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domingo, 26 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28214: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (55): Mafé e Baguitch (Henk Heggens, médico neerlandês, especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, Fulacunda e Bissau, 1980/84)














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Fotos: Henk Eggens (2025)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Texto enviado para publicação no nosso blogue por Henk Eggens, médico neerlandês, especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública):


Data - sábado, 25/07, 11:19 (há 1 dia)
Assunto - Mafé e baguitch

Olá, Luís,

Gostei da história sobre as riquezas culinárias da Guiné (*). Deixou-me com água na boca e trouxe-me boas recordações. Achei, no entanto, que faltavam dois pratos emblemáticos da gastronomia guineense: a mafé e a baguitch.

Consultei o meu amigo Steven, que viveu muitos anos na Guiné, e recorri também à IA. Com base nisso, escrevi o texto em anexo, para tua apreciação e eventual publicação como comentário ao artigo referido.

Bom fim de semana!

Henk



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 1980 > "Casa do médico, Land Rover do projeto, mota da noiva e carro 404 privado".

Foto: (e legenda) © Henk Eggens (2024). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]



Foto nº 2 

2.  O meu amigo
Henk Eggens  (ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores...) é:

(i)  neerlandês, médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública), cidadão do mundo;

(ii) já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iii) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda) (Fotos nº 1 e 2) (1980/84);

(iv) antes tinha estado em Cabinda, Angola (1976/78); também trabalhou na Indonésia;

(v) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(vi) está reformado (Foto nº 3);

Foto nº 3

(vii) é um apaixonado por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, a lusofonia...

(vii) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão;

(viii) a sua companheira é luso-brasileira; 

(ix)  administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(x) tem 10 referências no nosso blogue;

 Quero reforçar o meu o convite, endereçado já há tempos,  para, de pleno direito, ele  passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  


Não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos aseis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil. 

O facto de manter um sítio como  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold; outras criam pontes entre países. O Henk pertence claramente ao segundo grupo. Traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural.

Naturalmente, que a sua presença, à sombra do nosso poilão,  só pode honrar-nos e enriquecer  o nosso blogue e as nossas memórias da Guiné.

Pedi à minha menina IA do ChatGPT para lhe fazer uma BD: não é uma biografia, mas uma pequena narrativa gastronómica e humana; e o estilo gráfico é o habitual, de que eu mais gosto, e que  temos vindo a apurar, a linha clara franco-belga. Esta BD não será apenas sobre o mafé ou o baguitch, será sobre algo muito mais importante,  a capacidade que um prato de comida tem de criar laços duradouros entre pessoas de países diferentes. Como acontece com o nosso bacalhau ou com as nossas sardinhas assadas...
 
O Henk (não o vou tratar cerimoniodsamente por dr. Eggens), merece esta homenagem. Não apenas por ter sido cooperante, mas porque faz parte daquele grupo discreto de estrangeiros que ajudaram a criar pontes entre Portugal, a Guiné-Bissau e o resto do mundo. A presença dele na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer a ainda esta comunidade de memória, amizade e afetos. Espero que ele aceite, formalmente,. este meu/nosso convite.


Mafé e baguitch: mais dois sabores da Guiné

por Henk Eggens

Mafé

O mafé é, provavelmente, o prato mais viajado da cozinha da África Ocidental. As suas raízes
mergulham no Mali, onde os povos mandinga e bambara o preparavam sob o nome
de domodah ou tigadegena,  literalmente, "molho de amendoim".

Foi durante o período colonial, quando a produção de amendoim foi fortemente incentivada em toda a região, que o prato se espalhou para o Senegal, a Gâmbia e, mais a sul, para a Guiné e a Guiné-Bissau, ganhando em cada país uma variante própria.

A base do mafé é sempre a mesma: um creme espesso de amendoim moído ou manteiga de
amendoim, engrossado com tomate e cebola refogados, por vezes com um fio de óleo de palma.

A esta base junta-se carne  (vaca, borrego ou frango) ou peixe, deixados a apurar lentamente
até a carne se soltar e o molho ganhar aquela textura aveludada e ligeiramente adocicada que
caracteriza o prato. Legumes como cenoura, couve, batata-doce ou mandioca são frequentemente cozidos no mesmo tacho, absorvendo o sabor amendoado do molho. 

Serve-se, invariavelmente, com arroz branco, que recolhe o molho como só o arroz sabe fazer.

Na Guiné-Bissau, o termo "mafé" tem um sentido mais lato: designa, de forma genérica, os
molhos e caldos que acompanham a bianda (o arroz cozido que é a base da alimentação),
preparados com peixe, marisco, frango ou carne. 

Mas quando um guineense pensa especificamente no primo do mafé senegalês, pensa no Caldo de Mancarra, o caldo de amendoim que é um dos pratos mais típicos e queridos do país: frango ou peixe estufado lentamente num molho cremoso de amendoim, tomate e limão, com a malagueta sempre por perto para dar aquele toque de fogo que a cozinha guineense tanto aprecia.


Baguitch

Se o mafé é conforto num prato, o baguitch é a assinatura verde da mesa guineense. Prepara-se a partir das folhas da hibisco-azedo, Hibiscus sabdariffa, uma planta arbustiva que cresce por quase toda a África Ocidental e que na Guiné-Bissau é conhecida por baguiche ou baguitchi (noutras paragens lusófonas chama-se-lhe vinagreira, e em inglês, roselle; no Senegal vizinho, é a planta do famoso bissap, a bebida de hibisco que ali se bebe gelada.

A preparação do baguitch é simples e ao mesmo tempo trabalhosa. As folhas frescas são primeiro cozidas em água, depois escorridas,. guardando-se muitas vezes essa água, rica em sabor, para usar como base de outros pratos, e batidas à mão com um garfo até se transformarem numa pasta homogénea, quase cremosa. 

É comum juntar-se-lhe um ou dois quiabos já cozidos, que ajudam a engrossar ainda mais a mistura e lhe dão aquela textura ligeiramente viscosa tão característica dos molhos da região. O resultado é um acompanhamento de sabor ácido e terroso, muito distinto do doce do mafé, que se serve tradicionalmente ao lado do arroz branco, do frango grelhado nas brasas e de um pouco de malagueta bem pilada.

(Revisão / frixação de texto: LG)

__________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28210: No céu não há disto: comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (54): o caldo de chabéu é acompanhado com arroz, que é o rei à mesa; o funge é um prato angolano, lembra-nos o Cherno Baldé

segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27849: Agenda Cultural (885): Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia e Tribunal da Relação), Porto: Exposição temporária: "África Vista por Duas Gerações (1938-1995) | Ernst Schade e Carol Alexander Schade, de 07.03 a 28.06.2026. Entrada livre.

 
© Ernst Schade

1. Esta exposição “África Vista Por Duas Gerações (1938-1995)" propõe um diálogo entre dois olhares fotográficos ligados por laços familiares e por uma profunda relação com África.

Em 1938, Carol Alexander Schade atravessou o continente africano, registando paisagens, povos e modos de vida num momento crucial do século XX.

Décadas depois, o seu filho, Ernst Schade, desenvolve um olhar humanista e comprometido, documentando conflitos, deslocações forçadas e processos de reconstrução em países africanos no período pós-colonial. 

Colocadas em diálogo, as fotografias de pai e filho revelam continuidades e contrastes entre arquivo histórico e fotografia contemporânea, afirmando a imagem como memória, testemunho e instrumento fundamental para a compreensão do mundo.

Entrada livre.

Centro Português de Fotografia

Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto
Largo Amor de Perdição
4050-008 Porto • Portugal

(+351) 220 046 300 | mail.cpf@cpf.dglab.gov.pt



"Os rios do nosso litoral são excelentes vias de comuncação. Tabanca de Djobel"


Foto: © Ernst Schade (s/d) | www.ernstschade.com | Digitalização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026) |


2. Informação adicional que nos foi facultada pelo nosso amigo Henk Eggens, também ele neerlandês e amigo do Ernst Schade. Ambos têm uma "relção especial" com a Guiné-Bissau, onde Henk foi médico, cooperante (Fulacunda e Bissau, 1980-1984). Ambos vivem em Portugal.

Ernst Schade (1949) cresceu no sul dos Países Baixos. Aos sete anos, recebeu do pai uma câmera Agfa
Clack, o início de uma dedicação vitalícia à fotografia. Estudou agricultura tropical, e o seu trabalho levou-o para o sul de África, onde colaborou com organizações internacionais de ajuda humanitária.

Durante a guerra civil em Moçambique, desempenhou um papel crucial no apoio a refugiados. A fotografia tornou-se uma parte essencial do seu trabalho: os clientes e doadores queriam imagens fiéis que retratassem a situação no local. 

Desde 1995, Ernst Schade vive em Lisboa. Trabalhou em vários países fricanos, mas a Guiné-Bissau tornou-se o seu principal campo de trabalho fotográfico. 

As suas obras foram exibidas em exposições na Europa e em África.

Schade constrói confiança antes de fotografar. Os seus retratos Schade constrói confiança antes de fotografar. Os seus retratos são o resultado de atenção e diálogo, com o objetivo de capturar a essência de uma pessoa ou momento - de forma honesta, direta e respeitosa.

Em 1938, Carol Alexander Schade (1909-1977), que viria a ser pai de Ernst, enviou um Ford V8 Woody Wagon para a Cidade do Cabo e, com um amigo, conduziu-o até ao Cairo em seis meses, percorrendo 27.139 km. 

Em 2024, Ernst conheceu o fotógrafo Carlos Cardoso, do Porto. Cardoso considerou a aventura do pai de Ernst e as fotografias que tirou tão especiais que o apresentou ao Centro Português de Fotografia.
Desta colaboração nasceu uma exposição com fotografias de pai e filho. 

A inauguração foi no dia 7 de março. A exposição estará patente até 28 de junho de 2026 no Centro
Português de Fotografia, no Porto.
_________________

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > 1981 > Reunião de trabalho no âmbito da implementação de um projeto de saúde comunitária  (1)


Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > 1981 > Reunião de trabalho no âmbito da implementação de um projeto de saúde comunitária (2)


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > s/l > 1981 > Atravessando um curso de água... Em primeiro plano, a colega e esposa, já falecida, do dr. Henk Eggens (que deve ter sido o  fotógrafo)


Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > Orre Fello > 1981 > Local onde teria sido proclamada a independência da Guiné-Bissau > A antiga casa de Amílcar Cabral (1924-1973)

 
Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > Orre Fello > 1981 > Placa comemorativa da realização da "1ª Assembleia Nacional Popular", em 24 de setembro de 1973. (A placa, cuja foto foi restaurada, encontrava-se afixada na antiga casa de Amílcar Cabral.)

Fotos (e legendas): © Henk Eggens  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso amigo neerlandês Henk Eggens que: 

(i)  é  especialista em saúde global (saúde pública e medicina tropical);

 (ii) está reformado; 

(iii) vive em Portugal, em Santa Comba Dão; 

(iv) trabalhou como médico, cooperante, na Guiné-Bissau, em Fulacunda e em Bissau, de 1980 a 1984, e em outros páises, de África e Ásia (Angola, Indonésia, etc.)

(v) é o administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês ou holandês, mas muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); 

(vi)  tem  8 referências no nosso blogue;

(vii) é fluente em português (e crioulo da Guiné-Bissau)...

Data - Quinta, 12/02, 19:05 (há 11 dias)
Assunto - Boé

Caro Luís, li com interesse as histórias sobre o desastre de Cheche.

Conheci a área do Boé bem mais tarde, em 1981, numa visita de trabalho para um projeto de saúde comunitário (*). Havia pouco alcatrão lá e provavelmente ainda não há. Uma população isolada, contando muito sobre suas próprias forças.

Eis aqui algumas fotografias minhas daquela visita.
Um AB
Henk

(Revisão / fixação de texto, links,  edição / restauro das fotos: LG)
__________________

Nota do editor LG:

quinta-feira, 27 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26622: Ser solidário (280): O que se passa com o caudal de água da Fonte Frondosa / Sanjuna, de Empada ? (Henk Eggens / Vincent Kuyvenhoven / Luís Graça / José Teixeira / Inês Allen / Arménio Estorninho)





Foto nº 1 e 1A > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > 1983 > Fotografia da Fonte Frondosa com a esposa Anke (holandesa) no meio das lavadeiras.


Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > s/d > A nascente da Fonte Frondosa (cuja construção data de 1946, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues)



Vídeo (00:22) > s/d > A "sanjuna" entupida




Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região de Quínara > Empada > s/d > A Fonte Frondosa / Sanjuna, na língua local. Imagem do sítio da ONGD Sanjuna.nl


Sobre a ONGD Sanjuna.nl ver também o vídeo  Sanjuna in 100 sec (01' 40'') (em neerlandês)
 

Fotos, vídeo (e legendagem):  © Vincent Kuyvenhoven  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Do nosso amigo, Henk Eggens, holandês (ou neerlandês) (que vive em Portugal, em Santa Comba Dão, tendo trabalhado como médico, cooperante, na Guiné-Bissau, em Fulacunda e em Bissau, de 1980 a 1984) recebemos a seguinte mensagem, com data de 21 do corrente:


Olá, Luís,Tudo bem contigo?

Estou na minha terra natal, curtindo filhas, netinh@s e amigos.

(...) Tenho um pedido para publicar no blogue, pedir informação aos tabanqueiros sobre a Fonte Frondosa,  no Empada, sul da Guiné.

O tabanqueiro José Teixeira escreveu uma história cómica  (*) sobre os soldados, atormentados pelos "hormónios"  
[o português é tramado. ó Henk, querias dizer... "hormonas"] da juventude, observando as bajudas a tomar banho naquela fonte.

Provavelmente (era) a visão dos soldados naquela época.

Minha pergunta é a seguinte:

Meu amigo e colega Vincent Kuyvenhoven trabalhou como médico na Guiné, baseado em Empada (1983-1986). Gostou (junto com a esposa Anke) da experiência e o ambiente. Decidiram apoiar a população de Empada, até agora. Criaram uma fundação chamada Sanjuna.

Sanjuna é o nome local da Fonte Frondosa.

Um breve resumo em português dos principais pontos do relatório anual de 2023 da Fundação Sanjuna:

Introdução
- 2023 foi o nono ano completo da fundação desde a sua criação em abril de 2014
- O coordenador Vincent Kuyvenhoven fez duas visitas a Empada para acompanhar projetos

Atividades Apoiadas
- Foco principal em educação, água potável, saúde e desporto
- Financiaram bolsas de estudo, construção de escolas, formação de professores
- Construíram tanques de água em várias aldeias
- Apoiaram cuidados de saúde comunitários e formação de agentes de saúde
- Contribuíram para torneios de futebol locais

Finanças
- Receitas totais: €36.100
- Despesas totais: €29.200

Vincent e Anke costumam visitar Empada pelo menos uma vez por ano.


Azulejo da Fonte Frondosa, cuja construção
é de 1946, do tempo do governador 
Sarmento Rodrigues




A pergunta deles é sobre a bacia de água atrás do quadro de azulejos e torneira.

Vincent me escreveu o seguinte:

"A fonte está a degradar-se um pouco em 2 aspectos: poluição da bacia de água (cuja função não me é clara) e drenagem dificultada, que veio à tona na época das chuvas."

Veja o clipe em anexo que mostra a situação atual na época da chuva.

Será que alguém dos tabanqueiros que viveram na Empada podem esclarecer a função  
desta bacia? 

Os homens grandes e mindjeres grandes lá não podiam esclarecer a função da mesma.

Agradeço se achas oportuno publicar esta pergunta no blogue. (...)

Um AB desde Holanda,
Henk

2. Resposta do editor LG, na volta do correio:

Que bom, Henk, a nossa terra é sempre a melhor do mundo... Boa estadia. O tempo por aqui não está grande coisa, chegou ontem a primavera...

Vamos ajudar os teus amigos...Vou-te pôr em contacto com dois tabanqueiros nossos, que têm uma forte ligação a Empada, a Inês Allen (filha de um antigo combatente, já falecido) e o José Teixeira ( e coordenador da ONGD Tabanca de Matosinhos, já lá voltou â Guiné-Bissau meia dúzia de vezes, foi enfermeiro durante a guerra)...

Ver aqui a página do Facebbok da Inês Allen.

Sobre Empada temos 185 referências no nosso blogue:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/Empada

A carta de Empada (1961) (Escala 1/50 mil) está disponível aqui:

https://arquivo.pt/wayback/20170222021858/http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/guine_guerracolonial51_mapa_Empada.html

Diz-me se posso reencaminhar para a Inês e o Zé o teu mail... Conhecem a gente atual da tabanca de Empada... Aqui fica o pedido dos teus amigos (já visitei o "site" da Sanjuna, tenho que traduzir para inglês...)

Boa saúde, bom descanso... Luís

3. Comentário do editor LG:

Henk, com a tua devida autorização aqui tens a nossa troca de mensagens no blogue, com enfoque nos problemas da Fonte Frondosa /Sajuna, de Empada. 

Já falei com o Zé Teixeira, que ficou radiante com a hipótese de poder ser útil ao teu amigo Vincent, o mesmo é dizer, à população de Empada. Ele, tal como a Inês Allen, mantem fortes laços afetivos com Empada, que se traduzem também em ajuda material. Ele e ela vão gostar de poder falar contigo. Seguem os endereços de email dos dois.

Falei com a Inês, que é uma linda menina, e com um grande coração, tal como o falecido pai, Xico Allen (1950-2022). Esteve em maio de 2024, em Empada, na inauguração do campo de futebol que tem o nome do pai. Já então o problema da "Sajuna" fora-lhe abordado pela população, que a adora. Conta lá voltar para o ano...

Quanto ao Zé Teixeira, disse-me que já em 2015, quando passou por lá, a fonte estava com menos água...Ele acha que a diminuição do caudal tem a ver com as alterações climáticas... E, infelizmente, esse problema não é exclusivo de Empada...A água doce na Guiné - Bissau é um bem escasso. Temos essa dolorosa experiência, que nos vem do tempo da guerra, nomeadamente no tempo seco. A água era salobra e ferrosa. Bebiamos água engarrafada (Vichy e Perrier) com uísque... Até o gelo era horrível...

No nosso tempo, há 50/60 anos, chovia muito mais. O Zé é de 1968/70, um ano mais velho do que eu...Ambos conhecemos a guerra "pura e dura", ele na região do Forreá (Buba, Empada, Quebo, Mampatá...).


Região de Quinara > Empada > 1969 > "Eu, tomando banho à fula, na Fonte Frondosa, principal zona de banhos e de lavadouro". Foto do álbum do Arménio Estorninho, ex-1º cabo mec auto, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70).

Foto (e legenda): © Arménio Estorninho (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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(**) Último poste da série > 13 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26580: Ser solidário (279): Ajude sem gastar nada! Consigne 1% do seu IRS à Afectos com Letras - ONGD


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26509: As nossas geografias emocionais (46): Bocana Nova, na margem esquerda do rio Tombali... (E onde também se fala na ONGD, com sede em Matosinhos, "Na Rota dos Povos")





Guiné > Região de Tombali > Catió > Bocana > Carta de Catió (1956) (Escala 1/50 mil) >  Posição relativa do rio Tombali, e as povoações de Tombali, Bocana Nalu, Bocana Balanta e Catió (sede de circunscrição, quando a região foi cartografada em 1956).


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. A atual tabanca de Bocana Nova, referida no poste P26508 (*),  deve ficar na margem esquerda do Rio Tombali (carta de Catió), a sul da foz do rio Pobreza (afluente do rio Tombali) e a sul da foz do rio Cobade (outro afluente do Tombali). 

Havia, amtes da guerra, duas pequenas tabanas, a Bocana Nalu e mais acima a Bocana Balanta. Depois da independència deve-se ter construído a Bocana Nova. Pertence ao setor de Catió: em 2009, não tinha uma centena de habitantes.


A tabanca (e porto fluvial) de Impungueda, a sul de Cufar e a nordeste de Cantone e  Mato Farroba fica na margem direita do rio Cumbijã, mais a leste (carta de Bedanda, da mesma época).

Para lá se chegar, por estrada (até Catió), são 300 km bem difícieis de pecorrer. 

2. A  ONGD "Na Rota dos Povos", com sede em Matosinhos, tem feito desde 2010 um belo trabalho lá, na regiáo de Tombali, na área da educação, saúde e solidariedade social.

 Ver aqui a sua página oficial, bem como a página no Facebook.


(...) Quem somos

A “Na Rota dos Povos” é uma Organização não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD) com foco de atuação na educação, solidariedade social e saúde na região de Tombali, na Guiné-Bissau.

A sede da ONGD é em Matosinhos e, todas as tarefas, tais como angariações, gestão de recursos, comunicação, e organização de missões, são realizadas por voluntários.

Temos sede de delegação local na cidade de Catió, a cerca de 300 km da capital Bissau, onde damos emprego a 35 habitantes que colaboram nos diferentes projetos. A integração da ONGD na comunidade Cationense gera também uma onda de participação num país em que a solidariedade é característica deste povo sempre pronto a ajudar o vizinho.

A nossa motivação

Em Catió, no ano de 2010, o professor Braima Sambu fez um pedido. Quando se esperaria que seria algo para ele, o que Braima pediu foi capacitação para a população da sua terra. Capacitar é tornar capaz, mas também permitir acreditar. A capacitação que falava era ajuda para os professores de Catió.

Sensibilizados com tal pedido, no regresso a Portugal, começaram a reunir-se esforços para responder a este apelo.

Desde esse momento, sempre com o lema “A Educação é o Único Caminho” um longo percurso tem sido trilhado. O projeto que começou com o objetivo de ajudar a melhorar as condições dos professores de Catió tem vindo a crescer atingido agora muitas outras áreas para além das escolas como o orfanato da “Casa da Mamé”, o “Centro de Educação Especial e Terapêutica”, o apoio ao hospital regional da região, entre muitas outras contribuições para o sector de Tombali. (...)
_________

Guiné 61/74 - P26508: As nossas geografias emocionais (45): Regresso em 2007, a Bocana Nova, e a Impungueda, no rio Cumbijã, na região de Tombali (Henk Eggens, médico holandês cooperante, em Fulacunda e Bissau, 1980/84)


Foto nº 1 > "O Nhinte-Camatchol, escultura nalu, que tenho na minha casa em Santa Comba Dão".



Foto nº 2 > Guiné- Bissau  > Regiáo de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > s/d (2007 ?) > "Centro dc saúde construído nos anos 80, pelo holandês Steven van den Berg", companheiro do nosso Henk Eggens.



Foto nº 3 _ Guiné- Bissau  > Região de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > 2007 > "Foi no final de 2007 que visitámos Bocana Nova. A população reconheceu o meu amigo Steven e a esposa e passámos bons momentos no 'jumbai' ".



Foto nº 4 > Guiné- Bissau  > Regiáo de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > 2007 >  "O Steven e o régulo de Tombali". Acrescentou o Steven, na sua língua materna (aqui traduzida para português): "O Rei de Tombali sente-se extremamente honrado por agora até os maiores inimigos do passado terem podido tomar nota dos feitos inesquecíveis na forma de desenvolvimento da economia local, da saúde e da educação. Obrigado, S.".




Foto nº 5 > Guiné- Bissau  > Região de Tombali > Catió > Tabanca de Bocana Nova > 2007 >  Avenida Holanda... As palmeiras   foram plantadas por meu amigo quase 30 anos antes e cresceram bem!"


Foto nº 6 > Guiné- Bissau  > Região de Tombali > Catió > Impungueda > 2007 > "Em Tombali, no extremo sul da Guiné-Bissau, com as águas presentes sempre, como no porto de Impungueda, no rio Cumbijã" (vd. carta de Bedanda, 1956, escala 1/50 mil).

 

Fotos (e legendas): © Henk Eggens (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso amigo, Henk Eggens (foto atual a seguir),   grande amigo da Guiné-Bissau, meu colega holandês (ou neerlandês), especialista em medicina tropical e saúde pública, que vive, aposentado, em Portugal, em Santa Comba Dão, e é o administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês ou holan
dês) (*). 

Já há tempos o convidei para integrar a nossa Tabanca Grande. Esteve em Fulacunda e Bissau, na primeira década de 80, como médico. Tem um grande conhecimento e carinho por aquela terra e suas gentes. É casado em segundas núpcias com uma luso-brasileira, sua colega da saúde pública global, Tem um excelente domínio do português, escrito e falado (sua primeira língua estrangeira, a par do inglês). 



Assunto - Nhinte-Camatchol

Data - 17/02/2025, 16:07 (há 1 dia)
 
 
Olá,  Luís,

Gostei da publicação do poema (teu?) "Quem disse que a Guiné-Bissau não tem futuro?", publicado no blogue de 16-2-2025 (*). 

É um poema tipo 'verso livre' no estilo dos poetas americanos Walt Whitman e Allen Ginsberg. Cheio de otimismo, esperança e valorização do povo guineense. É bem preciso este encorajamento num momento de crise política profunda. Dia 28 de fevereiro terminará o mandato do atual presidente da Guiné-Bissau, Sissoco. Parece que não tem nenhuma ideia para sair do poder e convocou eleições para novembro de 2025!

Gosto da fotografia da obra de arte nalu no blogue. Tenho uma escultura igual em casa (foto nº 1), junto com um flamingo de Moçambique. 

Meu companheiro Steven (holandês) trabalhou na região de Tombali nos anos oitenta. Construiu centros de saúde na província, um deles na aldeia de Bocana Nova (Foto nº 2). 

Conhecia o escultor destas estátuas, o Sr. Nfalde Câmara naquela aldeia. O artista produziu várias cópias destes pássaros mágicos em madeira. Imagina minha surpresa quando vi uma cópia no museu Aliança Underground Museum de Berardo, em Sangalhos! E percebi, pelo  blogue, que funcionou como símbolo no Simpósio  Internacional de  Guiledje em 2008.

Foi no final de 2007 que visitámos Bocana Nova. A população reconheceu o meu amigo e esposa e passámos bons momentos no 'jumbai' (Fotos nºs 3 e 4) . As palmeiras nas imagens foram plantadas por meu amigo quase 30 anos antes e cresceram bem! (Foto nº 5) Tudo no Tombali, no extremo sul da Guiné-Bissau, com as águas presentes sempre, como no porto de Impugueda.(Foto nº 6)

Os números correspondem aos títulos das fotografias em anexo.

Se achas oportuno, podes publicar o texto e as fotografias.(**)


AB Henk

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  16 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26501: Manuscrito(s) (Luís Graça) (265): Que o Nhinte-Camatchol, o Grande Irã, te proteja, Guiné-Bissau!

(**) Último poste da série > 16 de fevereiro de 2025 > 
Guiné 61/74 - P26500: As nossas geografias emocionais (44): A Fulacunda do meu tempo (José Claudino da Silva, "Dino", ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART /BART 6520 / 72, Fulacunda, 1972/74) - Parte III

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26440: (De) Caras (226): Encontro de inimigos de ontem, em Fulacunda, julho de 1974 (Henk Eggens, médico neerlandês, cooperante na Guiné-Bissau, 1980/84)






Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª C/BART 6520/72, 1972/74) > Julho de 1974 > Pormenor de foto de grupo: visita do bigrupo de Bunca Dabó, do PAIGC, ao quartel e tabanca de Fulacaunda, e ao porto fluvial (que ficava a 2 km de distância). Na foto, o alf mil Jorge Pinto, em farad nº 2, completamente desarmado, faz o papel de antitrião... Descontraído... Os "iniumigos de ontem" quiseram ir ver o porto fluvial...


Foto (e legenda): © Jorge Pinto (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar_ Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]



Guiné-Bissau > s/l> s/d > O Comandante das FARP Quemo Mané (Canjabel, região de Quínara, c. 1932 - Moscovo, 1985). Fonte: Plataforma Casa Comum / Fundação Mário Soares > Arquivo Amílcar Cabral... Pasta 05248.000.024. Reproduzido com a devida vénia...

Citação:
(1966-1973), "Quemo Mané", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43764 (2022-2-19)



1. Mensagem enviada por Henk Eggens (*),



O dr. Henk Eggens, neerlandês, médico,
cooperante na Guiné-Bissau
(Fulacunda e Bissau, 1980/84)



Data - quinta, 9 jan 2025 , 12:40
Assunto - Encontro de inimigos

Olá,  Luís,

Já desde o final do ano passado queria responder-te e agradecer pelos links para as fotografias e textos que dizem respeito a Fulacunda, Guiné-Bissau.

Fiquei olhando para as fotografias que mostram os encontros entre soldados do exército português e os guerrilheiros do PAIGC. Além da qualidade boa das fotografias em si, fiquei pensando no efeito mental deste encontro; deve ter sido emocional e confuso para ambas as partes. Vejo os portugueses relaxados, sem armas, e os do PAIGC tensos e, como escreveste, "armados até aos dentes" com RPG e AK.(**)

Fiquei pensando sobre a mudança de paradigma que deve ter acontecido nas mentes de todos os presentes. Encontrar pessoas que queriam te matar pouco tempo antes do encontro. Acho, mas não conheço, que deve existir artigos, teses e livros sobre este fenómeno que deve marcar pessoas no mundo inteiro quando a guerra acaba e os inimigos se encontram pela primeira vez. Tens conhecimento destas publicações?

Vejo as notícias da Síria nestes dias onde deve acontecer o mesmo.

Numa outra entrada no teu blogue vi a referência a um comandante do PAIGC, Quemo Mané. Este foi o governador da região de Quínara e meu vizinho durante minha estadia em Fulacunda (1980-1982). Havia rumores sobre a sua crueldade durante a luta. A história sobre o 'julgamento revolucionário' no blogue ilustra bem estes rumores de então. Tive pouco contacto com ele, mas ainda assim metia medo nas pessoas e em mim na altura. (***)

Abraços,
Henk

PS- Admito que deixo meu app IA corrigir os meus textos portugueses por erros ortográficos.

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 28 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26209: Ser solidário (275): Quatro anos como médico cooperante (1980-1984), em Fulacunda e em Bissau (Henk Eggens, neerlandês, consultor internacional em saúde pública, reformado, a viver em Santa Comba Dão)

(**) Vd. poste de 18 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26278: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (31): Jorge Pinto (ex-alf mil, 3.ª C / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74) - Parte I

(***) Último poste da série > 28 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26206: (De) Caras (225): Duas fotografias, girândola e fastígio das recordações (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26429: As nossas geografias emocionais (36): Fulacunda, sempre!... (Henk Eggens, médico neerlandês, a viver em Portugal)





Foto nº 1 e 1A > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) >  Vista aérea da pista, do heliporto, do aquartelamento e da tabanca de Fulacunda... São visíveis o perímetro do aquartelamento, os espaldões do obus 14 e outras armas pesadas (que já identificámos noutro poste)... Podem-se contar inclusive as moranças civis e as instalações da tropa...  Tinha também valas e abrigos... Assinalada a amarelo, a "morança" que o nosso amigo dr. Henk Eggens, médico, cooperante, neerlandès, habitou em 1980/82 (e que integrava as antigas  instalaçóes das NT).

Segundo informação recente do nosso amigo e camarada Jorge Pinto, a população de Fulacunda andaria à volta de 400 pessoas de etnia biafada, em 1972/74 . Havia uma família balanta e outra fula,   "Toda esta população tinha familiares nas tabancas do mato que rodeavam Fulacunda e que muitas vezes vinham de visita, nos davam algumas 'informações' sobre o movimento do bigrupo de Bunca Dabó, levando em troca uns quilos de arroz"... Não havia comerciantes, nem colonos... A atividade agrícola era residual,,, "O alimento da população era basicamente o arroz fornecido pela tropa".


Foto (e legenda):  © Jorge Pinto (2025). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]



 Foto nº 2> Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 1980 >   "Casa do médico, Land Rover do projeto,  mota da noiva e carro 404 privado".


Foto: (e legenda) © Henk Eggens (2024). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]




Foto nº 3 > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) >  Uma "peladinha"... em frente à futura casa do dr. Henk Eggens.

 
Foto (e legenda);  © Fernando Carolinbo  (2025). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: LG/HE]


1. Mensagem do nosso amigo Henk Eggens (*), com data de  18/1/2025, 16:53

Olá Luís, kuma di kurpu? 

Gostei de ver mais fotografias da minha tabanca de então.(**)

A primeira fotografia que mando junto, com círculo a amarelo,  mostra onde morei; um ano fiquei sozinho, depois um ano vivi com a minha 'noiva', que depois ficou esposa/companheira de vida durante 26 anos antes de falecer há 19 anos.

A "morança" compostaq de duas casas, nós uma, e o chefe da aldeia, Carlitos, com a sua família na outra.

Não sei quem ocupava este prédio durante a época colonial. Como o prédio era dentro do quartel, seria um oficial do exército português? Ou era um escritório?

A segunda fotografia mostra a nossa casa em 1980, com os meios de transporte disponíveis para nós.

Também achei interessante a fotografia e o comentário sobre filhos de povos mistos (mulheres guineenses e soldados portugueses) (**). O que aconteceu com a maioria destas crianças? Os pais reconheceram a paternidade? Ficaram na tabanca ou foram para Portugal para serem criadas e educadas? Tens informação sociológica sobre este assunto?

Na altura tinha um assistente de laboratório, Manuel, de origem cabo-verdiano, que me ajudava em Fulacunda. O povo lhe chamou de burmedjo. Foi totalmente aceite na tabanca. Mas ... quando houve o golpe de Estado em 1980, liderado por 'Nino' Vieira, com tendências anti-caboverdianas (o presidente Luís Cabral foi preso por um ano depois do golpe), o pobre Manuel ficou em baixo da sua cama por três dias, com medo. Depois tudo voltou ao normal.

Em Cabinda (Angola, onde vivi, de 1976-1978), pessoas de cor mais clara (podiam ser mestiços) eram chamados mwana mundele (na língua Lingala), criança do branco. De vez em quando estas palavras eram utilizadas como insulto.

Bem, mando-te um AB e mantenhas (mantenha-se),

Henk.

PS -  Podes publicar este texto no blog se quiseres, na esperança de ter respostas às minhas perguntas.

(Revisão / fixação de texto, pontual: LG)


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Henk, pelo que temos falado, és cidadão do mundo, e um grande "africanista" (cem qualquer conotação colonial)... Para além da Guiné-Bissau, trabalhaste em Angola, Indonésia, etc,. como especialista em medicina tropical, e muito em particular na área da prevenção e controlo da lepra. Tens uma visão integrada e global da saúde pública.  E depois escreves muitissimo melhor o meu portuguès do que eu o teu neerlandês...

Deixa-me,  antes de mais dizer-te que lamento que tenhas ficado viúvo tão cedo e com duas filhas órfãos... Tens, no entanto, uma história de vida rica...Vamos "partindo" (partilhando, em crioulo)  memórias, boas e más, das nossas "geografias emocionais": é o que eu e todos nós aqui, "amigos e camaradas da Guiné", te podemos oferecer... (***)

Acabo de publicar a tua mensagem com a tua autorização. É bom para todos: cá está a tal blogo...terapia, que tu querias saber o que era:  tens que acompanhar o nosso blogue...para perceber uma dos "slogans"; "O Mundo é Perqueno e a nossa Tabanca é Grande"... (Tabanca é a nossa tertúlia, ou comunidade virtual, que se se reune à sombra de um simbólico poilão, e onde cabemos todos com tudo o que nos une e até cm aquilo que nos pode separar...)

Sem querer dar uma definição (sempre redutora), direi que esta "terapia" ou "catarse", pela palavra e a imagem, pela partilha de memórias e afetos, num grupo de pares (antigos conmbatentes), funcionou muito bem nos primeiros anos do blogue...

Como sabes,  os antigos combatentes são sempre mal tratados em todas as guerras, aqui, na tua terra, em Timor, na Guiné, em Angola, em Moçambique, em França, nos EUA... Como deves imaginar, a guerra colonial, a seguir ao 25 de Abril de 1974, foi silenciada, esquecida,. branqueada, escamoteada... O mesmo aconteceu, pelo menos, aos guineenses que pagaram um elevado "imposto de sangue" na luta pela independência da sua terra (e, por tabela, de Cabo Verde).

Sobre as rivalidades (e graves conflitos) entre os guineenses e a nomenclatura cabo-verdiana do PAIGC,  não vou falar agora. Nem sobre os filhos que os militares portugueses deixaram na Guiné (uma estimativa aponta para umas escassas centenas, infelizmente um valor demasiado alto: o Portugal, democrático0, do pós-25 de Abril, não teve nem a coragem nem a lucidez  nem a compaixão de reconher estes filhos da guerra, eufemisticamente também conhecidos como "filhos do vento", por analogia com os "dust children" daa guerra do Vietname)... 

Ficará a conversa para mais tarde, que os dois assuntos são c0mplexos e delicados.

(Revisão / fixação de texto, superficial: LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 28 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26209: Ser solidário (275): Quatro anos como médico cooperante (1980-1984), em Fulacunda e em Bissau (Henk Eggens, neerlandês, consultor internacional em saúde pública,
reformado, a viver em Santa Comba Dão)

(**) Vde. poste de 18 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26400: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (35): Jorge Pinto (ex-alf mil, 3.ª C / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74) - Parte V

(***) Último poste da série > 20 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26292: As nossas geografias emocionais (35): Helsínquia, Finlândia (António Graça de Abreu)