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quinta-feira, 20 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26601: Historiografia da presença portuguesa em África (471): Bissau ao tempo de Leopoldina Ferreira ("Nha Bijagó") (1871-1959) (António Estácio, 1947-2022)


Planta da Praça de São José de Bissau. Desenho de Travassos Valdez. Fonte: "África Oocidental" (1864).








Planta da Praça de São José de Bissau. Desenho de Travassos Valdez. Fonte: "África Oocidental" (1864) (Detalhes). Tinha (tem) 4 baluartes: Bandeira, Puana (ou Poama),  Onça e Balança.


Guiné > Bissau > c. 1870 > A Rua de S. José, considerada como a artéria mais importante. Ia do portão da Amura, que estava aberto das 8 às 21h00, ao baluart da Bandeira. 

Após o 5 de outubro de 1910, passou a designar-se como Rua do Advento da República; depois,  Rua Dr. Oliveira Salazar e, após a independência, mudou  em 21 janeiro  de 1975,  paa Rua Guerra Mendes, um dos combatentes da liberdade da Pátria, mortos em combate.

 Fonte: António Estácio - "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il,).




Guiné > Bissaau > Av República > Postal ilustrado > c. 1960/70 > : Av da República (Hoje, Av Amílcar Cabral) > Ao fundo, o Palácio do Governador, e a Praça do Império; do lado direito, a Catedral de Bissau... Sob o arvoredo, do lado direito, a esplanada do Café Bento (O postal era uma Edição Comer, Trav do Alecrim, 1 - Telef. 329775, Lisboa).

Foto (e legenda): © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




António Estácio (Bissau,
Chão de Papel, 1947 -
Sintra, Algueirão  2022),
V Encontro Nacional
da Tabanca Grande, Monte Real,
 2010.
Foto: Luís Graça (2010)
1. Já na altura demos o devido destaque a esta publicação do nosso querido e saudoso camarada e amigo António Estácio (1947-2022): nascido em Bissau, fez o serviço militar em Angola, em 1970/72), foi engenheiro técnico agrícola, deixou saudades em Macau, escreveu diversos livros, vivia em Algueirão, Sintra, tinha duas filhas e seguramente netos. 

A propósito das mudanças de toponímia de Bissau logo no início de 1975 (*), fomos revisitar o livrinho "Nha Bijagó: respeitada personalidade da  sociedade guineense (1871-1959)" 
(edição de autor, 2011, 159 pp., il,).  (**)

Do prefácio, escrito por Eduardo Ferreira
respigamos entretanto os seguntes excertos (**):

(...) Ao ler este livro  não podemos 
deixar de pensar nas grandes figuras femininas, que foram as “sinharas” e que tanta 
influência tiveram na costa ocidental 
africana,  em particular  nos Rios da Guiné, 
entre  o século XVI e finais do século XIX. 

Essas mulheres que eram na sua maioria crioulas, geriam com enorme maestria os negócios dos seus maridos europeus ou eurodescendentes, resolvendo conflitos, realizando pactos com as autoridades locais, de modo a que as actividades comerciais decorressem sem delongas e fossem coroadas de êxito. 

A sua condição de crioula, dava à “sinhara” uma capacidade negocial ímpar, pois sendo detentora de uma dupla identidade cultural, era com facilidade que fazia a ponte entre as populações locais e os alógenos,  nomeadamente os europeus. 

Ficaram famosas na Guiné algumas dessas “sinharas” como:

  • a Bibiana Vaz, 
  • a Aurélia Correia conhecida por “mamé Aurélia”, 
  • a Júlia Silva Cardoso também conhecida como “mamé Júlia” 
  • e a Rosa Carvalho Alvarenga, mãe de Honório Pereira Barreto, 

entre muitas outras. 

Leopoldina Ferreira, vulgo “Nha Bijagó”, é em meu entender uma das últimas grandes “sinharas” da Guiné, pois o seu perfil enquadra-se na perfeição no papel desempenhado por essas influentes mulheres africanas, referenciadas por diversos autores como foi o caso de:

  •  André Álvares d’ Almada na sua obra “Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde” de 1594
  •  ou de George E. Brooks com “Eurafricans in Western Africa” publicado em 2004 
  • ou ainda Philip J. Havik com “Trade in the Guinea-Bissau Region: the role of african and luso-african women in the trade networks from early 16th to the mid 19th century” publicado em 1994, 
para apenas citar alguns.

(...) Um aspecto particularmente interessante nesta obra de A. J. Estácio, é a ligação cronológica que o mesmo faz, entre importantes acontecimentos políticos, administrativos e militares, que tiveram lugar na então Guiné Portuguesa, e as diversas fases etárias da biografada, ainda que esses factos não tenham qualquer ligação directa com a personagem tratada neste livro! 

O autor quis desse modo, dar-nos a conhecer alguns factos da história da então colónia/província da Guiné, que tiveram lugar entre 1870 e 1959, período que abarca a vida de “Nha Bijagó”  (...)

(...) Com esta publicação, António Júlio Estácio, revela-nos mais uma vez, o seu grande apego e dedicação às coisas e às gentes da terra que o viu nascer. (...)

Eduardo J. R. Fernandes, "Prefácio" (**)

[O Eduardo Fernandes foi amigo e condiscípulo do autor no Liceu Honório Barreto, em Bissau, e na alutra, em 2011, era comentador da RDP África].

Leopoldina Ferreira,
Nha Bijagó
(1871-1959)
2. Leopoldina Ferreira Pontes, "Nha Bijagó"  (Bissau, 1871 - Bissau, 1959) e a cronologia da cidade de Bissau

Aproveitando a vasta e valiosa pesquisa historiográfica do António Estácio, uma homem de várias pátrias (Guiné-Bissau, Portugal, Angola, Macau...) vamos aqui recolher e sintetizar algumas datas marcantes do desenvolvimento urbano de Bissau, correspondente ao período em que viveu a "Nha Bijagó" (1871-1959), acrescentando mais algumas de outras fontes:


(i) Leopoldina Ferreira (Pontes, pelo primeiro casamento...) nasceu em Bissau em 4 de novembro de 1871

(ii) era filha ("ilegítima", segundo a terminologia do  Código Civil em vigor na época, o de 1866) de João Ferreira Crato (natural do Crato, Alto Alentejo, comerciante na Guiné);

(iii) morreu aos 87 anos, em 26 de maio de 1959;

(iv)  o nominho Nha Bijagó deve tê-lo recebido da mãe, Gertrudes da Cruz (de etnia bijagó, natural de Bissau);

(v) pouco antes de ela nascer, em 1871, o 18º Presidente dos Estados Unidos da América, Ulysses Simpson Grant , proferiu a sentença referente à posse da ilha de Bolama, pertencente ao, então, distrito da Guiné, favorável a Portugal o que pôs termo ao conflito se arrastava com os ingleses;

(v) nessa altura Bissau era uma povoação encravada entre a fortaleza de S. José e um muro, com 4 metros de altura;

(vi) a igreja e o cemitério ficavam no interior da Amura;

(vii) de entre as poucas ruas e ruelas, extra-muros, a Rua de S. José era considerada como a artéria mais importante: a do portão da Amura, que estava aberto das 8 às 21h00, ao baluarte da Bandeira; após o 5 de outubro de 1910, passou ser a Rua do Advento da República; depois, a Rua Dr. Oliveira Salazar e, após a independência e a 21 janeiro  de 1975 a Rua Guerra Mendes; funcionaca como "passeio público" e tinha casas de sobrado

(viii) em 1872, tinha ela cerca de um ano "quando as ruas de Bissau começaram a ser iluminadas a petróleo" mas ainda eram "poucos os candeeiros";

(x) a 1877, foi criado o concelho de Bissau, sendo de 573 habitantes a população na área murada, composta por :

  • 391 nativos, 
  • 166 oriundos de Cabo Verde 
  • e, apenas, 16 europeus.

(xi)  em 1879, ainda a Nha Bijagó não tinha completado os oito anos, foi “a sede do Governo transferida para Bolama";

(xii) no dia 3 de agosto do mesmo ano, assinou-se o tratado de cessão a Portugal do território de Jufunco, ocupado pelos Felupes;

(xiii) pouco antes de Leopoldina completar os 12 anos de idade, 1883, foi publicado o decreto que dividiu a província da Guiné  em quatro circunscriçõess, criando-se assim os concelhos de Bolama, Bissau, Cacheu e Bolola. 

(xiv) tinha ela 14 anos quando Portugal e a França celebraram [ em Paris, em 1886] a convenção referente à delimitação das possessões dos 2 países na África Ocidental e que correspondem às atuais Repúblicas do Senegal, Guiné-Conacri e Guiné-Bissau;
.
(xv) as más condições climatéricas, agravadas pela insalubridade da região, dizimavam a população de tal modo que, em 1886, Bissau era o menos povoado de todos os aglomerados urbanos da Guiné;

(xvi) tinha Nha Bijagó já 18 anos quando foi, então, lançada, em 1889,  a primeira pedra para a tão almejada ponte-cais; (foi designada  por ponte Correia e Lança, em homenagem a Joaquim da Graça Correia Lança  Governador da Guiné., de 1888 a 1890)

(xvii) ano e meio depois, em fevereiro de 1891, o chefe dos Serviços de Saúde defendia que a capital deveria regressar à ilha de Bissau, ainda que para local ligeiramente diferente, isto é, puxando-a para a zona de Bandim que se situava “em terreno suficientemente elevado e com vertentes para a praia arenosa.”, o que, em termos de drenagem e salubridade, era, indubitavelmente, vantajoso; 

(xviii) à beira de completar 22 anos, registaram-se, no interior da fortaleza, dois incidentes graves, em 1893:

  •  o incêndio da enfermaria militar  (13 de janeiro) (vd. planta, 3);
  •  uma explosão (em 9 de maio);

(xvix) a 7/12/1893, a vila sofreu um grande cerco, movido por elementos da etnia Papel a que se juntaram os Balantas de Nhacra;

(xx) em 1894, é demolida uma  parte do muro de 4 metros de altura que ia do Fortim Nozolini ao Baluarte da Balança (vd. planta, 11, 13), com o objetivo de se construir uma igreja católica;

(xxi)  por volta dos seus 25 anos, dada a elevada densidade populacional intramuros, o governador Pedro Inácio Gouveia autorizou “o aforamento de, terrenos no ilhéu do Rei”,  tendo, em 1900, ali, chegado a ser instalado um lazareto; 

(xxii) a implantação da República em Portugal levou à mudança do Governador e, em 1912/13, o primeiro-tenente Carlos de Almeida Pereira manda demolir o muro que constrangia a expansão urbana;


Guiné > Bissau > s/d > Av República (hoje Av Amílcar Cabral), com placa central guarnecida  com árvores, que nos anos 50 seria removida, dando lugar a uma ampla avenida, com duas faixas de laterais, arborizadas, destinadas a estacionamento e delas separadas por um passeio. Fonte: António Estácio (2011)
  

(xxiii) Com a República há mudanças na toponímia:

  • Rua de S. José > Rua do Advento da República
  • Rua do Baluarte da Bandeira > Rua Almirante Reis
  • Travessa Larga > Travessa do Dr. Miguel Bombarda
  • Travessa da Botica > Travessa 5 d’ Outubro
  • Travessa da Ferraria > Travessa Honório Barreto;

(xxiv) depois da "campanha de pacificação" do cap João Teixeira Pinto (1913/15),  Bissau é finalmente  objeto dum plano de urbanização que lhe permitiu crescer de forma disciplinada e segundo malha ortogonal bem definida;

(xxv) a autoria do plano é do tenente-coronel engenheiro José Guedes Viegas Quinhones de Matos Cabral que, no início da década de vinte, seria o director das Obras Públicas na Guiné;

(xxvi) para além do Mercado Municipal e do Cemitério, por detrás do Hospital, etc., procedeu-se ao aterro e à regularização do molhe da rua marginal (Rua Agostinho Coelho, numa evocação do primeiro governador da Guiné)  e à construção do edifício-sede da Alfândega;

(xxvii) ao completar Nha Bijagó os seus 62 anos, teve lugar, em 1933, a transferência da sede da comarca judicial da Guiné, que passou de Bolama para Bissau;

(xxviii) em 1934, procedeu-se ao lançamento da primeira pedra para a construção do monumento ao Esforço da Raça, da autoria do Arq Ponce de Castro; as pedras foram enviadas do Porto e o monumento foi inaugurado em 1941; o único monumento colonial que resistiu ao camartelo revolucionário;



Guiné > Bissau > Fortaleza da Amura > Baluarte da Puana > c. 1900 > Tropas expedicionárias (Foto do domínio público. Coleção Jill Rosemary Dias, em Memórias de África e do Oriente > Cortesia der Wikimedia Coommons)


Fortaleza da Amura. Foto de Manuel Coelho (c. 1966/68)


(xxix) em 1936, a Associação Comercial e Industrial da Guiné cedeu ao Estado o terreno que lhe fora concedido, o qual se destinava à sua sede e ficava em frente ao  edifício do Banco Nacional Ultramarino, para no local se construir um grande edifício onde, a par do Tribunal, foram instalados os Serviços de Administração Civil, assim como os Serviços de Fazenda;

(xxx) em 1939 foi a Fortaleza de S. José, vulgo Amura, classificada como Monumento Nacional

(xxxi) em finais da década de 30 foi celebrado o contrato para a realização dos estudos de abastecimento de água, melhoramento que só se viria a concretizar  na segunda metade da década  de 40;

(xxxii) transferência da capital de Bolama para Bissau,  em 19 de dezembro de 1941;

(xxxiii) em 1945 toma posse o novo governador, Sarmeno Rodrigues. (***)

 (xxxiv) em meados dos anos 40:

  • efetua-se um novo projecto de urbanização;
  • mudam de nome  as vilas de Canchungo (Teixeira Pinto) e Gabú (Nova Lamego)
  • procede-se à construção do depósito de água no Alto de Intim
  • assim como do Palácio do Governador; 
  • constroem-se moradias no “Bairro Portugal”
  • surge o Bairro de Santa Luzia; 
  • deu-se início à edificação da Catedral, do Museu e Biblioteca, etc.
(xxxv) procedeu-se à colocação de estátuas como a do navegador Nuno Tristão, a de Teixeira Pinto, a do grande guineense Honório Pereira Barreto, etc.

(xxxvi) a Rua Honório Barreto foi, na Guiné, a primeira a ser asfaltada e reabriu em 6/4/1953;

(xxxvii)  de tudo isto e a muito mais Nha Bijagó foi contemporânea, como de:

  • a conclusão da nova ponte-cais, inaugurada em 18/5/1953 pelo Subsecretário de Estado Raul Ventura, 
  • a construção do aeroporto em Brá e à sua transferência para Bissalanca; 
  • a visita do Presidente da República Craveiro Lopes; 
  • a  inauguração do edifício situado na, então, Praça do Império, onde ficou a sede da Associação Comercial e Industrial da Guiné, etc. (****)

Fonte: Adapt. livre de António Estácio - "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il,).

[Selecão / revisão / fixação de texto para efeitos de edição no blogue: LG]



Nova ponte-cais (1953) e estátua de Diogo Gomes.
Postal ilustrado, edição Foto Serra.



Guiné > Bissau > s/d  > "Monumento ao Esforço da Raça. Praça do Império"... Bilhete postal, nº 109, Edição "Foto Serra" (Colecção "Guiné Portuguesa")



Guiné > Bissau > s/d  > "Praça Honório Barreto e Hotel Portugal"... Bilhete postal, nº 130, Edição "Foto Serra" (Colecção "Guiné Portuguesa")

Colecção: Agostinho Gaspar / Digitalizações: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).



Guiné- Bissau > Bissau > c.  2010 > Vista aérea do centro histórico: Av Amílcar Cabral (antiga Av da República, que partia da Praça do Império), ao fundo o cais do Pijiguiti (ou Pindgiguiti, como se escreve agora...), o porto de Bissau,  o ilhéu de Rei... Em primeiro plano, à esquerda, o edifício da administração civil da época colonial, hoje sede o ministério da Justiça.  O edifício a seguir, branco, no cruzamento da Av Amílcar Cabral com a Rua 19 de Setembro ea então o da  RTP África (antiga localização do Café Bento / 5ª Rep).



Guiné- Bissau > Bissau > c. 2010 > Vista aérea do centro histórico: Av Amílcar Cabral (antiga Av da República, que partia da Praça do Império). Em primeiro plano, a Catedral de Bissau.

Fotos:  © Virgílio Teixeira (2019). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
























_____________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:




 

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26522: Humor de caserna (104 ): "Ontem fui ao Pilão, o que não quer dizer que fui às p..." (Bissau, 16 de dezembro de 1973, in: António Graça de Abreu, "Diário da Guiné", Lisboa, Guerra e Paz, 2007).




Guiné-Bissau > Bissau >  Planta de Bissau (edição, Paris, 1981) (Escala: 1/20 mil) > Posição relativa do bairro do Cupelon,. ou "pilão", como diziam os "tugas".. Fica(va) à esquerda da nossa conhecida estrada de Santa Luzia, portanto paredes meias com o QG/CTIG, em Santa Luzia... O Pilão fazia parte das nossas geografias emocionais...





Capa do Livro Diário da Guiné - Lama, Sangue e Água Pura. 
Lisboa: Guerra e Paz, Editores. 2007.


1. O nosso camarada António Graça de Abreu (ex-alf mil, no CAOP 1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, jun 1972/ abr 74), enviou-nos há muitos anos (há 17)  alguns excertos (e depois cópia integral do seu "Diário da Guiné", com autorização de reprodução no nosso blogue).

Há uma entrada sobre o Pilão. Merece ser reeditada depois da "crónica" do Abílio Magro sobre os seus "desastrados" patrulhamentos nocturnos naquele bairro...

Temos apenas umas trinta e tal referências sobre o Pilão: famigerado, para uns; triste, para outros, vergonhoso, para os mais puritanos e conservadores... Houve um presidente da Câmara municipal de Bissau, o major Matos Guerra, que por volta de 1966 o quis arrasar (segundo  o comerciante Carlos Domingos Gomes, "Cadogo Pai", vereador na altura) ... Ainda bem que prevaleceu o bom senso... (A ideia teria partido do próprio Governador e Comandante-Chefe, Arnaldo Schulz: alegava-se que o Pilão era umn "ninho de terroristas.)

O Pilão existia no nosso tempo...Era um bairro de gente honesta, como todos os nossos bairros populares... Mas ficava já fora do asfalto, com ruas de terra batida e moranças, mais ou menos alinhadas, em geral feitas de adobe, com cobertura de colmo, umas, as mais pobres, ou de chapa de zinco, as dos menos pobres... 

Em 1970, deviam morar em Bissau umas 70 mil pessoas, com a tropa incluída... (Não sabemos quantas no Pilão ou Cupelom)... 55 anos depois é preciso multiplicar por sete a população dos bissauenses...

Em 1973, quando o António Graça de Abreu passou por lá (como quase todos passámos, não havia museus nem monumentos para visitar  nas horas de cultura e lazer da nossa tropa), era mais ou menos equivalente ao nosso Bairro Alto dos anos 50, só com a diferença de que aqui havia "casas de passe" (proibidas pela hipocrisia da época a partir de 1963)... 

Dizer que o Pilão era um gigantesco bordel é um insulto parar os seus habitantes da época... E para as NT. E que se cortavam cabeças de "tugas", era outra enormidade... Que havia alguma animação noturna por aqueles lados, havia, e às vezes alguns distúrbios: não vale a pena negar, escamotear, branquear a realidade de uma prostituição, tolerada, a começar pelas autoridades militares e civis...e pelo próprio PAIGC (viviam lá simpatizantes e militantes, dizia-se)...

Nunca houve cabeças cortadas no Pilão, e a própria prostituição fazia parte da economia de guerra exercida sobretudo por cabo-verdianas, fugidas da miséria das ilhas...Como em todos os teatros de guerra...

Infelizmemnte não há estudos sobre esta realidade dita marginal... e eu até agora ainda estou â espera de descobrir a letra (já não digo a música) do Fado do Pilão, à semelhança do fado do Bairro Alto...

Mas demos a palavra a um dos nossos mais cronistas dessa época.


Diário da Guiné > Bissau, 16 de Dezembro de 1973

Ontem fui às p...!

Nestes dias em Bissau, com tanta tropa à solta, anda tudo num magnífico regabofe. Para estes homens, o fim da Guiné é a loucura. Aqui no “Biafra”, de madrugada ainda havia alferes a cair de bêbados, entrando pelos quartos em gritarias e choradeiras de pasmar. Não deixavam ninguém dormir.

Ontem o meu serviço foi fazer companhia ao alferes Tomé, meu antigo companheiro de quarto em Teixeira Pinto e em Mansoa. Era o seu último dia na Guiné, embarcou hoje para Lisboa no avião dos TAM e passou comigo as horas da derradeira festa guineense.

Fomos os dois até lá baixo à cidade, depois jantámos, bebemos bem e, entre pesaroso e alegre, o Tomé desatou a contar-me as suas aventuras com uma prostituta cabo-verdiana que o andava a encher de ilusões, ou o Tomé a ela. 

A rapariga gostava dele, sempre que vinha de Mansoa a Bissau ia visitá-la, de sexta para sábado dormiu a noite toda em casa da beldade, a menina desembrulhava-se em bolanhas de ternura e desdobrava-se em arrozais de dignidade. Existiria qualquer coisa de verdade nesse relacionamento oblíquo. A rapariga deve ter adivinhado no Tomé um homem que não lhe comprara apenas prazer para vinte minutos e talvez tenha gostado dele. 

Ontem o Tomé foi-se despedir e levou-me para eu conhecer a pérola dos seus sonhos reais. A moça tinha bom aspecto, pequena, redonda, um rosto suave e sorridente onde não se adivinhava o labor da mais velha profissão do mundo. O Tomé abraçou-a, entrou na casa dela e dedicou-se de imediato aos prazeres carnais, ia pela última vez comer o chocolate claro da sua princesinha.

Eu fiquei cá fora, à espera, aí uns quarenta e cinco minutos encostado a um monte de sucata, a carcaça desfigurada de um carro velho. Entretive-me a olhar à volta. Estava no Pilão, um bairro de Bissau habitado por muita miséria e alguma prostituição. 

O lugar é sujo, tem pouca luz e dizem os entendidos que é perigoso à noite. Ontem, sábado, havia muita tropa branca a fazer as despedidas da Guiné, à procura dos últimos prazeres do sexo negro ou mulato para levarem como recordação para Portugal. As prostitutas do Pilão trabalhavam heroicamente. Na casa em frente, vi uma mulher aviar três gajos em pouco mais de meia hora, entravam, saíam uns atrás dos outros. 

Não sou propriamente um puritano mas tudo aquilo com exceção da rapariga do Tomé, parecia boa menina me deixou um travo a desgosto, desconforto e imundície.

Enquanto esperava, uma das prostitutas meteu-se comigo. Chegou saracoteando-se dentro de um vestidinho vermelho, dengosa, um perfume barato, meloso, agarrou-me no braço e disparou: 

− Vá, amor, vem f...! 

Disse-lhe: 

− Não posso, já f.... 

Resposta pronta: 

− Vai apanhar no c... !

Andei pelo Pilão a cirandar junto às putas mas não fui às putas, não faz parte dos meus hábitos. E não segui o interessante conselho da prostituta do perfume oleoso e reles. Apanhar no c... também não faz parte dos meus hábitos. (...)

 

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos: MR / LG)
____________

Nota do editor LG:

Ultimo poste da série >  23 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26521: Humor de caserna (103): Conversa de barbeiro na metrópole: "Cuidado com o Pilão, um gajo entra e sai de lá com a cabeça debaixo do braço!" (Abílio Magro, ex-fur mil, CSJD/QQ/CTIG, set 734 / set 74)

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26517: As nossas geografias emocionais (46): Quem se lembra do Café Portugal, junto ao Hotel com o mesmo nome, na Praça Honório Barreto (hoje Che Guevara) ?


Guiné-Bissau > Bissau > 1993 > Postal ilustrado: (i) em cima, várias paisagens do país; (ii) em baixo:  o edifício onde era o antigo Café Portugal (à direita), junto ao Hotel Portugal, na antiga Praça Honório Barreto (rebatizada Pr Che Guevara, a partir de 1975)... A escultura do Honório Barreto já há muito tinmha sido derrubada... É uma das raras imagens que temos deste estabelecimento... (Ninguém se lembrava de tirar fotos às fachadas dos "tascos" lá do sítio...).

Este postal foi trazido pelo ex-fur mil António J. P. Magalhães, infelizmente já falecido: pertencia ao 1º Gr Comb CART 1525, Os Falcões (Bissorã, 1966/67) (grupo de combate comandado pelo ex-alf mil Rui César S. Chouriço) e terá sido dos nossos primeiros camaradas a fazer uma "viagem de saudade" à Guiné-Bissau, depois do fim da guerra, em 1993.

Foto (e legenda): ©  António J. P. Magalhães (1993). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Bissau > Praça Che Guevara > 2008 > Antiga Praça Honório Barreto. Foto do domínio público, cortesia de Wikipedia.

Guiné > Bissau > s/d [. c 1969/70] > "Praça Honório Barreto e Hotel Portugal"... Bilhete postal, nº 130, Edição "Foto Serra" (Coleção "Guiné Portuguesa") (Detalhe). Coleção: Agostinho Gaspar / Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010)

Agora a Praça chama-se Che Guevara... e o antigo Hotel Portugal era, em 2008,  o Hotel  Kalliste (que também funcionava como casino)...


1. Antes que desapareçam, definitivamente das nossas memórias (*) (e dos nossos álbuns fotográficos), vamos lembrar aqui algumas referências ao Café Portugal, que fazia parte do roteiro dos nossos "comes & bebes" em Bissau, a par de outros já falados: Café Bento ou 5ª Rep, Café e Pastelaria Império, Café Ronda, Cervejaria Solmar, Solar dos 10, Zé da Amura, Grande Hotel,  Pelicano, Nazareno,  Chez Toi, etc.

O Café Portugal não existe mais, tal como o Café Bento,  a Solmar, o Pelicano, etc. Eram tudo lugares da "Bissau Velho", colonial, que prosperaram com a guerra e durante a guerra... Depois da independência, os seus donos arrumarama as malas, e deixaram lá as paredes...

Bissau Velho, símbolo do colonialismo, foi votada ao desprezo e abandono... Os bissauenses, os velhos e os novos, também não tinham "patacão" para gastar nas esplanadas...Deixou de haver esplanadas... E  à noite, não havia iluminação pública... 

Enfim, era preciso construir um "país novo", um "homem novo", uma "pátria nova"... Agira com a ajuda dos suecos, dos russos, dos cubanos... Os "tugas" só passaram a fazer "turismo de saudade" a partir do final do século XX... Bissau Velho tinha poucos ou nenhuns atrativos para estes "saudosistas"... Preferiam calcorrear o mato, à redescoberta de lugares de que tinham boas e más memórias...(Sabe.se que no final da guerra as NT tinham uma de rede de cerca de 220 guarnições e destacamentos, fora as tabancas em autodefesa e onde com maior ou menor regularidade também havia reforço da tropa...)

Alguns dos nossos camaradas deixaram, no blogue,  referência breves, pontuais,  ao Café Portugal, dos anos 60 e princípios de 70. Eis um apanhado:


(i) Nuno Mira Vaz, hoje cor pqdt ref, antigo comandante do CCP 121 / BCP 12  (Brá, 1966/68):

(...) Recordo o Quartel de Santa Luzia com a piscina de águas tão espessamente esverdeadas que nada se via a dez centímetros de profundidade, o UDIB onde passavam filmes de cowboys, a Associação Comercial com os torneios de bridge e o naipe de restaurantes e cervejarias: o Café Portugal, o Zé da Amura, o Solar do Dez e o Grande Hotel. (...) (**)

(ii) Veríssimo Ferreira (1942-2022) (ex-fur mil, CCAÇ 1422 / BCAÇ 1858, Farim, Mansabá, K3, 1965/67) 

(...) As noites eram famosas e já apareciam simulacros de boites. Em momentos vagos, visitei a Sé, o Liceu,  o palácio do Governador (Arnaldo Schutlz, então), o Pilão, a  fábrica da gasosas, o Café Portugal, o Pintosinho, a Ultramarina, a casa Gouveia, o  BNU, a  rádio,  as tascas que serviam ostras ao natural, as..., enfim!!! (..) (***)

(iii) Álvaro Mendonça de Sousa, ex-fur mil, Manutenção Militar, 1966/68, e que mora em Ermesinde:

(...) E as escapadelas ao Bairro do Cupelon [ou Pilão], e as noitadas da cerveja e das ostras no Café Portugal? E as codornizes fritas do Zé da Amura? Que será feito do célebre Hotel Berta, onde se comiam os melhores gelados do Mundo? Mas o que mais me emocionou foi ver, através das fotos, o estado de ruína desta cidade de terra vermelha. 

Ao lembrar-me de tudo isto e ao escrever estas linhas não consegui travar algumas lágrimas. Sobretudo, porque à distância de quarenta anos no tempo, não mais consegui reunir todos os camaradas desse tempo, todos esses amigos que, como muito bem sabe, eram a nossa família de afinidade durante 24 os 25 meses de comissão. (...). (****)

(iv) Carlos Pinheiro (ex-1.º Cabo TRMS Op MSG, Centro de Mensagens, STM/QG/CTIG, 1968/70)

(... ) Tínhamos, na Praça Honório Barreto: o Internacional, o Portugal e o Chave de Ouro, tudo cafés/cervejarias mas também onde se comiam umas febras ou uns bifes, quando havia. (...) 

(v) David Guimarães (ex-fur mil at inf, MA, CART 2716 / BART 2917, Xitole, 1970/1972):

(...) Daqui a pouco, ilha do Sal e logo depois Bissalanca... e lá estávamos nós outra vez na Guiné... Caminho para a pensão Chantra - ou Chantre, já não me lembro… Bom, não interessa, era uma residencial onde se dormia. Que não era má e sobretudo não era cara, aliás nada era caro naquela terra ... para quem tinha dinheiro. E isso havia. Uma coisa: os graduados tinham, os outros nem tanto, parecia injusto, mas enfim...

Café Portugal ... que lindo, comprámos uma navalha cada um, três estalos (é que as havia de cinco). Aquela era de três. Mais um ronco... Aproveitei e comprei um relógio Seiko: que maravilha, trabalhava bem, o outro que eu tinha já havia apanhado água do rio Poulom (...).

À noite, uma volta... Sim,  lá para o escuro, para lados de Pilão... Porra, a certa altura uma mulher a gritar por não sei quem... Poça, vamos lá, era o único lugar com luz... De trás da árvore surge uma voz:

- O
h furriel, furriel!?

Furriel ?... Mas nós estávamos à civil !... Bem, lá atendemos às solicitações da mulher, nem sei o que ela queria, e afastámo-nos rapidamente para os lados da luz, os canivetes de 3 estalos abertos no bolso… Correu tudo bem, lá chegámos à residencial... Bem, aconteceu nada, mas como é que nós éramos furriéis, vestidos à civil? Fiquei a matutar nessa:

- Mistério… (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)

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Notas do editor LG:




(***) Vd. poste de 3 de março de 2013 > Guiné 63/74 - P11188: Os melhores 40 meses da minha vida (Veríssimo Ferreira) (27): 28.º episódio: Memórias avulsas (9): Do inferno para o céu

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26469: As nossas geografias emocionais (41): Bissau Velho: o antigo Café Bento, "revisitado" pela mão do nosso cicerone Carlos Silva (cofundador e dirigente da ONGD Ajuda Amiga)



Foto nº 1  e 1 A> Guiné-Bissau > Bissau > Av Amílcar Cabral > s/d  > Vista aérea da "Bissau Velha" ou ""Bissau Bedjo"  

Não sabemos de quem é a autoria da foto, de resto de fraca resolução. Nem a data.  Foi publicado 6 de fevereiro de 2021, ainda em tempo de pandemia,  na página do Facebook do nosso grão-tabanqueiro Carlos Silva, um dos nossos camaradas  que melhor conhece Bissau e a Guiné-Bissau. 

A essa postagem ele chamou "Recordações; Pontos de Referência>Comparações Bissau: Café Esplanada Bento ou 5ª Rep": Legenda do Carlos Silva: "Nesta foto aérea dá para ver à direita toda a área que foi a Esplanada do Bento, onde se vê o prédio em curva que é da RTP e a cobertura da Galp".

Tomamos a liberdade assinalar a amarelo alguns pontos de referência da "baixa" de Bissau:  além do antigo edifício da RTP - Africa (1)  (construído no local onde foi o antiga Café  Bento / 5ª Rep), e do poste de combustível da Galp (2), podemos ver a Catedral (5), o Hotel Coimbra, de 3 estrelas  (antigo edifício do estabelecimento Nunes & Irmão Lda)  (4),,  e ainda  a antiga sede da administração civil, do nosso tempo (3).  A delegação da  RTP - África tem entretanto novas instalações, inauguradas em 18/5/2021, no "chão de papel" (Rua de Angola, 78).

 

Foto nº 2  > Guiné-Bissau > Bissau > Av Amílcar Cabral > s/d >  O posto da Galp, na confluència da Av Amílcar Cabral, à esquerda,  e da Rua António Nbana, à direita...Por detrás, ainda se vê uma ponta do  edifício que foi, até 2021, a sede da delegação da RTP-África na Guiné-Bissau.



Foto nº 3  > Guiné-Bissau > Bissau  > s/d > "Cá está o prédio da RTP sendo esta fachada virada para outra rua"... Rua António Nbana, acrescentamos nós (antiga Rua Tomás Ribeiro)




Infografia: António Estácio (1947-2022)  / Blogue Luís Graça / Camaradas da Guiné (2025)

O nº 1 era o Café / Cervejaria Bento (e depois RTP- Africa)



Foto nº 4  > Guiné  > Bissau  > s/d > Provavelmente um postal ilustrado da década de 60 > "Estátua de Nuno Tristão e a zona das árvores era a esplanada do Bento/5ª Rep", à direita. A Casa Gouveia à esquerda. Era aqui que começava a antiga Av da República que ia desembocar na Praça do Império (hoje respetivamente Av Amílcar Cabral e Praça dos Heróis da Independência, segundo a toponímia de 1975).


Foto nº 5 > Guiné  > Bissau > c. 1971/73 > "Estátua de Nuno Tristão,  e a zona das árvores era a esplanada do Bento/5ª Rep. O prédio à esquerda  era a Casa Gouveia e, após a independência da Guiné, passou a Armazéns do Povo. Presentemente estão lá instalados serviços públicos. E já agora reparem no edifício cinzento para verem a sua transformação na foto seguinte". 

Foto de Zeca Romão e legenda do Carlos Silva. (O José Romão foi fur mil at inf, CCAÇ 3461 / BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, e CCAÇ 16, Bachile, 1971/73; vive em Vila Real de Santo António.)


Foto nº 6 >  Guiné-Bissau > Bissau  > s/d  (pós-independência" >  Ex-Av República, atualmente Av Amilcar Cabral. A zona da então Esplanada do Bento está ocupada com a bomba de gasolina Galp e com o edifício da RTP que se vê em parte a branco. No edifício que referi na foto anterior (nº 5, do Zeca Romão) 
 acrescentaram uma esplanada".



Foto nº 7  > Guiné  > Bissau  > s/d > Provavelmente um postal ilustrado da década de 60 > "Estátua Nuno Tristão e à direita  a esplanada".




Foto nº 8 e 8A > Guiné.Bissau > Bissau  > s/d (pós-independència) > "Zona da Esplanada Bento onde está a Galp e prédio que referi nas fotos anteriores"... Â direita, o busto de Amílcar Cabral.




Foto nº 9  > Guiné  > Bissau  > s/d (c. 1969/71)  >  Café Bento >   "Aqui temos à direita  os nossos camaradas da CCaç 2548, fur Domingos Tavares e fur Aníbal Leça, este infelizmente já falecido"... À direita, de óculos, o Carlos Silva.


Fotos (e legendas): © Carlos Silva (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  É mais um contributo precioso para nos ajudar a reconstruir as nossas memórias do mítico Café Bento / 5ª Rep do nosso tempo, e da sua esplanada, no início da antiga Av da República (a principal de Bissau).

E nada melhor do que  sermos ciceroneados, nesta visita virtual,  pelo Carlos Silva, o camarada da Tabanca Grande que melhor pode e sabe fazer a ligação entre a Bissau do "antigamente" e a Bissau de hoje, cidade que não estagnou no tempo, bem pelo contrário tem vindo a crescer e a transformar-se, como ele tem documentado na sua página do Facebook. É  hoje uma cidade de média dimensão aproximando-se do meio milháo de habitantes (teria 70 mil em 1970).

 Recapitulando esta e outras "visitas": o antigo café Bento, cujo edifício original, de um só piso,  não existe mais, ficava no início da Av da Republica (hoje Av Amílcar Cabral, que principia justamente na Praça Pindjiguiti, onde se ergue  ou erguia há uns anos um  monumento com o busto do "pai da Pátria", Amílcar Cabral)... 

Na altura em que as fotos do pós-independência foram tiradas, ainda não existiria o monumento aos "mártires do Pindjiguiti",  Mon di Timba ou Sinku Dedus, no lado direito da praça do Pindjiguiti (inaugurado em 2015, se não erramos.)

Obrigado ao Carlos Silva e ao José Romão. 

Refira-se, ainda, que o  Carlos Silva foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 2548/BCAÇ 2879 (Jumbembem, 1969/71): advogado, natural de Gondomar, régulo da Tabanca dos Melros, com c. 150 referências no nosso blogue, para o qual entrou em 20/7/2007, é também cofundador da ONGD Ajuda Amiga (e no biénio de 2024/25, seu presidente da Mesa da Assembleia Geral).


2. Comentário adicional do editor LG:

Alguns leitores (e sobretudo os que, não tendo sido combatentes nem tendo passado pela Guiné) poderão ser levados a pensar que há uma obsessão, algo mórbida e passadista, da nossa parte, por estes lugares da "má vida" em Bissau, isto é, do dia e da noite, dos comes & bebes, frequentados pelos militares que estavam aquartelados em Bissau ou que em estavam em trânsito por Bissau (pelas mais variadas razões: serviço da sua unidade, justiça e disciplina, consulta hospitalar, marcação de voo na TAP, ida ou chegada de férias,  "desenfianço",  gozando as "delícias do sistema", etc.).  

Boa parte destes sítios já não existem, o que seria de esperar, com o regresso dos soldados e a independência da Guiné-Bissau, em 1974.

Surpreendentemente este tipo de memórias, a que chamamos as "nossas geografias emocionais",  mexem mais com os antigos combatentes do que os relatos, muitas vezes chatos, da guerra, da atividade operacional ou da historiografia da presença portuguesa nestas paragens.  Noutra ocasião irremos selecionatr e publlicar comentários que foram postados na nossa página do Facebook, Tabanca Grande Luís Graça.

Mas há um comentário que me sensibilzou em especial, o do camarada Oliveira Miranda, no blogue, ao poste P26461 (**):

(...) "Parabéns ao editor deste comentário que me deixou emocionado, pois o café Bento era o local onde tomava a minha cerveja, chegado do hospital militar onde estava em consulta após ser ferido em combate. 

"Ainda revejo, passados 55 anos,  as piruetas que os meninos faziam com a escova de engraxar, embora ao lado via a miséria de leprosos a pedir uns pesos (moeda local). 

"Passado é passado, mas não esqueço a fome,  a peste e a guerra que alguns de nós vivemos no mato. Saudações a todos os vivos e paz àqueles que já partiram.


Uma imagem é sempre poderosa, pela capacidade de gerar recordações e emoções, como foi o caso do Oliveira Miranda (camarada, és bem-vindo, aparece mais vezes e, se quiseres, junta-te a nós). (***)

Já agora. Carlos Silva e Zeca Romão, têm  aqui mais uma foto para a vossa coleção: a do polícia sinaleiro que no incío da Av da República regulava o "trânsito" de Bissau... Uma delícia.




Foto nº 10 > Guiné > Bissau > s/d (c. fev / abril de 1970) > Av da República... Detalhe a registar: do lado direito, vê-se a bomba de gasolina que na época era da Shell, e tapada pelo arvoredo a esplanada do Café Bento.

Foto do belíssimo álbum do Jaime Machado, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, maio de 1968 / fevereiro de 1970, ao tempo dos BART 1904 e BCAÇ 2852)


Foto (e legenda): © Jaime Machado (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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