2003 e que deve ser uma preciosidade para quem sente a devoção filatélica.

Página de bilhetes postais inseridos no livro Os Selos Coroa da Guiné
Folha completa dos 100 reis Guiné pequena
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Nota do editor

Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27421: Notas de leitura (1863): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
No final desta digressão, pode dizer-se sem nenhuma tibieza que este exercício coletivo de investigação sobre o Património Histórico e Cultural de Lisboa cruzado com uma vastidão de ramificações com a história colonial e imperial portuguesa foi a bom porto. Quanto a vastidão e ramificações houve bastante acerto na escolha dos espaços, dos atores, das instituições e na pluralidade de reverberações contemporâneas. Viajámos desde o Arquivo Histórico Ultramarino até à Sociedade de Geografia de Lisboa; indagaram-se nomes de ruas, entidades bancárias, estatuária, museus, palácios, tomou-se conhecimento do seu papel no passado e como podem ser cruciais para melhor entender o que a memória colonial representa na sociedade portuguesa, já que hoje não se pratica uma investigação ou uma historiografia da grandeza imperial, o que se pretende interrogar é a linha histórica de Portugal e o desempenho nevrálgico que tiveram os tempos imperiais - porque eles repercutem-se no tempo presente.

Um abraço do
Mário



Império e colonialismo: reverberações na Lisboa atual - 6

Mário Beja Santos

Ecos Coloniais resulta de um exercício coletivo de investigação sobre o património histórico e cultural, aqui se interrogam instituições, entidades, monumentos, obras de arte, palácios onde se interseccionam a história colonial e imperial portuguesa, do passado ao presente, edição ilustrada com fotografias de Pedro Medeiros e o acervo de textos tem a coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto, edição Tinta-da-China 2022. Logo na introdução, os organizadores referem que este levantamento é uma obra consciente e que há muito por investigar e por saber, importa evitar generalidades e simplismos mobilizadores para escapar aos engenheiros e empreendedores da “história” e da “memória”.

Este será o último texto que dedicaremos a esta obra, falaremos do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, do político e poeta angolano Viriato da Cruz e da Sociedade de Geografia de Lisboa. No site Lisbon Rio, escreve Cláudia Castelo a propósito da Rua Gilberto Freyre:
“A proposta de atribuição do nome Gilberto Freyre a uma rua de Lisboa foi apresentada pelo jornalista e olisipógrafo Appio Sottomayor e por José Esteves Pereira, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e aprovada pela Comissão Municipal de Toponímia na sessão de 16 de Novembro de 2001. A rua Gilberto Freyre situa-se entre a rua Jorge Amado e a avenida Vergílio Ferreira, no Bairro do Armador (freguesia de Marvila), um bairro de habitação económica de promoção pública municipal e cooperativa, que começou a ser edificado no final dos anos de 1990 na antiga zona “M” de Chelas. Destinado a realojamento de famílias de bairros precários, acolheu pessoas de diversos grupos étnicos".

Segundo o site Toponímia Lisboa, a inscrição do nome do cientista social brasileiro no espaço urbano lisboeta deveu-se ao facto de Freyre ter criado o luso-tropicalismo. Em traços gerais, trata-se de uma doutrina assente numa leitura essencialista do carácter português, que postula que o povo português tem uma especial capacidade para se adaptar aos trópicos, por uma relação de amor e não de interesse, fruto das suas origens étnicas remotas entre a Europa e a África, e do convívio com mouros e judeus na Península Ibérica medieval. Nenhuma referência é feita à apropriação das ideias de Freyre pela ditadura do Estado Novo, a partir da década de 1950, para fazer frente ao crescente anticolonialismo internacional e ao surgimento de movimentos de libertação em Angola, Guiné e Moçambique.

 A criação no espaço da cidade de um lugar de memória em torno do criador do luso-tropicalismo revela a persistência pós-colonial de um discurso sobre a suposta excecionalidade da colonização portuguesa e o suposto não-racismo inato dos portugueses, com ressonâncias num largo espectro político-partidário, mas sem bases históricas e sociológicas. A mesma autora faz uma reflexão sobre a obra de Gilberto Freyre em Ecos Coloniais. No ensino universitário, Freyre era estudado sobretudo pela sua interpretação da história e da identidade nacional brasileira, patente na sua mais aclamada obra, Casa Grande & Sanzala, que teve primeira edição no Rio de Janeiro em 1933. “Ao abordar as relações entre os senhores portugueses, os escravos negros e os povos indígenas do território durante o período colonial, celebrou a miscigenação e exaltou o contributo dos africanos e ameríndios para a formação do Brasil. Inicialmente, este livro não foi bem acolhido pelos ideólogos do Estado Novo, a preferência era para a fundação de Portugal pela reconquista cristã. Mas Freyre passou a ser visto de outra maneira face ao anticolonialismo internacional. A reflexão e a discussão da sua obra continuam a ser atuais.

Viriato da Cruz criou o Partido Comunista Angolano, envolvendo-se com vários grupos anticoloniais, antes de partir para Lisboa em 1957. É aqui que vai estabelecer contactos com Amílcar Cabral e também com outras figuras da história da política angolana recente, caso de Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara. Sentindo-se frustrado pelo facto de o Partido Comunista Português não ter apreciado a ousadia da criação de um partido congénere sem autorização prévia, Viriato da Cruz irá passar a sua vida no exílio. Estará presente em Tunes na II Conferência de Solidariedade dos Povos Africanos, terá sido aqui que pela primeira vez se pronunciou o nome do MPLA, à semelhança do PAI, nome que se transformará em PAIGC. Entrará em oposição à nova direção do MPLA, esta favorável à posição soviética, ele favorável à posição chinesa. “Essas divergências irão manifestar-se de forma cristalina na história de luta da libertação angolana e da guerra civil que se lhe seguiu, com a União Soviética e a China a patrocinarem diplomática e militarmente movimentos nacionalistas rivais.”

Viriato da Cruz parte para a China, será testemunha de todo o processo da Revolução Cultural, trabalhando para o bureau dos escritores afro-asiáticos. Até à sua morte, em 1973, viverá numa quase reclusão. Porquê o seu nome em Corroios, concelho do Seixal? Se o seu nome é sobejamente conhecido em determinados círculos políticos, é praticamente ignorado mesmo na colónia de imigrantes angolanos. “Viriato da Cruz deu-nos a visão de um projeto diferente de organização social e política. Participou em processos que nalguns aspetos foram libertadores, noutros, brutais. É na sua globalidade que Viriato da Cruz se torna ator de pleno direito da história portuguesa.”

Fechamos esta viagem com chave de ouro. A Sociedade de Geografia de Lisboa foi criada a 10 de dezembro de 1875. É uma das organizações mais frequentemente associadas À formulação, institucionalização e disseminação de um pensamento colonial em Portugal e no Império. Há que concordar com o autor do texto quando ele diz que a ação da Sociedade de Geografia esteve associada, direta ou indiretamente, a inúmeras atividades que contribuíram para o enraizamento de uma expressão duradoura de nacionalismo imperial em Portugal. Não se pode entender a formação do chamado Terceiro Império Português sem a atividade, ao longo de décadas, dos sócios que apresentaram aos poderes políticos argumentos e propostas de peso, promoveu-se inclusivamente na Sociedade de Geografia a Escola Colonial, havia que formar uma administração específica, pôr este funcionalismo a conhecer as línguas nativas, incluindo as do Oriente. A Sociedade promoveu e financiou expedições a África, cujas figuras mais destacadas foram Ivens, Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo. Uma das grandes preocupações destes associados era a missão civilizadora, elaboraram-se inúmeros argumentários em defesa dos chamados “Direitos Históricos” de Portugal.

Como é evidente, a alavanca das primeiras décadas tinha como pano de fundo as exigências postas pela Conferência de Berlim de 1884-85 – para ter colónias havia que as ocupar, civilizar, desenvolver, conhecê-las aprofundadamente. E foi assim que se foram formando coleções – de arte, etnográficas, numismáticas, científicas. Criou-se uma Comissão Africana, o departamento mais ativo da Sociedade, pôs-se de pé o Boletim, tornou-se uma publicação regular em 1880, aqui se publicavam informações culturais, económicas, relatórios, o trabalho das missões religiosas, dava-se conhecimento da expansão dos caminhos-de-ferro, do conhecimento e do gráfico e cartográfico.

A vida da Sociedade de Geografia foi-se constituindo, depois do 28 de maio de 1926, paredes meias com os ideais do Estado Novo, tal como tinha aparecido irmanada com a propaganda e os desígnios da Monarquia Constitucional e a Primeira República. Direi que é extremamente difícil estudar sobretudo o Terceiro Império sem conhecer o impressionante acervo documental da Sociedade de Geografia. Com o distanciamento dado por meio século de democracia, é também necessário compreender como esta instituição moldou a história e memórias coloniais. Os seus associados podiam ser políticos do regime, funcionários da administração colonial, militares no ativo ou reformados, investigadores… vamos encontrar o que fizeram ou pretenderam fazer em artigos do Boletim, na inúmera documentação depositada nos Reservados, na caterva de obras de grandes ou pequenas edições, trazidas de todas as partes do Império e que por vezes não chegaram à Biblioteca Nacional ou não foram depositadas no Arquivo Histórico Ultramarino.

Falando por mim não me imagino a investigar a História da Guiné sem estar sentado nas amplas instalações de uma biblioteca que infelizmente não é tão silenciosa como devia ser, devido ao alarido que tem do Teatro Politeama.

Rua Gilberto Freyre, no Bairro do Armador, Marvila
Imagem da viagem de Gilberto Freyre à Angola
Imagem de Viriato da Cruz
Imagem da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa
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Nota do editor

Vd. post de 7 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27397: Notas de leitura (1860): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27408: Notas de leitura (1862): "Atlas Histórico do 25 de Abril", por José Matos; Guerra e Paz, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27348: Notas de leitura (1855): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Ecos Coloniais não é nem um guia de viagem nem um almanaque de curiosidades histórico-culturais onde as memórias coloniais e imperiais se interpenetram. Juntaram-se académicos, ativistas, museólogos e jornalistas e fazem uma apreciação desses espaços, lugares, monumentos, instituições onde pulsam as tais reverberações que dão ensejo a encarar a História de Portugal na faceta que as marcas do Império nos arrastam à compreensão da nossa identidade, na dimensão do passado. Começámos no Arquivo Histórico Ultramarino, estamos hoje em frente ao monumento a Sá da Bandeira, vamos até ao Forte do Bom Sucesso, o monumento aí é outro, homenageiam-se os combatentes mortos nas guerras do Ultramar, seguimos depois para o Museu Nacional da Etnologia. Dá-se esta obra como relevante, é um exercício original para debates sobre passado e o presente, mostra como o património colonial está obrigatoriamente associado a uma memória inapagável.

Um abraço do
Mário



Império e colonialismo: reverberações na Lisboa atual - 3

Mário Beja Santos

Ecos Coloniais resulta de um exercício coletivo de investigação sobre o património histórico e cultural, aqui se interrogam instituições, entidades, monumentos, obras de arte, palácios onde se interseccionam a história colonial e imperial portuguesa, do passado ao presente, edição ilustrada com fotografias de Pedro Medeiros e o acervo de textos tem a coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto, edição Tinta-da-China 2022. Logo na introdução, os organizadores referem que este levantamento é uma obra consciente e que há muito por investigar e por saber, importa evitar generalidades e simplismos mobilizadores para escapar aos engenheiros e empreendedores da “história” e da “memória”.

Encaminhamo-nos agora para o monumento a Sá da Bandeira, sito ali perto do Mercado da Ribeira e da Marconi, tendo a Avenida 24 de julho pela frente. O bravo Marechal, de nome Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, de bravura incontestável, liberal e irredutível, está ligado à abolição da escravatura em Portugal. Como escrevem os autores deste texto, “Na década de 1850, quando vários decretos vão progressivamente libertando os escravos do Estado e das misericórdias, quando se estabelece o conceito da liberdade do ventre e aqueloutro de ‘libertos’. São estes dois bons exemplos de carácter gradual, feito de concessões e cedências, e hesitações, que marcou não só o abolicionismo português como a própria figura de Sá da Bandeira (…) A estátua de celebração do Marquês Sá da Bandeira não se esgota no movimento abolicionista. No sope, uma outra estátua, de uma mulher africana evoca aquilo que era um tropo na altura: o agradecimento do continente e seus habitantes, ao abolicionismo protagonizado pelas classes esclarecidas dos países ‘civilizados’. O problema da escravatura enquanto injunção moral que os poderes imperiais projetavam sobre si mesmo havia sido transformada num novo instrumento de geopolítica. A escravatura, real, que existia ainda no continente africano, apesar das várias ‘abolições’, era então identificada como problema congénito das sociedades locais a que estavam associados outros: poligamia, canibalismo, uso imoderado de álcool, predisposição para a indolência. A escravatura, alimentada que tinha sido ao ponto de alcançar uma dimensão quase industrial na sua versão transatlântica, era agora apresentada como o resultado do atavismo e violência de grupos socioculturais tidos por atrasados.”

O marechal e aquela mulher africana com a criança ao colo, no significado que a época lhe deu, representa a homenagem do país a quem deu a liberdade aos escravos, mas num quadro ideológico de tornar estes libertos indígenas com possibilidade de aceder à civilização.

Tomámos agora o rumo para Belém, vamos até ao monumento aos Combatentes do Ultramar. Diz a autora do texto: “Numa instrumentalização da dor, os monumentos aos mortos de guerra revelam que a morte não dá igualdade. A abstração do morto aniquila as diferenças dos que lutaram integrando-as num processo hegemónico.” Anteriormente, a autora apresentara assim o monumento inaugurado em 5 de fevereiro de 2000:
“Ao Forte do Bom Sucesso foram adicionadas placas talhadas com os nomes, dispostos cronologicamente, de cerca de 10 mil soldados mortos na Guerra Colonial, incluindo soldados africanos das Forças Armadas Portuguesas. A associação dos mortos procura fortalecer, por um lado, a ideia de uma linearidade histórica, sem as ruturas que momentos de crise como as guerras poderiam causar e, por outro lado, a integração orgânica dos membros do corpo nacional, onde também se encontra o colonial. A 11 de novembro de 2015, no 97.º aniversário do Armistício, foi integrado ao conjunto memorial o Soldado Desconhecido caído na Guiné durante a Guerra Colonial, depositado na Capela do Combatente. Tal como em 1921, o morto anónimo é colocado no centro do palco. O herói não identificado, figura idealizada e transversal, é chamada à função de regenerar a nação e transladado para o Panteão Nacional.”

Um monumento que esteve envolvido em controvérsia, e que tem a estatura de uma ferida histórica, há quem o encare como espelho de memória de uma descolonização acabada. Com o passar dos anos, este espaço público vai gerando o sentimento de uma memória comum, ganha o papel de reconciliador, torna-se numa memória comum, o país ajustou-se à veneração dos seus mortos, já são muito poucos os que, por razões ideológicas, pretendem instrumentalizar a dor.

A última viagem é ao Museu Nacional de Etnologia, a autora do texto revela-se bastante crítica quanto ao teor da exposição permanente e releva o papel do multiculturalismo que em Portugal se agigantou com as sucessivas vagas de imigração, logo a dos “retornados” após a revolução do 25 de abril, o que está patente no Museu oculta o lado violento e racista do colonialismo português, abre espaço para exibir narrativas como a panaria de Cabo Verde e Guiné Bissau, e a autora destaca a importância do Serviço Educativo que valoriza as coleções a partir do presente, contribuindo para a construção de relações recíprocas, tal serviço educativo volta-se hoje para a população afrodescendente, contribuindo de forma crítica para o combate à marginalização de grupos sociais que buscam sentido de cidadania, fora da ética dos Descobrimentos. “Coleções como as do Museu Nacional da Etnologia constituem uma oportunidade única para conhecer uma história profundamente desumana, permitindo-nos ativar práticas reparadoras no campo das temporalidades, das materialidades e da dignidade, e compreender melhor o mundo em que vivemos, para podermos assumir o compromisso de contribuir para a construção de um presente melhor.”

Ecos Coloniais, vale a pena repetir, debruça-se sobre um eco diversificado de espaços, atores, instituições e símbolos, permitem-nos ver ou refletir sobre histórias imperiais e coloniais que podemos ver em Lisboa e arredores. É um trabalho coletivo, envolve uma equipa em que há autores e um fotógrafo. Impondo-se uma súmula ou resenha desses espaços e lugares, falando de um quadro que está no Museu Nacional de Arte Contemporânea, “os Pretos de Serpa Pinto”, iremos depois ao Porto de Lisboa e à Sociedade de Geografia de Lisboa.

Monumento aos combatentes do Ultramar, junto do Forte do Bom Sucesso
Museu Nacional de Etnologia, objetos em exposição
Os Pretos de Serpa Pinto, Catraio e Mariana, por Miguel Ângelo Lupi, 1879, Museu Nacional de Arte Contemporânea

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 17 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27326: Notas de leitura (1852): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de outubro de 2025 >
Guiné 61/74 - P27336: Notas de leitura (1854): "Um Império de Papel", por Leonor Pires Martins; posfácio de Manuela Ribeiro Sanches; Edições 70, 2.ª edição, 2014 (2) (Mário Beja Santos)