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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > 1981 > Reunião de trabalho no âmbito da implementação de um projeto de saúde comunitária  (1)


Foto nº 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > 1981 > Reunião de trabalho no âmbito da implementação de um projeto de saúde comunitária (2)


Foto nº 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > s/l > 1981 > Atravessando um curso de água... Em primeiro plano, a colega e esposa, já falecida, do dr. Henk Eggens (que deve ter sido o  fotógrafo)


Foto nº 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > Orre Fello > 1981 > Local onde teria sido proclamada a independência da Guiné-Bissau > A antiga casa de Amílcar Cabral (1924-1973)

 
Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > Lugajole > Orre Fello > 1981 > Placa comemorativa da realização da "1ª Assembleia Nacional Popular", em 24 de setembro de 1973. (A placa, cuja foto foi restaurada, encontrava-se afixada na antiga casa de Amílcar Cabral.)

Fotos (e legendas): © Henk Eggens  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso amigo neerlandês Henk Eggens que: 

(i)  é  especialista em saúde global (saúde pública e medicina tropical);

 (ii) está reformado; 

(iii) vive em Portugal, em Santa Comba Dão; 

(iv) trabalhou como médico, cooperante, na Guiné-Bissau, em Fulacunda e em Bissau, de 1980 a 1984, e em outros páises, de África e Ásia (Angola, Indonésia, etc.)

(v) é o administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês ou holandês, mas muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); 

(vi)  tem  8 referências no nosso blogue;

(vii) é fluente em português (e crioulo da Guiné-Bissau)...

Data - Quinta, 12/02, 19:05 (há 11 dias)
Assunto - Boé

Caro Luís, li com interesse as histórias sobre o desastre de Cheche.

Conheci a área do Boé bem mais tarde, em 1981, numa visita de trabalho para um projeto de saúde comunitário (*). Havia pouco alcatrão lá e provavelmente ainda não há. Uma população isolada, contando muito sobre suas próprias forças.

Eis aqui algumas fotografias minhas daquela visita.
Um AB
Henk

(Revisão / fixação de texto, links,  edição / restauro das fotos: LG)
__________________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27765: As nossas geografias emocionais (61): Boé, do Cheche a Lugajole: uma missão de três meses dos Médicos Sem Fronteira, em 1987 (Ramiro Figueira, ex-alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72, Nova Sintra, 1972/74)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Coruba, ao fundo a margem norte (direita), com a estrada seguindo depois para Canjadude e Gabu



Foto nº 2A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal: em primeiro, o médico Ramiro Figueira, acompanhado por um dos médicos, o Dr. João Luís Baptista. (Partimos de Lisboa num dia que não recordo, em Setembro de 1987 com uma equipa de 4 médicos, um enfermeiro e um encarregado da logística.)



Foto nº 3A e 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >  "Cambança" do rio Corubal em jangada



Foto nº 4A e 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé >  Cheche > Rio Corubal > O ministro que nos acompanhou, decidiu tomar um banho...


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé  > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >Os "djubis", sempre curiosos



Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Canjadude> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Partimos de Gabu (antiga Nova Lamego), passando por Canjadude, a caminho do Cheche (ponto de "cambamça" do rio Corubal"), Béli e Lugajole  (destino final)



Foto nº 7A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Tabanca perto do Cheche (antes ou depois da cambança?)



Foto nº 8A e 8 > Guiné-Bissau > Região de Gabu >  Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > A paisagem árida, semidesértica, perto de Béli, a caminho de Lugajole.  Estas formações são "bagabagas", num paisagem algo lunar.



Foto nº 9A e 9 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Pequena tabanca, a caminho de Lugajole. A Missão não passou por Madina do Boé (em 1987 ainda minada!)



Foto nº 10A  e 10 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > Lugajole >  Orre Fello > A morança que teria pertencido ao Amílcar Cabral. Fello, em fula, quer dizer montanha, colina ( que na região andam pela cota  50,  100, 150, máximo  200/300 metros; Orre Fello tem 200 metros).


Foto nº 11A e 11 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Lugajole > Orre Fello > Palanque onde teria sido proclamada a independència da Guiné -Bissau em 24 de setembro de 1973, segundo o guia local.

Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Antigo mapa geral (1961) (Esacala 1/500 mil) > Percurso a amarelo seguido pela missão dos MSF, em setembro de 1987 (Gabu - Canjadude - Cheche - Béli - Lugajole). O rio Corubal corre no sentido nordeste-sudoeste. A estrela a vermelho assinala o ponto Orre Fello (cota 200 metros). Vd. carta de Béli (1959).

Infografia: Ramiro Figueira / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé >  Posição relativa de Cheche (no rio Corubal), Madina do Boé, Tiankoye (já na Guiné-Conacri, corredor do ataque a Madina do Boé em 10/11/1966 em que morreram Domingos Ramos e muitos outros combatentes do PAIGC), Beli, Lugajole, Vendu Leidi (e perto de Lugajole, Orre Fello) e, por fim, Lela, também já do outro lado da fronteira. 

Infografia. Jorge Araújo / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).  



Ramiro Figueira, médico aposentado, foi alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74); membro da Tabanca Grande desde 23 de junho de 2022, tendo 10 referências no blogue; em 1987, cumpriu uma missão de 3 meses em Lugajole, Boé, Guiné-Bissau, como membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).


1. Mensagem de Ramiro Figueira:

Data -  Data: 23 de fevereiro de 2026, 16h35
Assunto -  Boé

Boa tarde

Como de costume, espreito diariamente o blogue da  Tabanca Grande, virou um hábito curioso mas certamente saudável.

Tenho seguido essas últimas crónicas que lentamente vão juntando a história (triste) da aposentadoria do Boé em 1969. 

Foi cerca de três anos antes da minha chegada à Guiné, em junho de 1972. E fui para um lugar ainda distante do Boé, Nova Sintra, no região de Quínara. Mas todos fomos ouvindo as histórias daquele desastre, que  constavam da memória de toda a gente na Guiné.

Quis o destino que, 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974), fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.

Essa circunstância se deveu ao facto de pertencer aos Médicos Sem Fronteiras que ali iam abrir uma missão junto às populações fronteiriças.

Assim seguimos para Bissau e depois para Gabu (Nova Lamego) onde ficámos um dia instalados na casa de um tal Paulo, governador da região que, pelo que percebi, era um antigo combatente do PAIGC, o que se notava bem já que era notória a deficiência que apresentava coxeando da perna direita (durante a estadia em Gabu viemos a saber que era por ter uma prótese, dado ter sido amputado por uma mina). 

De lá seguimos no dia seguinte, passando por Canjadude, até a margem do Corubal para a passagem do jipe ​​​​e caminhão de material em que transportávamos todo o material necessário.

Pelo caminho de Canjadude a Chche, ainda havia vários destroços de veículos, provavelmente militares, abandonados. Era a tristemente cambança do Cheche, de que eu tanto ouvira falar durante a guerra.

Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados ​​​​estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas. 

No que não fiquei sozinho, comigo na equipa ia outro médico que, na mesma época que eu, tinha sido fuzileiro  e conversámos na altura várias vezes sobre o assunto.

Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados. 

Ficámos sabendo que se tratava de prédios construídos pela União Soviética que estivera ali explorando bauxite mas que se mostrou não ser viável depois de alguns anos de exploração Eles deixaram o local deixando algum material, inclusive um grande gerador. 

Foi num desses prédios que instalámos a nossa base logística para dormir, um modesto refeitório e o depósito de medicamentos.

Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.

Durante a minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhados pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973
 [Orre Fello]. (**)

Foi uma viagem também bastante conturbada por trilhos terríveis e subidas íngremes, mas você acaba chegando lá. 

Era uma colina de onde se disfrutava uma vista extensa, onde havia uma espécie de palanque coberto e relativamente bem arranjado e, ao lado uma bonita palhota em cimento que o  Kassifo garantia como tendo sido a morança  de Amílcar Cabral. 

Pessoalmente não acredito que fosse assim e também não acredito que aquele era o local da declaração de independência, mas isso são outras discussões. 

Ainda tentei que me levassem ao [antigo] quartel de Madina do  Boé, mas a recusa foi peremptória: “Terreno com muita mina”. 

Não sei se era assim ou não, mas lá tinha que ser.

Foram três meses de missão num país que ficou para sempre gravado em minha memória.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos;  LG)


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ramiro. Se tiveres mais fotos do tempo desta tua missão ao serviço dos MSF, iniciada em setembro de 1987 (e que se prolongou até dezembro, não?!), e achares de interesse divulgar, manda, podemos depois fazer um dossiê.

Poucos de nós, antigos combatentes, conhecemos o Boé (Béli foi retirado em meados de 1968, Madina do Boé e Cheche em 6/2/1969). A sul do rio Corubal, no Boé, deixa de flutuar a bandeira verde-rubra.

E, de facto, continuamos sem saber onde foi extamente o "berço da Nação" (guineense)... Duvido que algum dia as coordenadas corretas apareçam. Não havia GPS. Nem o PAIGC tinha cartas. Nem se guiava por elas. Nem sei ainda há testemunhas  diretas ou atores desse evento, os "históricos" já terão morrido todos (com exceção de algum cabo-verdiano ou outro, Manecas dos Santos, Pedro Pires; a Amélia Araújo, a "Maria Turra", essa, acaba de morrer).

E a IA hoje  só lança ainda mais confusão, quando a gente lhe pergunta onde foi o "berço da Nação". Como sabes, a IA não faz pesquisa em primeira mão, muito o menos em arquivos.  
Só trabalha com a "papinha feita" pelos humanos. Documentos em acesso livre. Nós sabemos muito mais que ela, que tem a mania que sabe tudo... Mas não, não sabe tudo, "canibaliza" o que os humanos produzem, e só atrapalha as vezes. E recorre muito ao nosso blogue, quando se fala da guerra na Guiné. Enfim, pode ser (ou é) útil, desde que usada com... inteligência humana.

O assunto ainda é polémico. Ou talvez não, afinal estamos a discutir o "sexo dos anjos". O nosso blogue levantou a questão pelo menos em 2009: o Patrício Ribeiro esteve lá, em Lugajole, em 2005, com a equipa da televisão (SIC). E levantou a dúvida: os historiógrafos (a começar pelos "tugas") replicam a propaganda do PAIGC. O que é feio, ou pelo menos não é bonito para um historiógrafo (que não é exatamente a mesma coisa que um historiador).

Passados mais de 50 anos, ainda há muita boa gente a aceitar, acriticamente, que a independência da Guiné-Bissau foi proclamada em "Madina do Boé". Para muitos guineenses (e cabo-verdianos) que nunca foram em visita ao "berço da Nação", Boé e Madina do Boé é tudo igual. É como o "Pulo do Lobo" no "Alentejo profundo": nunca ninguém lá tinha ido, exceto o prof Cavaco Silva, em 1994 (se não erro). (Por acaso já lá fui, tive curiosidade, e não queria morrer estupido: fica no limite do concelho de Mértola com o de Serpa no Parque Natural do Vale do Guadiana.)

Já temos muita documentação sobre o Boé, mas é preciso colocá-la, em dossiês temáticos, em pdf, formato mais facilmente pesquisável na Net.

Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses desta geração) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. Tudo com calma, mas credível, com o rigor possível de quem não é investigador encartado.

A ignorância é muita, a incultura geral ainda mais. E nem tudo o que vem à rede é peixe. Duvido até que os jovens guineenses saibam onde fica(va) a mítica Madina do Boé... Hoje, sim, uma pequena tabanca, reconstituída na picada que segue do Cheche até à fronteira (sul).

Há umas semanas, conversando com jovens guineenses (homens e mulheres) que fazem parte da segurança privada de um hospital público, e que estão aqui em Portugal há 10 anos ou mais, constatei que eu conhecia muito muito melhor a geografia e a história do seu país do que eles.  Já nasceram em Bissau e de lá só saíram para emigrar para Portugal. O toca-toca não vai até Cheche, Béli, Lugajole, Vendu Leidi, Madina do Boé. E se for,  leva uma pequena fortuna.

É gente, estes netos  de Amilcar Cabral,  com alguma escolaridade, a suficiente para poderem  trabalhar doze horas por dia como "seguranças", à noite e por turnos, no departamento de psiquiatria e saúde mental de um hospital na Europa.

Quanto a ti, Ramiro, és sempre bem aparecido. 
Um alfabravo. 
Luis

PS - Ramiro, recordo (para os nossos leitores) o que escreveste em comentário em 14/7/2022 (**):
(...) Conforme o mapa, o local  [Orre Fellositua-se muito perto da fronteira mas antes de Vendu Leide, portanto dentro da Guiné Bissau.
(...) Sobre o desfile militar na cerimónia da independência, nada sei. O local tem um espaço relativamente grande e plano em frente à construção pelo que é possível ter feito ali um "ronco" com desfile de tropas. A construção (suspeito, sem certezas nenhumas) será de depois mas, dado que a fotografia foi feita em 1987 (14 anos depois da declaração), eventualmente já existiria.

Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações precisas sobre o assunto. (...)


quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST

(Revisão / fixação de texto: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)


(...) Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir, dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.

Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’ Kabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.

No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conacri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi,  subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.

Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.

Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Guiné 61/74 - P23427: (Ex)citações (411): O calor e alguma ociosidade inerente levou-me a andar aqui pelo blogue a passear pela infinita quantidade de publicações que por cá há, com destaque para a região do Boé onde, em 1987, fui abrir uma missão com hospital de campanha, no âmbito dos Médicos Sem Fronteira (Ramiro Figueira, ex-Alf Mil Op Esp da 2.ª CART/BART 6520/72)

1. Mensagem do nosso camarada Ramiro Alves de Carvalho Figueira, médico na situação de reforma, ex-Alf Mil Op Especiais da 2.ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74), com data de 12 de Julho de 2022:

Boa tarde.

O calor e alguma ociosidade inerente levou-me a andar aqui pelo blog a passear pela infinita quantidade de publicações que por cá há. Chamou-me a atenção uma série de publicações sobre o local onde foi declarada a independência da Guiné, em 24 de Setembro de 1973. De entre estas publicações, a de uma antropóloga alemã de seu nome Tina Kramer que andou a percorrer a Guiné praticamente de lés-a-lés e que dedica uma referência a Lugadjole onde terá sido declarada a independência em 1973.

Ora acontece que nas minhas andanças pelas medicinas estive ligado aos Médicos Sem Fronteiras e, em 1987, coube-me ir abrir uma missão com hospital de campanha, na Guiné-Bissau, no sector do Boé. Confesso que senti algum entusiasmo, o Boé era para todos quantos estiveram na Guiné durante a guerra um local mítico e penso que não havia ninguém, pelo menos no meu tempo, que não soubesse da retirada de Madina do Boé e do desastre do Che Che.

Partimos de Lisboa num dia que não recordo em Setembro de 1987 com uma equipa de 4 médicos, um enfermeiro e um encarregado da logística. Não tinha regressado nunca mais à Guiné desde o fim da comissão em 1974, mas depressa me ambientei, desde logo à chegada com aquele calor intenso que nos subia pelas pernas acima a recordar o desembarque no mesmo local em 1972. 

Poucos dias depois a partida para Gabú (Nova Lamego) onde dormimos um dia e fomos recebidos pelo governador local, o Paulo (não me recordo do nome todo dele), homem que andou na luta e tinha uma recordação perene dela, uma prótese numa perna.

No dia seguinte partimos para Lugadjole, local destinado para a missão. A estrada era uma velha picada daquelas que todos nos recordamos com os seus buracos e saltos inopinados. Parámos em Canjadude, uma tabanca com ar arrumado e limpo, mas que logo a seguir tinha ainda as marcas da guerra, uma viatura blindada e uma camioneta, completamente calcinados jaziam à beira da estrada. 

Finalmente o Che Che e a jangada. Íamos num jipe cedido pelo governo,  seguidos por uma camioneta onde carregávamos todo o material para a montagem do hospital, a entrada na jangada foi uma habilidade de equilibrismo complicada, mas depois a saída, à chegada do Che Che, foi mesmo um prodígio de equilíbrio que o condutor do jipe, de seu nome Domingos, e o condutor da camioneta executaram quase que por milagre.

Reiniciámos a viagem a caminho de Béli onde chegámos ao fim de umas horas muito difíceis de trajecto. Em Béli estava uma missão de alemãs que nos acolheu muito bem e nos deram uma refeição deliciosa de cabrito (disseram-nos que era…) acompanhadas de vinho branco fresquíssimo delicioso, de tal forma delicioso que um dos colegas que me acompanhava apanhou uma enorme bebedeira e acabou por fazer o resto do caminho a dormir quase não se apercebendo dos tremendos saltos que o jipe dava. 

Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.

Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’Cabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência. 

No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conakri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência. 

Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se práticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.

Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos.

1 – Mapa da região, onde marcado com uma estrela se pode ver o local de Orre Fello
2 – Guiné-Bissau >Região de Gabu > Sector do  Boé > Médicos Sem Fronteira > 1987 > Fotografia minha acompanhado por um dos médicos, o Dr. João Luís Baptista, no Che Che
3 –Guiné-Bissau >Região de Gabu > Sector do  Boé > Médicos Sem Fronteira > 1987 > Baga Baga junto de Béli
4 - Guiné-Bissau >Região de Gabu > Sector do  Boé > Médicos Sem Fronteira > 1987 > Vendu Leidi > Orre Fello > Local da declaração de independência
5 –Guiné-Bissau >Região de Gabu > Sector do  Boé > Médicos Sem Fronteira > 1987 >  Vendu Leidi > Orre Fello >  Casa que se dizia ter sido de Amílcar Cabral
6 – Guiné-Bissau >Região de Gabu > Sector do  Boé > Médicos Sem Fronteira > 1987 >  Jangada do Che Che

Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2022). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Abraço
Ramiro Figueira

domingo, 23 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8939: Memória dos lugares (159): Lugajole, 2004 - Memorial à declaração unilateral da Independência da Guiné-Bissau, localizado em Orre Fello (Rui Fernandes)

1. Mensagem de 21 de Outubro de 2011 do nosso tertuliano Rui Fernandes, dirigida ao nosso camarada Virgínio Briote:

Caro Virgílio Briote
Na sequência do Post-8928* de Tina Kramer, envio fotos de Lugadjole tiradas em Abril de 2004, com maior detalhe do Monumento em Orre Fello.

Nunca ouvi que Amílcar Cabral tenha lá vivido, mas sim que foi o local da declaração da Independência. Por outro lado naquela estrutura não se nota qualquer identificação de que tenha tido um telhado.

Tapei a face das pessoas porque não pedi autorização às mesmas para publicação das fotos.

Quanto às fotos da vista para Lugadjole era impossível em melhor condições, devido ao declive acentuado do terreno e à vegetação existente

Não sei se terá interesse publicá-las no blogue, pelo que ficará ao critério dos Administradores/Editores.

Com os meus cumprimentos
Rui Fernandes


Localização de Lugajole - Imagem Google

Localização do Monumento em Orre Fello - Imagem Google



Escola Primária Comunitária de Lugajole


Vista posterior do Monumento (em Orre Fello)


Frente do Monumento (em Orre Fello)


Placa não legível (em Orre Fello)


Vista do Monumento (em Orre Fello)  para Lugajole


Vista do Monumento  (em Orre Fello) para Lugajole


Vista do Monumento (em Orre Fello)  para Lugajole
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 19 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8928: A nossa expedição à Guiné (Tina Kramer) (1): Gabu - Lugadjole (de 28 de Março a 7 de Abril de 2011)

Vd. último poste da série de 21 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8933: Memória dos lugares (158): Cufar e o porto do rio Manterunga, extensão do inferno na terra : 2 de Março de 1974 (António Graça de Abreu)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8928: A nossa expedição à Guiné (Tina Kramer) (1): Gabu - Lugadjole (de 28 de Março a 7 de Abril de 2011)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Outubro de 2011:

Queridos Amigos,
A Tina envia este relatório para o blogue. Por mim, não mexeria no português, é tudo compreensível, afectuoso, um olhar compenetrado de uma antropóloga que descobriu um povo amável com gente da nossa idade ferida até ao tutano, os do PAIGC, que se sentem desprezados e ignorados pelas novas gerações, os que combaterem sob a nossa bandeira que aguardam uma reparação na velhice.
Enfim, sofrimento a rodos, um constrangimento para nós.

Um abraço do
Mário


2. Mensagem de Tina Kramer* para Mário Beja Santos:

Querido Mário,
Como está e como corre o trabalho?
Falei com o Abdu na semana passada e ele contou-me me que foi assaltado. Que horrível! Espero que ele esteja melhor agora.


Enfim escrevi um pequeno relatório sobre a nossa viagem à Guiné. Espero que não tenha muitos erros e que seja aceitável para o blog. Caso tenha dúvida, avisa.

Senão tenho mais uma pergunta: O Mário sabe onde eu podia encontrar informações quanto aos leis portugueses e guineenses sobre as reformas para os antigos combatentes?

Um abraço
Tina


A nossa expedição à Guiné
Escrito por Tina Kramer

Para a minha tese sobre as memórias da Guerra Colonial/Luta de libertação eu fui para a Guiné no mês de Fevereiro até Junho em 2011

Felizmente através do Doutor Mário Beja Santos eu conheci o Abduramame Serifo Sonco, um homem muito inteligente e bem educado, oriundo da Guiné e um neto do grande Régulo Infali Sonco de Missirá, perto de Bambadinca. O Abdu passou a ser o meu assistente na Guiné e acompanhou-me a maior parte do tempo lá. Graças à indispensável ajuda do Mário antes da minha partida e do Abdu durante a minha estada, a Guiné foi uma experiência extraordinária para mim e eu podia colecionar muitos dados interessantes para o meu trabalho. De seguida queria mostrar alguns aspectos da nossa viagem.

Logo depois da nossa chegada em Bissau o Abdu apresentou-me à família dele e como a família é grande também durante as viagens ao interior do país encontrámos outros membros da família. Todos foram muito hospitaleiros e assim muitas vezes tivemos um alojamento em família.

Durante a minha estada em Bissau fiquei na Pensão Central. Felizmente eu podia ainda conhecer o encanto da Pensão e sobretudo da avó Berta. Gostei muito dos almoços deliciosos, quando havia visitas e a avó fazia o seu sorriso cheio de alegria e humor. Também apreciei muito os momentos à noite com a avó e os empregados dela na varanda quando a avó começava a cantar e contar algumas anedotas da vida dela. Parece que com a partida da avó Berta de Bissau uma parte importante da história da Guiné do século vinte terminou.

Na totalidade fizemos mais ou menos três viagens prolongadas no interior do país. Como os transportes públicos não são muito seguros e não chegam a todas as localidades que nós queríamos visitar, comprámos uma motorizada pequena para começar a nossa aventura.


Avó Berta e eu em Bissau, 18 de Fevereiro de 2011
Foto ©: Tina Kramer


O Abdu com a nossa motorizada em Lugadjole, 2 de Abril de 2011

Foto ©: Tina Kramer


1. Gabu - Lugadjole (de 29 de Março a 7 de Abril 2011)

A nossa primeira viagem levou-nos ao nordeste do país (Bambadinca-Bafatá-Gabu-Béli-Lugadjole). Por causa dos buracos na estrada empanámos muitas vezes o que nos deu a possibilidade de ver tabancas (=aldeias) outras que planificadas e de falar com a gente lá. 

Ao contrário de Bissau com o seu barulho, o lixo, os abutres e a poeira, as tabancas da Guiné são calmas, lindas e limpas. Os habitantes são simpáticos, a peito descobertos, solícitos e hospitaleiros.

Durante todas as viagens que fizemos foi fácil encontrar antigos combatentes do PAIGC que estavam prontos para uma entrevista. Mesmo em tabancas pequeninas pelo menos um. 

Ao contrário foi difícil para nós encontrar antigos combatentes do exército português que queriam falar connosco. Muitos ainda têm medo de falar sobre a guerra e de mostrar que eles combateram do lado português. A perseguição e os fuzilamentos dos camaradas deles pelos combatentes do PAIGC logo depois da independência são ainda experiências traumáticas na memória destes guineenses.

Mas quando tínhamos chegado a Gabu, encontrámos dois combatentes da Associação dos Ex-Militares das Forças Armadas Portuguesas na Guiné. Iniciada pelos membros da Liga do Combatente e legalizada em 2002 esta associação e bem conhecida também noutras partes da Guiné, por exemplo em Bissau, em São Domingos e em Buba. Mas por causa dos grandes problemas financeiros não executam actividades há alguns anos. 

Muitos dos antigos combatentes do exército português com quem falámos desejam um apoio e sentem-se atraiçoados pelo governo português. Também muitos queriam entrar de novo em contacto com os antigos camaradas portugueses, mas não têm meios para isso.


Ao lado do mercado em Gabu, 31 de Março de 2011
Foto ©: Tina Kramer


Deixámos Gabu atrás de nós com os seus comerciantes Fulas, as mulheres bonitas, tantos burros e vacas, bicicletas e motorizadas. Continuámos para Lugadjole com a sua colina Orre Fello, onde no dia 24 de Setembro 1973 o PAIGC proclamou a independência da Guiné-Bissau. 

Com um trajecto de ca. 100 km pensámos que íamos chegar logo, mas o caminho foi muito mais difícil do que esperávamos. Com uma estrada de terra batida e cascalhos grandes e calores que podíamos sentir durante umas caídas com a mota. Sofremos sede e fome e queimámos no sol rigoroso. Assim eu podia imaginar um bocado como os antigos combatentes deviam sofrer durante as marchas extensas no mato.

Finalmente chegámos e encontrámos uma tabanca que não tinha luz nem captação, mas com habitantes hospitaleiros e generosos, que nos deram um telhado e comida. 

No dia seguinte de madrugada um antigo combatente do PAIGC e o filho dele que trabalha como professor mostraram-nos o sítio histórico no Orre Fello. Infelizmente só existem ruínas duma pequena casa, o que o Amílcar Cabral devia habitar. Mas o orgulho está ainda visível nos olhos do velho e a gente da aldeia esperam um apoio do governo guineense para recuperar este lugar importante para a história da Guiné.


Ruínas da proclamação da independência em Lugadjole (Madina de Boé), 2 de Abril de 2011
Foto ©: Tina Kramer

(Continua)
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Nota do Editor:

(*) Vd. postes de:

22 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6774: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (1): Pedido de colaboração da doutoranda alemã Tina Kramer

26 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6791: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (2): Tina Kramer, etnóloga, Universidade de Frankfurt, em trabalho de campo, em Lisboa

31 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6813: Tabanca Grande (234): Tina Kramer, 27 anos, etnóloga, da Universidade de Frankfurt, Alemanha