sábado, 19 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24568: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (39): Lagoa de Óbidos, Bom Sucesso: Enguias fritas no "Covão dos Musaranhos"



Lagoa de Óbidoa > Bom Sucesso > Restaurante, bar e esplanada Covão dos Musaranhos : 19 de agosto de 2023 > Uma dose de enguias fritas, com alho e molho especial... Só comidas com pãozinho, e acompanhadas com um copo de branco.

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça


1. O verão puxa aos petiscos. E de preferência com sabores a mar. Ainda hoje descobri aqui um sítio convidativo ao convívio e ao petisco, o restaurante, bar e esplanada sobranceiro à lagoa de Óbidos, no Bom Sucesso, Vau, Óbidos, o  "Covão dos Musaranhos"... 


Tem página no Facebook. Contacto: 927 661 657 / 262 969 930. A apreciação dos clientes não é unânime, vai do fantástico ao horrível (nomeadamente o serviço). O cardápio também não é muito variado. É o único local onde se come... naquele sítio... que é paradisíaco, e muito procurado pelos aumentos de "paddle".

Eu há anos que não comia enguias fritas E aqui comi, hoje. Com alho e um molhinho que não descobri exatamente o que era.  Garantiram-me que era da lagoa... Foi o meu almoço.  Não toquei em mais nada do que estva na mesa: salada de polvo, amêijoas à Bulhão Pato, sardinhas assadas... Queria ficar só com o gostinho das enguias fritas... (Amêijoas da lagoa de Óbidos arranjo com facilidade no mercado da Lourinhã.)

Também fazem ensopado de enguias (2 pessoas: 40 aéreos, passe a publicidade... Como adoro enguias, tenho que lá voltar para provar o ensopado... Se me souber como as enguias à moda da Ria de Aveiro,  que costumava comer na Costa Nova, Ílhavo, com o meu saudoso amigo Zé António Paradela (1937-2023), ficarei feliz da vida. (E será a minha maneira, minha e da Alice, de  também homenagear a memória deste grande ilhavense que foi um dos nossos grandes amigos.)

Fica aqui a sugestão do nosso "vagomestre de serviço". 

Amigos e camaradas, b0m verão, e que Deus Nosso Senhor não vos tire o apetite... 

Continuamos à espera que os nossos 'vagomestres' nos mandem ao menos as fotos dos seus "petiscos de verão"... Comam bem (o que não quer dizer muito...) e partilhem ao menos a vossa fotogaleria... gastronómica. (LG).

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Nota do editor:

Último poste da série > 21 de julho de 2023 > Guiné 61/74 - P24492: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (38): O arroz de lingueirão à moda de Candoz

Guiné 61/74 - P24567: Os nossos seres, saberes e lazeres (586): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (116): Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas! (7) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Junho de 2023:

Queridos amigos,
Depois de um dia passado em Bruxelas, impunha-se a explicação de não se ter feito até agora menção a qualquer estrutura portuária, Bruxelas teve e tem porto, com as grandes alterações introduzidas no centro histórico, do século XIX, para a criação dos grandes boulevards, à moda francesa, e estabelecer uma rede ferroviária de ampla cobertura nacional e internacional, o porto de Bruxelas de hoje tem significado mas perdeu qualquer atmosfera como podemos observar nas gravuras antigas, já por ali passeei e com toda a franqueza vê-se uma vez e chega para o resto da vida. E começou a viagem a Antuérpia, não se visitava aquele museu desde 1991, houve para ali obras de tomo, este 11 anos encerrado, tem um acervo impressionante, obras representativas do que há melhor na arte europeia, funciona agora por conjuntos temáticos, assim que vi o nome de James Ensor, nem hesitei, é santo do meu culto, artista profético, admirador dos meus queridos Bruegel e Bosch, torceu, retorceu e distorceu em tudo que começava no fauvismo e pronunciou o surrealismo, um homem sem escola, um admirável solitário. Aqui lhe presto homenagem, a admiração é imensa.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (116):
Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas ! (7)


Mário Beja Santos

À noite, remexendo no punhado de notas do dia em Bruxelas, ocorreu-me que ainda não houve circunstância de vos referir de que Bruxelas teve um porto de grande importância, hoje reduzido a um conjunto de canais, e, há que o confessar perdeu todo o bulício, a atmosfera que encontramos nas imagens até ao momento em que o rio Senne ficou abobadado depois das grandes mudanças operadas no centro da cidade para garantir a criação dos grandes boulevards e o nó ferroviário que permite ligar Bruxelas a todo o país e a muitas cidades europeias. Um dia, num curso que frequentei de três dias (penso que sobre garantias, vendas fora do estabelecimento e cláusulas dos contratos) a entidade organizadora ofereceu aos participantes um passeio pelo porto de Bruxelas, revelou-se-me coisa insípida, andar num batelão rodeado de edifícios modernaços, armazéns e ancoradouros. No centro da cidade ainda há sinais da vida portuária de antigamente, tudo alvo de gentrificação, há para ali uma bonita linha de água, chamada o mercado do peixe, come-se bem e a bom preço, tornou-se uma atração turística. Enfim, deixo aqui esta nota breve sobre o passado portuário e os seus vestígios atuais, nada de deslumbrante.
Imagem aérea do porto de Bruxelas
O mercado do peixe, hoje local gastronómico por excelência, é uma reminiscência do velho porto de Bruxelas, perto da praça de Santa Catarina
Um dos muitos símbolos da opulência arquitetónica da Antuérpia, espécimen da Arte Nova muito bem intervencionado

O dia de hoje é reservado a Antuérpia. Pelas minhas contas, visitei este museu em 1991, durante a Europália Portugal, aqui se exibiu uma exposição portentosa, denominada “Feitorias”, deu catálogo de luxo, à altura do património riquíssimo e que surpreendeu nacionais e estrangeiros, era inevitável um referência à feitoria de Antuérpia (de que há alguns vestígios) mas a mostra era surpreendente, ali se anunciava um primórdio da globalização, as trocas entre Portugal e a Flandres, da pintura à tapeçaria as marcas de um novo mundo tricontinental. O museu, obra do início do século XIX, conforme se pode ver na imagem, é um gigantesco edifício neoclássico, prima pelo seu acervo monumental de obras de Rubens, e possui uma impressionante coleção de obras de arte desde Foquet até à modernidade. Esteve durante 11 anos em obras, o meu amigo Mathieu de há muito sugeria que aqui viesse, assim aconteceu, comboio da gare central de Bruxelas para Antuérpia, autocarro até às proximidades do museu, descobre-se no regresso que já não há autocarros para a gare ferroviária, aproveita-se para fazer alguns quilómetros para rever a cidade, é fascinante, multicultural, goza de prodígios arquitetónicos, sintetizo tudo numa imagem.
Elementos escultóricos à entrada do Museu Real de Belas Artes de Antuérpia
Pormenor da fachada do Museu Real de Belas Artes de Antuérpia
Alguns elementos decorativos do átrio principal do Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, criado no início do século XIX, esteve agora 11 anos em restauro, conheceu profundas alterações no seu interior, mas mantém-se inalterável a decoração dos tempos da criação.
Elemento novo introduzido para conforto dos visitantes.
O museu não está organizado diacronicamente, isto é, não começamos pelos primitivos e, etapa por etapa, chegamos ao nosso tempo. É um museu de organização temática, e assim que vi a referência às salas dedicadas a James Ensor, não houve hesitação, comecei a visita por aqui, quero informar o leitor que também não há diacronia nestas imagens, e explico porquê. Ensor é santo do meu culto, palpita nos seus trabalhos o anúncio de diferentes correntes artísticas, sente-se a formação académica, a palpitação impressionista, uma certa devoção a monstros sagrados como Bruegel e Bosch, há também indícios indutores do expressionismo e do surrealismo. Lê-se que era um homem reservado, mas não se pode esconder a admiração por todo o trabalho que vai desenvolver em torno das máscaras carnavalescas, mero pretexto para representar com a maior das elasticidades a crítica social, de que é exemplo expressivo o seu quadro A Intriga. Estes primeiros quatro quadros permitem fazer notar o poder da experimentação de Ensor, desde o fauvismo ao surrealismo.
Até chegarmos a este último quadro, A Intriga, mais uma mão-cheia de exemplos de pesquisa, de arte atormentada, de experiências na cor, revoluções na forma. Não será por acaso que Ensor, um belga de ascendência inglesa e flamenga, é considerado um expoente da pintura universal do século XIX, um artista profético, anunciador de alvoradas e escolas, e, no entanto, foi um peculiar solitário que muito novo ganhou asas, a partir do impressionismo, e por vezes de forma arrepiante, parece convocar as grandes tendências que abalaram a pintura do século XX. E feita esta grande saudação a Ensor, vamos palmilhar outras salas, que o leitor fique informado que aqui há largos quilómetros de importantíssimas obras de arte.
(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 12 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24551: Os nossos seres, saberes e lazeres (585): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (115): Oh Bruxelles, tu ne me quittes pas! (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P24566: Parabéns a você (2195): Mário Fitas, ex-Fur Mil Op Especiais da CCAÇ 763 (Cufar, 1965/66)

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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Agosto de 2023 > Guiné 61/74 - P24562: Parabéns a você (2194): Maria Alice Carneiro, amiga Grã-Tabanqueira

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24565: Notas de leitura (1607): "Os Portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900)", por António Carreira; edição de autor, Lisboa, 1984 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
António Carreira continua a ser um nome sonante da historiografia guineense. Poucos anos antes do seu falecimento tomou a iniciativa de publicar um estudo que se revela ainda hoje incontornável para quem queira organizar a história da presença portuguesa na região, procura responder a questões basilares para as quais infelizmente continua a não haver uma sequência cronológica consolidada: o fracasso dessa presença, as razões por que se limitavam os portugueses a terem de se contentar com um território eufemisticamente designado por Senegâmbia Meridional, e desmontando ou desmistificando a teoria da conquista de uma região, que, como ele diz, terá tido posse efetiva uns 60 anos, e daí se compreender como tudo foi tão duro e tão difícil, e por vezes tão sangrento, nas chamadas operações de pacificação, sobretudo após a definição de fronteiras, em 1886.

Um abraço do
Mário



Os Portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900) – 1:
Leitura indispensável


Mário Beja Santos

António Carreira (1905-1988) foi um administrador colonial que deixou um impressionante legado historiográfico, a Guiné foi o centro dos seus trabalhos. "Os Portugueses nos Rios de Guiné (1500-1900)", edição de autor, Lisboa, 1984, é uma obra de leitura obrigatória, insere uma síntese admirável sobre diferentes incursões do autor nos campos da etnografia, da economia, do tráfico negreiro e o histórico da presença portuguesa na Senegâmbia meridional. Em jeito introdutório, Carreira diz-se interessado em compreender as razões do fracasso da fixação dos portugueses na Costa Ocidental Africana, na área geográfica compreendida entre o rio Senegal e o norte da Serra Leoa. Adianta que as relações comerciais com os povos da costa, de Arguim ao Cabo Verde continental tiveram algum incremento nas primeiras décadas de 1500; e mais tarde tal relacionamento intensificou-se de Cabo Verde à Serra Leoa. Mas irrompeu a concorrência e esta fez decair a presença portuguesa a partir da segunda metade do século XVI, é hoje assunto alvo de consenso de que a União Ibérica lesou seriamente tal presença em detrimento espanhol, francês, holandês e inglês. O autor lembra-nos que a região era conhecida por Rios de Guiné de Cabo Verde por este período.

E dá como móbil do seu trabalho, pôr à disposição informação do seguinte teor: a) as principais causas da perda pelos portugueses das posições que pretendiam assegurar; b) as fraquezas, as misérias e as incúrias que concorreram para o fracasso; c) as razões por que os portugueses tiveram de se contentar com o território compreendido entre o Cabo Roxo e a Ponta Cajé; d) desmontar/desmistificar a teoria de conquista de uma região que terá tido posse efetiva uns 60 anos.

Discorre sobre a toponímia da Costa Ocidental Africana nos séculos XV a XVII, isto para nos alertar a existência de profundos desconhecimentos da geografia. Cadamosto deu à Costa Ocidental Africana a designação de Baixa Etiópia e à população chamou-lhes Negros da Etiópia. Jerónimo Münzer, no Itinerarium (1494), alude que os etíopes andam sempre em guerra uns com os outros, fazem-se mutuamente prisioneiros e vendem-se por uma bagatela. Duarte Pacheco Pereira fala em Etiópia Inferior ou Etiópia Baixa Ocidental que iria do rio Senegal até ao Cabo da Boa Esperança, dando-lhe o nome de Guiné, e o nome de Etiópia Oriental era conferido à Abissínia. Todos estes viajantes falavam de um amplo espaço de Nigrícia. Quando a expressão de rios de Guiné de Cabo Verde começou a cair em desuso o nome então em voga era Senegâmbia, reservando-se para a área onde era mais notória a presença portuguesa a Senegâmbia Meridional. Carreira repertoria os principais grupos étnicos do Senegal, da Gâmbia e da Guiné.

E questiona algumas das causas do fracasso da ocupação dos rios da Guiné pelos portugueses. Para Carreira era o interesse comercial que predominava, devido à falta de recursos a necessidade de ocupação só começou em meados do século XVIII e por força da concorrência. Até lá, a política régia era arrendar, foi assim que nasceu o contrato com Fernão Gomes numa fase dinâmica em que era preciso ir conhecendo mais da Costa Ocidental Africana. Não deixa de referenciar o fenómeno dos lançados e define as zonas de comércio dos portugueses – escala sempre muito temporária, contratos acidentais – pagava-se aos régulos para estacionamento nos portos (as daxas), a penetração nas comunidades africanas acabou por ficar reservada a um número muito restrito de europeus (cristãos, judeus e cristãos-novos) e mestiços de Cabo Verde. A Coroa bem procurou reprimir o fenómeno dos lançados, tomaram-se disposições régias para combater o aventureirismo comercial, com resultados praticamente nulos.

Carreira regista figuras que acabaram por ter significado como presença portuguesa, caso dos judeus de origem portuguesa: o judeu João Ferreira, natural do Crato, a quem foi dada a alcunha de Gana Goga (homem que fala todas as línguas) que penetrou no reino dos Fulas e o grumete de apelido Gomes que deixou a sua presença no que é hoje a Guiné Conacri (Gomissia).

Mas é facto que se começou a registar um comércio a partir de meados de 1600 nos rios Casamansa, Cacheu, estuário do Geba (Bissau, Geba e Fá), rio de Buba ou Biguba. Regista igualmente as posições até final do século XVII de aldeias de judeus portugueses, caso de Porto Dale ou Portudal, Rufisque, com judeus estrangeiros, Joala, com filhos da terra, bem como posições nos rios Gâmbia e Cantor. Mas não deixa de acentuar que a proclamada soberania portuguesa não passava de um mito. E deixa-nos depois notas sobre portos e rios de tratos e resgate, o tipo de praças e presídios.

A Restauração obrigou o rei D. João IV a dar mais atenção aos problemas desta costa africana. Os castelhanos, no intuito de manter o fornecimento regular de escravos para as suas possessões nas Antilhas e na América Central, tentaram assenhorear-se dos rios da Guiné, entre o rio Gâmbia e o estuário do Geba. Eram apoiados por negociantes portugueses residentes em Sevilha que por sua vez possuíam agentes de confiança em Cacheu (o patriotismo dos portugueses erodia-se perante o prestígio das patacas das Índias…). Houve, pois, que aumentar encargos e trazer soldadesca para Cacheu, Bissau e Farim. Começa a aparecer documentação que explica claramente a concorrência comercial de estrangeiros e a agressividade das populações locais; o comércio circunscrevia-se à compra de escravos, cera, cola e algum marfim, vendendo-se tecidos, ferro, adornos, aguardente, etc.; a indisciplina reinante no povoado de Cacheu entre portugueses e lançados é facto comprovado; como comprovado se encontra a total impossibilidade de fixação de brancos nos Bijagós, face à oposição sistemática das populações. Em pleno século XVII, a presença portuguesa estava condicionada a Cacheu, Farim, Geba, Bissau e Rio Grande de Buba.

E diz Carreira:
“A precariedade da ocupação por europeus nos rios em geral, demonstra toda uma atividade puramente mercantil e de ocasião. Não tendo sido possível o conseguimento de condições de segurança para a montagem de rede de comércio fixo em cada ponto, todo o sistema obedecia à movimentação dos negociantes, consoante o que permitiam as populações nativas”. E termina estas considerações sobre mercadorias usadas no comércio negreiro, vão desde a aguardente aos tecidos, balas de espingarda, contas e conchas, espingardas, missanga diversa, pedreneira, sal, bebidas capitosas e vinho – o rol de tecidos é muito grande. Os produtos de origem africana enviados para a Europa e Américas passavam por dentes de elefante e de cavalo-marinho, cera e couros. As maiores quantidades destes produtos saíam (cera e marfim) dos rios Senegal, Gâmbia, Casamansa e Cacheu.

Mais adiante vamos falar do comércio negreiro.

(continua)
Mapa de África (1689), de van Schagen
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Nota do editor

Último poste da série de 14 DE AGOSTO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24554: Notas de leitura (1606): "Um cripto na terra vermelha da Guiné", por Humberto Costa; 2.ª edição, 2020, Eudito (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P24564: Manuscrito(s) (Luís Graça) (227) : Chita... Não vale a pena parar, / A vida é p’ra se viver, / Com momentos p’ra sofrer, / É tudo sempre a somar.

 


Lourinhã > Praia de Vale de Frades > 14 de agosto de 2018 > Paisagens jurássicas > A Alice, ao fundo, virada para as Berlengas, o Cabo Carvoeiro, o forte de Paimogo...  


Foto (e legenda): © Luís Graça (2023). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Querida Chita:

 Há dias escrevi uns versinhos,

por ocasião da efeméride do nosso casamento,

em 7 de agosto de 1976, 

versinhos esses que não cheguei a acabar (*)…

Acabo-os hoje, no dia do teu 78º aniversário (**):

 

Há já quarenta e sete

Que estamos os dois casados,

Mas um só,  de namorados,

Que fique aqui de lembrete.

 

Teve momentos bonitos,

Alegrias e tristezas,

Dúvidas e incertezas,

Sorrisos e alguns gritos.

 

Eu não estou arrependido,

Feito o deve e o haver,

Que posso amanhã morrer,

Fica aqui o registo devido.

 

Gostei do nosso casório,

Lá na Quinta de Candoz,

Com os pais,  manos e nós,

Só faltou o foguetório.

 

E tu também, aposto,

Com o "anho" à maneira,

Houve “bailo” lá na eira,

 Nesse querido mês de Agosto.

 

Tu escolheste a pousada,

Lá no alto do Marão,

Eu roubei teu coração,

Tu dizes que foste enganada.

Querias Braga para morar,

Ou o Porto, ali mais perto,

Não, eu não fui mais esperto,

Se a Lisboa fomos parar.


São teus filhos alfacinhas,

De Lisboa gostam de sê-lo,

O teu amor não vão perdê-lo,

São eternas criancinhas.

 

E, a juntar à Joana e João,

Há agora uma Clarinha,

Que, diz a avó, babadinha,

Não lhe cabe no coração.

 

Setenta e oito degraus,

Muitos anos e canseiras,

Mutos erros e asneiras,

Nesta escada de calhaus.

 

Não vale a pena parar,

A vida é p’ra se viver,

Com momentos p’ra sofrer,

É tudo sempre a somar.

 

Se for a dois, tem mais graça,

Tu e eu, mesmo de muletas,

Fui-me abaixo das calhetas,

Tenho esperança, isto passa.

 

A melhor prenda que te dei,

Foi ontem os seiscentos passos,

Para ti podem ser escassos,

Mas foram os que eu andei.

 

Do ginásio ao café,

Sem muletas nem encosto,

Deu-me ânimo e gosto,

Ter andado tanto a pé.

 

E p´ró ano, fica agendado,

Irmos a uma ilha, os dois,

Mas sem muletas, pois, pois,

Provando que estou... curado.

 

Teu Nhicas.

 Praia da Areia Branca, 7 e 18 de agosto de 2023.

 

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Notas do editor:

(*) +Ultimo poste da série > 12 de agosto de 2023 > Guiné 61/74 - P24550: Manuscrito(s) (Luís Graça) (226): Provérbios populares sobre a doença, a medicina, a saúde, a vida e a morte: o que podemos aprender com eles? - Parte IVB: Enfermagem, Misoginia e Sexismo

(**) Vd. poste de 18 de agosto de 2023 > Guiné 61/74 - P24562: Parabéns a você (2194): Maria Alice Carneiro, amiga Grã-Tabanqueira

Guiné 61/74 - P24563: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (2) Abílio Duarte, ex-fur mil art, CART 2479 / CART 11, “Os Lacraus” (Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70) - Parte I

Fotoo nº 1 : Lisboa > 20 de junho de 2019 > Uma foto para a eternidade... O último convívio, num restaurante, para uma sardinhada, de quatro Lacraus... Da esquerda para a direita: Renato Monteiro  (1946-2021), Abílio Duarte, Valdemar Queiroz e Manuel Macias, todos ex-fur mil da CART 2479 / CART 11, "Os Lacraus" (Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70). O Abílio já não estava com o Renato há mais de 30 anos... A pandemia de Covid-19 e os problemas de saúde (do Renato e do Valdemar, ambos vítimas da DPOC - Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica) não permitiram que esta sardinhada se repetisse em 2020 e muito menos em 2021.

Foto  nº 2 > Espinho > Silvalde > Fevereiro de 1969 >  CART 2479 / CART 11 >   IAO, Instrução de Aperfeiçoamento Operacional >  Uma "foto histórica" um "ninho" de lacraus, designação do pessoal da futura  CART 11... "Os operacionais da CART 11: o Pechincha (o 2º) está entre mim (o 3º) e o Macias (o 1º) , na primeira fila, da esquerda para a direita".

Foto nº 3> Lisboa > 1969 > Furrieis da CART 2479 > "Jantar de despedida antes do embarque para a Guiné, com o nosso 1º sargento, Ferreira, que chegou a major e já falecido". [O camarada que, no último plano, está a nível acima dos outros, parece ser o mesmo que aparece em igual posição na foto de cima... À sua direita, parece-me ser o Pechincha. E à sua esquerda estaria o Renato Monteiro].

Foto nº 4 >  CART 2479 (futura CART 11)  (1969/70) > > Jantar-convívio dos furriéis milicianos e sargentos em Espinho, dias antes do embarque , que será em 18 de fevereiro de 1969, no T/T Timor. O Valdemar Queiroz está ao centro, todo aperaltado, de gravata e casaco de xadrez...

Foto nº 5 > A bordo do T/T Timor > Fevereiro de 1969 > CART 2479  / CART 11 (1969/70) >  Da esquerda para a direita, os fur mil Pechincha, Valdemar Queiroz   e Abílio Duarte

Foto nº 6 > Guine > CART 11  (1969/71) >  No cais fluvial do Xime >  1969 "Eu [em primeiro plano, à esquerda] e o alferes Martins [em segundo plano] no Xime" [O Xime era a "grande porta de entrada" do leste]

 Fpoto nº 7 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > CART 11 (Nova Lamego, Piche, Paunca, 1969/1970) > Nova Lamego > "Porta de armas": continência à bandeira nacional. 

Foto nº 8

Foto nº 8A 

Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Setor de Paunca > Guiro Iero Bocari > CART 11 (1969/70) > O refeitório de toda a malta...

"Vemos o ex-fur-mil Cunha, o ex-alf.mil Fagundo, o ex-1º.cabo enf José António e outros que não identifico a almoçar numa mesa, com o tampo feito de canas entrelaçadas, com o célebre garrafão de vinho e sentados nuns bancos de toros e as crianças à espera, no arame farpado, do 'parte' qualquer coisa que sobrar" (Legenda de Valdemar Queiroz).

Foto nº 9 > Guiné > Zona leste > Região de Baftá > Contuboel > CART 2479 / CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/71) > 1969 > "Em cima de uma montanha de mancarra". 

Foto nº  10 >  Guiné > Zona leste > Região de Gabu > CART 11 (Nova Lamego, Piche, Paunca, 1969/1970) > Piche> 1970 >  De Piche, para Bafatá, num Cessna dos TAGP

Foto nº 11 > Porto, s/d > Muito provavelmente na casa do ex-alf mil Pina Cabral, cmdt do 4º Pelotão da CART 2479 / CART 11: o Umaru Baldé e o Leonel (ex-1º cabo cripto

Foto nº  12 > Nelas > Canas de Senhorim > 31 de maio de 2014 > 24º convívio da CART 2479 / CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/71) > A referir nesta foto o 4º. Pelotão, com o ex-alf  mil Pina Cabral (falecido em 2022)  sentado, mais o Valdemar; à esquerda o ex-1º cabo at  Altino, mais o Manuel Macias, o Abílio Duarte Pinto, o Aurélio e a ainda o ex-fur  mil trms Silva.

Fotos (e legendas): © Abílio Duarte (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Brasão da CART 11, "os Lacraus"


1. Apresentamos hoje a primeira parte de uma seleção das fotos (*) do Abílio Duarte, ex-fur mil art MA,  CART 2479 (mais tarde CART 11 e finalmente, já depois do regresso à Metrópole do Duarte, CCAÇ 11), "Os Lacraus" (Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70).  

Faz parte da Tabanca Grande desde 27/8/2010. Tem cerca de 7 dezenas de referèncias no blogue. Esteve no CTIG de fevereiro de 1969 e a dezembro de 1970.

Na CART 2479/CART 11 havia pelo menos dois furriéis com máquinas fotográficas: ele e o Cândido Cunha. O Abílio Duarte, bancário reformado, residente na Amadora, continua a fazer alguma fotografia, nomeadamenmte por ocasião dos convívios anuais dos "Lacraus".

Temos dúvidas sobre a autoria de uma ou outra foto (por exemplo, nº 2, 3 e 4). Se não forem do Abílio Duarte, poderão ser do Valdemar Queiroz ou do Càndido Cunha (que ainda não integra, formalmente, a nossa Tabanca Grande)... 

Há "fotos comuns", nas companhias, sendo difícil (ou mesmo impossível hoje) descobrir quem foi o fotógrafo. Os créditos fotográficos, no nosso blogue, são em princípio atribuídos aos donos dos álbuns fotográficos (**) que sáo partilhados connosco...

A numeração das fotos selecionadas (pelo editor LG) segue apenas um critério de conveniència. E ajudam o leitor que queira fazer um comentário (corrigindo ou melhorando a legenda). Peço também ao Valdemar Queiroz que dè uma "olhadela" às imagens e às legendas.

(Continua)

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Notas do editor:

(*) Último poste3 da série > 15 de agosto de  2023 > Guiné 61/74 - P24555: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (1); Luís Graça

(**) Fotos selecionadas dos seguintes postes:


11 de julho de 2022 > Guiné 61/74 - P23422: Frase do dia (1): Faz hoje 55 anos que entrei para a tropa, em Santarém. Tinha 22 anos feitos, regressei com quase 26... (Valdemar Queiroz, ex-fur mil at art, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)

10 de julho de 2021 > Guiné 61/74 - P22360: In Memoriam (397): Renato Monteiro (Porto, 1946 - Lisboa, 2021), ex-fur mil, CART 2439 / CART 11 (Contuboel e Piche, 1969), e CART 2520 (Xime e Enxalé, 1969/70)... "Morreu o meu querido amigo, no passado dia 7... Escrevo a notícia a chorar" (Valdemar Queiroz)

1 de maio de 2021 : Guiné 61/74 - P22160: Fotos à procura de... uma legenda (150): a continência à(s) bandeira(s) (Valdemar Queiroz)

1 de julho de 2019 : Guiné 61/74 - P19935: (De)Caras (131): Um ninho de "lacraus", em Espinho, Silvalde, fevereiro de 1969, na véspera de partida para o CTIG (Valdemar Queiroz / Abílio Duarte, CART 2479 / CART 11, 1969/70)

30 de agosto de  2017  > Guiné 61/74 - P17714: (De) Caras (93): O (e)terno "puto" Umaru, o Umaru Baldé (1953-2004), da CART 2479 / CART 11 (Contuboel, 1969) e da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 (Bambadinca e Xime, 1969/71)... O seu maior desejo era ser... Português! (Abílio Duarte)

12 de abril de 2016 > Guiné 63/74 - P15968: Fotos do álbum da minha mãe, "Honra e Glória" (Abílio Duarte, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Nova Lamego e Paunca, 1969/70) - Parte IV: saudades de Contuboel

28 de março de 2016> Guiné 63/74 - P15910: Fotos do álbum da minha mãe, "Honra e Glória" (Abílio Duarte, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Nova Lamego e Paunca, 1969/70) - Parte III

Guiné 61/74 - P24562: Parabéns a você (2194): Maria Alice Carneiro, amiga Grã-Tabanqueira

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Nota do editor

Último poste da série de 17 de Agosto de 2023 > Guiné 61/74 - P24558: Parabéns a você (2193): José Manuel Cancela, ex-Soldado Apontador Metralhadora da CCAÇ 2382 (Aldeia Formosa, Contabane, Mampatá e Buba, 1968/70)