sábado, 25 de setembro de 2021

Guiné 61/74 - P22571: Os nossos seres, saberes e lazeres (469): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (17): As três pancadas de Molière… Silêncio, o espetáculo vai começar! (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
O acervo do Museu Nacional do Teatro e da Dança é gigantesco (contava em 2011 com 300 mil espécies, seguramente que hoje tem muito mais, doações não faltam), uma museologia e uma museografia de topo asseguram ao visitante um panorama altamente esclarecedor deste espólio enormíssimo: figurinos, muitos deles saídos das mãos de alguns dos nossos maiores artistas; trajes de cena verdadeiramente representativos da história do teatro, estão ali as companhias mais marcantes, exemplares de cenografia, maquetes, retratos, desenhos, caricaturas, recorde-se que a coleção de fotografias do Museu Nacional do Traje é inextinguível (mais de 150 mil espécies), cartazes, equipamentos técnicos. Agora, no piso superior, o visitante tem mostras do Museu da Dança e os investigadores podem ter acesso a uma biblioteca/centro de documentação visto que o museu reúne uma das coleções da bibliografia teatral de maior dimensão do nosso país. É uma esplêndida viagem pelas artes do espetáculo, porque se percorre este museu como se estivéssemos num palco ou num proscénio ou acesso aos bastidores, estão ali peças icónicas como o pastel de Columbano Bordalo Pinheiro que retrata o ator e escritor Augusto Lacerda, a cadeira de Garrett, o órgão de luzes do Teatro Nacional de São Carlos quando ele foi reequipado em 1940, o busto da Amália, indumentária luxuosa, não se pode pedir mais para este espaço do Palácio Monteiro-mor, mas até se tem direito a percorrer o aprazível parque, um dos mais belos oásis de Lisboa.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (17):
As três pancadas de Molière… Silêncio, o espetáculo vai começar! (o teatro é o escaparate de todas as artes, Almada Negreiros dixit)


Mário Beja Santos

Almada teve as suas razões fundadas para dizer que o teatro é o escaparate de todas as artes. Como escreve José Carlos Alvarez no livrinho que dedicou a este museu, Quid Novi Edições, 2011, “Se tomarmos como exemplo a montagem de um espetáculo de Gil Vicente ou de Shakespeare, facilmente observamos que nele estão envolvidos a literatura e a poesia, a dança, a música, as artes plásticas, a fotografia, a arquitetura, para além da carpintaria, da costura, das técnicas de palco, das luzes, etc. A criação de um espetáculo teatral resulta sempre de um trabalho coletivo”. É o resultado desse trabalho coletivo que o Museu Nacional do Teatro e da Dança expõe, de um acervo monumental sempre a crescer, e na posse de um grande arquivo das artes do espetáculo, é a instituição de referência na museologia e na história das artes do espetáculo em Portugal.
O livrinho de José Carlos Alvarez, de preço altamente acessível, desvela ao leitor a heterogeneidade deste acervo: figurinos, trajes de cena, cenografia, desenhos, retratos e caricaturas, postais ilustrados, cartazes, programas e bilhetes, pintura e escultura, música, teatros de papel, peças de mobiliário e teatros, equipamentos técnicos. É um deslumbramento, o visitante está sempre numa cena, há registos sonoros, imagens em movimento e a surpresa é ver a enormidade de talentos portugueses e estrangeiros que contribuíram para a grandiosidade do teatro em Portugal: Leitão de Barros, Tom, Maria Adelaide Lima Cruz, Paulo Ferreira, Bernardo Marques, Mily Possoz, Maria Keil, Lucien Donnat, Octávio Clérigo, António Casimiro, Mário Cesariny, João Vieira, José de Guimarães, Almada Negreiros, Pedro Calapez.
Os núcleos museológicos são impressivos e sugestivos, pense-se nos trajes de cena, nas artes da cenografia, no que nos é mostrado em retrato, desenho ou caricatura. Foi por aqui que começámos.


Vasco Morgado, Busto em Bronze de Martins Correia, exterior do museu
Máquinas de Cena para o espetáculo de rua Romagem de Agravados, de Gil Vicente, apresentado pelos Criadores de Imagens, Caldas da Rainha, 2002, exterior do museu
A Última Ceia dos Polichinelos, Manuel Amado
Cadeiras do velho cineteatro Éden, 1920
Imagem curiosa do Teatro D. Maria II, fim da primeira metade do século XIX, o Rossio era completamente plano

Como o que se mostra é de uma imensa riqueza, é uma profusão cuidadosamente selecionada, se seguirmos as sugestões de José Carlos Alvarez devemos deter-nos em cartazes que falam por mil palavras, cartazes ou programas de espetáculos. Ele selecionou a Mãe Coragem de Bertolt Brecht, em que Amélia Rei Colaço escreveu que foi um sonho que não lhe foi consentido, a Censura não permitia Brecht.
Não deixa de nos impressionar, até porque está em lugar de destaque do primeiro piso, a chamada Carreira de Garrett que, ao que consta, o escritor usava quando assistia a espetáculos no Conservatório. Esteve na sua última casa, na Rua de Santa Isabel. A seguir à sua morte, o rei D. Fernando II comprou-a e levou-a para o Palácio da Pena. A sua segunda mulher, a Condessa d’Edla, convenceu o rei a oferecê-la a Gomes de Amorim, este legou-a ao Conservatório e daqui veio para o museu.


A cadeira de Garrett

Há retratos de divas e de divos e trabalhos de pintores célebres, como o retrato que Columbano fez de Augusto Lacerda, ator, dramaturgo, professor e crítico teatral. Observa José Carlos Alvarez: “A técnica do pastel permite que Columbano se distancie do esquema pictural que carateriza a sua obra retratística a óleo. Por outro lado, o fundo da pintura contrasta com esse esquema porque o pintor optou por uma tonalidade de camurça que o aproxima do da tertúlia da Cervejaria Leão de Ouro, uma mancha branca e difusa envolve e destaca a figura, o traje é esboçado de forma esquemática com um certo sentido de inacabado. No rosto do ator concentra Columbano toda a sua técnica, sobretudo na modelação dos traços, tratados com uma sensibilidade e subtileza que escapam a muitos dos seus retratos a óleo e a sinceridade direta do olhar do ator resulta da simplicidade do traço que aproxima esta obra da prática do desenho”.
A atriz Ilda Stichini (1895-1977)
Retrato do ator e escritor Augusto Lacerda, pastel de Columbano Bordalo Pinheiro, 1889 Há peças iconográficas que seguramente atrairão o visitante: a bengala de Palmira Bastos, os trajes desenhados por Almada Negreiros, as belíssimas maquetes, um espantoso órgão de luzes, mas os trajes de cena são de enorme riqueza, estão dispostos por núcleos, ligados a diferentes companhias, José Carlos Alvarez lembra-nos o Núcleo Paula Rego, um conjunto de cerca de uma dezena de trajes e adereços por ela criados para o bailado “Pra Cá e Pra Lá”, estreado em 1998 pelo Ballet Gulbenkian, no auditório daquela fundação, que representa um dos raros trabalhos da pintora para as artes do palco, aparece integrado numa importante coleção de trajes para ópera e bailado doados pela Gulbenkian. Núcleos não faltam, para além das companhias que fazem história obrigatória no teatro, há os núcleos Amália Rodrigues, Ivone Silva, Filipe La Féria, das atrizes Maria Matos, Laura Alves, Milú, Eunice Muñoz, Luísa Maria Martins e ainda trajes de cena de Carmen Dolores, Maria do Céu Guerra, Companhia Rafael de Oliveira, Leónia Mendes, Lia Gama, Mário Viegas e Paulo Renato.
A gloriosa, a voluptuosa, a sumptuosa indumentária, requintes cénicos do século XIX que chegaram ao século XX
Maquete do Teatro Apolo que ainda conheci no Martim Moniz, em miúdo, antes da terraplanagem daquela imensidão que deu lugar a casebres comerciais
A arte do cartaz, este saído do talento de Fred Kradolfer
Uma peça indispensável no camarim, aqui o ator transmuda-se, a maquilhagem acentua o personagem
Recordo este espetáculo, estive lá na noite em que Maurice Béjart pediu um minuto de silêncio pela morte de Robert Kennedy, “vítima do fascismo e do imperialismo”. A companhia foi imediatamente posta na fronteira, Salazar justificou-se em Conselho de Ministros. Vi Américo Thomaz aplaudir Béjart, mesmo depois de um minuto de silêncio. Coisas da vida.

Para além do percurso pela exposição permanente, o visitante pode deleitar-se com o espaço exterior, esculturas, A Romagem dos Agravados inspirada na obra Tentações de Santo Antão, de Bosch. José Carlos Alvarez recorda que o museu tem uma pequena coleção de bustos de autores e atores dramáticos, de grande valor artístico, criações, por exemplo, de Soares dos Reis, Martins Correia ou Francisco Simões. Que dizer mais? Este museu é de visita obrigatória, está sediado no Palácio do Monteiro-mor na Estrada do Lumiar 10, a entrada é de preço módico e grátis para quem tem o cartão do antigo combatente.

Três imagens do Parque do Monteiro-mor, quem visita o Museu do Teatro ou o Museu do Traje tem direito a este refrigério, vale a pena passar aqui um bom bocado da tarde, trazer um livro ou umas revistas e ouvir o sussurro das águas, é um prazenteiro complemento a quem visita um dos museus

(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22553: Os nossos seres, saberes e lazeres (468): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (9) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P22570: Casos: a verdade sobre... (28): a CCAÇ 1546 e o Mareclino da Mata: uma mentira colossal (Domingos Gonçalves, ex-alf mil inf, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)


Guião da CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887 (Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta
1966/68):


1. Memsagem de Domingos Gonçalves, ex-alf mil inf, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68):

Data - 24 set 2021 16:17


Assunto - CCaç 1546 / Marcelino da Mata


Prezado Luís Graça;

Tomo a liberdade de enviar este pequeno texto, que poderá ser publicado, caso se enquadre nos objectivos editoriais do Blog

A publicação, pelo colega Carlos Silva do livro sobre os "Roncos de Farim", e a não inclusão no mesmo da referência ao recambolesco, despudorado e inventado episódio, da libertação dos homens da companhia de caçadores 1546, presos pelo PAIGC no Senegal, trouxe para a ordem do dia a personalidade do Marcelino da Mata.(*)

Sobre a mentira colossal em causa só posso dizer que a mesma constitui um ultraje para os homens da citada unidade militar, como para a generalidade do exército português. (**)

Com efeito, quer na Guiné, quer em Angola e Moçambique, penso que ninguém apanhou soldados portugueses à mão.

Soldados portugueses aprisionados houve-os sim, em Goa, mas num processo que lhes permitiu uma rendição digna, e um tratamento de acordo a lei internacional



(Lisboa, Oficina do Livro, 2012. 192 pp.)


Claro que a medalha da vida humana tem duas faces. No caso do Marcelino. uma dessas faces está, de facto, vheia de actos valorosos. Mas, infelizmente, a outra face está vazia. Nessa face vazia falta o humanismo, o respeito pelos vencidos, o respeito pelos direitos humanos, pela verdade, etc.

Com tudo isto pretendo só louvar o colega Carlos Silva, que conseguiu manter o rigor dos factos, mantendo o seu trabalho limpo ao não mencionar a façanha em causa, inventada pelo suposto Rambo da Guiné, e que faz parte do muito lixo informativo que circula na internet. 

A designação "O Rambo da Guiné" aparece no livro "Heróis do Ultramar" (de Nuno Castro), onde o Marcelino da Mata, mentindo, descreve essa façanha. (***)

Domingos Gonçalves
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Notas do editor:

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Guiné 61/74 - P22569: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (71): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2021:

Queridos amigos,
A relação de Jules com Noémie é muito estreita, Jules veio bastante deprimido até às suas férias em Lisboa, a visita foi uma verdadeira lavagem da alma e ele descreve à irmã aqueles dias prodigiosos de uma cidade com mais de oito séculos de portugalidade, com os seus bairros típicos a caminho da gentrificação, a preocupação de Paulo de lhe mostrar a cidade e os miradouros, gostou dos museus, das igrejas, adorou os comes e bebes, enterneceu-se com aquela casa pejada de quadros de todos os tamanhos, fotografias espalhadas por todas as divisões, encantou-se com a varanda virada para quintais onde primam flores e árvores de fruto, deliciou-se com os serões, Annette nunca perde oportunidade, é uma cronista assumida, de continuar a escrever os relatos da comissão do Paulo, às vezes há um olhar lacrimejante do protagonista, noutras vezes Annette e Paulo dão gargalhadas, Jules a tudo assiste, sente a ternura que atravessa a vida daquele casal, sente-se parte integrada na felicidade da mãe, como conta a irmã. Esqueceu-se de lhe dizer que foi a primeira viagem, ele ainda não sabe mas regressará muito mais vezes a Lisboa, sempre feliz pelos doces regressos e por ver sempre a sua mãe tão feliz. Também se esqueceu de dizer que tinha prometida uma visita à Feira da Ladra, que ainda não aconteceu.

Um abraço do
Mário



Rua do Eclipse (71): A funda que arremessa para o fundo da memória

Mário Beja Santos

Segunda e última carta de Jules Cantinaux para a mana Noé:

Chère Noé, muito provavelmente irás ler as minhas notícias quando eu já estiver na Bélgica, acordei com uma empresa de La Louvière, três semanas de trabalho em artes gráficas, no entretanto irei estabelecer contato telefónico contigo. No seguimento do que te escrevi, todos aqueles sete dias da minha estadia foram ocupados com os programas que fiz com o Paulo e a mamã. Ele ofereceu-me um livrinho chamando-lhe raridade para bibliófilos, é um livro sobre Lisboa com data de 1940, o autor do texto chama-se Norberto de Araújo e as ilustrações são de Maria Keil, esta conheci-lhe a azulejaria quando andámos no Metropolitano. Paulo ofereceu-me a edição em francês, além de um guia moderno, tem um conjunto de propostas de passeios, como é evidente não percorremos tudo, como te disse na carta anterior, visitei a Sé Catedral, o castelo de S. Jorge, a igreja e o Largo do Menino de Deus, a Graça, uma parte da Mouraria, estivemos num largo muito amplo chamado Campo dos Mártires da Pátria; como também terás visto na carta anterior, demos uma volta pela Madragoa, estivemos no Museu Nacional de Arte Antiga e fomos ao miradouro onde se vê o porto de Lisboa e a outra margem do Tejo. No dia seguinte percorremos Estoril e Cascais, era inevitável passearmos pela zona de Belém, vi no Mosteiro dos Jerónimos um claustro soberbo, passeámos à beira do Tejo e é impressionante o panorama que se avista da Torre de Belém.

Paulo insistia que devíamos voltar ao casco histórico e por isso saímos de manhã cedo e viemos até ao Terreiro do Paço, é um bom hectare de terreno, cercado de construções relativamente homogéneas, o Paulo referiu-me que estiveram ali muitos ministérios e seguimos por uma rua chamada Rua da Alfândega, ele queria mostrar-nos outra preciosidade do que aqui se chama estilo manuelino, um tardo-gótico do reinado de D. Manuel I. Ainda se pensou em voltar a Alfama, onde estivemos no primeiro dia, mas o Paulo queria mostrar outro lado do casco histórico, o Chiado, já estivera no café A Brasileira, agora foi a vez de irmos ao Largo do Carmo, voltámos a subir e entrámos numa igreja de nome São Roque, nunca vira esplendor igual, a mamã estava boquiaberta diante de uma capela chamada de S. João Baptista cujos materiais vieram diretamente de Roma. E seguimos para mais um miradouro, São Pedro de Alcântara, outro panorama esmagador sobre a cidade, atravessámos outro bairro antigo, de nome Bairro Alto, mas antes estivemos num local chamado Solar do Vinho do Porto a degustar esta saborosa bebida, sentia-me profundamente feliz não só pelo que estava a ver e que era uma inteira surpresa mas por sentir a alegria esfusiante da mamã, o seu olhar carinhoso para este seu bem amado português.

Lembro-me, querida Noé, de há uns bons anos atrás termos conversado sobre a solidão em que vivia a mamã, sempre nos pareceu que aquela maratona de viagens como intérprete camuflava a solidão, do que me foi dado entender depois da separação ela parecia resignada talvez ao papel de avó ou de se relacionar com mulheres da sua idade a caminho da velhice. Posso constatar a toda a hora que ela e o Paulo se entendem admiravelmente, como adiante te contarei como a história em que os dois gargalhavam sobre um episódio passado num hospital.

Os últimos dias foram para eu conhecer a Lisboa moderna. O Paulo gosta muito de Arte Deco e levou-me a uma igreja chamada de Nossa Senhora de Fátima, tu não podes imaginar o esplendor dos vitrais, senti-me esmagado num espaço destinado a batismos, eu conhecera este artista, de nome Almada Negreiros, quando num passeio na zona portuária o Paulo nos levou à Gare de Alcântara, fiquei siderado com aqueles painéis. Estes últimos dias já andámos sempre no carro do Paulo, ele queria mostrar-nos a Lisboa Oriental e o que se projetara construir com a exposição de 1998 que deu origem a uma zona moderna chamada Parque das Nações. Novo passeio à beira do Tejo, surpreende a estrutura da ponte que construíram de nome Vasco da Gama, ajardinaram espaços e temos ali uma zona de lazer magnífica. Visitámos bairros antigos da Lisboa Oriental, muito decadentes, há sinais de que estão a surgir novas construções, mas a um ritmo lento. Passámos por um local chamado Xabregas e o Paulo disse-me que no próximo passeio irei visitar um museu só com azulejos, e que depois desta visita perceberei porque é que Portugal é a potência nº 1 à escala mundial do azulejo.

Tenho muito mais coisas para te contar, saíamos sempre de manhã e regressávamos ao entardecer, o Paulo insistia em confecionar as refeições para nós, num espaço agradável na varanda com belos quintais. E sempre bem-dispostos íamos conversar para a sala, acompanhados de infusões de gengibre ou menta, a mamã muito disciplinadamente com o dossiê da tal guerra da Guiné nas mãos, dele extrai uma agenda onde toma freneticamente nota das conversas havidas com o Paulo. Creio que te contei que ele viera a Bissau para várias consultas mas impunha-se um tratamento mais cuidado para repor os sonos, meteram-no num serviço de Neuropsiquiatria numa divisão com três camas, os seus dois vizinhos eram pessoas altamente perturbadas, felizmente que a carga de medicamentos era de tal modo forte que passava uma boa parte do dia a dormir, havia a rotina dos preceitos higiénicos e das refeições, uma hora de visitas por todo o hospital, onde ele descobriu que os militares feridos se mediam com os danos corporais dos outros, uma vez viu alguém quase feliz por só ter perdido uma perna, foi neste ambiente de permanente discussão entre um capitão e furriel, tudo numa divisão em que as paredes tinham a brancura da cal, havendo uma janela ao alto com um discreto gradeamento, camas com colchas brancas destoando de um chão de pedra marmoreado que se irá passar um episódio em que me vi também a gargalhar com a mamã e com o Paulo, tratava-se da visita de senhoras benemerentes, Paulo falou na Cruz Vermelha e no Movimento Nacional Feminino, primeiro entraram as senhoras da Cruz Vermelha, traziam aerogramas, revistas um tanto puídas, os doentes tinham recebido instruções rigorosas para ter as mãos esticadas fora dos lençóis e da coberta e que não se atrevessem a qualquer dito inconveniente a tais senhoras de alto coturno.

Tudo parecia que ia correr bem, com as senhoras da Cruz Vermelha comportaram-se como três surdos-mudos, as senhoras devem ter pensado que eram doentes muito mortificados, e também com uma expressão mortificada saíram. Entraram as senhoras do Movimento Nacional Feminino, quem capitaneava a delegação era a mulher do comandante militar, mostrou-se afável, pronta a contatar as famílias, parecia a provedora do doente. Paulo e o furriel que escapara fisicamente incólume de um sistema de minas antipessoal olhavam seraficamente para o teto, mas o capitão parece ter perdido a tramontana, saiu da cama em pijama e gritou para as senhoras que estava ali como um prisioneiro de guerra, houvera uma cabala sinistra para o remover do seu posto de oficial de informações, que as senhoras o ajudassem prontamente, aqueles dois companheiros de quarto eram totalmente indesejáveis, o tal furriel não passava de uma máquina falante e apontando para o Paulo, em tom desdenhoso, disse que aquele menino de coro, com este arzinho de quem não parte um prato, não passava de uma fera adormecida, um hediondo criminoso, bastava saber que comandava pretos, deve ter sido escolhido pelos seus maus fígados, e gritava para as senhoras “tirem-me daqui, tirem-me daqui!”, as senhoras recuaram e fugiram, o zelador, o 1º cabo Morais discursou-lhes à bruta, iam ter todos um castigo. Querida Noé, ríamos os três, o Paulo era quem ria mais.


A mamã perguntou ao Paulo o que se seguia depois deste episódio do tratamento em Neuropsiquiatria, dois dias depois daquele despautério com as senhoras benemerentes o psiquiatra deu-lhe alta, levava umas mezinhas para conforto. Juntou os trastes, foi buscar a guia de marcha, ainda andou dois dias por Bissau à deriva antes de um avião o deixar em Bafatá. Percorre a cidade agradado por se sentir só, na messe de oficiais come e, em vez de ir diretamente para o grande dormitório que dá pelo nome de Vaticano III, passeia-se, escreve, regressou o gosto pelas leituras, voltou ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e comprou livros. Parte ao princípio de uma tarde de Bissalanca, durante a manhã fez compras para os seus bravos soldados. Durante o voo faz contas ao trabalho que o espera, recebera vários aerogramas dos seus colaboradores Ocante e Cascalheira, anda tudo numa rotina. Sente que a sua comissão se encaminha para o fim, já se deu a mudança de batalhão, sabe pois que irá encontrar novas caras. Mas grandes surpresas ainda o esperam, até que nos primeiros dias de agosto é conduzido ao porto do Xime, metido numa LDG, numa estranha viagem em estado de espírito contraditório, dilacerado pelo apartamento e a sonhar pelos desafios que o esperam. A mamã tomou nota de tudo. E momentos houve em que eu sentia que também fazia parte daquele romance da vida daquele casal que me parecia o mais surpreendente ao cimo da terra. O resto contar-te-ei de viva voz, irei de La Louvière a Uccle quando me convidares, minha querida irmã. Bisous, comme toujours, bien à toi, Jules.

(continua)

O BNU chegou a Bissau e instalou-se na Avenida da República, foi conhecendo melhorias, depois da independência foi ministério
Muralha da fortaleza da Amura noutros tempos
Portal manuelino da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, Rua da Alfândega, Lisboa
Igreja de São Roque, a sumptuosidade entre o Chiado e São Pedro de Alcântara
Painéis de Almada Negreiros na Gare de Alcântara
Miradouro da Rocha do Conde de Óbidos
Rua da Madragoa
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Nota do editor

Último poste da série de 17 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22550: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (70): A funda que arremessa para o fundo da memória

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Guiné 61/74 - P22568: Questões politicamente (in)correctas (54): Heróis... e heróis: um debate necessário, quando, numa guerra, estão em causa os direitos humanos (José Belo, jurista, Suécia)


Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 >  1968> Um "suspeito" do PAIGC..."Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de José Belo, jurista, o nosso luso-sueco, cidadão do mundo, membro da Tabanca Grande, que reparte a sua vida entre a Lapónia (sueca), Estocolmo e Key-West (Flórida, EUA). Foi nomeado por nós régulo (vitalício) da Tabanca da Lapónia. (Na outra vida, foi alf mil inf, CCAÇ 2391, "Os Maiorais", Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70); é cap inf ref; durante anos alimentou, no nosso blogue, a série "Da Suécia com Saudade"; tem mais de duas centenas de referências no nosso blogue.)


Data - quarta, 22/09/2021, 23:39 
Assunto - Heróis e heróis: um texto que busca debate



Tendo em conta a duração da guerra e o número de militares nela envolvidos nos três teatros de operações, foram muitos os actos de heroísmo nela praticados.

Como em todas as guerras, alguns procedimentos criminosos terão existido mas, pelo seu número e frequência, não foram representativos.

No caso da Guiné, elementos nativos integrados nas forças militares portuguesas salientaram-se pela sua extraordinária coragem pessoal e dedicação no cumprimento das missões que lhes foram atribuídas. São inúmeros os militares portugueses que a eles devem a vida.

Infelizmente entre alguns dos medalhados, ações do maior heroísmo são acompanhadas por frequentes procedimentos dentro de uma área que legalmente se pode considerar abrangida por sevícias ou mesmo crimes de guerra.

Não só sevícias, a seu modo justificáveis por praticadas no calor dos combates, como também praticadas a “frio” e em situações “resguardadas”.

O contraste com a generalidade do procedimento do PAIGC para com os prisioneiros portugueses foi marcante. Considerados pelo PAIGC como prisioneiros de guerra, foram tratados de acordo com as Convenções Internacionais.

O governo português não crendo caracterizar a situação na Guiné como uma situação de guerra,  recusava-se a aplicar tais Convenções aos seus prisioneiros o que permitiu uma impunidade quanto ao tratamento dos mesmos.

Impunidade que levou ao “desaparecimento” da maioria deles às mãos da polícia política, das milícias e tropas especiais formadas por naturais da Guiné.

O facto de estes actos serem praticados por naturais da Guiné ao serviço de Portugal sobre outros guinéus, não deverá levar a considerá-los menos graves, sob o perigo de uma “graduação” não aceitável por profundamente racista nos seus fundamentos.

No contexto do Direito Internacional referente aos conflitos armados, englobando as leis das Convenções de Haia e Genebra, Portugal sempre se referenciou como um país respeitador das mesmas.

Especificamente, a Convenção de Genebra define normas para as leis internacionais relativas ao Direito Humanitário Internacional que mais não são que um conjunto de normas que procuram limitar os efeitos dos conflitos armados tanto no respeitante a indivíduos como às populações não combatentes.

Tendo em conta as numerosas violações destas regras por alguns dos mais representativos (e díspares) países da cena internacional, alguns mais “pragmáticos” têm dificuldade em aceitar a existência de uma “moral internacional” apoiada em princípios jurídicos.

Mas, e com todas as reconhecidas limitações, é a única forma de defesa dos verdadeiramente mais desprotegidos, sejam eles prisioneiros de guerra, populações civis em áreas de combates,ou refugiados.

Uma nítida demarcação entre valores civilizacionais e a lei do mais forte.
Um abraço do J.Belo
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Nota do editor:

Último poste da série > 6 de outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21422: Questões politicamente (in)correctas (53): Doação / colheita de órgãos para transplante em Portugal: esclarecimento para tranquilizar o nosso amigo Cherno Baldé, que está em Bissau, bem como os guineenses muçulmanos que utilizam (ou podem vir a utilizar) os nossos hospitais públicos ou privados

Guiné 61/74 - P22567: Convite (15): Congresso Nacional de Antigos Combatentes, dia 30 de Outubro de 2021, entre as 9 e as 13 horas, Auditório Marista, Carcavelos, Cascais



ASSUNTO: CONGRESSO NACIONAL DE ANTIGOS COMBATENTES

- Auditório do Colégio Marista, Carcavelos

- A realizar no dia 30/10/2021, entre as 09h00 e as 13h00

Sou um dos mais jovens combatentes da Guerra Colonial e faço parte de um grupo de 6 combatentes, sendo 2 da Marinha, 2 do Exército e 2 da Força Aérea, eleitos numa concentração nacional de Antigos Combatentes, em Setembro de 2018.

Sempre andamos na frente do combate em prol do Estatuto do Antigo Combatente, recentemente aprovado pela Assembleia da República e publicado a 20/08/2020.

Assim, no seguimento da publicação do EAC, do qual não concordamos totalmente, decidimos promover este Congresso Nacional de Antigos Combatentes, para dar voz aos combatentes.

Abraço de combatente.

JOSE MARIA MONTEIRO... um dos mais jovens combatentes, (c/16 anos)

Cascais

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Nota do editor

Último poste da série de 10 DE OUTUBRO DE 2017 > Guiné 61/74 - P17843: Convite (14): Palestra subordinada ao tema "Terrorismo", a ter lugar no Salão Nobre do Comando do Pessoal do Exército, antigo Quartel General do Porto, Praça da República, no próximo dia 13 de Outubro de 2017, pelas 15 horas

Guiné 61/74 - P22566: Os nossos regressos (39): Regressei em 1972 da guerra Guiné mais queimado por dentro do que por fora (Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616 e CART 2732)

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), com data de 22 de Setembro de 2021, falando-nos do seu regresso da Guiné:


O REGRESSO (1)

Regressei em 1972 da guerra Guiné mais queimado por dentro do que por fora já que quando passados dois meses tentei estudar para fazer o exame de aptidão à Universidade, me pareceu que não conseguia fixar as matérias em estudo.

Desiludido com a minha perda de capacidades e consciente de que, tendo saído da tropa, não poderia continuar a deixar arrastar os dias ao sabor das quatro estações depois de viver em África sob as estações secas e das chuvas e na sucessão dos dias calmos, intercalados por alguns dias agitados, com tiros, com granadas, com bombas, que me despertavam desse torpor da melhor ou da pior maneira. Sim porque muitos de nós gostávamos da guerra sem mortos nem feridos para quebrar a monotonia em que vivíamos.

Como oficial miliciano tinha um vencimento com que nunca tinha sonhado e porque somente podia enviar dois terços para a Metrópole sobrava-me muito dinheiro para alimentar diversões e vícios que criei para entreter os dias. Tinha parado no tempo e porque não morri na guerra, como outros que tiveram esse infeliz destino, dei-me conta que ainda poderia ter um longo futuro para gerir à minha frente. Teria que arranjar trabalho. Por percalços relacionados com a minha independência e rebeldia falhei a minha entrada em dois bancos que o meu pai, um negociante honesto com boas relações com bancos e com um industrial de cortiça de Lourosa, me garantiam, sendo um a Caixa Geral de Depósitos que nesse tempo até pagava bem.

Para não me tornar num indigente a viver às sopas dos meus pais, em fins de 1972, decidi concorrer à Caixa de Previdência e dos Serviços Médico Sociais do Porto que tinha aberto um concurso de entradas, com formação e provas e dava prioridade a ex-combatentes do ultramar. Éramos quatro ex-militares e duas jovens que tinham acabado de tirar um curso superior. Fizemos boas provas de ingresso e todos fomos admitidos. Dentre esses camaradas criei uma relação mais próxima com o Barcelos Monteiro por afinidades várias, éramos ambos transmontanos, com formação liceal na área de letras, tínhamos alguma curiosidade política e literária, ele bastante extrovertido, eu um pouco introvertido.

No ano de 1973 houve mais uma farsa de eleições para a Assembleia Nacional, a que a Oposição concorreu muito limitada na campanha eleitoral sem poder falar da censura da pide, dos presos políticos,   da guerra colonial, de outros assuntos que eram tabu para o regime.

Com pouca formação política e sem estarmos inscritos em qualquer partido, mas porque sentíamos o ambiente político opressivo em que se vivia, participamos em algumas manifestações e comícios da oposição, como apoiantes, e por vezes tivemos que fugir à polícia como os outros.

O ano foi passando, entre calmo e agitado, alegando, com razão, falta de liberdade para fazer campanha, a Oposição Democrática desistiu das eleições, como no geral acontecia e a União Nacional ocupou todos os lugares da Assembleia da República, com a benção da Igreja e de Salazar, esse santo hipócrita, que já estava no céu dos pardais.

Ganhava-se pouco, o trabalho, com tarefas repartidas, tipo trabalho à peça, era pouco interessante. Na secção para onde entrei, com cerca de 30 pessoas a maior parte mulheres, era chefiada por um homem, inteligente, competente, mal alinhado com o regime, por vezes bem humorado mas com uma pancada própria que o levavam a ter atitudes pouco racionais. Tinha um adjunto com quem não se entendia bem e para o castigar, tinha-lhe distribuído um trabalho, que consistia em carimbar documentos todos os dias, à Mariana que trabalhava junto dele a dactilografar-lhe os ofícios e a fazer outros trabalhos, raro era o dia em que não a fazia chorar a recriminá-la com ou sem razões. Em toda a instituição trabalhavam sobretudo mulheres sendo porém os chefes praticamente todos homens.

As mulheres casadas algumas eram pequenas burguesas quando os maridos tinham rendimentos bastante superiores aos delas, outras equilibravam os vencimentos com o dos maridos para pagarem as prestações da casa, do carro e para alimentarem a família. As raparigas solteiras suspiravam, algumas bem alto, pelos namorados que estavam no ultramar a lutar pela Pátria uns e outros pela vida. Havia a Rosa, era casada e tinha duas filhas, a mulher mais generosa e solidária que já conheci, frequentemente a ser chamada ao guichet para tratar de assuntos de muitos amigos e amigas, pobres ou ricos que tinha por toda a cidade e arredores. Ajudava igualmente os colegas em tudo o que podia e no trabalho sempre activa e faladora, distribuia boa disposição por todos. Pouco convencional era capaz de se sentar nas minhas pernas ou de outro colega, para escândalo de algumas mais conservadoras, outras vezes fazia-lhes perguntas que as embaraçava, do género nunca fizeste amor dentro do carro e terminava dizendo que era muito bom. Um dia já depois de almoço acercou-se de nós, a Amélia, uma colega da minha idade, casada, com um filho, vinha nervosa e disse-nos com tristeza, pedindo segredo, que de manhã tinha ido fazer um aborto. Dramas que aconteciam nesse tempo, ainda hoje talvez com mulheres de todas as classes e condições sociais.

No final desse ano as senhoras organizaram uma festa de Natal numa pequena sala contígua à secção, com enfeites, com música, boa comida e alguma bebida, memorável.

Em Abril de 1974 dá-se a Revolução dos Cravos, com que eu tanto tinha sonhado que já não me parecia que fosse possível. Há todo um povo que adere se levanta, e procura os novos caminhos e o sabor da liberdade que desconhece.

A propaganda politica surge por toda a parte, nas praças, nas avenidas, nos locais de trabalho, nas cidades nas aldeias, com slogans da Revolução Francesa, das revoluções comunistas, Russa e Chinesa, é sobretudo a esquerda que no antigo regime estava amordaçada que agora fala e grita bem alto.

As chefias dos serviços públicos, que eram afectas ao regime caído, por convicção, por obrigação ou necessidade, ficaram apáticas e temerosas. Nem todas, pois um conhecido Chefe de Serviços da Instituição, que segundo testemunhas de crédito, recebia pides regularmente no seu gabinete, filiou-se num partido de esquerda e em Julho, soube depois, pois eu estava de férias, encabeçou uma manifestação em direcção ao Quartel-General do Porto, para exigir o saneamento dos fascistas.

O meu amigo Barcelos Monteiro adere logo, de alma e coração, a um partido vermelho e não se cansa de procurar convencer os outros das verdades em que acredita. Está sempre presente em comícios e manifestações, onde procura conquistar também o coração e o calor de algumas camaradas, a revolução sexual, de vento em popa nos outros países da Europa, estava-se a expandir finalmente em Portugal.
Vende o jornal do partido à porta do trabalho e nas ruas e praça mais próxima.

Durante muito tempo insiste comigo para o acompanhar, eu vou resistindo, os anos de tropa e de Guiné tinham esmorecido o meu fervor revolucionário, estava diferente, mais maduro e tinha reflectido muito sobre acontecimentos mundiais que desvirtuavam os amanhãs que cantam. No entanto pela insistência dele ou por curiosidade acabo para aderir. Nunca me senti bem dentro desse partido pois cedo me apercebi que as ideias e opiniões dos militantes de base não eram escutadas. A direcção partidária pensava por todos, os outros não tinham esse direito. Nós simplesmente tínhamos que obedecer às ordens emanadas superiormente, encher os comícios, bater palmas a tudo o que os dirigentes dissessem e fizer todo o trabalho físico que nos fosse determinado. Saí pelo meu pé, um ano depois, entregando uma carta de demissão que nunca teve resposta.

Com o passar dos anos, pela comunicação social e por conversas com militantes doutros partidos. apercebi-me que em relação à democracia interna, todos eles duma forma mais ligeira ou acentuada, eram semelhantes.
No antigo regime ouvíamos falar da democracia, o melhor dos regimes políticos, como uma miragem.

A democracia criada em Atenas dava direitos iguais a todos os cidadãos mas atente-se que, os metecos (estrangeiros) e os escravos, em número muito superior aos cidadãos livre , não tinham quaisquer direitos.

A nossa democracia, nascida com a Revolução dos Cravos, dá voz aos partidos que interpretam a seu bel-prazer a vontade dos seu seguidores, por isso ela definha, vejam-se as votações.
Contudo eu prefiro a democracia a qualquer outro regim , devia ser mais participada pelos cidadãos e respeitada pelos políticos.

Este texto já vai longo, longo demais, para quem o quiser ler. Terá continuação se se achar que poderá interessar a alguém.

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Nota do editor

Último poste da série de 31 DE JULHO DE 2020 > Guiné 61/74 - P21213: Os nossos regressos (38): Comando e CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70): uma longa viagem de nove dias, no velhinho T/T Carvalho Araújo, de 16 a 26 de junho de 1970, com um dia no Funchal (Fotos: Otacílio Luz Henriques)

Guiné 61/74 - P22565: Notas de leitura (1383): "Um caminho de quatro passos", de António Carvalho (2021, 219 pp.): apontamentos etnográficos para o retrato da nossa geração, de antigos combatentes - Parte I (Luís Graça)


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz >  2011 > O velho carro de bois, centenário, típico da região de Entre Douro e Minho. Não existe mais, hoje, a não ser as rodas...Símbolo de um mundo que desapareceu... E com ele,  uma certa ruralidade e rusticidade do homem português, características socioantropológicas sem as quais muito possivelmente não teria sido possível manter a nossa longa guerra colonial / guerra do ultramar (1961/74).

 Foto (e imagem): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Para além das pequenas histórias relacionadas com a sua experiência como furriel miliciano enfermeiro na Guiné, durante dois anos (BART 6520/72, Mampatá,1972/74), o que me encanta, no livro do António Carvalho (, foto atual à esquerda), são algumas das suas memórias da infância, passada em Medas, Gondomar, num ambiente rural que não era muito diferente daquele que muitos de nós conheceram, de norte a sul do país. (*)


São apontamentos, observações, registos, relatos, pequenos retratos e histórias de pessoas da família e vizinhos. etc., que considero de interesse etnográfico ou documental para se poder conhecer um pouco melhor a infância e a adolescência da nossa geração, aquela que, nascida ao longo dos anos 40 e ainda no início dos anos 50 (,como é o caso do autor), iria depois fazer a guerra colonial / guerra do ultramar, de 1961 a 1974.

A maioria de nós nascemos em aldeias ou pequenas vilas, e temos em comum muitas dessas vivências ou experiências, a começar pelo trabalho no campo ainda em tenra idade. Em 1950, quando o António Carvalho nasceu, a nossa população activa era de  3.2 milhões, distribuindo-se pelo sector primário (ou seja, agricultura, silvicultura e pescas) (50%), sector secundário (24%) e sector terciário (26%). 

Aqueles de nós cujos pais (ou tios, avós, etc.) eram agricultores, sabiam pelo menos o que era a segada (ou ceifa), a vindima, a apanha da batata, a rega do milho, a apanha da azeitona, etc. Enfim, sabiam donde vinha o trigo, o centeio, o milho, os legumes, o leite, o toucinho, o salpicão… Sabiam distinguir um carvalho, um castanheiro... Sabiam como se fazia o pão. Participavam da matança do porco. Iam ao “monte” ou às “sortes” apanhar carqueja, pinhas, caruma… Alguns inclusive sabiam conduzir os bois... E a sua vida era pautada pelo ritmo circadiano das estações do ano e sobretudo dos solstícios (o do verão e do inverno). (**)

E, mesmo depois da escola, aos 7 anos, não havia “férias grandes” (privilégio de alguns dos “meninos da cidade”), que, no campo, o trabalho do menino era pouco mas quem o desperdiçava era louco…Menino que  só tardiamente descobriria a cidade, a praia, o mar... (***)

2. O próprio topónimo Medas poderá estar relacionado com as “medas de palha” (pág. 13), embora na terra do António Carvalho fosse mais comum chamar-lhes “rolheiros”.

De resto, o léxico usado pelo autor também já não é frequente ouvir-se (nem ler-se( e os nossos filhos e netos têm seguramente que recorrer ao dicionário para entender, termos e expressões tais como “paveias”, “vencilho”, “broa”, “restivada”, “malhada”, “chadeiro”, “tarara”, “colmeiros”, “canastro”, “juntas de bois”, "soga", "carros de milho", etc.

(…) "O trigo e o centeio, semeados entre dezembro e janeiro, em junho eram segados e transportados para a eira onde o grão acabava de secar. A segada era um trabalho árduo que decorria sempre sob muito calor, normalmente feito por mulheres, levando cada uma o seu eito e deixando para trás as paveias que outra mulher ou homem se incumbia de amarrar, uma a uma , com um vencilho feito de meia dúzia de caules do mesmo cereal.

"Ao meio da manhã e pela meia tarde algum rapazinho da casa havia de chegar com uma cesta onde raramente havia mais do que broa , vinho e azeitonas, e era esta a hora de reparação de energias e de alguma consolação." (…) (pág. 12).


E já agora, leia-se mais um bocado da descrição das operações associadas à segada (ceifa) do trigo e do centeio:

(…) "Nesse dia ou no seguinte as paveias eram levadas, no carro de bois, para a eira onde se enrolheiravam e assim esperavam mais alguns dias de sol até serem malhadas, quando já o grão se separava facilmente da palha. Nesses campos de cereal de inverno ainda se conseguia semear , em julho, feijão fradinho a que chamávamos a restivada

Na minha freguesia, às medas de palha era mais comum chamar-se-lhes rolheiros, pese embora haver autores que consideram o topónimo Medas derivado precisamente de medas de palha. Nas malhadas cada pessoa batia com os molhos ou paveias sobre o chadeiro do carro de bois, tantas vezes quantas as necessárias para que nem um daqueles preciosos grãos ficasse preso. Depois, o cereal era limpo numa tarara e levado para casa onde se guardava em grandes caixas de madeira com três metros de comprimento por um de largura e altura da cintura de um adulto."(…) (pág. 12).

O trigo, o centeio e o milho eram fundamentais na alimentação dos portugueses. No Norte predominava a broa de milho com mistura de centeio, cozida semanalmente em forno a lenha. No Sul usava-se mais a farinha de trigo.

Capa do livro
(…) “Numa ou duas caixas ficava o centeio, numa outra ficava o trigo, o cereal mais nobre, panificado só em ocasiões mais festivas. A farinha de centeio era sempre consociada com a de milho, numa proporção de uma para três partes, respetivamente, nas cozeduras da broa, aquelas que se faziam na maior parte do ano. Mas nada se perdia nas casas de lavoura.” (…)(pág. 14).


De facto, aqui nada se perdia: nesse tempo, com a palha de centeio faziam-se os colchões das camas das famílias, palha que era substituída, todos os anos, antes da chegada do inverno.

(…) “Os molhos da palha de centeio, depois de malhados, eram desenvencilhados e passados por uma forquilha que se espetava no chão pelo cabo a fim de serem limpos da parte folear e de novo atados em molhos do tamanho de uma braçada a que chamávamos colmeiros. Eram depois estes colmeiros utilizados na renovação da palha de todos os colchões da nossa casa e os restantes vendidos a quem não semeava centeio e deles precisava.” (…) (pág. 14)

Havia “a meda grande, feita da palha de trigo e de centeio”, que servia para pensar o gado em estábulo, no inverno, 
quando não havia erva no campo; e ainda “outras medas 
mais pequenas, a que chamávamos rolheiros de palha de milho, 
que eram feitas nos campos, depois de se removerem as espigas 
dos caules”, igualmente importantes na alimentação do gado.

Ora “essas medas, as de palha de milho disseminadas pelos campos e a meda mestra, de palha de trigo e centeio, erigida altaneira junto à eira e ao canastro, eram formações de uma arquitetura móvel demonstrativa, pelo sua quantidade e volume, do tamanho de cada casa de lavoura.” (pág. 14).

3. Muito interessante a história da origem do cemitério de Medas (“O sítio das quatro casas", pp. 33/34), que só muito tardiamente, em finais de 1890, foi construído, graças a uma comissão de seis medenses onde estava representadas as figuras gradas da terra, incluindo o pároco, o professor, o regedor e o presidente da Junta de Paróquia. E logo ali foram construídos os primeiros quatro jazigos funerários… 

Ficavam, assim, representadas na nova necrópole as quatro classes sociais da freguesia: “as que tinham três juntas de bois, as de duas juntas e as que possuíam só uma ou nenhuma” (pág. 34).

Na realidade, a estratificação social daquela comunidade camponesa tinha a ver com a riqueza de cada família, sendo esta “aferida pelo número de juntas de bois que possuía e pelo número de carros de milho e, nessa altura, nas Medas, não havia ninguém mais rico que o lavrador mais abastado”. 

De acordo com dados recolhidos pelo autor, e relativos ao ano de 1922, “em Medas, havia cinquenta lavradores com uma junta de bois, vinte com duas e apenas cinco com três.(…) (pág. 69).

Tirando o período de 1890 a 1930 (correspondente à emigração para o Brasil, a I Grande Guerra, a pandemia de "gripe espanhola" e a crise económica dos finais dos anos 20), a população de Medas tem vindo a crescer, desde  o segundo triénio do séc. XX: 990 (em 1920) e 2433 (em 1991). Tem vindo, naturalmente, a decrescer (e a envelhecer) no séc. XXI: 2129 (em 2011), dos quais 16,7% com 65 ou mais anos. O concelho, Gondomar, faz parte da Área Metropolitana do Porto.

(Continua)

PS - Selecção de excertos, itálicos e negritos, da responsabilidade do editor LG.
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Fonte: António Carvalho - Um Caminho de Quatro Passos. Rio Tinto: Lugar da Palavra Editora, 218 pp., ISBN: 978-989-731-187-1.

O livro pode ser adquirido, ao preço de 15,00 Euros (portes incluídos, no território nacional ou estrangeiro) Contactos do autor, António Carvalho, Medas, Gondomar

Email: ascarvalho7274@gmail.com | Telemóvel: 919 401 036
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Notas do autor:

(**) Vd. poste de 11 de setembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22533: Notas de leitura (1380): "Um caminho de quatro passos": temos um novo escritor, o António Carvalho passa o teste, e espero que seja com louvor por unanimidade e aclamação dos seus leitores (Luís Graça)

(...) Muitos de nós, antigos combatentes, que nasceram em aldeias ou pequenas vilas, do interior do país, vão-se reconhecer neste retrato da infância e adolescência do autor. Em boa verdade, é o retrato da nossa geração... Muitos de nós, para não dizer a grande maioria, que nasceu, cresceu e viveu no campo até à idade de ir para a tropa. Uma geração que: 

(i) nasceu de parto com dor, em casa, sem assistência médica;

(ii) foi batizada segundo os cânones da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana;

(iii) foi alimentada a caldo e broa, e alguns provaram pela primeira vez o leite, ainda não pasteurizado, da vaquinha;

(iv) assistiu ao espetáculo, hoje cruel, da matança do porco (, fabulosa a sua reconstituição, em "O festim", pp. 20/22):

(v) aprendeu as primeiras letras à luz do candeeiro a petróleo e, muitas vezes, ia descalço até à escola da vila, com os sapatos de ir à missa atados ao ombro;

(vi) vivia em casas sem saneamento básico, sem eletricidade, muito menos rádio, telefone e televisão;

(vii) foi a 1ª geração de portugueses a ser vacinada contra algumas das mais temíveis doenças infetocontagiosas que no passado causaram elevada morbimortalidade;

(viii) passou a dispor, a partir de 1945, da bala mágica, a penicilina;

(ix) só conheceu a capital do país, quando embarcou para a guerra da Guiné, que a mobilidade espacial (ainda era um luxo)...

(x) mas começou também a perceber a importância da educação como forma de mobilidade social, ou seja, para se poder sair do círculo vicioso da pobreza;

(xi) num tempo em que a democratização do ensino (e a universalização da proteção social) só começaria a chegar no final do consulado de Marcelo Caetano;

(xii) é também a geração que sai, das suas casas da aldeia e das vilas, para fazer a última guerra do Império, ou para emigrar, a salto, para o Eldorado transpirenaico. (...)

Guiné 61/74 - P22564: Parabéns a você (1992): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16 (Mansoa, 1964/66)

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Nota do editor

Último poste da série de 21 de Setembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22559: Parabéns a você (1991): Cor Art Ref Alexandre Coutinho e Lima (CART 494 / COM-CHEFE do CTIG e COP 5 (Ganjola, Gadamael, Bissau e Guileje, 1963/73) e José Macedo, ex-2.º Ten Fuzileiro Especial do DFE 21 (Bissau, 1973/74)

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Guiné 61/74 - P22563: (In)citações (193): 125 exemplares do livro que publiquei há um mês, já estão despachados, já pedi mais 25 exemplares que espero receber em breve (Carlos Silva, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2548/BCAÇ 2879)


1. Mensagem do nosso camarada Carlos Silva, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2548/BCAÇ 2879 (Jumbembem, 1969/71), com data de 17 de Setembro de 2021:

Amigos e Camaradas

125 exemplares do livro que publiquei há um mês, com apresentação no dia 14 de Agosto na Tabanca dos Melros em Fânzeres, Gondomar, já estão despachados, o que para mim já é um êxito.[*]

Hoje já pedi para a Editora 5 Livros mais uma reedição de 25 exemplares que espero receber em breve.

Assim, quem estiver interessado em adquirir, pode fazê-lo para o meu mail csilva2548@gmail.com.
Preço: 10€ + 5€ portes de correio.

O livro está quase ao preço de custo.

Com um abraço
Carlos Silva

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Notas do editor:

[*] - Vd. poste de 18 DE AGOSTO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22466: Agenda cultural (781): O livro da autoria do nosso camarada Carlos Silva, "Os Roncos de Farim", foi apresentado no dia 14 de Agosto no habitual convívio da Tabanca dos Melros

Último poste da série de 15 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22544: (In)citações (192): "António Carvalho, foi bonita a festa, pá!" (Joaquim Costa, ex-fur mil arm pes inf, CCAV 8351, Os Tigres do Cumbijã, 1972/74)

Guiné 61/74 - P22562: Historiografia da presença portuguesa em África (281): A pacificação da Guiné de 1834 a 1924 (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Dezembro de 2020:

Queridos amigos,
Por determinação do Governador Vellez Caroço, o Tenente-Coronel de Infantaria João José de Melo Miguéis lança-se numa explanação sobre os principais eventos indicadores do princípio da "pacificação", encetado a partir de 1834 e tendo o seu termo em 1924. Seria a primeira vez que a nível oficial se produzia uma listagem de acordos, convénios e tratados entre a soberania portuguesa e as chefias indígenas. Imprevistamente, o Coronel Miguéis resolve por sua conta e risco pronunciar-se sobre a rebelião de Abdul Indjai, que nos vem dizer não está conforme outros relatos, seguramente este oficial do Exército intuía que a detenção e o exílio do régulo do Oio podia empalidecer os atos militares de Teixeira Pinto, e daí as considerações um tanto barrocas e atenuantes que ele profere, como se lerá adiante. Hoje, está claramente demonstrado que Abdul Indjai, independentemente da sua bravura pessoal, cometeu desmandos incríveis e deixou de praticá-los com os seus mercenários, praticaram-se pilhagens e raptos em toda a península de Bissau. E desmandou-se como régulo do Oio, aterrorizando e impondo impostos como direito de saque. Esta é a verdade dos factos.

Abraço do
Mário



A pacificação da Guiné de 1834 a 1924 (2)

Mário Beja Santos

Como é sabido, a Biblioteca da Sociedade de Geografia possui uma secção de Reservados onde tenho tido a felicidade de encontrar algumas peças preciosas. Houve agora oportunidade de regressar a este filão de manuscritos, e deparou-se-me um dossiê intitulado Res 1 – Pasta E-21, que se intitula Apontamentos Relativos às Campanhas para a Pacificação da Guiné de 1834 a 1924, compilados pelo Tenente-Coronel de Infantaria João José de Melo Miguéis, Bolama, com data de 6 de agosto de 1925, Repartição Militar da Colónia da Guiné, 1.ª Secção. É então Governador Velez Caroço.

Trata-se de um inventário minucioso, o oficial procurou esmerar-se, manda o bom-senso que não se vai escrever por atacado toda a sua narrativa, e não há nada como explicar porquê. Começa por nos dizer que desde a descoberta da Guiné até ao ano de 1834 não encontrou nos arquivos da Repartição quaisquer elementos respeitantes a operações militares.

Como vimos anteriormente, é um elenco extensíssimo, mas de extrema utilidade para quem investiga todo este período da pacificação, já possuímos elementos com certa vastidão nesta matéria, como é o caso do admirável levantamento feito por Armando Tavares da Silva em Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar, 1878-1926, Caminhos Romanos, 2016.[*]

O Tenente-Coronel Miguéis mantém uma narrativa neutra até chegar à prisão de Abdul Indjai, aí o seu coração balanceou, quer proceder a uma certa advocacia, seria possível traição daquele que foi o braço-direito de Teixeira Pinto, e temos agora um quase solilóquio à procura de explicação para essa estranha rebelião do régulo do Oio, damos-lhe a palavra:
“Revolta-se contra quem? Contra o governo da Província, representado por Henrique Sousa Guerra, seu companheiro de armas, seu comandante durante o período da doença de Teixeira Pinto, e portanto seu amigo? Não, a rebelião de Abdul Indjai não representa uma rebelião contra o domínio português no Oio, seu regulado, deve representar qualquer coisa que ignoro, mas suponho ser forjada pela intriga que campeia em toda a província da Guiné.
João Teixeira Pinto, se te pudesses levantar do túmulo e lançar em rosto as vilanias daqueles que tem adulavam movendo a intriga, por certo Abdul Indjai, teu companheiro e amigo, não mandaria disparar um único tiro contra as forças portuguesas; correria a abraçar-te e apesar da sua cor e raça serem diferentes chorariam ambos a infeliz pátria que impulsionada pela vil traição de alguns dos teus filhos, que nada produzem, deixa muitas vezes no esquecimento aqueles que por ela sacrificaram o seu bem-estar, o seu sangue e a sua vida.
Por vil intriga, tu, Teixeira Pinto, meu camarada, amigo e condiscípulo, não foste galardoado pelo grande serviço que prestaste à Guiné, na ilha de Bissau. Sofredor como eras, contentaste-te com a dispensa do exame para o posto de major. Não serias tu um general em vez de um major? Tenho fé que apagadas as paixões mesquinhas, num futuro não muito longe, a História há de fazer-se e justiça ser-te-á feita assim como ao teu companheiro Abdul Indjai”
.

E pondo termo à exaltação pessoal, preito de homenagem ao camarada e amigo Teixeira Pinto, lança-se na documentação existente, ela é de uma grande importância, não encontrei até hoje nada de tão substancial para descrever os acontecimentos:
“Não se encontra na Ordem à Guarnição a nomeação de qualquer força para combater as hostes rebeldes de Abdul Indjai. Na Ordem à Força Armada apenas se lê que desde 23 de junho até 26 partem para Farim e para Mansoa alguns oficiais, que, suponho, irem tratar desta questão.
Um relatório que tenho presente diz que em 19 de março foi a povoação de Solinhoté assaltada pela gente armada de Abdul que tinha por fim prender o indígena Malam Sanhá para ser por Abdul Indjai morto na povoação de Mandorno; que em 20 de maio, 2 Oincas refugiados no território de Bissorã entre esta região e a de Gansambu foram atacados pela gente de Cherno Sabali, dos quais feriram um, não aparecendo mais o outro; que dias depois esta mesma gente assaltou a povoação de Fajonquito, levando tudo quanto encontraram; que em 2 de julho, indo a mesma gente assaltar a povoação de Batur, dali levou 36 cabeças de gado; que em 3, quando a gente de Abdul se dispunha a atacar a povoação de Gussafari para roubar, foram atacados pelos auxiliares, e que em 26 a gente de Cherno Sali atacou os auxiliares de Gussafari para se apoderarem de uma lancha que estava no porto.
No relatório do capitão-tenente João Quadros vê-se que este oficial conduziu a bordo do “Bissau”, em 24 de julho, um destacamento de 40 praças indígenas, 3 europeias, 2 sargentos e o alferes Trindade. Comandava esta força o tenente Sobral. Chegaram a Farim no dia 26. Em 29 chega a Farim o vapor “Capitania”, conduzindo o capitão Lima e um destacamento do comando do alferes Alonso Figueira, 13 soldados indígenas e um europeu.


Em 1 de agosto segue para Mansabá um reforço de 30 praças sobre o comando do Alferes Figueira, levando três carregadores. Os rebeldes (diz o relatório) hostilizaram esta força e cortaram a linha telegráfica entre Farim e Mansabá. Em 13 de julho uma diligência de 23 auxiliares e 2 guardas da circunscrição de Farim prenderam 3 jauras (homens de guerra) mal-armados, tendo fugido outros nove também mal-armados que impunham à gente da povoação de Nema o pagamento de uma multa de 20 escudos e 5 vacas. Pelo relatório do capitão Lima conclui-se que houve em Mansabá uma conferência entre Abdul Indjai, o Capitão Espírito Santo e outros oficiais, que particularmente sei serem o Tenente Honório de Oliveira Marques e o Alferes Alberto Soares, na qual Abdul Indjai propõe o seguinte a troco de entregar todas as armas: 1 – A redução da guarnição do posto de Mansabá a 1 oficial, 1 sargento, 2 cabos e 27 soldados; 2 – A retirada da força militar de Farim; 3 – Desarmamento dos auxiliares da região de Bissorã; 4 – Anexação ao seu regulado das razões de Tiligi, Binar, Bula, Canchungo e Churo; 5 – Que lhe fosse paga a quantia de 40 mil escudos como recompensa do seu trabalho por ter batido as regiões de Mansoa, Oio, Costa de Baixo e Bissau e que lhe fosse dada uma percentagem de 10% sobre o imposto de palhota cobrado anualmente nas regiões acima referidas.

Em 1 de agosto, quando uma força do comando do Alferes Figueira seguia de Farim para Mansabá foi este oficial avisado durante o trajeto que vários grupos de forças armadas se dirigiam ao seu encontro, pelo que tomou certas disposições no sentido de evitar qualquer surpresa. Até à povoação de Bironque a marcha fez-se sem incidentes, tendo notado apenas que a linha telegráfica se encontrava cortada. O 2.º Sargento Parreira, que comandava a guarda avançada, foi avisado que uma força armada, mais adiante, se opunha à passagem dos nossos.
Como os carregadores informados do caso pretendessem fugir, o sargento abandonou a coluna dirigindo-se para Farim, sendo seguido por um indígena e um cabo europeu que, alcançando-o, se verificou ser Alburi Indjai, alferes de segunda linha, sobrinho de Abdul, que ia comunicar estar Abdul inteirado de que a força não ia atacar e que por isso podia continuar a marcha, pois já tinha avisado a sua gente para lhe não impedirem a passagem."


(continua)
Jorge Frederico Velez Caroço, governador da Guiné
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Notas do editor:

[*] - Vd. postes de:

30 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17526: Notas de leitura (973): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

3 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17536: Notas de leitura (974): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

7 de Julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17554: Notas de leitura (975): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

10 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17563: Notas de leitura (976): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (4) (Mário Beja Santos)

14 de Julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17582: Notas de leitura (977): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (5) (Mário Beja Santos)

17 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17591: Notas de leitura (978): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (6) (Mário Beja Santos)
e
21 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17610: Notas de leitura (979): “a Presença Portuguesa na Guiné: História Política e Militar 1878-1926”, Caminhos Romanos, 2016 (7) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 15 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22546: Historiografia da presença portuguesa em África (280): A pacificação da Guiné de 1834 a 1924 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P22561: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XVI: O regresso de férias e o terceiro murro no estômago


S/l > s/d > Nordatlas – A viagem de uma vida!!!… Foto; cortesia do blogue  Luís Graça & Camaradas da Guiné  




O ex- furriel mil Joaquim Costa, Natural de V. N. Famalicão,
vive hoje em Fânzeres, Gondomar, perto da Tabanca dos Melros.
É engenheiro técnico reformado. 
Tem quase pronto o seu livro de memórias, 
de que estamos a editar alguns excertos, por cortesia sua.


Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) 

Parte XVI:
O regresso de férias: O terceiro murro no estômago 

 Chegado de férias a Bissau, levo logo com um murro no estômago. Sou informado por camaradas em trânsito que, num ataque ao Cumbijã, com o conhecido canhão sem recuo do IN, manobrado por Cubanos, uma granada atingiu um grupo de soldados da companhia, dentro do destacamento, provocando um morto e vários feridos. Foi mau demais. Ao primeiro passo na Guiné sentir que tudo estava como deixei, ou pior...

Passei o dia arrasado, reconfortado por um conterrâneo, 1.º cabo especialista da Força Aérea, pensando que o melhor era tentar retardar o meu regresso a Cumbijã o mais possível, arranjando todo o tipo expedientes para conseguir tal desiderato. O normal era aguardar a LDG de abastecimento até Buba, esperar pela coluna para Aldeia Formosa e depois apanhar a coluna da água, diária, de Aldeia para o Cumbijã.

O abastecimento de água e outros produto para o Cumbijã continuava a ser feito diariamente com uma coluna da responsabilidade da nossa companhia, onde corríamos riscos permanentes, pois foi numa destas colunas que sofremos a primeira baixa.

Vou dormir ao quartel dos Adidos em Bissau amparado pelo meu conterrâneo que me fez uma visita guiada pelos locais de frequência obrigatória na cidade. Encharcado de ostras, cerveja e whiskym  não me saíam da cabeça as notícias do ataque ao Cumbijá e a perda de mais um amigo. Não dormi um segundo que fosse, sempre com o Cumbijã na mente e com o pensamento na “família adotiva” que estava a viver mais um momento dramático.

Levantei-me cedo, obcecado com a partida urgente para o Cumbijã. Não suportava mais uma noite em Bissau.

Fui saber quando estava prevista a minha partida, ao que fui informado que iria na LDG que partia dentro de 3 dias. Insisti que tinha muita urgência em regressar. Depois de alguns contactosm foi-me sugerido ir no Nordatlas (avião de transporte de carga e passageiros dos anos 50) para Aldeia Formosa, que partia nesse dia.

A viagem de Nordatlas, carregado só com carga, foi surreal. Sentado num banco rebatido, de costas para uma pequena janela, com o cinto bem apertado devido à trepidação, e com os pés em cima de sacos de batatas, transportou-me para imagens da segunda guerra mundial. Para além de batatas, era todo o tipo de produtos, supostamente frescos, alguns já em putrefação dado o cheiro a podre dentro do avião.

Não havia uma peça ou uma chapa do avião que não batesse, dando a sensação que tudo se ia desintegrar. Fiz a viagem em permanente sobressalto, com mais receio da falha do motor, que a cada momento me parecia que ia acontecer, do que dos famosos mísseis terra ar Strela.

 A aterragem, na pista de terra batida em Aldeia Formosa, deslizando no terreno enlameado e saltitando de buraco em buraco até se aninhar definitivamente (acompanhado de um grande suspiro de alívio deste passageiro improvável), foi o pináculo do medo. Situação só comparável à minha primeira visita à Madeira, com os destroços bem visíveis do avião da TAP que tinha caído meses antes (19 de Novembro de 1977 e onde morreram 131 pessoas), aterrando numa pista mais pequena que a de Aldeia Formosa[?], com católicos e ateus a rezarem quando o avião se faz à pista, com aplausos, vivas ao piloto e abraços de gente que não conhecia de lado nenhum...

Não tenho memória de ter caído na Guiné nenhum destes aviões, embora reza a história que, sempre que aterrava, já só levantava com a intervenção dos “milagreiros” dos técnicos.

Toda a minha ânsia de chegar ao Cumbijã não foi, obviamente, nenhum arrebatamento heroico (o medo estava lá), simplesmente concluí que me sentia muito mais seguro e confortável em casa (em Cumbijã, junto da “família”) do que em Bissau. Cidade que mal conheci, da qual guardo uma vaga ideia e uma má memória com a fuga ao “Caifás”, que será revelada no próximo capítulo...

Continua...
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