Guiné-Bissau > Bissau > Planta de Bissau (edição, Paris, 1981) (Escala: 1/20 mil) > Posição relativa do bairro do Cupelon,. ou "pilão", como diziam os "tugas".. Fica(va) à esquerda da nossa conhecida estrada de Santa Luzia, portanto paredes meias com o QG/CTIG, em Santa Luzia... O Pilão fazia parte das nossas geografias emocionais...
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)
1. Há escritos dispersos, no nosso blogue, sobre o Pilão, bairro popular de Bissau, que merecem ser aqui relembrados, na série "As nossoa geografias emocionais" (*)... São pequenas crónicas pícaras que também servem para descontruir o mito de que o Pilão (corruptela do crioulo Cupelon) era um antro de prostituição, marginalidade e "terrorismo"...
A primeira crónica pícara que escolhemos é do Rogério Cardoso, ex-fiur mil, Cart 643 / BART 645, "Águias Negras" (Bissorã, 1964/66)... O autor tem 6 dezenas de referências no blogue, que integra desde dezembro de 2009.
Faz também parte da Magnífica Tabanca da Linha. Era do Serviço de Material / Manutenção Auto. Tem uma cruz de guerra de 4ª classe, No nosso blogue é autor da série "Notas Soltas da CART 643" de que se publicaram 26 postes.
Pelo que se deduz do texto (**), o Pilão já fazia parte do roteiro da noite de Bissau, em 1964, tal como o Café Bento (o Rogério Cardoso esteve no oCTIG entre março de 1964 e fevereiro de 1966).
O autor faz referência a um grande incêndio que lá teria ocorrido. Trata-se provavelmente do incêndio que devastou o antigo bairro da Ajuda. Mas isso foi no início de 1965. Um novo bairro foi construído, por iniciativa das Obras Públicas locais e com a ajuda da tropa, para os desalojados (140 casas e equipamentos sociais estavam prontos em 1968).
O bairro da Ajuda ficava localizado a oeste da cidadezinha colonial do nosso tempo, a seguir ao Cupelon e a Missirá, mais ou menos a seis quilómetros do centro, a caminho de Brá e do aeroporto de Bissalanca, a noroeste; em frente ao bairro da Ajuda, no lado esquerdo da estrada, ficava o HM 241.
O que importa sublinhar, da leitura desta "visita obrigatória" ao Pilão, é que também nessa época havia militares pouco disciplinados que iam provocar desacatos ao bairro que, de resto, era patrulhado pela tropa.
Dois figurões da noite de Bissau desse tempo seriam o "Mouraria", fuzileiro, e o "Braga", paraquedista. O Rogério Cardoso ("periquito" ou "maçarico", como ainda se dizia nos primórdiso da guerra na Guiné...) foi lá com eles, e parece que não ganhou para o susto...
De qualquer modo, ir ao Pilão fazia parte dos "comportamentos de bravata" de alguns militares que, em caso algum, eram representativos das NT...
por Rogério Cardoso (*)
Quem não se lembra do célebre Bairro do Pilão, junto às bombas de gasolina da Sacor ?!
Bairro situado à saida da cidade de Bissau, junto à estrada para Bissalanca, problemático pois diziam esconder elementos inimigos, que não era difícil porque eles não estavam rotulados, eram iguais em tudo aos restantes residentes.
Estas afirmações têm fundamento, na medida em que em certa altura houve um incêndio de grandes proporções, em que se assistiu ao rebentamento de munições e granadas.
Mas não estou escrevendo estas "Notas Soltas" para contar o que foi o Pilão, todos nós o sabemos de sobra, mas sim para narrar uma cena que poderia ser fatal para mim.
Certa noite, sendo eu ainda muito "maçarico" , tendo talvez pouco mais de um mês de Guiné, e sendo o Café Bento, na avenida principal, o meu local preferido para depois de jantar, fui abordado por dois ex-combatentes, solicitando a minha permissão para se sentarem nas duas cadeiras junto à minha mesa, já que estava a esplanada cheia.
Claro, eu respondi-lhes afirmativamente e de imediato os três bebemos umas cervejas frescas. Eles eram sobejamente conhecidos, um o Fuzileiro de alcunha "Mouraria" e o outro o Pára "Braga", dois elementos que desde logo me pareçeram uns camaradões, mas que mais tarde vim a saber serem individuos complicados no aspeto disciplinar, estavam sempre prontos para a pancada por tudo e por nada.
Entretanto e depois das cervejas, fui convidado por eles para uma visita ao Pilão, havia lá um bailarico com mornas e coladeras e, claro, material feminino.
Lá fomos entusiasmados pela juventude dos 23 anos, de facto era verdade e a nossa integração no bailarico foi imediata.
Entretanto o Mouraria arranja logo um desaguizado com um elemento cabo-verdiano que dançava com uma guineense de alcunha "a Muda". O nosso amigo queria a toda a força dançar com ela e, palavra puxa palavra, com empurrões à mistura, rapidamente passaram à agressão fisica.
Os amigos do cabo-verdiano, cerca de 20, igualmente entraram na luta, assim como o Braga e claro logicamente eu também. A desvantagem como facilmente se percebe era abismável e os dois, com conhecimento de sobra, tanto da nossa desvantagem como do terreno para uma fuga com êxito, não esperaram e evaporaram-se em segundos.
Depois de uns minutos que me pareciam horas, porque ouvia e sentia que era perseguido por um grupo numeroso, pelas vozes e barulho, aproveitei um silêncio repentino e saí. Foi então que senti um pouco mais à frente uma mão no meu braço e uma voz dizendo:
− Oh, meu Furriel, venha já comigo.
Senti que era um amigo e segui-o rapidamente, finalmente estava a umas escassas dezenas de metros da estrada principal. Quem me ajudou, estava presenciando a cena de longe, conheceu-me porque eu tinha sido seu instrutor em Santa Margarida uns meses atrás.
Serviu-me de lição: primeiro não me meter em terrenos desconhecidos; e segundo saber escolher os companheiros de farra.
(*) Último poste da série > 22 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26517: As nossas geografias emocionais (46): Quem se lembra do Café Portugal, junto ao Hotel com o mesmo nome, na Praça Honório Barreto (hoje Che Guevara) ?
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