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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Vista aérea parcial da vila de Farim, sede de circunscrição e de batalhão


Foto nº 2 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Piscina local (construída em 1958)


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > K3/Saliquinhedim

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Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > NRP Sagitário, LFG P1131. Da classe Argos, este e outros navios estiveram ao serviço da Marinha Portuguesa, entre 1963 e 1975. 

Esta LFG  é a última, de  1965, tendo sido abatida em 7 de Setembro de 1974 e afundada a 21, a 104 milhas a Oeste de Bissau. Foram construídas do Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Tinham todas nomes de constelações (além destas,  havia ainda as seguintes: Dragão, Cassiopeia, Hidra. Escorpião, Pégaso, Lira, Orion, Centauro).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > Peixe-serra, capturado no rio Cacheu.

Fotos (e legendas): © Manuel Jordão Revelos (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Manuel Jordão Revelos (n. 1946,  Lavos, Figueira da Foz; mora em Cacia, Aveiro)


1. Manuel Jordão Revelos, natural de Lavos, Figueira da Foz; nasceu em 15/12/1946; mora em Cacia, Aveiro; foi sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70), mobilizada pelo RI 10,GACA 2. Partiu no T/T Niassa em 1/5/1968, regressou no mesmo navio em 3/1/1970.

Sobre a CART 2384 só tínhamos até agora 1 referência. E não temos nenhum representante. O Manuel Jordão Revelos, se nos ler, fica desde já convidado a sentar-se à sombra do poilão da Tabanca Grande. Estamos-lhes gratos pela partilha pública destas fotos de Farim e arredores.

Originalmente estas imagens estavam alojadas no portal Prof2000, que foi descontinuado: tinha uma excelente galeria de fotos, enviadas por antigos combatentes (e não só) da região de Aveiro ; era "um projecto com serviços de suporte à formação de professores a distância e de apoio às TIC nas escolas", tendo como público-alvo "Escolas, Centros de Formação, Centros Novas Oportunidades, professores, projectos de escola e comunidade educativa em geral". 

A página (que foi também recuperada pelo Arquivo.pt)  está agora alojada no Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE) > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital.

Ficámos a saber que uma decisão tomada em Lisboa, capital deste país macrocéfalo,  teve um efeito sísmico neste portal (Prof2000), como nos conta o coordenador do projeto (email: henriquejcoliveira@gmail.com ), que presumimos ser professor do AEJE, em Aveiro:

"Os responsáveis pela manutenção dos servidores do Ministério da Educação e Cultura, ao fim de 18 anos de compilação de documentos, eliminaram todo o espólio cultural do projecto comunitário Aveiro e Cultura. 

"Todas as hiperligações tiveram de ser refeitas para o novo alojamento, pelo que, eventualmente, algumas poderão não funcionar. Por isso, agradecemos a informação, para podermos corrigir o erro. Obrigado."

O  Arquivo Digital sobre Aveiro e Cultura (alojado no AEJE - Agrupamento de Escolas José Estêvão) tem como objectivo:
  •  a constituição de uma base colectiva de imagens, 
  • de livre utilização,
  • abrangendo todas as áreas temáticas,
  • obtidas de diferentes suportes (fotografias antigas, postais, diapositivos, etc.).
"Todas as imagens poderão ser livremente utilizadas, desde que não seja para fins comerciais, devendo-se ter o cuidado de indicar os respectivos autores e o endereço do local onde se encontram".

Obrigado, Henrique Oliveira. Parabéns pelo acervo fotográfico reunido e salvaguardado com tanto rigor e carinho. Muitas destas imagens estavam condenadas a ir parar á "cesta secção", ou seja, a "pubela", ao caixote do lixo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 24 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

 (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

 O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

Mesmo após a jubilação como professor catedráti
co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
  • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
  • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
  • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
  • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

 A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

JN - Porque não fugiu?

JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27769: Historiografia da presença portuguesa em África (518): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1962 (76) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Recorda-se ao leitor que surgiu, já no ano anterior, e agora às catadupas, extensa legislação, sobretudo emanada do Ministério do Ultramar. O investigador António Duarte Silva, em "O Império e a Constituição Colonial Portuguesa (1914-1974)", imprensa de história contemporânea, 2019, dá conta deste conjunto de reformas de 1961, sob a égide de Adriano Moreira (Páginas 208 a 214). O reflexo desta legislação na Guiné não se fez esperar. Como o leitor verificará, tomam-se medidas como os julgados municipais de trabalho ou as comissões municipais. Não há guerra de guerrilhas declarada, mas o Boletim Oficial não esconde em louvores ações que por vezes terminam com a morte de guineenses, membros da Polícia Administrativa e são igualmente retirados de funções pessoas "por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional". Peixoto Correia deixa a Guiné em outubro, dentro em breve será Ministro do Ultramar; a escolha do novo governador recai de novo na Armada, trata-se do Capitão-de-Fragata (aviador) Vasco António Martins Rodrigues, que chega a Bissau em 21 de dezembro de 1962. Viverá, obviamente, as primeiras ações de guerrilha, a desarticulação do Sul. Num quadro que é historicamente turvo, entrará em desavença com o comandante-chefe, Brigadeiro Lourdes Sousa, têm abordagens estratégicas diferentes, as quezílias ganharão notoriedade, em abril de 1964 serão os dois removidos e entra na Guiné o Brigadeiro Arnaldo Schulz, dirá que resolverá a guerra em poucos meses.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1962 (76)


Mário Beja Santos

A apresentação do Boletim Oficial mudou profundamente, não de look, mas de natureza. Já lá vão os tempos em que a esmagadora legislação era nada e criada na Guiné, já não falo dos relatórios de campanhas e expedições, reporto-me exclusivamente às informações que eram dadas tantas vezes com carácter não oficioso, matéria viva para análise do estudioso. Os acontecimentos de Angola, no ano anterior, despoletaram uma nova política ultramarina, com Adriano Moreira o acervo legislativo emanado do Governo central passa a aparecer no Boletim Oficial das Províncias. Fica, pois, muito diluída a informação local, esta ganhou formalidade e monotonia: questões avulsas, nomeações, reforço de verbas para as forças aéreas ultramarinas em vigor na Guiné, propostas de fornecimento… é óbvio que vão avultar os acontecimentos da guerra, será o caso de como se regularizam as condições em que os militares da Armada prestam serviço nos comandos navais e de defesa marítima do ultramar ou a restruturação das normas que devem regular nas províncias ultramarinas as organizações de voluntários em caso de necessidade de prestar colaboração às Forças Armadas; isto para sublinhar que é importante esmiuçar com atenção o rame-rame de medidas como as licenças para tratamento, as disposições do Conselho Superior de Disciplina do Ultramar, os anúncios de concursos, das medidas que revelam a emergência da guerra, como é o caso das instruções para o abono da alimentação por conta do Estado e da subvenção de campanha. São estas redações, mesmo orientadas para um espaço superior ao da Guiné que nos convocam para a sabermos o que está a mudar, veja-se este exemplo:
“Os militares e os civis militarizados que, nas províncias ultramarinas, façam parte das forças com a missão de restabelecer a ordem nas zonas onde a ação terrorista ponha em perigo as condições normais da existência da população, têm direito a: vencimentos normais que lhes competem quando em serviço na província; alimentação por conta do Estado; subvenção de campanha.” Mas também medidas como a atualização do regime de ajudas de custo de embarque e subsídio de interrupção de viagem relativos às forças terrestres ultramarinas. Ganhou premência a abertura de créditos a inscrever em adicionamento à tabela de despesas extraordinárias do orçamento.

Enfim, a guerra está a mudar o decisor político. Veja-se o Decreto-Lei n.º 44356, da Presidência do Conselho, no Boletim Oficial n.º 22, de 2 de junho:
“É gratuita a admissão e instrução em todos os estabelecimentos de ensino do Estado dos filhos dos indivíduos falecidos, mutilados, estropiados ou por qualquer forma incapacitados ao serviço da Pátria. O internamento em estabelecimentos de ensino do Estado poderá ser gratuito ou beneficiar de redução quando as condições materiais dos estudantes abrangidos pelo presente diploma o justifiquem.”

É claro que a vida continua, tomam-se medidas compatíveis com as regras do comércio, é o caso do regime respeitante à determinação, prova e verificação de origem nacional das mercadorias transacionadas entre territórios nacionais; ou institucional como a organização da Guarda Fiscal. O Ministério do Ultramar não para, pelo Decreto n.º 44310, a revogação do Estatuto dos Indígenas e mais recentemente do Código do Trabalho Indígena implica a revisão da estrutura dos Tribunais de Trabalho, respetiva competência e processo aplicável; e aquela necessidade que mais se evidencia com a publicação do Código do Trabalho Rural (relações jurídicas de trabalho emergentes de qualquer convenção em virtude da qual uma pessoa, mediante remuneração, preste serviços a outra, sob direção desta); e há medidas fiscais que abrangem as províncias ultramarinas, caso do imposto sobre os proventos de cargos públicos; temos também a autorização que se dá aos governadores das províncias de Cabo Verde e da Guiné para abrir créditos, com contrapartida no saldo das contas de exercícios findos.

Há quem diga que a guerra de guerrilhas na Guiné começou em janeiro de 1963, o que não é rigorosamente verdade, basta ler-se o louvor a um 1.º Cabo do Corpo da Polícia de Segurança Pública pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo evidenciado numa ação efetuada pelas forças da ordem, concorrendo decisivamente para a captura de um indivíduo que pretendia praticar atos de subversão na Província. Há também referência à organização de autodefesa por parte das empresas consideradas como indispensáveis à vida regular da Província, é o caso de: António Silva Gouveia; Sociedade Comercial Ultramarina; Mobil Oil; SACOR; Shell e B.P. Sim, há guerra, veja-se o louvor dado ao cipaio Cofai Turé, da Administração do Concelho de Farim, pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo com que desempenhava várias missões de segurança, qualidades que especialmente evidenciou ao participar na madrugada de 24 de agosto na povoação de Cã Quelu, área de Mansabá, numa ação efetuada pelas forças da ordem da qual resultou a sua morte ao serviço da Pátria.

Mas há muito mais: foi aprovado o Código do Trabalho Rural, prosseguem os anúncios de concursos, autoriza-se a instituição de julgados municipais de trabalho nas sedes das comarcas. Ainda não há guerra de guerrilhas, mas há seguramente subversão: foram demitidos dos cargos de regedores de Caió e Churo e de alferes de 2.ª linha Francisco Mango e Luís Belencante Rodrigues dos cargos de encarregados do regulado de Indafe e Ocante Agebane por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional. Há notícias da PIDE, partidas e chegadas de elementos. Foi publicado o Regulamento sobre o movimento migratório na Província: “É proibida a fixação na Província de quaisquer pessoas cuja presença seja inconveniente, mormente os que pela sua presença possam causar alteração da ordem pública ou outros graves inconvenientes, quer de ordem interna quer de ordem internacional.”

Peixoto Correia segue para a metrópole em 30 de outubro, assume funções de Encarregado de Governo o Coronel João Augusto da Silva Bessa. O novo governador, Capitão-de-Fragata (Aviador) Vasco António Martins Rodrigues chega a Bissau em 21 de dezembro.

Retém-se da mensagem de despedida de Peixoto Correia:
“A melhor e mais sã colaboração que podem dar ao meu substituto é de amarem constantemente Portugal, repudiando qualquer aliciamento no sentido deste território alinha com os países onde se notam já evidentes sinais de perturbação social e económica, devido à saída dos europeus.” E acena com o caos das lutas tribais que sem a presença dos portugueses não podiam ser facilmente dominadas.

Família Fula
Dança da “banda” Nalu
Penteado Saracolé
Regedor de Jugudul, de etnia Balanta, concelho de Mansoa

Estas quatro imagens foram reproduzidas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1962

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27747: Historiografia da presença portuguesa em África (517): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1961 (75) (Mário Beja Santos)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27670: Tabanca Grande (578): António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857; GA 7; COP 6; CAOP1 e BCAÇ 3884 (1970/72), senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar 912

1. Apresenta-se à tertúlia António Brito Ribeiro, ex-Alf Mil TRMS da CCS/BART 2857 (Piche); GA7 (Bissau); COP 6 (Mansabá e Farim); CAOP 1 (Teixeira Pinto) e BCAÇ 3884 (Bafatá):

O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro, nosso novo amigo e camarada de armas, que se vai sentar no lugar 912 da tertúlia


Percurso Militar de António de Brito Ribeiro,

- Recruta para o COM (Curso de Oficiais Milicianos), na EPI em Mafra, no 3.º turno de 1969

- Especialidade de Transmissões de Infantaria do COM, na EPI em Mafra, no 4.º turno de 1969

- Como Aspirante a Oficial Miliciano dei instrução de Transmissões a um pelotão de cabos milicianos, no CISMI (Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria) em Tavira, nos primeiros 2 turnos de 1970

- Em junho de 1970, fui mobilizado para a Guiné, em rendição individual e promovido a Alferes

- Fiz a viagem para a Guiné no navio Ana Mafalda, tendo feito escalas em Cabo Verde, nas ilhas de S. Vicente (Mindelo) e S. Tiago (Praia) cerca de 10 dias

- Chegado à Guiné em 2 de julho de 1970, passei uma semana em Bissau a aguardar transporte para PICHE no leste da Guiné, para desempenhar a função de Oficial de Transmissões na CCS do BART 2875, em rendição individual do anterior Alferes. Em Piche encontrei e convivi com o Zé Gouveia (Zé Bentinha) que prestava serviço no STM. Loriguense e também da minha idade, deu-me dicas importantes para a comissãoque estava a iniciar.
Vista parcial de Piche. Foto com a devida vénia ao blogue do BART 2857. Editada por Carlos Vinhal

- Regressado a BISSAU em outubro, após a rendição e regresso à metrópole do BART 2857, fui integrado no GA 7 (Grupo de Artilharia n.º 7), com as funções de Oficial de Transmissões e de Oficial da PJM (PolíciaJudiciária Militar).

- Em 10 de dezembro de 1970, fui punido com 5 dias de prisão disciplinar, por me ter negado a punir o motorista do comandante, adulterando e simulando falsas acusações, num auto que o mesmo mandou abrir para o efeito. Apesar de ter reclamado e depois recorrido da punição, foi a mesma reduzida para repreensão, pois apesar de me ter sido dada razão, ficou registado que me neguei a cumprir uma ordem de comando, infringindo assim os deveres do n.º 1, do Art.º 4, do RDM.

- Na sequência desta situação, fui transferido para o COP 6 (Comando Operacional 6), em MANSABÁ, no meio das matas do Morés e Oio (zona de guerrilha intensa), desempenhar a função de Oficial de Transmissões e de Operações. Este Comando Operacional, coordenava a proteção aos trabalhos da estrada entre Mansabá e Farim, contando para o efeito com as seguintes forças: Companhias de Caçadores Paraquedistas CCP 121 e CCP 122, 27ª Companhia de Comandos, CCAV 2721 (comandada pelo capitão Mário Tomé), CCAÇ 2753 (Açorianos), CART 2732 (Madeirenses), EREC 2641, 21.º PELART (10,5), 27.º PELART (14), PELART 8,8, PELSAP BCAÇ 3832. Quando a construção da estrada se aproximou de Farim (+/- 3 Km), o comando do COP 6 mudou-se para FARIM, nas margens do rio Cacheu, localidade com uma dimensão e população muito razoáveis.

- Após a conclusão das obras e do COP 6, já no final de 1971, fui transferido para o CAOP 1 (Comando de Agrupamento Operacional 1), em TEIXEIRA PINTO, comandado pelo Coronel Rafael Durão, que liderava toda a Intervenção Operacional naquela zona, desempenhar a função de Oficial de Transmissões. Teixeira Pinto já era uma localidade de grande dimensão para a Guiné, com muito comércio e, uma sala de cinema e de festas.
Vista aérea de Mansabá. Foto: Carlos Vinhal

- Quando em março de 1972, estava a terminar a comissão e preparar para regressar ao continente, apenas aguardava a guia de marcha, fui requisitado para ir dar a instrução e tirocínio ao BCAÇ 3884, com destino a BAFATÁ, atendendo à fuga do Oficial de Transmissões para o estrangeiro. Após o tirocínio em Nhacra (+/- 3 semanas), próximo de Bissau, o Batalhão seguiu em lancha e coluna até Bafatá, onde estive até junho de 1972, a instruir e comandar o pelotão de Transmissões da CCS e, acompanhar a rendição do anterior Batalhão, que por curiosidade tinha sido rendido em 1970, quando da rendição do meu Batalhão de Piche. BAFATÁ era uma localidade de grande dimensão para a Guiné, onde havia muito comércio e uma ótima piscina fluvial.

- Terminei a comissão e regressei à metrópole em 23/junho/1972
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Bissau
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Piche
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Piche
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Mansabá
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Mansabá
O Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro em Mansabá
O ex-Alf Mil TRMS António Brito Ribeiro actualmente

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2. Comentário do editor CV:

Caro amigo Brito Ribeiro,
Sê bem aparecido na tertúlia. Um dos lemas do nosso blogue é "o mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é grande". Talvez por isso, tenho vivido aqui algumas agradáveis surpresas, vendo aparecer camaradas que jamais imaginaria voltar a "ver". No nosso caso particular, já nos tínhamos encontrado em 2009 em Arruda dos Vinhos, mas com a nossa idade, cada reencontro pode ser o último, principalmente, quando como é o nosso caso, estamos geograficamente distantes.
Arruda dos Vinhos, 18JAN2009 > 1.º Encontro da CART 2732 > Na foto, a partir da esquerda: Cor Art Ref Carlos Marques Abreu; António Brito Ribeiro; Cor Art Grad DFA Ref Américo Almeida Nunes Bento, Carlos Vinhal e João Malhão, organizador do Encontro.

Há na tertúlia um bom grupo de camaradas que passaram por Mansabá, um dos melhores resorts da Guiné, onde até nem faltavam sessões de fogo de artíficio, incluídas na diária.


Referes e eu confirmo, que em meados de Março de 1971, o COP 6 foi deslocado para Farim, mas regressou em fins de Abril à base, Mansabá, onde permaneceu até ser desactivado em 20 de Julho de 1972. A actividade operacional naquela zona exigia um COP. Julgo que ainda foste contemporâneo do Major (ou TenCoronel?) Correia de Campos, que a determinada altura foi deslocado para a Península de Gampará onde havia muito barulho. Em Maio de 1973 vamos voltar a ouvir falar dele, agora em Guidaje, onde segundo os relatos, foi um herói, incentivando e comandando a guarnição daquele quartel num dos momentos mais difíceis da nossa guerra.

Ainda hoje mantenho contacto com o senhor Coronel Carlos Alberto Marques de Abreu, Comandante do COP 6 e com o senhor Coronel António Carlos Morais da Silva, que faz parte da nossa tertúlia, que como Adjunto também passou pelo COP 6.

Falei do nosso tempo comum em Mansabá, de ti e das tuas vivências por terras da Guiné falarás tu melhor que ninguém. É um convite.

Fico ao teu inteiro dispor para o que achares útil.

Em nome da tertúlia, deixo-te um abraço de boas-vindas.
Carlos Vinhal

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Nota do editor:

Último post da série de 21 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27339: Tabanca Grande (577): Timóteo da Conceição dos Santos, ex-Fur Mil Inf Minas e Armadilhas da CCAÇ 2700 / BCAÇ 2912 (Dulombi, 1970/72), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar nº 909

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)






In:  O Mundo Portuguès, nº 28, abril de 1936, pp. 185-187




Artur Augusto Silva
(1912-1983)
2. O João Schwarz da Silva, nosso grão-tabanqueiro, irmão mais velho do Pepito (1949-2012), tem sido o guardião das memórias da sua família, do lado paterno (Artur Augusto Silva, 1912-1983) como do lado materno (Clara Schwarz, 1915-2016).

Veja-se o seu blogue:

https://des-gens-interessants.blogspot.com

Foi daqui se tomámos a liberdade de "recuperar" e divulgar  um interessante conto de caça.  Diz o filho João que terá sido provavelmente o seu primeiro conto.

Em abril de 1936 Artur publica na revista “O Mundo Português” o que foi provavelmente o seu primeiro conto, "Abdulai, o Caçador”, "no qual revela um pouco da sua infância em Farim"...


São memórias de há mais de 100 anos, época em que ainda apareciam, no norte da Guiné,
elefantes solitários, que causavam estragos nas plantações dos mandingas.

A antiga página do João continua aqui disponível, em arquivo morto, no Arquivo.pt:



3. Quanto à revista "O Mundo Portuguès", acrescente-se o seguinte:

(i)  foi um importante órgão de propaganda colonial e cultural do Estado Novo em Portugal;

(ii)  fundada por Augusto Cunha em 1934 e publicada até 1947;

(iii) sendo veículo da ideologia imperial do regime e do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN);

(iv) dirigida por Cunha até 1947, promovia a "Política do Espírito" e a importância das colónias;

(v) contou  com textos de figuras como António Ferro, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa:

(...) Escritor e jornalista português, Augusto Cunha (1894-1947) iniciou a sua vida literária com António Ferro, com quem escreveu o livro de versos Missal de Trovas, publicado em 1914. Dedicou-se também à prosa humorística e ao teatro, e colaborou em vários jornais e revistas, como o Domingo Ilustrado, a Ilustração Portuguesa, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, o Sempre Fixe, entre muitos outros.

Amigo de António Ferro e de Mário de Sá-Carneiro desde jovem, integrou a Geração de Orpheu, da qual também fariam parte Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Alfredo Guisado. Em 1934, Augusto Cunha fundou a revista O Mundo Português, um dos mais importantes órgãos de propaganda colonial do Estado Novo, que dirigiu até 1947. Após a sua morte, só seriam publicados mais dois números.

A edição, lançada no ano da Exposição Colonial Portuguesa do Porto, traduziu a política colonial do Estado Novo, assumindo-se como veículo de difusão da ideologia imperial do regime e da sua «Política do Espírito», conduzida pelo SPN de António Ferro.(...)

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27570: Efemérides (380): Aconteceu há 60 anos em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:

Aconteceu há 60 anos

No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.

Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.

O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965

O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.

Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.

Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.

Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.

Artur Conceição
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Nota do editor

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Os tambores da guerra chegaram aos Boletins da Associação Comercial da Guiné. Haverá no entanto questões associativas graúdas que não são perceptíveis só da leitura dos editoriais do Presidente da Direção estar constantemente a fazer apelos à Unidade, lamentando casos de concorrência desleal. A organização de cada um destes números do Boletim, estou seguro, merecerão leitura convidativa dos investigadores: temos aqui o rol minucioso de importadores e exportadores; o seu grau de intervenção seja junto do Governador ou até no envio de cartas ao Ministro do Ultramar; apoiam a formação de milícias (estamos em 1962) e louvam a organização destas em Mansabá e Farim e para além de Xime, o que bate certo com as áreas de infiltração e posicionamento dos acabamentos os guerrilheiros para lá do Corubal e na região do Morés. A Associação atribuía bolsas de estudo e criara uma secção de assistência social. Se bem que episodicamente já se fazem perguntas políticas, como, por exemplo, perguntar as razões do anticolonialismo norte-americano. E há artigos de informação económica sobre o amendoim, o arroz, a borracha, o mel e os couros. Vamos prosseguir, na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa ainda há mais uns anos de Boletins. Tenho que bater à porta da Biblioteca Nacional para saber que aqui vou suprir tal carência, gostava de saber se o Boletim foi publicado até 1974.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 5


Mário Beja Santos

A leitura dos sucessivos Boletins de 1962 irão permitir compreender que há sérios desconfortos na vida associativa, o Presidente da Direção está permanentemente a clamar “Unidade! Unidade!”, e no número de junho, numa escrita um tanto vernacular, não esconde as suas queixas, onde não falta azedume:
“Nesta Guiné caminhante pachorrenta e ensonada dum trilho interrupto, vário e contingente em que se produziu a sua parcimoniosa evolução ao longo de muitas décadas, dócil por atavismo e bem-comportada por tradição, umas centenas de indivíduos – ditos comerciantes e industriais! – à unificação salvadora preferem os caminhos da deriva, renegam-se e se se encontram é para destroçarem-se numa concorrência desmedida, ilógica, desleal.”
Depois dos queixumes recorda-se a necessidade de manter as quotas em dia e enfatiza-se a unidade em torno dos interesses comuns. Faz-se o anúncio da atribuição de bolsas de estudo e a criação de um serviço de assistência social a associados em precariedade.

Nunca como nesse ano os dirigentes se revelaram tão reivindicativos. Escreve-se sobre a borracha, uma riqueza inaproveitada, pede-se ao Governo a eliminação das imposições aduaneiras, a bonificação do frete marítimo para o produto destinado ao Continente, lembrando que há uma concorrência com a borracha recebida do Índico.

E também nunca como agora surge imensa participação dos leitores. Aparece uma curiosa caixa com muitas perguntas:
“Por que motivo não exportamos mais ginguba? Por que não aumentar a produção de óleo de amendoim? Por que valorizamos o franco da AOF acima do câmbio oficial? É princípio moral, se quer ponto de vista político o anticolonialismo no Ianque? (Dá-se a seguinte resposta: no século passado foi programa de partido para uso interno, variável com as preferências do eleitorado: sulista ou nortista. No presente, é arma política de que os EUA se servem para combater a Europa. O nosso País está na tabela).”

A Associação revela-se de facto participativa, atuante. Veja-se a carta enviada ao Encarregado do Governo sobre a campanha da mancarra, dando sugestões: antecipar por uns dias a data da abertura da campanha, propõe-se 10 de dezembro; pede-se a fixação dos contingentes exportáveis; e considera-se indispensável saber com antecedência os preços FOB-Bissau e CIF-Lisboa, que são estabelecidos pela Metrópole, etc. etc. Vemos também nos sucessivos números a manutenção de secções informativas e a listagem das relações dos importadores e exportadores na Guiné. Anuncia-se no número de dezembro a vinda do novo Governador, Comandante Vasco Rodrigues.

Terá porventura utilidade dá conta, com algum desenvolvimento de situações em que a Associação se revela não só conhecedora das realidades económicas, é combativa e faz-nos querer que sabe com bastante rigor do que fala. Veja-se o extrato de uma carta dirigida ao Governador da Guiné sobre a campanha do coconote, há aqui neste conjunto de imagens uma que revela um certo sabor de vitória:
“Senhor Governador,
Dirigem-se-nos alguns exportadores pedindo a nossa intervenção no sentido de esclarecermos o Governo da Província na conveniência de promover, pela estância competente, a atualização do valor fiscal do coconote, fazendo-o corresponder, como é lógico esperar-se, à cotação efectiva e em prática na Província desde o princípio do ano corrente: 1$90 por kilo nos portos de embarque; de contrário, voltarão, por certo, a repetir-se as imobilizações nos armazéns de consideráveis quantidades do produto, com todas as consequências nefastas, entre as quais sobreleva o excesso de acidez que, aviltando a qualidade, desacredita e torna impraticável a exportação para os mercados estrangeiros, donde os dois seguintes resultados previsíveis: aviltamento do preço de compra aos naturais; não diremos a total paralisação, mas um retraimento muito sensível nas aquisições àqueles, e sempre, em qualquer das hipóteses, com maléficas consequências no equilíbrio social e económico da Província, o que a todos compete evitar.”

Como se pode ver na imagem que aqui se junta com o título Última Hora, foram bem-sucedidos.

Em 1962 já está declarada a subversão na Guiné, e no Boletim Oficial, a propósito do assassínio do cipaio Cofai, considerado um homem bom, respeitado e respeitador entre Mandingas, Balantas e Fulas, que parecia destinado ao regulado de Oio, exulta-se a resposta dada pelos 1200 mancebos guinéus para incorporar a milícia da Guiné portuguesa, eles serão os guardiões desta terra sagrada que irão banir os nocivos sediciosos, ora convertidos em sectários do mal. Se estes 1200 mancebos irão defender as populações de Mansabá e Farim, há também que contar com os 600 naturais para lá do Xime.

E há também uma carta enviada ao Ministro do Ultramar a propósito de uma arbitrariedade que impediu o reabastecimento de “frescos” destinados à população civil da Guiné pelo vapor da carreira Ana Mafalda, e diz-se claramente:
“Estamos em guerra, sabemo-lo – senão efectiva, por hora, de nervos há muito. Em posição fronteira, vivemos parelhas com os nossos soldados os riscos, a ansiedade, o nervosismo, o desconforto moral e material. Vivemos com eles em estreito, fraterno convívio e, desde a primeira hora que a defesa da Pátria os atirou para estas paragens, estamos decididos a dar-lhes o calor humano da nossa assistência.

Exigimos que aí na Metrópole os homens que mandam, saibam que ainda existimos ao lado das forças militares e que nós próprios temos o direito de comer as hortaliças e os legumes e os frutos e a sardinha e o carapau e os demais frescos da Pátria distante, porque temos a mesma boca para comer, para falar e para reclamar sendo preciso. Que não podemos compreender e muito menos aceitar sem espanto e sem revolta que os serviços de Manutenção Militar em Lisboa exijam para seu uso exclusivo os frigoríficos dos navios – dos navios das nossas carreiras – aqueles que servem habitualmente a Província e a abastecem e que nós pagamos bem caro, com total desprezo pela gente sem farda, porém torna-se necessária no território nas suas funções pacíficas, como aqueles que esses aí julgam estar protegendo e servindo bem para, afinal, envergonharem com o tratamento de exceção.”


Vamos ver no próximo número o ano de 1963.


Publicidade ao Grande Hotel, em Bissau, publicada num Boletim da Associação Comercial de 1962
Peixoto Correia, o Governador da Guiné que irá ser o próximo Ministro das Colónias, imagem inserta num dos números do Boletim da Associação Comercial de 1962
Lembrança aos associados de que a Direção tivera uma vitória com o valor fiscal do coconote
Publicidade de uma renomada casa comercial de Bissau
Penteado de uma Boenca
Papéis (Safim), mulheres a pescar
Felupes (Susana), mulher com cesto

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1962

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post da série de 12 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27523: Notas de leitura (1873): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 15 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27533: Notas de leitura (1874): "Cartas de Guerra (61-74) Aerograma Liberdade”, por Ricardo Correia; edições Húmus, 2024 (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27544: Efemérides (379): No dia 24 de Dezembro de 1969 o PAIGC instalou-se com armas pesadas junto à fronteira, mas dentro do Senegal, desencadeando uma violenta acção militar contra Cuntima (Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2592/CCAÇ 14)

1. Mensagem do nosso camarada Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2592/CCAÇ 14 (Cuntima e Farim, 1969/71), com data de 17 de Dezembro de 2025:


24 de dezembro de 1969

Três grupos de combate saíram manhã cedo para interditar os carreiros de infiltração do PAIGC no corredor de Sitató.

Era prática comum estarem no mato 2 ou mais grupos, por períodos de 48 horas. Cuntima tinha como guarnição militar 2 companhias operacionais, naquela época a CCAÇ 2549 e a CCAÇ 14, mais um Pelotão de Armas Pesadas e um Pelotão de Milícias.

A mim e a mais uns quantos sortudos, coube-me ir defender a minha querida pátria, sempre representada na figura da CUF, contra os malfeitores que se propunham tomar como seu, aquilo que lhes pertencia.

Posição relativa, Farim - Cuntima - Colina do Norte - Sitató
© Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné. Carta da Província da Guiné 1/500.000

Deslocámo-nos e emboscámos diversos trilhos e sítios que podiam eventualmente ser passíveis da deslocação de forças do PAIGC.

Não houve contacto. Mas por volta das 21,30 do dia 25 rebenta um fortíssimo ataque a Cuntima.

O PAIGC instalou-se com armas pesadas junto à fronteira mas dentro do Senegal e desencadeou uma violenta acção militar.

Em boa hora a nossa resposta os calou.

Recordo os clarões dos rebentamentos vistos do mato e a preocupação que se apoderou de nós.

Esse foi o meu primeiro Natal da guerra maldita.

Felizmente só houve uns quantos feridos ligeiros.

A todos os que continuam no activo, da memória e da confraternização, votos de boas festas na companhia daqueles que transportem nos vossos corações.

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Nota do editor

Último post da série de 27 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27468: Efemérides (378): foi há 55 anos a Op Abencerragem Candente (25 e 26 de novembro de 1970, subsetor do Xime), com meia dúzia de mortos de um lado e do outro