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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

Capa da revista Brasil-Portugal, edição de 16 de novembro de 1905. Aspeto curioso é a publicidade a uma água que foi famosa, Lombadas, tinha a sua nascente na ilha de São Miguel, Açores, quando prestei serviço militar como aspirante a oficial miliciano no Batalhão Independente de Infantaria nº 18, Arrifes, a escassos quilómetros de Ponta Delgada, descobri esta belíssima água de mesa.

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A Biblioteca da Sociedade de Geografia permite por vezes estes tesouros, eles surgem inesperadamente, anda-se à procura de trabalho sobre a cidade de Tomar, tinha havido uma excursão científica ao património tomarense, o Dr. José Vieira Guimarães, conceituado médico e historiador proferira palestra e andara como guia entre a cidade e o Convento de Cristo, e é a folhear os números da revista Brasil-Portugal,, publicação que é da sua existência entre 1899 e 1914, que aparece este trabalho sobre a Guiné, algumas destas imagens eram-me desconhecidas, outras não tanto.Porventura correspondente, o autor não está para vénias nem laudes, diz verdades como punhos, revela o estado da colónia, o domínio total do comércio por franceses e alemães, a permanente incúria num território com potencialidades agrícolas de indiscutível valor, falham estrondosamente os investimentos portugueses.

Um abraço do
Mário



Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905

Mário Beja Santos

Brasil-Portugal era uma revista quinzenal ilustrada, editou-se entre 1899 e 1914. De algum modo concorria com a revista Ocidente, eventos sobre a família real, visitas a lugares com património, noticiário sociopolítico; no caso vertente da Brasil-Portugal havia o foco de procurar sensibilizar os leitores de ambos os países não só para os laços irmãos como mostrar, dito em linguagem de hoje, as potencialidades da cooperação, despertando os interessados também para as possibilidades de investimento.

Ora neste número de novembro de 1905, temos um desassombrado artigo sobre a Guiné, encavalitado com outro da autoria do escritor Zófimo Consiglieri Pedroso, que foi Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, vai explanar sobre a guerra russo-japonesa que debilitou profundamente o regime czarista.

Indo ao que interessa, vejamos o que um autor anónimo, porventura correspondente da revista, veio dizer sobre o estado da Guiné:
“A enorme região da Guiné, tão descurada e quase desconhecida, é uma inesgotável mina de tesouros que ninguém pensou nunca em explorar, levando para ali capitais e elementos do trabalho. A nossa tradicional indolência e o receio do risco em matéria de empresas, tem deixado no abandono aqueles riquíssimos territórios em que há séculos dominamos dormindo. Todos os países coloniais tendem a desenvolver as suas possessões, e os que não as têm vão fixar-se nas alheia, explorando-as comercialmente e estabelecendo carreiras de navegação para os seus produtos que assim valorizam. Nós cruzamos os braços e assistimos impassíveis a essa invasão que pouco a pouco vai sugando o que poderia enriquecer-nos. É o que sucede na Guiné, em que a parte continental e a parte do arquipélago se medem por muitos milhares de quilómetros quadrados.

Hoje pode dizer-se que a Guiné é apenas uma grande feitoria comercial de alemães e de franceses que se limitam a importar mercadorias para a permuta sempre vantajosa com os produtos indígenas, numa luta contante de interesses e de competência. O negócio com os naturais no país está quase exclusivamente nas mãos desses concorrentes que auferem lucros fabulosos em prejuízo dos poucos portugueses que ali moirejam.

Nos séculos XVII e XVIII, Geba, Cacheu, Farim e Buba tiveram grande importância como depósitos de escravos, mas caíram em decadência, e estão reduzidos a pequenos povoados sem vida. Atualmente os verdadeiros centros comerciais são Bolama e Bissau. Na Guiné há comércio apenas, e esse acanhado, sempre o mesmo, sempre assente na troca de produtos e na exploração do trabalho do indígena.

Em agricultura não se pensa. A orientação sobre os modernos processos de plantação é nula. No entanto, os terrenos são feracíssimos, o clima e a humidade dos plainos os mais adaptados para todas as culturas intertropicais, e alguns dos seus portos naturais são amplas enseadas onde poderiam fundear navios das maiores lotações, a sua verdadeira riqueza seria a agricultura, que se mantém rudimentar. Começam a surgir tendências para um impulso agrícola. Mas não bastam esses movimentos isolados. Torna-se necessário que os governos coadjuvem essas iniciativas e que os capitais portugueses afluam corajosamente e concorram para o engrandecimento daquela província, hoje encravada em território francês. Poucos anos de cultura bastariam para se transformar a Guiné que, pela sua situação especial, pela sua flora, pelos seus jazigos mineiros, tem direito a sair da miséria em que se acha, e a deixar de ser, como é, um pedinte morrendo de fome sobre montanhas de ouro (…) A Guiné não tem défice. Vive com os recursos dos direitos aduaneiros e o imposto de palhota. Contém uma grande variedade de raças, sendo as menos atrasadas as dos Fulas e Mandingas, gente belicosa, mas submissa ao Governo e com ótimos marinheiros. Os Papéis, ainda asselvajados, são belos carregadores e os mais aproveitáveis para os trabalhos de campo.”


As gravuras que hoje publicamos foram-nos enviadas pelo nosso correspondente na Guiné e referem-se à viagem que o Governador, Senhor Carlos Pessanha fez há pouco tempo no interior, pelo rio Geba, e onde se reuniram 22 régulos com as suas comitivas compostas de Fulas e Mandingas, formando um grande exército de 20 mil homens a cavalo e a pé, e todos armados de espingardas e de espadas, estas fabricadas por eles próprios. Inesperadamente o texto muda para a guerra russo-japonesa, Zófimo Consiglieri Pedroso tinha a seu cargo a secção de política internacional, ela aparece dentro deste artigo da Guiné Portuguesa, todo o artigo que ele publica sobre o conflito russo-japonês está enxameado de fotografias da referida visita do governador Carlos Pessanha. Para que conste.


Fotografia do novo governador da Guiné (fevereiro de 1905 a agosto de 1906), publicada na Revista Brasil-Portugal, na sua edição de 16 de agosto de 1905
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Nota do editor

Último post da série de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

sábado, 10 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



1. LOCALIZAÇÃO GEOGRAFICA E POPULAÇÃO

Fajonquito é uma localidade situada a norte da região de Bafatá, a meio caminho entre Contuboel, sede do Sector de mesmo nome, e a localidade de Cambaju, junto à fronteira com a República do Senegal. Em termos tradicionais e de acordo com a distribuição territorial, Fajonquito faz parte do Regulado de Sancorla (antiga província do império mandinga de Kaabu_sec. XII-XIX) que, por sua vez, faz fronteiras ao norte com a linha da fronteira com o Senegal através da Diwal (Sub-divisão territorial em língua Fula) de Cambaju, a Leste com o Regulado de Sama (região de Gabu) através da Diwal de Panambo/Kerwane, ao Sul e a Oeste com o Regulado de Mansona e a Oeste com os Regulados de Oio e de Kola-Caresse através da Diwal de Canhâmina (ver mapa em baixo).

Fajonquito e seus arredores têm uma população estimada em pouco mais de 5.000 habitantes, agrupados em cerca de 1.200 agregados familiares, dos quais, mais de 2/3 são do grupo etnolinguistico Fula e perto de 1/3 são mandingas. Ainda se contabilizam outros pequenos núcleos populacionais organizados em famílias tradicionais, como Balantas, Djacancas e Saracolés.

Durante o período da guerra colonial, com a concentração da população nos locais mais seguros, Fajonquito e arredores concentrava uma população superior a 7.000 habitantes (Gois 1964/66) que, com o fim da guerra retornaram às suas aldeias de origem.

Segundo Armando Tavares (historiador português), geograficamente, Fajonquito está situado no local que nos mapas portugueses anteriores a 1955 se designava por Gam-Sonco. Atualmente o topónimo "Gam-Sonco" (Cansonco em mandinga) como tal existe, tratando-se, provavelmente, da designação de uma antiga Província do império de Gabu (Kaabu), que mais tarde, teria sido incorporado no Regulado de Sancorla.

Gam-Sanco ou Cansonco tinha a sua antiga capital na localidade de Berécolom, situado a 2/3 kms a norte de Fajonquito. Este importante bastião do império mandinga foi destruído pela confederaçao dos exércitos Fulas dos Almames de Futa-Djalon e dos seus aliados Firdunkés de Alfa Molo Baldé em meados de 1848/50, no início da guerra que culminaria com a derrota definitiva dos Soninkés (mandingas animistas) na grande batalha de Cansala em 1867, segundo alguns historiadores.

Guiné > Carta Geral da Províncía (1961) > Escala 1 / 500 mil > Posição relativa de Fajonquito, a noroeste de Contuboel.
Cortesia do Prof. Armando Tavares da Silva, autor de “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)” (Porto: Caminhos Romanos, 2016, 972 pp.)


2. ORIGEM E SIGNIFICADO DO NOME SANCORLA

Tudo leva a pensar que o nome Sancorla vem da palavra Soncoya ou Sonkoya que significa terra dos Sonco ou Sonko. Segundo Djibril Tamsir Niane (Guiné-Conacri), investigador e especialista do império mandinga de Gabu, na origem, Sancorla podia ser Sonkolla, quer dizer, terra ou território pertencente à dinastia dos “Sonco/Sonko”, príncipes de origem diversa mas assimilados a cultura mandinga que governavam esta Província mestiça de Birassu/B’rassu (para mandingas e fulas), Brassá/Brazza (para os balantas e Djolas) no período áureo do império de Gabú ou Káabu. Ainda, segundo Djibril Tamsir Niane a Província de Sonkolla era o domínio do clã Sonko, oriundos de uma miscigenação (mistura étnica) de autóctones Banhuns e Padjadincas mandiguizados com grupos de fulas pastores vindos de Mali (Macina) e de Boundu (Senegal) que, em ligação com as províncias mandingas iniciais de Gabu–(províncias Nanthiôs de Pathiana/Propana, Djimara e Sama/Manna), formaram as províncias designadas pelo termo mandinga de Kôring (ou seja de origem não mandinga) de Birassu/Brassu (Farin-Ba) de que a região de Sonkolla seria parte integrante, se não mesmo o seu centro. Ainda, segundo Tamsir Niane (citando Sekéné Mody Cissoko), o nome de “Farinsangul” na historiografia portuguesa (reinado de D. Joao I da dinastia dos Avis-1385-1433), seria a deformação de Farin-Sonkolla, em referência ao poderoso governador de Soncolla em Berécolom.

No séc. XV, os chefes (Farins) de Sonkolla, província habitada por uma população mista e belicosa, se extenderam a Oeste e fundaram muitas aldeias entre as quais Salikénie (situado na fronteira entre o Senegal e a Guiné-Bissau perto de Cambaju), Solikoo (Solucocum na grafia portuguesa, também na linha da fronteira entre Cambaju e Sitatô no famoso corredor do mesmo durante a guerra colonial), Bantadjam (Bantandjan) e Kagnamina (Canhámina, actual capital do Regulado de Sancorla).**

A capital da província, Bérécolong (Berécolom), situada a norte da atual vila de Fajonquito), onde residiam os chefes da província (Farim) e que desempenhavam um papel preponderante nas relações entre o poder central do império de Mali e o reino de Portugal em meados dos séc. XIV/XV, é uma localidade tão antiga como a velha Kansala, capital do império mandinga de Kaabu, diz-nos Tamsir Niane.

Perto das ruínas de Berécolom ainda existe uma aldeia antiga, de nome Farimbali* ou Farim-Baló que na língua mandinga quereria dizer o mais velho ou o mais importante dentre os Farins locais. Provavelmente, aqui seria a residência ou uma parte das residências do chefe do poderoso clã Soninké dos Sonco, antes do seu desmembramento e fuga para o Sul e Oeste (regiões de Cuor no Oio), com a investida dos exércitos da Confederação muçulmana dos fulas de Firdu (Alfa Molo Baldé), dos Imames do Futa-Djalon (Alfa Ibrahima de Labe) e grupos de mandingas muçulmanos aliados (Moricundas) revoltados com os seus irmãos Soninqués. Assim, as numerosas famílias dos Sonko teriam fugido para sul, espalhando-se pelas vastas regiões de Djoladu, Oio, Cuor, Cossé, Corubal e Quinara, onde fundaram aldeias com os mesmos nomes da sua região de origem, tais como Bércolon, Saliquenhé, Cambaju, Fajonquito (Pejungunto?) e ocupar lugares importantes de chefia, como foi o caso de Infali Sonco, proclamado régulo de Cuor, após a morte do Régulo Beafada, Galona Mané em finais do séc. XIX ou do seu tio Calonandim Mané (?), régulo de Cossé, no inicio do séc. XX.

Farim queria dizer uma chefatura, diríamos hoje, Governador ou Chefe de uma ou várias províncias na língua mandinga de então. Quanto ao termo mandinga “Cansonco”, seria na mesma lógica, uma localidade ou região autónoma da Província de Birassu/Brassu ou então poderia designar a mesma entidade geográfica que seria Sonkolla ou Sancorla. Actualmente, os regulados vizinhos, são o Corla (com capital no planalto do norte ou Cuntima) e o Caresse a oeste/noroeste e os regulados de Mansonna e Oio a sul/sudoeste. Fajonquito teria sido, certamente, uma localidade fundada no auge da época dos Sonko e cuja designação, durante muito tempo, se confundia com o nome do regulado ou seja “Gam-sonco” como nos explica Armando Tavares da Silva. A grafia aportuguesada de Fajonquito, aparentemente sem significado e dificil de interpretar teria surgido mais tarde, nos mapas portugueses, provavelmente, a partir da palavra “Pejunguntô ou Pejunkuntô”. Para o historiador português Armando Tavares, nos mapas portugueses, o nome de Fajonquito é muito recente (depois de 1950), sendo que em seu lugar estaria grafado o nome de Gam-Sonco ou Gam-Sanco (ver mapa em anexo). Segundo este mesmo estudioso da história da Guiné, no Oio existe uma aldeia com o nome de Pejungunto que, conforme se pode notar, tem uma impressionante semelhança gráfica com Fajonquito e questiona-se se não seria a designação primitiva na língua mandinga.

**Djibril Tamsir Niane: Histoire des Mandingues d’Ouest, le Royaume du Gabou. Karthala, Assoc. ARSAN, Paris, 1989.

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NOTA AVULSA :

La propension de ces autorités prédatrices a être subverties sur le lieu même de leur pouvoir peut surprendre. Ces substitutions de commandement se trouvent favorisées par l’existence de conventions et de codes partagés par les parties contractantes, des conquérants et des autochtones. Les autochtones ne sont jamais démis par les conquérants, cela serait attentatoire à la cohésion du nouveau pouvoir. Cette cohésion est naturellement servie par des trahisons programmées, par l’obligation de compromis et par d’opportunes conversions (…).

Les mécanismes institutionnels fonctionnent à l’identique et se révèlent d’une grande efficacité dans le bassin du lac Tchad. Face à des institutions indéfiniment recyclables, leurs contenus humains s’avèrent en revanche, extrêmement changeants. Les anciens détenteurs de pouvoir sont invités à fournir le notable ou un collège de notables qui va introniser – et parfois démettre – le chef dans la nouvelle dynastie des « conquérants », que ce soit un bay, un bwi, un lamido21… Les précédents donneurs de roi ne sont pas écartés, mais rétrogradés à d’autres échelons de la notabilité. Le substrat social général reste souvent très labile, depuis les segments de lignages jusqu’aux grandes fractions de l’ethnie. Jamais ossifié, il se révèle capable d’encaisser des départs et d’enregistrer des arrivées, ce qui renvoie à des processus d’ethnogenèse sans véritable commencement, ni fin. Lorsque les Ful’be subjuguent les Zumaya, ces derniers peinent encore à imposer et leur langue et leurs rituels religieux au sein même de leurs zones de peupleme (…).


Outre à demeurer ce qu’il est, le pouvoir aspire à devenir plus puissant encore grâce aux nouveaux venus. Chaque refondation repose sur les mêmes principes guerriers, conditionnée qu’elle est par l’impératif de conserver et de faire fructifier les mêmes espaces de conquête. L’esclavage demeure le nervus rerum. C’est autour de lui que se construit l’histoire de ces principautés gigognes (…).

Les ethnonymes constituent un biais original pour remonter le temps. Ils servent une forme de connaissance indirecte et déductive. La multiplication de ces traces orales renvoie à des événements historiques qui n’échappent pas à leur caractère probabiliste. La question sur les ethnonymes hérités ou non crée néanmoins un ‘objet historique’ qui participe, pour le Nord du Cameroun, comme le dirait P. Ricoeur (2000 : 225) à un simple “allongement du questionnaire”. Leur utilisation se trouve pourtant limitée par le maillage encore trop lâche de nos connaissances historiques dans le circum tchadien.


Referência : Christian Seignobos, « Les ethnonymes peuls comme révélateurs d’histoire dans le bassin du lac Tchad », Journal des africanistes [En ligne], 79-2 | 2009, mis en ligne le 01 avril 2013, consulté le 25 octobre 2018. URL : http://journals.openedition.org/africanistes/3093.
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Em meados dos anos 30/40, com o fim das guerras de pacificação e o incremento do comércio no território da Guiné, aparecem na região de Sancorla os primeiros comerciantes portugueses e luso-africanos (Guineenses e Cabo-verdianos residentes), e as localidades de Fajonquito e Cambaju foram escolhidas pelos régulos de Sancorla, para funcionar como centros de instalação de casas comerciais (compra e venda de produtos agrosilvopastoris como a borracha, coconote, mancarra, peles de animais entre outros), e desta forma ganhar a primazia em detrimento de Cansonco que hoje representa somente a faixa mais a poente de Sancorla na fronteira com o Corla, administrativamente situada na região de Oio com capital em Farim que, no decurso dos séc. XVIII/XIX, representava simplesmente o maior centro comercial da região Nordeste. Todavia, no inicio dos anos 1950, data do primeiro recenseamento nacional no território da Guiné portuguesa, Canhamina, Farimbali, Bantandjan e Tendinto, seriam as localidades mais importantes do ponto de vista político, sócio-económico, religioso e demográfico.


3. SIGNIFICADO E ORIGEM DO NOME FAJONQUITO

"Caro Luís,
A tal aldeia de "Pejungunto" na região de Farim, bem poderia ser uma grafia alternativa à de 'Fajonquito',  isto antes da normalização com o Governador  Sarmento Rodrigues."

E o prof Armando Tavares da Silva comentava:

" E a aldeia de "Gam Sancó" que aparece no Atlas de João Soares (Sá da Costa, 1949) e que desapareceu na relação de nomes geográficos de 1948, e ausente nas cartas de 1/50 000, o que será? Poderá ser a actual 'Fajonquito'? E 'Gam Sancó',  o que foi/é?"

Mantenhas!...
Luís (***)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  3 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18170: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (53): três balas de kalash para uma missão suicida: o trágico fim do ex-soldado 'comando', Cissé Candé, em abril de 1978

(**)  Vd. poste de 5 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17825: Historiografia da presença portuguesa em África (96): primeira relação de nomes geográficos da Guiné Portuguesa, em 1948, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues (Parte II)

1. Mensagem do nosso amigo e grã-tabanqueiro Armando Tavares da Silva, com data de hoje:

Caro Luís Graça,

O Post P18170,  do Grã-Tabanqueiro Cherno Baldé (*), fez-me apressar o envio da carta da “Província da Guiné” inserta no Atlas Colonial Português da Comissão de Cartografia do Ministério das Colónias, de 1914. Esta carta, que tem 100 anos, ajuda a conhecer as mudanças que sofreu a toponímica da Guiné.(**)

Para além da imagem de toda a carta (ocupa 2 páginas e tem a dimensão de 43 x 32 cm), envio ainda a mesma carta mas dividida em quatro partes para melhor identificação das povoações.

Uma das povoações que nela figura é Gam Sancó, povoação que não figura nas cartas mais recentes. Esta povoação figurava também nas cartas da Comissão de Cartografia de 1889 e 1906, e ainda no atlas de João Soares, que teve várias edições nos anos 1940, e era utilizado no ensino liceal. Para melhor identificação da povoação segue ainda uma parte ampliada daquela mesma carta, com a região a norte de Bafatá.


Quando o Armando me perguntou sobre a aldeia de "Gam-Sanco" no Poste de 07/10/2017 (luisgraçaecamaradasdaguine), confesso que fiquei intrigado sem perceber a minha relação com o assunto. Agora a situação começou a ficar mais clara para mim. De facto, das duas uma:
(1.ª hipótese) Ou Gam-Sanco seria a actual vila de Fajonquito nos primeiros mapas (Atlas de 1914 e mapa de João Soares) ou
(2.ª hipótese) Gam-Sanco (Cansonco) seria a designação genérica de toda a área onde se localizará, mais tarde, a vila de Fajonquito e que os portugueses, devido às dificuldades de tradução e interpretação, confundiram com a própria aldeia.
Estou mais inclinado por esta segunda hipótese, pois olhando detalhadamente os três mapas em presença, constata-se que os dois primeiros eram ainda "rudimentares" e pouco precisos. Fajonquito (Gam-Sanco) e Sare Dico (S. Dico) estão quase juntos, quando na realidade, estão distantes uma da outra por mais de 20 Kms. Bangigara (actualmente no sector administrativo de Saré-Bacar) também está muito perto quando a distância real desta localidade é cerca de 40 Kms. Ou se calhar, o topónimo de Fajonquito nem sequer existia nessa altura (1914).
Capa do Atlas Colonial Português, 1914  > Mapa da Guiné > Posição relativa de Gam Sancó, entre Cambaju e Bafatá (Armando Tavares), Blogue luisgraçaecamaradasdaguiné.

FAJONQUITO NO REGULADO DE SANCORLA

Segundo o historiador Armando Tavares, durante muito tempo, na cartografia portuguesa, não existia o topónimo (Fajonquito) e em seu lugar a zona era conhecida como sendo Gam-Sonco ou Cansonco. Na nossa opinião, a designação desta localidade por Gam-Sonco terá a ver com o predomínio dos povos de origem autoctone Banhum, Jola, Pajadinca e de diferentes outras étnias, muito poderosas que estariam instaladas nessa região (ver Djibril tamsir Niane) na altura da invasão e da conquista mandinga desta zona e que estaria ligado à instalação da Província do Birassu/Brassu (Brassa dos balantas) assim como outras províncias vizinhas, tendo como Capital a localidade de Berécolom ou Bércolon ou então seriam duas entidades diferentes (Gam-sonco e Sancolla) respresentando o mesmo espaço territorial ou espaços diferentes. Esta localidade (Bércolon) seria posteriormente atacada e destruída em 1948/50 pela coligação dos Fulas encabeçados pelos Almames de Futa-Djalon no início da guerra entre Fulas e Mandingas que levaria à conquista do império de Gabu (Kaabu) na memoravel batalha de Cansala (1867). Sabe-se, através da história oral mandinga, que nesta guerra, os Sonco de Sancorla distinguiram-se através do seu grande lider Ghâlen Sonco que era o braço direito de Djanke Wali, último rei Soninké de Gabu nesta histórica e decisiva batalha, mais conhecida em língua mandinga por Durban/Turuban-Kélo (fim da semente).

(continua)

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:

Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto que escrevi.
As cartas a Garcia ainda aguardam a sua vez?

Um grande Abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Os que ficaram e viveram as partidas

A frente da retaguarda

O tema partidas e chegadas não tem sido muito utilizado pelos muitos que enviam as suas vivências para o Blogue.

Cheguei a Lisboa no dia 6 de agosto de 1959 e fiquei a morar no bairro da Ajuda. A freguesia da Ajuda era e ainda é uma zona de muitos quartéis. Lá existe a Rua dos Quartéis, e a Travessa de Cima dos Quartéis. A partir do ano de 1961 esta zona passou a ser uma zona abundantemente frequentada por militares cujo destino era Angola. Para apoio a estas unidades militares foi adicionado o espaço da antiga cordoaria na Rua Junqueira de onde partiram os primeiros Batalhões com destino a Angola. Os embarques tinham lugar em Alcântara e na Rocha do Conde de Óbidos. Eram momentos muito emocionantes e dramáticos para os envolvidos.

Foi neste espaço de tempo que surgiu a célebre frase do Dr. Oliveira Salazar. Para Angola Já…! E em força...!

O último batalhão que terá passado pela Cordoaria terá deixado o espaço inabitável com a sua manifestação de protesto. Pelas ruas ouvia-se o sussurro de “Angola é nossa…”, “Angola é nossa...”.

Um amigo da minha aldeia veio ter comigo a Lisboa a pedir para o levar ao Quartel de Infantaria 1 para onde tinha sido recrutado, ao tempo localizado na Amadora. Quando ao fim de um mês o fui procurar, já o amigo João estava em Angola a defender a Fazenda Tentativa.

O objectivo primeiro de mais este pequeno retalho é deixar uma homenagem a todos aqueles, em especial às mães, que tanto sofreram, que não pegaram em armas para defender os ideais da Pátria, mas que na retaguarda sofreram bem mais do que nós. Éramos jovens, tínhamos uma maneira diferente de encarar a realidade que se nos deparava, alternamos momentos de sofrimento com bons momentos que ainda hoje recordamos com saudade. Somos pais, alguns são avós e isso leva-nos facilmente a compreender esse sofrimento de ansiedade permanente. Aqueles que nos viram partir e que carinhosamente nos receberam, merecem que nos curvamos em sua memória.

Sou pai de uma filha e avô de um neto a caminho dos 19 anos. Não consigo imaginar-me a assistir a uma despedida do meu neto a caminho de uma Guerra como foi a Guerra do Ultramar pela qual todos nós passámos.

Aconteceram situações de tal maneira chocantes que marcaram muitas pessoas para o resto da sua vida.

Permitam-me que recorde apenas duas que também me marcaram.

Uma esposa faz uma viagem de Lisboa a Bissau, para ir ao encontro do seu marido. Uma vez na Guiné, faz mais uma viagem até Farim. O seu marido estava a comandar a Companhia que estava sediada no chamado K3 que ficava a três quilómetros de Farim, mas bem dentro da mata do Oio. Para chegar mais depressa à margem esquerda do Rio Cacheu o marido, ansioso para abraçar a sua esposa, pede ao condutor para ser ele a conduzir. A meio do percurso uma mina anticarro atira pelos ares os ocupantes da viatura.

Esta ocorrência vitimou o marido que vinha ao encontro da sua esposa. O condutor teve ferimentos ligeiros. Ninguém foge ao seu destino.

Esta enorme tragédia que terá deixado de luto duas famílias, teve lugar num espaço que eu percorri sozinho para me encontrar com um conterrâneo que estava na Companhia que estava a construir o acampamento do K3.

Uma segunda situação muito menos marcante, mas de algum modo chocante e relacionada com as mães que tanto sofreram.

No dia 5 de janeiro do ano de 1996, uma colega de trabalho comunica-me telefonicamente de que não iria comparecer ao serviço porque tinha falecido a sua tia, mãe do seu primo falecido em Angola. O seu primo era o Alferes Manuel Luís Kágado, natural de Évora.

Fui consultar a minha lista dos mortos na Guerra, e verifico que esta mãe faleceu no mesmo dia em que o seu filho tinha sido morto. O Alferes Kágado foi morto em combate em Angola no dia 5 de janeiro, igualmente numa sexta-feira, do ano de 1968.

Assiste-se a algumas queixas de falta de reconhecimento por parte dos Governos presentes depois de terminada a Guerra. Convém não esquecer de que a atitude dos Governos tem estado na mesma linha do reconhecimento dos antigos combatentes para com os seus antepassados.

Foi anunciado, faz poucos dias, uma homenagem às mães, que irá ter lugar na Escola Secundária de Sacavém no dia 17 de outubro. Concordo plenamente com a iniciativa, embora a considere bastante tardia. Como se diz em bom português, “Vale mais tarde que nunca”.

Os militares mobilizados tinham direito a 10 dias de férias para se irem despedir do pai, da mãe, dos irmãos, da namorada, alguns da esposa e restante família que muitos deles não voltariam a ver.

Recorde-se um altar que fica do lado direito da porta de entrada para a Capela dos Ossos no Convento de São Francisco na cidade de Évora, onde não havia espaço para mais fotos de militares que ao tempo se encontravam em cenários de guerra.

A compreensão para com determinadas situações nem sempre era a mais recomendada. Na CART 730 estava um soldado natural de Peniche que era pescador na vida civil. Não tinha grandes habilitações literárias, mas era detentor de muita cultura. Era corajoso e destemido o que não agradava muito ao comandante da Companhia. Era casado e foi pai já depois de estar na Guiné. Como tinha direito a Abono de Família mandou ir a certidão de nascimento do filho que não conhecia. Quando se dirigiu à Secretaria para entregar a Certidão de Nascimento ouviu uma frase que não me atrevo sequer a transcrever.

O amigo Peniche que não era de temperamento fácil perdeu o seu poder de encaixe, fez asneira e acabou por ser punido com pena de prisão disciplinar.

No contexto de partidas e chegadas o Artur foi um sortudo. Estava em Lisboa quando foi mobilizado e para a família estar em Lisboa ou na Guiné não era uma diferença significativa. Namorada também não tinha.

Embarquei no cais de Alcântara subindo sozinho a escadaria do Timor com uma enorme carga de anginas e um frio de rachar. Ia de tal maneira maltratado que quando cheguei ao cimo da escada houve um Oficial que me disse: - Vais para a guerra nesse estado… Vai, mas é para casa.

A bordo do Timor seguiu também as Companhias 763 e 762, onde ia integrado o nosso camarada Furriel Mário Fitas. Eram as primeiras companhias a partir com farda camuflada. Por essa razão recebem a designação de Periquitos.

Depois de estar na Guiné também tive direito a algumas Madrinhas de Guerra. Uma delas era Governanta em casa de uma Alta Individualidade. Era a senhora D. Amélia, que já não era propriamente uma teenager, mas que me enviou vários livros. Recebi, enviados por ela toda a coleção do Padre alemão Tihamer Toth, para além de muitos outros.

Como tive de ficar mais seis meses na Guiné, mandei por um amigo da terra, uma mala cheia de livros.

Durante todo o tempo de Serviço Militar fui ouvindo sempre os queixumes dos camaradas de armas muitos dos quais não se me aplicavam, mas nem por isso deixava de os sentir, mas de uma maneira bastante diferente.

Assisti muito recentemente, durante um almoço de antigos combatentes da Guiné, em que um dos presentes na mesma mesa, já com 83 anos, não conteve as lágrimas ao recordar a presença dos seus pais durante a sua partida para a Guiné.

A perda de familiares durante a ausência, era bastante dolorosa, mas não havia nada que permitisse ultrapassar a situação.

Quando em 9 de fevereiro de 1967 entrei no Uíge, encontrei logo um velho colega de trabalho e amigo que fazia parte da tripulação. Era o cozinheiro da Messe dos Oficiais Maquinistas do Barco. Durante toda a viagem de regresso nunca compareci no refeitório.

O desembarque teve lugar no cais de Alcântara no dia 14 de fevereiro, dia dos namorados. Tal como na partida também à chegada não estava ninguém à minha espera que eu desse por isso.

Apenas uma nota final: durante o meu tempo de Serviço Militar, nasceram os meus três irmãos mais novos. A produção era excelente.

Artur António da Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 29 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
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Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A obra de Pedro Dias, conceituado professor de História de Arte, tem o seu foco nas relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente. Um dos seus trabalhos de referência é exatamente a Arte de Portugal no Mundo, que o Jornal Público deu à estampa em 15 volumes numa edição muito cuidada. Retirei este texto sobre a Guiné do volume centrado na África Ocidental, que recomendo a quem queira conhecer melhor o nosso património deixado em Arguim, no Senegal, na Guiné e Serra Leoa, S. Jorge da Mina e Benim, S. Tomé e Príncipe, reino do Congo e Angola.

Um abraço do
Mário



A presença portuguesa na Guiné:
A arquitetura colonial


Mário Beja Santos

Pedro Dias é um conceituado historiador de arte, o seu campo preferencial de investigação é o das relações de Portugal com a Europa e com os territórios de África, das Américas e do Oriente; foi professor catedrático da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra os seus livros são referenciais nos domínios da arte portuguesa no mundo. O Jornal Público editou um conjunto de 15 livros deste seu trabalho, o que agora importa é o quarto volume que trata do reconhecimento da costa de África subsariana, das navegações que levaram a dobrar o Cabo da Boa Esperança, o autor estuda as feitorias e posições fortificadas, recorda as artes de marfim e dos metais na Serra Leoa, Benim e Nigéria; a presença portuguesa está testemunhada em Cabo Verde e São Tomé onde se construíram fortalezas, igrejas e habitações à maneira do Reino; a partir do século XVII, na Guiné e Angola, que foi a principal possessão na África Ocidental, criaram-se vilas cujo incremento foi intensivo, a partir de meados do século XIX. Obviamente que nos vamos a ter ao que este conceituado historiador escreve sobre a Guiné.

A Guiné teve a primeira povoação de portugueses em 1588, de Cacheu, fundada pelo cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso, ficando sujeita à jurisdição de Cabo Verde. Em 1642, Gonçalo Gamboa de Ayala fundou Farim e Ziguinchor, ocupando-se pouco a pouco de outras povoações situadas nas margens dos principais rios: o Casamansa, o Geba, o Buba e o Cacheu. Em meados do século XVIII as principais praças fortificadas eram as de Cacheu, Bissau, Geba, Farim e Ziguinchor, importa dizer que eram bastante débeis do ponto de vista construtivo.

Falando da povoação de Cacheu, no final do século XVI, a fortificação resumia-se a uma paliçada e a uma tabanca com doze palmos de altura. Em 1629 já havia a intenção de fortificar a barra de Cacheu, em virtude dos ataques dos holandeses. Em 1644 D. João IV pediu aos moradores de Geba para se mudarem para Cacheu e ajudarem o Capitão Gamboa de Ayala a fortificar este lugar. Há notícia de estar de pé a fortaleza numa pequena elevação, tendo 18 ou 20 peças de artilharia. Era tudo manifestamente insuficiente, por documentação de 1772 sabe-se que em Cacheu havia carência de fortalecimento e de guarnição, que era fechada com paus do mato e a artilharia não tinha os indispensáveis reparos. Os habitantes levantavam pequenas paliçadas de estacaria, sobretudo à borda de água. Ocorreram grandes melhoramentos em 1788, o então Capitão da Praça, engenheiro Luís Pedro de Araújo e Silva deu conta à rainha D. Maria I que lhe faltavam os reparos para os canhões e casas de guerra. A povoação foi sempre muito modesta, em 1850 não teria mais do que 1.800 habitantes. São muitos escassas as informações quanto à arquitetura religiosa em Cacheu. Houve uma residência da Companhia de Jesus, mas em 1733 o capitão queixava-se do estado miserável da Igreja matriz, o edifício estava em ruína.

Ter-se-á fundado o estado de Bissau em 1456, procurou-se um acordo com o rei local para fundar uma fortaleza. Há uma carta para a Corte datada de 10 de janeiro de 1689 onde se diz textualmente ter sido feita a fortaleza de pedra e cal, tinha sete peças de artilharia. Sabe-se que as obras da fortaleza de Bissau não chegaram ao fim e que em 1708 a Capitania foi extinta e a fortificação derrubada. Segue-se um role de peripécias até se chegar à construção da fortaleza definitiva em 1766, a construção estava a cargo do Tenente Engenheiro Bernardino António Alves de Almada, quem ultimou os trabalhos da fortaleza foi António Félix do Amaral. A planta da Praça revela as suas pequenas dimensões, regular, com quatro baluartes poligonais ligados por cortinas retas, com escarpa exterior, parapeito, banqueta e terra pleno, e no interior, na Praça de Armas, os quartéis da tropa dispostos em quadrado. Conserva o essencial da sua estrutura primitiva, mas sofreu alterações significativas. A perda de valor estratégico levou à construção de um maciço de dependências de carácter administrativo, mas no fundo a fortaleza que se pode ver é ainda, no essencial, a de 1767.

A evolução urbana de Bissau deu-se fundamentalmente a partir da transferência da capital do território, deixou-se Bolama. Defendida por uma fortaleza com algum poder, estabeleceram-se outros dispositivos menores do lado do mar e do lado do sertão, o de maior dimensão chamado Forte Nozolini, de planta quadrangular, que ficava no extremo da paliçada, que saía do baluarte da Balança. Está bem visível numa vista da cidade publicada na revista Ocidente, que aqui se mostra. Recorde-se os nomes dos outros três baluartes do Forte de S. José: Bandeira, Poana e Onça. Construíram-se à sombra dos baluartes os principais edifícios administrativos, e também se lançaram as ruas fundamentais da expansão da urbe, com casas de habitação e comércio. A Rua do Fosso e Rua de Alfandega faziam face à fortaleza, mas a frente de água estava desimpedida com a Rua da Praia que ia desde o Largo da Fonte do Pijiquiti até à paliçada da Poana. Depois, a Travessa Larga e a Travessa da Igreja formavam os quarteirões com outras seis ruas ou travesses, entre a Rua do Fosso e a Rua da Tabanca, que as cortavam ortogonalmente. Mais tarde esta vias foram sendo batizadas com outros nomes, normalmente de personalidades que se desenvolveram na colónia, ou governantes portugueses, é o caso da Rua Honório Pereira Barreto, que na transição do século XIX para o século XX era uma das mais prósperas da cidade e dotada dos melhores edifícios.

É esta a matéria do historiador Pedro Dias sobre a Guiné.


Vista de Cacheu, cerca de 1850, gravura, coleção particular
Planta da Fortaleza de S. José de Bissau, século XVIII, imagem da Torre do Tombo
Entrada da Fortaleza de São José de Bissau, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista de Bissau em 1884, publicado em As Colónias Portuguesas
Rua Honório Pereira Barreto, século XIX, postal ilustrado, coleção particular
Vista do forte e da vila de Cacheu. Gravura da Histoire Générale des Voyages, século XVI
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Nota do editor

Último post da série de 17 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores.

Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.

Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.

O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição



História da Pista de aterragem de Jumbembem

Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.

A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.

Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.

A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.

A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.

O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.

A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.

Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.

Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.

Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.

A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.

O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.

Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.

Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.


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Posição relativa de Jumbembem na estrada Farim-Colina do Norte. © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné


Mote para a Pista

Primeiro interveniente

Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.

O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.

Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.

Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.


Segundo interveniente

O Luís é que escreve o seguinte:

"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."

Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.

Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.

Em 2014


O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.

Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.

São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:

1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.

2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.

3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI

O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.


Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.

1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.

2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.

3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.

Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.

Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.

Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.

Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.

Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.

Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.

Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.

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Nota do editor


Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28173: Fichas de unidades (41): CART 2384, "Leões do Norte" (Contuboel, Saliquinhedim / K3, Jumbembém, Farim, 1968/1970)


Guião da CART 2384. Coleção Carlos Coutinho (2009).

1. Temos apenas três referências à CART 2384, subuniddae que não tem nenhum representante na Tabanca Grande, apesar do convite já feito, em 28/2/2026, ao Manuel João Revelos, que vive em Cacia, Aveiro (ex-sold at art, nasceu em 15/12/1946 em Lavos, Figueira da Foz; do seu álbum publicámos, com a devida vénia, algumas fotos, incluindo cinco de  Farim)(*).

Para colmatar esta lacuna, publicamos para já a sua ficha de unidade (**). Esperamos que haja mais alguém que nos dê notícias dos "Leões do Norte", que estuveram em reforço de vários batalhões e outras unidades  (BCAV 1905, BART 1904, BART 1914,BCAÇ 1932, COP3).

2. Fichas de unidade:

Companhia de Artilharia n.º 2384

Identificação: CArt 2384

Unidade Mob: GACA 2 - Torres Novas

Cmdt: Cap Mil Art José Reis Fernandes Leitão | Cap Mil Inf António Luís da Silveira Santos Rodrigues

Divisa: "Leões do Norte" - "O Céu, a Terra e as Ondas Atroando"

Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 07Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

Em 11Mai68, seguiu para Contuboel, a fim de efectuar o treino operacional sob orientação do BCav 1905.

A partir de 05Jun68, ainda com a sua sede em Contuboel, assumiu as funções de companhia de intervenção e reserva do Comando-Chefe, tendo tomado parte em acções desenvolvidas na área de Fajonquito e Poidom (Xime), em reforço do BCav 1905 e BArt 1904, respectivamente. 

Em 16Jun68, foi colocada em Bissau, mantendo-se como companhia de intervenção e sendo atribuída em reforço do BArt 1914, de 17 a 20Jun68, com vista à realização de operação "Corsário Negro", na região de Jabadá-Budoco.

Em 25Jun68, assumiu a responsabilidade do subsector de Saliquinhedim / K3, em substituição de dois pelotões da CArt 1691 ali temporariamente colocados, tendo ficado integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e colaborando ainda nas acções de contra-infiltração no corredor de Lamel.

Em 07Dez68, após desactivação do subsector de Saliquinhedim (onde ainda permaneceu um pelotão até meados de Jan69) e em virtude da criação do subsector de Jumbembém, foi ali colocada, em substituição dos efectivos da CArt 2340 e mantendo-se integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1932 e depois do COP 3.

Em 01Jun69, foi rendida no subsector de Jumbembém pela CArt 2478, do antecedente ali colocada em reforço da guarnição local e foi transferida para o subsector de Farim, com um pelotão destacado em Saliquinhedim, a fim de substituir a CCav 1748.

Em 04Ag069, substituída no subsector de Farim pela CCaç 2547, regressou ao subsector de Jumbembém a fim de render a CArt 2478; em 05Jan70, por troca com a CCaç 2548, foi colocada de novo em Farim, com vista à realização do esforço de contrapenetração no corredor de Lamel.

Em 28Fev70, foi substituída em Farim pela CCaç 2681 e recolheu, por fracções, a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso, mantendo entretanto dois pelotões em Farim até à 3.a semana de Mai70, em reforço da actividade daquela subunidade.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 120 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 461/462

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Notas do editor LG:

(*) Vde. poste de 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:

Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.

Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Como era Jumbembem no ano de 1966

Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.

No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.

Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.

A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.

Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.

Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.

Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.

Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.

A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.

Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.

Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.

O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.

É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565

Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]

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Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.

Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.

No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.

No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.

Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.

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Notas do editor:

[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:

14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)

18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)