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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28368: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (20): a "Venda" na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX - Parte II: Neorrealismo (Manuel da Fonseca, Alves Redol, Fernando Namora)

 























Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna.  Multifunções na aldeia:  mercearia; drogaria;  loja de bugigangas, tachos e panelas; carvoaria;  casa de comida ou  de pasto; pensão, hospedaria (de beira de estrada),  etc. ... Mais especializada na vila, onde  havia mais oferta e maior número de estabelecimentos comerciais.  Mas, em geral, a taberna também é casa de comida, de petiscos , etc. O taberneiro não podia viver só dos " copos de três"... 

  No seu romance,  "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé"  (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.

 Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.

Era um espaço masculino, tal como a igreja e o lavadouro público eram territórios femininos. A mulher não entrava  na tasca, mandava o filho mais velho fazer alguma compra de  última hora. "In extremis" , entrava na tasca para trazer para casa o homem com vinho a mais.

A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se.  O cheiro a sarro, a serradura no chão, a peixe frito, a vomitado e  a lixivia ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... 

Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal" ou " Notícias da Amadora") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco". 

Era uma tasca icónica, e também casa de pasto, conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", por nela ter assento a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público  (câmara municipal, tribunal,  finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços. Também servia de escritório para os solicitadores...

A expressão, "Sociedade de Geografia",  é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, de verbo fácil,  autodidata,  que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e  que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como figura da oposição democrática local. Seria depois autarca a seguir ao 25 de Abril.  Infelizmente morreu cedo,  aos 60 anos.

O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno ("macaco-cão", no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente  lourinhanense, no regresso da guerra de Angola, logo no início. 

Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca ou de bisca, e também a umas rodadas de "tinto", acompanhando os pratinhos de salada de polvo ou postas de moreia e de "arraial" fritas.

  Morreu no exílio e, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola, o macaco. E sem nunca ter ouvido discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.

Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna" (ou a "Tasca"), e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*) 

Neorrealismo português (meados do século XX):  a representação da venda e da taberna 


Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, em relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX.   

O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica,  romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeiras décadas do séc. XX,  para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a  taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)

Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, do almocreve, etc., a par do  local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista que ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:

(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês, o ganhão, o jornaleiro, oo cavador de enxada, o mineiro ou o operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito (aos agentes da "praça da jorna", aos recrutadores de mão-de-obra), empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim,  acorrentado ao comerciante ("vendeiro" ou "taberneiro" ) ou ao lavrador abastado;

(ii)  "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);

(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos daos patrões, das autoridades e das polícias ( a GNR, a PVDE / PIDE), que nascem os sussurros de greve,  de incitações á revolta , a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual)  e a tomada de consciência política.

Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesar da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo.

Acrescente-se, a propósito, que aescolha de Vila Franca de Xira não foi casual; a região do Ribatejo, as lezírias, o trabalho duro no campo e no Tejo, a conflitualidade social  etc., serviu de cenário e inspiração direta para obras estruturantes como o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol, ou o Cerromaior, de Manuel da Fonseca (1943), que são  justamente considerados dois  marcos fundadores do movimento neorrealista;  o museu consolida essa ligação identitária entre o território e a criação literária.


Manuel da Fonseca (Santiago do cacém, 1911 - Lisboa, 1993)


  • Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social


Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém,  foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das vendas / tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local.  A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.

Obras de referência: Cerromaior (1943), Seara de Vento (1958)

A venda e a taberna são espaços de convívio popular, onde se retratam os costumes e as dificuldades do mundo rural alentejano. 

Em Aldeia Nova, a venda da aldeia é um local onde se reúnem os trabalhadores agrícolas, trocando histórias e queixas. Na venda, entre copos de vinho e conversas arrastadas, os homens da aldeia falavam das secas, dos patrões, e das promessas não cumpridas.

Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.

Seara de Vento (1952):

A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:

(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)

Cerromaior (1943) / O Fogo e as Cinzas (1951) (contos) 

Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais ou manajeiros) que controlam quem bebe, quem fuma, quem se avia quem fala...

Em Cerromaior (1943), a venda, o café e o clube são três lugares distintos, social e espacialmente segregados:

(...)  " - Então, por cá Maltês ?

Maltês não respondeu, entretido em arranjar as calças em volta da corda que lhe servia de cinto, A seguir torceu as pontas  do colete, que pingaram para o chão escuro da venda, e uniu-o, ajeitando-o sobre o  peito arqueado.

Chegou-se ao balcão.

- Enche-me um dos grandes, Brissos.

O homem da venda olhou-o, inquisitivo. Maltês aparou-lhe o olhar, sereno,  como se não temesse nem devesse. O Brissos curvou-se, encheu o copo. Maltês esvaziou-o. Pediu outro. O sol aparecia, luminoso,  por entre a   chuva miúda que abrandava. Voltou atrás, jogou a manta paar o ombro. Rapidamente, à laia de despedida, disse:

- Mete na conta, Brissos. " (...)



Alves Redol (Vila Franca de Xira, -1911- Vila Franca de Xira, 1969)


  • Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro

Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lezíria  surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal.  São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores do campo (gaibéus, ceifeiros) e do rio (avieiros). 

Além dos Gaibéus, outras obras de referência são Barranco de Cegos (1961) e Avieiros (1942)

 Em Gaibéus, a venda é descrita como um local de encontro dos trabalhadores, onde se trocam notícias, se bebe vinho e se tecem intrigas. A venda era o "coração da aldeia",  ali se falava dos patrões, das jornas, das colheitas,  dos conflitos, e até dos amores e desamores  que excitavam corpos e inebriavam almas.

Alves Redol documenta o Ribatejo com um olhar neorrealista, onde a venda é um microcosmo da vida rural e das tensões sociais.A venda à beira da estrada é um motivo recorrente, simbolizando a marginalidade e a luta pela sobrevivência

Em Barranco de Cegos, a mercearia é um espaço de resistência e solidariedade entre os mais pobres.

Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados  para os trabalhadores do Tejo.

Gaibéus (1939):

(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)

Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.

 

Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)


  • Fernando Namora: a  taberna das Beiras vista pelo João Semana

Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.

Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):

(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. 

Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)

Mina de S. Francisco (1946):

Nas zonas de mineração do volfrâmio, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade. (A ação do romance situa-se no Fundão.)

Síntese das diferenças estéticas sobre a venda / taberna  na literatura dos séc. XIX e XX

(i) Século XIX (Camilo, Eça)

  • Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
  • Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
  • Função: pousada de viajante, troca de notícias da capital.
  • Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as.

(ii) Século XX (Neorrealismo) (Alves Redol, Manuel da Fonseca)

  • Ambiente: denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
  • Vinho: anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
  • Função: mecanismo de endividamento e controlo social.
  • Protagonistas: ceifeiros, jornaleiros, operários, mineiros e o "fiador".

 
 Conclusão: A "Venda/Taberna" como Símbolo Literário

A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções: 

 (i) espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);

(ii) crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (neorrealismo: Alves Redol, Manuel da Fonseca); 

(iii) cenário etnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); (

iv) símbolo de resistência possivel e espaço de solidariedade entre os mais pobres (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
 
Pesquisa: LG + Museu do Neorrealisno + Wikipedia + IA (ChapGPT, Mistral)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG
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Nota do editor LG:


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)



O tempo em que se fumava, e a "arraia-miúda" os "três vintês" (passe a publicidade, que agora é proibida...mas a marac já não exite), um cigarro baratucho, sem filtro,  que ia bem com um "neguinhos" (pequeno copo de tinto,  usado nas tabernas no Norte, vocábulo que ue ainda não foi grafado pelos nossos dicionaristas)... (Cortesia do Joaquim Costa.)

 
Coisas & loisas do nosso tempo de meninos >   A mercearia e taberna da aldeia

por JoaquimCosta  (*)


Ainda o sol se escondia atrás do monte de Nossa Senhora da Assunção, já o Zé tirava a grande tranca da porta da mercearia junto à qual já um grupo de homens,  com o cigarro "três vintes" a queimar-lhes os dedos,  o esperavam para o mata-bicho da manhã. Dois copinhos de "cachaça".

Uns de bicicleta e a maioria a pé lá abalavam para mais uma jornada de trabalho, vomitando fogo dada a pureza da aguardente branca das uvas verdes.

Da minha memória de infância tenho bem viva a importância da mercearia da aldeia, que rivalizava com a da igreja. Antes da missa, um "neguinhos" para apaziguar a tosse e depois da missa para encontrar o caminho para casa.

Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor!

Havia mesmo uma grande cumplicidade entre estas duas instituições ao ponto de a festa da Páscoa entrar na taberna dando a cruz a beijar aos mais renitentes e o dono da mercearia ser sempre convidado para mordomo da festa em honra do santo padroeiro da terra.

Ainda muito novo me dei conta da miséria que reinava na maioria das famílias, assistindo com um nó na garganta às lágrimas das mulheres suplicando ao Zé fiado para um naco de pão, um naco de bacalhau e uma mão de arroz para o almoço que levavam aos maridos que trabalhavam numa pedreira de extração de granito. O Zé,  sempre dizendo que não, dada a dívida acumulada, mas sempre cedendo.

Tivesse ele recebido todas as dívidas que constavam no livro dos "assentos" e hoje eu seria um homem rico.

Durante a tarde a mercearia parecia um galinheiro (dizia o Zé), dado a algazarra que faziam as mulheres.

Para além do trabalho,  havia muitos momentos de diversão com as conversas sem filtro de todo aquele "mulherio" ali reunido, em que muitas vinham comprar o que não precisavam só para participarem naquele extraordinário "fórum".

A partir das 19horas chegavam exaustos os homens e aí confraternizavam, jogando as cartas (e bebendo), jogando dominó ( e bebendo),  cantando ao desafia (e bebendo), e às vezes zangando-se, lutando e depois fazendo as pazes bebendo. Regressavam a casa com um (ou muitos) grãos na asa, mas recompostos de mais um dia de trabalho. Este "fórum" era muito mais difícil de controlar...

Aos domingos, depois da missa das sete, aqui se juntavam todos os homens da aldeia dispersando-se pelas diferentes tarefas: 

  • uns faziam fila junto do engraxador para limpar os sapatos de domingo; 
  • outros faziam fila no barbeiro aparando o cabelo e o bigode; 
  • outros participavam na reunião do clube da terra – os mais jovens carregavam os seis paus e abalavam para o campo da Bela (terreno baldio) para o treino da equipa da aldeia; 
  • outros jogavam a malha e às vezes ao galo com setas de pressão de ar;
  • outros participavam na reunião semanal da "Caixa dos vinte amigos" (no fundo era uma réplica de um banco onde cada um pagava uma quota mensal, e onde os mais abastados depositavam determinadas quantias pelo qual recebiam juros; em função do valor em caixa faziam-se empréstimos a juros negociados; na época ainda a D. Branca não tinha nascido!)

Era aqui, na mercearia/taberna onde tudo acontecia. Era a vida da Aldeia.

Aqui não havia lugar para advogados e juízos, todas as desavenças eram resolvidas com muita gritaria, zaragatas – larga-me que eu vou-me a ele!  – e decididas em última instância pelo dona da mercearia ou pelo "supremo", o padre.

Numa das desavenças mal resolvidas, um habitante frequentador assíduo da taberna, consumidor de "neguinhos" (pequenos copos de vinho), enquanto todos bebiam em canecas de porcelana com uma cinta metálica, resolveu ir à vila ouvir a opinião de um entendido sobre leis. 

A consulta teve lugar num café onde não se vendia vinho pelo que (em Roma sê romano), pediu café. Por cada cigarro "três vintes",  pedia um café, tal como  se fossem os "neguinhos" da tasca. Bebeu tantos cafés quantos os cigarros do maço. Obviamente o organismo rejeitou o produto que desconhecia, pelo que teve de ser levado de urgência ao hospital para uma lavagem ao estômago. 

Regressou na ambulância tendo indicado a tasca como sua residência, e convidando no fim os bombeiros para beberem uns "neguinhos" consigo...


(i) ex-fur mil at armas pesadas inf, CCAV 8351, "Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74);

(ii) membro da Tabanca Grande desde 30/1/2021, tem mais de 7 dezenas de referências no blogue;

(iii) autor da série "Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74)" (de que se publicaram 28 postes, desde 3/2/2021 a 28/7/2022) , e que depois publicou em livro ("Memórias de um Tigre Azul - O Furriel Pequenina", por Joaquim Costa; Lugar da Palavra Editora, 2021, 180 pp);

(iv) tirou o curso de engenheiro técnico, no ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto;

(v) foi professor do ensino secundário, tendo-se reformado como diretor da escola secundária de Gondomar  (EG nº;

(vi) minhoto, de Vila Nova de Famalicão , vive em Rio Tinto, Gondomar, e adora o Alentejo;

(vii) tem página no Facebook.


(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


2. Comentário do editor LG:

Quim, escangalhei-me a rir com essa  cena dos "três vintes", dos cafés e dos "neguinhos"... É humor de cinco estrelas!... Tens graça, sem achincalhars ninguém, muito menos a gente trabalhador e humilde da tua terra..  

E, olha, os putos de etnografias, sociologias, antropologias, etc.,  bem podem aprender contigo a fazer "observação-participante"!... É uma peça de antologia: partindo do prncípio que tenho "carta branca para, de vez em quando,  te trazer "ao colo" até ao blogue, achei que esta pequena pérola não era para os "porcos", fica aqui também registada na série onde já tens colaborado, "Coisas & loisas do nosso tempo de meninis e moços" (**)... 

Quim (agora avô babado e "feicebuqueiro" de sucesso...),  há coisas que não voltam mais!... Cheiros, sabores, odores, lugares, personagens, palavras, expressões, cenas pícaras como estas... E que têm de ficar registadas para os nossos netos... 

Uma delas é essa "instância de socialização" que era a venda, nas nossas aldeias, de Norte a Sul, misto de taberna e de mercearia e nalguns casos "posto dos correios"), com espaços segregados conforme o sexo... 

A mim a tasca cheira-me sempre a sarro, a serradura,a lexívia e a fritos..Que Deus e os santos não te tirem a inspiração, a motivação e o talento para contar estas micro-histórias!... O "nosso alfero Cabral" vai também escangalhar-se a rir, lá na sua "suite" celestial...  Boa terça feira gorda, meu amigo e camarada!

_____________

Notas do editor:

(*) Reproduzido com a devida vénia da página do Facebook de Joaquim Costa, 3 de janeiro de 2024, 11.57  > Memórias "boas" da minha infància >  A mercearia /taberna

domingo, 5 de novembro de 2023

Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)



Fado (1910),  quadro a óleo sobre tela, de José Malhoa (1855–1933). Museu de Lisboa. Imagem do domínio público. Cortesia da Wikimedia Commons.


1. Das coisas do passado, do tempo da nossa infància, falta ainda falar de lugares de "socialização" como a igreja e a escola... mas também da "rua" (onde se brincava), sem esquecer a taberna, tanto em meio rural como urbano,  se bem que fosse um lugar "interdito" aos putos: só se lá ia para ir chamar o pai, ou comprar um quartilho de vinho, nomeadamente nos meios rurais ou nas pequenas vilas de província. Eram  em geral espaços públicos esconsos, acanhados, sujos e mal iluminados. 

 Etimologicamente, "taberna" vem do latim "taberna", do grego ταβέρνα (que significa "abrigo" ou "oficina"). Tanto nos meios rurais como citadinos, tinha uma função importante não só para efeitos de consumo (e venda) de bebidas alcoolócias (com destaque para o vinho, a copo) e ainda do  petisco,  bem como local de convívio, troca de informação, notícias, ideias, etc. 

A história do fado (vd. imagem acima), por exemplo,  é indissociável das tabernas que existiam nos bairros populares nas zonas ribeirinhas de Lisboa, ao longo do séc.XIX até aos anos 70 (e também das "hortas", " fora de portas", já na zona saloia, que começava em Benfica,  e onde os alfacinhas (operários, marçanos,  pequeno funcionalismo público, etc. )  iam aos "comes & bebes",  sábado à noite, em geral em família ou em grupo  com direito a "fados e guitarradas".

Ainda frequentei, como estudante e como investigador, no àmbito da licenciatura em sociologia, a "Pérola da Atalaia", uma modesta taberna, para não dfizer "tasca", sita na Rua da Atalaia, Bairro Alto, Lisboa, que hoje já não existe. Tinha meia dúzia de meses (se tanto),   com  tampos de mármore (fáceis de lavar com um pano molhado), e bancos, e um cheiro típico, a fritos, vinho tinto e lexívia...

Fiz parte, no final dos anos 70, de uma vasta equipa de alunos de sociologia, dirigida pelo antropólogo Joaquim Pais de Brito (ex-director do Museu Nacional de Etnologia), que fez a primeira abordagem séria, académica, com rigor científico, do fado enquanto "canção popular urbana de Lisboa"... Eu e a minha equipa interessámo-nos pelo chamado "fado vadio", amador, espontàneo,  que ainda se cantava e tocava, na época, no Bairro Alto.  Procurávamos sobretudo registar letras,  personagens, falas, ambientes, etc.

As "casas de fado" (desdeva II Guerra Mundial  para "turista"...) têm a sua origem na taberna lisboeta... Foi o laboratório da canção popular urbana que, ao longo da sua história de dois séculos, e em termos político-ideológicos, foi tudo, a avaliar pelo conteúdo das suas nas letras, a tal ponto que se pode dizer que há um fado liberal, miguelista, marialva, monárquico, republicano, anarcossindicalista, socialista, comunista, fascista, progressista...  O fado é a "ganga da história"... 

António Ferro e o Secretariado Nacional de Propaganda (SNP), depois SNI, no Estado Novo, quiseram fazer do fado "uma canção nacional"... O mesmo aconteceu ao flamenco (em Espanha), e ao tango (na Argentina). Enfim, houve uma apropriação digamos "societal" de uma forma de expressão musical popular, que na origem não era só "cantada", mas também "dançada" e "batida", e estava ligada, socioantropologicamente falando, a estratos sociais marginalizados.

Muito aprendi, nessa altura, com o meu mestre e amigo Joaquim Pais de Brito, pioneiro na abordagem socioantropológica do fado e hoje talvez injustamente esquecido... Quando fui a um entrevista de admissão como docente à Escola Nacional de Saúde Pública fui aconselhado a omitir, do meu currículo, os muitos fins de tarde passados na "Princesa da Atalaia"... (Ainda havia prostituição de rua nessa altura, e a saúde pública dava-se mal com estes lugares  social e culturalmente estigmatizados e marginalizados, na época).

2. Mas vamos ao que interessa: a taberna, em pequenas terras do interior do nosso querido Portugal, como Molianios (ou Moleanos), Alcobaça (hoje famosa pelo seu calcário, que é énico e se chama justamente Moleanos). 

Nas tabernas de Moleanos  provavelmente nunca se cantou o fado, a não ser muito esporadicamente. (No baixo Alentejo, a taberna, sim,  era o local por excelència do "cante".) 

A evoção da taberna em meio rural (que nada tem a ver com o fado, "canção popular urbana" nem com a iconica pintura do José Malhoa que reproduzimos acima ...) é feita aqui pelo nosso saudoso camarada António Eduardo Jerónimo Ferreira (1950-2023) (ex-1.º  cabo condutor auto, CART 3493 / BART 3873, Mansambo, Cobumba e Bissau, 1972/74).

Na tropa e na guerra era mais conhecido por Jerónimo. Lutou quase 20 anos, desde 2004, contra um cancro. Criou o blogue Molianos, viajando no tempo, em data difícil de precisar (c. 2013/2014). No nosso blogue é autor das séries O tempo que ninguém queria e Pedaços de um tempo,



A taberna na minha aldeia de Moleanos nos anos 50

por António Eduardo Ferreira


Recuando no tempo, a conversa, hoje, é sobre as tabernas que existiam na aldeia de Molianos [ ou Moleanos, segundo o topónimo oficial] por volta do ano de 1950 do século passado, e aquilo que elas representavam na vida das pessoas de então. (*)

Por essa altura, e ainda durante mais alguns ano, foram as tabernas os locais onde os homens se juntavam ao domingo, assim como nos dias santos, ou no inverno quando não era possível trabalhar nas terras.

Durante o tempo que estavam nas tabernas, eles, para além de muita conversa, aproveitavam para beberem uns copos do tinto e também do branco, ainda, que, por aqui, fossem poucos o que trocavam o tinto pelo branco. O bagaço também fazia parte das bebidas que eles consumiam. Outras havia que não faziam parte dos seus hábitos: a cerveja, a gasosa, a laranjada e ainda o pirolito que, entretanto, acabou!... 

Para beberem vinho, algumas vezes, nem necessitavam de copo, bebiam todos pela mesma garrafa, "a olho",  como naquele tempo por aqui se dizia.

As tabernas, para além das bebidas… eram também o local onde se vendia quase tudo que as pessoas necessitavam para o dia a dia: o açúcar, o café (para fazer na cafeteira), a massa, o arroz, o colorau, o petróleo, o bacalhau, o sebo para as botas, entre muitas outras coisas. 
[ Noutras sítios também se chamava "venda" à taberna onde se ofereciam, para venda, além de vinho e comida,  artigos de mercearia; topónimos como Venda das Raparigas podem ter na sua origem um destes estabelecimentos à beira da estrada; e nas feiras a taberna era a "tenda". ]

Um pouco mais tarde, em algumas, até comprimidos para a constipação... vendiam, eram uma espécie de minimercado da época.

Naquele tempo, na aldeia de Molianos, as mulheres não frequentavam as tabernas, a não ser para irem fazer as compras e logo regressavam a casa. Diziam os homens que as tabernas não eram para as mulheres. Mas não se pense que algumas, mesmo sem estarem na taberna, de vez em quando, não apanhavam também a sua piela de tal tamanho... que as fazia ziguezaguear, não conseguindo passar despercebidas junto das pessoas com quem se cruzavam.

Por aquela altura não existiam na aldeia coletividades de desporto, cutura e recreio ou outros espaços públicos onde os homens se pudessem juntar, a não ser nas tabernas, ou no tempo da apanha da azeitona em que também os lagares eram sítios onde muitos se encontravam no fim do dia. Apesar de ser no inverno, os lagares eram locais onde existia um ambiente confortável a que eles não estavam habituados, um espaço aquecido… e com boa iluminação, coisa inexistente nas casas da aldeia.

Naquele tempo, as pessoas não saíam para fora da terra a não ser para trabalhar, algumas vezes para muito longe. Os transportes públicos apenas havia à segunda-feira, para Alcobaça, por ser o dia em que lá tinha lugar o mercado. Os transportes particulares também não haviam. 

Apesar de existirem muitos homens na aldeia, apenas, quatro ou cinco, possuíam uma bicicleta. O transporte mais utilizado pelas pessoas para se deslocarem, não só para o campo, mas também para ir às compras, à sede do concelho, eram os burros, animais esses que havia muitos na aldeia.

Só à segunda-feira, havia a camioneta da carreira como as pessoas lhe chamavam, mas mesmo assim nem todos a utilizavam, eram muitos os que faziam os dez quilómetros para cada lado a pé, para pouparem o valor do bilhete… que era pouco, mas necessário para ajudar nas compras que iam fazer, o pouco dinheiro de que dispunham a isso os obrigava.

Se as tabernas durante algum tempo era o sítio onde os homens se encontravam quando não era possível trabalhar, também havia algumas épocas em que os frequentadores eram poucos. Isso acontecia, quando quase todos os homens e rapazes, alguns com doze ou treze anos, saíam da aldeia para irem trabalhar para as vindimas para a região saloia, assim como para outros serviços, em particular, para a zona de Lisboa.

Quando regressavam à terra voltava a ser grande o ajuntamento nas tabernas aos domingos à tarde, onde a bebida e as conversas à mistura eram sempre muitas. 

Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos. 

Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos.

As tabernas, para além do já referido… desempenhavam também uma "função social": não davam nada a ninguém, mas tornavam possível, sem aumento de preço, a algumas pessoas,  adquirir bens essenciais para o dia a dia das famílias, quase sempre numerosas, permitindo-lhe comprar fiado com a promessa de vir pagar quando tivessem dinheiro. Se assim não fosse, as pessoas não podiam comprar e as dificuldades que eram sempre muitas, seriam ainda mais. (...) (*)

(Seleção / revisão e fixação de texto / negrit0s / parènteses retos: LG)
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 3 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24819: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (17): O Barroso que não era(é) só a 'carne barrosã' DOP: o comunitarismo agropastoril, segundo o Padre Fontes (1977) - II (e última) Parte: tudo era de todos quando a necessidade oprimia
 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Guiné 61/74 - P22334: (In)citações (187): As tabernas de antigamente na minha aldeia, e a importância que elas tinham (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo CAR da CART 3493/BART 3873)

1. Mensagem do nosso camarada António Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CART 3493/BART 3873, Mansambo, Fá Mandinga e Bissau, 1972/74) com data de 30 de Junho de 2021:


As tabernas de antigamente na minha aldeia, e a importância que elas tinham...

Recuando no tempo, a conversa, hoje, é sobre as tabernas que existiam na aldeia de Molianos por volta do ano de 1950 do século passado, e aquilo que elas representavam na vida das pessoas de então. Por essa altura, e ainda durante mais alguns anos… foram as tabernas os locais onde os homens se juntavam ao domingo, assim como nos dias santos… ou, no inverno quando não era possível trabalhar nas terras. 

 Durante o tempo que estavam nas tabernas, eles, para além de muita conversa, aproveitavam para beberem uns copos do tinto e também do branco, ainda, que, por aqui, fossem poucos o que trocavam o tinto pelo branco, o bagaço também fazia parte das bebidas que eles consumiam. Outras havia que não faziam parte dos seus hábitos: a cerveja, a gasosa, a laranjada e ainda o pirolito que, entretanto, acabou!... Para beberem vinho, algumas vezes, nem necessitavam de copo, bebiam todos pela mesma garrafa, a olho como naquele tempo por aqui se dizia. 

As tabernas, para além das bebidas… eram também o local onde se vendia quase tudo que as pessoas necessitavam para o dia a dia: o açúcar, o café (para fazer na cafeteira), a massa, o arroz, o colorau, o petróleo, o bacalhau, o sebo para as botas, entre muitas outras coisas. Um pouco mais tarde, em algumas, até comprimidos para a constipação... vendiam, eram uma espécie de supermercado da época.

Naquele tempo, na aldeia de Molianos, as mulheres não frequentavam as tabernas, a não ser para irem fazer as compras e logo regressavam a casa. Diziam os homens que as tabernas não eram para as mulheres. Mas não se pense que algumas, mesmo sem estarem na taberna, de vez em quando, não apanhavam também a sua piela de tal tamanho... que as fazia ziguezaguear, não conseguindo passar despercebidas junto das pessoas com quem se cruzavam.

Por aquela altura não existiam na aldeia coletividades ou outros espaços públicos onde os homens se pudessem juntar, a não ser nas tabernas, ou no tempo da apanha da azeitona em que também os lagares eram sítios onde muitos se encontravam no fim do dia, apesar de ser no inverno, os lagares eram locais onde existia um ambiente confortável a que eles não estavam habituados, um espaço aquecido… e com boa iluminação, coisa inexistente nas casas da aldeia.

Naquele tempo, as pessoas não saíam para fora da terra a não ser para trabalhar, algumas vezes para muito longe. Os transportes públicos apenas havia à segunda-feira, para Alcobaça, por ser o dia em que lá tinha lugar o mercado. Os transportes particulares também não haviam. Apesar de existirem muitos homens na aldeia, apenas, quatro ou cinco, possuíam uma bicicleta. O transporte mais utilizado pelas pessoas para se deslocarem, não só para o campo, mas também para ir às compras, à sede do concelho, eram os burros, animais esses que havia muitos na aldeia.

Só à segunda-feira, havia a camioneta da carreira como as pessoas lhe chamavam, mas mesmo assim nem todos a utilizavam, eram muitos os que faziam os dez quilómetros para cada lado a pé, para pouparem o valor do bilhete… que era pouco, mas necessário para ajudar nas compras que iam fazer, o pouco dinheiro de que dispunham a isso os obrigava.

Se as tabernas durante algum tempo era o sítio onde os homens se encontravam quando não era possível trabalhar… também havia algumas épocas em que os frequentadores eram poucos. Isso acontecia, quando quase todos os homens e rapazes, alguns com doze ou treze anos, saíam da aldeia para irem trabalhar para as vindimas para a região saloia, assim como para outros serviços, em particular, para a zona de Lisboa.

Quando regressavam à terra voltava a ser grande o ajuntamento nas tabernas aos domingos à tarde, onde a bebida e as conversas à mistura eram sempre muitas. Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos. Quando o álcool já era quem mais ordenava… por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos.

As tabernas, para além do já referido… desempenhavam também uma "função social" não davam nada a ninguém, mas tornavam possível, sem aumento de preço… a algumas pessoas adquirir bens essenciais para o dia a dia das famílias, quase sempre numerosas, permitindo-lhe comprar fiado com a promessa de vir pagar quando tivessem dinheiro. Se assim não fosse, as pessoas não podiam comprar e as dificuldades que eram sempre muitas, seriam ainda mais. 

Há já muitos anos, fiz parte de um rancho folclórico, que então dava os primeiros passos… na minha aldeia, e que ainda hoje existe. Algumas vezes, apesar da distância no tempo em que isso aconteceu, que é muita, dou comigo a recordar conversas que tínhamos com as pessoas mais idosas em que procurávamos que eles nos contassem aquilo que sabiam, que tivesse a ver com os usos e costumes do povo da nossa aldeia... talvez por isso, hoje tenha vindo falar das tabernas e daquilo que elas representavam naquele tempo, para os nossos antepassados.

Não sou muito de pensar no passado. O que foi bom já não volta. E o menos bom é melhor esquecer para que não nos continue a fazer companhia!... Mas, por vezes, recordar situações mesmo menos boas que nos tenham acontecido, se as olharmos e as soubermos situar com a devida distância… também podem contribuir para ajudar a ultrapassar alguns momentos mais aborrecidos com que agora venhamos a ser confrontados!...

António Eduardo Ferreira
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Nota do editor

Último poste da série de 25 DE JUNHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22316: (In)citações (186): As várias idades ou "Estar vivo é o contrário de estar morto" (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR da CCS/BCAÇ 3872)

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Guiné 63/74 - P14714: Brunhoso há 50 anos (5): Uma sociedade paternalista (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Brunhoso - Com a devida vénia


1. Em mensagem do dia 31 de Maio de 2015, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), fala-nos mais uma vez da sua terra natal de há 50 anos.


Brunhoso há 50 anos

5 - Uma sociedade paternalista

Nesses tempos primitivos da minha meninice, que eu por vezes chego a comparar com os tempos bíblicos pela pobreza, pela simplicidade e despojamento nas relações entre pessoas e nas suas relações com a natureza e com os animais, íamos vivendo de acordo com as leis seculares dos nossos antepassados.

O episódio representado pelo presépio, segundo a história ou a lenda, com o Deus menino, Maria, José, o burro e a vaca, era um quadro que podia ser considerado natural, em Brunhoso, talvez também por isso as pessoas adoravam esse Deus humilde, filho de pais pobres como eles, que conviviam tal como eles com as vacas tão pacientes e trabalhadoras e com os burros tão calmos e sempre afáveis para suportar o peso dos donos ou outras cargas. As pessoas amavam-se e respeitavam-se, sem manifestações excessivas, dentro de códigos que tinham recebido dos seus antepassados.

Eram felizes ou não dentro desses condicionalismos tão estreitos e antiquados que remontavam já a tantos séculos. As mulheres tinham tantos filhos, como a natureza lhes impunha, que criavam com amor, beijos, com o leite materno e a alimentação possível, os homens trabalhavam nos campos de sol a sol para garantir pão para todos. As mulheres falavam do seu homem, os homens falavam da "minha" (todos os outros a conheciam) geralmente com respeito de parte a parte.

Na taberna, ("venda", dizia o meu avó Francisco) um local de convívio, onde os homens da aldeia, por vezes se juntavam para alegrar a vida com uns copos de vinho, ou no Balcão, a praça principal, onde também se juntavam, fosse inverno ou verão, para trocar ideias e conhecimentos acerca da terra, dos animais e das culturas, sempre vi homens, que embora mantendo um aspecto calmo e sério, não deixavam de sorrir pelas larachas de uns e outros. Não há dúvida que a actividade física faz bem ao corpo e ao espírito. 

 Além disso eles eram os chefes da batalha que dia a dia travavam com os elementos vindos do céu, da terra, da água,. do vento e das trovoadas, que condicionavam as boas ou más colheitas. Santa Bárbara, essa santa protectora dos lavradores a quem faziam uma festa tão grande e uma procissão tamanha a que por vezes associavam juntas de bois e vacas, nem sempre os libertava das secas e das grandes trovoadas.

Era uma sociedade paternalista, uma sociedade governada por homens. Eles, a par da autoridade e governo da casa, tinham que garantir o sustento da família. As mulheres pariam muitos filhos, cuidavam deles, do arranjo da casa e doutras tarefas domésticas. Ao tempo havia em Portugal sociedades matriarcais, onde o poder pertencia sobretudo às mulheres que eram também as principais responsáveis pelos meios de sustento da família.

Bem perto de Brunhoso, no planalto mirandês, a sociedade era matriarcal, eram elas que lavravam a terra e tratavam dos campos, a par doutras tarefas domésticas. No Minho também eram as mulheres que geralmente lavravam a terra, pelo que dá a impressão que quem mandava tinha que saber cuidar dos campos para lá doutras actividades. Sei também que nesse tempo as raparigas minhotas geralmente casavam com rapazes mais novos do que elas pelo menos dois ou três anos. Seria uma forma de garantir a continuidade do matriarcado?

Miguel Torga, no livro "Portugal", transcreve a seguinte quadra popular do Minho:

Da minha saia amarela
Fiz as calças do meu home;
Com a alegria das calças
Há três dias que não come

Nesse tempo esta quadra não poderia ser recitada ou cantada em sociedades paternalistas, Torga diz que a atrevida podia levar um tiro, que eu acho exagerado, talvez uma bofetada.

A sociedade de Brunhoso, moldada por esse poder paternalista, era contida nas palavras e gestos afectivos, impróprios de machos dominadores pois era assim que os homens eram educados. Será exagerado escrever isto, pois no silêncio das noites e no recato e aconchego possível dos casais, poderia também haver lugar para momentos de afecto e ternura para lá das relações sexuais, mais ou menos instintivas.

As mulheres tinham os seus momentos de relaxe e diversão. apesar do trabalho, quando se juntavam nos ribeiros ou nos tanques a lavar as roupas da casa.

A propósito, um tio meu que já partiu, leis da vida, contou-me uma pequena história passada numa aldeia da Beira Alta:
- Chico, disse-me ele, num dia de Inverno, eu ia com a tua tia de mula a apanhar o comboio para Lisboa, a Celorico da Beira, para ela consultar um médico. Ao passarmos por uma aldeia estavam aí cerca de 20 mulheres, num tanque, a lavar a roupa, com as pernas metidas na água. Eu perguntei-lhes se não teriam frio. A mais faladora, respondeu-me que não, que tinham o forno quente. Então disse-lhes que tinha as mãos muito frias, se não mas deixavam aquecer no forno delas. A mesma mulher respondeu que nesse momento não podiam porque estavam a assar castanhas.

Este diálogo verídico, não sei se um pouco fantasiado, também transmite um pouco do humor dessas mulheres apesar da dureza dos campos, dos homens e da vida.

Nunca irei esquecer o dia em que, ainda adolescente, tive que fugir de um bando de mulheres que obedecendo à palavra de ordem de uma mais divertida disse para as outras: "vamos cantar os galos ao patrão". Andavam a mondar as ervas daninhas dum terra de trigo nossa, e o meu pai tinha-me mandado ir com elas. Não passou de uma ameaça em tom de brincadeira, pois essa prática de "cantar os galos", depois de lhe baixarem as calças, aos rapazes, da iniciativa das mulheres, como calculam, não era nada agradável.

Os sentimentos estavam calibrados em vivências de dureza que não admitiam príncipes, nem sonhos impossíveis. O ajustamento dos casais era feito dentro dos teres e haveres de cada um e um ajustamento psicológico que eles e elas pela idade dos vinte anos iam fazendo em conversas e em namoricos ligeiros.

Recordo-me que eu sendo da terra, mas sendo também um observador estranho, porque da minha idade era o único rapaz que estudava fora da terra, talvez a partir dos 17 anos, os rapazes da minha idade começaram por namorar e passado um ano ou nem tanto, praticamente todos tinham trocado de namoradas entre eles. Para que se entenda bem, realmente não havia troca, havia sim um acabar e recomeçar de novo para uma melhor combinação de personalidades.

Nesse tempo os homens e mulheres da minha aldeia, no casamento arriscavam todo o projecto de uma vida futura, que consciente ou inconscientemente era planeado para garantir o futuro dos filhos; pelo trabalho apenas limitado pelo descanso necessário para recomeçar de novo; pelo sexo que devia sobretudo garantir o nascimentos de filhos saudáveis.

Desde o amor platónico, ao amor cortês, ao amor romântico mais carnal ou idílico, há mais formas de amar do que formas de cozinhar bacalhau. O amor intelectualizado em parte como a filosofia, nasce da contemplação e do ócio. Casanova foi um intelectual e escritor, Dante Petrarca e Camões foram grandes poetas. Muitos filósofos escreveram ensaios sobre o amor.

O amor entre os meus conterrâneos seria pouco complicado, seria um amor que se confundia com o amor à família, o amor à terra, aos campos de trigo, às hortas, às oliveiras, aos animais domésticos. Era um amor que não admitia desvios porque era também um compromisso pela palavra dada perante o padre e outras testemunhas e cujo cumprimento seria vigiado por toda a comunidade. As relações sexuais, entre eles, satisfatórias ou não, era um segredo que não revelavam. Entre eles não se falava em amor, essa palavra era demasiado delicada para se coadunar com a sua condição de pequenos ou médios lavradores ou filhos sem terra, de terras que tinham que trabalhar para outros. Falar de sentimentos entre os casais, ou ter manifestações públicas sentimentais eram actos considerados impróprios e impúdicos. Os sentimentos entre os dois sexos estavam contaminados pela atração sexual que era um tabu religioso e social.

Por vezes, raramente, ouvia-se uma estória picante real ou um pouco inventada como a de um lavrador, conheci-o ainda, que ao regressar do trabalho quando metia as vacas na loja, que ficava debaixo da casa, ouviu a mulher, por cima, a gemer com dores em trabalhos de parto. Ele que era um brincalhão impenitente pôs-se a imitar os gemidos da mulher. Ela apercebeu-se e prometeu-lhe que nunca mais iria poder brincar com o seu sofrimento daquela forma.
O que se passou depois ninguém sabe, o que se sabe é que eles só tiveram aquela filha, por sinal alegre e simpática, como o pai. Apesar das vozes do povo, esse lavrador que nunca parava, ele e as vacas, foi um homem sempre alegre e divertido pelas piadas que ia distribuindo a uns e outros. Enfim há pessoas que nasceram para serem felizes seja quais forem as contrariedades com que se deparem.

Este homem bondoso e galhofeiro que tinha sempre uma palavra para todos, fossem jovens ou velhos, faz parte da minha galeria dos notáveis de Brunhoso. Como diziam os antigos "que Deus o guarde!"
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Nota do editor

Último poste da série de 1 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14426: Brunhoso há 50 anos (4): A Páscoa (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7446: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (11): Os Pequenos Nadas da vida

1. Mensagem do nosso camarada José Eduardo Oliveira* (JERO) (ex-Fur Mil da CCAÇ 675, Binta, 1964/66), com data de 14 de Dezembro de 2010:

Meu Caro Amigo Luís

Com a aproximação do Natal queria dar-te uma prova de respeito e amizade. Ou vice-versa.

Voltar ao "Blogando e andando", que comecei no nosso blogue com o teu "alto patrocínio", é simbolicamente essa prova. É raro o dia em que não me surpreende a força e dinamismo do nosso blogue. É simplesmente notável.

Nos últimos tempos devido ao envolvimento pessoal que tenho no jornal da terra não tenho tido tempo para nada. Depois... estou metido em dois livros. Um está pronto - falta apenas inseriras imagens - e outro se seguirá.

Quando se chega aos "setenta" sentimos que o tempo nos pode faltar e alguma ansiedade nos assalta para "deixar" testemunhos... antes que seja tarde...
Estou nessa fase.

Alguma remorso me acompanha por não ter mais tempo para colaborar no nosso blogue mas espero que o Editor e seus colabores mais próximos me possam perdoar...

Entretanto é tempo de votos. Para ti e para os teus votos de um Feliz e Santo Natal.

Um abraço fraterno de Alcobaça,
JERO

PS-Segue um pequeno texto com o simbolismo dos "pequenos nadas" que fazem a diferença na vida.Digo eu.


BLOGANDO E ANDANDO (11)

OS ”PEQUENOS NADAS” DA VIDA…

O Pedro, um jovem de 13 anos, acompanhava habitualmente o pai nas idas à taberna da aldeia.

Vivia numa zona rural e depois da “escola” ajudava nas tarefas caseiras. Na fazenda, que circundava a casa dos seus pais e avós, pegava na sachola ou no ancinho dia sim, dia sim e ia aprendendo o que a vida custa. Os trabalhos agrícolas eram duros e as idas à taberna com o seu pai eram sempre momentos bem-vindos.

Fascinavam-no as conversas do seu pai com os mais velhos, nomeadamente, quando essas conversas evocavam recordações da guerra do Ultramar. Se tentava meter a sua “colherada” não lhe davam grande atenção. Era ouvir e calar. Quando o seu pai bebia o seu copo de vinho soltava um “ah” de satisfação, que parecia ficar a pairar algum tempo no ambiente acolhedor da taberna. “Ouvia-se” o silêncio entre conversas dos amigos de seu pai.

Aqueles “aaahh” de satisfação eram momentos “únicos”… Pareciam fazer parte de um ritual monástico, salvaguardadas as devidas proporções. Quando o pai esvaziava o copo e batia com ele, já vazio, no balcão o “aaahh”, já tantas vezes ouvido, surpreendia sempre o Pedro que seguia com olhar o momento de prazer do seu pai. Que bom devia ser beber um copo. Quando é que ele teria direito a um “aaahh”!?

O tempo ia passando e o Pedro um dia atreveu-se a pedir ao pai:

- Quando é que eu posso beber um “aaahh”?

O olhar que o seu pai lhe deitou antecipou a resposta que bem lhe custou a ouvir:

- Ainda és muito novo para um “aaahh”.

Passou o Verão, chegou o Outono e o Pedro pensou que já tinha acumulado “créditos” para mais um pedido. E num dia em que tudo tinha corrido especialmente bem nos trabalhos da escola e da fazenda arriscou:

- Oh pai, quando é que eu posso beber um “aaahh”?

Teve direito a mais resposta negativa mas, desta vez, pareceu-lhe que o Pai tinha feito um compasso de espera antes de proferir o “não”. Saiu chateado da taberna e voltou sozinho para casa.

No dia seguinte o Pedro fez mais uma tentativa.

- Oh Pai quando é que eu…

Para sua surpresa o pai disse para o taberneiro.

- Oh Grazina dá lá um copo ao rapaz.

Pareceu-lhe que tinha havido um piscar de olhos entre ambos mas… o seu copo finalmente “aterrou” no balcão.

O Pedro pegou-lhe com o coração a palpitar e com os olhos a brilhar preparou-se para soltar o seu primeiro “aaahh”.

Bebeu o primeiro golo e arrepiou-se todo. Soltou um “iiiihh” prolongado… Tentou um segundo golo e o seu “iiiiiiihhh” foi ainda mais prolongado. Olhou para o copo com asco… e sentiu a mão do pai nas suas costas.

- Como vês ainda não tens idade para um “aaahh”.

O Pedro teve que reconhecer que sim e saiu para a rua para apanhar ar. O pai ficou um pouco trás e, bem disposto, disse ao Grazina:

- Eh pá não poupaste no vinagre. Fico-te a dever uma.

Só muito mais tarde o Pedro soube da “marosca” e... percebeu como o seu Pai tinha sido sábio.

De facto o vinho não deve ser bebido por gente nova… e que há idade para tudo…

Esta história é verdadeira e passou-se numa freguesia perto de Alcobaça.

Infelizmente os pais dos miúdos da cidade nem sempre têm tempo para estar tão presentes nas vidas dos seus filhos. Nomeadamente nas suas saídas nocturnas, quando consomem “aaahh’s” antes de tempo…

Os tais “pequenos nadas” da vida que podem vir a fazer toda a diferença!

É ou não “eeehh”!?
JEROOO…
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 8 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7246: (Ex)citações (107): Mininus di praça e “O Fascínio” (José Eduardo Oliveira)

Vd. último poste da série de 26 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6899: Blogando e andando (José Eduardo Oliveira) (10): Revisitando o passado de Alcobaça, dos anos 40, na Tabanca de São Martinho do Porto