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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Confiro ao interesse a esta conferência do Conde de Penha Garcia pela forma como ele estruturou a sua exposição quanto à natureza da nossa presença em África até ao século XIX e como as ambições das potências coloniais levaram à partilha do continente africano na Conferência de Berlim, que exigiu a Portugal a delimitação de fronteiras, confirmou o direito a possuirmos o Império colonial com as parcelas que vieram a tornar-se independentes em 1974 e 1975. As pressões sobre a bacia do Zaire, a baía de Lourenço Marques, territórios da Guiné, eram muito fortes, quer do lado francês quer do lado britânico, no final da sua exposição o Conde de Penha Garcia argumenta com suavidade que o desafio crucial que se irá pôr em África quanto à presença portuguesa era o ritmo acelerado com soldados, colonos, missionários, administração e instituições sólidas que garantissem eficiência colonizadora. Recorde-se que ninguém sonhava que meio século depois iria emergir um irreversível surto independentista dentro dos ventos da História.

Um abraço do
Mário



A partilha de África segundo o Conde de Penha Garcia - 2

Mário Beja Santos

Muito antes de estar na presidência da Sociedade de Geografia de Lisboa, o Conde de Penha Garcia, José Capelo Franco Frazão, que recebeu o título nobiliárquico no reinado de D. Carlos, várias vezes deputado na monarquia, Ministro da Fazenda, adepto de João Franco, com duelo travado com Afonso Costa, licenciado em Direito, tendo vivido em exílio no advento da República, regressado a Portugal com o 28 de maio, presidiu à Escola Superior Colonial, desportista na esgrima e no tiro, colaborador na Exposição Internacional de Paris para a qual escreveu o livro sobre as colónias portuguesas, em 1931, proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia em 1896, brochura publicada em Lisboa em 1901.

É um texto de inegável interesse, penso que poderá funcionar como elemento complementar a uma obra que classifico como muito importante sobre a presença portuguesa em África, da autoria do Marquês do Lavradio, recensão que também pus à disposição dos meus confrades. Vejamos a argumentação expendida por este monárquico conservador, um indiscutível investigador colonial.

Estamos agora no aceso das corridas entre as potências europeias com vontade de possuir colónias em África. O rei dos belgas criara a Associação Internacional Africana, com sede em Bruxelas, quer disputar o Congo e apresenta a Associação como de carácter internacional para abrir ao mundo culto os caminhos dos sertões africanos. Há expedições em marcha, parte-se de Zanzibar estabelecem-se missões em Uganda e no Tanganica. Stanley anda pelo Congo, a Associação vai ocupando a bacia do Zaire; em 1880, era fundada Leopoldville. Dois países seguiam inquietos as ambições do rei dos belgas: Portugal e a França. Este último enviou o explorador Brazza a reconhecer o interior e a assegurar à França uma parte da rica bacia do Zaire.

Portugal reatou negociações para obter reconhecimento das suas velhas pretensões territoriais, tendo obtido da Inglaterra, em 1888, o reconhecimento para a sua fronteira ao norte, mas houve protesto da Alemanha e da França, o Tratado não pôde ser ratificado. É nesta atmosfera que Portugal lembra a conveniência de se dirimirem as questões numa conferência internacional. A Alemanha tomou a direção da conferência, iniciara planos de colonização da costa oriental, no Tanganica, havia missionários alemães envolvidos, muitos comerciantes industriais alemães já tinham implantado negócios em África; em 1883, a bandeira alemã flutuava no Togo e nos Camarões e em 1885 estabeleceu-se o protetorado alemão na costa de Zanzibar.

Em 1882, deu-se um grave acontecimento no norte de África. A Inglaterra, sob o pretexto de reprimir a revolta de Arabi-Bey ocupara o Egipto, seria o ponto de partida para a penetração em regiões do Sudão e estabelecia-se um plano de um grande Império africano do Cabo a Alexandria. Os ingleses diziam que a ocupação do Egipto era transitória, afinal não foi. Também os italianos recorreram a expedições, sonham em criar um Império que incluísse a Eritreia, a Somália, a Abissínia, a Líbia. A concorrência era desenfreada, recentes descobertas no centro de África tiveram como efeito exacerbar que todos os países quisessem reservar para si uma parte desse extenso mercado. O que mais preocupava Portugal era a questão do Zaire, queria guardar para si exclusivamente a chave da grande bacia do Zaire.

E assim chegámos à Conferência da Berlim, cujos fins eram, no dizer do Príncipe de Bismarck associar os indígenas à civilização, abrir o interior ao comércio livre, suprimir a escravatura, propagar por todos os meios a educação e a instrução dos indígenas. A ideia fundamental da conferência era garantir o acesso do interior a todas as nações comerciantes e fixar alguns pontos do Direito Público africano. Conferência com vários pontos agendados: estabelecimento da liberdade comercial na bacia do Zaire e do Níger; declaração de neutralidade da bacia convencional do Zaire; obrigação de impedir e comprimir a escravatura; liberdade de propaganda religiosa; regulamentação do direito de ocupação das costas; estabelecimento de uma comissão internacional para elaborar regulamentos e vigiar a observação da convenção; e fazer o reconhecimento do Estado Livre do Congo.

A Conferência de Berlim lançou as bases do moderno Direito Público em matérias africanas; consagrou o princípio da política de ocupação. Logo em seguida, as potências coloniais entabularam relações diplomáticas para a delimitação das suas feiras de influência e foram celebrados Tratados repartindo um continente quase três vezes maior do que a Europa. Acabou destruído o projeto português da ligação das duas costas, a Inglaterra cobiçava a região entre o Niassa e o Tanganica, separou brutalmente as nossas possessões africanas, metendo-lhes de premeio dois protetorados britânicos. Portugal concebera o plano de ligar as suas duas possessões por via fluvial, baseava-se no domínio em certas regiões costeiras e em muitos pontos do interior. Quebrava a tradicional ideia de ligar as duas costas, havia que delimitar as fronteiras das nossas possessões africanas.

E chegámos às conclusões da conferência do Conde de Penha Garcia na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1896. Para ele, à nossa velha política comercial em terras de África era preciso substituir a política de ocupação, para ali transferir em força o soldado, o comerciante, o missionário e o colono, só assim se poderia assegurar a posse do vasto Império colonial, e profere:
“Tudo indica que o século XX se notabilizará por um largo progresso na colonização africana. Aos espaços intertropicais o homem branco tem apenas levado a sua atividade comercial, mas tempo virá em que o ideal de organizar sociedades negras estáveis o seduza. Portugal tem em África uma importante missão a realizar, que nem a tradição histórica, nem a história política do continente africano desaprovam.
A velha raça portuguesa encontra nos nossos domínios africanos mais de um ponto em que se perpetue. A nossa política colonial, a quem compete a direção e organização deste movimento de expansão, não deve, porém, esquecer que a Conferência de Berlim criou uma época nova na vida política africana. Portugal necessita de tornar efetivo o seu domínio no importante quinhão que lhe veio a caber na partilha do continente negro.
Não é isso tarefa fácil para quem possui 2.126.110 km2 de terras avassaladas, mas, acusem embora de otimismo a conclusão desta conferência, não é justo descoroçoar da energia e do esforço dos que quase um século dominaram o mundo asiático, e apesar da decadência e dos reveses, souberam colonizar o Brasil.”


Para o investigador tem interesse consultar os apêndices que o orador juntou, como é o caso do mapa da divisão política do continente africano, onde se indica a área e a população dos Estados Indígenas Independentes e das colónias e esferas da independência europeia. O orador cita os números apresentados pelo Capitão-Tenente da Armada Ernesto Vasconcelos no que ele escreveu sobre as colónias africanas, onde erradamente atribui à Guiné uma superfície de 11.384 km2.

Retrato pertencente à Coleção da Sociedade de Geografia de Lisboa
Obra do Conde de Penha Garcia, 1931
Imagem da Conferência de Berlim, o chanceler alemão cumprimenta um dos delegados, a delegação turca está à direita
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Notas do editor:

Vd. post de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Enfronhado na leitura de Portugal em África depois de 1851, do Marquês do Lavradio, ensaio injustamente esquecido, pode compreender-se por se apresentar como extremamente incómodo às teses do Estado Novo perante todo o processo da descolonização desencadeado após a II Guerra Mundial, vasculhando nos escritor no fim do século XIX, dei com o texto desta conferência do Conde de Penha Garcia que vem trazer munição ao encontro do que escreve o Marquês do Lavradio. Dividi o texto em duas partes, o quadro geral do que precede a Conferência de Berlim, o seu conteúdo e consequências constituirá a segunda parte. Deste resumo que agora apresento ao leitor acho muito estranho não haver menção às expedições e viagens entre o norte e o centro de África em todo o período medieval, a islamização não apareceu por geração espontânea e há relatos preciosos de viajantes árabes que foram, por exemplo, até Tombuctu. Creio tratar-se de um preconceito ignorar essas fontes de conhecimento. E reconheço o grande mérito deste Conferência do Conde de Penha Garcia que trata minuciosamente o conjunto de viagens da costa à contracosta e no interior africano, sem consequências para a presença portuguesa, não tínhamos nem recursos humanos nem financeiros para estar num espaço de dimensões gigantescas.

Um abraço do
Mário



A partilha de África segundo o Conde de Penha Garcia - 1

Mário Beja Santos

Muito antes de estar na presidência da Sociedade de Geografia de Lisboa, o Conde de Penha Garcia, José Capelo Franco Frazão, que recebeu o título nobiliárquico no reinado de D. Carlos, várias vezes deputado na monarquia, Ministro da Fazenda, adepto de João Franco, com duelo travado com Afonso Costa, licenciado em Direito, tendo vivido em exílio no advento da República, regressado a Portugal com o 28 de maio, presidiu à Escola Superior Colonial, desportista na esgrima e no tiro, colaborador na Exposição Internacional de Paris para a qual escreveu o livro sobre as colónias portuguesas, em 1931, proferiu uma conferência na Sociedade de Geografia em 1896, brochura publicada em Lisboa em 1901.

É um texto de inegável interesse, penso que poderá funcionar como elemento complementar a uma obra que classifico como muito importante sobre a presença portuguesa em África, da autoria do Marquês do Lavradio, recensão que também pus à disposição dos meus confrades. Vejamos a argumentação expendida por este monárquico conservador, um indiscutível investigador colonial.

Começa por nos dizer que um determinado número de nações europeias, cujos interesses se achavam mais ou menos vinculados ao continente africano, partilharam entre si o continente africano com a mesma simplicidade com que uns camponeses partilham entre si umas jeiras de terreno. Portugal, ligado ao continente africano por interesses de quase 500 anos, não podia assistir indiferente às múltiplas transformações que se estavam a viver em África. Em seu entender, seria esta a missão portuguesa: “Explorar e melhorar as terras africanas onde tremula o glorioso pendão das quinas; abrir ao mundo culto as regiões ubérrimas aonde chega a nossa influência; fixar e civilizar as raças indígenas sob a nossa proteção; povoar as regiões habitáveis pelo europeu, oferecendo um novo campo de expansão à nossa raça.”

Para tal desiderato, era indispensável a instrução e educação da opinião pública, pois será esta, instruída e elucidada, que se encarregará de manter a orientação da nossa política mundial. E comenta que a Sociedade de Geografia de Lisboa tem nesse domínio cometido uma ação perseverante. Seguidamente, traçou na sua exposição um esboço da vida política africana desde os tempos antigos até ao presente (1890), acentuando a nossa ação na história do continente africano; analisou depois a situação criada pela Conferência de Berlim, historiando a partilha de África; a sua conferência terminará com a dedução de alguns princípios gerais que, no seu entender, devem orientar a nossa política cultural africana.

Começando pela dissertação histórica de África, dirá que dos povos aborígenes apenas os Egípcios e os Abexins fundaram civilizações estáveis e que quanto às raças do centro e do sul do continente elas não têm história. A tradição conserva-nos a memórias de algumas migrações efetuadas para Este ou para Sul. Assim, no Congo, aos Ambundos veio sobrepor-se pela invasão dos Manicongos, vindos do centro; e depois da nossa entrada em África a dos Jaggas, originários do Quilimanjaro. O Congo, o Monomotapa, o Wolof e vários Estados centrais que ainda hoje existem, possuíram uma civilização rudimentar. Pode dizer-se que a história política de África tão antiga como o mundo reduz-se, de facto, à história da invasão e domínio das raças invasoras.

O conferencista analisa os acontecimentos históricos do norte de África, elenca os gregos, os romanos, os fenícios, os vândalos, o império romano do oriente, por fim os árabes. E comenta: “A civilização árabe marca um grande progresso sobre o estado das raças negras fetichistas; no entanto, dado que a sua ação religiosa constitui um elemento perturbador, nocivo em geral à marcha progressiva dos europeus, há que a conter.” Segue-se uma narrativa sobre o ciclo dos descobrimentos portugueses, desde as expedições henriquinas até à chegada ao Extremo Oriente, referindo as exposições através de África. Não se esquece de dizer que nos séculos XVII e XVIII se interrompeu por longos períodos a obra de penetração e exploração, não deixando de elencar um conjunto de expedições onde não falta a viagem à contracosta de Serpa Pinto e Capelo e Ivens.

E tece a consideração de que a regra que presidiu à nossa política colonial era o exclusivismo, o monopólio. Só em 1642 é que aos nacionais se franqueou o comércio da Índia, com exceção da canela. E não deixa de comentar que uma causa viciou a nossa política africana, a sinistra trilogia de ouro, escravos e marfim. O tráfico dos escravos foi pernicioso para a nossa política ultramarina, como Acúrsio das Neves fez notar, dizendo que este tráfico negreiro era a fonte mais segura dos rendimentos da Coroa. Só em 1836 abolimos o tráfico negreiro e só em 1869 se extinguiu a escravidão.

Estamos agora no quadro explicativo do que precede a Conferência de Berlim. A concorrência estrangeira em África acentua-se a partir da segunda metade do século XVI. No começo do século XIX apenas a Turquia, Portugal, a Inglaterra e a França possuíam colónias ou suseranias de uma certa importância do continente negro. Até aos primeiros anos do último quartel do século XIX a luta comercial não tomou um carácter excessivamente agudo; mas a Inglaterra ia avançando lentamente para o interior das suas colónias do Cabo, a França conquistara a Argélia e avançava pelo alto Senegal, pretendendo abrir caminho para o Sudão e estendeu a sua influência sobre Madagáscar; Lesseps abriu o canal do Suez. A expedição de Bonaparte ao Egipto inaugurou uma nova época de explorações científicas e comerciais. África passou a ser cruzada em todas as direções.

Paulatinamente, o continente africano foi ganhando um novo olhar sociopolítico e económico: a supressão do tráfico da escravatura, o excesso de produção das indústrias europeias, as novas descobertas mecânicas, a expansão da população na maioria dos países europeus, a necessidade de matérias-primas, deu a África um novo valor. Espanha, França e a Alemanha procuraram estabelecer o seu domínio em vários pontos da costa africana. Começou a falar-se repetidamente numa política de ocupação. A Conferência de Bruxelas de 1876 veio desencadear uma inusitada concorrência que veio conduzir à partilha de África.

A Conferência tem na sua génese a criação da Associação Internacional Africana, com sede em Bruxelas, a sua finalidade principal era a de abrir ao mundo culto os caminhos dos sertões africanos (em boa verdade, era o pretexto oficial apresentado pelo rei Leopoldo que cobiçava toda a região do Congo). Estamos numa época de expedições no centro e no sul de África. A travessia de Stanley deu origem a novos projetos e criou-se a Comissão de Estudos do Alto Congo, estava preparada a munição para que a Associação Internacional Africana entrasse diretamente em colisão com os interesses portugueses. Será esta questão do Congo o bom pretexto para que Bismarck prepare uma conferência em Berlim para tratar da partilha de África, que decorreu de 1884 e se prolongou até fevereiro de 1885.

Retrato pertencente à Coleção da Sociedade de Geografia de Lisboa
Obra do Conde de Penha Garcia, 1931
Imagem da Conferência de Berlim, o chanceler alemão cumprimenta um dos delegados, a delegação turca está à direita

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 13 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27865: Agenda Cultural (886): A Sociedade de Geografia de Lisboa vai promover uma Conferência (em formato híbrido) promovida pela Secção de Antropologia, no próximo dia 17 abril de 2026 pelas 14h45, no Auditório Adriano Moreira, intitulada: “República da Guiné-Bissau: entre narrativas dedicadas à luta da libertação e aos dias de hoje”


O Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa tem a honra de Convidar V. Ex.ª a assistir à Conferência (em formato híbrido) promovida pela Secção de Antropologia, que se realiza no próximo dia 17 abril de 2026 pelas 14h45, no Auditório Adriano Moreira, intitulada:

“República da Guiné-Bissau: entre narrativas dedicadas à luta da libertação e aos dias de hoje”.

Será oradora a Prof.ª Doutora Catarina Casanova.

Ingressar na reunião Zoom

https://us06web.zoom.us/j/81969866566?pwd=nn9ia0nfige7e4u1Q5tiOPuz6j5qeS.1

ID da reunião: 819 6986 6566 - Senha: 335512

Sociedade de Geografia de Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 100
1150-208 Lisboa - Portugal
213425401 - 935425401
www.socgeografialisboa.pt



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Nota do editor

Último post da série de 23 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27849: Agenda Cultural (885): Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia e Tribunal da Relação), Porto: Exposição temporária: "África Vista por Duas Gerações (1938-1995) | Ernst Schade e Carol Alexander Schade, de 07.03 a 28.06.2026. Entrada livre

quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27687: Notas de leitura (1890): Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Sempre me deu que pensar não haver trabalho de investigação com base no levantamento dos jornais de caserna que foram publicados por um bom número de unidades; e este ensaio de José Júlio Gonçalves, datado até 1965, faz-nos entender que houve um elevado número de boletins e até de jornais de curta duração, como é evidente fruto do desinteresse cultural que se saldava na escassez de leitores e, curiosamente, há um período do Boletim Oficial que assume proporções de um verdadeiro jornal, como tenho procurado inventariar neste trabalho que está em fase de conclusão de um século de Boletim Oficial. Bom seria que as instâncias universitárias se interessassem por estas matérias.

Um abraço do
Mário



Apontamentos para a história contemporânea da informação na Guiné Portuguesa

Mário Beja Santos

Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa encontra-se um volume intitulado Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, curso de extensão universitária, ano letivo de 1965-66, Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina. No volume consta um artigo assinado por José Júlio Gonçalves, professor catedrático da Instituição e mais tarde responsável pela Universidade Moderna, com o título A informação na Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (achegas para o seu estudo).

O ensaio do José Júlio Gonçalves tem um prólogo que vai desde a política do Infante D. Henrique até ao século XIX, é este o período que vou procurar sumular, recordando ao leitor que, tanto quanto eu saiba, não há nenhum levantamento exaustivo e crítico que incida sobre a imprensa e a informações geral que abarque o período colonial.

A introdução da tipografia na Guiné Portuguesa deu-se em 1879, a Guiné estava autonomizada, tinha capital em Bolama, e punha-se a publicação do Boletim Oficial, seus suplementos e apensos. Observa o autor que durante algumas décadas o Boletim Oficial da Guiné andou atrasado, não observando a periodicidade que lhe fora fixada por via legislativa. A situação irá mudar a partir de 1946, durante a governação de Sarmento Rodrigues.

A primeira publicação não-oficial impressa na Guiné foi um número único de A Fraternidade, editado em 30 de outubro de 1883 e que vai aparecer no Boletim Oficial. Tratava-se de uma folha de solidariedade dedicada à recolha de fundos destinados a socorrer as vítimas da estiagem que se estava a viver em Cabo Verde.

Em meados de 1924 começou a circular em Bolama o Jornal Pró-Guiné, órgão do Partido Republicano Democrático, vieram ao lume dez números. Vem a propósito referir que em 1918 fora indeferido pelo Governador o requerimento em que se pedia autorização para publicar um periódico com o título de Jornal da Guiné. Em 1925 iniciou-se em Bissau a publicação do Boletim dos Correios e Telégrafos, que teve curta duração. Em 1930, apareceu em Bissau, pela mão de Manuel Pereira Manso, a primeira tipografia particular, o que deu origem à publicação de um jornal da iniciativa privada; assim, apareceu entre 1930 e 1931 o jornal Comércio da Guiné, um órgão declaradamente vinculado aos interesses económicos. Em 1932, a Missão Católica de Bolama publicou um número único, denominado 15 de Agosto. Seguem-se outras iniciativas como publicações episódicas, até que em 1942 temos o aparecimento de o Arauto, o primeiro diário guineense, jornal católico, sucessivamente boletim, diário e semanário (policopiado) e depois mensário (impresso).

Em 1946, o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa publicou o primeiro número do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, que continua a ser uma publicação de referência para a investigação histórica. Em 1956, por iniciativa da Comissão Municipal de Bolama, deu-se início à impressão do quinzenário Bolamense, publicação que se interrompeu m 1963. Na década de 1950 surgiram outros boletins, caso de Ecos da Guiné – Boletim de Informação e Estatística, o Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné e o Boletim da União Desportiva Internacional de Bissau.

Recorda o autor que o protestantismo teve as suas publicações periódicas e meios de comunicação social não periódicos. A Missão Evangélica da Guiné Portuguesa teve em Bissau a livraria Victória, que fazia a distribuição das publicações periódicas e não periódicas protestantes. Importa recordar que temos ainda os jornais de caserna editados pelas forças militares, o autor faz uma relação do que certamente lhe chegou ao conhecimento até à data da finalização do seu ensaio.

Também faz uma alusão aos jornais escolares impressos e de parede. Um ponto no mínimo muito curioso passa pela referência às publicações do PAIGC, o Caderno Escolar e O Nosso Primeiro Livro de Leitura, o que deixa surpreso o autor é tudo ser redigido em português. Para finalizar a súmula deste trabalho de José Júlio Gonçalves importa dizer que há referências ao cinema, à rádio e chama-se a atenção do leitor par ao número impressionante de cartas e aerogramas chegados em 1964, cerca de 300 000.

Como tive oportunidade de referir a propósito do Boletim da Associação Comercial Industrial e Agrícola da Guiné, toda esta documentação, mais tarde ou mais cedo terá de entrar no campo das pesquisas dos investigadores, um tanto à semelhança da investigação escrutinada do Boletim Oficial, são ferramentas auxiliares que nos ajudam a percecionar o quadro de mentalidades naquele tempo histórico da informação impressa, radiodifundida, as mensagens essenciais dos jornais de parede e até o estado de espírito daqueles muitos jornais de caserna que ainda estão por repertoriar.

Reprodução de uma página do caderno escola do PAIGC, tempos da luta armada
Primeira página de um jornal de caserna
Do tempo em que o Arauto era boletim diário
Uma só folha, dedicada à angariação de fundos para apoiar os cabo-verdianos vítimas da seca
Mais uma primeira página de um jornal de caserna
Porventura o último jornal da Guiné Portuguesa
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Nota do editor

Último post da série de 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27673: Notas de leitura (1889): "Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa", por Albano Dias da Costa; primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional, 2022 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27449: Notas de leitura (1865): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
São três volumes que incorporam Boletins de formato minguado que vão de 1958 a 1966, estamos no ano da eleição de Américo Tomás para o seu primeiro mandato e a vizinha Guiné Conacri é um país independente. Ao tempo, a Associação Comercial Industrial e Agrícola de Bissau congregava 648 associados, recebera um impulso do Governador Silva Tavares para ter uma sede com uma certa dignidade e a quotização anual atingia os 325 contos. Desde 1951 que se previa a publicação do Boletim, teriam faltado os recursos. Mas 1958 é também o ano em que se começou a andar à procura de alumínio em Buba e em Madina de Boé, o Ministro do Ultramar, Raúl Ventura, negociou uma concessão para a prospeção de carbonetos e foi assim que nasceu a Esso Exploration Guiné. Veremos adiante que a Associação temia consequências gravosas com a chegada de gente com maior poder de compra, como estava a acontecer em todas as regiões onde se iniciavam explorações petrolíferas. E escreve-se mesmo: "A verdade é que enquanto a economia da Guiné vaziar na produção de oleaginosas para exportação, não será possível melhorar as condições materiais dos seus habitantes, pelo que será de recear um aumento do custo de vida sem o necessário aumento do poder de compra da população, o que, em última análise equivaleria a um empobrecimento geral desta Província."

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné - 1

Mário Beja Santos

Na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa chamaram-me à atenção para três volumes que contém Boletins desta Associação, de 1958 a 1966, não é a primeira vez que se fala desta publicação iniciada em 1958, não consigo por enquanto encontrar data em que teve o seu último número, tenho de bater à porta da Biblioteca Nacional.

Temos aqui nove anos de uma publicação declaradamente favorável ao Estado Novo, representativa dos interesses económicos instalados na Província da Guiné. Logo no primeiro número, o Presidente da Direção, Fernando S. Correia, refere que esta publicação corresponde a uma velha aspiração:
“A antiga Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Bissau foi fundada em 1917 passou a denominar-se, desde 1951, Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné; o seu principal dever é a instigação e alargamento de todas as atividades fomentadoras da Guiné.
Os Estatutos da Associação, datados de 1951, preveem a publicação do Boletim, destinado a divulgar os atos da sua vida associativa e a registar todas as informações, notícias e estatísticas que interessem conhecer, e bem assim quaisquer estudos que digam respeito às atividades de fomento da Província.”


E mais refere que tinham sido as dificuldades de ordem financeira que até agora tinham impedido esta realização. Devia-se ao atual Governador, Silva Tavares, o apoio para que estes 648 sócios comerciantes, industriais e agricultores, pudessem dispor de uma sede condigna, arrecadando agora a Associação uma quotização de 320 contos. Espera-se que o Boletim venha a registar trabalhos que digam respeito às atividades de fomento da Província e abrem-se as portas às repartições públicas para cooperarem com informações e artigos.

Inevitavelmente, um tema fulcral que veio logo a ser tratado foi a Guiné na hora do petróleo. Procura-se logo no primeiro número fazer uma súmula dos acontecimentos:
“Em 1956, em regime experimental, foi a firma holandesa N. V. Biliton Maatschappij superiormente a pesquisar minérios de alumínio em determinada zona desta Província.
A referida firma, em fevereiro daquele ano, enviou para tal fim à Guiné uma expedição mineira, chefiada por um geólogo de nacionalidade alemã, que iniciou a sua atividade em dezembro do mesmo ano, na região de Buba, na Circunscrição de Fulacunda.
Não dispomos de elementos que nos deem a conhecer o resultado dos trabalhos ali realizados, mas o abandono daquela região após poucos dias de permanência nela da expedição é sintoma evidente de que não foi brilhante ou, pelo menos que, se a existência do referido minério na região de Buba é um facto, ele não é economicamente explorável.

Em princípios de janeiro de 1957 passou a expedição para a região de Boé, da circunscrição de Gabu, onde estabeleceu acampamento na povoação de Madina. Mais tarde, isto é, em 7 de março de 1957, em virtude da publicação do Decreto n.º 40.987, foi, entre o Governo português e a referida firma holandesa, celebrado um contrato concedendo a uma companhia, que a mesma firma viesse a constituir, o direito exclusivo sobre pesquisas de minério de alumínio, na Guiné e em Angola. A companhia a que alude o Decreto acima referido foi constituída por escritura de 16 de agosto de 1957, com a denominação de Companhia Lusitana do Alumínio da Guiné e Angola. Durante a primeira fase dos trabalhos a N. V. Biliton Maatschappij foi aqui representada pela conceituada firma comercial desta Praça, Nunes & Irmão. Veio a época das chuvas, o pessoal estrangeiro seguiu para Angola onde permaneceu até outubro de 1957. A representação da companhia passou para o Administrador de Circunscrição aposentado Luís Correia Garcia. Em fins de outubro a expedição regressou à Guiné, mas em virtude das cheias do Corubal os trabalhos só recomeçaram passados seis meses.

Nada sabemos quanto ao resultado dos trabalhos levados a efeito em Angola, como nada sabemos de positivo quanto aos que vêm sendo realizados na Guiné.
Oxalá os portos da Companhia Lusitana do Alumínio da Guiné e Angola sejam coroados de êxito, porque sob o ponto de vista industrial a Guiné ainda está tentando os primeiros passos.”


E noticiava-se também que estava a percorrer a Guiné uma missão de técnicos que ao serviço de uma firma alemã tinha vindo proceder a estudos sobre as possibilidades de existirem no território jazigos petrolíferos.

No número seguinte do Boletim, avançam-se mais elementos. O Ministro do Ultramar, Raul Ventura, tinha referido em Conselho de Ministros que havia a possibilidade de uma concessão de pesquisas e exploração de petróleo na Guiné. Tinham surgido várias entidades a manifestarem grande interesse sobre as possibilidades da obtenção de petróleo em várias províncias ultramarinas – em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Timor e em São Tomé. Em sequência, publicaram-se dois Decretos pelos quais se estabeleceram os chamados direitos de concessão a pagar pelo concessionário, bem como o imposto de rendimento sobre os petróleos. Desses diplomas se fixaram com todo o rigor quais são as deduções que se podem fazer para encontrar o rendimento líquido. Tinham aparecido dois cidadãos portugueses a requerer ao Ministério a concessão de quase todo o território da Guiné para pesquisarem e explorarem petróleo. O Ministro despachou no sentido de que, tratando-se de petróleo, era indispensável fazer prova da sua capacidade técnica e financeira, que não chegou a ser feita. Apareceram outros concorrentes: uma sociedade francesa, companhias de várias nacionalidades como a Mobil, Texas, Standard de Nova Jérsia, Gulf Oil Corporation, a British Petroleum e duas empresas alemãs.

Houve conversações com os representantes destas companhias e pediu-se-lhes que dessem a conhecer as suas propostas. Acabou por ser selecionada a Standard Oil Corporation, mas os outros concorrentes foram avisados que caso não se chegasse a um acordo final com a Standard, em qualquer altura podia ser feito com uma outra. É nesse contexto que foi publicado o Decreto n.º 41.537, de 26 de fevereiro.

Este Decreto estabelece que uma sociedade que se chamará Esso Exploration Guiné Incorporated, que está constituída propositadamente para esse efeito nos EUA, fará contrato com o Ministério do Ultramar para a concessão do direito de pesquisas e de exploração. Trata-se de uma sociedade norte americana, mas uma condição que logo no início foi posta a todas as companhias é que o Governo não dá uma concessão a uma sociedade estrangeira; só dará a uma sociedade portuguesa o que significa que a Esso Exploration Guiné terá que se transformar, no prazo de seis meses, numa sociedade portuguesa. O máximo da representação que se poderia dar a investimentos portugueses seria de 20%; a Esso Exploration Guiné terá 20% do capital português, inteiramente gratuito e será entregue à Província da Guiné dentro de seis meses a partir da assinatura do contrato. O conselho de administração deverá ter maioria de membros portugueses e o seu presidente terá de ser também português.

Continuaremos a tratar deste número e de outros no próximo número.

O Governo português concede à Esso Exploration Guiné a prospeção de petróleo, entre outros carbonetos, fevereiro de 1958
Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné
(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27435: Notas de leitura (1864): "Atlas Histórico do 25 de Abril", por José Matos; Guerra e Paz, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27421: Notas de leitura (1863): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
No final desta digressão, pode dizer-se sem nenhuma tibieza que este exercício coletivo de investigação sobre o Património Histórico e Cultural de Lisboa cruzado com uma vastidão de ramificações com a história colonial e imperial portuguesa foi a bom porto. Quanto a vastidão e ramificações houve bastante acerto na escolha dos espaços, dos atores, das instituições e na pluralidade de reverberações contemporâneas. Viajámos desde o Arquivo Histórico Ultramarino até à Sociedade de Geografia de Lisboa; indagaram-se nomes de ruas, entidades bancárias, estatuária, museus, palácios, tomou-se conhecimento do seu papel no passado e como podem ser cruciais para melhor entender o que a memória colonial representa na sociedade portuguesa, já que hoje não se pratica uma investigação ou uma historiografia da grandeza imperial, o que se pretende interrogar é a linha histórica de Portugal e o desempenho nevrálgico que tiveram os tempos imperiais - porque eles repercutem-se no tempo presente.

Um abraço do
Mário



Império e colonialismo: reverberações na Lisboa atual - 6

Mário Beja Santos

Ecos Coloniais resulta de um exercício coletivo de investigação sobre o património histórico e cultural, aqui se interrogam instituições, entidades, monumentos, obras de arte, palácios onde se interseccionam a história colonial e imperial portuguesa, do passado ao presente, edição ilustrada com fotografias de Pedro Medeiros e o acervo de textos tem a coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto, edição Tinta-da-China 2022. Logo na introdução, os organizadores referem que este levantamento é uma obra consciente e que há muito por investigar e por saber, importa evitar generalidades e simplismos mobilizadores para escapar aos engenheiros e empreendedores da “história” e da “memória”.

Este será o último texto que dedicaremos a esta obra, falaremos do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, do político e poeta angolano Viriato da Cruz e da Sociedade de Geografia de Lisboa. No site Lisbon Rio, escreve Cláudia Castelo a propósito da Rua Gilberto Freyre:
“A proposta de atribuição do nome Gilberto Freyre a uma rua de Lisboa foi apresentada pelo jornalista e olisipógrafo Appio Sottomayor e por José Esteves Pereira, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e aprovada pela Comissão Municipal de Toponímia na sessão de 16 de Novembro de 2001. A rua Gilberto Freyre situa-se entre a rua Jorge Amado e a avenida Vergílio Ferreira, no Bairro do Armador (freguesia de Marvila), um bairro de habitação económica de promoção pública municipal e cooperativa, que começou a ser edificado no final dos anos de 1990 na antiga zona “M” de Chelas. Destinado a realojamento de famílias de bairros precários, acolheu pessoas de diversos grupos étnicos".

Segundo o site Toponímia Lisboa, a inscrição do nome do cientista social brasileiro no espaço urbano lisboeta deveu-se ao facto de Freyre ter criado o luso-tropicalismo. Em traços gerais, trata-se de uma doutrina assente numa leitura essencialista do carácter português, que postula que o povo português tem uma especial capacidade para se adaptar aos trópicos, por uma relação de amor e não de interesse, fruto das suas origens étnicas remotas entre a Europa e a África, e do convívio com mouros e judeus na Península Ibérica medieval. Nenhuma referência é feita à apropriação das ideias de Freyre pela ditadura do Estado Novo, a partir da década de 1950, para fazer frente ao crescente anticolonialismo internacional e ao surgimento de movimentos de libertação em Angola, Guiné e Moçambique.

 A criação no espaço da cidade de um lugar de memória em torno do criador do luso-tropicalismo revela a persistência pós-colonial de um discurso sobre a suposta excecionalidade da colonização portuguesa e o suposto não-racismo inato dos portugueses, com ressonâncias num largo espectro político-partidário, mas sem bases históricas e sociológicas. A mesma autora faz uma reflexão sobre a obra de Gilberto Freyre em Ecos Coloniais. No ensino universitário, Freyre era estudado sobretudo pela sua interpretação da história e da identidade nacional brasileira, patente na sua mais aclamada obra, Casa Grande & Sanzala, que teve primeira edição no Rio de Janeiro em 1933. “Ao abordar as relações entre os senhores portugueses, os escravos negros e os povos indígenas do território durante o período colonial, celebrou a miscigenação e exaltou o contributo dos africanos e ameríndios para a formação do Brasil. Inicialmente, este livro não foi bem acolhido pelos ideólogos do Estado Novo, a preferência era para a fundação de Portugal pela reconquista cristã. Mas Freyre passou a ser visto de outra maneira face ao anticolonialismo internacional. A reflexão e a discussão da sua obra continuam a ser atuais.

Viriato da Cruz criou o Partido Comunista Angolano, envolvendo-se com vários grupos anticoloniais, antes de partir para Lisboa em 1957. É aqui que vai estabelecer contactos com Amílcar Cabral e também com outras figuras da história da política angolana recente, caso de Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara. Sentindo-se frustrado pelo facto de o Partido Comunista Português não ter apreciado a ousadia da criação de um partido congénere sem autorização prévia, Viriato da Cruz irá passar a sua vida no exílio. Estará presente em Tunes na II Conferência de Solidariedade dos Povos Africanos, terá sido aqui que pela primeira vez se pronunciou o nome do MPLA, à semelhança do PAI, nome que se transformará em PAIGC. Entrará em oposição à nova direção do MPLA, esta favorável à posição soviética, ele favorável à posição chinesa. “Essas divergências irão manifestar-se de forma cristalina na história de luta da libertação angolana e da guerra civil que se lhe seguiu, com a União Soviética e a China a patrocinarem diplomática e militarmente movimentos nacionalistas rivais.”

Viriato da Cruz parte para a China, será testemunha de todo o processo da Revolução Cultural, trabalhando para o bureau dos escritores afro-asiáticos. Até à sua morte, em 1973, viverá numa quase reclusão. Porquê o seu nome em Corroios, concelho do Seixal? Se o seu nome é sobejamente conhecido em determinados círculos políticos, é praticamente ignorado mesmo na colónia de imigrantes angolanos. “Viriato da Cruz deu-nos a visão de um projeto diferente de organização social e política. Participou em processos que nalguns aspetos foram libertadores, noutros, brutais. É na sua globalidade que Viriato da Cruz se torna ator de pleno direito da história portuguesa.”

Fechamos esta viagem com chave de ouro. A Sociedade de Geografia de Lisboa foi criada a 10 de dezembro de 1875. É uma das organizações mais frequentemente associadas À formulação, institucionalização e disseminação de um pensamento colonial em Portugal e no Império. Há que concordar com o autor do texto quando ele diz que a ação da Sociedade de Geografia esteve associada, direta ou indiretamente, a inúmeras atividades que contribuíram para o enraizamento de uma expressão duradoura de nacionalismo imperial em Portugal. Não se pode entender a formação do chamado Terceiro Império Português sem a atividade, ao longo de décadas, dos sócios que apresentaram aos poderes políticos argumentos e propostas de peso, promoveu-se inclusivamente na Sociedade de Geografia a Escola Colonial, havia que formar uma administração específica, pôr este funcionalismo a conhecer as línguas nativas, incluindo as do Oriente. A Sociedade promoveu e financiou expedições a África, cujas figuras mais destacadas foram Ivens, Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo. Uma das grandes preocupações destes associados era a missão civilizadora, elaboraram-se inúmeros argumentários em defesa dos chamados “Direitos Históricos” de Portugal.

Como é evidente, a alavanca das primeiras décadas tinha como pano de fundo as exigências postas pela Conferência de Berlim de 1884-85 – para ter colónias havia que as ocupar, civilizar, desenvolver, conhecê-las aprofundadamente. E foi assim que se foram formando coleções – de arte, etnográficas, numismáticas, científicas. Criou-se uma Comissão Africana, o departamento mais ativo da Sociedade, pôs-se de pé o Boletim, tornou-se uma publicação regular em 1880, aqui se publicavam informações culturais, económicas, relatórios, o trabalho das missões religiosas, dava-se conhecimento da expansão dos caminhos-de-ferro, do conhecimento e do gráfico e cartográfico.

A vida da Sociedade de Geografia foi-se constituindo, depois do 28 de maio de 1926, paredes meias com os ideais do Estado Novo, tal como tinha aparecido irmanada com a propaganda e os desígnios da Monarquia Constitucional e a Primeira República. Direi que é extremamente difícil estudar sobretudo o Terceiro Império sem conhecer o impressionante acervo documental da Sociedade de Geografia. Com o distanciamento dado por meio século de democracia, é também necessário compreender como esta instituição moldou a história e memórias coloniais. Os seus associados podiam ser políticos do regime, funcionários da administração colonial, militares no ativo ou reformados, investigadores… vamos encontrar o que fizeram ou pretenderam fazer em artigos do Boletim, na inúmera documentação depositada nos Reservados, na caterva de obras de grandes ou pequenas edições, trazidas de todas as partes do Império e que por vezes não chegaram à Biblioteca Nacional ou não foram depositadas no Arquivo Histórico Ultramarino.

Falando por mim não me imagino a investigar a História da Guiné sem estar sentado nas amplas instalações de uma biblioteca que infelizmente não é tão silenciosa como devia ser, devido ao alarido que tem do Teatro Politeama.

Rua Gilberto Freyre, no Bairro do Armador, Marvila
Imagem da viagem de Gilberto Freyre à Angola
Imagem de Viriato da Cruz
Imagem da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa
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Nota do editor

Vd. post de 7 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27397: Notas de leitura (1860): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27408: Notas de leitura (1862): "Atlas Histórico do 25 de Abril", por José Matos; Guerra e Paz, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27370: Notas de leitura (1857): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
A obra Ecos Coloniais é um exercício coletivo, os investigadores debruçaram-se sobre espaços, atores, instituições e símbolos em Lisboa que revelam a diversidade de reverberações contemporâneas do nosso período imperial e colonial. Inequivocamente, a vastidão destas memórias espalha-se por arquivos, instituições bancárias, esculturas singulares ou em monumentos, museus, palácios, ruas, acervos naturalmente ligados à história do império e da vida colonial, como é o caso da Sociedade de Geografia de Lisboa. Como escreve o historiador Miguel Bandeira Jerónimo, "Pensar seriamente os legados contemporâneos do colonialismo e, em parte, interrogá-los de forma sustentada e multifacetada, implica estender o escrutínio histórico aos momentos posteriores à abolição". É o que aqui fazemos, de forma muito resumida, convidando o leitor mais interessado a debruçar-se na leitura integral desta obra.

Um abraço do
Mário


Império e colonialismo: reverberações na Lisboa atual - 4

Mário Beja Santos

Ecos Coloniais resulta de um exercício coletivo de investigação sobre o património histórico e cultural, aqui se interrogam instituições, entidades, monumentos, obras de arte, palácios onde se interseccionam a história colonial e imperial portuguesa, do passado ao presente, edição ilustrada com fotografias de Pedro Medeiros e o acervo de textos tem a coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto, edição Tinta-da-China 2022. Logo na introdução, os organizadores referem que este levantamento é uma obra consciente e que há muito por investigar e por saber, importa evitar generalidades e simplismos mobilizadores para escapar aos engenheiros e empreendedores da “história” e da “memória”.

A que propósito nesta viagem nos devemos deter diante do quadro “Os Pretos de Serpa Pinto”, de Miguel Ângelo Lupi? Lupi celebrizou-se na pintura de retrato e foi professor na Academia de Belas-Artes de Lisboa. Passou por Luanda entre 1851 e 1853, nesse período realizou um conjunto de desenhos a lápis, giz branco e aguada que representam costumes locais, paisagens ou monumentos que analisam a presença portuguesa no território. No seu livro Como eu atravessei África (1881), Serpa Pinto refere Catraio e Mariana, esta possivelmente mulher dele. Serpa Pinto deu incumbências de responsabilidade a Catraio. Analisando este quadro que ficou incompleto, vê-se que as figuras estabelecem um diálogo visual que exclui o observador; as roupas da figura feminina, os adornos e a cesta surgem como uma espécie de marcadores culturais que reverberam as ligações entre o europeu e o africano, veja-se a utilização de tecidos e colares de missangas como moeda de troca ou presente nos contactos com as sociedades africanas.

Escreve a autora deste texto que a leitura desta pintura convoca a presença do passado na atualidade, permite chamar a atenção, por exemplo, para a estátua do Padre António Vieira erguida em 2017 fronte da igreja de São Roque; neste caso concreto do quadro de Lupi, a presença de duas figuras negras no acervo do museu é uma raridade, mas este material artístico possibilita que a sociedade pode pensar-se a si própria no contexto da sua diversidade e do seu passado histórico.

Viajamos agora para o Palácio Nacional de Sintra, onde trabalharam pessoas escravizadas. No inventário de despesas das obras realizadas em 1784-1787 constam os serviços de 12 homens negros; no final do século XIX, ainda se encontram sinais da presença negra neste Palácio, nomeadamente nas cartas enviadas ao Administrador da Fazenda da Casa Real, onde se fala claramente do serviço de pretos. O sinal mais visível da presença negra é no chamado Jardim da Preta como escrevem as duas autoras, “As peças de vestuário sugerem tratar-se da representação de uma mulher do século XVIII dedicada aos serviços domésticos. Junto dela está a figura de um homem branco, provavelmente um pajem. As duas figuras são particularmente expressivas e encenam um dia a dia marcado pelas desigualdades étnico-raciais e de género, onde a exploração laboral e a violência sexual marcam o quotidiano das mulheres negras e estruturam todo um modo de vida.”

A última itinerância de hoje é até ao Palácio Vale Flor, um edifício que até em determinado momento foi pensado para sede do Conselho de Ministros. Este Palácio e o seu conjunto (as antigas cocheiras, o jardim murado e a chamada Casa do Lago, um pavilhão de estilo oriental) é hoje um hotel de luxo no Alto de Santo Amaro, em Lisboa. O Palácio foi mandado dirigir por José Luís Constantino Dias (1855-1932), um conhecido roceiro de São Tomé e Príncipe. De Murça emigrou para África, em 1871. Ao fim de alguns anos, adquiriu a roça de Bela Vista, quando já explorava a roça Rio de Ouro. Enriqueceu, criou a Sociedade Agrícola de Vale Flor, adquiriu património em Portugal; por via do casamento, privou com a realeza, D. Carlos atribuiu-lhe o título de Visconde, tornando-o Marquês de Vale Flor, em finais de 1907.

O edifício que teve projeto do arquiteto veneziano Nicola Bigaglia, foi obra acabada do arquiteto português José Ferreira da Costa, é hoje Monumento Nacional. Em vida, o Marquês criou a Fundação Vale Flor e a sua viúva criou o Instituto Marquês Vale Flor. O Marquês, observa o autor deste texto, não foi apenas um roceiro, foi também um ator central de uma das atividades mais rentáveis associada aos projetos de expansão e consolidação nacionais. E o autor refere que a primeira década do século XX marcada por intensas e repetidas acusações sobre a existência generalizada de escravatura moderna, citando-se o caso do cacau de São Tomé e Príncipe. A legalização do trabalho forçado sucedera à abolição formal do tráfico de escravos e da escravatura.

Houve internacionalmente boicote ao cacau de São Tomé, o Marquês foi o primeiro subscritor de um documento enviado em 1911 ao Ministro dos Negócios Estrangeiros português pelos “agricultores e outros interessados dos progressos das ilhas de São Tomé e Príncipe”. Aludiram estes subscritores à não veracidade das denúncias, houvera pequenos abusos e factos insignificantes, nada mais. Politicamente, ficou tudo na mesma, só se voltará a falar de São Tomé e Príncipe, em termos de brutalidade colonialista, aquando do massacre de Batepá, no início da década de 1950.

E finaliza o autor dizendo que “Escrutinar os sistemas e as sociedades escravocratas e as suas consequências não é o mesmo que interrogar as formações sociais que lhes sucederam, apesar de ser possível identificar inúmeras continuidades. Mas pensar seriamente os legados contemporâneos do colonialismo e, em parte, interrogá-los de forma sustentada e multifacetada, implica estender o escrutínio histórico aos momentos posteriores à abolição. As formas de dependência, desigualdade, exploração, marginalização e desumanização que lhe sucederam precisam de ser abordadas com o mesmo rigor, entre outras razões por que foram elas que propiciaram a formação histórica de algumas fortunas, a edificação do que é hoje considerado património cultural e histórico em Portugal e, sim, a reprodução de hierarquias sociais, económicas e políticas difíceis de combater, que resistem ao vagar da história, ainda que em circunstâncias diferentes”.

A viagem prossegue na Praça do Império, na rua do Poço dos Negros e na Sociedade de Geografia de Lisboa.

Retrato de Catraio e Mariana, conhecido por "Os pretos de Serpa Pinto", por Miguel Ângelo Lupi, c. 1879

“Excelente exemplar de uma atenção ao pitoresco que não fascinou Lupi, a avaliar pela quantidade de pinturas que realizou dentro do género, mas que aqui tem a particularidade de apresentar dois jovens angolanos, conhecidos por Catraio e Mariana, contratados por Serpa Pinto para o acompanharem na sua viagem de expedição científica à África Central, em 1879. Desempenharam um papel fundamental na concretização desta exploração geográfica, ao evidenciarem importantes cumplicidades, descritas no diário de Serpa Pinto, "Como atravessei África", publicado em 1881. O retrato, provavelmente encomendado por Serpa Pinto, encontrava-se no atelier do autor, em 1883, quando morreu.”

Esta citação foi retirada do site do Museu Nacional de Arte Contemporânea, com a devida vénia.
O explorador Serpa Pinto com alguns homens da sua confiança que o acompanharam do princípio ao fim
O chamado Jardim da Preta no Palácio Nacional de Sintra
Palácio Vale Flor

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 24 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27348: Notas de leitura (1855): "Ecos Coloniais", coordenação de Ana Guardião, Miguel Bandeira Jerónimo e Paulo Peixoto; edição Tinta-da-China 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27357: Notas de leitura (1856): Escritos de médicos que viveram a guerra colonial (Mário Beja Santos)