É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands, entre editoras, livreiros e alfarrabistas.
O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar.
Tenho pena de não poder estar presente, apesar do amável convite do autor. Mas desejo as melhoras venturas para este seu 2º livro, que é mais do que uma promessa, é a confirmação do seu talento literário e do seu fôlego como contador de histórias e criador de personagens.
Local, data e hora:
Jardins do Palácio de Cristal | Lago dos Cavalinhos | sãbado, 29 de agosto de 2026 | 16h00
Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes.
Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica).
Do livro tomo a liberdade de reproduzir, para abrir o apetite do leitor, a "Introdução" (pp. 7/9)
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Introdução
Propus-me, ao longo destas páginas, contar as passadas dos caminhos, ora chãos ora ínvios, por que passaram as personagens desta saga. Às reais apenas dei retoques, às verosímeis moldei-as segundo a fluência da minha imaginação. Todavia deixei que fossem elas as autoras dos seus projetos e trajetos, os quais me limitei a descrever, ao meu modo, sem conhecer ab initio os seus momentos de bonança ou turbulência, de felicidade ou desdita, nem antever até onde elas me levariam, nos seus percursos calculados ou traçados pelas circunstâncias.O trágico perecimento da personagem principal, roubado à vida ainda vigoroso, evento de que ouvi falar em surdina, de modo impreciso, enquanto criança, e trouxe sepulto, no cerne da mente, até aos dias de hoje, foi a mola impulsionadora da decisão de escrever este romance, porque por nenhuma outra razão me atreveria a empresa tão arriscada.
Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial. Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego, passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:
-Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.
Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.
Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro.
Abel é verdadeiramente a personagem central desta minha criação, um menino de Emendadas, levado ao interior de S. Paulo e aí deixado, numa fazenda de café, ao cuidado de um tio. Os que haviam de lhe seguir o rasto, mais tarde, esperavam que desse gente e lhes abrisse caminho na lonjura de uma fazenda paulista, apesar dos seus dez anos por fazer.
Cruzar-se-ia com namoradas, por lá, quando lhe viesse a idade apropriada, mas não se agarraria, firmemente, como lapa se prende a rochedo, a nenhuma, por assim ter decidido ou por assim ter calhado, ou até por se ter deixado guiar por cabeça alheia.
Tinham-lhe ficado quinze anos, no Brasil, quando, já meio depenado, regressou, para não mais voltar, julgando que voltaria. Quem ficou lá para sempre, na região onde nascera, senhora do seu destino, foi a sua namorada da verdura da adolescência, a prelúcida Chiquinha, fiel a um projeto de vida grandioso. Por isso ela é a segunda personagem mais importante que aqui retrato, a rapariguinha espevitada dessa fazenda, que não podia ficar de fora deste romance que desenvolvo à roda de dois seres que se cruzaram e descruzaram, ainda imaturos, sem nunca mais se recruzarem, em vida.
O leitor, no percurso das páginas deste livro, perceberá melhor as razões porque jamais obliteraria a determinada e audaz Chiquinha, da passagem atribulada de Abel por este mundo. Nem tampouco, no contexto da caminhada infortunada deste português abrasileirado, a relegaria para um papel secundário. Porque, na verdade, se as vidas de ambos se descruzaram, a sombra dela sempre pairou, imperecível, no âmago de Abel. Certo que imersa por muitos anos na profundeza do seu ser, ela reemergiria como tábua salvífica, à tona dos seus pensamentos, sobretudo nos momentos mais tormentosos da sua vida.
No grande fluxo migratório para o Brasil, registado entre meados do século dezanove e o início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas de Emendadas se abalançaram, primeiro em barcos à vela, assustando-se sob perigosas procelas; depois em grandes e seguros vapores, até aos portos do Norte e do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Santos, de Paranaguá e de Porto Alegre. Alguns iam muito novos, pela mão de tutores, fossem eles familiares ou amigos confiáveis; outros afoitavam-se já maduros, sozinhos, à procura de novo rumo, deixando tudo para trás.
Abel é o nome fictício do rapazinho nascido em Emendadas, quase a findar o século dezanove, que percorreu um caminho, de cá para lá e de lá para cá. Podia ter ficado por aquelas bandas, mas deixou-se tomar de amuos injustificados, voltando ao lugar de onde tinha provindo, sítio seguro e previsível, como julgava. Mas o pior perigo é o que não é previsível, especialmente quando advém de um plano forjado pelo nosso semelhante, congeminado até no reconditório mental de quem menos esperamos, nesse território secreto onde pode ser concebido tanto o mais nobre gesto como o ato mais abjeto.






