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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27767: Fauna e flora (26): O crocodilo-do-Nilo nos "nossos" rios (Geba, Cacheu, Corubal...) - Parte I

Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > 7 de junho de 2022 > Crocodilo-do-Nilo (Lagarto, em crioulo) (Crocodylus nilotcus)... Está protegido por lei... Pode atingir os 7 metros de comprimento... e atacar o homem.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné- Bissau > Região de Biombo >  s/l  > s/d  (c-. 2009) > O crocodilo da Praia do Biombo 

Foto (e legenda):  © Patrício Ribeiro (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região do Cacheu > São Domingos > Novembro de 2015 > Captura de dois crocodilos "assassinos" no rio Cacheu... Um deles foi exposto numa árvore, juntando uma multidão de curiosos...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2015). Todos os direitos reservados. .[Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Foto nº 4 > Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917 (1970/72), o alf mil médico Vilar (popularmente conhecido como o "Drácula", mais tarde psiquiatra) e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca) com um crocodilo juvenil do rio Geba Estreito...
 
Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

O Polidoro Monteiro, já falecido, gostava de caçar. Incluindo à noite, utilizando os faróis do jipe, na orla da pista de Bambadinca. Lembro-me dele como tendo sido o único oficial superior que andou connosco (CCAÇ 12), a penantes no mato (pelo menos, uma vez, quando se foi inteirar dos seus domínios, o sector L1; veio de Bissorã e era considerado um spinolista, mesmo sendo de infantaria).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Na Guiné, no meu tempo (1969/71), a malta não tomava banho à vontade nos rios, por muitas razões, a começar pelas de saúde e segurança... E, claro, o medo de répteis em geral e crocodilos, em particular... Herpetofobia, é o palavrão...

Sabemos que não havia "jacarés" em África (só no Novo Mundo), mas os crocodilos estavam no nosso imaginário quando lá chegávamos... Para o "tuga", crocodilo ou jacaré era tudo o mesmo... 

Parece que o Crocodylus niloticus sofreu uma redução drástica, na África Ocidental, desde há dois séculos, com o colonialismo e a pressão humana (caça, procura da pele, redução do habitat, poluição, etc.). E terá desaparecido de muitos rios da África Subsaariana.

Mas será que ainda havia crocodilos em todos os rios da Guiné, no nosso tempo? Os restos mortais dos nossos infortunados camaradas que caíram ao rio Corubal, em Cheche, terão sido também devorados por crocodilos? Há relatos, no blogue, de cadáveres que foram recuperados (no Geba e no Corubal), parcialmente mutilados...

Em anos mais recentes, o rio Cacheu tem sido notícia por más razões, as do eterno conflito entre a vida selvagem e as comnunidades humanas ribeirinhas... 

No rio Cacheu um habitat de crocodilos de grande porte, tem sido reportados e documentados ataques esporádicos daqueles réptéis, quer pelos habitantes da região quer pela imprensa de Bissau. E pelo nosso Patrício Ribeiro, o "tuga" que melhor conhece a Guiné (vd. fotos nºs 1, 2, e 3).

Por outro lado, os rios da Guiné, de águas barrentas e margens indefinidas (no tempo das chuvas), metiam respeitinho, sobretudo quando a malta fazia uma "cambança" de canoa... Cair-se ao rio era quase morte certa...

Enfim, vamos ver o que as diferentes ferramenta de IA nos dizem a respeito destes bichos feios e predadores, mas raramente visíveis por nós (ambos, "criaturas de Deus", diria o São Francisco, que nunca deve ter visto a mandíbula de um crocodilo-do-Nilo). 

Tal como os hipopótamos, que os havia no rio Corubal, no meu tempo (1969/71)... Mas esses faziam-se notar à distância, pelos seus urros... 

Comecemos por este "juvenil" de crocodilo da foto nº 4, freguês do Mato Cão, onde fomos muitas vezes (e onde, depois em finais de 1971/princípios de 1972, será montado um destacamento, por onde passaram alguns dos nossos grão-tabanqueiros). 

Confesso que nunca lá vi nenhum crocodilo, no Mato Cão. Nem tinha nem vagar para os observar. Mas o crocodilo era como o "Zé Turra", hábil no engenho e na arte de se camuflar e furtar ao contacto do "Zé Tuga", mesmo que estes dois pertencessem à mesma Ordem, a dos Primatas, e à mesma Espécie, a do Homo Sapiens Sapiens. A espécie que está no topo dos grandes predadores.


Pergunta à IA:  Crocodylus niloticus ou Osteolaemus tetraspis ? Juvenil, apanhado em 1971 no rio Geba Estreito, no Mato Cão (sujeito às marés, logo, água salgada) (foto nº 4)


Responde  a "menina IA"  ( europeia,  Le Chat / Mistral):

A espécie de crocodilo na imagem, apanhada em 1971 no rio Geba Estreito (Mato Cão, Guiné-Bissau), e que o nosso Paulo  Santiago segura, pela mandíbula superior, é quase certamente um Crocodylus niloticus, o crocodilo-do-Nilo.

Razões:
  • Distribuição geográfica: o Crocodylus niloticus é comum em toda a África subsaariana, incluindo a Guiné-Bissau, enquanto o Osteolaemus tetraspis (crocodilo-anão) tem uma distribuição mais restrita, principalmente em florestas tropicais da África Ocidental e Central, mas é raro ou ausente em habitats como o rio Geba, que é influenciado por marés.
  • Tamanho e morfologia: mesmo sendo um juvenil, o corpo alongado e a forma da cabeça são mais consistentes com o Crocodylus niloticus; o Osteolaemus tetraspis tem um focinho mais curto e largo, e é geralmente menor, mesmo em idade adulta.
  • Habitat: o Crocodylus niloticus é adaptado a rios, lagos e estuários, enquanto o Osteolaemus tetraspis prefere águas mais calmas e florestais.
  • Contexto histórico: durante a Guerra Colonial Portuguesa (1961-74), era comum os soldados entrarem em contacto com a fauna local, incluindo crocodilos, especialmente em zonas ribeirinhas como o Geba ou o Cacheu.

2. Distinção entre "lagarto" e "lagarto preto"

Ficha técncia: Crocodilo-do-Nilo ("Lagarto", em crioulo) (Crocodylus nilotcus) (pág. 28)

"Lagarto preto", em crioulo  (Osteolaemus tetraspis) (pág. 28), Também conhecido na África Equatorial como crocodilo-anão.

Fonte: República da Guiné-Bissau, Direcção Geral dos Serviços Florestais e Caça, Departamento da Fauna e Protecção da Natureza, s/l, 34 pp. s/d (Disponível em formato pdf, aqui, no sítio do IBAP , https://ibapgbissau.org/Documentos/Estudos/Animais%20da%20Guine-Bissau.pdf)


3. Comentou o Paulo Santiago, em complement0o da legenda da foto nº 4:

"Quem avistou o réptil, a caminho do Mato Cão, foi o soldado que conduzia o Sintex. Parou e o Vilar deu-lhe um tiro com a .22 que tinha aquela "enorme" baioneta acoplada. 

"Notou-se o animal acusar o tiro. O "barqueiro" aproxima o bote, o crocodilo tem ferimento num dos membros, abre a boca e o Vilar enfia-lhe a baioneta na goela. O bicho fecha a boca, abana a cabeça, e o futuro psiquiatra quase mergulha...

"Valeu-lhe o ten-cor Polidoro Monteiro que enfiou uma bala 7,62 na cabeça. Chegados ao destacamento, o Vilar pediu a um balanta para esfolar o bicho. Fizeram uns 'bifes' da cauda, dos quais não comi nenhum.

"Eu e o Vilar regressámos a Bambadinca com a subida da maré. O comandante Polidoro ficou no destacamento e, como acontecia várias vezes, houve flagelação ao anoitecer".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026 às 19:36:27 WET

(Continua)
 ___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27709: Fauna e flora (25): Uma píton-africana ou irã-cego (Python sebae), "papada com esparguete" pelos "abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523 /73, 1973/74)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27737: Documentos (55): A retiradada de Madina do Boé: a largura e a profundidade do rio Corubal em Cheche, medidas por uma ferramenta de IA, a partir de uma fotografia do Patrício Ribeiro, de 18/06/2018






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio. Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. 

Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Em 6/2/1969, no auge da época seca, a profundidade deveria ser um povo menor, bem como a largura.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

) 

 1. Com base nesta foto do Patrício Ribeiro, Guiné-Bissau, 18 de junho de 2018, "cambança" do Rio Corubal,  perguntámos a "menina IA" (do ChatGPT / Opena AI) qual  será a largura e a profundidade  aqui, nessa passagem entre as duas margens. Estamos na margem norte (direita). Do outro lado era o Cheche, de má memórisa, para sempre associado ao desastre das NT em 6/2/1969.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenasd de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Com a maior discrição, a verve reivindicativa que temos notado do Boletim quase que se apagou, conquanto o responsável do Boletim avise solenemente os associados que se estava num quadro de grandes mudanças. A participação guineense do Boletim reduziu-se drasticamente, vamos ter artigos do Comandante Teixeira da Mota de cariz histórico, publicam-se as intervenções do deputado James Pinto Bull, há noticiário económico, verbera-se uma Biblioteca associativa que está vazia, chama-se a atenção dos associados para o que a Associação tem a dar, desde um fundo de assistência, apoio médico, um curso para tenistas, sucedem-se os artigos históricos tendo inclusivamente um artigo sobre o Líbano e a sua história. Conforme já informei o leitor, temos Boletim até 1966, escrevi para a Biblioteca Nacional, ali nada existe. E é tudo.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 6


Mário Beja Santos

O que posso dizer ao leitor sobre o ano de 1963 é que se alterou profundamente a natureza da escrita, é de admitir que a eclosão da guerra de guerrilhas tenha levado os associados à contenção, fruto das incertezas produzidas pelas alterações demográficas na região Sul, nas margens do Corubal, nas florestas do Morés. São convocados deputados e investigadores, chega-se mesmo a apresentar escritos de Brito Camacho e Paiva Couceiro. Logo no número de janeiro aparece um apontamento assinado pelo deputado da Guiné James Pinto Bull, sublinhando toda a conveniência em se incrementar a concessão de bolsas de estudo aos estudantes autóctones do nosso Ultramar, dizendo mesmo:
“A Guiné Portuguesa, com uma população de cerca de 530 mil habitantes, tem apenas treze indivíduos habilitados com um curso superior, o que corresponde a um formado por cada 41 mil habitantes, e onze indivíduos habilitados com um curso médio, isto é, um diplomado por cada 48 mil habitantes; encontram-se presentemente cursando escolas superiores e médias na Metrópole 36 bolseiros que terminaram os seus estudos na Província.”

É certo que se mantém o cuidado em apresentar os dados económicos sobre a exportação do amendoim, arroz, borracha, cera, coconote, couros, madeiras, óleo de palma. Está em curso na Associação um Fundo de Assistência para associados em estado de precariedade; há um clínico avençado na Associação que presta assistência médica.

Num outro número do Boletim reproduz-se a intervenção do deputado Pinto Bull na Assembleia Nacional, em 6 de fevereiro desse ano, lembra a quem está no hemiciclo que é preciso encarar mais objetivamente as aspirações da população quanto ao ensino geral, as bolsas de estudo em particular, a assistência sanitária fixa e móvel, a assistência social e os seus mais diversos aspetos; e de novo enfatiza que é muito baixo o número de guineenses com formação superior, estão praticamente ausentes de cargos diretivos no escalão médio-superior nas organizações. Fará uma desenvolvida exposição sobre o sistema educativo e apela ao crescimento das bolsas de estudo. Na sua esteira, temos uma extensa exposição do deputado José Fernando Nunes Barata sobre o estado atual do desenvolvimento da Guiné e as suas potencialidades. Outra questão marcante em diferentes números passa pela enumeração das vantagens da Unidade Económica Nacional, a política do Estado Novo demarcara até então os regimes pautais entre a Metrópole e as colónias, procurava-se a todo o transe sossegar os investidores e os proprietários e os agentes económicos em geral com alívios aduaneiros.

Chegou o momento de saudar o novo Comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, o ainda Coronel Tirocinado Fernando Louro de Sousa. Surge o primeiro artigo do Comandante Teixeira da Mota dedicado a Honório Pereira Barreto, este falecera em 26 de abril de 1851, portanto há 104 anos. A Associação criou uma escola de ténis. Sucedem-se os artigos sobre a história da Guiné. Faz-se um abate exaustivo das comemorações do 46.º aniversário da Associação. Reapareceu a secção “Atentos à Legislação”. Faz-se o obituário do escritor Aquilino Ribeiro. Segundo artigo de Teixeira da Mota desta vez sobre a morte de dois franciscanos martirizados em 1742. Publica-se a notícia sobre a criação da Liga dos Amigos da Guiné Portuguesa, na Metrópole. Há um número completo dedicado ao obituário de Presidente da Associação, António José Osório Flamengo. Seguramente a pensar-se na comunidade sírio-libanesa publica-se um artigo intitulado O Líbano na História.

Fica-se com a sensação de que a vida associativa deu uma reviravolta e o diretor do Boletim dedica um texto aos perigos do individualismo, texto esse que termina com uma séria advertência:
“A Guiné prestou-se idealmente aos propósitos e manejos do individualismo mais desaforado, e, tendo sido alfobre de ganhunças, houve para si apenas as migalhas do lauto festim.
Chegados ao termo de uma época particularmente favorável há reprodução de cifras em progressão geométrica, em que as preocupações eram nenhumas, as oportunidades timbravam pela constância e os problemas financeiros quase não se punham porque o crédito era fácil, temos que reconhecer a superioridade, a argúcia, a inteligência dos indivíduos para melhor manobrarem. Os factos deram-lhes razão.
Doravante, porém…
A recente e inopinada reviravolta no tradicional sistema ‘quem tem olho é rei’ e o consequente estendal de complicações e vicissitudes, supomos venha a transformar, apesar de inveterados, os hábitos anti fraternos, se é que já não destroçou a até agora solidíssima razão do cisma isolacionista – ‘chacun s’arrête’. E ninguém nos convence que do colapso ao ‘debacle’ do individualismo medeie ainda muito tempo.”


Queixa do diretor do Boletim, a Biblioteca devia estar permanentemente às moscas…
Falando por mim, tive um estremeção quando vi esta imagem, instantaneamente me ocorreu a minha vida numa enxovia, alimentação rudimentar, sempre sujeitos a faltas de toda a ordem, com a agravante de que na época das chuvas transportávamos à cabeça e às costas, cheguei mesmo a meter pacotes de esparguete nos bolsos das calças, o vinho era uma zurrapa, mas a água era Perrier ou Evian, questionei sempre, sem resposta, havendo aqui água de Carvalhelhos, do Luso, e muito mais, a que título bebíamos obrigatoriamente Perrier ou Evian.
Eram outros tempos, o tabaco dava estatuto, era prestigiante, nas décadas seguintes vieram em catadupa as doenças cancerosas, os AVC, e tudo o mais que se sabe.
Raparigas Bijagós
Mulher Nalú
Pesca à linha no rio de Sonaco

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1963

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27049: Facebook...ando (90): João de Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351 (1972/74): um "Tigre de Cumbijã", de corpo e alma - Parte VIII: Saltinho, no rio Corubal, um dos mais deslumbrantes sítios da Guiné-Bissau

 




Foto nº 1, 1A, 1B, 1C e ID





Foto nº 2, 2A, 2B e 2C



Foto nº 3 e 3A


Guiné- Bissau > Região de Bafatá > Rio Corubal > Ponte e Rápidos do Saltinho  >  .Aponte de 3 arcos, inaugurada em 1955, uma bela obra da engenharia portuguesa...Ainda lã está ao fim de 70 anos...

Fotos (e legendas): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo op cripto,
CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74):


(i) é profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha;

 (ii) viaja regularmente, desde 2017, para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade" (em que distribui material pelas escolas de Cumbijã, e apoia também, mais recentemente, o clube de futebol local); 

(iii) regressou há pouco tempo da sua viagem deste ano de 2025; 

(iv) fez uma visita demorada à Amura e ao atual Museu Militar. em plena zona histórica (Bissau Velho); 

(v) tem página no Facebook (João Reis Melo)

(vi) tem mais de duas dezenas e meia de referências no nosso blogue para o qual entrou em 1 de março de 2009.


1. Na sua viagem, em maio passado, de Bissau a Cumbijã, no sul, na região de Tombali, o nosso grão-tabanqueiro João Melo, passou por várias das nossas geografias emocionais... E fotografou esses lugares. Um deles foi o Saltinho, na margem direita do Rio Corubal, um dos mais deslumbrantes sítios da Guiné-Bissau.

 Escreveu ele na sua página do Facebook no passado dia 13 de julho:

"Retalhos de uma passagem pela Guiné-Bissau:

Passando pelo Saltinho, é quase impossível não parar para apreciar as belezas naturais do Rio Corubal que passa sob a ponte General Craveiro Lopes, inaugurada a 8 de maio de 1955 e que, em época seca como a de agora, permite à população que o mesmo seja um gigantesco e belo lavadouro e coradouro público.

O Corubal é o segundo maior rio de água doce da Guiné-Bissau. Este rio tem sua nascente nas redondezas da cidade de Lélouma, no maciço de Futa Jalom, na Guiné-Conacri, e desagua no rio Geba a cerca de 50 quilômetros a montante de Bissau."