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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)




Foto nº 1A, 1B, 1




Foto nº 1, 1A




Foto nº 3A, 3B, 3


Legendas: 

Foto nº 1 > Gadamael Porto no tempo dos BCP 12, junho/julho de 1973,
Foto nº 2 > Vista parcial, desoladora,  do quartel de Gadamael Porto: em primeiro plano o Obus 14; o fundo, o reordenamento.
Foto nº 3 > Gadamael Material capturado pela CCP 121 / NCP 12  na acção “Cobra Ondulante” em 23 de junho de 1973
 
Guiné > Região de Tombali > Gadamael > junho / julho de 1973 > BCP 12 >
Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, oriundas da Hstória do BCP 12 (que julgamos não ser de livre acesso na Net)

Restauro, melhoria técnica e colorização: LG + IA (Gemini / Google) (2026)



1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, de má memória, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). A CCP 121 chegou a Gadamael, pelo rio, em em LFG e depois em LDM, a 12 de junho de 1973. Foi juntar-se às restantes subuniddaes do BCP 12: CCP 122 e CCP 123.

Ele escreveu, na primeira pessoa do singular, como viveu e sobreviveu à dura batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente. (À mesma CCP 121/BCP, 2º Gr Comb, pertenceu o nosso amigo e camarada Victor Tavares. ex-1º cabo pqdt,  do 2º Gr Comb, apontador de MG42, natural de Águeda.)  

Este segundo texto, sobre as recordações amargas de Gadamael, foi inicialmente publicado no Bogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > sábado, 12 de março de 2011 Voo 2197: Gadamael Porto (2)

É agora republicado, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande, bem como em homenagem a todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973). Foram, sem dúvida,  os melhores soldados de Portugal durante toda a guerra colonial / guerra do Ultramar. Infelizmente, eram poucos, um batalhão em cada TO. No presente caso, foram eles que aguentaram e salvaram Gadamael, em maio, junho de julho de 1973.

Dâmaso, herói de Guidaje (pela sua atuação sob intenso fogo IN, na emboscada à CCP 121, no Cufeu, em 23 de maio de 1973) rompeu, em vida, 40 anos depois, uma cultura de silêncio, pudor ou  reserva que parecia impedir que certos comportamentos internos dos paraquedistas chegassem ao conhecimento público. E fê-lo sem transformar o seu testemunho numa denúncia genérica dos paraquedistas: fala de situações concretas, de pessoas e sobretudo de uma experiência pessoal  numa situação-limite.

Este excerto é particularmente importante porque não é uma acusação feita hoje por terceiros: é o testemunho, na primeira pessoa, de António Dâmaso, publicado em 2011, sobre acontecimentos que viveu em Gadamael em 1973 (entre 12 de junho e 17 de julho). Não é um testemunho contra os paraquedistas, é, precisamente, o testemunho de um paraquedista.

 Não queremos fazer uma acusão gratuita aos nossos camaradas paraquedistas do BCP 12, e muito menis um "provocação",  falando ostensivamente em  “pacto de silêncio”: nunca ouvimos, vimos  ou lemos um  paraquedista utilizar essa expressão. O que o testemunho do Dâmaso permite constatar é que  ele  quebrou o silêncio sobre aspetos negativos (ou menos positivos) da vida operacional e disciplinar do BCP 12 (problemas disciplinares, conflitos, fragilidades do comando, recusas em ir para o mato, doença, stress físico e psicológico, tratamento das praças, situações de privilégio ou outrasque pudes sem atingir a imagem de coesão e de eficácia do Corpo de Tropas Paraquedistas).

Teremos ocasião de voltar a este tema sempre delicado, mas que náo pdoe ser tabu: afinak, a guerra j+a acabou há mais de meio-século e quem a fez está a desaparecer lenta mas inexoravelmente.


1º srgt pqdt António Dâmaso, CCP 121 / BCP 12, CTIG, 1973

Recordações amargas de Gadamael (2)

por António Dâmaso (1940-2026)


Depois de municiados foi dada ordem à minha Companhia, CCP 121, de preparar para sair. O meu pelotão estava completo de graduados pelo que eu não fazia falta. Sabia que mais um homem,  ainda que debilitado, poderia ser uma mais-valia, mas tinha consciência que a minha capacidade estava muito diminuída e que em vez de mais-valia podia tornar-me num empecilho. 

Devido ao meu estado de saúde, pedi ao Comandante de pelotão para me dispensar, para ir ao médico. Disse que não era com ele,  que era com o comandante de Companhia. Este apontou para o segundo Comandante do batalhão, este por sua vez mandou-me para o primeiro Comandante. 

Aquilo caiu-me mal, até ali tinha dado tudo o que tinha, passei-me e,  numa folha de bloco de carta, fiz um requerimento a pedir para ser submetido a uma junta médica, uma vez que me queriam obrigar a ir para o mato sem estar em condições de saúde para o fazer. Não queria que os homens,  que sabe Deus como se arrastavam, tivessem de andar comigo às costas. 

Enquanto andava nestas andanças,a Companhia saiu sem mim.

Não saí e assumi a responsabilidade. Mais tarde fui chamado ao segundo Comandante para me devolver o requerimento que eu tinha entregado a pedir a junta médica. 

Fiquei à espera e só me deixaram ir ao médico no dia em que a Companhia foi descansar em Cacine. Nessa altura já o meu estado de saúde se tinha agravado mais.  Enquanto estive à espera,  fui-me aguentando como pude. Levavam-me comida que já era difícil de tragar para quem tinha saúde e apetite. 

Como não dispunha dos dois,  fui bebendo umas cervejas bem “quentinhas”,  duma caixa que tinha comprado quando lá cheguei. Cerveja mesmo quente já era um luxo, mas o instinto de sobrevivência lá me ia dando forças para me deslocar para a vala,  sempre que haviam flagelações. 

Neste espaço de tempo em que estive sem assistência, tive conhecimento de dois alferes e de um ou dois furriéis que se negaram a ir para o mato, mas não por motivos de saúde.

Algumas praças de outra Companhia,  por estarem muito debilitadas, ao não acompanharem os seus pelotões na saída para o mato, foram selvaticamente agredidas pelo Comandante de Companhia, que gostava de sovar praças indefesas e “turras” com as mãos atadas atrás das costas.
 
No Quadro do Batalhão havia um médico, mas este ficou no Posto de Socorros de Bissalanca. 
Havia um médico do Exército em Cacine, um alferes miliciano.  Só fui presente ao médico em Cacine no dia 19 de junho de 1973, puseram-me a soro e lá fiquei enquanto o soro corria. Estive a ouvir as queixas dos militares da minha Companhia, pareciam tiradas a papel químico: “Cansaço, falta de apetite, insónias, dores de cabeça, os nervos arrasados, etc.” 

De repente chegou uma catrefada de feridos da CCP 122, uns mais outros menos grave. tinham caído numa emboscada, os ferimentos era quase todos por estilhaços de granadas RPG 2. Lembro-me que um deles era sargento e ficou incapacitado. Com a chegada dos feridos as consultas foram interrompidas até fazer as evacuações para Bissau e tratar dos mais ligeiros, Depois fui medicado e fiquei em convalescença até 27 de junho de 1973.

Entretanto a Companhia acabou o curto período de descanso e regressou novamente a Gadamael Porto, eu ainda estava de convalescença, mesmo assim gostavam tanto de mim que queriam que fosse com eles. Só não fui porque o Comandante da Companhia não me encontrou, mas fui quando esta acabou.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
 _________________

Nota do editor LG

Último poste da série > 1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27338: Casos: a verdade sobre... (59): Quatro mortos e treze feridos, e mais dois mortos do grupo do Marcelino da Mata: subsetor de Buba, 5 de maio de 1973 (Armando Ferreira, ex-fur mil at cav, CCAV 8353/72, Bula, 1973/74)


Armando Ferreira, ex-fur mil at cav, CCAv 8353/72 (Bula,  1973/74)


Foto (e legenda): © Armando Fonseca (2012). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. A propósito da emboscada que provocou 4 mortos e 13 feridos entre as NT, em 5 de maio de 1973, entre Dungor e Choquemone, a nordeste de Bula  (Carta de Bula. 1953 / Escala 1/50 mil), um dos quais foi o ex-1º cabo at cav J.j. Marques Agostinho (*), constatámos que há ainda pouca informação disponível sobre esta ocorrência. Para todos os efeitos, foi um revés para as NT, mesmo que tenha havido baixas prováveis do lado do IN.



1.1. Esta ação de 5/5/1973, é referida no livro da CECA, sobre a atividade operacional dos anos de 1971/74,  em termos sucintos:

Acção - 05Mai73

Forças dos Pel Mil 291, 293 e 341 (BCav 8320/72) realizaram patrulhamento conjunto com emboscada na região do Choquemone, 01-A. Tiveram três contactos com o ln, sendo o último à tarde, de que resultou no segundo, 3 mortos e 1 desaparecido do Pel Mil 293.

Naquela altura acorreram em auxílio forças de 1 Gr Comb / 1ª C/BCav8320/72 e 2 Gr Comb / CCav 8353/72, que realizavam um patrulhamento em Ponta Mátar, l Pel (-) / ERec 3432 e APAR (apoio de artilharia).

Quando as NF se dirigiam de Ponta Mátar para a região da emboscada, em Petabe, o 2° Gr Comb / CCav 8353/72 estabeleceu contacto com o ln em Bula 2H2.80, sofrendo 4 mortos, 5 feridos graves e 3 ligeiros.

Na batida feita posteriormente foram recolhidas peças de equipamento e fardamento, munições de armas ligeiras, géneros alimentícios e detida l mulher. O ln teve baixas prováveis comprovadas por grandes manchas de sangue.


Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 300/301 (Com a devida vénia...).



O ex-fur mil at cav Serafim
 de Jesus Lopes Fortuna, natural
da Madalerna, V.N. Gaia,
mortoem 5/5/1973-
Fotograma do vídeo
"A ternura dos 20 anso",
do Armando Ferreira (2015)



1. 2. O Armando Ferreira, na altura furriel, e hoje um conhecido escultor e figura pública (nasceu em Alpiarca, a 14 de maio de 1951, e é membro da nossa Tabanca Grande desde 25/10/2015)  fez um emocionada homenagem aos seus camaradas de companhia caídos entre Dungor e Choquemone, por ocasião dos 42 anos da trágica emboscada, e ao mesmo tempo a denúncia de uma guerra insensata.  E, de entre eles, o seu camarada ex-fur mil cav Serafim de Jesus Lopes Fortuna, natural da Madalena, Vila Nova de Gaia, e que era um dos seus grandes amigos (tendo ambos feito a recruta e a especialidede na EPC, em Santarém).

O vídeo. "A ternura dos 20 anos"  está está disponível no You e no nosso blogue,  no poste P15291 (**)

Mais recentemente recebemos dele esta mensagem por email, em resposta ao nosso pedido de 
esclarecimento sobre a hora da emboscada:



Armando Ferreira
Data - Domingo, 19/10/2025, 19:34 

Caro camarada de guerra, a emboscada foi por volta das 15 e 30, 16 horas, fuso hprário de Bissau. 

Eu não usava horas e a situação não deu para isso, tínhamos pouco mais de um mês. 

Quatro mortos em emboscada e treze feridos, e mais dois mortos do Marcelino (da Mata).  Na mata do Choquemone, entre S. Vicente e Bula. 

Spínola e a sua equipa sabia o que ia acontecer, o seu propósito nestas situações era sempre idêntico, embora suas palavras para os governantes fossem muito diferentes. Vi e constatei coisas que me fazem dizer o que digo. 

Meu caro camarada, coloquei o furriel Fortuna na viatura. Ajudei os outros camaradas, fomos para Bula, ainda fui lavar os corpos, na capela, e depois tivemos de formar para ouvir o Grande Chefe: "Isto não foi uma derrota, mas, sim uma vitória, a nós dobram qualidades, aos outros faltam"...

Enfim,  a lengalenga do costume, o pessoal estava chorar como é natural mas o tipo deu uma chapada à pessoa errada que não era da nossa companhia. 

Bom estendi-me um pouco, ficamos assim camarada. Isto não valeu de nada.

 Um grande abraço 

Armando Ferreira

3. Comentário do editor LG:

Ficamos a saber que o gen Antónioi Spínola fez questão de estar presente em Bula, quartel de cavalaria, a sua arma, para homenagear os seus soldados acabados de ser "sacrificados no altar Pátria". Ficamos também a saber que nesta operação partiparam o Marcelino da Mata e o seu grupo (irregular), "Os Vingadores" (e que estes terão tido 2 mortes).

Enfim, seria importante ouvir outros testemunhos sobre estes acontecimentos (***).

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de 19 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27332: Seis jovens lourinhanenses mortos no CTIG (Jaime Silva / Luís Graça) (6) José João Marques Agostinho (Reguengo Grande, 1951 - Bula,1973): era 1º cabo at cav, CCAV 8353/72 (Cumeré, Bula e Pete, 1973/74)

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27250: As nossas geografias emocionais (59): CIM Bolama, setembro de 1973, o meu CSM (Manuel Rosa, ex-fur mil, Chefia do Serviço de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74)



Guiné > Arquipélago Bolama - Bijagós > Bolama > CIM (Centro de Instrução Militar > CSM (Curso de Sargentos Milicianos) > c. 1973/74 > O  soldado-instruendo, e depois 1º cabo miliciano e depois fur mil, Chefia de Serviço de Intendência do QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (tal como o Carlos Filipe Gonçalv3es).

Fotos (e legenda) : © Manuel Amante da Rosa (2024. Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.



1. Mensagem do Carlos Filipe Gonçalves (ex-fur mil, Chefia do Serviço de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74)

Data - segunda, 22/09/2025, 13:24

Olá, Luis, Bom dia:

Encontrei hoje por acaso no FB esta publicação do nosso camarada e amigo Manuel Rosa, sobre a sua passagem pelo Centro de Instrução em Bolama. É uma recordação com muitos pormenores. Será que já tinha sido publicado no blogue Tabanca Grande? A data é de 15 de Agosto de 2024. Eis o link:

https://www.facebook.com/search/top/?q=Manuel%20Rosa%20CISM%20Bolama

Segue abaixo a cópia que fiz do post, talvez tenha ineresse.

Forte abraço, vida e saúde para todos nós

Carlos Filipe Gonçalves

Jornalista Aposentado


2. Resposta do nosso editor LG, com data de terça, 23/09/20925, 22:24

Carlos, obrigado, é um achado... Vou publicar, penso que o Manuel não se zanga comigo. Conhecemo-nos pessoalmente há bastante anos (c. 2009). Ele teve a gentileza de ir à minha Escola (Nacional de Saúde Pública, no Lumiar, perto do estádio de Alvalade, do SCP) para me conhecer pessoalmente e partir mantenhas.

O Manuel Amante da Rosa (sic) trm c. 4 dezenas de  referências no nosso blogue. Também é amigo da Isabel Brigham Gomes, que foi minha aluna há largos anos, no curso de Mestrado em Saúde Pública. Mas não tenho sabido notícias dele. Julgo que vive agora no Mindelo (pelo que vejo na página do Facebook). Deve estar aposentado ou reformado...Pertencia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros...

Viajei no Geba no "barco-turra" do pai... Dá-lhe notícias minhas/nossas. Dou-lhe conhecimento deste mail, espero que ele ainda use o mesmo endereço de email. Gostaria de poder retomar os nossos contactos. Nunca conheci Bolama, o meu CIM foi em Contuboel (em junho/julho de 1969, na formação da futura CCAÇ 12, uma companhia de fulas, depois colocada em Bambadinca). Mas muita malta do blogue passou por Bolama... Vou ver em que série vou publicar esta deliciosa crónica. Ele sempre escreveu muito bem.

Para ti, um chicoração fraterno. Luís

 
3.As nossas geografias emocionais (**) >   CIM Bolama, setembro de 1973, o meu CSM 



por Manuel Amante da Rosa (ex-fur mil, Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74, hoje embaixador reformado, Cabo Verde; nassceu em Bolama, filho de pais cabo-verdianos)

 Idos de Setembro de 1973, ainda um imberbe de 20 anos, voltava à ilha de Bolama para assentar praça no único e estafado Curso de Sargentos Milicianos (CSM), no Centro de Instrução Militar (CIM),  que se fazia na Guiné. 

Cmo era o único anual e em pleno território em guerra e confrontos armados, quase generalizada, havia exageros ou “heróis” de aquartelamentos. O CIM não fugia à regra.

Muito calcorreámos e rastejámos pela ilha! Em marchas e patrulhas, diurnas e noturnas, forçadas e esforçadas!! Até a pista de lodo de ir e vir ao Farol fizemos. Só quem andou pela guerra na Guiné sabe o que é ter pela frente lodo para atravessar. Afundamo-nos até à cintura. E a G-3 torna-se maldita. Imprestável. Amaldiçoada a cada avanço.

Num quartel de instrução militar que formava todos os militares de recrutamento local, mais de dois mil por ano, a comida era péssima, em pratos e caçarolas de alumínio e servida em dois turnos ou por vezes três. Asseio nulo. 

Até praga de sarna imputada aos numerosos cães do quartel houve pela unidade. Fui uma das vítimas. Micoses e furunculoses (fui notável vítima desta) eram consideradas normais e havia fórmulas (até número 7, dependendo do grau de infecção) e unguentos militares para tratamento de tudo. 

Mas os Fuzileiros eram melhores. O idoso Sargento Enfermeiro deles, que já tinha passado pela Índia e Timor, após prognóstico errado de dois jovens alferes médicos de que ou teria micose ou sarna, graças a uma feliz intervenção do Imediato da Escola de Fuzileiros, curou-me. Disse ser má circulação e alergia possível ao alumínio. 

Curou-me até hoje. Com autossangue. Ía à enfermaria dos Fuzileiros, tirava-me sangue do braço esquerdo, injetava logo na nádega direita e aplicava no braço uma injeção de immunodol (?), segundo penso. 

No dia seguinte voltava para o braço direito e a nádega esquerda. Quinze dias seguidos e tudo desapareceu. Até hoje!! 

Mas no CIM o nosso soldado maqueiro, que por vezes exalava, pela manhã, um hálito de vinho de caju ou outro, era um autêntico médico de ocasião. Sempre disponível!!

Qualquer infecção, mesmo bolhas arrebentadas no pé ou unhas encravadas e infetadas, tosse, dor no corpo, pangabarriga (diarreias), esquentamentos, sarna e/ou micose era tratado com um "cunto” (injecção de penicilina de um milhão de unidades, aplicada bem de manhãzinha antes do furriel ou médico chegarem bem mais tarde).

Abria o armário, regalava os olhos perante tantos “cuntos” à sua livre disposição e em tão pequeno frasco!! Retirava de um pequeno tacho de alumínio a ferver a seringa e a enorme agulha (ainda não havia seringas e agulhas descartáveis) com um olhar de sabedoria e sadismo que baste! 

Eu fechava os olhos e pedia a Deus para me proteger da agulha. De ficar manco. O maqueiro mandava arrear a calça militar e “pimba”. Espetava a agulha sem hesitação! 

Por vezes a “cuntomania” (um milhão de unidades de penicilina) durava uma semana seguida. Desisti porque a furunculose no meio das pernas não passava. Não havia controlo. Mas nunca me apercebi dessa apetência na Guiné pelas injecções (gudja).

Acontecia ter vómitos imediatos de estômago vazio e sentir o sabor estranho de remédio e sobrevinha fraqueza logo depois. Mas todos sobrevivemos. Fosse hoje!!!

Valeu-me muito fingir que almoçava no rancho (sujava o prato de alumínio porque aqueles “heróis de quartel”, alguns até de pingalins, sempre passavam para verificar)
e depois ir jantar no Palácio de Bolama, onde o Administrador do Concelho era o meu querido e saudoso tio. 

Habitualmente era o último instruendo a entrar na porta de armas antes dela ser fechada às 11 da noite.

E dirigia-me para a nossa caserna onde eu próprio e todos os meus antepassados éramos insultados, vernaculamente e na língua de todas as etnias possíveis da Guiné!! Era a minha boa hora de me desobrigar de me sentir na tropa.

Os insultos eram de “koutina na má” para pior. Dependendo da rigidez dos insultos,  respondia com um “Kuk d’obú”! Ou cantava “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal”.(*)

Algo que fazia subir o tom e teor dos insultos na escura caserna. Fazia barulho, acordava alguns mais próximos para perguntar as horas ou me resfolgava ruidosamente. A pior coisa que podia ser feito numa caserna. É um ultraje para a cultura guineense o fazer. Levava de imediato muitos a cuspirem. Palavra!!

A maioria de nós éramos da mesma geração do liceu, tínhamos sido criados juntos e a camaradagem e solidariedade nas piores situações dentro ou fora do quartel era imediata.

Sabíamos que alguns ao fim de 3 anos não sairiam vivos ou ilesos da tropa. A guerra estava no seu auge. O equilíbrio existente até essa altura se desfazia e era percebido. A guerrilha era cada vez mais ativa. E as flagelações aos quartéis mais certeiras. As minas eram cada vez mais implantadas, nas estradas, picadas e trilhos de patrulhas. Faziam muitas vítimas. Mais até que os ataques aos quartéis e emboscadas. 

Havia entre nós a crença de que em patrulhas era melhor usar botas de lona. Porque as minas, se pisadas, somente levariam uma parte do pé. Se com botas de cabedal o sopro levaria todo o pé até onde terminava na canela. Nunca precisei dessa teoria.

Sabíamos também que muitos de nós teriam como destino as Companhias de Caçadores! De recrutamento local, enquadradas por oficiais e sargentos da “metrópole”. Umas espécies de unidades para carne de canhão. Nas piores zonas da “província” !

Lembro-me de ter entrado por duas vezes em vias de facto com dois colegas mais fortes, pelo meio dia, e à tardinha estarmos sentados um ao lado do outro em cavaqueira conversa.

Felizmente e graças a Deus o 25 de Abril pôs fim à guerra! Fomos desmobilizados.

Entramos logo a seguir em novos desafios. Fui ser professor. Mas fica para um outro momento com disposição para rememorar.


(Revisão / fixação de texto, título: LG)


________________


Notas do editor LG:


(*) Último poste da série > 24 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27249: As nossas geografias emocionais (58): A Pousada do Saltinho ou "Clube de Caça", com ar de abandono, em maio de 2025 (João Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74)

(**) Com a ajuda do assistente de IA / ChatGPT, apurei o seguinte:

No crioulo da Guiné-Bissau, insultos como “koutina na má” (“a tua mãe é uma puta”) ou “Kuk d’obú” (“caga no teu pai”) eram das ofensas mais duras, por atacarem a honra familiar. Já cantos como “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal” (“Tin-don, tin-don, pai da lontra, tu és feio”) tinham um tom mais trocista, usados para desarmar tensões ou provocar a rir.

Enquadramento cultural do uso e significado destas expressões na Guiné em 1973:

(i) O valor dos insultos no crioulo

O crioulo da Guiné-Bissau tem um repertório riquíssimo de insultos, quase sempre ligados à família (especialmente à mãe e ao pai). Dizer “koutina na má” (a tua mãe é uma p*ta ) era dos piores insultos possíveis, porque atingia diretamente a honra familiar.

Da mesma forma, “Kuk d’obú” (caga no teu pai) é altamente ofensivo, já que desrespeita a figura paterna, pilar de respeito na cultura guineense.
 
(ii) Resposta com insulto ou com canto

Quando alguém insultava, havia duas opções: responder no mesmo tom (com outro insulto ainda mais duro) ou quebrar a agressão com humor ou música.

O canto “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal” tem um tom trocista. Não é um insulto tão pesado, mas funciona como uma gozação para desarmar a tensão. O ritmo “tindon, tindon” imita um refrão ou um toque de tambor, quase infantil.

Chamar alguém de “pai da lontra” ou “feio” é mais ridicularizar do que agredir seriamente.

(iii) Contexto em 1973


No tempo da guerra colonial, estas expressões circulavam entre soldados (portugueses e guineenses) e também entre crianças e jovens das tabancas. Eram usadas tanto em discussões sérias como em brincadeiras:  na oralidade guineense, até os insultos podem ter uma função lúdica, de provocação amistosa ou de reforço de laços.

Em resumo: os insultos duros marcavam rivalidade e conflito, mas os cantos e troças ajudavam a aliviar tensões e até a criar cumplicidade

terça-feira, 10 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26903: Efemérides (458): foi há 52 anos, o 10 de junho de 1973, Dia de Portugal, o último sob o regime do Estado Novo ("Diário de Lisboa", 11 de junho de 1973)


Dia de Portugal, 10 de junho de 1973, o leitor que adivinhe! Foto de primeira página, sem título de caixa alta, apenas com a seguinte legenda;



Fonte: Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares | Pasta: 06817.167.26386 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18126 | Ano: 53 | Data: Segunda, 11 de Junho de 1973 | Directores: Director: António Ruella Ramos | Observações: Inclui supl. "Exclusivo" | Fundo: DRR - Documentos Ruella RamosTipo Documental: Imprensa  (Com a devida vénia...)


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2023)
 


1. O jornal, o "Diário de Lisboa", que não se publicava em dias feriados, reproduz na página 14 (e não 12, como vem indicado na notícia de primeira página) o discurso do então Chefe de Estado, Almirante Américo Tomás (Lisboa, 1894-Cascais, 1987).  Seria o último 10 de junho, Dia de Portugal,  realizado na vigência do regime do Estado Novo.  (O jornalista não podia adivinhar que era o último, mas hoje sabemos; o leitor habitual também náo precisava de título para saber do que tratava.)

Na primeira página, ao canto direito,  publica-se apenas a foto que reproduzimos acima: o chefe do Governo a entregar uma condecoração a título póstumo (a uma mulher, carregada de luto, uma viúva de um militar morto em combate,  deduz-se). A imagem, escolhida foi esta, sempre pungente,  e não  outra (por exemplo, a dos "Torre e Espada" desse ano).  E não era por acaso, tendo em conta a orientação do jornal, "conotado com a oposição democrática".

A notícia das cerimónias (que o jornal não podia deixar de dar...) é remetida para a página 14...

Ficamos a saber que nesse  10 de Junho de 1973 foram distribuídas, em Lisboa e outras cidades,  mais de 4 centenas e meia de condecorações a militares dos 3 ramos das Forças Armadas, que se destacaram nos TO de África:

  • em Lisboa, 89 militares;
  • no Porto, 86; 
  • em Coimbra, 34;
  •  em Santarém, 46; 
  • em Évora, 4; 
  • no Funchal, 7; 
  • em Ponta Delgada, 6; 
  • em Luanda, 8 (além de  três civis africanos);
  • e, em Lourenço Marques, 59. 

Um major de cavalaria  dois capitães de infantaria e um alferes receberam em Lisboa a mais alta condecoração, oficial da Ordem Militar da Torre Espada com palma. (O jornal não diz os nomes,  mas sabemos que foram o maj cav J. Almeida Bruno, os cap inf F. Lobato de Faria e A.J. Ribeiro da Fonseca e o alf  pqdt A. Casal Martins.)

Condecorado com Medalha de Ouro de Valor Militar com Palma foi o  gen J. M. Bettencourt Rodrigues, que, ainda provavelmente sem o saber, seria o próximo com-chefe e governador da Guiné, substituindo o gen António Spínola (que cessaria funções em 6 de agosto de 1973).


Duas companhias do navio-escola brasileiro "Custódio de Melo" associaram-se ao desfile final. em que participaram mais de três mil elementos dos três ramos das Forças Armadas Portuguesas, das corporações e dos estabelecimentos militares (pág, 14). (O Brasil, recorde-se, ainda vivia sob ditadura militar, 1964-1985).

Do discurso do almirante Américo Tomás, o último presidente da República do Estado Novo,  publicado na edição do "Diário de Lisboa", de 11 de junho de 1973, reproduzem-se alguns excertos... 

Doze anos depois do início da guerra em África, parece haver preocupação,  por parte do então chefe de Estado,  com a coesão, a solidez e o moral das Forças Armadas, numa altura em que havia já sinais de pré-rotura do gen Spínola com o regime (ou  com a ala mais radical do regime) e quando o manuscrito do livro  "Portugal e o Futuro" estava já na forja, mas ainda em segredo e sem título. (Seria concluído, nesse verão, nas célebres termas do Luso onde Spínola passava sempre uma temporada.)

Pergunta-se: será que esta mensagem do então presidente da República chegou a todos os seus destinatários, e sobretudo aos que defendiam a bandeira de Portugal nos "até por vezes inconfortáveis quartéis do mato africano" (sic) ? E, se sim, terá sido bem acolhida e compreendida ?

Pessoalmente não me lembro do meu Dia de Portugal no TO da Guiné, nem em 1969 (em Contuboel) nem em 1970 (em Bambadinca ou algures no mato). 


(...)





domingo, 8 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26899: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) Parte VIII: quando cheguei a São Vicente, de férias, em outubro de 1973, fiquei encabulado, não sabia praticamemte nada sobre a proclamação unilateral da independência pelo PAIGC


Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 1969 : Festa de Carnaval no Grémio... O Carlos Filipe Gonçalves é o nº 5...A maior parte do grupo está identificado: 1=Cajuca Feijó; 2=Herberto Martins; 3=Lena Melo; 4= Nini Tristão; 6= Ana Paula Ribeiro Freire; 7=Vanda Mesquitela Fonseca; 8=Fatu Grais; 9= Vicente Chantre; 10= Luís Guimarães Santos; 11= Zinha Pinto; 12= Ana Isabel Chantre Ramos; 13= Teté Bonucci Pias; 14=Filinto Martins. Fonte: Facebook do Carlos Filipe Gonçalves. Foto de Luisa Vidigal (20 de julho de 2017)

Em data anterior, encontrei a mesma foto, com pequenas alterações de legendagem, da autoria do Carlos Filipe Gonçaves: 28 de fevereiro de 2011. Legenda: Conjuntp West-Side, Carnaval 1969 no Grémio, MIndelo, SV, CV". 15=Henrique Sousa ("Nandim"); 16= Juliana; 17= Flintão; 4?Magui Curado... Os músicos do Conjunto West Side são: 1, 2, 5, 15.

Curiosamente, há um comentário sob a forma de pergunta,em crioulo,  que não deixa de ser pertinente: "Esse era naquel tempe que Greme era de "Gente Bronque"? (Traduzindo: Isso era naquele tempo em que o Grémio era da "gente branca",  ou seja elitista, crioula e colonial ) (Elisa Andrade, uma mindelense que vive em Paris).

Deve tratar-se do Grémio Recreativo Mindelense...

Segundo o assistente de IA da Gemini / Google, "o Grémio Recreativo Mindelense tem uma história muito significativa no Mindelo, São Vicente, e é uma entidade distinta, embora por vezes se possa confundir a sua história com a do Clube Sportivo Mindelense (que é o famoso clube de futebol).

É crucial clarificar que existe o Clube Sportivo Mindelense (CS Mindelense), fundado em 8 de outubro de 1919, que é um dos clubes de futebol mais antigos e mais vitoriosos de Cabo Verde e da África Ocidental. É este o clube conhecido pelos seus inúmeros títulos regionais e nacionais e pela sua grande massa adepta.

No entanto, as pesquisas indicam claramente a existência de um Grémio Recreativo de Mindelo, que parece ser uma entidade separada e com um foco mais amplo que o desporto.

Aqui estão os pontos principais sobre a história do Grémio Recreativo de Mindelo:

  1. Natureza e Finalidade: ao contrário dos clubes desportivos que se focam principalmente no futebol, o Grémio Recreativo de Mindelo era uma associação de caráter social e recreativo;  p seu objetivo era proporcionar um espaço de convívio, lazer e entretenimento para os seus membros.

  2. Exclusividade e Elite: era considerado um "bastião da presença colonial" e um local de encontro da alta sociedade mindelense, da elite local;  a admissão de membros era rigidamente controlada;  era frequentado por "gente brónke" (termo que, em Cabo Verde, não se referia necessariamente à cor da pele, mas à posição social e económica da elite, por vezes associada a uma certa "portugalidade").

  3. Localização e Importância: a sede do Grémio Recreativo de Mindelo localizava-se em frente à Praça Nova ( hoje, Praça Amílcar Cabral, no centro histórico do Mindelo), o que demonstra a sua centralidade e importância na vida social da cidade; era um local onde os membros se reuniam para conversar e se divertir.

  4. Papel Cultural e Político (Rádio Barlavento):

    • Um dos aspetos mais marcantes da história do Grémio Recreativo de Mindelo é a sua propriedade sobre a Rádio Barlavento.; esta rádio, instalada nas instalações do Grémio, era um veículo de comunicação crucial para a elite mindelense e teve um papel ativo de oposição à independência imediata de Cabo Verde e à unidade com a Guiné-Bissau ( e , portanto, ao PAIGC).
    • A sua importância foi tal que, em 9 de dezembro de 1974, às vésperas da independência, a Rádio Barlavento foi tomada por um comando do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC); este evento simbólico marcou a transição de poder e a queda do que era visto como o "establishment colonial"; a Rádio Barlavento deu depois lugar à Rádio Voz de São Vicente e, mais tarde, à Rádio Nacional de Cabo Verde (RNCV).
  5. Atividades Recreativas e Culturais:

    • O Grémio era palco de bailes, serenatas e outras atividades sociais; artistas locais atuavam nas suas instalações;  por exemplo, há relatos de músicos como Faia Torres (Rafael Augusto Torres) a tocar com o seu grupo no Grémio Recreativo do Mindelo nos anos 60.
    • Este espaço permitia o convívio e a manutenção de certas tradições culturais e sociais da elite mindelense.

Em resumo, o Grémio Recreativo de Mindelo não era um clube desportivo como o CS Mindelense, mas sim uma importante associação social e recreativa da elite mindelense, que teve um papel cultural relevante e uma significativa implicação política no período pré-independência de Cabo Verde, nomeadamente através da Rádio Barlavento. O seu declínio e a tomada da rádio marcaram o fim de uma era para esta associação."



Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 1969 > O Conjunto West Side no histórico Cinema Eden Park... O Calu, o nosso Carlos Filipe, é o terceiro, a contar da esquerda, de óculos: tocava percussão.


1. Continuação da publicação da série do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves (*),disponíveis na sua pãgina do Facebook e na nossa página da Tabanca Grande:

Mais uns extratos de "Recordações de um Furriel Miliciano na Guiné 1973/74": são mesmo «pequeníssimos» como indicam a numerosas reticências entre aspas. Isso porque deixo para a edição do livro muitas descrições pormenorizadas e documentadas. Aliás, já estou quase no final da publicação destes extratos das minhas memórias. 



O "senhor rádio", o Carlos Filipe Gonçalves (Kalu Nhô Roque (como consta na sua página no facebook):

(i) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde;

(ii) foi fur mil amanuense, QG/CTIG, Bissau, 1973/74;


(iii) ficou em Bissau até 1975;


(iv) músico, radialista, jornalista, historiógrafo da música da sua terra, escritor, vive na Praia;


(v) membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, nº 790;


(vi) tem 26 referências no nosso blogue.(*)


Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo)

Parte VIII: quando cheguei a São Vicente, de férias, em outubro de 1973, fiquei encabulado,  não sabia praticamemte nada sobre a proclamação unilateral da independência pelo PAIGC


Naqueles anos de 1973 e inícios de 74, Bissau é uma cidade cheia de festas e bailes, apesar da guerra, no entanto, muito poucos da tropa portuguesa têm acesso a esses convívios privados! 

Geralmente são festas de gente com estudos, quadros, funcionários guineenses e cabo-verdianos que trabalham na administração pública (alfandega, banco, casas comerciais, empresas, etc.). 


Muitos oficiais e sargentos, frequentam a única e famosa boîte de Bissau, o “Chez Toi” com música ao vivo e «brancas» vindas da metrópole… que fazem striptease e outras coisas… para fazer a malta esquecer a guerra…, minimizar o ambiente de horror… (…) 

Os soldados divertem-se em jantaradas e cervejadas nos restaurantes e bares que pululam pela cidade, conversam depois da bica nos cafés, deambulam depois pelas ruas… ou, vão ao famoso bairro infestado pela prostituição que é o Cupelon. 

Aqui, surgem rixas e pancadaria frequente, há tiros, e… de vez em quando, depois de uma discussão qualquer… alguém lança uma granada…. Bum! Salve-se quem puder! 

Porque, em Bissau todo o mundo anda armado, para além disso, muitos militares estão psicologicamente afectados, são os marados, os apanhados pelo clima, ou pelo cacimbo, não estão no seu perfeito juízo! Logo, provocam zaragatas por tudo e por nada, têm reacções violentas, praticam actos irreflectidos. (…)

Como disse antes, eu estava cada mais integrado na sociedade guineense, de modo que nas horas de folga e de lazer, pouco a pouco, fui deixando de ter contactos assíduos com os militares brancos. Os meus colegas de quarto atiram-me então indirectas, criticando a minha integração: “Sortudo! Andando com pretas e mulatas e não ligas à malta!” 

Quando eu chegava altas horas da noite à camarata, não faltavam comentários: “Na borga toda a noite e agora chateias o sono de cada um!” 

E continuei a ser o alvo das provocações do Gabarolas (#), sempre que podia, ele atirava-me diretas «provocatórias» sob a capa de informações as mais diversas. Foi assim que passei a saber muita coisa sobre o desenrolar da guerra e sobre muitos ataques e operações que decorriam no mato naquela altura. 

Foi através de diálogos do tipo (com o Gabarolas) que eu soube que tinha havido no início de maio uma contra-ofensiva da tropa portuguesa, depois de um ataque do PAIGC à localidade de Guidage. (…)

Em Bissau, naquele mês de junho de 1973 falava-se muito sobre Guidaje, (…) Só em meados de julho soubemos de um grande ataque no Sul em Guileje, (…) (##)

No quartel em Bissau, desde finais de maio que a ofensiva do PAIGC era tema recorrente nas conversas, mas, a maioria de nós, não imaginávamos a amplitude (…). Nem podíamos imaginar que os acontecimentos daquele mês de «Maio sangrento», ditariam o final da guerra! 

Anos depois, os ex-militares que lá estiveram, referem maio de 1973 como o «Inferno dos Três G» ou seja: Guidaje, Guileje, Gadamael! A partir de Junho de 1973 a guerra tomou um novo rumo, a cada dia, um novo desenvolvimento, cada vez mais acontecimentos sangrentos… mas, em Bissau a vida continua como se nada tivesse acontecido. (…)~

Pouco dias antes do final de julho (de 1973) por volta das 11 horas, na CHEFINT, ouvimos o roncar de um helicóptero, o ruído aproxima-se e está cada vez mais forte, vimos então o aparelho a descer, levantando muita poeira, aterra na parada do BINT. Estamos todos nas janelas a observar…. Abre-se a porta do helicóptero… logo depois sai o general Spínola, como sempre fardado de camuflado… fui logo avisar o tenente-coronel, nosso chefe, que saiu a correr... 

No rés do chão o comandante do BINT saiu logo,  foi cumprimentar o general Spínola, chegam, entretanto, outros oficiais, conversam todos uns vinte minutos… Spínola volta a entrar no helicóptero e vai-se embora. 

O alferes, que era sempre, o mais bem informado, comentou que Spínola estava a despedir-se, pois ia de férias para a metrópole durante o mês de Agosto. A grande verdade é que em inícios de Setembro, Spínola não voltou, chegou depois a notícia da nomeação de um novo governador e comandante-chefe. (…)

No final do mês de setembro de 1973 aconteceu no mato a proclamação da República da Guiné-Bissau, mas confesso, não foi um assunto badalado entre a tropa. Logo depois, início de outubro, fui de férias a S. Vicente. 

Aqui, na minha cidade do Mindelo, mal cheguei fui logo confrontado com essa notícia! Primeiro pelo meu pai que me acolheu no aeroporto, depois pelo resto da família. Fiquei encabulado, pois não sabia pormenores sobre esse assunto! Porque, esta notícia, nem foi comentada no meu círculo na repartição, nem com colegas na messe. 

Aqui no Mindelo, perguntavam insistentemente pela Guerra na Guiné e diziam: as coisas estão feias! Ah! Isso eu sabia, mas não podia dizer uma palavra sobre os acontecimentos em Guileje ou Guidage! Sabia que a Pide estava omnipresente… qualquer deslize, estaria tramado! O jornal Arquipélago que o meu pai comprava, abordou várias vezes a notícia da Independência da Guiné-Bissau, claro, dizia-se/insistia-se que «era um acto de fantasia». 

Mas… eu sabia, que uma grande parte do território da Guiné, não tinha tropa portuguesa! É que quando eu entrava no gabinete do tenente-coronel, ele ia rapidamente fechar a cortina que cobria o grande mapa que lá havia, no qual se indicava com alfinetes de diversas cores, onde estavam os batalhões e respectivas companhias, pelotões disso e daquilo, etc. 

Mas, tarde de mais… não dava para esconder… eu, via sempre, duas grandes áreas, onde não havia nenhum alfinete, uma zona ali a norte de Mansoa, que venho a saber mais tarde era a “Zona Libertada de Morés”, a outra estendia-se a Leste e para o Sul! Era um buracão sem nada…. Nenhum quartel! 

Meu pai insistia nas perguntas, mas eu, não abria a boca, nem com ele, nem com amigos e malta conhecida… porque eu sabia, a Pide estava sempre por perto…

___________

Notas do autor:

(#) O Gabarolas era um "camarada" militar, que me acompanhou desde quando estive em Leiria, na especialidade. Gozava comigo, provocava-me com tiradas políticas, enfim, passei muito mal com este «camarada» que só depois do 25 de Abril vim a saber que era da PIDE! (…)

(##) A batalha de Guileje foi em meados de maio de 1973

(Continua)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, edição e legendagem das fotos: LG)

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Nota do editor:

Último poste da série  > de 4 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26880: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - Parte VII: Os "turras" têm agora um míssil que abate aviões e helicópteros

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26880: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - Parte VII: Os "turras" têm agora um míssil que abate aviões e helicópteros




"Diário Notícias  de 31/3/1973  


A notícia da queda do Fiat G-91, nº 5419, pilotado pelo ten cor pilav Almeida Brito, comandante do Grupo Operacional 1201, da BA 12, em Bissalanca, abatido por um míssil Strela, foi dada, surpreendentemente, pelo "Diário de Notícias", em caixa alta. (Não consta, por exemplo, do "Diário de Lisboa".)

Imagem: Cortesia do blogue do Victor Barata > Especialistas da BA12, Guiné 65/74 > Terça-feira, 31 de Julho de 2007 > Ten Cor Pilav Almeida Brito: Única vitíma mortal do Strela, por Arnaldo Sousa

O Comandante Almeida Brito tinha nascido em 1933 e concluído em 1953 o curso de aeronáutica militar na Escola do Exército (antecessora da Academia Militar). O seu desaparecimento (o corpo nunca chegriara a ser encontrado) causou profunda consternação na BA12 e em Bissau, onde era um militar muito conceituado e muito querido entre os seus subordinadas e amigos.


Guiné Bissau > c. 1973 > Cortejo fúnebre para embarque de urnas


Guiné > Bissau > c. 1973 > instalações da UDIB onde havia um cinema cujo salão era utilizado para o Congresso do Povo. (O início da construção da nova sede da UDIB - União Desportiva e Internacional de Bissau data de fevereiro de 1969; a primeira pedra foi lançada pelo então brigadeiro António Spínola.)



1. Continuação da publicação da série do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves (*)

Recordações da Guiné de um Furriel Miliciano. 

No extracto de hoje, o primeiro de grandes acontecimentos que a partir de agora iriam marcar o fim da guerra na Guiné… Hoje, sabemos, que foi assim… mas, no final de março de 1973, vivíamos normalmente o dia a dia no QG em Santa Luzia, eu, completava o meu primeiro mês de Comissão, ainda era um «periquito», ou seja, na gíria militar eu era um «novato» que ainda estava a adaptar-se ao ambiente de guerra e ao clima, como descrevi no post anterior. 

Passados 51 anos, para além da descrição «naïf» de como um jovem de 23 anos viveu os acontecimentos, descrevo o ambiente de guerra que se vivia. Apresento também uma visão do outro lado (afinal sou jornalista), procuro, pois, dar aos nossos filhos e netos uma visão clara dos acontecimentos. 






O Carlos Filipe Gonçalves (Kalu Nhô Roque, como consta na sua página no facebook):

 (i) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde; 

(ii) foi fur mil amanuense, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; 

(iii) ficou em Bissau até 1975; 

(iv) radialista, jornalista, historiógrafo da música da sua terra, escritor, vive na Praia; 

(v) membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, nº 790;

 (vi) tem 25 referências no nosso blogue.(*)



Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) 

 Parte VII: Os "turras" têm agora um míssil que abate aviões e helicópteros



Pouco depois da minha chegada a Bissau, a grande notícia foi o derrube de aviões Fiat ! A notícia não foi dada na rádio, mas circulava entre os militares. Dizia-se que um avião não voltou de uma missão, foi outro à procura para ver o que aconteceu, também foi abatido. 

Os "turras", diziam os meu camaradas militares, têm agora um míssil que abate aviões e helicópteros. Na conversa sobre este este assunto na repartição o alferes explicou: o novo míssil procura uma fonte de calor e corre atrás! 

Foi assim que fiquei a saber que os helicópteros tinham uma turbina, para os impelir para a frente e que a grande hélice horizontal apenas servia para os manter no ar. 

Os helicópteros voam agora baixinho a rasar a copa das árvores e não podem deslocar-se a todos sítios! Anos mais tarde depois da guerra, vim a saber que se tratava de mísseis antiaéreos Strela, de fabrico soviético. 

Manuel Amante explicou que, depois da entrada desta nova arma do PAIGC, “passou-se a utilizar muito mais o transporte terrestre e marítimo, eu sei disso, porque o meu pai tinha barcos nessa altura, que faziam o transporte de coisas… principalmente para Xime e Bambadinca. (…) A navegação no rio fazia-se, com alguma precaução principalmente de noite porque havia sempre ataques em Mato Cão. Aliás um dos navios de transporte do meu pai, foi atacado nessa altura a uns 20 minutos antes de chegar a Xime.” 

Manecas Santos, comandante do PAIGC, em entrevista à rádio DW,  comentou anos mais tarde esta situação: 

“Em 1973, eu era o chefe de um grupo que foi treinado na União Soviética para manusear armas antiaéreas eficientes: foguetes. (…) A partir do momento que nós começámos a usar estas armas antiaéreas, o exército colonial português ficou completamente na defensiva.(…).”  (##)

Depois da minha chegada a Bissau, aprendi com os veteranos a distinguir o som dos bombardeamentos/flagelações lá longe e se ouvia perfeitamente em Bissau. Aconteceu numa noite, estava eu no Café Império ao lado da Praça de mesmo nome (atualmente Praça dos Heróis Nacionais); depois de se ouvir bombardeamentos ao longe, disse-me um amigo, militar mais experiente: 

“Quando se ouve «Buuum" depois de uma breve pausa, «Buuum» um pouco mais longe, são obuses da tropa, ou canhão dos «turras». Quando se ouve simplesmente «Buuum» e não há retorno, são mísseis dos «turras».” 

Os veteranos colocavam a palma da mão no ouvido para orientar e diziam: 

“Daquele lado é Bula… ou, Binar? Deste lado, é muito perto só pode ser Tite… Cumeré?”

Quando os helicópteros passavam insistentemente, já se sabia, houve feridos em combate, estão a decorrer evacuações. 


Guiné > Bissau > 1974 > Café Império, já na antiga Praça do Império, ao cimo da Av da República, do lado direito de quem subia...


Foto (e legenda): © Jorge Pinto (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]



Sentado no Café Império em dias de folga, fui algumas vezes surpreendido pela passagem de cortejos militares fúnebres, a caminho do cais para o embarque de restos mortais para a metrópole. À frente, ia um jipe com soldados de luvas brancas, todos perfilados, atrás os camiões com as urnas, tudo em silêncio, devagar…. Então, levantávamos e ficávamos em sentido, aqueles que estavam fardados faziam continência.

Um dia, a propósito do ataque a uma localidade qualquer, o Demba contou a sua história. Antes, de vir para a ChefInt trabalhava numa enfermaria algures mato, num quartel como ajudante de enfermeiro. Teve azar, quando uma granada atingiu a enfermaria, explodiu um garrafão de álcool, o líquido incandescente atingiu-o! Com queimaduras graves, foi evacuado para Bissau, depois evacuado para o Hospital Militar em Lisboa. Esteve meses em coma! Felizmente – dizia – muitas pessoas lhe deram pedaços de pele que lhe foram sendo enxertados. E apontava para a cara: 

“Estão a ver! Tenho pele de muitos brancos… e também de pretos! Deram pele e me ajudaram! Passei mais de dois anos no hospital em Lisboa. Graças a Alá, sobrevivi!” 

Arregaçou as mangas para vermos os braços todos queimados, abriu a camisa e mostrou o peito, onde se viam manchas brancas entre a pele preta e múltiplas cicatrizes.

Fiquei impressionado, mas não comentei. Percebi, agora,  porque tinha a cara desfeita! Começava a ter contacto com os horrores da guerra.

Naquele mês de Abril de 1973, houve uma reunião da Assembleia Legislativa , foi acontecimento badalado na rádio. Aqui, chama-se Congresso do Povo, reúne deputados locais, chefes tribais e régulos de diferentes etnias.

 As sessões decorriam no salão do cinema da UDIB , um clube desportivo com belíssimas instalações sociais na avenida principal da cidade. Claudino tinha um radiozinho que ele colocava sobre a mesa, ouvíamos baixinho a ERG que fazia as reportagens em direto, ou transmitia discursos, uns em crioulo, outros em línguas das etnias, mas para mim, era tudo igual ao litro… não entendia nada.

Pouco depois, foi a morte de um líder muçulmano em Nova Lamego, Gabú para os locais. Spínola ordenou um funeral com pompa e circunstância. Demba andava entusiasmado e quando os discursos eram em «fula»,  ele comentava nessa língua com o Issa e com o Claudino. No dia do funeral do tal imã, o Demba não compareceu no serviço. Dias depois, quando regressou, contou o que se tinha passado nas exéquias, falou do discurso de Spínola etc. etc. 

________________

Notas do autor:


(#) Um primeiro avião Fiat foi abatido em 25 de Março de 1973 por um míssil. O segundo avião do mesmo tipo foi abatido em 28 de Março de 1973 também por um míssil. Foram abatidos mais aviões deste tipo em 1 de Setembro de 1973, 4 de Outubro de 1973 e 31 de Janeiro de 1974.

Fonte: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné > 21 de junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1867: Força Aérea Portuguesa: Seis Fiat G.91 abatidos pelo PAIGC entre 1968 e 1974 (Arnaldo Sousa)

(##) Manuel Santos, "Manecas", nascido em S. Vicente, Cabo Verde, 1943. Estudante de Engenharia em Lisboa, aderiu ao PAIGC em 1964. Foi ministro em vários Governos na Guiné-Bissau.

(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)