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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

domingo, 31 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28062: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (5): Lagos, entre o Infante Dom Henrique e el-rei dom Sebstião, entre o "ice-cream" e a "bica escaldada"









Algarve > Barlavento > Lagos > 27 de maio de 2026

Fotos (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Sem título. Ilustração: Luís Graça (1999)


1. Estou em Lagos, Barlavento, Algarve. Já não vinha aqui desde 1981. E mesmo quando estive em Tavira (em 1968), nunca aqui vim. Tenho, de um lado, a estátua de El Rei Dom Sebastião, datada de 1973, da autoria do João Cutileiro (1937-2021), e acho-a uma obra-prima da arte portuguesa do séc. XX; e por outro, a escassas centenas de metros, a estátua do Infante Dom Henrique, de estética "estado-novista", inaugurada em 1960 (é do escultor Leopoldo de Almeida, 1898-1975).

Lagos, apesar de tudo (do cilindro compressor do turismo e do camartelo camarário) ainda conserva um secreto encanto. E é um repositório da nossa memória.

Foi uma das nossas portas para o mundo, mas também uma das rotas da escravatura...Tal como o Cacheu, na Guiné. Visitei o museu. Como antigo combatente da guerra colonial, tive acesso de borla... Mas fico sempre "deprimido", ao puxar do cartão e ao lembrar-me que também faço parte desta história, desse "filme de longa metragem"..., a história, o filme do fim de um ciclo de 600 anos.

Estou num lugar que é, ao mesmo tempo, um bilhete-postal ilustrado do meu país e um palco de memórias incómodas.

 Lagos, com a sua luz branca que cega, o seu mar azul, a sua praça coberta de jacarandás em flor, as torres brancas das suas igrejas, o casario e os restos das suas muralhas. Mas Lagos é também um espelho das sombras, pesadelos, perplexidades, misérias e grandezas da História do meu país.

Por um lado, o Infante que abriu a primeira "autoestrada da globalização" e com ela o conhecimento, a unificação dos mares, continentes e povos, o comércio, mas também as portas ao tráfico de seres humanos (e que ficou com o seu "quinhão", do primeiro carregamento de 235 escravos, aqui aportados, em agosto de 1443, a pretexto de lhes querer "salvar as almas"!). E, por outro, o rei, imberbe, "rambo", que se perdeu em Alcácer Quibir (e que nos perdeu).

E em plano de fundo, a guerra colonial que me marcou a mim e a tantos outros rapazes da minha geração, como um sacrifício estúpido, gratuito e inútil. 

 Pergunto-me todos os dias: para que é que morreram dez mil dos nossos na Guiné, Angola e Moçambique ? E as dezenas de milhares, do MPLA, da UPA, da FNLA, da UNITA, do PAIGC, da FRELIMO, que matámos ? E as centenas de milhares de angolanos, guineenses, moçambicanos e timorenses que se mataram uns aos outros, em guerras fratricidas no pós-independência ?

Conheço o peso da história do meu país na pele (e não só nos livros, é no corpo, é na alma). Não é só a estátua do D. Sebastião ou a do Infante que me incomodam, é o que elas representam. 

Afinal, a história não é só "feia" no património edificado (temos, de resto tantos "mamarrachos" por esse país fora, em granito, em mármore, em bronze)... É "feia" naquilo que ela faz connosco, naquilo que nos obriga a carregar, nas nossas memórias.

A história não é o "passado", é um fio que se estende até hoje e se prolonga no futuro: nas desigualdades, nas cicatrizes da guerra, nas narrativas desencontradas, no turismo que devora a alma dos homens e a identidade dos lugares, na "gentrificação" da nossa terra.

Apesar de tudo, encontro beleza na arte de um Cutileiro (que, ironicamente, imortalizou um rei que eu sempre detestei). E manifestei o meu apreço ao município de Lagos por ter sabido preservar o antigo mercado de escravos. Pelo menos o "casco velho" de Lagos, não foi totalmente devorado pelo desastre  urbanístico,  a ganância imobiliária e o capitalismo selvagem.

A estátua do Infante D. Henrique é pesada, afirmativa, hierática. O corpo compacto, o gesto imóvel, a monumentalidade austera: tudo nela fala a linguagem estética do Estado Novo. Não é apenas uma representação histórica; é um "programa ideológico em bronze". 

Inaugurada na efeméride dos 500 anos da morte do Infante Dom Henrique (1460-1960), ela diz muito (até pelo que omite) sobre o navegador visionário, a "escola de Sagres", o império, a "missão civilizadora", o “destino atlântico”, a honra e a glória dos grandes feitos marítimos, bla- lá.... 

Mas, talvez até mais,  ela fala de um regime que se "apoderou despudoradamente" dos nossos heróis, dos nossos maiores... 

De qualquer modo, precisamos de mitos fundadores. Todos os povos precisam de (e cultivam) os mitos-fundadores.

E o facto de eu (e o meu amigo Jaime Silva, antigo paraquedista que fez a guerra de Angola) ter entrado de borla no museu, como antigo combatente, também tem algo de simbólico: estou aqui, de algum modo, a reclamar o meu discreto  lugar na narrativa sobre o making of" do império, e a exigir que a memória não seja apagada.

Faço parte desta história, não como herói, nem como vítima passiva, mas como simples peão,   como alguém que ainda cá está, aos 79 anos, um "marginal-secante" que também reivindica o direito de não deixar que a estátua de um rei ou de um infante apaguem as vozes dos que "ficaram para trás" (navegadores, soldados, marinheiros, fidalgos, mercadores, missionários, mas também pessoas escravizadas, e nomeadamente negros de África). 

Recuso-me a glorificar o passado sem o olhar de frente, não quero fazer tábua rasa nem das nossas misérias nem das nossas grandezas. Que as temos, como qualquer outro povo.

O que fazer com a minha raiva e minha melancolia, perdido em Lagos, numa multidão de turistas que come "ice-cream" e que está aqui, uns dias, no Algarve português para carregar as "baterias da felicidade" ?

Depois da difícil tarefa que é sempre estacionar o carro nestes lugares (coitado do Jaime!), caminho de  canadianas, até à Praça Gil Eanes e encontro o "meu velho conhecido" D. Sebastião, do João Cutileiro.

Fotografo a estátua: aqui já não há pose imperial. Nem bronze triunfante. Nem honra nem oria, Nem rumo nem destino. Há apenas a  beleza e a fragilidade do mármore. Há alienação. Há um fantasma. O nosso fantasma nacional (depois do Velho do Restelo). 

O rei, despojado da parafernália guerreira, o helmo inútil  a seus pés, perdido no deserto, num campo de batalha, a batalha dos três reis, mas que ainda há de voltar numa manhã de nevoeiro. A Lagos, donde partiu. 

O contraste não podia ser mais brutal: o Infante, empoderado, altivo,  é a narrativa da ascensão; D. Sebastião, a nossa má consciência da queda, do desastre, da culpa, da impotência.

O Infante foi uma figura da nossa História que sempre me acompanhou desde os bancos da escola até à Guiné: repetida "ad nauseam". O Infante tornou-se uma liturgia cívica do Estado-Novo. Dom Sebastião era enxotado para o sótão dos nossos pesadelos, o que deixou a porta escancarada á dinastia dos Filipes de Espanha.

O Infante Dom Fernando e el-rei Dom Sebastião: o alfa e o ómega, o primeiro e o último atos da nossa tragicomédia. (Toda a História dos homens tem tragédia e comédia; a nossa também tem.)

Preciso de um café. Entro numa gelataria. Leio na parede, em letras garrafais: “You can't buy happiness, but you can buy ice cream, and that's kind of the same thing.” (em português: “Não podes comprar a felicidade, mas podes comprar um gelado, o que é quase a mesma coisa")...

Reconheço a frase popularucha, 'kitch', desde "Berlim Leste", é uma variante do provérbio que os ricos gostam de repetir, caritativamente, aos pobres: "Meus filhos, o dinheiro não compra a felicidade"... Uma outra variante decorava o meu quarto de hotel de 3 estrelas, quando lá voltei em março de 2015, a Berlim, na parte leste onde viviam os alemães de 2a.

Não gosto de gelados. Mas a bica veio fria (e eu pedira-a escaldada), ao fim de meia-hora. Há três bichas: a da esplanada, a dos gelados e a das "bicas" (para os clientes da terra, lacrobrigenses, cada vez mais raros, e os turistas nacionais como eu). 

O empregado de mesa, "indostânico" (?), não sabe o que é uma "bica escaldada", e sua, isso, sim, em bica, com tanta azáfama e calor matinal. Não tem quatro braços, como as poderosas deusas da sua terra.

O Largo do Infante fica junto do antigo mercado de escravos, um dos primeiros espaços de comércio esclavagista da Europa moderna.  O Museu de Lagos  é de visita obrigatória. Não existia em 1981.

 A História raramente é limpa quando regressamos aos lugares décadas depois. Os sítios acumulam não só pó, mas também memória pessoal, enviesamento, propaganda, ruído, silêncio, culpa, nostalgia, perda. 

E às vezes o que sangra não é exatamente a História nacional, é a (re)descoberta da distância entre aquilo em que nos ensinaram na escolinha, quando éramos "meninos e moços" e  aquilo que hoje vemos (ou que nos deixam ver).

Voltar 45 anos depois a Lagos  é  como encontrar uma versão antiga de mim  próprio, a caminhar penosamente pelas ruas empedradas. As estátuas já lá estavam, em 1981,  a do Infante nem sequer dei conta. As estátuas permanecem, mas quem as olha já não é o mesmo. Eu já não sou o mesmo. 

Desta vez, nem sequer consegui comer um xarém de conquilhas. Nem carapaus alimados. Nem um arroz de lingueirão. E as ameijoas boas da Ria Formosa estavam pela hora da morte: não tive coragem de as comprar, no mercado municipal de Portimão, a 38 euros o quilo. 

Há um Algarve de 1968 (quando fiz tropa em Tavira) que já não existe. Tal como a Lagos de 1981. Tal como o meu país e o mundo, que  já não são os mesmos de quando nasci, em 1947. 

Acho que devia ter pedido um "ice-cream" em vez da "bica escaldada".




Lagos, 1981 > Junto à estátua do rei Dom Sebastião, de José Cutileiro (1973): da esquerda para a direita, Gusto (meu cunhado), Filipe (meu sobrinho), Cristina (sobrinha da Nita e da Alice), Nita (1947-2023), Joana (minha filha), Chita (Alice, minha mulher),  Béu (minha mana mais nova)… (Ainda estavam para nascer o João, meu filho, e o Tiago, meu sobrinho, hoje ambos médicos). Dizem que a estátua nunca foi oficialmente inaugurada. De visita a Lagos, em 1973, o último presidente da República do Estado Novo, fez questão de a ignorar completamente.

Foto (e legenda): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28019: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (4): E se o general António Spínola tivesse sido morto ou capturado em 20 de abril de 1970, em Jolmete, Pelundo ?


Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)
1. Cristina Allen, que vivia em Lisboa, onde era professora, viajou para Bissau em 15/4/1970 para se casar. A elebração, católica, foi no dia seguinte, na catedral de Bissau, numa cerimónia simples, mas os seus amigos e familiares em Lisboa estariam longe de imaginar que  sua "lua de mel" seria passada a visitar o noivo, Mário Beja Santos,  no hospital... aonde Spínola ia  também todos os dias de manhã inteirar-se do estado de saúde dos militares internados (*)...

Quatro dias depois, a 20/4/1970, dá-se em no susetor de Jolmete,sector 07 (Pelundo=, no coração do chão manjaco,  o chamado "massacre dos três majores". 

Spínola perde 3 dos seus melhores oficiais superiores (referência aos "três majores" do CAOP1, com sede em Teixeira Pinto) que estavam a negociar a rendição de forças do PAIGC na região, diretamente com o cmdt do PAIGC, André Gomes... Dizem que Spínola chorou, pela segunda vez, no CTIG: a primeira terá sido em 6/2/1969, em Cheche, na tragédia do Corubal.

Desarmada, toda a delegação portuguesa foi chacinada sem dó nem piedade, quando a direção do PAIGC em Conacri tomou conhecimento das negociações interpretadas como tentativa de deserção ou rendição... Um crime, de resto,  inqualificável, cobarde. vil, gratuito, cuja autoria moral continua a manchar a memória de Amílcar Cabral, passado mais de meio século.

"Amílcar Cbaral: (...) Este acto foi um acto de grande consciência política e um acto de independência. Foi um acto de grande acção e de capacidade dos nossos camaradas do Norte. É a primeira vez que numa luta de libertação 
nacional se mata assim três majores, três oficiais 
superiores que, nas condições da nossa luta, 
equivale à morte de generais. (...).

Citação: (1970-1970), "Acta informal das reuniões do Conselho de Guerra em Conakry", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_34125 (2026-5-14)

Spínola, cuja presença chegou a estar prevista (a par do 'cmdt' da guerrilha na região de Canchungo, o André Pedro Gomes), foi, à última hora, desaconselhado a comparecer, pelo ten-cor CEM Pedro Alexandre Gomes Cardoso, Secretário-Geral da Província, diz o seu biógrafo.

O que teria acontecido se ele fosse preso ou pura e simplesmente chacinado, como aconteceu a toda a delegação do CAOP1 (os 3 majores, Passos Ramos, Magalhães Osório e Pereira da Silva
 ,  o alferes Joaquim João Mosca,  e mais  2 (pou 3) guineenses, Mamadu Lamine Djuaré,  Aliu Sissé e Patrão da Costa).

É uma trágica efeméride: já lá vão 56 anos...



Cristina Allen ( 
2. Escreveu Cristina Allen:


(...) Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...)


3. Recorde-se o que disse Luís Cabral, no seu triste exílio de Lisboa, a José Manuel Barroso (em entrevista publicada no "Diário de Notícias" de 11 de setembro de 2000), sobre a leitura política destes trágicos acontecimentos feita pela cúpula do PAIGC:

"[ ... ] Essa ação dos majores visava a rendição das nossas tropas ... Nós controlámo-la desde o princípio, desde os primeiros contactos. O objetivo era prender Spínola. Se o prendermos, a guerra acaba na Guiné, dizíamos. Mas ele não apareceu no dia em que devia assistir à rendição das nossas tropas. Foi uma operação montada com o conhecimento da direção máxima do partido e com o controlo dos responsáveis da área.

[... ] O problema era prender os majores naquela área de movimentação extremamente difícil e retirá-los de uma zona minada [... ]. Uma decisão política [... ] Eu lamentei-o sempre, porque no quadro da nossa conceção das coisas, e particularmente da do Amílcar, se tivessemos tido meios para prender os homens, tinha tido um efeito muito grande. Mas o sucesso seria de facto ter o General. Sem ele o risco era muito grande." (...)



4.  A pergunta "O que teria acontecido se..." entra no domínio da história contrafactual,  interessante, mas sempre especulativa. Ainda assim, dá para explorar cenários plausíveis com base no contexto de 1970.

Primeiro, o contexto: em abril de 1970, António de Spínola era simultaneamente governador e comandante-chefe na Guiné, uma figura central na tentativa de combinar ação militar com abertura política. que abrisse o caminho para o fim da guetrra. 

O episódio de Jolmete, Pelundo (o chamado “massacre dos três majores"), teve um impacto forte porque atingiu precisamente essa estratégia de contactos e negociações locais para aliciar combatentes do PAIGC a "desertar" e a  integrar-se nas Forças Armadas Portuguesas.

Se o gen Spínola tivesse ido a esse encontro fatídico e sido morto ou capturado pelo PAIGC, há cinco  níveis de consequências a considerar:

(i) No plano imediato (Guiné, 1970)

A perda de Spínola teria sido um choque enorme para o dispositivo português, tanto entre as tropas metropolitanas como entre as do recrutamento local. Haveria uma tremenda perda de liderança militar. O moral das tropas, já de si fragilizado, seria ainda mais enfraquecido.

Spínola era o "homem forte" e carismático da Guiné, o rosto de uma linha de ação que tentava sair do impasse militar clássico, uma figura central na estratégia portuguesa. Era o "homem grande de Bissau". A sua morte ou captura teria sido um golpe moral e estratégico devastador para as forças portuguesas, precipitando outros acontecimentos,  tão ou mais dramáticos, e de consequências imprevisíveis.  como um possível golpe de Estado, da extrema direita do regime, derrubando o Marcelo Caetano. 
 
(ii) Reação do regime

O Estado Novo, já sob pressão interna e sobretudo internacional,  teria de lidar com a perda do seu general mais mediático. A prisão ou a morte de Spínola poderia ter levado a uma escalada de violência ou, pelo contrário, a uma revisão mais rápida  (e talvez atabalhoada e precipitada) da política colonial.

A guerra não iria acabar, contrariamente ao desejo da cúpula política do PAIGC. O mais provável seria um endurecimento rápido do conflito: menos abertura a contactos, mais operações de retaliação, e um regresso a uma lógica puramente militar, o que  agravaria o ainda mais a violência no terreno. 

Mas seria pouco provável que tivesse sido planeada e executada a Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembro de 1970). E o Amílcar Cabral não teria sido assassinado...

(iii) No plano político em Portugal

Aqui é que o efeito poderia ter sido decisivo. Spínola viria a ganhar projeção nacional sobretudo após publicar o livro "Portugal e o Futuro" (em fevereiro de 1974), onde questiona a viabilidade da guerra. Mas ele já tinha visibilidade internacional (podendo até dizer-se que tinha alguma "boa imprensa").

Sem ele, esse “choque intelectual” dentro do regime teria sido mais fraco ou mais tardio. Outros militares pensavam de forma semelhante, mas poucos tinham o mesmo peso simbólico e  político-militar, com exceção talvez de Kaulza de Arriaga.

Spínola estava a implementar, com sucesso (e com apreensão de Amílcar Cabral), a política de "Por uma Guiné melhor", focada em operações especiais e na conquista de "corações e mentes". Um em cada três combatentes já era guineense, havendo três vezes mais combatentes do recerutamento local a lutar, dentro das fronteiras, sob a bandeira portuguesa do que guerrilheiros do PAIGC.

A sua morte teria provavelmente levado a um comando mais ortodoxo e ineficaz, facilitando o avanço do PAIGC, como aconteceu com Bettencourt Rodrigues (set 1973/ abr 1974),  que veio para a Guiné apenas com a missão de "aguentar a situação", coincidindo com a proclamação unilateral da indepência em 24 de setembro de 1973, a maior cartada de génio diplomático arquitetada ainda  em vida pelo Amílcar Cabral.

Com o desaparecimento de Spínola, o PAIGC (leia-se: Amílcar Cabaral) deixaria de ter um um rival à altura, acelerando o reconhecimento internacional da independência da Guiné-Bissau, que poderia vir a acontecer talvez um ano ou uns meses mais cedo. E Amílcar Cabral teria assistido pessoalmente a esse momento histórico que o consagria como o "pai-fundador" da Pátria, e um dos grandes líderes africanos. 

 Quanto ao futuro da unidade Guiné e Cabo Verde, seria difícil avançar com cenários. O "ajuste de contas" far-se-ia mais tarde...

(iv) No caminho para o 25 de Abril

Spínola era uma figura controversa, mas também um símbolo de resistência e um actor-chave de uma possível (e desejável) mudança dentro do regime. A sua morte poderia ter radicalizado posições, tanto entre os militares como na sociedade civil.

 Se Spínola tivesse morrido em 1970, o Movimento das Forças Armadas (MFA) teria que saber procurar e encontrar outro general com o oseu estatuto, tarefa que não era fácil dadpo seu protagionismo na Guiné, e o seu  prestígio, essencial para aceitar a rendição (incondicional) do regime de Marcello Caetano.

Com o Spínola preso ou morto, o próprio desfecho do Revolução dos Cravos poderia ter sido diferente: não necessariamente inexistente, mas com outra configuração. Ele acabou por ser uma figura de compromisso no momento inicial (rosto da Junta de Salvação Nacional, Presidente da República após o golpe).

 Não sendo sequer do MFA (Movimento das Forças Armadas),  tendo apenas emprestado ao movimento dos capitães o seu pretsígio, o seu rosto, a sua voz, os seus galões, ninguém pode negar que Spínola teve um papel importante no próprio dia 25 de Abril de 1974.

Sem ele, o processo de descolonização e a própria revolução poderiam ter tomado rumos muito diferentes, possivelmente mais violentos, mais moderados ou mais lentos. Sem essa figura, o processo poderia ter sido mais fechado e exclusivamente conduzido por jovens capitães, comandantes operacionais, ou, pelo contrário, mais turbulento, por falta de uma “ponte” com outros setores político-militares do regime.

Este é o ponto mais crítico. Spínola não era apenas um general com prestígio ganho no campo de batalha; tornou-se ele próprio um intérpretes  de uma das  "soluções políticas" para a guerra.

(v) Impacto na descolonização e efeito dominó

A presença ou ausência de Spínola poderia ter alterado o curso das negociações com o PAIGC. Se tivesse sido preso ou morto, o PAIGC poderia ter ganho mais força, sobretudo moral e até militar, acelerando a independência (unilateral) do território  e o seu reconhecimento nas instâncias internacionais (ONU, OUA, países não-alinhados, países comunistas e até nalguns países ocidentais, com os Norte da Europa).

Se Spínola tivesse morrido ou sido preso em 20 abril de 1970, a descolonização de Angola e Moçambique poderia ter sido ainda mais caótica e sangrenta. 

Spínola defendia uma transição lenta e faseada para a independência, o que o colocou em conflito com o MFA após o 25 de Abril. Sem ele, é possível que a descolonização tivesse sido entregue a forças políticas mais radicais ainda mais cedo, possivelmente resultando num processo diferente. 

De qualquer modo, a recusa em prosseguir a guerra estava cada vez arreigada entre os jovens.  A "guerra do ultramar" era impopular. O slogan "Nem mais um soldado para as colónias" teve um efeito preverso do próprio processo de descolonização e de transição pacífica dos vários territórios ultramarios para a independência.

Conclusão: a ironia da História (o "Efeito Borboleta")

De qualquer modo, não podemos empolar o papel do indivíduo na História: a guerra colonial (nomeadamente na Guiné) estava num impasse estrutural, com grande desgaste militar, económico, humano e moral. Mesmo sem Spínola, dificilmente o regime escaparia a uma crise profunda. A História não dependia só dele.

Se tivesse sido morto no Pelundo em 20/4/1970, provavelmente teríamos:
  • um PAIGC  ainda mais duro, triunfalista, arrogante, mais intransigente e menos permeável a negociações;
  • um regime em Lisboa sem uma voz interna, heterodoxa, tão visível a defender a necessidade de mudança; 
  • um 25 de Abril possivelmente diferente noo conteúdo e na forma, mas inevitável em qualquer dos casos.

O facto de Spínola não ter estado presente no Pelundo na sangrenta segunda feira,  é um daqueles "acidentes" históricos que mudam tudo. É a chamada "ironia da História". 

A sua sobrevivência permitiu que, anos mais tarde, tivesse um papel também de relevo (mesmo que controverso) na transição democrática portuguesa e na descolonização. Se tivesse morrido, a história de Portugal, da Guiné-Bissau e de toda a África lusófona poderia ter sido radicalmente diferente.

A História é feita de pequenos momentos e decisões que, em retrospectiva, parecem quase inevitáveis. Mas, na altura, são apenas escolhas, acasos, encontros e desencontros. Impossível saber se a história teria encontrado outro caminho. O "não ir" ao Pelundo, à última da hora (por pressão do secretário geral da Porvíncia)  foi, sem dúvida, um dos acasos mais decisivos do século XX português.

Sem ele, o 25 de abril de 1974 poderia ter ocorrido na mesma, nessa data ou noutra, mas a Junta de Salvação Nacional (ou o seu equivalente) teria tido um rosto e uma orientação político-ideológica possivelmente  diferentes.

A sobrevivência de Spínola permitiu que ele se tornasse o general (e chegasse depois a marechal), juntamente  com Costa Gomes, que esteve no 25 de Abril, mesmo discordando de partes do Programa do MFA.

Ironicamente, o massacre de Jolmete, Pelundo, ao matar outros oficiais intelectualmente brilhantes, e poupá-lo, a ele, reforçou a sua convicçáo de que a guerra era inviável, e isso deve tê-lo levado (a ele e aos seus "indefectíveis") a aprofundar a procura  de uma solução política que acabaria por culminar no 16 de março e depois no 25 de abril de 1974, ou seja,  no derrube do regime que ele servia.

E há um último ponto, mais próximo do texto da Cristina Allen: a dimensão trágica que ela lhe atribui talvez ficasse ainda mais “fechada”. Spínola morreria como "mártir da Pátria", quiçá como "herói",  impoluto,  nunca como "vilão", enfim, nunca como figura contraditória entre a guerra e a tentativa de saída política. 

Foi essa ambiguidade que o tornou tão  “inquietante” (quanto "fascinante") na memória de quem o observou de perto, como a Cristina e aqueles de nós que serviram sob o seu comando.

(Continua)

(Pesquisa: LG + CECA + Bibliografia + IA (ChatGPT / OPenAI | Le Chat Mistral AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, título: LG)
______________

Nota do editor LG:

(*) Vd. poste de 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)

domingo, 8 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27805: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (3): O beijo, tardio, da Pátria: para o António Lobo Antunes que ontem se despediu da Terra da Alegria...

Capa, à direita da edição do semanário Visão, de 27 de setembro de 2007, em que o escritor António Lobo Antunes (1942-2026) deu uma notável entrevista a Sara Bela Luís sobre "A Vida Depois do Cancro" (Vd. a antiga página, não oficial, do escritor, recuperada pelo Arquivo.pt: https://arquivo.pt/wayback/20081023014032/http://ala.nletras.com/)


1. Comentários dos nossos leitores aos postes P27802 e P3003 (*):

(i) Joaquim Costa

Subscrevo. Esta geração vai a chegar ao fim sem o tal beijo!
sábado, 7 de março de 2026 às 16:05:39 WET

(ii) Hélder Sousa


Muito oportuna esta repescagem. E que bem escrito! E que comovente! Só não se comoverá quem não conseguir "sentir" os ambientes. E, sim, a geração vai seguir o seu destino sem "beijos de despedida" pelo Poder. Mas talvez até seja bem melhor assim, sem falsidades, sem hipocrisia.
saábado, 7 de março de 2026 às 16:38:55 WET

(iii) Alberto Branquinho

(...) Vamos ver se conseguimos saber o número do micro-ondas para verificar se ainda mora lá alguém? (...)
sábado, 7 de março de 2026 às 17:37:37 WET

(iv) Abilio Duarte

Simplesmente bonito...que este camarada Lobo Antunes, descanse em paz.
sábado, 7 de março de 2026 às 18:15:38 WET

(v) Santos Oliveira

Também me correm algumas lágrimas, Graça Abreu, de alguma raiva e muita desilusão, pela minha impotência de não ver a minha Pátria, em nome de quem lutámos e morremos, ter dignidade para reconhecer, sem panaceias, o que é de plena justiça. Grato, Graça Abreu, por nos trazeres ao de cima as palavras do A.Lobo Antunes. No fundo, são uma âncora que nos amarra a uma esperança, e que, para nós, será a última a morrer.
segunda-feira, 30 de junho de 2008 às 18:49:00 WEST 

(vi) Hélder Sousa

Muito obrigado amigo A. Graça Abreu por teres tido a lembrança de colocares à disposição de todos (assim o entenderam, e bem, os nossos editores) este belo, duro e comovente artigo do Lobo Antunes. O raio do homem escreve mesmo bem e, quanto a entender estes sentimentos de quem andou "a batê-las lá longe", no mato, "onde o sol castiga mais",  é duma sensibilidade e acutilância, envolvida na crueza das situações, que é mesmo como se ainda estivesse tudo fresco.
terça-feira, 1 de julho de 2008 às 00:11:00 WEST 



2. Nenhum de nós, aqui, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, seria levado a sério se escrevesse o que António Lobo Antunes escreveu, na sua crónica habitual na revista 
Visão, edição de 19 de Junho de 2008, a propósito dos antigos combatentes,  e que o nosso António Graça de Abreu em boa hora repescou, replicou e nos pediu para publicar (*):

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa!"...

O antigo alferes miliciano médico do BART 3835 (Angola, 1971/73) e em 2008 já famoso, aquém e além fronteiras, como escritor, põe o dedo na ferida da guerra colonial, ainda longe de ter sarado. 

Aliás, mesmo mais de meio século depois, é uma ferida que custa a sarar. O país espera que morramos todos, uns atrás dos outros ou então em massa, na próxima pandemia que há de vir: quando morre o bicho, morre a peçonha. 

Mas é aqui que o António Lobo Antunes, que também andou pelo "cu de Judas", volta bater na tecla do abandono e da ingratidão da Pátria em relação aos seus antigos combatentes. 

Para além do que o António Graça de Abreu, oportunamente acrescentou (*), apraz-nos registar mais o seguinte, podendo todavia esse mais parecer se redundante e até irritante (**).

2. Esta crónica do Lobo Antunes, já com 18 anos, não perdeu atualidade e também não passou despercebida a alguns de nós. 

Para além da sua beleza literária,  há aqui mágoa e dor que só quem viveu a guerra colonial pode compreender na sua plenitude. Não importa por onde passou (Angola, Guiné, Moçambique, Índia Portuguesa, Timor...). (Dor e mágoa que outros portugueses de antanho também sentiram e expressaram, com ironia ou sarcasmo,  de Camões ao padre António Vieira.)

Em homenagem ao camarada e ao escritor que ontem se despediu da Terra da Alegria (e que em vida sobreviveu a 3 cancros), permitam-me,  os nossos caros  leitores,  que destaque alguns pontos-fortes do texto (ou dos excertos que foram republicados) (*):

(i) A fraternidade dos "irmãos de armas"

Lobo Antunes não idealiza a guerra, mas também não nega a fraternidade que ela cria (ou criou, no seu/nosso caso) entre homens que, de outra forma, nunca se teriam cruzado em África 

A expressão "irmãos de armas" não é uma figura de retórica: é literal. E é talvez até vez mais do que irmãos de sangue, diz ele. 

O texto aca por ser um hino a esses laços de camaradagem que sobrevivem ao regresso a casa, à "peluda", à solidão, e até à miséria, à doença, ao esquecimento.

 O Cabo Sota, o "Pontinha", o Zé Jorge... são todos heróis anónimos, cujas vidas o país esqueceu, mas cujas histórias o Lobo Antunes (e nós, aqui, no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné) nos recusamos a deixar apagar.

Quem passou pelos vários teatros de operações (Angola, Guiné, Moçambique, mas também Índia Portugues, Timor-Leste...) sabe bem o que é essa fraternidade forjada no fogo e, em muitos casos, no abandono. 

A guerra não escolheu lados, escolheu vítimas, e os que sobreviveram, carregam, de algum modo, a marca dessa irmandade até hoje.

(ii) O humor não como arma de arremesso como escudo protetor:

A cena do "Pontinha" e do microondas é de uma comicidade trágica. O "Pontinha" não tem telemóvel... "Não meu furriel, mas a minha mulher tem um microondas."

É o humor (desconcertante) dos que não têm nada, dos que sobrevivem à custa de muito pouco, incluindo os que entretanto morreram precocemente, sem abrigo, sem saúde, e que mesmo assim encontra(ra)m forma de rir. 

 Os antigos combatentes dão provas, nos seus convívios, nos seus testemunhos (orais e escritos) da notável capacidade, própria do ser humano, que é de rir do absurdo, muitas vezes para não chorar.

Lobo Antunes usa o humor, a ironia, o sarcasmo para "desarmar a dorm", para exorcizar os pesadelos... Não é por acaso que o texto termina com a piada do microondas: é uma forma de dizer que, apesar de tudo, a vida continua, mesmo que seja à custa de um electrodoméstico (empresta)dado. Afinal, hoje quem não é o pobre diabo que não tenha um telemóvel?!


(iii) A crítica ao abandono

"Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa."

Esta frase é um murro no estômago. É a denúncia de um país que usou os seus filhos como moeda de troca numa guerra sem sentido, que as elites, o poder político (e militar), sabiam (ou tinham a obrigação de saber) que estava a ser feita no "beco sem saída da História" ) e depois os atirou para o caixote do lixo quando já não serviam ou chegavam ao fim do prazo de validade.

Sabemos do que fala Lobo Antunes, explícita ou implicitamente: a falta de liderança política, de lucidez histórica, de visão estratégica da guerra., mas também de "genuino amor" pelos seus soldados portugueses, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, etc., que, na guerra, deram o seu melhor (e,  mais de 10 mil, a vida). 

 Quem lá esteve, sabia, de maneira mais lúcida ou mais confusa, o que era esse beco sem saída em que nos atolámos.

Mas não posso deixar de destacar o comentário final do nosso António Graça de Abreu, quando também evoca (e exorta) os combatentes da Guiné-Bissau que estiveram nos dois lados da barricada:

(...) "Camaradas de Portugal e da Guiné, depois de ler este texto, duas grossas lágrimas correram-me pelo rosto. Que o nosso País nos 'beije antes de nos deitar fora e nos peça desculpa'. Que a vossa Guiné-Bissau vos beije também, 'antes de vos deitar fora e vos peça desculpa.'

Sem complexos nem traumas de colonialista, sem complexos, sem traumas de colonizado, vamos ler outra vez o texto do António Lobo Antunes". (...)


E conclui: "Depois, vamos adormecer em paz."

Obrigado, Lobo Antunes, obrigado, Graça de Abreu. É uma frase que reconhece que a dor não foi só de um lado.  Quantos guineenses, fulas, balantas, mandingas, biafadas, papéis, manjacos, etc., de um lado e do outro, não foram usados e deitados fora!

Em muitos casos, o "beijo da Pátria" já virá tarde, se algum dia chegar a vir...

(iv) Nem santos nem heróis

Lobo Antunes recusa a glorificação da guerra. Aqui não há heróis aqui. Há apenas homens. "Eram duros"; eis o maior elogio que se pode fazer.  Não há medalhas, não há discursos pomposos, não há paradas do 10 de junho. Há apenas a resistência silenciosa de quem aguentou o que ninguém deveria ter aguentado, ao longo de tanto tempo...

Para ele, que era médico e, de algum modo, um marginal-secante, a guerra é um absurdo, e aquela guerra um absurdo prolongado. A verdadeira coragem não estava, por isso, nos feitos de guerra, mas na capacidade de sobreviver a ela sem perder o rosto humano, a  humanidade. Lobo Antunes sabia que a guerra não cria santos,  cria homens quebrados, mas também homens que, apesar de tudo, se recusam a deixar de ser humanos.
 
(v) O legado de Lobo Antunes 

Lobo Antunes, nesta crónica (e noutras ocasiões) (***),  deu voz aos que a não tinham. Lobo Antunes, com a sua prosa poética, polifónica, cortante e genial,  faz o que nós aqui fazemos (ou procuramos fazer), discretamente, sem o talento dele.  que é impedir que o esquecimento apague o que não pode ser apagado, é recusar a "vala comum do esquecimento", é reivindicar o direito à memória, é exercer o direito de memória.

No final, apetece-me, sem imodéstia, repescar e refrescar o meu velho poema "Quando o Niassa apitou três vezes" (que remonta a 24-29 de maio de 1969)...Tanto este poema como a crónica do Lobo Antunes aqui citada falam da mesma coisa: da partida, do regresso, e dos que ficaram pelo caminho, mas também dos que voltaram, sem nunca terem realmente regressado (nesta, como de resto em todas as guerras, é bom que se diga!).
 _______________


Vd. também poste de 30 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P3003: Blogoterapia (58): Que o País os beije antes de os deitar fora, e lhes peça desculpa (António Lobo Antunes / A. Graça de Abreu)

(***) Vd. por exemplo poste de 9 de outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27790: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (2): Safety first? O "desastre" do Cheche na abordagem sociotécnica


Ilustração: Entropia.  Luís Graça (1999)

 

Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > Rio Corunal > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada da tragédia na retirada de Madina do Boé. Foto de Paulo Raposo 

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. No nosso tempo de tropa, ensinaram-nos que "mais valia perder um minuto na vida do que a vida num minuto"...  Ensinaram-nos ? Bom, o termo é lisonjeiro para a generalidade dos instrutores... O exército, nesse tempo, não se preocupava muito com a pedagogia. (Que era, por defeito, aquela que já conhecíamos, de casa e da escola, a do pau e da cenoura.)

A expressão Safety First (a segurança em primeiro lugar) é uma variante deste slogan. Em muitos casos, não passa(va) de um chavão. Num país como o nosso que, na época, ficava mal na fotografia europeia da sinistralidade por todas as causas (e nomeadamente, acidentes de trabalho, de lazer e de viação).

Todavia, numa abordagem sociotécnica, deixa de ser apenas um mero slogan de cartaz, "securitário", obrigatório por lei, e que a gente pode ler nos taipais de um estaleiro da construção civil, quando passamos na rua, para se tornar um princípio estruturante da relação entre homens, tecnologia e organizações.

Em "sistemas sociotécnicos", complexos e abertos, entende-se que o desempenho organizacional (numa empresa, numa hospital, numa escola, num quartel...) depende da interdependência entre o sistema social (pessoas, formação, cultura, comunicação, relações de poder) e o sistema técnico (ferramentas, processos, máquinas).

O que é isso significa na prática ? Eis aqui os alguns dos seus  princípios:

(i) A segurança como propriedade emergente

Na abordagem sociotécnica, a segurança não é um kit, algo que se "instala" numa máquina; é uma propriedade emergente.

Não basta ter o software mais seguro ou o melhor hardware (equipamento técnico) nem mesmo o mais competente e dedicado humanware  (as pessoas, os operadores, os recursos humanos)... É preciso verificar se a cultura organizacional  não é accident-prone,  propensa ao acidente: por exemplo, se pressiona no sentido do one best way, de metas inatingíveis, de prazos impossíveis, da lógicas de custo-benefício.

O Safety First implica que a segurança surge do ajuste harmonioso entre as capacidades humanas e e as limitações técnicas, e vice-versa,  as limitações humanas e as capacidades técnicas.

(ii) O erro humano como sintoma, não como causa

A abordagem sociotécnica inverte a lógica tradicional de culpa e da dicotomia simplista erro humano / falha técnica:

  • o operador errou porque foi negligente (explicação tradicional ou de senso comum) e, portanto, deve ser admoestado ou punido;
  • o "erro" é um sintoma de um deficiente  design técnico (concepção e planeamento),  ou de uma organização do trabalho disfuncional (visão sociotécnica).
Colocar a segurança em primeiro lugar significa então "desenhar" (conceber e planear) sistemas que sejam tolerantes ao erro, onde o sistema técnico protege o humano e o humano tem autonomia para intervir no sistema técnico. Ou seja, não há determinismo tecnológico.


(iii) O equilíbrio entre eficiência e segurança (ETTO)

Existe um conceito central chamado Efficiency-Thoroughness Trade-Off (Compromisso entre Eficiência e Rigor).
  • no dia a dia das organizações, há uma tensão constante: ser rápido (eficiente, fazer depressa, com redução de custos) vs. ser cuidadoso (fazer bem, com segurança, com rigor, com qualidade);
  • Safety First em termos sociotécnicos significa que a organização valida e apoia o trabalhador quando este escolhe o rigor em detrimento da velocidade, garantindo que os incentivos financeiros ou imperativos produtivos não atropelam os protocolos de segurança.

(iv) Duas lógicas de gestão opostas:

  • Prevenção de "custos de acidentes" (diretos, indiretos e ocultos)

Na lógica sociotécnica, o custo de implementar medidas de segurança (formação, treino, redundâncias, ergonomia) é quase sempre inferior ao custo do desastre, do acidente (acarretando danos materiais e pessoais). A efetividade é medida pela continuidade operacional e a integridade da vida humana. 

 Custo: implementação de protocolos, programas de saúde, segurança  e bem-estar   

Efeito: zero acidentes, interrupções, erros,  danos (pessoais e patrimoniais).


  • Fator humano como investimento


Diferente da visão tradicional, puramente mecanicista, a análise sociotécnica entende que trabalhadores / operadores seguros e bem integrados no sistema tecnológico produzem mais e 
melhor.

Segurança psicológica: aumenta a proatividade e a detecção precoce de erros.


Ergonomia: reduz o absentismo, melhora a qualidade de trabalho, aumenta a longevidade da força de trabalho.

  • Sustentabilidade do sistema

Uma organização que negligencia a saúde e a segurança no trabalho pode ter um bom "custo-benefício" a curto prazo (economiza em equipamentos, software, pessoal de saúde e segurança no trabalho), mas não é custo-efetiva a longo prazo, pois o sistema torna-se frágil e propenso a acidentes, falhas, erros, colapsos, que podem destruir a imagem, a cultura, o clima, o moral, a reputação ou a viabilidade da empresa.

Em resumo:

Visão tradicional (Custo-Benefício):
  • segurança é um custo que reduz a margem de lucro;
  • foco no retorno financeiro imediato das medidas;
  • o erro humano é uma falha a ser punida.

Visão sociotécnica (Custo-Efetividade)
  • segurança é a base que permite ao sistema funcionar sem falhas;
  • foco na resiliência e na otimização da relação homem-máquina;
  • o erro humano é um sintoma de um sistema mal desenhado.

Resumo das Dimensões

Dimensão | O que Safety First exige
  • Técnica | Interfaces intuitivas, mecanismos de paragem de emergência, redundâncias
  • Social | Cultura de confiança e de participação onde se pode reportar falhas sem medo de ser punido 
  • Organizacional | Priorização da  segurança nas decisões de topo, não apenas ao nível operacional.

II. O "desastre" (sic)  do Cheche (6 de fevereiro de 1969) devia, nas nossas "escolas de guerra",  ser um caso de estudo,  trágico e paradigmático,  de como a falha num sistema sociotécnico sob pressão extrema conduz entropoia, à catástrofe, in limine,  à morte. 

No contexto da retirada de Madina do Boé, a segurança foi sacrificada por imperativos operacionais (e quiçá políticos), resultando na morte de 47 homens (46 militares e 1 civil) no Rio Corubal. Tudo parecia correr bem, quando se respeityaram as normas de segurança.

Analisando o evento pelo prisma sociotécnico:

(i) Sistema técnico: a jangada e o rio

O "sistema técnico" aqui era composto por um jangada improvisada, um "sintex" com motor fora de bordo e a própria geografia do Rio Corubal.

Falha de "design" (incluindo a conceção e o planeamento da operação): 

  • a jangada não foi projetada para o peso excessivo de dezenas de homens com equipamento completo, nem para a instabilidade de um rio, relativamente largo e com corrente;
  • foi feita a "olhómetro", com materiais locais (canoas...)  e aparentemente não foi testada;
  • confoiu-se na experiência dos operadores;
  • degradação técnica: a travessia do rio em Cheche ocorreu, na sequência de uma operação (Mabecos Bravios) após a retirada do quartel de Madina do Boé, em contexto e em clima de  guerra;
  • a compamhia de Madina (CCAÇ 1790) estava isolada há mais de um ano e sujeita a frequentes ataques e flagelaçóes (c. duas centenas e meia);
  • a distância  de 40 km entre Madina do Boé e Cheche foi feita sob grande stress físico e piscológico:
  • o equipamento (jangada, sintex...) estava sob esforço máximo.
O "gatilho": a inclinação da jangada fez com que a água entrasse nas canoas, eliminando a flutuabilidade e provocando o pânico (independentemente de ter havido ou não uma detonação numa das margens do rio).

(ii) Sistema social: exaustão e hierarquia

  • o fator humano estava no limite da resistência física e psicológica;
  • pressão temporal: havia uma pressa crítica para retirar a tropa da zona, eventualmente com  o receio de um ataque ou flagelação do PAIGC que, à distância, acompanharia a operação;
  • a pressa é a inimiga clássica da segurança sociotécnica (Efficiency-Thoroughness Trade-Off);
  • cadeia de comando: em sistemas de alta fiabilidade, a segurança exige que qualquer elemento possa interromper a operação se detetar perigo ou risco; este princípio é, de algum modo, incompatível com o princípio da unidade comando-controlo em vigor num exército clássico.
No Cheche, a estrutura militar rígida e a urgência da retirada impediram que o bom senso (não sobrecarregar a jangada) se sobrepusesse à ordem de ganhar tempo e de avançar.

  • pânico: sociotecnicamente, o pânico é uma resposta à quebra de confiança no sistema técnico;
  • quando a jangada adornou, o sistema social colapsou.

(iii) A falha organizacional: o Safety First inexistente

A nível macro, a decisão de abandonar Madina do Boé foi uma decisão política e estratégica de alto risco. Terão sido ponderados todos os prós e contras ?

Falta de redundância: um princípio sociotécnico essencial é a redundância (ter um plano B).

No Corubal, não havia meios de salvamento, botes pneumáticos, fuzileiros, mergulhadores, e outro pessoal da marinha (exceto o condutor do sintex),   boias, coletes salva-vidas..., coisas que hoje são elementares numa simples passeio de barco no estuário do rio Tejo,

Havia apoio aéreo, mas terá faltado um grupo de combate de paraquedistas, fuzileiros ou comandos, helitransportado,  que fizesse a cobertura e a segurança próxima dos últimos homens de infantaria  (mais de 100) a retirar.

A operação parece ter sido  do tipo "tudo ou nada"...

Invisibilidade do risco: o comando da operação, focado na logística da retirada, subestimou o perigo da travessia física (a "cambança"), tratando-a como um detalhe tático ou operacional e não como o ponto crítico (ou até o mais crítico) da missão.

Comparação sociotécnica:


Madina do Boé vs. Segurança integrada (ou vista hoje)

Elemento  | No Desastre do Cheche (1969) | Numa Operação Safety First |

  • Carga |  Excesso de peso para cumprir horário | Limites técnicos respeitados rigorosamente
  • Comunicação | Silêncio rádio e pressão de comando | "Cultura justa e responsável" (capacidade de dizer "não")
  • Equipamento | Improvisação sob stress | Certificação e redundância de meios.
  • Ambiente |  Hostil e imprevisível | Monitorização e mitigação de riscos ambientais.

O "desastre" do Cheche demonstra que, quando o sistema técnico (a jangada rebocada por sintex) é precário e o sistema social (os soldados) está exausto e sob pressão externa, qualquer pequena variação pode levar ao colapso total. 

É a negação absoluta do Safety First em prol da sobrevivência operacional, que acabou por ditar a maior tragédia da guerra colonial na Guiné. Não, não foi um acidente, "como tantos outros".  Foi um risco estatisticamente previsível, resultante de uma falha do sistema sociotécnico. Tal como o acidente de trabalho ou um "desastre" ferroviário. 
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27722: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (1): Os desastres (do Cheche a Alcácer Quibir das Cheias de 1967 à tempestade Kristin) e a teoria do bode expiatório