sábado, 30 de janeiro de 2021

Guiné 61/74 - P21827: Tabanca Grande (508): Joaquim Costa, ex-fur mil at Arm Pes Inf (CCAV 8351, Cumbijã, 1972/74), natural de Vila Nova de Famalicão; senta-se à sombra do nosso poilão no lugar nº 826




Joaquim Costa, ex-fur mil at Armas Pesadas,
CCAV 8351 (Cumbijã, 1972/74)

Fotos (e legenda): © Joaquim Costa (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 


1. Mensagem de Joaquim Costa, novo membro, nº 826, da nossa Tabanca Grande (*):

Date: terça, 26/01/2021 à(s) 12:32
Subject: Pedido de adesão

Meu caro camarada Luís Graça, e amigo dos meus amigos e por isso (desculpando a presunção) meu amigo és.

Fui Furriel Miliciano, passei pela nossa Guiné de 72 a 74, tendo pertencido à companhia de intervenção CCAV 8351 ("Os Tigres do Cumbijã") cujo capitão era o já teu conhecido Vasco da Gama, de Buarcos (**.[Tem mais de 80 referências no nosso blogue.]

Fiz o percurso habitual até chegar à Guiné: Caldas da Rainha; Tavira (especialidade de armas pesadas); Chaves; formação da CCAV 8351 em Estremoz com uma passagem fugaz por Portalegre.

Não obstante um abstémio das redes sociais, sou um frequentador assíduo do teu blogue, mais particularmente nestes últimos 5 anos, altura em que me posentei do Ensino

De há cinco anos a esta parte que todos os dias digo para comigo: "É hoje que vou deixar de ser um elemento passivo e passar a elemento ativo do blogue"...as a inércia do corpo sempre venceu a dinâmica da mente.

Com a maldita Covid (não cocaína!), e a obrigatoriedade da preguiça contemplativa, a mente venceu este corpo invadido pelo reumático que, não obstante ser uma maleita de infância, foi agravado pelo cacimbo da Guiné.

E aqui estou, com a humildade que se impõe, perante todos estes catedráticos de estratégia militar bem como cronistas e escritores de primeira água, pedir permissão para entrar, sujeitando-me às praxes se tal as houver.

Embora me escasseiem a arte e o engenho, meti, de forma titubeante, mãos a uma hercúlea tarefa, A de rabiscar um conjunto de histórias ou estórias, desde a infância até aos tempos da Guiné.

Tive a ousadia de lhe chamar Paz e Guerra (que me desculpe Tolstoi mas este é um livro do avesso!) tendo como subtítulo: "De Pequeno ao Furriel Pequenina"

Embora não passe ainda de projeto, gostaria de partilhar no blogue parte destas vivências, se tal virem nos mesmos qualidade bastante para aqui serem difundidas, permitindo assim o crivo dos leitores, em particular dos que se acharem visados pelos mesmos, corrigindo o que houver a corrigir antes de o mesmo passar a livro.

Não abusando do teu tempo, a seu tempo pedirei permissão para a publicação de fotos propriedade do Blogue bem como citações de vários bloguistas.

Como creIo ser obrigatório, envio as duas fotografias da praxe bem como um resumo do meu percurso profissional.

Grande abraço,
Joaquim Costa
____________

Nota biográfica - Joaquim da Silva Costa

  • Nasceu a 27 de Abril de 1950
  • Minhoto de Vila Nova de Famalicão
  • Professor do Ensino Secundário
  • Com formação em engenharia eletromecânica pelo ISEP e um Curso Superior Especializado em Direção Pedagógica e Administração Escolar (ESEJP)
  • De 1975 a 1981 lecionou em várias escolas: Santo Tirso, Portalegre, Santarém, V.N. da Famalicão e Peso da Régua até se fixar em Gondomar.
  • De 1982 a 1985 foi destacado para a então Direção Geral do Ensino Secundário para exercer as funções de Orientador Pedagógco: Integrando a Equipa Pedagógica n.º 1 da DREN, orientou os estágios de professores nas escolas de V. N. de Gaia, V. N. de Famalicão, Braga, Barcelos , Viana do Castelo e Ponta Delgada (Açores)
  • Na escola Secundária de Gondomar ( mais tarde Agrupamento de Escolas n.º 1 de Gondomar) exerceu as funções de Vice-Presidente do Conselho Diretivo durante 4 anos e a de Diretor durante 20 anos
  • Responsável, durante 3 anos, pela cadeira de Prática Pedagógica, na profissionalização em serviço de professores, dos grupos: 430 e 520, na Escola Superior de Educação do Porto
  • Como profissional liberal, foi técnico responsável por projeto, exploração e execução de infraestruturas de eletricidade, telecomunicações e gás.
  • Durante vários anos trabalhou em regime de "part tame" numa empresa de construção civil e obras públicas
  • Foi ainda diretor pedagógico de um Polo de formação profissional do IEFP
  • Reformou-se em Maio de 2015 ao fim de 40 anos de serviço no ensino e 3 de serviço militar-...Ufff…!!!


Guiné > REgião de Tombali > CCAV 8351 (Cumbijã, 1972/74) > Nhacobá > s/d > Furriéis Azambuja Martins e Costa


Foto (e legenda): © Vasco da Gama (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Aqui fica, desde já o índíce e a nota inicial do projeto de livro


PAZ E GUERRA (DE PEQUENO AO FURRIEL PEQUENINA)


ÍNDICE
Paz
1 – O primeiro dia das nossas vidas
2 – Dois tostões, o preço da privacidade
3 – A primeira grande (b)vitória
4 – As minhas tamanquinhas
5 – Sem pão "catem" (não há) presunto
6 – A primeira viagem para além do Ave
7 – A ida ao médico
8 – O mata bicho
9 – Caldas da Rainha – A chegada às portas da tropa … grande fardo!
10 – Tavira - Amor, ódio … e trampa
11 – Chaves – Férias, o Estraga a Tábua … e o Forte de São Francisco
12 – Estremoz – A "Outra Família", o Águias D'Ouro… e o Zé D'Alter
13 – Portalegre – De passagem, a fotografia… e o discurso
14– A Viagem dos três tristes tigres

Guerra
15 – O Embarque, as(os) hospedeiras(os) … e África Minha
16 – O batismo… com a reza do terço
17 – Gato por lebre.
18 – As nossas lavadeiras… e o Furriel Pequenina
19 – Cumbijã – A nossa modesta casinha, os picadores e a crueldade das minas
20 – A primeira visita dos "vizinhos"
21 – A cruel confirmação do discurso – "o primeiro murro no estômago"
22 – A segunda visita dos "vizinhos"
23 – Operação "Balanço Final" - A retribuição das visitas
24 – O dia mais negro – "o segundo murro no estômago"
25 – A primeira noite… em Nhacobá
26 - "Bora lá" para a nova casa (Nhacobá)
27 – Férias... e o teste da cerveja
28 – O regresso de férias – "o terceiro murro no estômago"
29 – O que outros disseram de nós
30 – A Ração de Combate
31 – O Cantinflas do Cumbijã
32 – As hortinhas dos "Duros" do Cumbijã
33 – Outras guerras... outros protagonistas
34– Atividades lúdicas… e Grândola Vila Morena
35– Galinha gorda... por muito dinheiro
36 – O regresso a casa

Nota inicial

Este meu pequeno livro não é, nem tem essa pretensão, autobiográfico. Não há lastro de vida que o justifique. São apenas flashes, de vivências de uma família numerosa no contexto de uma região, e de uma época, bem como vivências de um grupo de homens (...a outra família) que um acaso juntou em plena guerra colonial. Não é mais do que um auxiliar de memória coletiva para que se não percam nas brumas do tempo quer:

- As vidas de uma geração de homens e mulheres que em contextos tão adversos foram capazes de criar sólidos alicerces que tinham como cimento os valores do trabalho, da partilha, da honestidade da lealdade e da honra, e onde os seus filhos nasciam e cresciam como ramos de uma sólida árvore. O Zé e a Gracinda foram os pilares de uma dessas famílias: resilientes, determinados, de uma riqueza humana incomensurável e de uma grande sabedoria, não obstante nunca terem frequentado a escola;

- Bem como o sacrifício de toda uma geração de jovens, quase adolescentes, que generosamente ofereceram os melhores anos da sua juventude, e, muitos a própria viva, a uma causa que lhe disseram nobre, de defesa da pátria. Podemos, e devemos, questionar a justeza da guerra (se é que há guerras justas), mas é imperdoável esquecer e mesmo ostracizar muitos destes homens (que não conseguiram vencer o trauma da guerra), ignorando o seu sofrimento (e das suas famílias) tendo como causas quer deficiências físicas múltiplas quer o stress pós-traumático

Não pretendo com este livro questionar, analisar ou julgar, pretendo apenas e tão só contar um conjunto de histórias; entre muitas, de uma forma cronológica; vivenciadas e marcantes pela sua singeleza, ingenuidade e caricato das mesmas; bem como narrar, de uma forma ligeira (nunca aligeirada), aspetos da vida de um grupo de militares na guerra colonial, ainda hoje (mal contada) não contada.

Aqui procurei, com objetividade, narrar os acontecimentos sem os contaminar com narrativas autoelogiosas ou de patriotismos serôdio.

Por respeito aos meus camaradas que pereceram em combate e aos que ficaram com sequelas físicas e psicológicas, não obstante uma narrativa mais intimista e menos belicista e patrioteira dos acontecimentos, diferente de muitas outras já publicadas, são relatados todos os momentos, uns mais alegres e divertidos, outros mais dramáticos e dolorosos, com o respeito e admiração que a situação exige e estes valorosos homens (que a pátria rapidamente esquece) inequivocamente merecem. Limitei-me a contar ocorrências e vivências, evitando juízos de valor precipitados, não fugindo ao objetivo inicial de apenas contar histórias.

Com a memória já gasta, não obstante o rigor dos acontecimentos relatados, pode acontecer que nem sempre a sua sequência cronológica corresponda à realidade. Irrelevante para o caso tendo em conta o objetivo da narrativa


2. Resposta do editor LG:

26/01/2021, 13:10



Grande Tigre do Cumbijã!... Camarada e colega (também fui docente.. ) e, desde agora, membro da Tabanca Grande, com direito a sentares-te, à sombra do nosso sagrado e fraterno poilão, no lugar nº 826 (está "cativado", é teu):

Joaquim, fico feliz (, ficamos todos,) pela tua decisão. Como acompanhas o nosso blogue, há pelo menos 5 anos, sabes bem que temos incentivado os nossos camaradas a escrever e, se possível, publicar em papel... Hoje há outras alternativas como o e-book... De qualquer modo, temos o nosso blogue onde já se revelaram muitos talentos literários. Muitos livros aqui, dezenas e dezenas..

Fico entusiasmado com o teu projeto. Teremos muito gosto em publicar ( logo partilhar, ) as tuas memórias como minhoto, português,proffessor, engenheiro e ex-combatente. Como sabes, não somos um "blogue de causas", logo não temos qualquer "agenda político-ideológica"... Falamos de tudo ou quase tudo o que nos diz respeito, enquanto amigos e camaradas da Guiné, evitando apenas o "terreno minado" da PRF (Política, Religião e Futebol)... (Entenda-se: política partidária, proseltismo religioso, futebol clubístico...).

Gostamos de dizer que o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande, nela cabendo todos nós (e mais alguns...) com tudo o que nos une e até com aquilo que nos pode separar... Portanto, Joaquim. estás em casa, e ainda por cima não muito longe (menos de uma hora de carro) da minha segunda terra, Candoz,Paredes de Viadores, Marco de Canaveses (, também região demarcada do Vinho Verde) ...

Eu próprio faço questão de te apresentar à Tabanca Grande, o mais rápido possível. Manda, entretanto, em formato jpg, se possível, mas pode ser também em pdf, uma foto tua, fardado... Só me chegou, em boas condições, a tua foto atual.

Boa saúde. Mantenhas. Protege.te. Luis

PS - Se quiseres que a gente te dê os parabéns, quando chegar o teu dia de aniversário, dá ao teu OK. Dou conhecimento ao nosso coeditor Carlos Vinhal.


3. Resposta do Joaquim Costa
26/01/2021, 14:45

A Guiné, o ensino e “Baco” nos une, ergamos as nossas taças e brindemos, se não te importas com Alvarinho, pela amizade que nasce e pela saúde de todos aqueles que viveram momentos difíceis, e momentos de grande cumplicidade na guerra colonial

Reenvio a foto solicitada
Um grande abraço de amizade


4. Resposta de LG:


26/01/2021, 14:57


À tua, Joaquim!... Bebamos, pois, um copo, mesmo que metaforicamente falando, da nobre casra Alvarinho, à tua, à nossa saúde! E aos 17 anos do blogue, que nasceu em 23/4/2004... E, claro, à tua entrada na Tabanca Grande, pela porta grande...

Obrigado pela foto, mais logo vou-te apresentar ao resto da rapaziada: somos 826 (contigo), mas infelizmente mais de 10% já deixou a "terra da alegria", embora continuando, ao nosso lado, em espírito... 

Um abração, Luis
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25 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21692: In Memoriam (378): Isabel Levezinho (Lisboa, 1952 - Oeiras, 2020), esposa do Tony Levezinho (ex-fur mil at inf, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71)... A sua memória fica inscrita, a título póstumo, no lugar nº 824, sob o fraterno e simbólico poilão da Tabanca Grande (Luís Graça)

9 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21626: Tabanca Grande (506): António Marreiros, natural de Sagres, a viver há 48 anos no Canadá, ex-alf mil em rendição individual, CCaç 3544 (Buruntuma, 1972) e CCAÇ 3 (Bigene e Guidage, 1972/74): senta-se à sombra do nosso poilão no lugar nº 822

4 de novembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21516: Tabanca Grande (505): Serra Vaz senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 821: foi fur mil op esp, CCAÇ 2335 (Angola, 1968/70) e dedica-se ao estudo de memoriais militares

(**) Vd. postes de:

7 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3581: A História dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (1): Apresentação e Chegada a Bissau

15 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3624: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (2): Natal de 1972 em Aldeia Formosa

16 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3638: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (3): Jan 73: Com o Cherno Rachide, em Aldeia Formosa

17 de Dezembro de 2008 Guiné 63/74 - P3640: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (4): 1973, Ano Novo... Vida Velha

28 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3675: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (5): Ocupação do Cumbijã e construção das instalações

4 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3697: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (6): Aditamentos (Vasco da Gama)

20 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3765: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (7): A visita do General Spínola

15 de fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3898: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (8): Maio de 1973 na vida da CCAV 8351 - (Parte I)

[As partes II e III não foram publicadas. LG]

Guiné 61/74 - P21826: Os nossos seres, saberes e lazeres (435): Andar a um certo vapor na Linha do Oeste (4): Regresso a Óbidos, o desfrute de uma vila artística, agradecimentos a Dona Josefa (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Dezembro de 2020:

Queridos amigos,
Aproxima-se o final da estadia em Óbidos, surge inevitavelmente esta sensação de pesar, por haver tanta coisa que fica por ver, em Óbidos e arredores. Hoje é dia de reverenciar uma das nossas artistas maiores, Josefa d'Óbidos, procurar visitar a preceito o Museu Municipal, uma instalação cultural magnífica, andar por igrejas, rever livrarias, passear pela cerca do castelo, registar o que estas ruas mostram de boa conservação, toda a vila tem um chamamento a civilizações pretéritas, vale a pena percorrer os jardins e até perceber porque é que a UNESCO atribuiu a Óbidos o título de Cidade da Literatura.

Um abraço do
Mário


Andar a um certo vapor na Linha do Oeste (4):
Regresso a Óbidos, o desfrute de uma vila artística, agradecimentos a Dona Josefa


Mário Beja Santos

Começo o dia na Igreja de Santa Maria, chegou o momento de reverenciar Josefa d’Óbidos, nada melhor que pegar no historiador de Arte Vítor Serrão, alto especialista no Maneirismo, e citar o seu trabalho publicado pela Quetzal Editores em 2003: “É a nossa mais conhecida artista barroca, e o testemunho mais vivo, em tonalidades regionais, de uma cultura de retórica imagética, de simbologia decorativa e de requintada elevação sensual que, aliadas a uma espiritualidade tridentina, a situam no mesmo mundo de referência de um Padre António Vieira na oratória messiânica, de um Dom Francisco Manuel de Melo nas exaltantes narrativas literárias desse ‘tempo escuro’ de bloqueio nacional, de uma Soror Maria do Céu na sua poesia feita de arrebatamentos místicos, ou de uma Soror Mariana Alcoforado na sua amorosa epistolografia paraerótica. Os quadros de Josefa respiram o mesmo sabor: falam da religião, e falam com Deus, como se se tratasse de coisas simples e a todos acessíveis, estimulam os saberes da vista e adoçam os sabores do olfato, dialogam com os frutos dos pomares, as flores silvestres, os rebanhos de ovelhas e as vacas em pastorícia, com a água das fontes, a humidade da terra arada, a bravura dos ventos marinhos, em suma, com todos os elementos naturais, assim simplificando nessa visão bucólica as complexas vias artísticas da alegoria moral (…) Foi autora de adoçados Cordeiros Pascais em cartelas de flores e de ingénuos Meninos Jesus ora nus, ora vestidos de tule e rendas, ora ataviados como fidalgos de província ou amoráveis peregrinos, que faziam as delícias de uma clientela beata doméstica ou monacal; foi criadora de numerosas naturezas-mortas de aparato efeito cenográfico na representação de barros, frutos e flores, género que lhe conferirá o grau mais afirmado de originalidade; foi autora, por certo irregular, de pintura religiosa para ciclos decorativos ou retábulos de altar; foi executante de miniaturas de cobre onde a expressão do desenho e o sabor das composições se aprimoram…”. Enfim, um dos nomes consagrados das Artes Plásticas em Portugal no século XVII.
Entrei na Igreja de Santa Maria também com outro livro na mão, já referido, Linha do Oeste, coordenação de Benedita Pestana, Assírio & Alvim, 1998. É que além de Josefa d’Óbidos a Igreja de Santa Maria reserva outras surpresas. O interior da Igreja está ricamente revestido com azulejos seiscentistas, tem peças de Arte extraordinárias como seja o retábulo maneirista da capela-mor e o magnífico túmulo renascentista de D. João de Noronha e D. Isabel de Sousa, figuras nobres que se destacaram pela sua ação mecenática. Se o nome de D. João de Noronha está ligado à construção do Paço dos Alcaides no castelo, o de D. Isabel de Sousa está intimamente relacionado com a encomenda do seu próprio túmulo e do seu marido. Construído em pedra calcária de Ançã, o jazigo apresenta um arco de volta perfeita, ladeado por plintos e respetivas pilastras decoradas com motivos ao romano, encimadas por estátuas de profetas, cobertas por baldaquinos. A coroar toda a composição, encontramos uma representação da Assunção da Virgem e de Deus-Pai abençoando. Não se conhece o autor desta maravilha, há quem o atribua a Nicolau Chanterene, pela semelhança estilística com outras obras suas realizadas entre nós. O mais importante é que pela sua estrutura e decoração o túmulo de D. João de Noronha e D. Isabel de Sousa introduziu o formulário renascentista na região, trata-se de um símbolo de grandeza e de poderio, testemunha um gosto estilístico que conheceu um período de vigência relativamente curto em Portugal, motivado pela utilização prolongada das formas tardo-góticas e pela adoção desde cedo das formas maneiristas. Dito preto no branco, trata-se de um exemplar mais magnificente da escultura renascentista em Portugal.
O Museu Municipal de Óbidos é de visita obrigatória, os pontos de referência são em bastante número: Cruzeiro, Igreja de S. João Baptista, livrarias, a porta da vila, toda a Rua Direita, o edifício dos Paços do Concelho, a Capela de S. Martinho, a Igreja de S. Pedro, a Igreja da Misericórdia, a Igreja-Matriz de Santa Maria, há dois museus, este e o Museu Abílio de Mattos e Silva, entre outras belezas. O Museu é um antigo solar do século XVIII, foi residência do pintor Eduardo Malta, é muito compósito, desde Arte Sacra a Arte Contemporânea encontramos lá um pouco de tudo. É um espaço que a museografia brindou, trata-se de uma residência, o pintor Malta procedeu a alterações, está ricamente beneficiado com azulejaria, é bom que o visitante, se estiver em Óbidos mais de um dia, ali regresse para rever e usufruir de espólio tão rico em condições de exposição atraentes. E terá mais uma oportunidade de contemplar obras magnas de Josefa d´Óbidos.
Museu Municipal de Óbidos
Peça sem título, de Graça Pereira Coutinho, um espantoso aproveitamento de restos de cerâmica que ascenderam a escultura… E que escultura!
Auto-retrato de Eduardo Malta
S. Sebastião na imaginação do artista José Aurélio

Volta-se ao exterior, o tempo é ameno, o céu azul de nuvens em viagem, pode-se ir passear entre livrarias e andar ali à volta da Cerca do Castelo, subir e descer, descer e subir, contemplar a extensa Várzea. Há sempre um pormenor a reter nestas ruas calcetadas a rigor. A hidrângea floresce e lá ao fundo temos uma janela de caraterísticas manuelinas. Vamos então desfrutar este exterior antes de emergir noutros interiores artísticos.
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Nota do editor

Último poste da série de 23 de janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21799: Os nossos seres, saberes e lazeres (434): Andar a um certo vapor na Linha do Oeste (3): Das Caldas da Rainha à Foz do Arelho (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P21825: (In)citações (180): Fotogaleria do José Eduardo Oliveira (JERO) (1940-2021), enquanto membro da efémera Tabanca de São Martinho do Porto (2010-2012) (Luís Graça)

Alcobaça > São Martinho do Porto > 13 de Agosto de 2011 > Convívio da Tabanca de São Martinho do Porto > O nosso mui querido Jero (o alcobacense José Eduardo Oliveira) e a sua filha, Eduarda Oliveira (Chefe de Divisão de Turismo e Gestão de Eventos na Câmara Município de Oeiras)


Alcobaça > São Martinho do Porto > 13 de Agosto de 2011 > Convívio da Tabanca de São Martinho do Porto > O Pepito, a mãe Clara, o Jero e a sua filha...

 O Jero trouxe consigo dois exemplares de uma obra sobre a baía de São Martinho do Porto, que ofereceu , um, ao Pepito e outro à Tabanca Grande, na pessoa do Luís Graça. Aqui fica referência bibliográfica: Maria Cândida Proença (ed lit) . "A Baía de São Martinho do Porto. Aspectos geográficos e históricos". Lisboa, Colibri, 2005.

Fotos (e legendas):© Luis Graça (2011). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Alcobaça, São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 11 de agosto de 2012 > 3ª edição do convívio anual da Tabanca de São Martinho do Porto > O João Graça, médico e músico, e o JERO.


Alcobaça, São Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 11 de agosto de 2012 > 3ª edição do convívio anual da Tabanca de São Martinho do Porto > O JERO fez questão de tirar uma foto com o João Graça, com quem teve o prazer de conversar com algum tempo e vagar... 

O JERO na altura estava um pouco afastado  das nossas lides bloguísticas, por razões de saúde...  Ele veio acompanhado da sua filha Eduarda Oliveira que, no entanto, não pôde ficar para o almoço-convívio que se prolongou pela tarde dentro...

Fotos (e legendas):© Luis Graça (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Tabanca de São Martinho do Porto > Casa de férias da família Scharwz da Silva > 21 de Agosto de 2010 > Convívio, já obrigatório, anual, com membros da Tabanca Grande > Da esquerda para a direita, o régulo da nova Tabanca, o Pepito; o JERO (que tem casa em São Martinho há mais de 40 anos, foi nesta pérola da Costa de Praia que arranjou a sua "bajuda", professora do ensino básico); e eu, dono da máquina fotográfica que tirou esta foto (...mas o fotógrafo foi o Xico Allen, o seu a seu dono!).

Fotos (e legendas):© Luis Graça (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > 7 de Agosto de 2008 > Casa do Cruzeiro, a casa de verão de Carla Schwarz da Silva (1915-2016), mãe do nosso saudoso amigo Carlos Schwarz (Pepito) (1949-2014)...

Uma vista fabulosa da baía de São Martinho do Porto, a partir da janela do quarto que era, na altura, do Pepito e da Isabel Levy Ribeiro.

Foto (e legenda):© Luis Graça (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Alguns amigos  e camaradas do nosso blogue reuniam-se aqui, na Tabanca de São Martinho do Porto,  todos os anos em agosto, quando o Pepito (Bissau, 1949 - Lisboa, 2014) vinha de férias, no período de 2008 a 2012. 

Alguns de nós tiveram o privilégio de conhecer um pouco melhor  o Pepito e a sua família   a começar pela matriarca, a dra. Clara Schwarz da Silva ( durante vários anos, desde 20010 até à sua morte, aos 101 anos,  em 2016, a "decana da Tabanca Grande").

Estamoa falar da famosa "casa do Cruzeiro", em São Martinho do Porto, no sítio do Facho, uma casa  que o pai da Clara (e avô do Pepito), o engenheiro de minas Samuel Schwarz (1880-1953), judeu de origem polaca, lhe comprara quando ainda solteira, antes da II Guerra Mundial...

Por seu turno, o pai do Pepito, Artur Augusto Silva (1912-1983)  tinha sido  advogado em Alcobaça e em Porto de Mós no pós-guerra. O casal viveu em Alcobaça entre 1945 e 1949, antes de partir para a Guiné (ele, em finais de 1948 e o resto da família em 1949). Foram amigos pessoais e visitas de casa do pintor Luciano Santos (Setúbal, 1911-Lisboa, 2006), que vivia então em Alcobaça.

Bom, o JERO interessou-se por estas histórias e outras  relacionada com os seus vizinhos de praia (que ele não conhecia)  (incluindo as crianças refugiadas austríacas acolhidas, no pós-guerra,  por algumas famílias alcobacenses, e com quem o JERO brincou)  e escreveu um belíssimo texto nos 100 anos da dr.ª Clara Schwarz. (*). 

Mas primeiro é preciso explicar como é que o JERO conheceu a dona da "Casa do Cruzeiro" (, que o Pepito, esse, já conhecia de nome,  da sua participação no nosso blogue)... 

O JERO participou nos  três históricos convívios da Tabanca de São Martinho do Porto (2010, 2011 e 2012),  conforme documentam as fotos que aqui republiicamos, em sua homenagem póstuma. (**)

Mas já agora tenho que voltar a contar como é que eu tomei a liberdade de o convidar, não sendo eu o "dono da casa"... Expliquei-lhe isso  em tempos, em comentário ao poste P6895 (***)

(...) Surpreendentemente tive um neurónio que se me acendeu,  ao passar, de manhã [, em 24 de agosto de 2010,] perto da tua casa, em pleno São Martinho do Porto (que eu ainda não sabia que era a tua, e cujas portas depois, de tarde, me franqueaste)... 

Tinha a ideia de te ter visto, de relance, há um  ano [2009] ou dois atrás  [2008], em Agosto, quando me dirigia á casa da Clara Schwarz / Pepito [, a "Casa do Cruzeiro", no Facho]...

Afinal tu já fazias parte da paisagem balnear e da iconografia de São Martinho do Porto há mais de 4 décadas!...

É obra!... Foi em honra do Pepito, de sua mãe e de ti, que passámos a ter [, em 2010,] uma nova tabanca, a Tabanca de São Martinho do Porto, com convívio (obrigatório) pelo menos uma vez no ano, em Agosto...

Eu sei que estamos a roubar gente à Tabanca do Centro, do régulo Joaquim Mexia Alves, mas é por uma boa causa... Por outro lado, nada impede ninguém de ter várias moranças em vários sítios... (como é o caso do Zé Belo, que é um verdadeiro "nómada", ou do Xico Allen, cujo sonho é ser régulo de Empada)...

Só é preciso que o coração seja grande e generoso como o teu, o do Joaquim Mexia Alves, do Xico Allen, do Manuel Reis, do António Pimentel, do Zé Teixeira, do Zé Belo, do Teco, do Pepito, da Isabel Levy, da Clara Schwarz, e dos demais 400 e muitos tabanqueiros da Tabanca Grande. 

Para o ano [, 2011], temos que "programar" a coisa... E nos 100 anos da Clara, em 2015, vai ser ronco dos grandes!... Ela prometeu-me que alinhava!!! (...)

Infelizmente os nossos convívios terminaram em 2012 ( a 3ª e última edição), não se tendo realizado o de 2013, por impossibilidade do Pepito vir a Portugal (, se bem, me lembro)... E em 2014 ele vem morrer subitamente em Lisboa, em 18 de fevereiro, quatro dias depois da sua querida mãe completar os 99 anos...

Afinal, são três grandes amigos que aqui recordo, ao "revisitar" a nossa fotogaleria: o JERO (****), a  Clara Schwarz e o Pepito!...  (LG)

(**) Vd. postes de:


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Guiné 61/74 - P21824: (In)citações (179): Lembranças de JERO e do seu legado literário (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Janeiro de 2021:

Caríssimo,
O JERO vai fazer falta a todos, ficará na memória de muitos e o seu irrepetível legado literário será peça obrigatória que os investigadores, no futuro, não deixarão de esmaltar como caso único de um cronista que deu voz coletiva a um grupo de jovens que seguiu incondicionalmente um inesquecível comandante de companhia.

Um abraço do
Mário


Lembranças de JERO e do seu legado literário

Mário Beja Santos

C
onheci o JERO quando tive a oportunidade de ler o "Diário da Companhia de Caçadores 675"[1], ele era assumidamente o responsável pela narrativa, não escapava ao leitor o tom de exaltação pela figura do Capitão Tomé Pinto (que ficaria conhecido como o Capitão do Quadrado) e as vicissitudes desta unidade durante o ano, por Binta e arredores. Trata-se do primeiro diário de uma unidade militar, tem um escrivão dotado de fala coletiva, teve seguramente acesso aos dados da atividade operacional de uma companhia que chegou a um local, em 1964, infestado pela guerrilha, havia mesmo o desplante da população afeta ao PAIGC fazer descaradamente lavras a escassos quilómetros do quartel. Há momentos impressionantes deste diário de JERO, tenho repetidamente observado aquela descrição em que o capitão é ferido e até ser evacuado para Bissau foi alvo de transportes de um afeto, de uma solidariedade impressionantes pelo que continham de genuíno, de uma afabilidade sentida.

Pedi para falar com JERO, havia algo de estranho naquele diário, era facto que se tratava de uma edição do ano seguinte, mas as comissões são mais prolongadas, o Capitão Tomé Pinto partira para um curso que lhe daria a promoção a major, a CCAÇ 675 acusou a falta daquela figura icónica, aquele verdadeiro traço de união que metia valentia, lucidez e muito tempero na liderança. JERO, bem como o seu afável camarada Belmiro Tavares, explicaram que aquele ano marcara a memória de todos, tudo o mais fora uma sucessão de obrigações.
Este tipo de observações seriam confirmadas pelo livro seguinte de JERO, "Golpes de Mãos"[2], o antigo furriel-enfermeiro sentia-se liberto para ter uma escrita um pouco mais desabrida e descrever os factos circunscrevendo-se à sua própria leitura dos acontecimentos. Fiz a recensão da obra, o General Alípio Tomé Pinto fez questão de nos reunirmos, o que aconteceu num restaurante ali para os lados da Avenida da República, em Lisboa, vieram algumas explicações sobre aquele diário truncado. E conhecedor como sou do que mais significativo se escreveu e compõe a literatura da guerra da Guiné, guardei para os meus livros os adjetivos de admiração deste diário, obra única de voz coletiva pelo punho de um cronista que nunca alardeia qualquer gabarolice, eleva a épica de uma unidade de caçadores que em escassos meses limpa a sua zona de ação, sem desfalecimentos, e às ordens de um destemido capitão.

Encontrámo-nos recentemente, e a afabilidade era a mesma. Estava a preparar o livro "Nunca Digas Adeus às Armas", o ponto de partida era um poeta popular que cantava as lides do BCAV 490, e em dado momento cruzam-se as vidas do batalhão de Farim e os homens de Binta, havia esclarecimentos, o Belmiro Tavares promoveu o encontro a três, de novo contei com a afabilidade de JERO, a rememorar factos. Tínhamos aprazado um encontro para a apresentação do meu livro no Palácio da Independência, obviamente que convidara o General Alípio Tomé Pinto e os seus camaradas, não se efetivou devido à pandemia, conversámos ao telefone, era tudo questão de aguardar uma nova oportunidade. Não haverá nova oportunidade de me encontrar com JERO, mas o seu legado literário, a sua serenidade, o facto de ele ser um guardião de memórias como nenhum outro, faz com que eu o guarde na lista das grandes cordialidades, sabedor como sou do seu diário é obra incontornável da literatura da guerra da Guiné. E assim me curvo respeitosamente diante do cronista de olhar sempre iluminado e basto sorriso.
____________

Notas do editor

[1] - Vd. postes de:

21 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9071: Notas de leitura (304): Dois Anos de Guiné - Diário da Companhia de Caçadores 675, por Fur Mil Oliveira (1) (Mário Beja Santos)

25 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9094: Notas de leitura (305): Dois Anos de Guiné - Diário da Companhia de Caçadores 675, por Fur Mil Oliveira (2) (Mário Beja Santos)

28 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9107: Notas de leitura (306): Dois Anos de Guiné - Diário da Companhia de Caçadores 675, por Fur Mil Oliveira (3) (Mário Beja Santos)
e
2 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9128: Notas de leitura (307): Dois Anos de Guiné - Diário da Companhia de Caçadores 675, por Fur Mil Oliveira (4) (Mário Beja Santos)

[2] - Vd. poste de 26 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8822: Notas de leitura (277): Golpes de Mão's, Memórias de Guerra, por José Eduardo Reis de Oliveira (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 28 de Janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21819: (In)citações (178): Até já, José Eduardo!... (Joaquim Mexia Alvez, régulo da Tabanca do Centro)

Guiné 61/74 - P21823: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (37): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Janeiro de 2021:

Queridos amigos,
Annette não se limita a compendiar e a organizar a história da comissão, houvera um pretexto para se fazer romance, a dita guerra da Guiné colou-se-lhe à pele, agora ela estende as antenas para tudo o que pôde acontecer depois do regresso, e perguntou seraficamente ao seu amoroso Paulo Guilherme se e quando se dera tal retorno, qual o seu significado, é o que aqui se relata, em escassos parágrafos, aqueles cerca de cinco meses (nem Annette sonha) dariam uma narrativa bem remexida, estava-se na fase da alvorada do multipartidarismo, Paulo Guilherme ouvia as coisas mais inconcebíveis vindo de políticos que abandonavam o PAIGC e gizavam quadros ideológicos nem imaginando se o povo os podia perceber. E lembra aquelas noites em que calcorreava estradões esburacados entre a pensão da Dona Berta e a CICER, onde tinha guarida, por vezes contava com boleias providenciais, era o seu vizinho Delfim da Silva que vinha com mulher e filhos, mas havia sempre lugar para mais um, nenhum dos dois sonhava que o Delfim viria a ser ministro dos Negócios Estrangeiros, mais tarde passou um mau bocado quando o Nino Vieira se escapuliu para Lisboa e os seus acólitos foram parar à enxovia, são coisas da vida.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (37): A funda que arremessa para o fundo da memória


Mário Beja Santos

Mon amoureuse, é uma frase banal, mas não tenho palavras para te agradecer o modo como organizas o que ainda falta do primeiro ano da minha comissão na Guiné, e não querendo entristecer-te, prepara-te para acontecimentos dolorosos, até agosto de 1969. Num encontro fortuito com um antigo colaborador, recentemente, o então furriel João Sousa Pires, o meu braço-direito para a contabilidade e administração, ele lembrou-me aquela manhã em Mato de Cão em que as embarcações esperadas teimavam em chegar, nisto, e com bom atraso, chega uma embarcação civil a revelar danos, uma roquetada em Ponta Varela estilhaçara o convés e afetara a navegação, o piloto tinha o rosto rasgado por ferimentos de vidros partidos, eu que aguardasse os outros barcos, pediu-me, vinham cautelosamente quase encostados à margem direita, como aconteceu, dei com rostos apavorados de gente que temia o pior. Lerás num aerograma que um dia demos na picada entre Canturé e Sansão com alguém que corria em estado de transe em nossa direção, todo esfarrapado, mandei parar, podia tratar-se de uma cilada, a preceder uma emboscada, não era tal, tratava-se de um fugitivo de uma embarcação civil que fora seriamente danificada também perto de Ponta Varela, não demos por nada, ou supusemos tratar-se de tiroteio sobre o quartel do Xime, pois bem, este homem lançou-se a nado, andou a monte até chegar à nossa estrada, o rosto estampado de pavor, levámo-lo para Missirá, veio-se a confirmar a sua versão, foi devolvido à procedência.

Tu pedes-me informação sumária sobre o período em que estive como cooperante, em 1991, na sequência da visita de trabalho de 1990, espero que te lembres que regressei a Missirá e por mais que procure um relato fidedigno dessa visita não encontro expressão para o meu estado de alma, o que eu solucei, por me encontrar naquele chão tanto calcorreado, junto de um povo que me acolheu tão familiarmente e onde julgo ter cumprido o meu dever, e deixado um rasto de fraternidade.

Annette, sobre 1991 é aquela sensação ambivalente de procurar fazer bem, ser realista nas propostas para os dois governos envolvidos, entusiasmo não me faltava, mas as deceções acumulavam-se dia após dia. Logo à chegada, em Bissalanca, dois técnicos do Ministério da Indústria e Recursos Naturais, com caras de enterro, disseram que tinha sido um erro a minha vinda, vivia-se a euforia do multipartidarismo, ia ser difícil encontrar gente disposta a pôr aquele projeto de pé, calei-me, recebera a missão e faria os possíveis e os impossíveis para falar com os parceiros necessários, lançar a semente de uma defesa do consumidor à altura das necessidades elementares da Guiné-Bissau. O que aconteceu, tanto junto da administração como das agências das Nações Unidas, bem como dos projetos internacionais em curso, das organizações não-governamentais. A comunicação social recebeu-me bem, a televisão nomeou um jornalista para prepararmos uma série de programas para uma rubrica que se intitulava “Nós somos um milhão de consumidores”, produzimos seis filmes, escrevi os guiões, acompanhei as filmagens, falou-se da água potável, do fogareiro ecológico, dos perigos de comprar medicamentos a granel, das noções práticas de higiene, das vantagens para a saúde da variedade alimentar, e por aí adiante, o programa foi muito bem acolhido. Alguém lá na televisão quis fazer dinheiro e impôs-me que a série só continuava se eu encontrasse um financiador, ao que respondi que eu era um mero cooperante estrangeiro, competia à estação televisiva angariar um mecenas, e abruptamente, sem qualquer explicação, acabou a série, mais magoado não podia ficar. O Ministro do Ambiente português visitou Bissau, estava eu já no final da minha missão, achou bem o projeto de se criar uma comissão interministerial para a defesa do consumidor, o governo português apoiaria o seu funcionamento e toda a logística com um patrocínio de 8 mil contos, não era muito mas tinha dignidade, dava ânimo para uma primeira fase de organização de medidas de política, juntava técnicos de uma dimensão apreciável de ministérios que ficariam incumbidos de elaborar relatórios e sugerir medidas plausíveis, nada de extravagâncias legislativas. Arrancou-se a ferros um despacho do Presidente da República da Guiné-Bissau a dotar a administração do país com a dita comissão interministerial, ficaria num espaço que foi selecionado dentro do antigo quartel-general português, em Santa Luzia, obras a cargo do patrocinador, a terem lugar no início de 1992. E toda aquela inércia que se me deparava em muitos ambientes caiu sobre o projeto, impunha-se uma resposta rápida para as autoridades de Lisboa, só chegou meio ano depois, era demasiado tarde, senti completamente inglório tudo quanto por ali andara a fazer. Mas mais uma vez, senti que cumprira cabalmente o meu dever. E ponto final.

É claro que houve compensações. Encontrei-me no Cumeré com o coronel Mamadu Jaquité, alguém que por duas vezes me deixou mensagens na picada lisonjeando-me com o trato de alferes de merda, dizendo-me que eu não tivesse ilusões, viria numa urna pequena para Portugal. Depois de muito procurar, e graças a um outro cooperante, por sinal antigo combatente da Guiné, lá fui cumprimentar o tão temível adversário, ele estava a dar instrução na parada, homem de estatura meã, foi-se erguendo à espera da minha identificação, disse-lhe “meu coronel, eu sou o alferes de merda, o de Missirá, é com o maior prazer que o venho abraçar, permita-me que brindemos na companhia dos seus militares”. Falou-se da mina anticarro, que em breve te enviarei os apontamentos, é constrangedor o que vais ler, o coronel Jaquité sacudiu a água do capote, não fora ele, fora o tenente Correia, este desapareceu, quando se falou da minas tartamudeou, disse-lhe para não se apoquentar, esta era uma festa de vivos, não estávamos ali para glorificar o passado, o pior veio depois quando o tenente Correia me retirou do grupo, quase ao repelão, e segredou-me ao ouvido se eu tinha para ali 5 mil pesos (a ninharia do preço de uma refeição na pensão da Dona Berta), há dias que não havia arroz em casa, se eu podia dar uma ajudinha. Anoitecera, agarrei-me ao arame farpado, vendo Bissau ao fundo numa crepitação de luzes, chorei mansinho, a desdita de ter que estender a mão à caridade, claro que não houve dinheiro, houve nova viagem com mantimentos, tudo discreto, aprendi na minha religião que o que se dá com a mão direita a mão esquerda não sabe.

E fui figurante num filme, "Os Olhos Azuis de Yonta", o Flora Gomes, que eu encontrava com uma certa regularidade, um dia pediu-me se eu não me importava de estar no dia tal às tantas horas num bar noturno, tratava-se da sequência de uma enorme roda, tudo numa atmosfera de alegria. Não era possível dizer que não e por ali andei aos saltinhos, poderei pôr no meu currículo que fui figurante numa película guineense, com muito orgulho.

Momentos há, minha adorada, em que me apetece a total indisciplina, atirar os papéis ao ar, partir com um saco para Bruxelas e sentir o teu afago, ao pé de ti não há tédio, sinto que despertei para a vida na luz dos teus olhos, na ternura que me concedes. E tudo por causa de uma guerra. Imagina tu que há uns dias atrás vim de uma reunião algures na Baixa de Lisboa, descia a Rua do Carmo, que tu conheces, entrei na Livraria Portugal, ao pé do Elevador de Santa Justa, tínhamos uns minutos disponíveis para esgravatar novidades editoriais, e dei comigo a folhear uma antologia de Saint-John Perse, Prémio Nobel da Literatura de 1960, conheci este génio graças a uma oferta que me fez o poeta Ruy Cinatti, antes de partir para a guerra, era um livro de caráter ontológico que recolhia poemas de diferentes livros, e estava a folhear alguns desses poemas e senti uma profunda saudade da perda deste amigo, morreu em 1986, e que me ajudou tanto na Guiné, e que bom naquele momento saudá-lo lendo esta poesia genesíaca, um tanto mística, com sabor antilhano, sua proveniência:
“Grande idade, vimos de todas as margens da terra. A nossa raça é antiga, a nossa face é sem nome. E o tempo é muito instruído sobre todos os homens que fomos.
Grande idade, aqui estamos, encontro marcado, e de há muito, com esta hora de grande sentido. A noite desce, e de novo nos leva, com nossas presas de alto mar. Nenhum ladrilho familiar em que repercuta o passo do homem. Nenhuma casa na cidade nem pátio calçado de rosas de pedra sob as abóboras cenouras.
Grande idade, reinas, e o silêncio é teu número. E é imenso o sonho em que se lava o sonho. E o oceano das coisas nos assedia. A morte está no postigo, mas a nossa estrada não está lá. E eis-nos mais alto que sonho sobre os corais do século – nosso canto”
.

Adorada mulher que me tomou na grande idade, que me faz suspirar como trémulo adolescente, sonhar sem medir a posteridade, a ti entregue, numa quase rendição incondicional. Telefono amanhã, prepara-te para os papéis que vão chegar, trazem mágoa, mágoa inextinguível, acredita. Bien à toi, Paulo.

Os Olhos Azuis de Yonta, de Flora Gomes, de que fui figurante
O pôr-do-sol nas águas da Guiné convida à transcendência, à contemplação cósmica, ver a bola de fogo cair a pique na imensa densidade florestal é passarmos do dia para a noite, sentir os passos ouvindo possivelmente o correr das águas, talvez o bruxulear de um petromax num ponto acolhedor que nos espera, ouvir o piar das aves e temer mesmo um encontro frontal com gente hostil, como algumas vezes me aconteceu, o derramamento de sangue era inevitável.
O tocador de korá, que encontrei no Bambadincazinho, parente do meu amigo Braima Galissá, estávamos em 2010
A bolanha de Finete, tal como a encontrei em 2010
Por aqui se fazia a cambança do Geba, em direção a Finete, o caminho desapareceu, agora viaja-se por estrada alcatroada
Moeda de 10 000 pesos em prata (1991), comemorativa da viagem de Nuno Tristão (1446)
Banco Nacional da Guiné-Bissau, 1975, nota de Cem Pesos, efígie de Domingos Ramos
Vista esplendorosa da Ponta do Inglês sobre a foz do Corubal. Pena ter chegado tarde, bem queria ter visitado a Ponta Luís Dias, Tabucutá, a Mata do Fiofioli, bastiões do PAIGC na região do Corubal
____________

Nota do editor

Último poste da série de 22 de janeiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21795: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (36): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P21822: Fotos à procura de... uma legenda (141): Afinal, nem Jabadá nem Gampará... A cena do banho e da "canoa turra" passou-se na "Tabanca Velha", a caminho do cais de Lala, Nova Sintra (Contributos de Carlos Barros, Virgílio Valente, Amílcar Mendes, Eurico Dias)


Guiné > Região de Quínara > Mapa de São João (1955) > Escala de 1/50 mil > Posição relativa de Bolama, São João, Nova Sintra, Serra Leoa, Lala, Rio de Lala (afluemte do Rio Grande de Buba)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2020)


1. Andamos há três dias à volta de uma velha imagem, retocada, com quase meio século de idade, mostrando uma dúzia de militares (800 kg!) em cima de uma canoa, no "tarrafe", num rio (que originalmente se supunha ser o Geba). 

A foto foi enviada pelo Carlos Barros, mas o autor era o José Elias, ex-fur mil mec auto, da 2ª C / CART 6522/72 (Nova Sintra, 1972/74). O Crrlos Barros, da mesma companhia, estava na altura emTite...

Lançámos então o desafio aos nossos leitores para "completarem" a lacónica legenda do Carlos Barros... O BART 6522/72 estava então no setor de Tite com subunidades unidades colocadas em Tite, Fulacunda, Jabadá e Nova Sintra...

A 2ª companhia também esteve destacada em Gampará. Daí a hipótese de a foto ter sido tirada em Jabadá ou Gampará (, embora esta ficasse na foz do Rio Corubal) (*).

Sempre solícitos e generosos,os nossos dedciados leitores vieram, de pronto, responder. Virgílio Valente, da Tabanca de Macau, pôs a hipótese de ser o cais de Gampará(**) . E deu-nos também o contacto do seu camarada de companhia (, a CCAÇ 4142/72, Gampará, 1972/74), o ex-alf mil Eurico  Dias.

Escrevi ao nosso camarada Eurico Dias (que ainda não pertence à Tabanca Grande). Entretanto, também o Amílcar Mendes (, da 38ª CCmds, que estivera em Gampará, no 3º trimestre de 1972, membro da nossa Tabanca Grande, com 70 referências no blogue) respondeu, no Facebook, à questão da localização, dizendo logo que não podia ser o cais de Gampará (a 3 km do quartel).

E por fim temos um esclarecimento do Carlos Barros que parece pôr um ponto final nas nossas diligências. Só há um ponto a rectificar: não é no rio Geba,é o rio Lala, afluente do rio Grande de Buba... Reproduzimos a seguir as mensagens trocadas (Eurico Dias,Amílcar Mendes, Carlos Barros)


(i) Mail enviado pelo editor LG ao Eurico Dias:

Camarada Eurico Dias:

Bom dia, somos um blogue de ex-combatentes da Guiné, estamos na Web há 17 anos...Formamos uma comunidade de 825 amigos e camaradas da Guiné, formalmente "registados", incluindo o Virgílio Valente que me deu o contacto do ex-alf mil Eurico Dias (que, de resto, gostaríamos de ver, aqui, ao nosso lado, sentado à sombra do nosso poilão),,,

Será possível  o camarada confirmar o local onde foi tirada a foto que anexo ? Para o Virgílio Valente é o cais de Gampará...

 Para além do Virgílio Valente, a vossa companhia, a CCAÇ 4142/72, "Os Herdeiros de Gampará", está aqui representada, no nosso blogue, pelo Joviano Teixeira, natural de Tavira, ex-soldado cozinheiro.

 Um fraterno alfabravo (ABraço), saúde e longa vida. Luís Graça


(ii) Resposta do Fernando Eurico R Dias :

Date: sexta, 29/01/2021 à(s) 02:58

Subject: Foto Canoa - Jabadá ou Gampará

Boa noite:

Conheço há anos o blogue que muito admiro e vou frequentando como leitor, mas 'mea culpa', ainda não vim sentar-me à sombra do poilão. Fá-lo-ei brevemente.

Concordo com o que afirma Amílcar Mendez.  Nem a paisagem configura um cais nem a vivência no local era de veraneio. 

Durante a nossa comissão (CCAÇ 4142/72) não houve notícia de qualquer actividade náutica do PAIGC que tivesse levado a apresamento de embarcação, nem aqueles que nos passaram a "Herança" -  38.ª CCmds  e a CART 3417 - nos relataram qualquer história relacionada. 

Por outro lado, não há na foto qualquer traço fisionómico que a memória ou a comparação com fotos da época me ligue a elementos conhecidos. Há a hipótese de se tratar de quem nos substituiu no local já em Agosto de 1974, mas o porto e a barca não dão com a perdigota. 

Que continue a tentativa da descoberta.  O meu agradecimento aos editores do blogue pelo trabalho feito e um grande abraço solidário a todos os camaradas de armas que pisaram as bolanhas de Gampará, em especial ao meu amigo Virgílio Valente e ao Amílcar Mendez.

Até breve,

Eurico Dias, ex-Alf.Mil da C:Caç. 4142/72.   

(iii) Mensagem do Amílcar Mendes (38ª CCmds, 1972/74), postada no Facebook da Tabanca Grande, 28/1/2021

 Não me parece ser um cais . Muito menos o de Gampará .

O cais de Gampará ficava a cerca de 3 Km do destacamento . A picada era extremamente perigosas . Era sempre os picadores que encabeçavam a escolta e muito perigoso para se estar nestes propósitos de descontração .

Poderá ter sido já depois do 25 de Abril .

A minha companhia (38ª CCmds) esteve lá três meses em intervenção e demos um operacional Comando aos Herdeiros de Gampará  [, CCAÇ 4142/72].

Forte abraço para todos e ao Alferes "Chinês" [Virgílio Valente] um especial.

(iv) Comentário do Carlos Barros (*)

Boa tarde; pelo que tenho conhecimento, a canoa estava escondida no meio da "tarrafe" e foi encontrada nesse "cais" improvisado, no rio Geba. A diversão dos nossos amigos com a canoa processou-se porque o local era seguro e, provavelmente, poderia ser uma canoa do PAIGC ou da pouca população que existia em Nova Sintra, o que duvido. Essa canoa ficou nesse local e não foi trazida para Nova Sintra e o seu destino final desconheço.

Um abraço
Carlos Manuel de Lima Barros
ex-furriel Barros, BART 6520/ 2ª Cart
 
PS - Uma rectificação: o local preciso onde a canoa foi encontrada, escondida no meio do "tarrafe", foi concretamente num local chamado "Tabanca Velha", uma zona abandonada pelo PAIGC que tinha sido bombardeada pela aviação e arilharia, em 1963/64, tendo o PAIGC abandonado o local que servia de base para ataques a Bissau. 

Era uma zona totalmente queimada - talvez por bombas de napalm - , e as tabancas estavam todas carbonizadas , tendo a população afeta ao PAIGC abandonando o local. 

De facto, a "Tabanca Velha" ficava a caminho do cais de Lala, Nova Sintra, perto do local onde depositávamos o lixo armazenado

O Furriel Mecânico Auto José Pareira Silva Elias, a pedido de muitos soldados mecânicos da nossa companhia e da CCS, transportou nas viaturas esses amigos que queriam apenas momentos de diversão,no rio ou bolanha. 

O local era seguro mas, na Guiné,  nem tudo era seguro e, por sorte, nunca foram atacados pelos guerrilheiros do PAIGC. A canoa ficou no mesmo local e provavelmente recuperada pela parca população de Nova Sintra.

Guiné 61/74 - P21821: Parabéns a você (1926): Luís Graça, ex-Fur Mil AP Inf da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) e Virgílio Teixeira, ex-Alf Mil SAM da CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69)


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Nota do editor

Último poste da série de 25 de Janeiro de 2020 > Guiné 61/74 - P21804: Parabéns a você (1925): João Alberto Coelho, ex-Alf Mil Op Especiais da 1.ª Comp/BART 6522 (S. Domingos, 1972/74)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Guiné 61/74 - P21820: Usados & Achados: pensamentos para aumentar a nossa resiliência em mais um "annus horribilis"(5): Contra a Covid-19 e a pérfida caixinha de Pandora que vem sempre associada às pandemias, a palavra de ordem é: Confinemo-nos, sim, camaradas!... Mas não nos (con)finemos, ámen! (Luís Graça)



Um livro que ando a ler e recomendo...


Focha técnica:

Título: Epidemias e Socieade: da Peste Negra ao presnete.
Autor: Frank M. Snowden
Editora: Edições 70 [Grupo Almedina]
Coleção: História Narrativa
Ano: 2020
Nº páginas: 689 
ISBN: 9789724423692
Preco de capa: c.35 € / 30 e
Número de páginas: 700
Capa: Brochado
 

Sinopse_ (...)  O livro recomendado pelo The World Economic Forum no contexto do surto de coronavírus .

Uma análise ambiciosa ao impacto das epidemias que mostra como os surtos infecciosos de grande escala moldaram a sociedade desde a Peste Negra até ao presente. Num estilo claro e acessível, Frank M. Snowden argumenta que as doenças não se limitaram a influenciar as ciências médias e a saúde pública, mas também transformaram as artes, a religião, a história intelectual e a guerra.

Esta investigação comparativa e multidisciplinar da história da medicina e da história social aborda temas como a evolução das terapêuticas, a literatura sobre a peste, a pobreza, o ambiente e a histeria coletiva. 

Além de fornecer uma perspetiva histórica sobre doenças como a varíola, a cólera e a tuberculose, Snowden analisa ainda a repercussões de epidemias recentes como o VIH/SIDA, o Ebola ou a SARS-COVID, ao mesmo tempo que se questiona sobre se o mundo estará preparado para a nova geração de doenças infecciosas. (...)

 
Portuguezes pocos, y eses locos... 

1. Terão razão os nossos vizinhos espanhóis quando se dignam olhar para nós, confinados no "jardim à beira mar plantado", lá do alto dos Picos da Europa  com o olhar altivo do Dom Quixote de la Mancha,  e nos mimoseiam com este secular apodo ?!

Que são poucos, são... e que às vezes parecem loucos, parecem!...  

Vejam (mas não ouçam, ou só o q.b....) os virologistas, geneticistas, infecciologistas, pneumologistas, intensivistas, epidemiologistas, sanitaristas,  economicistas, futurologistas, moralistas, jornalistas, analistas, bloguistas, catrastrofistas e outros especialistas da Covid-19 (de que Deus nos livre!)...  

Se não todos/as, pelo menos bastantes,  parece adorarem pôr-se em bicos de pés, para terem o seu minuto de fama & glória à hora do telejornal, ao predizerem quantos vão ser infectados e quantos vão morrer, para a semana, daqui a um mês, daqui a um ano, dos tais portugueses, poucos e loucos... 

Estar informado, sim, e saber mais,  também... Mas a "overdose" diária de (des)informação sobre a pandemia, não faz bem à saúde mental... nem à nossa democracia.

2. Em 1918/19, de "gripe espanhola" (!), morreram 120 mil dos tais portugueses poucos e loucos (, estimam os cronistas do reino...). Dois por cento da população (que na altura era de 6 milhões)... 

Já eram poucos, os portugueses, ficaram desde então muito mais loucos... De tal maneira que já ninguém se lembra da mortandade que atingiu famílias inteiras, agravada pela cólera e a tuberculose!... 

A loucura tem a vantagem da amnésia... E, ao que parece, também a pobreza.... Já ninguém se lembra: é como a guerra colonial (, embora mais recente, há 60 anos,,,), Como já ninguém se lembra do populista Sidónio Pais, o presidente-rei, como o entronizou  e aclamou o poeta Fernando Pessoa... Nem muito menos das "sopas do Sidónio"...

Agora, com a pandemia do Covid-19, o Sidónio  (, senhor professor de Coimbra, de Cálculo Diferencial e Integral, ) e as suas sopas têm outros nomes... 

Contra a Covid-19 e a pérfida caixinha de Pandora que vem sempre associada às pandemias,  a palavra de ordem é: 

Confinemo-nos, sim, camaradas !... Mas não nos (con)finemos, ámen!