Eram eremitas... Escolheram o caminho mais radical, a do isolamento total (cortando simbolicamente, até na estatuária, os cinco sentidos...), da pobreza absoluta, da ascese, da mortificação do corpo, da superação dos sentidos, do lento e exaltante suicídio pela fome, da meditação, da contemplação versus ação...
Dizem as ciências da saúde mental (psicologia, psiquiatria, neurologia...) que o isolamento extremo pode ser patológico... Cortar radicalmente com os outros (isolamento social prolongado) pode levar a distúrbios mentais (depressão, ansiedade, alucinações). Cortar os cinco sentidos (como se vê na estátua do Frei Martinho de Santa Maria, inscrutada na parede da fachada da igreja) ou jejuar até à exaustão são comportamentos que, hoje, associaríamos a transtornos obsessivo-compulsivos ou até psicose.
Mas, temos que lembrar (e respeitar) a opção destes homens de meados do séc. XVI, tão
exaltante como contraditório e dilacerante (nomeadamente para o mundo cristão, dividido em dois, com a reforma e a contrarreforma); tratava-se de uma escolha consciente, uma forma de transcender a condição humana.
2. O Convento de Nossa Senhora da Arrábida é um mosteiro franciscano localizado na Serra da Arrábida, em Portugal, hoje integrado no Parque Natural da Serra da Arrábida, um dos sítios mais deslumbrantes (e cobiçados!) da nossa costa, a par da península de Troia, ali em frente.
O que se sabe sobre os seus moradores ?
Para já aconselho que se veja ou reveja na RTP Play o programa:
"Anterior à construção, existia onde é hoje o Convento Velho, a Ermida da Memória, local de grandes romarias, junto da qual, durante dois anos, viveram, em celas escavadas nas rochas, os primeiros quatro frades arrábidos: Martinho de Santa Maria, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e São Pedro de Alcântara.
"D. Jorge de Lencastre, filho do 1.º duque de Aveiro, continuou as obras mandando construir uma cerca para vedar a área do convento. Mais tarde, seu primo D. Álvaro, mandou edificar a hospedaria que lhe servia de alojamento e projectou as guaritas, na crista do monte, que ligam o convento ao sopé da montanha, deixando, no entanto, três por acabar. Por sua vez, D. Ana Manique de Lara, nora de D. Álvaro, mandou construir duas capelas, enquanto o filho de D. Álvaro, D. António de Lencastre, mandou edificar, em 1650, o Santuário do Bom Jesus.
"Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o convento, as celas e as capelas dispersas pela serrania sofreram várias pilhagens e enormes estragos causados pelo abandono.
Em 1863, a Casa de Palmela adquiriu o convento, mas as obras só começaram nas décadas de 40 e 50 do século seguinte. Quarenta anos depois, em 1990, o seu então proprietário, Manuel de Souza Holstein Beck, vendeu o convento e a área envolvente, num total de 25 hectares, à Fundação Oriente, a única instituição, que, no seu entender, dava garantias de manter os valores com que, no século XVI, os seus antepassados o haviam entregue aos arrábidos." (...)
A vida monástica na Arrábida regia-se por regras estritas: os frades viviam em reclusão ou clausura, dedicados à oração, meditação e estudo. Seguindo a regra franciscana, viviam com pouquíssimos bens materiais (não tinha bens próprios, os prato sem que comia, eram conchas do mar, nem sequer o convento era deles). Cultivavam a terra, produziam o seu próprio alimento e realizavam outras tarefas manuais; náo comiam carne, faziam jejum e abstinência, conforme o calendário religioso. Em épocas de crise (fome, epidemias, etc.), tinham que recorrer à caridade...
Curiosidades: o convento foi classificado como Monumento Nacional em 1910, mas foi só nos anos 40/50, que se procedeu ao seu restauro, por iniciativa privada (casa Palmela) e apoio do Estado Novo. Salazar gostava de visitar a Arrábida e o seu conventinho. Eu também gosto.
________________
Último poste da série >24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28208: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: O conventinho da Arrábida












