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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28435: As nossas histórias aos quadradinhos (1) : o ataque à LFG Hidra (P376), no rio Cacheu, na noite de 20 para 21 de maio de 1973 (António Dâmaso, 1940-2026)










Prompting e orientaçãoo editorial: Luís Graça
Texto: António Dâmaso (2012) + Manuel Lema Santos (2007)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

1. Muitos de nós "aprenderam a ler" ou "alimentaram o seu gosto pela leitura", numa época em que não havia bibliotecas públicas na província, com  "O Cavaleiro Andante", uma das primeiras grandes revistas de "histórias aos quadradinhos" dirigidas aos mais jovens:  começou a  ser publicada em 5 de janeiro de 1952 e terminou  em 25 de agosto de 1962; saíram  556 números (!).

Publicada sob a chancela da Empresa Nacional de Publicade (ENP), tinha como diretor  o conhgecido escritor de literatura infabto-juvenil Adolfo Simões Müller (1909-1989). Custava 1$80 e destacava-se por trazer páginas a cores e capa ilustrada, e várias secções . 

Fui um consumidor voraz de "O Cavaleiro Andante" (e de livrinhos de cobóis): geralmente ia lê-lo a casa dos meus colegas e amigos de escola (como o Álvaro de Carvalho ou o Rui Tovar), cujos pais, mais afortunados do que os meus, já tinham ordenado ao fim do mês...Em meados de 1950, a minha mãe governava a casa com uma nota semanal de 20$00. E tinha  arte de saber fazer a multiplicação dos pães, sob a forma de rissóis, pastéis de massa tenra, bolinhos de bacalhau, etc. Com 1 escudo e 80 centavos comprava-se muita coisa, leite, milho, pão, etc. O "Diário de Lisboa" custava 80 centavos.  O salário diário de um trabalhador português andava, por essa época,  enre os 15$00 e os 25$00.

Foi através desta "revista juvenil", emblemática, que conheci alguns dos heróis (e autores) da BD franco-belga, e me afeiçoei à sau linha gráfica e à sua estética. 

 Foi um pouco a pensar nesse passado lá longínquo, em que consumia essa literatura infanto-juvenil, compulsivamente (digamos até aos meus 10 anos, 1957, quando terminei a 4ª classe e fiz o exame de admissão aos liceus),... que me ocorrei a ideia de abrir aqui uma nova série, "A nossa guerra aos quadradinhos".

A série será para já alimentada, preferencialmente,  com  os retatos dos nossos camaradas da Guiné. Com "prompting" (instruções)  e orientação editorial da minha autoria, iremos recorrer a ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa para a criação de pequenas bandas desenhas (BD), com oito a 12 vinhetas... 

Como o nosso blogue não tem publicidade, nem recursos financeiros próprios nem "patrocinadores",  só podemos ter o concurso, mesmo assim, precioso, da IA dos "pobrezinhos"... O resto é... "lápis e borracha", "corte e costura", com muita dose de paciência, imaginação,  bom humor... e alguns ataques de raiva!..

A primeira "história aos quadradinhos" a sair, por mera conveniência (há outras na forja, ou melhor, na "prancha") é o ataque à LFG Hidra (P376) no rio Cacheu, em 20/21 de maio de 1973, a partir do relato do então 1º srgt pqdt, da CCP 121 / BCP 12, António Dâmaso (1943-2026), um dos bravos de Guidage e de Gadamael.

Peço aos nossos "marinheiros" que sejam indulgentes em relação a certos aspetos, mais grosseiros, do nosso "ilustrador gráfico" que nunca conheceu nenhum LFG nem nunca bebeu "água do Cacheu".


2.  Em mensagem do dia 29 de maio de 2012, o nosso camarada António Dâmaso (Srgt-mor pqdt, CCP 121 / BCP 12, na situação de reforma) enviou-nos o seu relato da emboscada perpetrada à LFG Hidra em 21 de maio de 1973, no rio Cacheu, no Norte da Guiné. Houve um primeiro poste, a dar conta dessa efeméride (*). E  que agora reproduzimos, com BD a ilustrar...


No regresso da Op Ametista Real, 
um ataque à LFG Hidra
à meia-noite do do dia 21 de maio de 1973, 
no rio Cacheu

por António Dâmaso (1940-2026)




No dia 20 de maio de 1973,  domingo, depois da CCP 121 ter participado na Operação ”Ametista Real”, cerca das 19h30 (não posso precisar a hora, sei que era de noite), embarcámos em Ganturé, juntamente com alguns Comandos Africanos no Navio Patrulha Hidra  (a LDF com número de amura P376) com destino a Binta. 

Julgava eu que íamos regressar a Bissau.

Entrei à conversa com um camarada da guarnição, o 1.º srgt artilheiro Joanás. Fomos até uma salinha. E, depois de uma cervejinha bem fresca e de uma conversa, estávamos sentados e eu deixei-me vencer pelo sono. 

 Repentinamente cerca das 24h00, sou acordado com uma série de rebentamentos. O convés do navio tinha sido atingido, havia granadas a arder (pólvora), tive a sensação que o paiol tinha sido atingido. Mais tarde li algures que o que foi atingido foi um reservatório das peças Bofors, de um dos canhões que equipavam o navio. (**)

O Joanás agarrou imediatamente num extintor, eu passei-lhe outro e, com um em cada mão, apagou o incêndio naquele local. Fiquei impressionado com a rapidez e destreza dele, não há dúvida que na Marinha, as guarnições dos navios estão muito bem preparadas para combater incêndios a bordo. Quando vi as granadas incendiadas, fiquei com receio que estas rebentassem, o que teria acontecido se não tivessem sido extintas atempadamente.

A reacção ao ataque por parte da CCP 121 foi rápida e eficaz, dando origem a que os guerrilheiros do PAIGC tivessem desistido de mandar mais granadas para o convés do navio, porque se tivessem continuado, teriam provocado mais vítimas e estragos de maior monta. 

Como era de noite não me apercebi bem dos efeitos do ataque. Quanto à localização julgo ter sido na curva de Jagali (**)

De cada vez que eu tentava subir as escadas para o convés, aparecia-me um ferido que eu encaminhava para a enfermaria, tarefa dificultada por ser feita no escuro. Isto repetiu-se várias vezes, um dos feridos era do meu pelotão, apontador do morteiro, atingido  num calcanhar.

Recordo que, no meio daquela confusão toda, alguém ter dito que faltava um zebro (barco de borracha). 

Chegámos a Binta na madrugada do dia 21, segunda feira. Pela manhã os feridos foram evacuados para o HM 241, em Bissau, e nós lá ficámos. 

Ao meu pelotão coube para alojamento um barracão de madeira junto do cais que ficava do lado esquerdo. Binta tinha sido em tempos um entreposto madeireiro.

Depois de ter desembarcado, dei por falta de um rádio ("banana"), que só podia ter desaparecido no Patrulha, uma vez que eu tinha feito conferência de material antes de embarcarmos e o militar que o tinha à guarda fora ferido no ataque. 

Como recebiam prémios por armamento ou equipamento, apreendido ou encontrado, mais tarde o rádio apareceu como tendo sido dado como achado por um Comando Africano na zona de Bigene...

À noite, estava a dormir, pelo quarto dia consecutivo, sou acordado com um ataque dirigido aos barracões, com lança granadas de foguete (RPG 2 e 7), vindo do outro lado do rio Cacheu. Não houve baixas mas,  além de termos ripostado ao ataque, tivemos de apagar um incêndio num dos barracões que ficava em frente ao nosso.

Nesse barracão estava uma viatura carregada com caixões com destino a Guidage. Os ataques já se tinham tornado uma rotina. Ainda ficámos em Binta mais um dia e uma noite, à espera de uma coluna de viaturas que viria de Farim com destino a Guidage.

Mais tarde quando me encontrei com o Joanás em Cacine, quando este andava a apoiar Gadamael Porto, disse-me que tinha sido louvado  e que a CCP 121 tinha tido uma citação elogiosa pela sua acção.

Um Ab
A. Dâmaso

(Revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)



Guiné > Região do Cacheu > Rio Cacheu >  1973 >  A LFG Hidra (P376). Reconstituição:

Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Google / Gemini AI) (2026)


3. NRP Hidra (P 376).  LFG (Classe Argos / 1963)

(i) Tipo: Lancha de Fiscalização Grande (LFG) | Classe: Classe Argos (1963) (Um das 10 unidades da classe Argos, construídas no Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, entre 1963 e 1965; tinham todas nomes de constelações (Cassiopeia, Orion, Sagitário, etc.); estiveram ao serviço da Marinha entre 1963 e 1975;  estão profundamente ligadas às "guerras da descolonização".

(ii) História: Aumentada ao efectivo em 11 de abril de 1964; abatida ao efetivo  em Luanda a 30 de setembro de 1975: serviu em teatros de operações ultramarinas (como na Guiné, em patrulhas nos rios e missões de apoio/transporte entre 1971 e 1973, do rio Cacheu ao rio Cacine).

(iii) Ficha técnica: deslocamento: 210 t | comprimento: 41,7 m | boca: 6,7 m | calado: 2,1 m | propulsão: 2 motores diesel de 1200 hp, 2 veios | Velocidade 17 nós (c. 3,5  km / hora;  19,6 milhas / hora; 8,74 m /s | armamento: 2 peças 40 mmm | Tripulação: 24. 

Fonte: Wikipedia

____________

Notas de  LG/CV:

(*) Vd. poste de 1 de junho de 2012 > Guiné 63/74 - P9975: Efemérides (101): Ataque ao navio Patrulha Hidra, dia 20 de Maio de 1973 (António Dâmaso)


(**) Ver poste de 16 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1665: Operação Larga Agora, Tancroal, Cacheu, local maldito para a Marinha (Parte I) (Lema Santos)

(...) Em 20 de maio de 1973 a LFG Hidra, frente à clareira de Jagali, a juzante da foz do rio Buborim, foi emboscada da margem Norte com RPG, armas ligeiras e morteiro 60 mm. 

O primeiro RPG deflagrou contra os cunhetes de munições da Boffors de vante, provocando rebentamentos e um grave incêndio, tornando a peça inoperativa. 

Reagiu de imediato e tudo acabou por se compor, não sem alguns estragos.

Foi elogiada a colaboração de elementos da CCP 121 e BCmds (Batalhão de Comandos) que, seguindo a bordo, conjuntamente com o navio, reagiram prontamente com o armamento de que dispunham. 

O resultado foram 3 feridos graves (Comandos) e 6 feridos ligeiros (Comandos, Paras e LFG).(...)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28217: In Memoriam (583): José Maria Monteiro (Miranda do Douro, 1951 - Cascais, 2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73)

IN MEMORIAM

José Maria Monteiro (1951-2026), ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73). Nasceu em 17 de março de 1951, em Miranda do Douro. Vivia em São Domingos de Rana, Cascais. Tinha página no Facebook.


Notícia publicada na página do Facebook da Magnífica Tabanca da Linha, com data de ontem, 26/7/2026:

Caros Magníficos,

É sempre com imensa tristeza que se comunica o falecimento de um Camarada, e de um Magnífico.

José Maria Monteiro, mais conhecido entre nós por Monteiro, José Maria faleceu ontem, dia 25 de Julho.

Advogado de profissão, grande defensor dos ex-combatentes na luta por melhores regalias e fiel depositário das bandeiras nacionais no Concelho de Cascais, para serem usadas na cobertura das urnas dos ex-combatentes que o solicitassem.

O funeral foi hoje, dia 26 em Tires, seguindo para o crematório de Alcabideche.

Sentidas condolências a toda a família e amigos.

Monteiro, até um dia e que a tua alma descanse em paz.

Foto e texto: © Manuel Resende (com a devida vénia)


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2. Comentário do editor:

O nosso camarada José Maria Monteiro foi convidado há três anos e meio para fazer parte da tertúlia, (Vd. Post Guiné 61/74 - P23966: Tabanca Grande (541): José Maria Monteiro, ex-Marinheiro Radiotelegrafista (LFP Bellatrix, 1969/71 e Comando Naval da Guiné, 1971/73), que se senta no lugar n.º 868 da nossa Terúlia), porque, sendo ele muito activo no que concerne à reivindicação de direitos e regalias sociais, que a nossa geração de antigos combatentes se sente credora por parte dos actuais e antigos governantes, o nosso Blogue poderia, e fê-lo sempre que por ele foi solicitado, dar notícias das diversas acções, contactos com o poder político, manifestações públicas, etc., da sua iniciativa ou de organizações onde estivesse integrado.

Fomos surpreendidos com a notícia do seu falecimento, mas, por outro lado, já vamos ficando habituados ao desaparecimento de muitos de nós, dia após dia.

À sua esposa, Rosa Fidalgo,  e filhos,  Marco e Marta Monteiro, particularmente, a tertúlia, editores e colaboradores permanentes deste blogue, deixam o seu mais profundo pesar pelo falecimento do marido e pai.

A todos os que com o José Maria Monteiro privaram, deixamos o nosso abraço solidário.

Carlos Vinhal
Coeditor

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Nota do editor

Último post da série de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28159: In Memoriam (582): António Nunes Lopes (1942-2026), ex-fur mil at inf, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Porto Gole, Enxalé e Missirá, 1965/67), e cruz de guerra de 3ª classe: senta-se simbolicamente, a título póstumo, no lugar nº 916, à sombra do nosso poilão

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74),



Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74.  O documento foi desclassificado em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico”
 


Luís Gonçalves Vaz, grão-tabanueiro nº 530
filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves
Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001)
(último Chefe do Estado-Maior
do CTIG, 1973/74, e, a partir de 26 de agosto
 de 1974, ​ foi também o chefe do 
Estado-Maior 
do Comando Unificado 
no TO da Guiné)

Introdução: A Memória e o Documento — Revisitando o 15 de outubro de 1974

Ao longo das últimas décadas, a narrativa sobre a presença portuguesa na Guiné tem sido construída, por um lado, pelo depoimento vivido daqueles que ali serviram e, por outro, pelo silêncio, muitas vezes imposto, dos documentos que só agora começam a ser plenamente integrados na historiografia pública com a sua "Desclassificação" nos vários Arquivos Portugueses.

Este artigo propõe uma revisitação necessária à data de 15 de outubro de 1974 — o marco derradeiro da retirada das tropas portuguesas do CTIG. 

Se, em 2012 (data do meu último artigo sobre a Retirada Final da Guiné) (*), a abordagem a este momento histórico dependia essencialmente da memória oral e do relato pessoal, hoje, o distanciamento temporal e 
o acesso a fontes primárias de natureza confidencial já "desclassificadas", permitem-nos um olhar clínico e rigoroso.

Através do cruzamento inédito entre a Ordem de Operações nº 1/74 do Comando Unificado — documento que traçou, com precisão técnica e logística, o complexo movimento de retirada por via marítima entre os dias 14 e 15 de outubro — e os testemunhos diretos, nomeadamente do meu falecido pai, cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado-Maior do Comando Unificado na Guiné, e a perspetiva, no terreno, do meu primo marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, procura-se aqui não apenas narrar, mas documentar a mecânica da descolonização nesta Colónia Portuguesa.

Mais do que o relato de um fim, este artigo pretende ser um exercício de rigor histórico: confrontar o plano operacional com a realidade humana da partida. Ao alinhar a "Ordem de Operações" com a "ordem dos afetos e da vivência", este trabalho oferece aos amigos e camaradas da Guiné   e aos demais leitores do nosso blogue uma nova leitura sobre o desfecho de uma missão que marcou, definitivamente, a história de Portugal e da Guiné.

Um grande Abraço

Braga, 08/06/2026

Luís Beleza Vaz

(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)



O navio Uíge no porto de Bissau em 28 de outubro de 1969 a descarregar material de guerra



A Última Operação> Retirada Final – Ordem  nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974

por Luís Gonçalves Vaz 


MISSÃO: Efectuar a Retirada Final das NT (nossas tropas) da Ilha de Bissau garantindo o seu embarque via marítima para a Metrópole com a maior discrição, dignidade e segurança.

 A Ordem de Operações nº 1/74 foi um documento estratégico de alto nível, emitido pelo então Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (CCFAG), que definiu as fases, os meios logísticos (navios, transportes aéreos, etc), as responsabilidades de segurança e os itinerários de retirada (**).

Como já apresentei aqui no blogue,  no poste P9535, de 26 de fevereiro de 2012, um artigo sobre a “Retirada Final” da Guiné (*), resolvi agora, e com recurso à consulta do Fundo Coloredo do Arquivo Histórico da Marinha, nomeadamente à consulta da Ordem de Operações nº 1 de 1974,  BCM (Biblioteca Central da Marinha)(Pasta 179), Diretiva de 9 de outubro de 1974 do Comandante-Chefe aos Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas no TO  da Guiné, realizar um artigo com mais detalhe sobre esta última operação militar, comandada pelo Comodoro Vicente de Almeida d ́Eça, que foi o Comandante do Comando da Defesa Marítima da Guiné entre 4 de janeiro de 1974 e 28 de outubro de 1974, bem como o Comandante da Força Naval que transportou os últimos efetivos portugueses ali estacionados.

A referência à Ordem de Operações nº  1/74 como o plano mestre para a retirada final de cerca de 2.500 militares (os últimos contingentes que permaneceram em Bissau e noutros pontos fulcrais nesta altura do mês de outubro), reflete o culminar da transição negociada entre o Comando-Chefe português, liderado à época por Carlos Fabião, e o PAIGC.

Depois de de lermos a Ordem de Operações nº 1/74, percebe-se que esta retirada não foi apenas um "ir embora", pois exigiu a catalogação e o transporte de material de guerra, a coordenação com a Força Aérea e a Marinha (especialmente o papel dos navios de transporte, como o Uíge, que figura nas memórias fotográficas da época como o símbolo do final da presença portuguesa) e a manutenção de um cessar-fogo rigoroso que evitasse incidentes durante a desocupação das posições.

A emissão desta ordem de operações, o "Ponto Final" da nossa Colónia da Guiné, foi o instrumento que permitiu que o processo, iniciado com o Acordo de Argel assinado em 26 de agosto de 1974, se concretizasse. O facto de ser a "nº 1/74" sublinha que se tratou da primeira e decisiva operação de desmobilização total e encerramento de um Teatro de Operações, após décadas de guerra.

Esta ordem representa, na prática, um "roteiro" para o fim da Guerra Colonial na Guiné, marcando a passagem de um estado de beligerância para a transferência de soberania, consolidando assim a retirada das tropas que, em outubro de 1974, aguardavam nas docas de Bissau a sua partida definitiva para a Metrópole.

Este documento é, sem dúvida, uma peça de arquivo valiosa para a historiografia do 25 de Abril e do processo de descolonização, pois documenta o plano de execução para a evacuação final das forças nacionais.


A fragata “Comandante Roberto Ivens” foi o navio-chefe onde se coordenou toda a operação e onde 
embarcou o Comandante da FO27 (Força de Combate 27), o comodoro Vicente Almeida d'Eça (foto: cortesia de Navios da Armada, página do Facebook (Do Livro da Fabrica das Naus de Fernando Oliveira aos nossos dias. Viva a Briosa).

Ao falarmos na Ordem de Operações nº  1/74 e no rigor técnico da retirada, tocamos num ponto que muitas vezes é ignorado, o papel crucial da Marinha de Guerra Portuguesa, quer durante o conflito neste TO, quer na logística de desocupação desta Colónia. 



Capitão-de-Fragata (em 1966),  Vicente Almeida d' Eça (1918-2018) 
Fotografia gentilmente  cedida pela Biblioteca Central 
da Marinha - Arquivo Histórico

Enquanto a narrativa política se foca no 25 de Abril e nas negociações, a execução prática da retirada, especialmente a retirada final em quinze de 
outubro de 1974, foi uma operação logística de uma complexidade técnica monumental, quase exclusivamente conduzida pelos meios navais.

O rigor técnico mencionado nesta Ordem de operações, decorre de vários fatores que ela teve de acautelar, nomeadamente:

  • A Logística de Transporte: retirar 2.500 militares não significava apenas embarcá-los. Implicava transportar armamento pesado, equipamento de comunicações, arquivos confidenciais e material de intendência. A Marinha organizou o "Comboio da Descolonização",                                                                  onde o NRP Uíge e o NRP  Niassa  foram as peças-chave.
  •  Segurança e Cessar-Fogo: a Ordem de Operações Nº 1/74 tinha de prever a manutenção de um perímetro de segurança em Bissau até ao último segundo; o rigor era vital para evitar incidentes que pudessem degenerar em confrontos armados no momento da transição, o que exigia uma coordenação minuciosa entre as guarnições dos navios, os fuzileiros em terra e os postos de comando conforme  relato no artigo da Retirada Final,   em 14 e 15 de outubro  de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz) (*);
  • “Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a 'segurança de rectaguarda'  mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.
Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”. 

No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G3 e as respectivas munições.


Guiné-Bissau > 15 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças
Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida foram transportadas em zebros e
LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio
Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento ("pairavam") por razões de segurança.




Guiné > Bissau > c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais, poucos dias antes da “retirada final” em 15 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.

Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.”

Na secção "Situação" desta “Ordem de Operações”, é descrito o planeamento da retirada marítima de aproximadamente 2.500 militares das Forças Armadas Portuguesas da zona de reagrupamento da Ilha de Bissau, prevista para ocorrer entre os dias 13 e 15 de outubro (15outT).

No ponto das "Forças inimigas", também é referido que, embora a colaboração das forças policiais da República da Guiné-Bissau estivesse, em princípio, assegurada para evitar aglomerações de população junto à zona portuária, não era de excluir a hipótese de ocorrência de "actos inamistosos".

Na secção “Execução”, é referido que durante a noite de 13/14 de outubro descolará de Bissau o último avião da ponte aérea militar para Lisboa (voo que transportou o brigadeiro Carlos Fabião e o seu Estado-Maior, nomeadamente o último Chefe do Estado-Maior do então Comando Unificado, o coronel do CEM Henrique Gonçalves Vaz). 

Diz ainda que o T/T “Uíge”, atracado, embarcará cerca 1380 elementos da nossa Tropa. 

Finalmente diz que o embarque das restantes efetivos terá lugar na noite de 14/15 de outubro em LDG atracadas na ponte cais que os transportará para o T/T ”Niassa” e para o NRP “S. Gabriel” fundeados no canal do rio Geba. 

Quanto à segurança é referido que as Forças “FO27” assegurarão a proteção dos efetivos a embarcar, tanto no embarque e largada do cais como nos trânsitos fluviais até aos transatlânticos (T/T) e promoverá a escolta destes até à hora de espera.



Guiné > Bissau > s/d > Três das LFG (Lanchas de Fiscalização Grandes) que integraram a Operação nº 1/74 no cais de Bissau (Foto: cortesia do blogue de Luís Cavaleiro, Rio dos Bons Sinais, disponível aqui)-

Quanto à “Organização Operacional”, a ordem detalha a estrutura da força-tarefa naval (FO27 - Força Operacional Embarque), liderada pelo Comodoro Almeida d'Eça, dividida em cinco grupos funcionais, conforme se pode ver no organigrama seguinte:


Organigrama construído a partir da Organização Operacional apresentada logo no início da Ordem
Operacional nº 1/74. Fonte: Fundo Coloredo | Arquivo Histórico da Marinha (Infografia cedida pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico)


Este documento fornece sem dúvida um registo claro das medidas logísticas e defensivas tomadas pelas forças militares portuguesas durante as fases finais da sua presença na Guiné em 1974.

Relativamente à coordenação Interforças, este documento é uma peça de engenharia militar porque estabeleceu a sincronização entre a desocupação dos quartéis do Exército e a prontidão dos navios no porto. A precisão horária era a única garantia de que ninguém ficaria para trás ou exposto sem proteção.

O facto de ter consultado o Arquivo Histórico da Marinha e encontrado este rigor nesta “Ordem de Operações nº 1/74”, confirma que de facto a descolonização, vista pelos olhos dos oficiais que a planearam e executaram, foi um processo de gestão de risco elevado. 

A Ordem de Operações nº 1/74 não foi apenas um "fim de guerra", mas o documento que garantiu que a soberania portuguesa fosse transferida de forma organizada, mantendo a disciplina militar intacta até ao arriar da última bandeira.

É um registo que retira o processo da esfera puramente política e o coloca no lugar que lhe cabe: uma operação militar de grande envergadura, planeada com a precisão exigida pela hierarquia militar da época.



Guiné > LFG Lira > s/d  > Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala
comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que,  no dia 15 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

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Embora os "tiros" tenham parado, a missão militar continuou sob um rigor técnico extremo, de forma que esta "Operação nº 1/74" foi, na prática, a operação de logística militar mais complexa da história recente de Portugal, pois exigia que os militares mantivessem a disciplina, a hierarquia e a segurança enquanto o território sob os seus pés deixava de ser português.

Em suma, esta última operação na Guiné foi, tecnicamente, uma operação de combate defensivo em contexto de paz armada. Os elementos que consegui recolher, desde depoimentos à análise deste documento histórico (a Ordem de Operações nº 1/74), confirmam que não houve desleixo na sua preparação, pois:
  • a manutenção de perímetros de segurança com tropas de infantaria e fuzileiros, prontos para responder, foi o que impediu o vácuo de poder que, noutros cenários mundiais de descolonização, levou a massacres;
  • o apoio naval: as lanchas de desembarque com metralhadoras prontas não eram apenas um dispositivo de transporte; eram plataformas de fogo de cobertura; o  facto de a Marinha ter mantido esse poder de fogo visível e operante foi o fator dissuasor que garantiu que nenhum grupo se sentisse tentado a atacar as colunas de retirada; 
  • a "não-violência" como sucesso militar: um dos maiores erros históricos é pensar que "não houve combates" porque "não houve guerra"; o sucesso real foi que não houve combates precisamente porque a força portuguesa se manteve capaz de combater; se a prontidão não estivesse ao mais alto nível, a operação teria sido um alvo fácil.

A Ordem nº 1/74 não foi uma "entrega", foi uma manobra de extração realizada sob condições de combate potencial. Esta foi talvez a operação de maior sucesso de toda a presença portuguesa na Guiné, não por ter conquistado território, mas por ter garantido a integridade física de todos os seus homens.


Fonte: Luís Gonçalves
Vaz (2024)
Conclusão: foi o planeamento rigoroso da Marinha, em cumprimento da Ordem de Operações nº 1/74 emitida pelo Comandante-Chefe (mas planeada pelo seu Estado-Maior), em sintonia com a prontidão das unidades em terra que permitiu que o regresso das nossas tropas fosse feito sem
baixas.

Este regresso não foi um ato de desistência, foi o último ato de uma força que, até ao último segundo, soube manter-se coesa, profissional e preparada para o pior cenário.

Braga, 08/06/2026
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Luís Beleza Vaz
Grão-Tabanqueiro nº  e filho do último CEM/CTIG, cor cav Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922 - Braga, 2001; foto à direita)


Anexo > Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74
 (publicado no topo deste poste). O documento foi desclassificado ~
em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central 

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd.  postes de:



(**) Último poste da série > 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.



O cmdt Alpoim Calvão numa tira da banda desenhada “Operação Mar Verde”,
da autoria de A. Vassalo (ex-fur mil comando Vassalo Miranda,
nosso camarada da Guiné), uma edição da Caminhos Romanos, 2012.


1. Não sei sei se existiam "rivalidades" e "picardias" entre generais e almirantes das nossas Forças Armadas, no tempo da outra senhora... E,  se existiam, qual o seu fundamento sociológico e histórico...

Bom, em relação à cavalaria e à infantaria, percebe-se: uns andavam a cavalo e outros a pé, pelo menos já desde o tempo do senhor Dom Afonso Henriques... Mas não recuemos tantos séculos: com ou sem fundamento, já no meu tempo se dizia que as relações entre o Comandante-Chefe (general que vinha da arma de cavalaria) e o Comodoro (na altura o comandante da Defesa Marítima da Guiné era Lucianos Bastos, 1913-2017, embora também ele tivesse sido aluno do Colégio Militar) não eram as melhores (por causa Op Mar Verde, e do desempenho deo comandante Alpoim Calvão)...  

Diferenças de personalidade ?  Origens sociais ? Tiques de casta ? Não importa agora... O fenómeno é, de resto, universal (cada arma tem a sua escola, história, cultura, elite, etc.), e pode agravar-se em contexto de guerra.

De qualquer modo,  talvez  se entenda melhor,  hoje,  esta piada do comandante Alpoim Calvão (1937-2014) em relação ao general (na altura brigadeiro) António Spínola (1910-1996), quando em maio de 1968 se conheceram no aeroporto, apresentados por um amigo comum...


2. Reprodução, com a devida vénia, de um excerto (adaptado)  de uma entrevista de Alpoim Calvão ao jornal CM - Correio da Manhã, em que são referidos três homens que comandaram as NT no TO da Guiné e com quem o entrevistado trabalhou: Louro de Sousa, Arnaldo Schulz e António de Spínola. 

A entrevista foi conduzida pelo jornalista José Carlos Marques (que eu conheci na Guiné, em março de 2008, como enviado do CM ao Simpósio Internacional dfe Guileje) e foi publicada em 7/10/2012. 

Título e subtítulo: "O eterno guerreiro Herói da Guerra em África, Alpoim Calvão foi bombista do MDLP no Pós-25 de Abril. Conta em livro uma vida de batalhas"


(...) Pergunta o jornalista:

 − Quando conheceu António de Spínola?

 − Conheci o então brigadeiro António de Spínola, que era o comandante-chefe e governador da Guiné, logo no aeroporto. Foi-me apresentado por um amigo. Ele estava como sempre, impecável no seu monóculo e casaco aprumado. Não suava, era uma coisa formidável. Disse-me ele:

− Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem.

E eu respondi:

 −Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

Ficou um silêncio de morte, que ele quebrou ao rir-se à gargalhada, acrescentou o Alpoim Calvão. E adiantou ao jornalista: 

 − Fui colocado a comandar o COP 3 a Norte, em Bigene. Tínhamos uma actividade de assaltos, operações, golpes de mão, patrulhas nos rios… Além dos fuzileiros,  tinha uma unidade do exército. Depois fiquei a chefiar as operações especiais no território.

 − Spínola alterou a estratégia da guerra. O que mudou? − nova pergunta  do jornalista. 

 − A guerra teve uma continuidade, mas Spínola tornou-se mais agressivo. Intensificou as operações, mas também o apoio às populações. No COP3 fartei-me de fazer casas que eram entregues aos nativos. As populações gostavam mesmo do Spínola. Ele aparecia de helicóptero, com o ajudante, fosse onde fosse. Tinha um certo carisma, aparecia com o monóculo, luvas, camuflados retocados pelo alfaiate, fazia figura. 

E Alpoim Calvão faz a comparação com outros dois comandantes-chefes que conhecera antes no CTIG:

 − Louro de Sousa era um bom oficial do Estado-Maior, mas não tinha jeito nenhum para comandar as tropas. Arnaldo Schulz era muito inteligente, mas levava as coisas com mais calma. Para Spínola, para a frente é que era o caminho. 

Com Schulz eu fazia operações no Sul da Guiné, em que entrava na Guiné-Conacri e ele chegou a suspender-me os movimentos para não criar problemas. Só pude realizar esse tipo de operações cinco anos depois, com o Spínola, que me deixava fazer tudo. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27862: Humor de caserna (252): O anedotário da Spinolândia (XXIV): Na "cidade" em construção de Nhabijões, com o comandante dos fuzileiros "encallhado" no rio Geba (Jorge Mariano, ex-alf engenheiro químico, BA 12, Bissalanca, jan 71/out 72)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > 197 2> Vista aérea do reordenamento de Nhabijões (Fonte:   "Diário de Lisboa",   31 de Agosto de 1972, com a devida vénia)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > c. 1973 > Vista aérea do reordenamento de Nhabijões: o maior ou um dos maiores do CTIG, com 300 casas de zinco...(Fonte:  CECA, 2015, pág. 276)

 

1.  A forte mobilidade aérea foi uma marca da estratégia de Spínola na Guiné. Ele visitava frequentemente  aquartelamentos, destacamentos, reordenamentos e tabancas no interior,  sem falar das operações no mato que acompanhava de perto, usando de preferência o helicóptero Alouette III e também, ocasionalmente, avião ligeiro DO-27.  Era o terror de muitos comandantes de batalhão aparecendo a horas impróprias a quem via a guerra como um emprego das 9 as 5.

E praticamente saía todos os dias, o que criou uma convivência muito direta (e até uma certa cumplicidade) com pilotos e mecânicos da Força Aérea que, como se sabe, estavam instalados na BA 12, em Bissalanca. No período de 1968/70, um dos seus pilotos de heli preferidos era o nosso Jorge Félix. 

O anedotário da Spinolândia (*)  nunca poderia ficar completo sem o concurso  de pilotos, mecânicos e outros camaradas da FAP. A estes veteranos da guerra da Guiné estamos gratos pela recolha e partilha de algumas das melhores anedotas do nosso governador e comandante-chefe António Spínola. 

Esta é uma delas, contada pelo Jorge Mariano, ex-alf engº químico, da FAP, que vive em Coimbra.  Oficial do exército, foi requisitado pela FAP. Cumpriu uma comissão na BA 12, de janeiro de 1971 a outubro de 1972. Empresário e professor universitário reformado, é um excelente contador de histórias do nosso tempo (mesmo que não seja bom a recordar nomes de militares e de lugares).

(...) "Na BA12 fui comandar o serviço de Combustíveis – bombas Auto e Abastecimento de Aviões na linha da Frente e ainda os depósitos de Combustíveis no “Mato”: Farim; Aldeia Formosa; Bafata; Teixeira Pinto; Nova Lamego e outra que não recordo. [Devia ser Cufar, a Bissalanca do sul... (LG).] Dos pilotos existia também um oficial de combustíveis que era o Alf Carpinteiro. "(...)

Não resistimos a reproduzir aqui no nosso blogue, com a devida vénia ao autor e  ao blogue em boa hora criado, em junho de 2007, pelo nosso histórico e saudoso grão-tabanqueiro Victor Barata (1951-2021).  
Referimo-nos ao blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65-74, agora sob o comando do João Carlos Silva, também membros da Tabanca Grande, e do Mário Aguiar).

É uma história deliciosa, mas esquecida, publicada há 14 anos, sexta-feira, 23 de março de 2012 > Voo 2773 > A “Cidade”. (No blogue do Victor, o "voo" corresponde a "poste": neste caso voo nº 2773.)


A “cidade” a sul do Geba, o gen Spínola e o grumete brincalhão

por Jorge Mariano


A meio da Comissão consegui lugar num quarto em Bissau junto à messe de oficiais, e passei a montar o meu escritório nocturno neste local que,  depois de uns uísques, fechava todos os dias.

Passava por lá também nessa ocasião,  a horas mortas, o major  ['cmd' Almeida] Bruno,  das Operações Especiais , onde se encontrava com o cap pára  [António] Ramos (já falecido), tmbém das Operações Especiais.

Um dia vi chegar o major Bruno e contar com grande entusiasmo uma decisão magistral que o gen Spínola teria tomado, que era de construir uma nova “cidade” a sul do Geba, pelo que entendi na altura, a sul de Bambadinca,  na outra margem para cortar as infiltrações do IN por esta zona. 

Estava longe de saber que, para aí, um mês depois, esta decisão iria dar lugar ao episódio mais cómico a que assisti durante toda a comissão.

Certo dia, passado o mês sobre o atrás referido, estava na Sala de Operações com o comandante Moura Pinto, o piloto Oficial de Dia e o srgt pil que normalmente transportava em heli  o gen Spínola (cujos nomes não recordo) e este piloto conta a seguinte cena, que passo a transcrever.

Parece que a operação para a construção da tal “cidade” teria sido iniciada, teria sido marcado o dia D para o arranque, tinha sido enviado um pelotão de Engenharia com as máquinas e uma companhia de Fuzos para fazer a segurança.

Como de costume, o gen Spínola ás 06h30 foi de heli com Srgt Pil que contou a estória,  para inspeccionar o andamento dos trabalhos.

Chegados,  aterraram junto ao acampamento dos Fusos e estava tudo muito desorganizado, era muito cedo, e o general chama um fuzo e pergunta:

 − Quem é comanda desta m*rda…? ( Overnáculo era uma característica do general)

Bom o nosso fuzo não sabia e foi procurar a outro,  até que lá disseram que era o sr comandante fulano tal (que não recordo o nome)

O general perguntou:

− Onde está ele? 

Aí os fuzos informaram que o senhor comandante teria pernoitado na LDG que se encontrava ao largo no Geba.

Como facilmente se percebe o general começa a ficar nervoso e pede que o chamem imediatamente. Bom,  mas agora há outro problema: não há rádio para comunicar com a LDG.

Então o general manda levantar o heli para comunicar com a LDG. Ao fim de algumas tentativas, conta o srgt pil, lá consegue comunicar com a LDG e diz que o gen está no acampamento e quer falar com o comandante da força.

Bom,  agora outro problema acontece. Para viajar da LDG para terra havia apenas um zebro mas um grumete atrevido andava a fazer piões no meio do Geba e naturalmente não tinha levado rádio.

O general ainda mais furioso manda o srgt pil ir com o heli indicar ao grumete do zebro para ir para LDG. O que acontecia, é que quanto mais sinais o sargento fazia, mais entusiasmado ficava o grumete e mais acelerava sem perceber que o estavam a chamar.

O general já estava “possesso”! Manda apresentar o comandante da força em Bambadinca e dirige-se para lá, aterra e fica á espera.

Depois desta cena o nosso comandante de Marinha, já sabia o que lhe ia acontecer, vestiu a farda branca,   tomou o zebro e dirigiu-se a Bambadinca.

O pior foi que entretanto a maré tinha descido e o zebro não chegava ao cais, ficava naquele lodo castanho a uns 5 metros da costa.

O Comandante de Marinha nessa altura disse:  

− Meu general,  não posso desembarcar,   o navio não chega á costa.

O General furibundo diz:

 − Salte! 

O nosso homem saltou mas ficou todo sujo, de modo que, quando se perfilou para fazer a continência e se apresentar ao general, contava o srgt pil, mais parecia um pedinte com a farda branca toda salpicada de castanho, e todos que assistiam á cena riam a bom rir.

Também nós nos rimos até não podermos, quando ele, mal regressado de trazer o general, nos contou estas peripécias. Parece que o general retirou o comando ao oficial de Marinha e terá deixado o então major Fabião a comandar os fuzos.

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos,  título: LG)


3. Comentário do editor LG:

A  "cidade" a sul do Geba, aqui referida, só pode ser o reordenamento de Nhabijões, tão profundamente ligada às nossas memórias... Mais difícil é dizer com exatidão quando é que ocorreu esta história, já que o início do reordenamento remonta a finais de 1969 (estudo prévio, trabalhos preparatórios, formação de equipas, etc.).

Da história da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio de 1969 / março de 1971), reproduzo estes excertos:

(...) "A partir deste mês, novembro de 1969, 1 Gr Comb da CCAÇ 12 passaria a patrulhar quase diariamente as tabancas de Nhabijões cujo projecto de reordenamento estava então em estudo, a cargo da CCS/BCAÇ 2852.

"Nhabijões era considerado um centro de reabastecimento do IN ou pelo menos da população sob seu controle. As afinidades de etnia e parentesco, além da dispersão das tabancas, situadas junto à bolanha que confina com a margem sul do Rio Geba, tornava-se impraticável o controle populacional. 

"Impunha-se, pois, reagrupar e reordenar os 5 núcleos populacionais, dos quais 4 balantas (Cau, Bulobate, Dedinca e Imbumbe) e 1 mandinga, e ao mesmo tempo criar "polos de atracção" com vista a quebrar a muralha de hostilidade passiva para com as NT, por parte da população que colabora com o IN." (...)

A CCAÇ 12 participaria directamente neste projecto de recuperação psicológica e promoção social e económica da população dos Nhabijões, fornecendo uma equipa de reordenamentos e autodefesa, constituída pelos seguintes elementos (que f
oram tirar o respectivo estágio a Bissau, de 6 a 12 de Outubro de 1969):
  • alf mil at inf António Manuel Carlão (1947-2018) (originalmente o cmdt do 2º Gr Comb, que passou a ser comandado por um fur mil) (já falecido);
  • fur mil at inf  Joaquim Augusto Matos Fernandes (comdt da 1ª secção 4º Gr Comb):
  • 1º cabo at inf Virgilio S. A. Encarnação (cmd da 3ª secção do 4º Gr Comb);
  • e sold arv at inf Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7, do 2º Gr Comb)
e ainda 2 carpinteiros (na vida civil), entre eles um 1º cabo aux enf.
 
A CCAÇ 12, além de ficar desfalcado de seis importantes elementos operacionais (e dois grupos de combate desfalcados),  participou ainda indiretamente neste projeto.  criando as condições de segurança aos trabalhos.

Numa primeira fase estava previsto levar a efeito:
  • a desmatação do terreno;
  • a fabricação de blocos de adobe;
  • a construção de 300 casas de habitação com portas, janelas e cobertura de zinco;
  • a construção de equipamentos sociais  (1 escola, 1 mesquita, fontes, acessos, etc.).
(...) "Durante este período a CCAÇ 12 realizaria várias acções, montando nomeadamente linhas descontínuas de emboscadas entre os núcleos populacionais de Nhabijões, além de constantes patrulhas de reconhecimento e/ou contacto pop.

"A partir de janeiro/70 seria destacado um pelotão da CCS/BCAÇ 2852 a fim organizar a autodefesa de Nhabijões. Admitia-se a possibilidade do IN tentar sabotar o projecto de reordenamento, lançando acções de represália e intimidação contra a população devido à colaboração prestada às NT.

"A partir de abril de 1970, o reordenamento em curso passaria a ser guarnecido por 1 Gr Comb da CCAÇ 12. Na construção de novo destacamento estiveram empenhados o Pel Caç Nat 52 e a CCAÇ 12, a 3 Gr Comb, durante vários dias.

"A segunda fase do reordenamento (colocação de portas e janelas e cobertura de zinco em todas as casas, abertura de furos para obtenção de água, etc.) começaria quando o BART 2917 passou a assumir a responsabilidade do Sector L1 (em 8 de junho de 1970).

"A partir de julho, a CCAÇ 12 deixaria de guarnecer o destacamento de Nhabijões, tendo-se constituído um pelotão permanente da CCS/BART 2917 enquadrado por graduados da CCAÇ 12." (...)

 Uma estimativa grosseira do custo deste reordenamento aponta para 2700 contos, em 1972 (300 casas de zinco x 9 mil escudos) (**)

Nhabijões tem 63 referências no nosso blogue. É um dos topónimos míticos da guerra no leste. O reordenamento foi um dos maiores sucessos da política spinolista "Por Uma Guiné Melhor"... E era a menina bonita do general Spínola, parando com frequência lá.

Mas também pagámos (a CCAÇ 12 e a CCS/BART 2917) um alto preço por este êxito: recordemos as duas minas A/C accionadas no dia 13 de janeiro de 1971, vitimando mortamente o sold cond auto da CCAÇ 12, Manuel da Costa Soares, e ferindo, com gravidade, o alf mil sapador Luís Moreira (da CCS/BART 2917), os fur mil Joaquim Fernandes e António F. Marques (este, esteve dois anos no hospital), os sold Ussumane Baldé, Tenen Baldé, Sherifo Baldé, Sajuma Baldé (todos da CCAÇ 12, 4º Gr Comb) e ainda um soldado da CCS / BART 2917 (cujo nome não me ocorre agora).

No meu caso, foi o meu dia de sorte, ia na GMC, no lugar do morto, que accionou a segunda mina, a explosão deu-se n0 rodado duplo, traseiro, do meu lado.

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Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 4 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24821: As nossas geografias emocionais (15): o reordenamento de Nhabijões (ou Nha Bidjon), 300 casas de zinco que terão custado mais de 2700 contos (c. 700 mil euros a preços de hoje), fora a mão-de-obra, civil e militar, e ainda os custos indiretos e ocultos