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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27381: In memoriam (588): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte III: De Elvas a Tancos: como é que eu fui parar aos paraquedistas e fiquei apurado, no dia em que Portugal perdeu a Índia



Foto nº 1A



Foto nº 1B


Fotos nº  1

Elvas > Regimento de Lanceiros nº 1 > 1961 > Recruta > O António Dâmaso é o 2º da 1ª fila, a contar da esquerda para a direita  (Vd. em detalhe, a foto nº 1A).


Foto (e legenda): © António Dâmaso (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI].



Excerto da 1ª página o "Diário de Lisbos", 20 de dezembro de 1961


(1961), “Diário de Lisboa”, n.º 14016, ano 41, quarta, 20 de dezembro de 1961, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos (Diário de Lisboa e Sempre Fixe), Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_16535 (consultado em 2026-09-27)


1.  António Dâmaso, srgt mor pqdt  reformado (Odemira, 12/6/1940 - Lisboa, 22/9/2026), com três comissões na Guiné ao serviço do BCP 12  (1966/67, 1969/70 e 1972/74), é  
membro da Tabanca Grande desde 26/7/2009, tendo  à data da sua morte mais de 4 dezenas referências no nosso blogue. Publicou diversos postes aqui e no blogue dos Especialistas da Base Aérea 12 (Guiné, 1965/74).


Não é muito habitual os paraquedistas, antigos combatentes da guerra do ultramar / guerra colonial, "abrirem o livro" da sua vida, civil e militar... 

Entre eles, há o que se pode chamar um "pacto de silêncio" (o mesmo sucede com outras tropas especiais, como os comandos e os fuzileiros). E também há o "pudor social"... que, num blogue de pares como nosso, limita, condiciona  ou até inibe a partilha de memórias mais pessoais ou íntimas.

O Dâmaso é (ou foi) uma das exceções que confirmam a regra do "pacto de silêncio". Daí nos sentirmos na obrigação, em sua homenagem (e em homenagem também  aos camaradas que com ele combateram, brava e galhardamente, no CTIG), de recuperar e divulgar, para um público mais vasto, alguns postes que ele entendeu mandar em exclusivo para o blogue dos nossos camaradas da BA 12, fundado pelo nosso querido Victor Barata, que infelizmente também já realizou o seu "último voo". 

Recorde-se que na época (desde 1955 e até 1993), os "boinas verdes" estavam integrados na Força Aérea e consideravam-se, eles próprios (e com razão), uma "tropa de elite". 

Sabe-se pouco sobre o  "lado humano" das tropas especiais: por exemplo, o que é que levava os jovens, oriundos do povo, a oferecerem-se como voluntários, para os paraquedistas, em plena guerra do Ultramar, a partir de 1961... quando o império colonial português se começou a desmoronar... Falar apenas em "patriotismo" é redutor...

A motivação humana é complexa, mas também passa pelo "pão com manteiga"... Já que tenho a tropa, porque não fazê-la em Tancos onde me ttatam muito melhor do que em Elvas ? 

 A seleção era exigente e o treino muito duro: o Dâmaso relata que metade dos 30 candidatos que foram com ele,  de Elvas para Tancos,  chumbaram nas provas físicas e exames médicos...E depois sabia-se que os paraquedistas não iam propriamente para África para fazer... "sol & praia".

Nascido no Baixo Alentejo, em Odemira, o Dâmaso tinha apenas a 4ª classe do ensino primário. Mas já trabalhava em Lisboa ( " já tinha mundo"),  quando, aos 21 anos, foi chamado para cumprir o Serviço Militar Obrigatório. 

Mostrou, entretanto, ter "físico" e "aptidões psicotécnicas" para 1º cabo e condutor auto... 

Em abril de 1962 já tinha o "brevet" de paraquedista.  Em 1966, está na Guiné como furriel (ligado ao serviço de manutenção auto, a "ferrugem", do BCP 12).  Mas também foi operacional, como 2º sargento, na Guiné (onde esteve na batalha dos 3 G, em Guidaje,  em Gadamael) e em Moçambique (onde participou na Op Nó Górdio). 

Com 20 anos de paraquedistas, e 4 ou 5 comissões em África (3 na Guiné), atingiu o  topo da hierarquia da classe de sargentos, tendo-se reformado  como sargento-mor.  

Podia ter feito, julgamos nós,   o curso de oficiais, mas optou por trabalhar como enfermeiro e depois técnico de radiologia, no Hospital da Força Aérea e por fim no Centro de Saúde da sua terra, Odemira,  durante mais 30 anos... 

Os sargentos, oriundos de praças, foram a espinha dorsal dos paraquedistas na guerra de África, e alguns chegaram a oficiais... Eram homens com experiência de liderança no terreno e conhecimento prático de diferentes teatros de operações.  Tinha outro "calo", outra maturidade, outro saber-ser, saber-estar e saber-fazer que, se calhar, faltava a alguns ou até muitos dos oficiais subalternos ( milicianos ou até do QP).

As tropas especiais não gostam de dar a conhecer o "outro lado da lua"  das suas vidas e atividade operacional. No brilhante historial do Regimentos de Caçadores Paraquedistas, durante a guerra do Ultramar, não houve apenas  "honra & glória", mas também alguns insucessos, pontos fracos,  tricas,  rivalidades, problemas disciplinares, etc., como em todas as organizações e instituições. (Como se costuma dizer, nenhum de nós é perfeito, só juntos podemos sê-lo.)

Este depoimento, escrito já aos 70 anos (e cuja pontuação revi, o Dâmaso escrevia como falava...) tem grande interesse documental, sociologicamente falando... 

Neste texto, a seguir, ele conta-nos como é que, chamado a fazer a recruta no Regimento de Lanceiros 1, em Elvas, em agosto de 1961,  e acabou por ir, como voluntário, em dezembro desse ano, para o Regimento de Caçadores Paraquedistas (RCP), em Tancos. (Originalmente publicado no Blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 1965/74 >  domingo, 16 de outubro de 2011 > Voo 2530: Venturas e Desventuras da Vida Militar; corrigimos a pontuação, fizemos a revisão e fixação de texto.)



Fur pqdt António Dâmaso, BA 12, BIssalanca,
Natal de 1966


De Elvas a Tancos: como fui parar aos paraquedistas, e fiquei apurado, no dia em que Portugal perdeu a Índia

por António Dâmaso


(i) Corria o mês de agosto de 1961, já tinha feito 21 anos de idade (em 12 de junho) e tinha atingido a maioridade. Como estava a trabalhar em Lisboa recebi uma carta da terra (Odemira)  a dizer que tinha de lá ir levantar umas guias  para ir para a tropa, cumprir o Serviço Militar Obrigatório.

Uma vez chegado à terra, dirige-me ao regedor que me deu uma guia de marcha e uma requisição de transporte para Elvas. 

Passei a noite de 20 de agosto a andar de camioneta e comboio, tendo chegado à estação de Elvas pela manhã, por sorte havia transporte à espera.

Assentei praça no Regimento de Lanceiros 1, situado no Forte de Santa Luzia,  em Elvas. No dia 21 de agosto de 1961, fiz exame psicotécnico para condução auto, tendo ficado aprovado. 

No mesmo dia foi-me perguntado se queria ir para a Polícia Militar, ao que respondi que não,  por ter presenciado as abordagens que a PM fazia aos magalas em Lisboa.

Depois entrei de licença registada até 15 de outubro, data da incorporação, fui integrado no CICA 3 / RL 1, Elvas,   para frequentar a instrução de condutor auto simultaneamente com a recruta.

Em Elvas existiam duas Unidades, Regimento de Caçadores 8 (RC 8) e Regimento de Lanceiros 1 (RL 1). 

No pico de um cerro havia um presídio militar a que chamavam o Forte da Graça. O trabalho dos prisioneiros era descerem com barris para carregarem água às costas, alguns diziam que chegavam lá acima despejavam a água para virem buscar mais.

A instrução estava a decorrer com normalidade até que sofri o primeiro revés na vida militar: as nossas malas com os pertences civis foram guardadas numa arrecadação, a minha mala tinha os meus pertences, o meu melhor fato, camisa, camisola, sapatos de biqueira quadrada e o dinheiro que tinha levado.

Como a alimentação além de escassa era de inferior qualidade (e eu precisava de suplemento alimentar),  vi-me na necessidade de ir à mala levantar mais dinheiro para poder ir à cantina aviar-me de sandes para me alimentar... Azar dos azares, da mala nem rasto.

Dois ou três dias depois a dita mala apareceu num palheiro que ficava ao lado do refeitório e em frente à minha caserna, mas arrombada e sem nada dentro. Claro que dali para a frente, até receber algum dinheiro de casa, passei fome.

(ii) Quando fui informado de que os paraquedistas pediam voluntários, apesar de na altura dizerem que o pessoal que optava por servir nas Tropas Páraquedistas era todo maluco, não liguei e vi ali uma maneira de me escapar daquele local. 

Ofereci-me imediatamente e comecei a praticar saltos em altura e exercícios com cordas no picadeiro.

Já tinha feito exame de condução, jurado bandeira em 8 de dezembro, feito a escola de cabos e passado ao CIACA (Centro de Instrução de Adaptação de Condução Auto) para adaptação a todas as viaturas de rodas existentes no Exército.  

Depois de ter feito nove tiros, estava apto para embarcar para Angola,  integrando qualquer Companhia ou Batalhão, como aconteceu aos meus camaradas que ficaram em Elvas, até que recebi guia de marcha para embarcar no comboio das 21,25 no dia 18 de dezembro para ser submetido a exames médicos e provas psicofísicas, e lá fomos cerca de trinta elementos com destino a Tancos.

Embarcámos numa carruagem de 3.ª Classe, a que nós chamávamos o comboio do Texas porque aquele tipo de carruagens faziam parte dos cenários dos filmes de cowboys por ter portas dos dois lados e ao meio dois bancos corridos de madeira em ripas virados um para o outro não existindo corredor para comunicação.

Chegámos à estação de Almourol por volta das duas da manhã do dis 19, tínhamos elementos do RCP para nos indicarem o caminho e lá fomos a pé e entrámos na porta de armas do antigo mas ainda recente BCP, já à data RCP.

Levaram-nos para uma companhia de alunos onde nos colocaram no sótão com uns colchões estendidos e duas mantas para passar o resto da noite.

No dia seguinte  (20 de dezembro) fomos ao pequeno-almoço e verificámos que estávamos num mundo diferente, dois pães com manteiga e marmelada, café com leite à descrição, com um pequeno-almoço daquela natureza pensámos estar preparados para o que viesse.

Lá me fui desenvencilhando das provas físicas, salto do muro, salto em altura, salto para a lona, salto em comprimento, corrida de velocidade, subir uma corda a pulso de 8 metros de altura, exercícios físicos, até que me apareceu a prova de boxe... 

Calçaram-me umas luvas pesadas, que só elas pelo peso cansavam, colocaram-me um adversário na frente, cometemos a estupidez de combinar não bater com muita força, fomos apartados e puseram-nos com outros adversários. 

Aqui ainda existiu a combinação, claro que mais uma vez novo adversário e o aviso de que a prova de boxe era eliminatória... Disse para o meu adversário para me desculpar porque dali para a frente era pancadaria a torto e a direito, até nos entusiasmámos e demos e levámos pancadaria até sentirmos o cansaço do peso das luvas.

Com o almoço ainda ficamos mais maravilhados com a qualidade e quantidade, tratava-se nada mais, nada menos, de que uns bons bifes, coisa que não tínhamos tomado nem o cheiro em Lanceiros 1. Já ao jantar embora primoroso, não o pude saborear convenientemente devido ao murro que tinha levado nos queixos que me dificultava a mastigação.

No dia seguinte (dia 21 de dezembro) foi à inspecção médica para os que tinham passado nas provas físicas: fomos metidos numas viaturas Bedford 4 x 4, com umas rodas enormes e levados para o Posto de Socorros da BA 3. Foram considerados aptos para o paraquedismo cerca de 50%. 

Os que chumbaram voltaram para a unidade e os aprovados ficámos adidos ao RCP e entrámos de licença registada, isto no dia em que se soube que Portugal disse adeus à Colónia Indiana.

Durante os dois meses que estive em Elvas, depois de ter sido roubado,  tinha um pó aquele local. Já a primeira experiência de vivência em grupo foi positiva, tinha no meu Pelotão uns indivíduos bem apanhados, havia um que sonhava alto, depois de ter feito exame de condução, escreveu uma carta à mãe e à noite a dormir desbobinou o conteúdo da mesma.

-Querida mãe, fiz exame e fiquei bem..., chega-te 
para lá Moreira… (Passados que são 50 anos ainda me lembro do nome de alguns.)

O Regimento de Lanceiros 1 foi extinto a 25 de Abril de 1975.

Saudações Aeronáuticas

A Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27390: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (3): estive sempre no "gastalho", em guerra comigo e contra o IN

1. Com a devida vénia e autorização do autor, Jaime Bonifácio Marques da Silva (antigo alf mil pqdt, 1º CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, conterrâneo do nosso editor LG; membro da Tabanca Tabanca desde 21/1/2024, com c. 120 referências no nosso blogue), passamos a criar uma nova série "Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci..."

É natural de Seixal, Lourinhã. Foi condecorado com a medalha de Cruz de Guerra de 3* Classe. Foi professor de educação física e autarca em Fafe. Está reformado. É sócio de várias associações de antigos combatentes, incluindo a AVECO - A
ssociação de Veteranos Combatentes do Oeste, com sede na Lourinhá,  e a Associação de Pára-Quedistas da Ordem dos Grifos63,com sede em Vila Nova da Barquinha.

Este é o terceiro poste da série (que terá 15 postes, correspondentes a excertos das pp. 75-98 do seu livro, Capítulo Dois):

Fonte: Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 83-84.



Quem foi obrigado a fazer a guerra, 
não a esquece: eu não esqueci (3):
estive sempre no "gastalho", em guerra comigo e contra o IN 

por Jaime Silva


Jaime Silva (2013). Foto: LG

Eu não esqueço que, a partir do primeiro dia da minha entrada na guerra, até 30 de julho de 1972, estive sempre no “gastalho” - em guerra comigo e contra o inimigo. E nunca mais a esqueci...

Combati nas matas dos Dembos, no Norte e nas “chanas” do “Cú de Judas” (#), no Leste de Angola, ao comando do 3º pelotão, da 1ª CCP do BCP 21 (1ª Companhia do Batalhão de Caçadores Paraquedistas nº 21) e, sempre com um objetivo de “fazer a guerra” sem que nenhum dos (meus) camaradas, sobre os quais tinha a responsabilidade de comandar, tombassem ou ficassem estropiados. Não o consegui: ficou lá uma perna e um morto! Penalizo-me, ainda hoje, por não o ter conseguido evitar!

Iniciei a rotina da guerra a 2 de março de 1970, pelas 06 horas da manhã, quando embarquei na BA3, em Luanda, num avião Nord Atlas e marchei para Ninda, o Leste, as terras do Cú de Judas, para me integrar na 1ª CCP. Uma vez chegado lá, até 18 de abril, integrei-me na atividade operacional da Companhia, sendo transportado para as operações, em helicópteros da África do Sul, pintados com as cores da bandeira de Portugal.

A partir dessa data, comecei a ter perfeita consciência de que,  ao iniciar o meu percurso no serviço militar obrigatório, tal como todos os jovens portugueses, na mesma circunstância, não representava mais do que uma ínfima gota, descartável para o sistema. Estava no meio da engrenagem trituradora da organização militar da guerra.

Apercebi-me que, no cenário da guerra, uma viatura militar tinha mais valor do que um homem, porque este, uma vez morto ou ferido, poderia ser imediatamente substituído por outro homem, enquanto as viaturas ou as peças para as reparar demoravam um tempo infinito e, muito vezes, nem sequer chegavam, para desespero dos Comandantes de Companhia do Exército sediadas no Norte e Leste.

Foi uma experiência atroz, a guerra!… Isto, sobretudo, porque regia a minha vida por princípios humanistas e cristãos, fundamentados no respeito pelos outros. Apontar a matar, para que eu próprio e os meus camaradas não morressem, foi uma experiência brutal.

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Nota do autor:

(#) "Cu de Judas" era o nome atribuído pelos militares a esta região inóspita do Leste de Angola, que conheci muito bem. A expressão inspirou o escritor António Lobo Antunes, para título do seu conhecido livro, "Os Cus de Judas". Este autor cumpriu uma comissão de serviço nesta região como alferes miliciano, médico, integrado numa companhia do exército comandada pelo capitão Melo Antunes. Participei em operações militares conjuntas com estes na região de Ninda e Chiume junto ao rio Cubango

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Nota do editor LG:

Último poste da série> 31 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27369: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21,Angola, 1970/72) (2): perante a hipótese Comandos, decido pelos Paraquedistas

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26817: Notas de leitura (1798): "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz; Fronteira do Caos Editores, 2019 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
Importa exaltar o meritório de trabalho do Coronel Nuno Mira Vaz, dá-nos um amplo enquadramento do desempenho dos paraquedistas nos três teatros de operações, no caso que mais nos toca, a Guiné, oferece-nos uma visão do que mais relevante esta tropa de elite ali praticou, entre 1963 e 1974. O autor deve ser leitor atento do nosso blogue, nele foi colher diferentes testemunhos daqueles momentos cruciais, como o de Gandembel, o nosso confrade Idálio Reis invoca o papel determinante que eles tiveram, designadamente nos ataques do PAIGC em dezembro de 1968; tropa que andou nos trilhos mais difíceis, no Morés e no Sul, esteve nos palcos de Guidage e de Gadamael, nos terríveis meses de maio e junho de 1973; e convém não esquecer que o BCP 12 infligiu ao PAIGC duros golpes no decurso da Operação Grande Empresa, na reocupação do Cantanhez. Um livro para ler e guardar.

Um abraço do
Mário



Paraquedistas em combate na Guiné (2)

Mário Beja Santos

A obra intitula-se "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz, Fronteira do Caos Editores, 2019, abarca o histórico da participação dos paraquedistas nos teatros de Angola, Guiné e Moçambique, e não esquece a extremosa e indispensável intervenção das enfermeiras no decurso da guerra. Houve um grupo de trabalho que desafiou o autor a coligir a obra destinada a guardar a memória desta tropa de elite.

No texto anterior, procedeu-se a uma síntese dos acontecimentos ocorridos em Angola em 1961, partiram a 16 de março com destino à Base Aérea n.º 9, em Luanda, era o primeiro contingente, o autor dá nota do desempenho da força paraquedista, refere as operações com salto em paraquedas, onde foi possível praticar tais iniciativas, não deixando de mencionar aquela que foi a mais emblemática e temerária mas que não se concretizou, e que tinha a ver com a reunião em Cap Skirring onde decorreu uma reunião entre o General Spínola e o Presidente Senghor. Como necessário, o leitor acompanha a atividade operacional dos paraquedistas em Angola.

Reportando-nos à Guiné, deu-se a visão da intervenção dos paraquedistas desde 1963 até à sua presença em Gandembel, em dezembro de 1968. O autor cita algumas expressões que o nosso confrade Idálio Reis, presença marcante em Gandembel, deixa no blogue:
“Os paraquedistas eram, inquestionavelmente, a tropa de elite melhor preparada para este tipo de guerra de guerrilhas, na busca perseverante ao agressor (…) a sua ação foi de uma extraordinária valia, revelou-se fundamental para o futuro dos homens da minha Companhia, muito em especial no aspeto anímico, e inclusive conseguiu também criar um clima de muito maior segurança para as demais tropas fixas e imóveis que estavam de algum modo envolvidas com Gandembel (…) Indubitavelmente, foi capaz de incutir uma outra serenidade a estes desalentados homens, renovar estados de espírito abalados, sobrepujar contrariedades inúmeras, remoçar réstias de esperança, que se revelaram cruciais no aumento da autoestima. E esta extraordinária proeza, este feito inigualável, ninguém lhe consegue dar a devida dimensão, tão-só o peso e o testemunho da gratidão dos que a sentiram.”

Estamos agora na era de Spínola, a reformulação da atividade operacional também atingiu as forças paraquedistas: foram criados Comandos Operacionais, Comandos de Agrupamentos de Operacionais e Comandos Operacionais Temporários. Deu-se seguimento ao projeto “Por Uma Guiné Melhor”, as populações das zonas mais disputadas eram transferidas para aldeamentos em locais estrategicamente escolhidos. Um coronel paraquedista foi escolhido para comandar o Comando de Agrupamento Operacional n.º 1, em Teixeira Pinto, em 1969, os paraquedistas alcançaram resultados assinaláveis. Eles também estiveram presentes na Operação Titão, a 24 de abril de 1969, na região do Morés, houve guerrilheiros capturados, bem como muito material de guerra. Em 13 de junho de 1969, eles irão intervir na Operação Orfeu, assalto à base de Choquemone, nos resultados, um número assinalável de material capturável.

A Operação Jove, executada nos dias 17 e 18 de novembro de 1969, no corredor de Guileje, deu como resultado a captura do capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta. Irão realizar-se outras operações no corredor de Guileje. Em território bem distante, na região de Pirada, estamos em julho de 1970, decorrerá a Operação Elefante Roxo, o PAIGC tinha lançado um violento ataque ao aquartelamento, com fogos de canhão sem recuo, lança-granadas foguete, metralhadoras e armas ligeiras, procurava-se infiltrar elementos na povoação, a guerrilha tentou assaltar as instalações da DGS, uma secção de paraquedistas impediu que o assalto se concretizasse, contra-atacando e perseguindo os guerrilheiros.

Em janeiro de 1972, os paraquedistas voltam ao Morés em vários agrupamentos, batem o terreno, capturam material e provocam baixas à guerrilha. Por essa altura, o Comando-Chefe decidiu realizar entre a fronteira com a Guiné-Conacri e Salancaur Jate, perto do corredor de Guileje, a Operação Muralha Quimérica, entrou-se em acampamentos e apreendeu-se material. As forças paraquedistas tiveram um papel determinante na reocupação do Cantanhez, este local, severamente fustigado em 1968, dava sinais de que o PAIGC voltara a ocupá-lo. A Operação Grande Empresa envolveu forças de intervenção, entre elas três Companhias de Caçadores Paraquedistas, forças de quadrícula, várias companhias de caçadores e um pelotão de artilharia, forças de apoio, a Marinha e Força Aérea. Os páras participaram na implantação de aquartelamentos em Cadique, Caboxanque, Cafal Balanta, etc. Observa o autor que em maio de 1973, apesar de todos os progressos alcançados ninguém podia afirmar que se vivia em paz no Cantanhez. Todo este esforço se acabou por diluir com as ofensivas do PAIGC na região de Guileje e Gadamael e no norte, em Guidage, nesta altura a guerrilha já operava com os mísseis terra-ar Strela.

Mais uma vez os paraquedistas vão intervir em pontos convulsivos. Depois da retirada de Guileje, em 22 de maio, o PAIGC cerca Gadamael, vêm os paraquedistas, chegam a 3 de junho, desembarcam debaixo de uma concentração de artilharia e morteiros, os paraquedistas vão encontrar Gadamael em estado de grande devastação, o PAIGC pressiona, uma companhia de paraquedistas patrulha. Em 23 de junho, vários grupos de combate de paraquedistas saem de Gadamael e vão rumo a Cacoca, é a Operação Cobra Ondulante, vão desarticular um “quartel” do PAIGC. Os combates a norte foram igualmente ferozes, o PAIGC preparou o cerco de Guidage com um efetivo de 650 homens, provoca o inferno, quase que destrói o aquartelamento, faz repelir as colunas de reabastecimento. Os paraquedistas irão apoiar a Operação Ametista Real, a missão é estabelecer e garantir a segurança de um corredor por onde se fará a recolha do Batalhão de Comandos Africanos, na sequência do assalto a Cumbamori, e partem depois para Guidage, pelo caminho serão emboscados, a resposta é rápida, a guerrilha provoca baixas aos paraquedistas. A 30 de maio, uma companhia de paraquedistas, os destacamentos de Fuzileiros e o remanescente do Batalhão de Comandos Africanos deslocam-se para Binta, a companhia de paraquedistas saíra 17 dias antes para apoiar a Operação Ametista Real, trazia vestida a mesma roupa e menos quatro dos seus homens.

O autor chama a atenção que o empenhamento operacional no Cantanhez tinha exigido aos paraquedistas um esforço enorme. Os homens regressaram a Bissalanca mais magros, fisicamente cansados pelas consecutivas ações de combate e psicologicamente afetados pelos bombardeamentos suportados em noites insones. Mas voltaram às operações em junho. A última ação de combate com expressão relevante ocorreu em 30 de janeiro de 1974, na região de Bissum, os paraquedistas procederam a uma batida, encontraram uma canoa com armas, capturaram elementos do PAIGC e abateram outro. Em 10 de abril de 1968 foi concedida a medalha de Cruz de Guerra de 1.ª Classe ao Batalhão de Caçadores de Paraquedistas n.º 12, o diploma legal destaca as reais qualidades desta tropa de elite: “O Batalhão tem-se destacado, através dos seus oficiais, sargentos e praças, que formam um grupo equilibrado e homogéneo, exemplo da tropa de intervenção como uma verdadeira unidade de elite, contribuindo, de maneira decisiva para a viragem da situação no sul da província, honrando, assim, as Forças Paraquedistas e tendo a sua atuação na província considerada brilhante e altamente honrosa, resultando prestígio para a Força Aérea e admiração e reconhecimento das outras Forças Armadas.”

Cumpre dizer que o autor dedica um amplo capítulo à presença dos paraquedistas em Moçambique e um tocante capítulo às enfermeiras de camuflado.

Uma importante investigação que traz luz à performance dos paraquedistas nos três teatros da guerra colonial.

Coronel de Cavalaria Paraquedista Nuno Mira Vaz
Fez uma comissão em Angola, duas comissões na Guiné e uma em Moçambique. Condecorado com a Cruz de Guerra, de 1.ª classe
Testemunho de paraquedista recolhido do jornal Correio da Manhã, não consta o nome, fez comissão na Guiné de 1966 a 1968 no 1.º pelotão da Companhia de Caçadores Paraquedistas 122:

“Faltavam oito dias para regressarmos a Lisboa com a nossa missão cumprida. Entre nós já ninguém pensava na guerra, os dias eram contados a cada instante. Mas o inesperado aconteceu. O nosso Comandante Coronel Sigfredo Ventura da Costa Campos mandou formar a companhia de caçadores paraquedistas 122 e disse o que passo a citar: "Meus senhores, nós vamos embora daqui a oito dias, mas os camaradas que nos veem substitui, vão precisar de um mês para ficarem 100% operacionais. O problema é que os rapazes de Tite estão constantemente a ser atacados. Eu sei onde estão as armas pesadas com que eles os flagelam... Vocês querem ir lá buscá-las?" - E aqueles 120 rapazes responderam em uníssono, "Queremos!".


Fomos de novo cumprir com o nosso dever e trouxemos os canhões sem recuo, os morteiros 82 e armas ligeiras; e para além de algumas baixas infligidas, ainda trouxemos ferido o irmão do chefe do grupo que ali atuava. E assim aliviámos os nossos irmãos, pelo menos por algum tempo. No final fomos condecorados com a medalha de Cruz de guerra de primeira classe coletiva. Mas se me perguntassem se faltou alguma coisa... Bem, diria que faltou alguém com bom senso dizer: Obrigado, Pá! A Pátria está-te agradecida!”

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Notas do editor:
Post anterior de 12 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26793: Notas de leitura (1796): "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz; Fronteira do Caos Editores, 2019 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26806: Notas de leitura (1797): "As Raças Humanas", de Louis Figuier, editado em Lisboa em 1881, no tempo em que se acreditava nas raças superiores e inferiores… (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26793: Notas de leitura (1796): "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz; Fronteira do Caos Editores, 2019 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
Fui encontrar-me com o coronel Nuno Mira Vaz à porta do Colégio Militar, na manhã de 1 de maio de 2024, entreguei-lhe o espólio de um valoroso alferes paraquedista há pouco falecido, que ficará no museu em Tancos, ele ofereceu-me o livro de que é autor, li-o com imensa emoção, dele vos estou a dar conhecimento, insere um vasto reportório sobre a participação dos paraquedistas na Guiné, o autor nunca esquece o blogue e cita amigos nossos como o coronel Moura Calheiros, termina no seu depoimento com a referência à medalha de Cruz de Guerra de 1ª classe conferida ao BCP 12. Escreve o autor na contracapa do seu prestimoso trabalho, um paraninfo a esta tropa de elite: "Têm os seus motivos de orgulho, de que não abdicam: por terem sido os primeiros a voar para os Dembos em 16 de março de 1961; por terem estado entre os últimos a sair de África e de Timor; por não terem deixado nenhum camarada para trás; por terem respeitado nos campos de batalha os que contra eles se bateram; por terem agido guiados pela Honra, pelo Dever e pela Camaradagem."

Um abraço do
Mário


Paraquedistas em combate na Guiné (1)

Mário Beja Santos

A obra intitula-se Pára-quedistas em Combate 1961-1975, por Nuno Mira Vaz, Fronteira do Caos Editores, 2019, abarca o histórico da participação dos paraquedistas nos teatros de Angola, Guiné e Moçambique, e não esquece a extremosa e indispensável intervenção das enfermeiras no decurso da guerra. Houve um grupo de trabalho que desafiou o autor a coligir a obra destinada a guardar a memória desta tropa de elite. O autor mostra que acompanha assiduamente o nosso blogue, dele recolhe um bom punhado de citações, logo a do alferes Vítor Junqueira, dizendo:

 “(…) Os paraquedistas que conheci na Guiné, 121.ª e 122.ª Companhias, eram realmente diferentes entre iguais. Sei que eram duros com o Inimigo, bravos debaixo do fogo, eficientes na ação, por esta ou qualquer outra ordem! Os resultados obtidos, as condecorações justamente atribuídas, atestam-no. Mas aquilo que aos meus olhos nos tornava a melhor tropa de elite, sem desprimor para outros, era a sua humildade, educação, respeito e cortesia para com os camaradas de outras forças (…)”

É uma longa viagem que mete preâmbulo sobre os primórdios da luta de libertação, chegamos a 1971 e temos os Páras em Angola, é um denso inventário de operações, fala-se das operações com salto em paraquedas e é nesse contexto que o autor irá falar da mais emblemática operação aerotransportada, decorreu na Guiné, e tinha a ver com a proteção que se queria dar ao General António Spínola, que se reuniu em 27 de abril de 1972 com o presidente senegalês Senghor, em Cape Skirring, a poucos quilómetros a Norte da fronteira com a Guiné. Montou-se um dispositivo militar capaz de resgatar o Governador e Comandante-Chefe e a sua comitiva, vivos ou mortos.

Tudo teria de ser feito sem o conhecimento das autoridades senegalesas. Houve um envolvimento impressionante: o Grupo Pperacional da Base Aérea 12 com as Esquadras 121 (Fiat), 122 (helicópteros) e 123 (Nord Atlas) e o BCP 12 com duas companhias e meia, num total de cerca de 300 paraquedistas. 

Nenhum dos intervenientes de operação, com exceção dos Comandos da BA 12 e do BCP 12, sabia qual era a missão – esta só seria indicada às forças intervenientes imediatamente antes da sua entrada em ação. Nada aconteceu felizmente. Este esquema preventivo voltou a ser montado em 18 de maio para um novo encontro, mas por haver confiança relativamente à boa-fé dos interlocutores senegaleses, os Nord Atrlas não saíram da placa da BA 12, onde também se manteve, preparado para embarcar se necessário, o pessoal a lançarem paraquedas.

Detalham-se os acontecimentos de Angola, a narrativa culmina com a atribuição da Medalha de Ouro de Valor Militar, com Palma ao Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 21, em fevereiro de 1973.

Passamos agora à Guiné onde os primeiros militares paraquedistas chegaram em junho de 1963, a sua missão principal consistia na defesa imediata do Aeródromo/Base n.º 2 (futura Base Aérea n.º 12). Era o Pelotão de Paraquedistas n.º 111, que teve o seu batismo de fogo em Agosto. O agravamento da situação exigiu o aumento do efetivo para o escalão Companhia. É referida a operação em que morreu em combate o Capitão Para-quedista Tinoco de Faria, em abril de 1966; enumeram-se as operações ao Cantanhez entre 1967 e 1968, com baixas da guerrilha e material capturado, os resultados mais impressionantes situam-se nestes primeiros meses de 1968.

E o autor dá-nos um quadro de combates sem tréguas à volta da Operação Júpiter, a missão era proceder à reorganização do dispositivo das forças terrestres aquarteladas em Guileje, Gandembel, Mejo e Porto Balana, era uma tentativa de dificultar ao PAIGC a utilização do “corredor de Guileje”, a operação decorreu em quatro períodos. O “corredor de Guileje” era utilizado pela guerrilha duas a três vezes por semana, por aí transitava boa parte dos combatentes e carregadores, transportava-se material de guerra entre a Guiné-Conacri e as bases situadas no interior da Guiné Portuguesa, no regresso transportavam-se géneros alimentícios.

Este trânsito de colunas era precedido por patrulhas com efetivos variáveis entre 20 a 50 homens, eles percorriam os caminhos de acesso ao corredor sinais da presença das forças militares portuguesas – e sempre que eram detetados sinais desta presença, as movimentações da guerrilha conheciam adiamento para o dia seguinte pois o PAIGC sabia que estas emboscadas raramente duravam mais do que 24 horas consecutivas. Sucederam-se as ações de combate, o inimigo dispersava e contra-atacava, as marchas eram extenuantes, os paraquedistas regressavam a Gandembel com os seus feridos e mortos e muito material de guerra capturado, e o autor dá-nos a seguinte citação:

“Formados na parada do quartel, sombras cambaleantes curvadas pela dor e exaustão, escutam o seu comandante que pede voluntários para bater na madrugada próxima toda a zona onde se tinham desenrolado os combates. Aqueles que se sentissem capazes, que dessem um passo em frente.
Perfilando-se orgulhosamente, olhos cintilando nas faces cavadas, cansaço vencido, todos avançam como se fossem um só homem.”


No final do primeiro período da Operação Júpiter, as tropas paraquedistas tinham causado à guerrilha 35 mortos, 1 prisioneiro e um número incontrolado de feridos. E nova observação do autor: 

“O Cantanhez, que durante vários anos tinha encarnado piores receios dos militares portugueses, a região onde mandara, incontestado, Nino Vieira, revelava-se afinal o cenário onde o BCP 12 obtinha os mais estimulantes sucessos operacionais.” 

Mas o inimigo não se deu por vencido, os ataques a Gandembel eram devastadores, danificaram o aquartelamento.

Depois de uma acalmia, a 16 de setembro, o PAIGC volta a bombardear com violência Gandembel e também Guileje. Regista o autor:

“O bombardeamento a este aquartelamento começou pelas 01H00 e só terminou às 05H10 depois de mais de 300 granadas de morteiro e de canhão sem recuo terem explodido no interior do perímetro defensivo ou nas zonas limítrofes. Após um curto período sem fogo, a tensa expetativa dos defensores foi bruscamente quebrada pela tentativa de assalto lançada pelo PAIGC cerca das 05H50. A decidida reação da tropa, porém, forçou os guerrilheiros a retirar, mais uma vez a coberto de granadas de fumo. 

A guerrilha somou novo insucesso, mas provocou extensos danos materiais no aquartelamento. Gandembel, por seu turno, foi atacado pelas 08H30, tendo sito contabilizados cerca de 150 arrebentamentos de granadas de canhão sem recuo e LGF na área do aquartelamento, as nossas tropas ripostaram forçando os guerrilheiros a retirar. Os atos de coragem praticados pelos militares paraquedistas nos duros combates que travaram com os guerrilheiros do PAIGC, defendendo Guileje e Gandembel, mereceram destacadas citações individuais nos relatórios de operações.”

Coronel de Cavalaria Paraquedista Nuno Mira Vaz
Fez uma comissão em Angola, duas comissões na Guiné e uma em Moçambique. Condecorado com a Cruz de Guerra, de 1.ª classe
Testemunho de paraquedista recolhido do jornal Correio da Manhã, não consta o nome, fez comissão na Guiné de 1966 a 1968 no 1.º pelotão da Companhia de Caçadores Paraquedistas 122:

“Faltavam oito dias para regressarmos a Lisboa com a nossa missão cumprida. Entre nós já ninguém pensava na guerra, os dias eram contados a cada instante. Mas o inesperado aconteceu. O nosso Comandante Coronel Sigfredo Ventura da Costa Campos mandou formar a companhia de caçadores paraquedistas 122 e disse o que passo a citar: "Meus senhores, nós vamos embora daqui a oito dias, mas os camaradas que nos veem substitui, vão precisar de um mês para ficarem 100% operacionais. O problema é que os rapazes de Tite estão constantemente a ser atacados. Eu sei onde estão as armas pesadas com que eles os flagelam... Vocês querem ir lá buscá-las?" - E aqueles 120 rapazes responderam em uníssono, "Queremos!".

Fomos de novo cumprir com o nosso dever e trouxemos os canhões sem recuo, os morteiros 82 e armas ligeiras; e para além de algumas baixas infligidas, ainda trouxemos ferido o irmão do chefe do grupo que ali atuava. E assim aliviámos os nossos irmãos, pelo menos por algum tempo. No final fomos condecorados com a medalha de Cruz de guerra de primeira classe coletiva. Mas se me perguntassem se faltou alguma coisa... Bem, diria que faltou alguém com bom senso dizer: Obrigado, Pá! A Pátria está-te agradecida!”


(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26771: Notas de leitura (1795): "Um preto muito português", da luso-angolana e antiga "rapper" Telma Tvon (Lisboa, Quetzal, 2024)... Parte II (Luís Graça): Uma dedicatória que vale um poema: "Para os meus de sangue e coração. Para os meus de rua e coração"

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Guiné 61/74 - P24869: (In)citações (260): Ainda os Esquecidos. Para o António Silva, Soldado Paraquedista morto em Angola em 1963 (Juvenal Amado)

Lobão da Beira, Tondela, 2017 > Funeral do Soldado Paraquedista António Silva

1. Em mensagem de 19 de Outubro de 2023, o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), fala-nos dos (combatentes) Esquecidos, nós todos afinal, mortos ou vivos.


Ainda os Esquecidos

Para o António Silva, Soldado Paraquedista morto em Angola em 1963

Patriotismo é querermos o melhor para o nosso país.
Nacionalismo é querermos o país só para nós.

Os dois foram homenageados na Assembleia da República por diferentes razões a meu ver. Mereceram a homenagem?

Um era esquivo, não tinha travões na língua, discreto quanto à sua vida pessoal, rico dono de uma cadeia de supermercados, que se enchem quase todos os dias de gente que o enriqueceu e promete continuar a enriquecer os seus familiares nos anos mais próximos. Dizem que à custa de salários baixos e de o defender com a boca toda, era responsável pelo fecho de milhares de pequenas empresas, lojas, talhos, mercearias, retrosarias e até ao definhar de mercados tradicionais, onde os produtores vendiam os seus produtos directamente ao consumidor.

Digno de todas a honras, para além de entender que devia pagar o menos possível aos seus trabalhadores, também não estava de acordo com a tributação devida no seu país e passou a sede das suas empresas para a Holanda, onde paga menos. Era comendador pelos serviços prestados ao nosso país, aliás como muitos que o merecem, e outros tantos ou mais que o não merecem, como se veio a comprovar-se nos anos seguintes.

Quanto ao outro que vi actuar desde cedo como músico, era como dizem, um gajo porreiro, amigo do seu amigo, que integrado numa banda primeiramente punk e depois rock, que quer se goste ou não, marcou trinta e tal anos das nossas vidas, pois a sua música não nos atingiu a nós, atingiu os nossos filhos e também netos. Na verdade ele não explorou ninguém, não enriqueceu (quem é que enriquece pela música em Portugal?) mas levava milhares de apreciadores atrás dele para onde fosse, como eu fui testemunha disso. Quando ele estava no palco sabíamos que conhecia muita gente que ali estava e nós, tínhamos a sensação de pertencermos ao seu núcleo de amigos sem nunca termos estado a menos de trinta metros dele. Tenho pena que ele tenha morrido, do outro tenho uma dualidade entre o lamento e a embirração.

No dia que eram homenageados na AR, chegava a Portugal finalmente o soldado paraquedista António Silva morto em combate Angola 1963. Morreu por uma Pátria que já não existe.

Essa Pária alterou no seu conceito, já não tem guerra, modernizou-se, encheu-se autoestradas, dos tais supermercados, de temas musicais que não lhe diriam possivelmente nada, tem uma juventude que não sabe o que é ter guerra estar longe de casa sem telefone por vezes sem água e com uma alimentação que faria torcer o nariz a qualquer jovem frequentador de centros comerciais de hoje.

O soldado António Silva por lá esteve morto e enterrado 11 anos antes da viragem do seu país e, se voltou no dia 6 de Dezembro de 2017 a pisar solo pela Pátria, pela qual deu a vida, não foi o Estado que lhe prestou esse derradeiro e devido serviço.

No dia em que homenagearam dois, talvez, discutíveis portugueses na AR, esqueceram aquele que morreu pela Pátria, lamentavelmente não lhes mereceu uma só palavra, que era indiscutível.

Os esquecidos, continuam isso mesmo, esquecidos.

Feliz Natal e um Grande Ano para todos os camaradas.

Escrevi em 2017 mas como continua actual cá vai.
Juvenal Amado

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Foto: Nuno André Ferreira - Com a devida vénia ao Correio da Manhã
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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE NOVEMBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24860: (In)citações (259): Depois da "mina A/P" que me atirou, em 29/10/2023, para um leito de hospital, com o fémur partido, estou de regresso à vida, à luta, a escrita, enquanto a a recuperação prossegue (José Saúde, Beja)

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23696: In Memoriam (455): Mensagens do Coronel Paraquedista Nuno Mira Vaz, enviadas a Mário Beja Santos, a propósito do falecimento ocorrido no passado dia 2 de Outubro do Alf Mil Paraquedista Jorge da Cunha Fernandes (JOTA) (Nuno Mira Vaz / Mário Beja Santos)

1. Mensagem do Coronel Paraquedista Nuno Mira Vaz, enviada a Mário Beja Santos em 7 de Outubro de 2022, a propósito do falecimento do Alf Mil Paraquedista Jorge da Cunha Fernandes (JOTA), ocorrida no passado dia dia 2 de Outubro:

Caro Mário Beja Santos

Muito lhe agradeço ter-me notificado da morte do Jota, um jovem que ficará para sempre na minha memória como um grande combatente e um excelente camarada. Depois da nossa convivência na Guiné só voltei a vê-lo uma única vez, com as tais barbas de missionário, numa romagem de saudade em Tancos. Desconheço as razões por que não voltou a essas confraternizações, pois só tinha amigos na comunidade pára-quedista.
Dos cinco oficiais dessa CCP 121, é o segundo a rumar às nuvens.

No que respeita aos comentários sobre a actuação do general Schulz como Comandante-Chefe, estou inteiramente de acordo consigo: o homem é persistentemente e injustamente desvalorizado e não vejo razão para tal.

Um abraço com muita consideração deste velho camarada de armas.
Nuno Mira Vaz

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Jorge da Cunha Fernandes (JOTA) (23/04/1942 - 02/10/2022)
Ex-Alf Mil Paraquedista da CCP 121/BCP 12, Guiné, Dezembro de 1966 – Maio de 1968


2. Nova mensagem do Coronel Paraquedista Nuno Mira Vaz, enviada a Mário Beja Santos, no mesmo dia, pouco depois:

Caro Mário Beja Santos

Depois de lhe enviar a MSG anterior, decidi pesquisar num livro de memórias que escrevi exclusivamente para os meus filhos, eventuais referências ao Jota.
Aqui as tem, com sincera estima e consideração

1. - A repartição dos subalternos pelas duas Companhias tinha sido acordada com o Manuel Morais durante a viagem a bordo do Manuel Alfredo: eu ficava com o Ramos, que ia na segunda comissão e que tinha sido na primeira, tal como eu, alferes da 2.ª companhia do BCP 21 em Luanda, e com o Preto, que fora meu condiscípulo no Colégio Militar. 

O Manuel escolheu em seguida os seus quatro alferes e eu completei o elenco com o Cunha Fernandes e o Américo. Este estava a acabar a comissão e foi substituído passados poucos meses pelo Taliscas. Cada um com o seu feitio, eram quatro máquinas em combate. Quatro verdadeiros “Leões”, se me é permitido estabelecer uma analogia com o indicativo de combate da CCP 121.

 Mas, por ora, o combate era travado com sacos de cimento, vigas de ferro e placas de lusalite, numa febre de construir que nos permitiu pôr de pé, num tempo recorde, as novas instalações do Batalhão. Espaço era coisa que não faltava. E cada pelotão ficou desde logo com um jardim privativo, cujo arranjo passou a ser tema de renhido concurso anual.

2. - Recordo o Quartel de Santa Luzia com a piscina de águas tão espessamente esverdeadas que nada se via a dez centímetros de profundidade, o UDIB onde passavam filmes de cowboys, a Associação Comercial com os torneios de bridge e o naipe de restaurantes e cervejarias: o Café Portugal, o Zé da Amura, o Solar do Dez e o Grande Hotel. 

Neste pontificava o gerente, o senhor Marques, ziguezagueando por entre as mesas a cativar a clientela. O Jantar da Casa custava na altura 65 escudos e dava direito a repetir os pratos. Isto até o dia em que o Cunha Fernandes e o Taliscas, entretanto tornados clientes habituais, se sentiram acometidos por um apetite especialmente devorador. 

Cansado de ver passar travessas com repetição para a mesa dos dois alferes, o Marques decidiu interpelá-los. Delicadamente mas com inquebrantável veemência, fez-lhes ver que, embora fosse timbre do Grande Hotel a repetição dos pratos do Menu, fazê-lo tantas vezes era absolutamente incomportável. Os nossos alferes não se desmancharam. Deram-lhe razão e, daí para o futuro, de cada vez que iam comer ao Grande Hotel, mandavam servir quatro jantares da casa: tendo em conta o que comiam, ainda compensava largamente.

3. - Nada, mas nada, nos faz suspeitar de que um vulto negro está prestes a saltar para a picada para disparar uma granada de bazooka e sumir-se de imediato no arvoredo. Lançados ao chão pela violência da explosão, os homens da 1.ª secção mal têm tempo de ver o corpo do Galego revolutear no ar como um boneco de palha antes de cair inerme. Gatinhamos a procurar abrigo, enquanto o inimigo atira com meia dúzia de armas automáticas e as bazookadas explodem de cinco em cinco segundos. O sargento Serigado, a comandar o 1.º pelotão, faz manobrar os seus homens com uma calma olímpica.

Entretanto, a metralhadora da secção do André encravou. Da frente, reclamam aos gritos outra arma. Não decorreram sequer dez segundos quando o alferes Cunha Fernandes passa por mim acompanhado por um apontador de metralhadora do seu pelotão. 

Naquele exacto momento, nova bazookada estoira na árvore por cima de nós, partindo uma pernada que cai sobre o alferes e o soldado. Felizmente, os estragos resumem-se a uns míseros arranhões que não os impedem de se levantar rapidamente e de continuar a correr. Daí a pouco, já se ouve o rugir furioso da MG-42 na frente da Companhia.

4. - (Operação Ciclone II, 25Fev1968 no Cantanhez, a tal que destroçou por completo um bigrupo do PAIGC):

Entretanto, desembarcou o 4.º pelotão, do alferes Cunha Fernandes, um “maçarico” que em nada desmerecia dos “veteranos” e a quem mandei explorar a orla da mata para Leste, na direcção de Cafal, a fim de estabelecer ligação com a CCP 122.

Nuno Mira Vaz

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Notas do editor:

Vd. poste de 6 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23678: In Memoriam (454): Jorge da Cunha Fernandes (23/4/1942 - 02/10/2022), ex-Alf Mil Paraquedista da CCP 121/BCP 12 (Guiné, 1966/68) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23678: In Memoriam (454): Jorge da Cunha Fernandes (23/4/1942 - 02/10/2022), ex-Alf Mil Paraquedista da CCP 121/BCP 12 (Guiné, 1966/68) (Mário Beja Santos)

I N  M E M O R I A M

Jorge da Cunha Fernandes (23/04/1942 - 02/10/2022)
Ex-Alf Mil Paraquedista da CCP 121/BCP 12, Guiné, Dezembro de 1966 – Maio de 1968 

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1.
Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Outubro de 2022:

Queridos amigos,
É mais uma perda de um peso pesado do meu coração. Enquanto folheava esta história de paraquedistas e da atividade operacional que experienciou o Jorge da Cunha Fernandes pensava nos disparates sistemáticos que impunemente se escrevem sobre as atividades desenvolvidas durante o período da governação de Schulz, ainda recentemente Bernardo Futscher Pereira no seu importante ensaio sobre a política diplomática do Estado Novo, Orgulhosamente Sós, voltou a referir que este Comandante-Chefe se limitou a atividades defensivas, recorrendo a bombardeamentos aéreos, olha-se só para o que fizeram os paraquedistas e questiona-se que investigação se fez ou anda a fazer.
E abraço o meu querido Jota que partiu para as nuvens, e que tanto bem me fez e aos meus.

Um abraço do
Mário



In memoriam:
Jorge da Cunha Fernandes (23/04/1942 - 02/10/2022), Alferes Miliciano Paraquedista, CCP 121/BCP 12, Guiné, Dezembro de 1966 - Maio de 1968


Mário Beja Santos

Foi através de um dos irmãos que me chegou a nefasta notícia de mais uma perda: o Jota, que estava numa unidade de cuidados paliativos, morrera serenamente ao amanhecer daquele dia. De imediato contactei os irmãos, pedindo-lhes encarecidamente que se acaso aparecesse o seu processo militar me autorizassem a consulta para honrar este bravo paraquedista. Como convivi desde criança com os sete filhos dos meus padrinhos de batismo, recebi do Jota, ao longo da vida, provas de imenso carinho e solicitude. Tive mesmo o privilégio de usar as suas roupas até a adolescência, não mais se puderam aproveitar os sapatos, ele quedou-se nos 42 e eu disparei para o 45, acresce que subi mais uns centímetros, os suficientes para que nenhuma costureira pudesse fazer o milagre da multiplicação da roupa. Com elevado sentido prático, tinha dedo para canalizador, eletricista, reparador de miudezas domésticas, uma forte atração por carros, que montava e desmanchava sistematicamente. Foi-se tornando um tanto bizarro, deixou crescer as barbas como se fosse um missionário (era impressionante a parecença dele com um tio da minha madrinha, Monsenhor Alves da Cunha, ainda hoje figura grada na memória dos angolanos), tornou-se acumulador compulsivo, como eu comprovei. Andava a preparar o segundo volume do meu Diário da Guiné, apareceu-me uma folha, no meio da papelada de antanho, em que lera um livro de William Faulkner e um livro de poesia de Jorge de Sena, oferta do meu padrinho, com envio para a Guiné, livros devorados pelo fogo numa flagelação, telefonei ao Jota, prontamente me respondeu que os tinha e que me os oferecia, marcou o dia e hora no seu apartamento em Benfica, por ali andei espavorido por carreirinhos, havia tralha até ao cimo das paredes, e pela primeira vez vi na vida um chassi na mesa de cozinha… era assim o meu saudoso Jota.

Não descansei enquanto não encontrei algo para aqui o homenagear. Fui até à Biblioteca da Liga dos Combatentes e o Dr. João Horta obsequiou-me com pesquisas, encontrou a "História das Tropas Paraquedistas Portuguesas", Volume da Guiné, agora é mais fácil mostrar-vos o Jota, como ele é merecedor de lembrança (consta que só morremos definitivamente quando ninguém fala de nós).

Temos aqui uma fotografia dele a bordo do "Manuel Alfredo", estamos em dezembro de 1966, o BCP 12 vai entrar em funções, tem duas companhias operacionais, a CCP 121 e a CCP 122. O Jota faz parte da 121, comandada por Nuno Mira Vaz. Chegam e ficam grandemente dependentes da Base Aérea n.º 12. Escreve-se neste documento que as instalações eram precárias, a cozinha improvisada sob a capa de um vetusto de poilão, com algumas tábuas e ramos de palmeira, construiu-se um refeitório conjunto para oficiais, sargentos e praças. Este documento dá-nos uma síntese da atividade operacional das CCP121 e 122. O BCP 12 fazia parte das forças de reserva à ordem do Comandante-Chefe. Logo no treino operacional houve captura de armamento. A primeira operação digna de registo é a "Barracuda", decorreu em 3 de fevereiro de 1967, houve captura de civis e armamento; seguiu-se a "Piranha I", na área de Bigine, andaram pelo leito do rio Fulacunda, caíram no lodo, ficaram encurralados, foram recuperados por LDP’s que estavam ancoradas em Bolama. Até meados de 1968, estas unidades de paraquedistas foram utilizadas em ações de helitransporte de assalto, emboscadas e batidas de curta duração. Realizaram também ações conjuntas com militares de outros ramos das Forças Armadas, são disto exemplo as operações "Parafuso" e "Bom Sucesso". Intensificaram o seu ritmo operacional ao longo de 1967, a obra releva duas operações classificando-as como notáveis, a "Phoenix I" e a "Trovão", a primeira na região de Paiunco e a segunda na região de Bedanda, aqui o carregamento de material capturado em vários helicópteros demorou mais de quatro horas. Terá sido em fevereiro de 1968 que os militares do BCP 12 irão travar o mais violento dos combates, em Cafal e Cafine.

O comandante do BCP 12, Tenente-Coronel Costa Campos, acompanha sempre estas operações e, no caso da operação de fevereiro de 1968, destroçou-se o bigrupo que atuava naquela região do Cantanhez. A última operação de combate foi a "Barracuda III", que se realizou em 13 de maio de 1968, numa base na região de Quínara. Pelos seus atos de destemor, solicitude e abnegação foi condecorado com a Cruz de Guerra de 3.ª Classe.

Preferia não acrescentar nada mais sobre o afeto que sempre guardei a alguém com quem convivi por tanto tempo e de quem beneficiei da sua estima. Não resisto a contar que estando em férias na Foz do Arelho (onde o Jota passou a viver em permanência depois de fechar a baiuca em Lisboa) com a família, telefonou-me eufórico, encontrar uma caixa com latas de sardinha do Algarve Exportador, íamos preparar uma comezaina, perguntei-lhe como é que era possível as sardinhas ainda estarem boas várias décadas depois de embaladas, eu que não me preocupasse, haveria pitéu. Como houve, guardámos fotografia desse dia, lá estamos todos sorridentes, o Jota olhando-nos fixamente com as suas barbas de missionário.

Fica-me a recordação de alguém que serviu denodadamente a Pátria, desapareceu mais um herói, fica no altar supremo das minhas saudades. Jota, que tudo te corra bem por esse mar de nuvens onde seguramente contemplas Deus.
O Jota é o primeiro à direita de cócoras, terá medo de apanhar lêndeas e piolhos na Guiné, grande é a carecada, não sorri para nós, sorri para os camaradas
O Jota é o primeiro à esquerda, de cócoras, seguramente deixou de ter receio das lêndeas e piolhos, deixou crescer o cabelo, a gente pergunta-se se todos estes homens viveram passados 365 dias de vida operacional na Guiné

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Nota do editor

Último poste da série de 1 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23660: In Memoriam (453): Júlio Martins Pereira (1944-2022), ex-sold trms, CCAÇ 1439 (Enxalé, Missirá e Porto Gole, 1965/67)... Natural de Paredes, vivia em Valongo... Nosso grã-tabanqueiro nº 653... Nascemos no mesmo dia, 12/6/1944 e conhecemos as mesmas estações do inferno (João Crisóstomo, Nova Iorque)

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22288: Consultório militar do José Martins (67): “Companhias de Caçadores Especiais” - Unidades de Infantaria criadas em 1959, que iriam ter como missão principal, a defesa das Províncias Ultramarinas - Parte I


O nosso camarada José Martins (ex-Fur Mil TRMS, CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), em mensagem de 14 de Junho de 2021, enviou-nos mais um dos seus trabalhos de pesquisa histórica, desta vez dedicado às antigas Companhias de Caçadores Especiais, as primeiras Unidades militares a serem enviadas para a Guerra do Ultramar no início dos anos sessenta.


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 15 DE JUNHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22284: Consultório militar do José Martins (66): Implementação do Estatuto do Antigo Combatente - Actualizações