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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.




Estátua de Frei Martinho de Santa Maria
(pormenor)

O verdadeiro "guardião" do convento: a imponente, icónica, estranha  estátua do fundador do Convento, com os braços em cruz e os pés a esmagar a serpente (=demónio), assente no globo terrestre. Segundo a explicação que nos foi dada, pela guia cultural, Andreia Gomes, mester em hstória da arte pela minha universidade, a NOVA de Lisboa, segura na mão direita o archote da fé (simbolizando as boas obras) e na esquerda um cilício, instrumento de mortificação, que o frade utilizava para se penitenciar dos pecados. Nos olhos, uma venda, na boca um grosso cadeado, e no coração uma fechadura, outros tantos símbolos da vida do asceta que se fecha às coisas do mundo.













Setúbal > Parque Natural da Arrábida > Convento da Arrábida > 23 de julho de 2026 >  Gostei de lá voltar...

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


1. Às veze ponho-me a duvidar da saúde mental destes homens (não havia mulheres...), que escolheram viver em conventos completamente isolados do mundo, em sítios luxuriantes, como o da Arrábida e de Sintra.... A pão e água... Extasiados com tanta beleza, esmagados por tanto silêncio!

Eram eremitas... Escolheram o caminho mais radical, 
a do isolamento total (cortando simbolicamente,  até na estatuária, os cinco sentidos...), da pobreza absoluta, da ascese, da mortificação do corpo, da superação dos sentidos, do lento e exaltante suicídio pela fome, da meditação, da contemplação versus ação...

Que raio de "leitura da mensagem de Cristo" foi esta, pergunto-me, mais de 60 anos depois de ter aqui acampado, nas férias grandes escolares, no início dos anos 60 ?

Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico...  Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco  sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.

Mas, temos que lembrar (e respeitar) a opção destes homens de meados do séc. XVI, tão
exaltante como contraditório e dilacerante  (nomeadamente para o mundo cristão, dividido em dois, com a reforma e a contrarreforma); tratava-se de uma escolha consciente, uma forma de transcender a condição humana. 

Não era "loucura", era a procura da "santidade" e do caminho solitário até ao Criador...

Diz a guia cultural, Andreia Gomes, que a Arrábida é reconhecidamente um lugar único, onde a natureza e a espiritualidade se encontram e se fundem. Os monges que ali viveram,  deixaram um legado de paz, reflexão e conexão com a terra, que ainda hoje se sente no ambiente sereno da serra (para mais, no lado  protegido do vento marítimo). Um legado que não pode deixar de tocar o coração de um simples turista que hoje visite o antigo convento (seja ele russo, francês ou espanhol, como exemplificou a guia).


2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.

Fundado no século XVI, no reinado de Dom João III, é um lugar de grande importância histórica, espiritual, cultural e ecológica.

O que se sabe sobre os seus moradores ?

Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:

O convento foi fundado em 1542 por Frei Martinho de Santa Maria, castelhano, franciscano, da Ordem dos Frades Menores (OFM), a quem D. João de Lencastre (1501-1571), 1º duque de Aveiro, cedeu as terras da encosta da serra. Em boa verdade, tratava-se de uma "doação", dentro do espírito cristão ainda medievo segundo o qual dar aos pobres (e aos monges mendicantes...) era emprestar a Deus...

Lê-se no sítio da Fundação Oriente, atual proprietária do Convento da Arrábida e da sua cerca de 25 hectares: 

 "Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.

"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.

"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.

Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)

 Os frades viveram ali durante séculos, dedicando-se à vida contemplativa, à oração e ao trabalho manual, seguindo os princípios de São Francisco de Assis.

A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os
 frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso.  Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à  caridade... 

Enfim, o convento foi um centro de peregrinação e retiro espiritual, atraindo fiéis e nobres em busca de reflexão.

Curiosidades:   o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28208: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: O conventinho da Arrábida












Setúbal > Parque Natural  da Arrábida > Convento da Arrábida >  23 de julho de 2026 >  Voltei lá 60 e tal anos depois


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]


Elegia II

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos,
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

Frei Agostinho da Cruz, ou Agostinho Pimenta 
(Ponte da Barca, 1540 - Setúbal, 1619)

 
1.  Há sítios que não são apenas lugares, pontos no mapa. Fazem parte das nossas geografias emocionais. Da nossa história de vida. Acampei aqui pelo menos duas  vezes no início dos anos 60. Descia a  serra, ia até à praia. Como fazem hoje os javalis. Por caminhos ínvios. Quando se tem 15 anos e está-se à beira de perder a fé, todos os caminhos são ínvios.

Falo do convento  da Arrábida. Do conventinho. Por aqui é tudo liliputiano. A escala. Até o tempo. A escolha do sítio não poderia ter sido mais feliz. O que impressiona hoje o visitante é a perfeita integração  do convento e da sua cerca de 25 hectares na  encosta leste da Serra da Arrábida. Onde se não se vê o pôr do sol, só o nascer. 

A construção que se prolongou durante mais de um século  foi-se adaptando  aos penhascos, aos  socalcos, às rochas, ao declive, aos arbustos  aos sobreiros, às urzes. É uma arquitetura religiosa única, que avançou sem "patos bravos" nem autarcas corruptos, só com a licença da natureza. Não há aqui nada  imposto à serra, fica-se com  a sensação de que  o labiríntico conventinho nasceu dela, está ali desde sempre. 

Dizem os geólogos que a formação da Serra da Arrábida data de há cerca de 7 milhões de anos, com rochas que remontam ao Jurássico.  Nasceu da colisão das placas africana e euro-asiática, a mesma que que deu origem à formação do mar Mediterrâneo, num processo lento que durou centenas de milhões de anos, numa escala inumana.

Sinto-me aqui  com o arrábido e poeta da solidão e do despojamento Frei Agostinho da Cruz, que aqui viveu década e meia antes de morrer. De facto, aqui um  homem sente-se despojado de tudo o que não precisa de levar para a eternidade  ou para o regresso à poeira cósmica  donde nasceu. La mort c' est le vide.

Tenho pena de não ter revisitado o Convento Velho, mais austero, com pequenas ermidas escavadas ou encostadas à rocha. Fui ontem de canadianas (!), numa visita de grupo (máximo 40 pessoas) guiada  ao Convento Novo, com a pequena igreja, o claustro e as dependências principais (incluindo as celas e o refeitório). 

As celas dos frades menores franciscanos,  que aqui  viveram , eram minúsculas: pouco mais do que o  espaço para uma enxerga e um banco. Procurava-se o isolamento absoluto, cultivava-se a pobreza absoluta: estava tudo nos regulamentos, havia dias da semana e do mês em que a alimentação era apenas pão e água. Noutros dias, alguns produtos da horta.  Frei Bernardo da Cruz, nascido nas margens do rio Lima, descia a  serra e às vezes lá trazia um peixinho, pescado no Portinho da Arrábida (muito provavel mas humanente violando as regras do jogo: apesar de "santos",  aqueles frades capuchos tinham uma costela de Adão, a do pecado, da imperfeição divina).  Devia ser a sua única proteína animal do poeta.

É uma  das minhas geografias emocionais que merece que eu fale dela num segundo poste, com mais tempo e vagar. 

Algumas fotos que publico acima dão de imediato a escala do conjunto e reforçam a sensação de labirinto. A mulher de vestido azul (a guia do nosso grupo na visita ao Convento, Andreia Gomes) parece uma aparição discreta mas fantasmagórica naquele silêncio branco. quase perdida entre os muros. Sem ela, a imagem seria sobretudo de arquitetura pura e dura; com ela, ganha vida, narrativa, emoção. Como é que uma figura (para mais de uma mulher, um elemento do "gineceu", a quem durante séculos seria interdita a entrada neste estéril e casto  "androceu") pode humanizar esta arquitetura ascética?!

 De facto, não foi apenas o regresso a um lugar, foi sobretudo o regresso a um lugar da minha adolescência.  E revisitei o Portinho da Arrábida. Melancólico. Ao entardecer. Com os meus amigos Joaquim Pinto de Carvalho e Maria do Céu Pintéus, que me deram boleia.  
___________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)



Foto nº 1


Foto nº 2 



Foto nº 3 e 3A


Foto nº 4


Foto nº 5


Foto nº 6

Portugal > Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina >  Odemira > Cabo Sardão > 30 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. No passado sábado, dia 29 de maio de 2026, de regresso do Algarve e percorrendo a Costa Vicentina e Sudoeste Alentejanio, até Sines, avistei e fotografei três ninhos de cegonhas brancas (Ciconia ciconia), em sítios incríveis, em rochas que se erguem a pique, sobre o mar... 

A última observação minha fora feita em 2015 (se não erro) ... Pergunto-me: o que  leva estas aves  a fazer os seus pesados ninhos, no Cabo Sardão,  que fica no concelho de Odemira, entre as praias de Zambujeira do Mar e Almograve no cima das arribas marítimas, a bastantes metros acima do mar, em locais perigosas e inóspitos, para elas próprias e para suas crias? De que é que se alimentam ? E quantos ninhos haverá mais, ao longo desta costa emblemática entyre o Cabo de São Vicente e o Cabo Sardão ?

Eis o resultado das pesquisas, rápidas, que fiz na Net, com recurso a diversas fontes, incluindo a uma ferramenta de IA (ChatGPT / Open AI):


2. As fotografias mostram um fenómeno muito especial do sudoeste de Portugal: as cegonhas-brancas a nidificar nas arribas marítimas da Costa Vicentina. Trata-se de um caso raro à escala mundial.

(i) Porque escolhem locais tão perigosos?

À primeira vista parece uma má escolha, mas para as cegonhas é exatamente o contrário (Foto nº 4). Os principais motivos são:

  • proteção contra predadores terrestres: raposas, cães assilvestrados, javalis e outros predadores (não conseguem chegar facilmente a estas plataformas rochosas isoladas);
  • escassa perturbação humana: as arribas são locais relativamente tranquilos durante a época de reprodução;
  • disponibilidade histórica de locais de nidificação: ao longo de gerações, as cegonhas regressam frequentemente às mesmas zonas onde nasceram;
  • vantagem de vigilância: de um ponto elevado conseguem observar uma grande área para procurar alimento e detetar perigos.
Apesar disso, não se pode subestimas os riscos reais:

  • quedas de crias devido ao vento; 
  • tempestades e mar agitado;
  • colapso parcial dos ninhos;
  • dificuldade de acesso em anos de condições meteorológicas adversas.

Curiosamente, os ninhos podem atingir mais de uma tonelada após muitos anos de reutilização e reforço.

(ii) De que se alimentam?

Embora estejam junto ao mar, as cegonhas-brancas do Cabo Sardão não vivem apenas de recursos marinhos. A sua dieta é muito variada, sendo aves carnívoras e oportunistas:

  • insetos grandes (gafanhotos, escaravelhos);
  • lagartos e outros répteis (pequenas serpentes)
  • ratos e outros pequenos mamíferos;
  • anfíbios;
  • minhocas;
  • pequenos peixes;
  • crustáceos (caranguejos...)  e outros invertebrados costeiros;
  • ocasionalmente restos de peixe encontrados perto da costa.

As zonas agrícolas e pastagens no concelho de  Odemira fornecem grande parte do alimento para os adultos e para as crias.

A informação sobre a dieta resulta do conhecimento ornitológico estabelecido para a espécie Ciconia ciconia, amplamente documentado em guias de aves europeias e estudos científicos. 

(iii) Quantos ninhos existem?

O número varia de ano para ano. Na costa sudoeste portuguesa, entre o litoral de Odemira e Vila do Bispo, costuma existir uma população reprodutora de algumas dezenas de casais, frequentemente entre 50 e 80 ninhos ativos, dependendo das condições anuais e dos censos realizados. (È 
uma estimativa baseada em números históricos da população nidificante da costa sudoeste; náo se encontrou  uma fonte recente e oficial que confirme esse intervalo para 2025/2026.)

VII Censo Nacional da Cegonha-branca (2024) foi realizado pelo ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Florestas), integrado no Censo Mundial da espécie.  mas os resultados detalhados por região parecem ainda não estar amplamente publicados.

O Cabo Sardão é um dos locais mais emblemáticos e visíveis desta população, mas os ninhos distribuem-se por vários quilómetros de arribas da Costa Vicentina.

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando, entre os locais emblemáticos, o Cabo Sardão (onde se situa o respetivo farol,  cuja construção data de 1915; vd. foto nº 6). 

 As fotografias que tirei são muito interessantes porque mostram precisamente dois exemplos típicos dos chamados "palheirões" (fotos nºs, 1, 2 e 3) rochedos isolados junto às arribas onde estas cegonhas estabeleceram uma estratégia de nidificação praticamente sem paralelo no resto do mundo. 

Além disso, os ninhos parecem estar em bom estado e ocupados por adultos em plena época de reprodução . O primeiro ninho, em particular, mostra bem a enorme estrutura de ramos acumulada ao longo de vários anos, típica das cegonhas que reutilizam o mesmo local sucessivamente.

Aqui há um valor frequentemente citado na literatura e em fontes de divulgação científica: erca de 40 ninhos/casais nidificando em rochedos marítimos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

É importante notar que este número aparece em várias fontes derivadas de censos anteriores e pode não refletir exatamente a situação de 2024 ou 2025

O que existe são referências de campo e observações continuadas indicando "vários ninhos" distribuídos pelas arribas e pelos "palheirões" (rochedos isolados) ao longo de alguns quilómetros de costa.

(iv) Evolução ao longo dos censos

A tendência geral da cegonha-branca em Portugal foi de crescimento muito forte nas últimas décadas. Por exemplo:

  • em 2014 foram registados 11 690 ninhos ocupados em Portugal Continental durante o censo nacional;
  • em 2024 decorreu o VII Censo Nacional, mas os resultados finais nacionais ainda não aparecem facilmente acessíveis nas fontes públicas que consultei.

Para a população específica das arribas da Costa Vicentina, as referências históricas apontam para:

  • instalação inicial de poucos casais;
  • expansão gradual ao longo do século XX;
  • estabilização posterior em algumas dezenas de casais reprodutores.

(v) O que torna este local único?

A populaçãode cegonhas-brancas  da Costa Vicentina é considerada a única, c
onhecida no mundo (ou pelo menos da Europa),  que nidifica regularmente em arribas marítimas sobre o oceano (que podem chegar aos 40 metros).

(...) A cegonha-branca nidifica praticamente de norte a sul do país, sendo notoriamente mais comum a sul da bacia hidrográfica do rio Tejo, excluindo a serra de Monchique.

A norte ocupa a faixa litoral de forma quase contínua até Viana do Castelo e o interior ao longo da raia de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Beira Alta, estando apenas ausente do distrito de Viseu.

É uma espécie generalista que utiliza um grande leque de habitats, como mosaicos de cereais de sequeiro, arrozais, pastagens e pousios, lameiros, montados abertos, mas também zonas húmidas como charcas, açudes, pauis, rios, ribeiras, lagoas costeiras e estuários.

Os ninhos são instalados em árvores (choupos, eucaliptos, pinheiros, freixos, azinheiras, sobreiros ou oliveiras), em edifícios (chaminés, telhados, ruínas, igrejas, silos), em postes de eletricidade, apoios dedicados e postes telefónicos ou escarpas fluviais.

Na costa sudoeste nidifica em falésias costeiras e palheirões, situação única na Europa. Pode nidificar tanto isoladamente como em colónias, quer monoespecíficas, quer partilhadas com garças e colhereiros.

É mais abundante no Alentejo e Ribatejo, regiões que concentram mais de 75% da população nacional. Os distritos de Beja, Évora e Setúbal são aqueles que apresentam as densidades mais elevadas a nível nacional.

É ainda muito abundante nos distritos de Castelo Branco e Faro e a norte, no baixo Vouga, na ria de Aveiro e no baixo Mondego.(...)


(Fonte: Excertos de Atlas das Aves Nidificantes de Portugal > Inês Catry > Ciconia ciconia, cegonha-branca) (com a devida vénia...)

O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina identifica expressamente a nidificação da cegonha-branca em falésias e arribas marítimas como uma das características marcantes da região, destacando o Cabo Sardão entre os locais emblemáticos. ICNF explica ainda que essa adaptação terá resultado da escassez histórica de árvores altas e construções, sendo os rochedos isolados os locais mais seguros contra predadores.

O portal oficial Natural.pt (gerido pelo ICNF) refere expressamente "cegonha-branca a nidificar nos rochedos e arribas marítimas (caso único no mundo)".

É pena que os painéis interpretativos do sítio estejam completamente ilegíveis, inutilizados pela longa exposição ao sol, maresia, chuva e  demais intempéries. 

(Pesquisa > LG + Wikipedia + Natural.pt + Atlas das Aves Nidificantes de Portugal + IA (ChatGPT / Opern AI)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61774 - P28039: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (3): Vendedora de caju no Mercado Central de Bissau: foto de João Melo (2025)





Guiné- Bissau > Bissau > Mercado Central > c. maio de 2025  > Vendedora de caju ... mas também de papaia... num espaço aparentemente às moscas. As "bideras" são as que andam na rua, enxotadas pela polícia camarária. Já no tempo do Luís Cabral, não gostavam delas. No nosso tempo havia os "djubis" que vendiam "mancarra". A tropa ainda não conhecia o gosto do caju...

Fotos (e legenda): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Foto da página do Facebook do nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), que começou a visitar a Guiné-Bissau, regularmente, desde 2017, com uma pausa no tempo da pandemia. Em geral, viaja no fim da estação seca (março / abril / maio).

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. E onde, a partir deste ano, o João Melo passa a ter uma rua com o seu nome. Uma bela e justa homenagem dos cumbijanenses ao seu amigo e benfeitor  "tuga".

Costuma também visitar, além do mítico Mercado de Bandim, o Mercado Central, no centro histórico da cidade: foi inaugurado em 2022, depois foi reconstruído de raiz, após os grandes danos sofridos com  os bombardeamentos da guerra civil de 1998/99 e do grande incêndio de 2005.

A importância do caju  na vida económica e social da atual Guiné-Bissau merece um poste à parte: é praticamente o único produto que o país exporta (90%). (E, em contrapartida, importa arroz, que é a base da alimentação da população. )

Tal como deve merecer a nossa atenção a importância que os mercados têm m na via dos guineenses,  sendo o de Bandim um dos maiores de África:  é lá que se sente o pulsar da cidade, dizem os viajantes.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28000: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte IV: Bissau velha renascida, "by air": descendo da Paraça dos Heróis Nacionais até à Catedral



Vídeo (1' 55'') > Guiné-Bissau > Bissau > Masrço de 2026 > Terceiro e último vídeo aéreo de parte da cidade de Bissau, mais propriamente o trajeto  que vai da antiga Praça do Império (atual Praça dos Heróis Nacionais ) até à Sé Catedral, que fica a meio da Av Amílcar Cabral (antiga Av da República, que ia dar ao cais do Pijiguiti).


Vídeo (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1, O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) começou a visitar a Guiné-Bissau. regularmente, desde 2017, com uma puasa no tempo da pandemia. Vai sempre acompanhada da esposa Maria do Carmo e, às vezes, de outros camaradas. Este ano, por exemplo, com o Armando Oliveira.

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali, onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local.  

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra. O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau.

2. Os vídeos que o nosso camarada João Melo tem realizado nas suas visitas à Guiné-Bissau, ao longo dos últimos anos (também com o propõsito de nos ajudar a “matar saudades”) mostram que a cidade de Bissau atravessa, desde cerca de 2022, um processo visível de renovação e reabilitação urbana.

O objetivo anunciado pelas autoridades passa pela modernização das infraestruturas e pela melhoria das condições de vida da população. Mal ou bem, parece ter-se salvado uma parte importante da velha Bissau colonial, cujo conjunto arquitetónico e urbanístico há muito mereceria, pelo menos, uma séria candidatura a património da UNESCO.

Continuam em curso obras de reabilitação de estradas, com destaque para a via que liga o Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira ao centro da cidade, abrangendo igualmente a zona portuária e o eixo Quelelé–Bor.

A cidade voltou a ter semáforos funcionais em 2023, situação que aparentemente se manteve em 2024 — um pequeno sinal de normalização urbana que, para quem conheceu Bissau noutras épocas, não deixa de ter significado simbólico.

A Avenida Amílcar Cabral foi requalificada e voltou a afirmar-se como espaço de encontro e convivência dos habitantes da capital. Alguns edifícios públicos e governamentais receberam igualmente obras de recuperação, ainda que por vezes limitadas às fachadas.

Existem também projetos de construção de novas vias rodoviárias, incluindo uma estrada moderna de ligação entre o aeroporto e Safim, executados ou financiados, em parte, por empresas chinesas. Estas intervenções procuram facilitar o escoamento de mercadorias, melhorar a circulação urbana e atrair investimento externo.

Nem todas as obras, contudo, têm sido consensuais. O abate de árvores antigas em algumas avenidas suscitou críticas de urbanistas, ambientalistas e cidadãos, devido à alegada ausência de estudos de impacto ambiental e ao receio de agravamento das temperaturas e da perda de sombra numa cidade já muito exposta ao calor tropical.

Em rigor, continua pouco claro quais são, em detalhe, as fontes de financiamento e os encargos futuros associados a esta renovação urbana, havendo quem tema que parte das intervenções tenha sobretudo um alcance cosmético ou de representação política.

Gostávamos de receber o "feedback" dos nossos amigos de Bissau, e em especial do Cherno Baldé, do Patrício Ribeiro e outros.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27995: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte III: Bissau velha renascida, "by air": subindo a av Amílcar Cabral, do cais do Pijiguiti à praça dos Heróis Nacionais



Vídeo (2' 03'') > Guiné-Bissau > Bissau > Abril de 2026 > Sgundo vídeo aéreo (de três), sobre a cidade de Bissau atual, "tentando com isso que, muitos dos que por lá passaram possam matar saudades"... 

Este vídeo, obtido em fim de tarde,  foca  o trajeto da Av. Amílcar Cabral,  desde o Porto de Mar atá à Praça Principal (Heróis Nacionais, antiga Praça do Império, até 1975).

Fundo musical: o "imortal" José Carlos Schwarz  (Bissau, 1949 - Havana, 1977) + o seu "mítico" grupo,  Le Cobiana Djazz, no álbum "Lua Ki di Nos" (The Moon is Ours | A Lua é Nossa)  (2021)

Vídeo (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Disponível em: Lua Kata Kema | José Carlos Schwarz & Le Cobiana DjazzLua Ki Di Nos (2021)


1. O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), voltou de novo na Guiné-Bissau,  este ano, na estação seca.


Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017, com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade".

O percurso inclui, obrigatoriamente, a tabanca de Cumbijã, no Sul, na região de Tombali,  onde o casal apoia as escolas locais e o clube de futebol local. Este ano a população do Cumbijã fez-lhe uma bonita  homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade (*)

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra (**). O João Melo é também um grande conhecedor e divulgador da música da Guiné-Bissau. 
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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:


(´**) Último poste da série > 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27986: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não...Agora adoro lá voltar todos os anos (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74) - Parte I: O Natal do Cumbijã é em Abril

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa

Estátua em bronze do Bocage.
Café Nicola, Rossio, Lisboa.
Autor: Marcelino de Almeida
(1929)
1. Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa, numa roda de amigos... É uma arte, que não é para todos, inventá-las e sobretudo contá-las. Mas gosto de as reescrever e recriar... 

Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada,  se não erro,  na tropa ou já na Guiné. Nunca a  esqueci, passados  mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas. O meu é muito pequeno.

De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas... ou o piri num franguinho grelhado.

Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira",  publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e  notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado, mas houve um amigo que teve a sorte de ficar com um exemplar.)

Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna". 

Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico). 

Ora, este  equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805). 

Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...

De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780  pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia  e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica,  eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").

À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino,  frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.

O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). 

O Botequim (do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo "Nicola". Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.

O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária,  ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo,  que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...  Viveu pobre, morreu miserável. E hoje ajuda a vender lotes de café em grão... "italiano"! 

Diz a tradição que José Silva, o proprietário do Botequim do Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta maldito já doente e pobre.


Retrato gravado a buril e água-forte
por Joaquim Pedro de Sousa (1818-1878). 
Fonte: Wikipedia

O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores,  espiões e polícia política.

Em 1929, a fachada foi redesenhada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze,  da autoria de Marcelino de Almeida. 

Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal (1899-1969), com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage. 

Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.

O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã). 
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.

Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação,  não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

Pelo  cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

terça-feira, 5 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27989: Tinha tudo para odiar aquela terra, mas não... Parte II: Bissau velha renascida, "by air": do Hotel Coimbra ao cais do Pijiguiti


Vídeo (2' 02'') > Guiné - Bissau > Abril de 2026 >  Estas imagens aéreas focam a Av Amílcar Cabral desde o Hotel Coimbra até ao porto de mar.. Música: José Carlos Schwarz

Vídeo (e legenda): © João de Melo  (2026).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 >  João de Melo e Maria do Carmo, ao centro, acarinhados pela equipa de futebol local,  "Os Tigres do Cumbijã".


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 > O João de Melo com os miúdos da escola (do ensino pré-primnário ao 6º ano)  que ele  e a esposa estão a ajudar com donativos recolhidos na região centro

Fotos (e legendas): © João de Melo  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


João Melo, nosso grão-tabanqueiro
desde 1/3/2009



1. O nosso camarada João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74), esteve de novo na Guiné-Bissau, em por volta de março/abril de 2026. 

Profissional de seguros, reformado, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha, e tem viajado regularmente, desde 2017,  com a esposa, Maria do Carmo, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade". 

A viagem inclui a tabanca de Cumbijã onde distribui ajuda humanitária pelas escolas locais, e  apoia o clube de futebol local) (*). 

Este ano a população local fez-lhe uma singela mas justa homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da localidade.

Em Bissau costuma ficar no Hotel Coimbra  
(**).

Este ano fez um vídeo com o seu drone, mostrando esta parte da cidade, renascida com a
Fénix.  Os nossos camaradas, que passaram por Bissau, há mais de meio século, ainda  reconhecerão alguns dos edifícios e sítios, ruas, praças e cais,  desse tempo, a começar pela catedral e o porto do Pijiguiti, e incluindo  antiga Casa Gouveia (que ficava em frente ao Café Bento, a famosa 5ª Rep).



Guiné-Bissau > Bissau > s/d > O edifício do Coimbra Hotel & SPA, fundado em 2001, sito no edifício do antigo estabelecimento comercial  Nunes & Irmão Lda, na Av Amílcar Cabral (antiga Av República). 

É o mais imponente edifício comercial do centro histórico de Bissau, da época colonial.  É vizinho da catedral católica de Bissau.

Foto: arquivo do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, cedida por Virgílio Teixeira (2020)


Guiné > Bissau > s/d (c. anos 60) > Sem legenda >  Av da República (hoje, Av Amílcar Cabral) >  Ao fundo no início da avenida, o Palácio do Governador, e a Praça do Império; do lado direito, a Catedral de Bissau (em segundo plano)...  

No final da avenida, tínhamos a Casa Gouveia, à esquerda, em primeiro plano, com a esplanada do Café Bento à direita (e contigua à  sede da Administração Civil: deste edifíci, só se vê praticamente o telhado, acima do arvoredo)

(Edição Comer, Trav do Alecrim, 1 -Telef. 329775, Lisboa). Colecção: Agostinho Gaspar  (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74). 

Edição (e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).



Guiné > Bissau > s/d > Vista aérea da Ponte Cais, Bissau. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 119" . (Edição Foto Serra, COP 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL).

Legenda: Porto de Bissau, ou ponte-cais, o edifício das Alfândegas, à direita, a praça com o monumento a Diogo Cão (derrubada a seguir à independência), a entrada para a Fortaleza da Amura, ao centro, e à esquerda, se não erro, a Casa Gouveia (ou um estabelecimento da Casa Gouveia... Este é que é (era) o coração de Bissau Velho... A marginal chama-se hoje Av. 3 de Agosto.

Bilhete postal da coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar / Digitalização, legenda e edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010
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Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27984: No 25 de Abril eu estava em... (42): De férias, em Alquerubim, já com 17 meses de comissão...E tinha tudo para odiar a terra que me serviu de lar em ambiente de guerra, durante quase dois anos... Mas, não, passei a lá ir todos os anos... (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351, 1972/74)