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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)













Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Dizia o meu pai, filho e neto de gente do mar (pescadores, negociantes de peixe de...) que no dia 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, o diabo andava à solta... 

Dizia o meu pai, dizia o povo. 

Na minha terra, Lourinhã, Oeste, costa atlântica, era dia de lançar os meninos ao mar, agarrados nus ou pelos fundilhos dos calções. Nos idos anos 40/50... 

Resquícios de um tradição antiga ? ... Talvez.  Como ainda hoje se faz, em São Bartolomeu do Mar, em Esposende, que  mantém o ritual  coletivo do Banho Santo de São Bartolomeu... (Dizem, é único no país e no mundo.)

Também passei por esse ritual de iniciação... Traumático.

 O meu tio Silvano Constâncio, casado com a minha tia materna Ema Barbosa, com casa térrea e logradouro no Nadrupe (terra dos meus avós maternos, e a onde a minha mãe, que vivia na Lourinhã,  me foi parir...), levava-nos na sua carroça à Praia da Areia Branca, eu, a minha irmã Graciete,  mais os nossos primos e as nossas mães, em dias de festa... Com destaque para o São João, 24 de junho, feriado municipal na Lourinhã. Mas também no 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, se calhasse a um domingo. O meu pai ia lá ter, de bicicleta.

Deve ter sido no domingo de 24 de agosto de 1952. Só se ia à praia, no verão, nos dias feriados e domingos. Duas a três vezes por ano, no máximo, mesmo com o mar ali a 3 km...  Eu tinha 5 anos. Tive o meu batismo de mar. Recordo-me ainda hoje, passados 74 anos (!), de o meu tio Silvano, que era o meu "herói" (e que morreu tão cedo aos 40 e tal anos, para meu/nosso grande desgosto!),  me ter pegado pelos fundilhos dos calções e eu, a berrar e a espernear, ter sido  lançado, sem dó nem piedade, às "ondas gigantes" do Oceano Atlântico!...

Ainda hoje não confio muito no mar e só tomo banho com pé... Mas gosto agora de recordar essas memórias da minha ida à praia (e do meu "batismo atlântico" )... São memórias precoces da minha infância, que já deixei em verso algures:

(..) Ah, os camponeses e os seus burros com as albardas e as canastas,
que ainda não estavam em extinção,
nem uns nem outros,
iam aos magotes até à praia da Areia Branca,
no feriado do são João,
entre brincadeiras e dichotes,
levavam a trouxa e a merenda, os tremoços e as pevides,
as peras, os peros, os alperces, as ameixas e os abrunhos,
os melões e as melancias,
o pão de trigo do moleiro cozido em forno a lenha,
a broa de milho com sardinha,
as azeitonas mal curadas,
bebiam vinho pelo palhinhas, o garrafão de palha,
comiam o arroz de cabidela, de galo ou de coelho,
misturado com a areia e o vento e as lágrimas de sal,
em cima de mantas grossas, feitas de trapos, berrantes, multicolores.

(...) Sangravam de saúde os camponeses da tua aldeia,
“muita saúde, pouca vida, que Deus não dava tudo”,
no tempo em que “beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses”.

Nunca lhes perguntaste se eram felizes,
nem essa era pergunta de se lhes fazer!...
Por uma questão de vergonha, de pudor.
Mas achavas que sim, que eram felizes,
com o pouco que tinham,
já que a bem pouco podiam aspirar naquele tempo (...)


Passei a ter medo do mar e prometi a mim mesmo ( vã promessa de menino!) nunca vir a ser marinheiro, que “na água de mares, não procures cabelos para te agarrares”.

Misóginos os provérbios da minha terra que, quando o mar estava manso, lhe chamava “mar de mulher” (sic), para logo a seguir acrescentarem que “da mulher e do mar, não há que fiar”. Ou então: “do mar se tira o sal e da mulher muito mal”.



São Bartolomeu, Penafiel
2. Todos os anos, no dia 24 de agosto, realiza-se a romaria de São Bartolomeu do Mar, padroeiro da freguesia com o mesmo nome, pertencente ao concelho de Esposende, Minho, durante a qual as crianças são levadas a mergulhar, pelo menos três vezes, mas sempre em número ímpar, na água fria do mar. 

E para quê ? Para que fiquem livres ("esconjuradas") dos males da gaguez, do medo e da epilepsia, doenças atribuídas ao diabo. Mas para esta prática ter efeito terapêutico ou preventivo, as crianças têm que ir ao banho de mar  antes de completar os sete anos de idade, como manda a tradição.

Reza a lenda que, nesse dia, São Bartolomeu solta o diabo, o qual  durante o resto do ano traz preso, representado num medonho  cão negro  atado com uma grossa corrente de ferro. E só volta à noite. 

É esse o motivo para levar as crianças ao mar, durante o dia 24 de agosto, para que aproveitem as águas excepcionalmente  puras e terapêuticas. O "banho santo" é um dos pontos altos da romaria de São Bartolomeu, uma das mais importantes do Minho. 

Os romeiros levam os filhos transportando consigo ao colo uma "galinha preta" (aqui diz-se "pito"), dando três voltas em redor da capela,  antes de nela entrarem e procederem à oferenda sacrificial. Colocam na cabeça a imagem de São Bartolomeu. (E, já agora, porquê, uma "galinha preta" ? Há / havia a crença popular de que uma galinha preta em casa livra / livrava o dono ou a dono de ser atacado pelo diabo...)



Foto: Alfredo Cunha  (2025) (com a devida vénia...)

Uma vez cumprido o ritual, encaminham-se para a praia onde terá lugar o “banho santo” das crianças nas águas gélidas e purificadoras do mar (e aonde o diabo regressará ao anoitecer).  

Com a ajuda de um sargaceiro, cada crianca   é imersa por diversas vezes, contadas as ondas sempre em número ímpar (três, cinco, sete ou nove).

De tarde, faz-se o agradecimento ao santo, através de uma imponente procissão. Apesar de o percurso ser curto, menos de dois quilómetros da igreja à praia e regresso, pode demorar  duas a três horas.

Nela se incorporam centenas de figurantes, que reconstituem episódios bíblicos, e andores de grande porte. Durante a romaria, a praia local enche-se de gente, incluindo muitos forasteiros,  apesar do frio e da temperatura gelada da água.

O São Bartolomeu é, no céu e na terra, o "advogado do medo". 

Além de Sao Bartolomeu do Mar (Esposende), é  um santo venerado em muitas terras, de Norte a Sul do País, a começar por São Bartolomeu dos Galegos (Lourinhã),  Penafiel, Ponte da Barca, Sabugal, Cavez (Cabeceiras de Basto), etc.

Camaradas do Portugal ribeirinho, esta tradição do "banho santo", das nossas terras e das nossas gentes, merece esta bela e bem humorada BD como só o  ilustrador do ChatGPT sabe fazer, embora seja muito conservador, púdico e teimoso como um raio...(Imaginem, obrigou-me a ir ao mar de calções!... Com 5 anos, em 1952!...Nada de mostrar a pilinha!).

Tive um diálogo áspero com a menina IA do ChatGPT que não aceitou a foto do Alfredo da Cunha (foto acima, capa do livro "Mar de Fé:  S. Bartolomeu do Mar: 1996 -2024", da autoria de Alfredo da Cunha, fotografia, e Rui A. Faria Viana, texto. Lisboa: Guerra e Paz, 2026, 154 pp.)

Eis o nosso diálogo de surdos (de resto, frequente, entre nós):

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - Tens cada uma !... A criança mal se vê, vai entrar na água, sem roupa... P*rra, isto não é pornografia infantil, é etnografia, é o meu Portugal sacroprofano! Mete isto na p*ta da tua cabeça inteligente!...

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG - F*da-se! Esquece a m*rda da fotografia (fabulosa!) do Alfredo Cunha!....E faz-me a BD!... Estás-me a decionar, camarada!

ChatGPT - Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre nudez, sexualidade ou conteúdo erótico. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

... E tive que retirar mesmo a foto "pornográfica" do Alfredo Cunha, o nosso maior fotógrafo vivo!... E submeter um novo prompt!

PS - Foram vinte e um (21) os mortos do concelho de Esposende, na guerra do ultramar / guerra colonial. Dez eram das freguesinhas ribeirinhas: Belinho (3), São Bartolomeu do Mar (2) (hoje freguesia do Mar), Marinhas (1), Fão (1) e Apúlia (3). Na década de 1960/70, Esposende tinha c. 24 mil habitantes, hoje tem 35 mil. 

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28265: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (16): "o nosso querido mês de agosto" de há 50, 40, 30, 20 anos... no Portugal sacroprofano



O nosso querido mês de Agosto

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O "nosso querido mês de agosto" , em Portugal,  era o tempo das "vacanças" (sobretudo dos luso-franceses). Mas também, "voilá"!,  o mês por excelência das festas e romarias... 

Era (e ainda é?!)...

Há ainda santuários (na sua grande maioria marianos), por toda a parte, no Portugal profundo, "sacroprofano", de Norte a Sul do país, onde se pagavam promessas (sobretudo no tempo da guerra colonial, 1961/74). 

Mas ainda hoje, dizem... (Fátima, à parte, que é sobretudo um fenómeno turísticorreligioso.)

O Portugal do "nosso querido mês de agosto"  era muito interessante,  sociologicamente falando. Pelo menos, mais colorido, mais saboroso, mais "pimba", mais autêntico, quer  dizer, mais nosso, do que é  hoje, vendido a retalho aos multimilionários,  gentrificado, globalizado, igual ao resto da m*rda mundial... 

Para já,  era muito mais do  que a imagem convencional do “mês das férias”, das férias grandes escolares, das praias superlotadas,  do Algarve dos políticos e dos  famosos, das invasões turísticas, e depois também dos desvastadores incêndios à medida que o  interior do  país se despovoava e o eucalipto impunha a sua ditadura económica e ecológica... em nome da indústria do papel-de-limpar-o-cu!

O mês de agosto era, por excelência, a afirmação e a consagração do "Portugal sacroprofano". 

As  romaria portuguesas não eram apenas religião, pura e dura.  Era uma espécie de contrato anual entre a comunidade, o santo ou a santa que a protegia, os vivos do lado de cá e os mortos do lado de lá, Deus e os seus embaixadores na terra, os santos, as santinhas.

Havia fatiotas novas, missa, procissão, andores, anjinhos,  velas, ex-votos e promessas. Muitas notas, sobretudo de escudos e francos (antes do euro, ainda no tempo do escudo) e depois euros,  pregadas com molas ou alfinetes ao manto da santa.

Havia também vinho (muito, e o verdasco  bebia-se em canecas de litro, de porcelana). 

Havia bifanas, farturas,  pão com chouriço, sardinhas assadas, coiratos, frango no espeto,  algodão doce, tremoços e pevides (no Oeste),  concertinas, bailaricos, foguetes, namoros, juras eternas de amor,  reencontros familiares, emigrantes regressados, negócios, noivados, casamentos, beijos roubados.   comércio ambulante, carroséis e carrinhos de choque... E também porrada, de varapau, de criar bicho (como antigamente...). 

Havia, claro, a indispensável fotografia de família (antigamente, quando ninguém ainda tinha máquina fotográfica, muito menos telemóvel). No tempo do fotógrafo ambulante, em que as festas e romarias eram o seu "São Miguel" (isto é, a época em que faturava).

A meteorologia e a agricultura davam uma ajudinha, à festa, à romaria, à santa, ao santo...  As vindimas eram só em setembro, os cereais já estavam colhidos... O corpinho podia folgar. O "emigras" regressavam, a família dispersa reencontrava-se, a aldeia voltava a ter gente (sobretudo nova), antes de desaparecer no futuro próximo que já é presente.

A festa religiosa funcionava, portanto, também como uma espécie de assembleia geral, anual, da aldeia. O Portugal rural disperso recompunha-se por alguns dias, no nosso querido mês de agosto.

E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...

Se há coisa nossa, bem portuguesa, era  a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)

Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho),  para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique... 

E  logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele,  faziam uma promessa: 

"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."

E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc.. 

A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa:  “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.

Era uma religião pouco ou nada sofisticada  profundamente popular, corporal e contratual, interesseira,  descarada, franca, comercial,  baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.

E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África.  A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.  

Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes,   no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!

O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora,  mais do que Deus,  estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...

2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora.  Por isso há que distinguir Fátima e  os demais santuários do Portugal "sacroprofano".

Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...

Fátima é  uma “indústria da fé”,  sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.

A santa  da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha. 

Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á  entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.

É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...  

A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência)  das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).   

O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas",  podia: 

  • companhar a procissão de vela na mão;
  •  ajoelhar-se diante do andor; 
  • cumprir uma promessa; 
  • emborcar três canecas de verdasco  depois da missa; 
  • dançar até às três da manhã; 
  • discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida); 
  • catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada; 
  • comprar uma fartura; 
  • e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",   
  • estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...

Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy  Belo, que não era antropologo  mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...

A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco. 

De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram  tão antigos e estruturantes como os religiosos. 
 
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente  de “católicos apostólicos romanos", praticantes. 

Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre... 

Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros. 

Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa,  foguetes, bombos, cabeçudos  .., tudo misturado como num "cocktail". 

E os "emigrantes" (externos e internos)  trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também,  do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...). 

Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
 
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o  mês do regresso à terra. 

O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate  de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira 

Havia ali uma pequena ironia histórica,  deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até  miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.)  voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.

E muitas vezes era  ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.

O  “querido mês de agosto” português  era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir: 

mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória... 

Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso:  em agosto, no nosso querido  mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país. 

Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!

sábado, 15 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!







Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. É proibido o ódio no nosso blogue... O discurso do ódio...

Os editores reservam-se, naturalmente, o direito de não publicar textos e fotos (ou de  eliminar, "a posteriori", comentários) que violem as normas legais do nosso servidor (Blogger/Google), bem como as nossas regras de bom senso e bom gosto que devem vigorar numa comunidade de amigos e camaradas da Guiné... E mais concretamente mensagens com:

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(x) spam sob a forma de repetição em série de um mesmo comentário em diversos postes...


2. Mas, afinal, o que é o ódio, camaradas ?

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné,  é proibido o ódio. O discurso do ódio. Tudo bem.

Mas também não temos que nos amar uns aos outros (combatentes e desertores, "tugas" e "turras",  colonialistas e anticolonialistas, benfiquistas, sportinguistas e portistas, ateus, crentes e agnósticos, brancos, azuis, verdes, vermelhos, amarelos...). 

Talvez por isso tenhamos chegado aos 22 anos de existência na Net. E aos 22 milhões de visualizações de páginas. 

Devemos desconfiar destes números. Sim, como manda a dúvida metódica de Descartes. Visualizações não são "visitas" ou "visitantes" Quem visita, pode visualizar mais do que uma página num dado momento (por exemplo  a esta hora em que eu estou a editar este poste).

Mas é do ódio que importa falar... Sim,  há muito ódio nas redes sociais. No blogue, acho que não tanto, estamos "vacinados"... Temos controlado os "outliers", os extremismos...  

Mas ódio,  ódio, sempre o houve, desde que o homem é homem, um animal mamífero, de sangue quente, territorial, social, omnívoro, predador...(nome científico: "Homo sapiens"; espécie classificada pelos zoólogos na Ordem dos Primatas, tal como o chimpanzé, o gorila, o  orangotanho...mas também o macaco-cão).

Mesmo não havendo  "redes sociais, digitais",  no passado,  sempre houve razões para nos odiarmos uns aos outros e, "in limine" nos matarmos uns aos outros, invocando até (ou quase sempre)  o "sagrado": Deus, Pátria, Família, as nossas crenças, os nossos valores, o nosso solo sagrado...

 Desde o princípio de todas as coisas. Sempre houve "violência" (física e verbal). 

3. A minha dúvida existencial, que levei para a Guiné: posso lutar numa guerra sem ódio ? Sem sentir ódio pelo inimigo, que nem sequer conheço nem sequer vejo muitas vejas ? Tenho mais chances de sobreviver se "odiar"  ou se "não odiar" ? 

O contrário de "amar", não é "odiar",  mas "não-amar", dizem os puristas da língua...

Em suma:  na guerra, tenho que sentir raiva  e ódio ? Ou posso também sentir piedade, compaixão ? Tenho que odiar quem me quer matar ? Quem me aponta uma RPG-7 à cabeça, emboscado, escondido atrás do "bagabaga" ou do grosso tronco do bissilão ? Ou antes, tenho que odiar quem me mandou para a guerra ? 

A "padeira de Aljubarrota" que há 641 anos atrás,  em 14 de de agosto de 1385,  matou (diz a lenda) sete castelhanos (ainda não eram espanhóis...) que se esconderam no seu forno..., só podia matar... por ódio. Os 6 mil e tal portugueses e ingleses que enfrentaram mais de 30 mil castelhanos nesse dia, mês e ano, não poderiam ter vencido essa batalha sem ter experimentado, nessa tarde,  um ódio intenso ao "invasor"... Ou seria "loucura" ? Talvez venha daí a expressão que os "nuestros hermanos" (sic) ainda hoje usam: "Portugueses, pocos pero locos" ("Portugueses, poucos mas loucos")...É verdade, sempre fomos poucos mas...loucos.

Tenho estado a refletir sobre o binómio amor-ódio (interpessoal, intragrupal, intergrupal, a nível nacional e internacional) (*)...  E até intrapessoal: há sempre uma parte de nós que odiamos..., do tamanho do penis ao nariz adunco....

Se não fora assim, os consultórios dos psiquiatras estariam às moscas... Os psiquiatras e demais "psis", os psicólogos, os psicoterapeutas, os médicos, os padres, os feiticeiros,  as bruxas, os astrólogos...

Também desconfio do "Amor com amor se paga"... Altruísmo 'versus' egoísmo ? A sociobiologia também é muito redutora e primária... 

Dei aulas de etologia e sociobiologia, em 1994, a alunos de licenciatura em sociologia,qu se estavam borrifando para o Hawkins, o Wilson, o Lorenzo, etc. Li muito e escrevi muito nesse ano sobre esses temas, incluindo a "pulsão da violènca" que nos leva a matar... 

Mas o que sei eu hoje sobre este campo tão controverso ? Sei que a minha pergunta toca em temas centrais da condição humana: o ódio, o amor, a guerra, a sobrevivência, a moral e até a biologia. 

(i) Afinal, o que é o ódio?

Diz o dicionário:

ódio
(ó-di-o)

substantivo masculino

(a) Sentimento de intensa animosidade relativamente a algo ou a alguém, geralmente motivado por antipatia, ofebsa, ressentimentro ou raiuva= Aversão, repulsa, ≠ Amizade, amor

(b) Objeto desse sentimento.

Etimologia: do latim otium, -ii (ódio, aversão, ressentimento, má vontade, animosidade, irritação, desagrado, insolência).

"ódio", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pt-br/%C3%B3dio.

O ódio é uma emoção intensa de aversão, hostilidade ou repulsa em relação a uma pessoa, grupo, etnia, classe social, nação, ideia, crença, objeto ou coisa (ex.: odeio o fulano de tal, os ciganos, os balantas, a Guiné, o populismo, os milionários, os comunas, os fascistas, os nazis, as claques de futebol, os "emigras"... mas também a bola, a lampreia, a IA, os tuk-tuk).

Não é apenas uma emoção individual: é também um fenómeno social, muitas vezes alimentado pelo medo, pelo desconhecimento, pela desumanização do outro, pela competição por recursos escassos,  ou pela necessidade de pertencer a um grupo (identidade vs. alteridade).

No contexto das redes sociais (e na guerra), o ódio amplifica-se, devido a a uma série de fatores, como, por exemplo:

  • o anonimato, a impunidade,  o grupo que reduz a responsabilidade individual; na guerra (e nas redes sociais), o "menino de coro" pode transformar-se num "monstro";

  • os algoritmos, que premeiam o conteúdo emocional (incluindo o ódio), pois gera mais interação, mais acessos,  mais visualizações; 
  • as câmaras de eco que  reforçam crenças extremas e demonizam o "outro" (o chamado fenómeno da polarização).

No nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, o facto de moderarmos os comentários (incluindo o "discurso de ódio") não é um acaso: é uma escolha ativa de preservar um espaço de diálogo, de tolerância, de convivilidade, de responsabilidade, de partilha ... Não é um espaço de censura, mas de abertura.

Os 22 anos e 22 milhões de visualizações são um sinal de que a ausência de ódio atrai mais do que repele. 

Afinal, não é caso para desconfiar desses números: são a prova de que a qualidade do debate,  dos conteúdos, a partilha de memórias (e emoções), a credibilidade, a transparência (toda a gente dá a cara, ninguém se esconde por detrás do "bagabaga" ou do "poilão")  pode ser um "valor de mercado", dá dividendos...

 
(ii) Posso lutar numa guerra sem ódio?

Em teoria, e por vivência pessoal, direi  que sim, é possível. A história está cheia de exemplos de soldados que lutaram por dever, por lealdade, por ideais (liberdade, justiça, proteção de civis, amor à pátria, etc. ) sem ter que odiar o inimigo. 

O ódio não é um pré-requisito para a guerra, mas é um catalisador que facilita a desumanização do outro, e o comportamento sobre-humano a que chamamos heroísmo. E isso, sim, aumenta a crueldade e a eficácia na destruição.

Estatisticamente, sabemos que o ódio pode aumentar a coesão do grupo e a disposição para matar, mas também faz aumentar o risco de trauma: soldados que odiavam o inimigo tinham mais dificuldade em reintegrar-se na família, na comnunidade, na sociedade depois da "peluda"... Além disso, reduz a resiliência (o ódio consome muita energia emocional).

O ódio é uma patologia. A longo prazo, o ódio acaba por esgotar e limitar a estratégia do indivíduo ou do grupo: o ódio oblitera o julgamento; a guerra é também um jogo de xadrez; o ódio faz-me jogar sem eu ver o tabuleiro todo. 

Conclusão: sobrevivo melhor sem ódio. A frieza, o profissionalismo, a inteligência emocional ou até a compaixão (sim, até na guerra, pode haver compaixão, que não é a mesma coisa que empatia, e muito menos amor) podem ser vantagens. 

O ódio é um luxo que muitos não podem pagar. Fiz prisioneiros (eu e a minha companhia, a CCAÇ 12); nunca odiei nenhum prisioneiro nem o torturei (mas outros fizeram-no por mim, em meu nome, em nome do grupo)...


(iii) Amor vs. ódio: altruísmo vs. egoísmo

A sociobiologia explica o altruísmo como uma estratégia evolutiva: cooperamos com quem partilha os nossos genes ou os nossos interesses. Mas isso é redutor. O ser humano é muito mais do que instintos, genoma, ADN, sexo, testosterona.. É mais do que o nosso gene egoísta que se quer reproduzir â viva força.

Sim, o amor pode ser um ato de resistência. Em contextos de guerra ou opressão, o amor (pela família, pela pátria, por um ideal, pela liberdade, pela justiça) é muitas vezes o que mantém as pessoas de pé.

"Amor com amor se paga": não é uma lei universal, mas é um contrato social. Se todos agirem com egoísmo puro, a sociedade colapsa. O altruísmo não é ingénuo: é racional a longo prazo. Também é,pois,  "interesseiro".
 
O ódio também é uma  ferramenta de manipulação e mobilização: o ódio pode ser útil para mobilizar massas (viu-se isso durante as guerras civis liberais, em 1828/34, na guerra colonial de 1961/74, no "verão quente de 1975", na ocupação indonésia de Timor Leste e na resistência dos timorenses aos ocupantes, etc.) mas é insustentável a longo prazo. 

Amílcar Cabral pregou o ódio ao colonialismo mas distinguiu os colonialistas e o povo português. Claro que o colonialismo não é uma coisa abstracta...

 As sociedades que duram são aquelas que conseguem gerir o ódio, não as que o celebram (como a Alemanha nazi). 

Dicas práticas para o meu dilema existencial, quando eu tiver/nós tivermos  que me/nos  envolver numa nova guerra (cruzes canhoto!... mas nunca se sabe nem onde nem quando podemos ser apanhados de novo por um conflito armado, nós, os nossos filhos, os nossos netos):
  • o ódio é uma escolha, não uma fatalidade: podes reconhecer a raiva, a injustiça, a dor, sem te deixares consumir por elas;
  • a guerra (metafórica ou real) ganha-se com inteligência, não com ódio;
  • o ódio cega; a estratégia, a empatia (até com o inimigo) e a resiliência são armas mais poderosas do que o ódio;
  • e se tivessemos conseguido  juntar,  numa mesma "seleção nacional",  Sarmento Rodrigues, Adriano Moreira,  Spínola, a "Cilinha" mas também... Amílcar Cabral e a "Maria Turra"?;
  • o altruísmo não é fraqueza;
  • a história mostra que as sociedades mais cooperativas são as mais resilientes; 
  • o egoísmo puro é um beco sem saída;
  • desconfiar dos extremismos (e de quem os defende) é um bom princípio; 
  • tanto o ódio cego como o amor ingénuo são perigosos ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo", diz o provérbio);
  • o equilíbrio (dinâmico) está na difícil lucidez;
  • o ódio é fácil;
  • o amor é difícil;
  • ...mas  é o único que constrói algo que dura nas nossas relações (intragrupais, intergrupais, comunitárias, nacionais, internacionais).
(Continua) (**)
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Notas do editor LG:

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28240: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (14): as alucinações do soldado básico de Bambadinca que, em pânico, jurou ter visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado











O "básico de Bambadinca" que  viu elefantes junto ao  arame farpado

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Esta é uma das histórias pícaras que trago da Guiné, e mais exatamente de Bambadinca, onde comecei por estar adido ao BCAÇ 2852...O quartel sofreu um ataque em força na noite de 28  de maio 
de 1969, âs 00h25, que ficou na memória dos seus militares (e em especial da CCS - Companhia de Comando e Serviços). 

 Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, ainda não estávamos lá, estávamos a bordo do T/T Niassa, já no estuário do rio Geba,  à espera de desembarcar no dia seguinte, em Bissau. 

Mas dias depois, em 2 de junho, passaríamos por lá, a caminho do CIM de Contuboel... Ainda "cheirava a pólvora". E o pessoal andava com os "nervos à flor da pele"... 

Em meados de junho tinha havido um falso alarme: em resposta a um alegado novo ataque dos "turras", gastaram-se milhares de munições...

Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs a vista em cima de um elefante, solitário ou em manada, durante a guerra... 

Nem sequer a malta que esteve em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. A malta da CCAÇ 2317 (Gandembel, Ponte Balana, Buba e Nova Lamego, 1968/69), os "Gandembéis", de que fizeram parte o Idálio Reis, o Joaquim Gomes Soares, o João Barge, o Júlio Madaleno ... 

Eles  bem como outros camaradas de outras subunidades (o Hugo Guerra, o Alberto Branquinho,  o José Ferreira da Silva, o José Teixeira,  o Mário Gaspar, etc.) que, direta ou indiretamente,  foram bravos atores e/ou testemunhas desta   "odisseia", a vida e morte de Gandembel e  Ponte Balana (sem esquecer os páras do BCP 12). 

Mas,  nessa altura,  se ainda havia elefantes na Guiné, que iam e vinham banhar-se no rio Balana, devem ter sido "desalojados" e corridos para a Guiné-Conacri pelas tropas do 'Nino' Vieira  e pelas NT,  que travaram combates violentos no decorrer da  Op Bola de Fogo (8 a 14 de abril de 1968) e depois,  ao longo da ocupação, construção, defesa e abandono do aquartelamento de Gandembel e do destacamento de Ponte Balana, que se saldou por 372 ataques e flagelações do IN, em menos de nove meses (**).

 O elefante, tal como nós, não gosta de tiros. E tem, como nós,  um medo que se pela  das minas e armadilhas... Fugiu da Guiné, fugiu de Angola, fugiu de Moçambique...

Na história não-oficial da guerra da Guiné (1961/74), o único tuga que garantidamente  viu elefantes com "os dois olhos que a terra há de comer" foi...o "básico de Bambadinca", em junho de 1969.

É uma história que não é para rir. Não a ponho na série "Humor de caserna". A mim, inspira-me pena e compaixão. E é nesse sentido que orientei, editorialmente, a BD que encomendei ao meu artista gráfico de serviço.

O "básico de Bambadinca" não pode ser alvo de piada, chacota  ou risota na caserna; já não bastava ele ser gozado por toda a gente, até pelos "djubis", faxinas da cozinha  que o ajudavam nas tarefas mais sujas em troca dos restos do rancho. Não, não é o "bobo" da caserna, é apenas a personagem de uma pequena tragédia. 

Eu próprio comecei por sorrir, na altura,  em junho de 1969, perante a ideia absurda de uma manada de elefantes junto ao arame farpado do quartel de Bambadinca... 

Hoje acabo por reconhecer que aquele meu pobre camarada (cujo nome nunca fixei) estava simplesmente aterrorizado, com os nervos feitos num oito. É aí que reside a força da história (que, de resto, já aqui tinha contado).

O seu nome não fica para a história, mas, tanto quanto me lembro, pertencia à da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), e para mais numa altura em que ainda havia o receio do "turra" voltar a atacar o aquartelamento...

Dele  se contava que,  um dia, quando estava de sentinela, acordou às tantas da noite todo o quartel e as tabancas à volta (Bambadincazinho e Bambadinca), aos tiros de G3 em posição de rajada...

Perante o estremunhado oficial de dia (ou  sargento de dia, a quem competia fazer a ronda pelos postos de sentinela do vasto perímetro do quartel),   jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...

Feito o reconhecimento do local, pela manhã, ninguém encontrou (nem podia encontrar) vestígios da manada de elefantes ao serviço dos "turras"...

Como explicar estas "alucinações"  do pobre do soldado "básico de Bambadinca" ?


2. Sabemos que, em contexto de guerra, mum quartel do mato, às tantas da noite, em África, é possível ter "alucinações" destas.. 

Para mais, tratando-se de um "soldado básico" que , por definição, não era operacional, suponho até quer era um simples ajudante de cozinha... Mas que tinha apanhado um cagaço do caraças aquando do ataque de 28 de maio de 1969...

É um  tema fascinante e complexo, que não tem sido abordado no blogue:  em 
contextos extremos, ou situações-limite, em ambientes de alta tensão, como a guerra, o isolamento, o cansaço, a insolação, a desidratação ou  até a subnutrição, prolongadas, enfim, em situações de  exaustão física e mental, ou de privação sensorial (como a escuridão total do mato à noite),   etc.,  o cérebro humano pode gerar alucinações hipnagógicas (na transição para o sono) ou hipnopômpicas (ao acordar), ou até alucinações sensoriais completas.

Estes fenómenos não teriam sido incomuns no nosso tempo, no CTIG. Estão documentados (e estudados) noutros teatros de operações, sendo comuns, por exemplo, em  soldados envolvidos em missões prolongadas:
 combatentes em guerras (como a do Vietname ou os conflitos modernos no Médio Oriente) relatam casos de alucinações visuais e auditivas, especialmente em ambientes de isolamento, combates prolongados, falta de sono, grande sofrimento físico e psíquico, promiscuidade, desconforto e vulnerabilidade  dos  "bunkers", etc.

Outra situação comum é a privação sensorial: no mato, à noite, a ausência de estímulos visuais claros pode levar o cérebro a "preencher lacunas" com imagens ou sons imaginários: o som do vento, a trovoada, os relâmpagos, a chuva, o piar de "aves agoirentas", os ruídos provocados por animais noturnos, ou a simples fadiga... podem distorcer a perceção da realidade.

O stress agudo e  o pânico fizeram o resto: o "básico de Bambadinca" (possivelmente castigado com umas noites nos postes de sentinela) estava em estado de hipervigilância. Nessa situação,   qualquer estímulo ambíguo (um ruído, uma sombra) pode ser amplificado pelo cérebro como uma ameaça real; a G3 em rajada sugere uma reação de pânico instintivo, onde a mente, já em alerta máximo, "vê" o que teme (neste caso, elefantes, que na Guiné-Bissau eram nativos e simbolizavam um perigo real, ainda que totalmente improvável naquele contexto, na zona leste, em Bambadinca).

No ambiente estranho e hostil da Guiné, eram frequentes relatos de soldados (nomeadamente metropolitanos) que confundiam sons de animais com movimentos inimigos, ou que viam figuras humanas em sombras. 

Sabe-se que o cérebro "em modo de sobrevivência" dá prioridade, atenção máxima, à deteção de ameaças, mesmo que isso implique... "falsos positivos", falsos alarmes ..

Eu próprio experimentei (eu e todos os demais camaradas que me acompanharam),  durante a Op Tigre Vadio (3 dias, 30/3-1/4/1970, na península de Madina /Belel, regulado do Cuor, no regresso ao Enxalé), uma situação de desidratação extrema, e com ela o conhecido fenómeno (ótico) da "miragem do deserto"  que rapidamente se transformou em alucinação psicológica real...

E porquê o pobre do "básico", pergunta o leitor  ?

O facto de ser um ajudante de cozinha (e não um operacional, e que, para mais, a cumprir um "castigo"
) é revelador: tinha menor preparação (física e psicológica) para lidar com a tensão de uma sentinela, na noite de África; estava menos familiarizado com a G3; não saía para o mato, não estava integrado em nenhum grupo de combate, etc. 

 Recorde- que o soldado básico era o que só tinha feito a recruta , não tirara qualquer especialidade   por falta de aptidões, físicas ou intelectuais ( ou por qualquer outra razão : saúde,  disciplina, etc. ). 

Não servindo para "atirador", era colocado nos "serviços de apoio" de uma subunidade (alimentação, material, etc.)
 
Nestas circunstâncias, o seu cérebro poderia estar mais suscetível a distorções, por falta de interação ou validação da realidade com outros.
 
Recorde-se que, mesmo numa CCS (Companhia de Comandos e Serviços), em quartéis do mato, como Bambadinca, sede de batalhão, os não-operacionais (escriturários, mecânicos, etc.)  estavam escaladas para, regularmente, fazer o serviço de guarda (e os graduados, as respetivas rondas). E havia sempre escassez de efetivos, daí também o recurso aos "básicos".

Elefantes em Bambadinca ? A Guiné-Bissau tinha (e ainda tem) elefantes, embora em números muito  reduzidos , e apenas num corredor transfronteiriço,  na região de Tombali, que hoje faz parte do Complexo Dulombi-Boé-Tchetche. (**)

 Durante a guerra, avistamentos esporádicos destes paquidermes não eram, teoricamente, de todo impossíveis, mas uma manada junto ao arame farpado de um quartel como Bambadinca, na zona leste, seria de todo improvável. 

Esta evidência vem  reforçar a hipótese de alucinação.

A experiência extrassensorial do nosso "básico" também terá a ver com a "expectativa cultural":  tal como muitos outros militares metropolitanos, ele ouviu, desde a escola, contar histórias sobre elefantes, lesões e  outros animais emblemáticos de África. Todavia, e a menos que já tivesse visitado o Jardim Zoológico de Lisboa, nunca tinha vista ao vivo e a cores um elefante, um leão, um leopardo, um jagudi. Nem sequer um macaco!

A G3 em rajada é outro detalhe crucial. É uma resposta automática,  resultante do  treino militar. E a reação a uma ameaça percebida é imediata. Se o "básico" acreditou que via elefantes (ou "turras"), o instinto de disparar para alertar o quartel seria natural.

Por outro lado, sabemos que o pânico é contagioso em grupo ou multidão: o som dos tiros, às tantas da noite, acordava o pessoal todo.

  Já não me recordo dos pormenores da história, mas tudo indica que,  nessa noite, houve quem puxasse da G3 e desatasse aos tiros para o arame farpado...  

Esta história terá acontecido em junho de 1969, em que  ainda se vivia sob o medo  de um novo ataque ao quartel.  Bambadinca nunca seria atacada ou flagelada no meu tempo (julho de 1969 / março de 1971). Mas os ataques e flagelações aos aquartelamentos e destacamentos no sector L1,  num raio de 30 ou mais quilómetros,  eram audíveis (e até visíveis ) à noite.

Também não é preciso recordar que estávamos num conflito armado, onde a tensão se fazia sentir.   
O cansaço, a monotonia e a sensação de isolamento (a Guiné ficava a 4 mil  km de Lisboa) criavam um terreno fértil para a síndrome do combatente, e inclusive para o que hoje chamaríamos de PTSD - Perturbação de Stress Pós-Traumático ( em português ), podendo-se manifestar sob a forma de ansiedade, insónias e alucinações. "Estar apanhado do clima" era a expressão de caserna equivalente...

Na Guiné, havia pouca mobilidade: o nosso soldado "básico" permaneceu quase dois anos no mesmo sítio. Enfim , este é um caso clássico de alucinação induzida pelo stress.

 De qualquer modo, justiça se lhe faça: o "básico de Bambadinca" não mentiu nem inventou,  o seu cérebro, em condições extremas, criou uma perceção falsa, mas para ele, naquele momento, era 100% real.  

Em conclusão, em estado de fadiga e de hipervigilância, o cérebro pode "projetar" os nossos  medos.  O barulho de galhos partidos ou o vento a mover a vegetação, os cães vadios ou até uma simples hiena à cata de comida podiam ser interpretados como o deslocar de animais de grande porte como uma manada de elefantes. (***)
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Notas do editor LG: