Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Farim. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Farim. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
_____________

Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Pedro Dias, conceituado professor de História de Arte, tem o seu foco nas relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente. Um dos seus trabalhos de referência é exatamente a Arte de Portugal no Mundo, que o Jornal Público deu à estampa em 15 volumes numa edição muito cuidada. Retirei este texto sobre a Guiné do volume centrado na África Ocidental, que recomendo a quem queira conhecer melhor o nosso património deixado em Arguim, no Senegal, na Guiné e Serra Leoa, S. Jorge da Mina e Benim, S. Tomé e Príncipe, reino do Congo e Angola.

Um abraço do
Mário



A presença portuguesa na Guiné:
A arquitetura colonial


Mário Beja Santos

Pedro Dias é um conceituado historiador de arte, o seu campo preferencial de investigação é o das relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente; foi professor catedrático da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra os seus livros são referenciais nos domínios da arte portuguesa no mundo. O Jornal Público editou um conjunto de 15 livros deste seu trabalho, o que agora importa é o quarto volume que trata do reconhecimento da costa de África subsariana, das navegações que levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança, o autor estuda as feitorias e posições fortificadas, recorda as artes de marfim e dos metais na Serra Leoa, Benim e Nigéria; a presença portuguesa está testemunhada em Cabo Verde e São Tomé onde se construíram fortalezas, igrejas e habitações à maneira do Reino; a partir do século XVII, na Guiné e Angola, que foi a principal possessão na África Ocidental, criaram-se vilas cujo incremento foi intensivo, a partir de meados do século XIX. Obviamente que nos vamos a ter ao que este conceituado historiador escreve sobre a Guiné.

A Guiné teve a primeira povoação de portugueses em 1588, de Cacheu, fundada pelo cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso, ficando sujeita à jurisdição de Cabo Verde. Em 1642, Gonçalo Gamboa de Ayala fundou Farim e Ziguinchor, ocupando-se pouco a pouco de outras povoações situadas nas margens dos principais rios: o Casamansa, o Geba, o Buba e o Cacheu. Em meados do século XVIII as principais praças fortificadas eram as de Cacheu, Bissau, Geba, Farim e Ziguinchor, importa dizer que eram bastante débeis do ponto de vista construtivo.

Falando da povoação de Cacheu, no final do século XVI, a fortificação resumia-se a uma paliçada e a uma tabanca com doze palmos de altura. Em 1629 já havia a intenção de fortificar a barra de Cacheu, em virtude dos ataques dos holandeses. Em 1644 D. João IV pediu aos moradores de Geba para se mudarem para Cacheu e ajudarem o Capitão Gamboa de Ayala a fortificar este lugar. Há notícia de estar de pé a fortaleza numa pequena elevação, tendo 18 ou 20 peças de artilharia. Era tudo manifestamente insuficiente, por documentação de 1772 sabe-se que em Cacheu havia carência de fortalecimento e de guarnição, que era fechada com paus do mato e a artilharia não tinha os indispensáveis reparos. Os habitantes levantavam pequenas paliçadas de estacaria, sobretudo à borda de água. Ocorreram grandes melhoramentos em 1788, o então Capitão da Praça, engenheiro Luís Pedro de Araújo e Silva deu conta à rainha D. Maria I que lhe faltavam os reparos para os canhões e casas de guerra. A povoação foi sempre muito modesta, em 1850 não teria mais do que 1.800 habitantes. São muitos escassas as informações quanto à arquitetura religiosa em Cacheu. Houve uma residência da Companhia de Jesus, mas em 1733 o capitão queixava-se do estado miserável da Igreja matriz, o edifício estava em ruína.

Ter-se-á fundado o estado de Bissau em 1456, procurou-se um acordo com o rei local para fundar uma fortaleza. Há uma carta para a Corte datada de 10 de janeiro de 1689 onde se diz textualmente ter sido feita a fortaleza de pedra e cal, tinha sete peças de artilharia. Sabe-se que as obras da fortaleza de Bissau não chegaram ao fim e que em 1708 a Capitania foi extinta e a fortificação derrubada. Segue-se um role de peripécias até se chegar à construção da fortaleza definitiva em 1766, a construção estava a cargo do Tenente Engenheiro Bernardino António Alves de Almada, quem ultimou os trabalhos da fortaleza foi António Félix do Amaral. A planta da Praça revela as suas pequenas dimensões, regular, com quatro baluartes poligonais ligados por cortinas retas, com escarpa exterior, parapeito, banqueta e terra pleno, e no interior, na Praça de Armas, os quartéis da tropa dispostos em quadrado. Conserva o essencial da sua estrutura primitiva, mas sofreu alterações significativas. A perda de valor estratégico levou à construção de um maciço de dependências de carácter administrativo, mas no fundo a fortaleza que se pode ver é ainda, no essencial, a de 1767.

A evolução urbana de Bissau deu-se fundamentalmente a partir da transferência da capital do território, deixou-se Bolama. Defendida por uma fortaleza com algum poder, estabeleceram-se outros dispositivos menores do lado do mar e do lado do sertão, o de maior dimensão chamado Forte Nozolini, de planta quadrangular, que ficava no extremo da paliçada, que saía do baluarte da Balança. Está bem visível numa vista da cidade publicada na revista Ocidente, que aqui se mostra. Recorde-se os nomes dos outros três baluartes do Forte de S. José: Bandeira, Poana e Onça. Construíram-se à sombra dos baluartes os principais edifícios administrativos, e também se lançaram as ruas fundamentais da expansão da urbe, com casas de habitação e comércio. A Rua do Fosso e Rua de Alfandega faziam face à fortaleza, mas a frente de água estava desimpedida com a Rua da Praia que ia desde o Largo da Fonte do Pijiquiti até à paliçada da Poana. Depois, a Travessa Larga e a Travessa da Igreja formavam os quarteirões com outras seis ruas ou travesses, entre a Rua do Fosso e a Rua da Tabanca, que as cortavam ortogonalmente. Mais tarde esta vias foram sendo batizadas com outros nomes, normalmente de personalidades que se desenvolveram na colónia, ou governantes portugueses, é o caso da Rua Honório Pereira Barreto, que na transição do século XIX para o século XX era uma das mais prósperas da cidade e dotada dos melhores edifícios.

É esta a matéria do historiador Pedro Dias sobre a Guiné.


Vista de Cacheu, cerca de 1850, gravura, coleção particular
Planta da Fortaleza de S. José de Bissau, século XVIII, imagem da Torre do Tombo
Entrada da Fortaleza de São José de Bissau, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista de Bissau em 1884, publicado em As Colónias Portuguesas
Rua Honório Pereira Barreto, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista do forte e da vila de Cacheu. Gravura da Histoire Générale des Voyages, século XVI
_____________

Nota do editor

Último post da série de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores.

Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.

Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.

O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição



História da Pista de aterragem de Jumbembem

Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.

A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.

Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.

A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.

A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.

O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.

A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.

Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.

Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.

Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.

A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.

O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.

Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.

Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.


******************************
Posição relativa de Jumbembem na estrada Farim-Colina do Norte. © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné


Mote para a Pista

Primeiro interveniente

Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.

O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.

Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.

Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.


Segundo interveniente

O Luís é que escreve o seguinte:

"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."

Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.

Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.

Em 2014


O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.

Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.

São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:

1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.

2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.

3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI

O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.


Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.

1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.

2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.

3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.

Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.

Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.

Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.

Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.

Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.

Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.

Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.

_____________

Nota do editor


Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28173: Fichas de unidades (41): CART 2384, "Leões do Norte" (Contuboel, Saliquinhedim / K3, Jumbembém, Farim, 1968/1970)


Guião da CART 2384. Coleção Carlos Coutinho (2009).

1. Temos apenas três referências à CART 2384, subuniddae que não tem nenhum representante na Tabanca Grande, apesar do convite já feito, em 28/2/2026, ao Manuel João Revelos, que vive em Cacia, Aveiro (ex-sold at art, nasceu em 15/12/1946 em Lavos, Figueira da Foz; do seu álbum publicámos, com a devida vénia, algumas fotos, incluindo cinco de  Farim)(*).

Para colmatar esta lacuna, publicamos para já a sua ficha de unidade (**). Esperamos que haja mais alguém que nos dê notícias dos "Leões do Norte", que estuveram em reforço de vários batalhões e outras unidades  (BCAV 1905, BART 1904, BART 1914,BCAÇ 1932, COP3).

2. Fichas de unidade:

Companhia de Artilharia n.º 2384

Identificação: CArt 2384

Unidade Mob: GACA 2 - Torres Novas

Cmdt: Cap Mil Art José Reis Fernandes Leitão | Cap Mil Inf António Luís da Silveira Santos Rodrigues

Divisa: "Leões do Norte" - "O Céu, a Terra e as Ondas Atroando"

Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 07Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

Em 11Mai68, seguiu para Contuboel, a fim de efectuar o treino operacional sob orientação do BCav 1905.

A partir de 05Jun68, ainda com a sua sede em Contuboel, assumiu as funções de companhia de intervenção e reserva do Comando-Chefe, tendo tomado parte em acções desenvolvidas na área de Fajonquito e Poidom (Xime), em reforço do BCav 1905 e BArt 1904, respectivamente. 

Em 16Jun68, foi colocada em Bissau, mantendo-se como companhia de intervenção e sendo atribuída em reforço do BArt 1914, de 17 a 20Jun68, com vista à realização de operação "Corsário Negro", na região de Jabadá-Budoco.

Em 25Jun68, assumiu a responsabilidade do subsector de Saliquinhedim / K3, em substituição de dois pelotões da CArt 1691 ali temporariamente colocados, tendo ficado integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e colaborando ainda nas acções de contra-infiltração no corredor de Lamel.

Em 07Dez68, após desactivação do subsector de Saliquinhedim (onde ainda permaneceu um pelotão até meados de Jan69) e em virtude da criação do subsector de Jumbembém, foi ali colocada, em substituição dos efectivos da CArt 2340 e mantendo-se integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e depois do COP 3.

Em 01Jun69, foi rendida no subsector de Jumbembém pela CArt 2478, do antecedente ali colocada em reforço da guarnição local e foi transferida para o subsector de Farim, com um pelotão destacado em Saliquinhedim, a fim de substituir a CCav 1748.

Em 04Ag069, substituída no subsector de Farim pela CCaç 2547, regressou ao subsector de Jumbembém a fim de render a CArt 2478; em 05Jan70, por troca com a CCaç 2548, foi colocada de novo em Farim, com vista à realização do esforço de contrapenetração no corredor de Lamel.

Em 28Fev70, foi substituída em Farim pela CCaç 2681 e recolheu, por fracções, a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso, mantendo entretanto dois pelotões em Farim até à 3.a semana de Mai70, em reforço da actividade daquela subunidade.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 120 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 461/462

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vde. poste de 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:

Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.

Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Como era Jumbembem no ano de 1966

Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.

No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.

Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.

A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.

Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.

Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.

Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.

Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.

A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.

Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.

Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.

O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.

É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565

Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]

******************************

Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.

Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.

No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.

No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.

Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.

_____________

Notas do editor:

[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:

14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)

18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27900: Historiografia da presença portuguesa em África (524): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1966 (82) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Recordo-me quando cheguei à Guiné em 1968 ainda se falava numa explosão lá para os lados de Farim, uma barbaridade, ato insólito praticado por um grupo do PAIGC, não era prática corrente na guerrilha guineense lançar explosivos no meio de uma festa. Segundo os louvores dados pelo Governador Schulz, os agentes da PIDE que ali se deslocaram contaram com a colaboração da tropa local. Perguntará o leitor porque é que louvores desta natureza vêm no Boletim Oficial e não nos boletins das Forças Armadas. Acontece que a PIDE não estava enquadrada nas Forças Armadas, é a razão pela qual o Boletim Oficial regista a chegada e partida dos agentes da Polícia Política. O Governo central cede dezenas de milhões para financiar os planos de desenvolvimento. Fala-se neste ano de 1966 no contrato de concessão para a pesquisa e exploração de hidrocarbonetos na Província da Guiné, é esperável que tenhamos acesso ao desfecho desta missão. Criam-se novos grupos desportivos, caso da ANCAR e da SACOR, cria-se uma cooperativa de pesca em Bolama. E foi criado o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12, na dependência do Comando da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1966 (82)

Mário Beja Santos

O que mais me impressiona na leitura do Boletim Oficial destes anos tumultuosos é a tentativa de uma grande discrição, a Guiné vive em apuros, mas teima-se em silenciar os factos, nesta altura a Província vive uma tempestade demográfica, mas quem lê o Boletim Oficial precisa de ler nas entrelinhas os acontecimentos.

Talvez para benefício do leitor, dá-se o rol dos acontecimentos e fazem-se as citações necessárias. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 3 de janeiro, o Governador Schulz dá louvores a dois agentes da PIDE, aqui sim, convém transcrever logo:
“O atentado terrorista, levado a cabo em 1 do passado mês de novembro, na tabanca de Morocunda, em Farim, por elementos então desconhecidos, motivou a deslocação de uma brigada da PIDE àquela vila, a fim de se proceder às averiguações necessárias para a descoberta dos criminosos.
Foram árduas e extremamente difíceis as investigações, não só pela falta de indícios, como também pelas massas autóctones, em estado de choque devido à explosão e seus efeitos, se recusara a prestar declaração, o estar convencida que o atentado fora perpetrado por brancos.
Só houve a suavizar as dificuldades criadas por meio tão hostil, a franca e leal colaboração dada pelas tropas locais, a cujo apoio moral e material se deve, em grande parte, o êxito obtido.

Foram estas que nos cederam os locais para concentrar os detidos por suspeita e as dependências para os interrogatórios, alimentaram os presos e ainda facilitaram a nossa tarefa muito contribuindo para a descoberta dos criminosos.
A atuação do pessoal desta Polícia, também merece especial relevo dado que foi graças ao seu inexcedível zelo, competência, espírito de sacrifício e vontade de bem servir, que se descobriram os autores do crime e uma vasta e bem organizada rede de elementos do PAIGC que tudo prepararam e mais projetavam fazer.”

Em sequência, foram louvados um chefe de Brigada e quatro agentes de 2.ª classe, que vêm perfeitamente identificados no Boletim Oficial.

No Boletim Oficial n.º 2, de 8 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 1767, que estipula que durante o ano de 1966 é autorizada a isenção de direitos na importação de arroz. Em termos nacionais, o Governo decidira melhorar os vencimentos dos militares do Exército, Armada e Força Aérea. Dá-se igualmente reforço de verbas inscritas na tabela de despesa do orçamento privativo das forças terrestes ultramarinas em vigor na Província da Guiné. Ficamos a saber que pelo Decreto-Lei n.º 46826 foi instituído o Serviço Postal Militar; também pelo Decreto n.º 46796, do Ministério do Ultramar, é aprovada a renovação do contrato para pesquisa e exploração com a Esso Exploration Guiné Inc., celebra-se um novo contrato que consta no Boletim Oficial n.º 6, de 5 de fevereiro.

Igualmente merece destaque o contrato de empréstimo à Província Ultramarina da Guiné para a execução de empreendimentos previstos no Plano Intercalar de Fomento. Vale a pena dar conta de como se previa a aplicação destes recursos financeiros oriundos de uma receita extraordinária, provenientes do empréstimo a conceder pela metrópole: conhecimento científico do território; investigação científica; estudos de base; agricultura, silvicultura e pecuária; pesca; energia; indústria; transportes e comunicações; turismo; habitação e melhoramentos locais; promoção social. Tudo somado: 40.000.000$00.

Voltando ao contrato de concessão com a Esso, talvez valha a pena dizer que a concessão tinha por objeto o direito de pesquisar e explorar, à custa do concessionário, em regime de exclusivo, todos e quaisquer jazigos de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, incluindo petróleo, nafta, ozoquerite, gases naturais e asfalto, e ainda enxofre, hélio, anidrido carbónico e substâncias salinas; obviamente que se define a área de concessão que teria um período inicial de cinco anos.

No mês de abril, conforme consta no Boletim Oficial n.º 17, de 23 de abril, constitui-se a Cooperativa de Pesca de Bolama, diz-se mesmo no preâmbulo do despacho do Governador:
“É de todos conhecida a enorme riqueza ictiológica das águas interiores e fluviais da Província da Guiné. Dos cursos fluviais de maior riqueza ictiológica destaca-se o rio Grande de Buba em cujo troço designado por Ria de Buba, entre a foz do rio Lenguete e a ponta Nalu, abundam várias espécies ictiológicas comestíveis, tais como a bicuda, o barbo, a taínha, a corvina, etc.
Dos portos nas proximidades da Ria de Buba o porto de Bolama é aquele que oferece, sem sombra de dúvida, melhores condições para enxurrar as embarcações com mais recursos do que se refere à possibilidade de uma regular manutenção tanto das embarcações propriamente ditas como dos respetivos equipamentos propulsores.”

Estabelece-se a natureza, os fins e sede da sociedade.

No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, pela Portaria n.º 1803, aprovam-se os estatutos do Grupo Desportivo, Recreativo e Cultural ANCAR. Ficamos a saber que foi fundado pelos empregados, assalariados e simpatizantes da Firma António Augusto de Carvalho, a coletividade tem a sua sede em Bissau e as suas finalidades são, para além das modalidades desportivas, a organização de cursos de ginástica, excursões, criação de uma biblioteca técnica, realização de palestras, conferências e exposições, o resto dos estatutos mostra a afinidade com a estrutura de todos os outros.

Disse-se inicialmente que se procura o máximo de discrição quanto às dificuldades económico-financeiras, elas vão sendo desveladas pingo a pingo.

No Boletim Oficial n.º 30, de 23 de julho, a Portaria n.º 22107 determina que o Governo da Província Ultramarina da Guiné abra créditos destinados a suportar determinados encargos provenientes de objetivos previstos no programa de financiamento do Plano Intercalar de Fomento, e destacam-se as rúbricas envolvidas: regularização do abastecimento interno do pescado; portos e navegação; educação; meteorologia; fomento dos recurso agro-silvo-pastoris; aproveitamento dos meios de obtenção de água doce; transportes rodoviários, aéreos e aeropostais, etc. O Boletim Oficial n.º 33, de 13 de agosto, pelo Decreto n.º 47132 autoriza o Governo da Província a contrair no Banco Nacional Ultramarino, um empréstimo, em moeda local, até ao montante de 12 milhões, destinado a ser aplicado em obras inscritas em planos de fomento.

Já estamos em setembro, no Boletim Oficial n.º 36, de 13 de setembro, são aprovados os estatutos do Grupo Desportivo e Recreativo do Pessoal da SACOR.

No Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, temos a Portaria n.º 22260, da Presidência do Conselho e Ministério do Ultramar é constituído o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12. No Boletim Oficial n.º 48, de 26 de novembro, pela Portaria n.º 1849 voltamos à candente questão do reforço de verbas, será assim até ao fim do ano.

Procurando refletir conjuntamente com o leitor, subjaz a grande questão dos meios económico-financeiros que foram postos por Lisboa à gestão do Governador Schulz, é bem percetível de toda esta avalanche de reforço de verbas de que a economia guineense ainda não está exangue, mas deu-se uma reviravolta nas receitas fiscais, nas taxas aduaneiras, lê-se permanentemente no Boletim Oficial que há nomeações, e da leitura que estou a fazer do Boletim Oficial de 1967 já faltam candidatos para os postos administrativos, a dissuasão é dado pelo alastramento da guerra de guerrilhas. Não deixo de insistir que a dilucidação de todo este período da governação de Schulz aguarda uma tese de doutoramento.

General Arnaldo Schulz
O Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino, Rui Patrício, visita a Guiné em abril
Felupe em traje festivo
Tecelão Manjaco
Dança Manjaca
Rapariga Manjaca tatuada
Tocadores Fulas

Estas cinco imagens são retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1966

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Vista aérea parcial da vila de Farim, sede de circunscrição e de batalhão


Foto nº 2 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Piscina local (construída em 1958)


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > K3/Saliquinhedim

~
Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > NRP Sagitário, LFG P1131. Da classe Argos, este e outros navios estiveram ao serviço da Marinha Portuguesa, entre 1963 e 1975. 

Esta LFG  é a última, de  1965, tendo sido abatida em 7 de Setembro de 1974 e afundada a 21, a 104 milhas a Oeste de Bissau. Foram construídas do Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Tinham todas nomes de constelações (além destas,  havia ainda as seguintes: Dragão, Cassiopeia, Hidra. Escorpião, Pégaso, Lira, Orion, Centauro).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > Peixe-serra, capturado no rio Cacheu.

Fotos (e legendas): © Manuel Jordão Revelos (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Manuel Jordão Revelos (n. 1946,  Lavos, Figueira da Foz; mora em Cacia, Aveiro)


1. Manuel Jordão Revelos, natural de Lavos, Figueira da Foz; nasceu em 15/12/1946; mora em Cacia, Aveiro; foi sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70), mobilizada pelo RI 10,GACA 2. Partiu no T/T Niassa em 1/5/1968, regressou no mesmo navio em 3/1/1970.

Sobre a CART 2384 só tínhamos até agora 1 referência. E não temos nenhum representante. O Manuel Jordão Revelos, se nos ler, fica desde já convidado a sentar-se à sombra do poilão da Tabanca Grande. Estamos-lhes gratos pela partilha pública destas fotos de Farim e arredores.

Originalmente estas imagens estavam alojadas no portal Prof2000, que foi descontinuado: tinha uma excelente galeria de fotos, enviadas por antigos combatentes (e não só) da região de Aveiro ; era "um projecto com serviços de suporte à formação de professores a distância e de apoio às TIC nas escolas", tendo como público-alvo "Escolas, Centros de Formação, Centros Novas Oportunidades, professores, projectos de escola e comunidade educativa em geral". 

A página (que foi também recuperada pelo Arquivo.pt)  está agora alojada no Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE) > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital.

Ficámos a saber que uma decisão tomada em Lisboa, capital deste país macrocéfalo,  teve um efeito sísmico neste portal (Prof2000), como nos conta o coordenador do projeto (email: henriquejcoliveira@gmail.com ), que presumimos ser professor do AEJE, em Aveiro:

"Os responsáveis pela manutenção dos servidores do Ministério da Educação e Cultura, ao fim de 18 anos de compilação de documentos, eliminaram todo o espólio cultural do projecto comunitário Aveiro e Cultura. 

"Todas as hiperligações tiveram de ser refeitas para o novo alojamento, pelo que, eventualmente, algumas poderão não funcionar. Por isso, agradecemos a informação, para podermos corrigir o erro. Obrigado."

O  Arquivo Digital sobre Aveiro e Cultura (alojado no AEJE - Agrupamento de Escolas José Estêvão) tem como objectivo:
  •  a constituição de uma base colectiva de imagens, 
  • de livre utilização,
  • abrangendo todas as áreas temáticas,
  • obtidas de diferentes suportes (fotografias antigas, postais, diapositivos, etc.).
"Todas as imagens poderão ser livremente utilizadas, desde que não seja para fins comerciais, devendo-se ter o cuidado de indicar os respectivos autores e o endereço do local onde se encontram".

Obrigado, Henrique Oliveira. Parabéns pelo acervo fotográfico reunido e salvaguardado com tanto rigor e carinho. Muitas destas imagens estavam condenadas a ir parar á "cesta secção", ou seja, a "pubela", ao caixote do lixo.
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 24 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

 (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

 O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

Mesmo após a jubilação como professor catedráti
co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
  • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
  • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
  • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
  • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

 A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

JN - Porque não fugiu?

JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41