Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O alf graduado capelão, padre José Torres Neves, a "apalpar a fruta", neste caso, a papaia, que ainda estava verde...
Em segundo plano , parece-nos ser o padre franciscano Júlio do Patrocínio, da missão católica de Santa Ana de Mansoa (fundada oficialmente em 1953).
O Ernestino Caniço diz que não lhe parece que seja nem um nem outro, o seu amigo José Torres Neves (hoje missionário da Consolata, reformado, à beira dos 90 anos) nem o Júlio do Patrocínio. Deviam ser então dois graduados, à civil, da CCS/BCAÇ 2885, presumimos nós.
Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. A expressão “apalpar a fruta”, com a sua inequívoca conotação brejeira, veio-me à ideia ao revisitar esta fotografia: dois militares à civil, em Mansoa, junto de uma papaieira generosa, um deles em gesto que não deixa de convidar ao duplo sentido. (Podiam ser o "nosso capelão" José Torres Neves, de costas e óculos escuros, mais o pároco de Mansoa, mas o Ernestino Canioço diz que não...)
De qualquer modo, a foto foi tirada pelo então jovem capelão castrense José Torres Neves, da CCS/BCAÇ 2855, de quem temos vindo a divulgar um notável espólio da Guiné (cerca de 400 fotografias). Hoje, missionário aposentado, à beira dos 90 anos, foi testemunha atenta, e sensível, de um tempo duro. Na outra fotografia, vemo-lo a examinar uma AK-47 apreendida aos guerrilheiros do PAIGC: um padre entre a cruz e a espingarda, entre o cuidado das almas e a materialidade da guerra.
Mas voltemos à “fruta”, à "papaia"...(que em português são duas das dezenas de expressões do calão para a genitália feminina, a par de "catota", em crioulo da Guiné-Bissau).
A expressão levou-me a recordar um poeta popular do século XIX, analfabeto, calafate de profissão, natural de Setúbal, de resto conhecido como o "Calafate" ou o "Cantador de Setúbal": António Maria Eusébio (1820-1911). Dele nos ficaram alguns dos mais saborosos exemplos da nossa poesia erótico-satírica mas também jocosa, na melhor tradição popular que já vem das medievais "cantigas de escárnio e maldizer".
Não por acaso, um dos seus poemas mais conhecidos foi selecionado pela Natália Correia para a sua célebre Antologia da Poesia Erótico-Satírica Portuguesa (1966), obra que o regime de António de Oliveira Salazar tratou de rapidamente proibir.
Num país onde até o riso e a malícia eram policiados, aquela antologia foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco. A 1º edição esgotou-.se antes que a PIDE lhe pudesse pôr a mão em cima.
Recordo bem o escândalo da época: livros apreendidos, moral oficial ofendida, zelo censor muitas vezes exercido por servidores do regime, incluindo militares que serviram connosco no CTIG.
Tudo isto num contexto em que a sociedade portuguesa vivia sob uma capa de puritanismo hipócrita, enquanto a vida real seguia, como sempre, outros caminhos (recorde-se o escândalo dos "Ballet Rose" , em finais de 1967, cuja denúncia levou o advogado e politico da posição Mário Soares á prisão em Caxias e depois ao desterro, em São Tomé).
É também por isso que esta série “Humor de Caserna” faz sentido: porque, mesmo em contexto de guerra, os homens (e algumas mulheres, as enfermeiras paraquedistas) do CTIG souberam preservar algo de essencial, que era a capacidade de rir, de insinuar, de jogar com as palavras, de não perder a humanidade.
Já aqui em tempos tinhamos scrito, em comentário ao poste P4065 (*):E retomando a expressão “apalpar a fruta”… com licença do dono ou da dona, que o respeitinho continua a ser muito bonito (e o riso ainda é mais!)...
Para quem não conhece o "Calafate" (já aqui de resto citado, na caixa de comentários ao poste P4065 (*), publicamos hoje, na montra principal do blogue, os divertidos versos sobre “A Quinta da Panasqueira”, pequena obra-prima de malícia e engenho.
A famosa Antologia, da Natália Correia, foi uma pedrada no charco e uma lufada de ar fresco numa sociedade que precisava cada vez mais de respirar o ar fresco da liberdade...que só virá oito anos depois.
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A Quinta da Panasqueira
Mote
Fui apalpar as gamboas
Que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O seu bastardo já pinta.
Glosa
Sou mestre na agricultura,
meu saber ninguém disputa,
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura…
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira,
com licença da quinteira,
fui apalpar as gamboas.
Por toda a parte que andei,
dei cambalhotas e saltos,
depois de apalpar pelos altos,
pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta;
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda,
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.
Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua,
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros,
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima,
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.
Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé de um poço,
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
a menina dê-me um cacho,
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.
A resposta da quinteira
Mote
Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.
Glosa
Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.
As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!
Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.
Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me a tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.
(Versos brejeiros e satíricos,
cantigas para guitarra).
(*) Vd. poste de 21 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P4065: As Nossas Queridas Enfermeiras Pára-Quedistas (7): Os tomates do Capelão da BA 12, Bissalanca... e outras frutas (Miguel Pessoa)
Era generalizada a opinião, entre quem deles se servia, de que os tomates do nosso capelão, embora pequenos, eram sumarentos e saborosos e enriqueciam qualquer salada. E sabe-se o gosto que o pessoal tinha por tudo o que lhe lembrasse a metrópole. E era vê-los a "deitar abaixo" uma saladinha feita com tomates fresquinhos, acabadinhos de apanhar. (...)
Vd também psote de 25 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27351: Humor de caserna (216): BA 12, Bissalanca: os tomates... da horta do capelão: uma história pícara que mete a nossa querida enfermeira pqdt Giselda e o seu "olheiro" na BA 12, o ex-ten pilav Miguel Pessoa... Um pequena homenagem póstuma ao major capelão Abel Gonçalves (1931-2019), que foi chefe do serviço de assistência religiosa da FAP.












