Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta marginal-secante. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta marginal-secante. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28166 Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (10): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte I: Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte







"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"




1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...

Interpelo o Rui Chamusco, mas também podia evocar os nomes do João Crisóstomo, do Gaspar Sobral, da Glória Sobral,  do Eustáquio, e tantos outros, homens e mulheres da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste. Por certo, que nenhum deles se revê neste provérbio dito popular português.

Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, misóginos, racistas, e portanto anticristãos... 

E, pelo que nos contas, Rui, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas & baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos).

Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. 

O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote" como no Portugal de antigamente ( e ainda hoje, em certos grupos sociais); é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).

Estas duas palavras em tétum, fetosan e umane designam categorias de parentesco essenciais na estrutura social tradicional timorense. Elas definem a relação de aliança entre duas famílias unidas pelo casamento.
  • Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (a família do noivo).
  • Umane: significa a família que "doa" a esposa (a família da noiva).
Estas duas famílias estabelecem um vínculo de respeito e obrigações mútuas que se mantém ao longo de gerações. Quando há eventos importantes, como casamentos ou funerais, estas duas partes têm papéis rituais próprios, como a troca de gado, tecidos (tais),  arroz e dinheiro (prática conhecida como barlaque).
Não se trata, pois, de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. 

Parece haver e prevalecer uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geração mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é largamente "patriarcal e falocrática".

2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece querer dar-nos um bom conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... 

Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).

Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!

(i) Vejamos um primeiro nível, mais superficial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):

O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...

Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, tão universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"),  num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).

Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...

É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".


São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...

Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que pões à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e de outros organizações.


(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval

Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação). 

 Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.

"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).

"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espírito" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.

É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...

(iii) O machismo e a misoginia implícitos

Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (do inglês "gender", género).

Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resignando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...

Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". 

Em contrapartida, uma mulher que tentasse sê-lo,  era logo apodada de feiticeira, bruxa, adúltera, prostituta,   "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).

Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" ( ou dessocializa)  a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).

(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)

Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun",
francês) se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!")...

É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: 

  • a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); 
  • a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); 
  • a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); 
  • o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo");
  • a inveja social, a arrogância, a estupidez, a diabolização da ciência ( e nomeadamente das ciências sociais e humanas), etc.

É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.

(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)

Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto. 

O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...

Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...

Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.

(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)

Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:

"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);

"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);

"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)

(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...

Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: 

  • fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; 
  • fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça,  quem está sob as luzes da ribalta;
  • fingimos ser racionais, mentalmente sãos, mas somos  bipolares, subindo aos céus em delírio com as vitórias dos nossos heróis, para logo cair nas labaredas do inferno do ressentimento, da imprecação, da demonização, quando eles falham;
  • fingimos ser solidários, mas desconfiamos, com inveja,  de quem partilha com generosidade.

É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)

 _______________


(**) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

Guiné > Região de Bafatá  > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > c. novembro/dezembro de 1971 >O ten cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917, já falecido; o alf mil médico António Rodrigues Marques Vilar  (hoje psiquiatra, com consultório em Aveiro); e o alf mil Paulo Santiago, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho) e depois instrutor de milícias (no CIM de Bambadinca), hoje engenheiro técnico agrícola reformado (Águeda). O grupo posa para a fotografia com um crocodilo juvenil  do rio Geba, abatido pelo alf mil Vilar... 

Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Mato Cão >  c. 1973/74 > Pel Caç Nat 52 (1973 /74) >   Vista do Rio Geba e bolanha de Nhabijões, a partir do "planalto" do Mato Cão.  Foto do álbum do último cmdt do Pelotão, alf mil  Luís Mourato Oliveira.

Foto (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




1. A mítica LDM 302 tem pelo menos 16 referências do nosso blogue... A sua "vida e morte" davam um filme...Mas neste país a guerra nunca foi "cinéfila" ou melhor o cinema é que não gosta de guerra. Muito menos da guerra da Guiné que nos coube na rifa.  



Ludgero Henriques 
de Oliveira
(1947-2012),


A referência à LDM 302, afundada duas vezes no Cacheu (*), trouxe-me de imediato, à lembrança, um dos seus tripulantes,  maquinista fogueiro que foi meu conterrâneo, vizinho, colega de escola e amigo, Ludgero Henriques de Oliveira, natural da Lourinhã, e que a morte levou, precoce e injustamente, aos 64 anos, em 2012 (era então sargento-chefe na situação de reforma).

Já aqui, no nosso blogue, foi homenageado, mais de uma vez;  foi agora também lembrado pelos nossos camaradas do portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, um sítio igualmente incontornável do nosso repositório de memórias: faz este ano 20 anos de existência na Web; daqui vai um alfabravo para a equipa do portal UTW, com votos de boa continuação da caminhada pelos trilhos da nossa memória histórica.

Mas voltando ao Mato Cão (**)...Eu que lá fui bastante vezes, em patrulhamentos ofensivos, com montagem de emboscadas na margem direita do rio Geba Estreito (Xaianga), noutra encarnação (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), nunca percebi por que razão o PAIGC  
nunca conseguiu meter a pique uma embarcação, civil ou militar, naquele troço... Passsaram lá LDG (!) e seguramente LDP e LDM da Marinha. Passaram lá "barcos turras", civis,  ao serviço da Intendência Militar, mas também das casas comerciais "colonialistas" como a Casa Gouveia ou a Sociedade Ultramarina... Chegavam inclusive a Bafatá...Com a maré-cheia, claro...

A embarcação afundada (e às vezes iam em comboio, com batelões...) iria bloquear a navegação fluvial entre o Xime e Bambadinca, durante semanas, senão meses...E o impacto no abastecimento de toda a zona leste, far-se-ia sentir de imediato,  com consequências visíveis do ponto de vista logístico,  psicológico,  propagandístico, etc... 

Os portos fluviais do Xime e de Bambadinca eram as duas únicas entradas (por rio e terra) na Zona Leste (regiões de Bafatá e de Gabu, que iam da Foz do Rio Corubal, a oeste, à fronteira com a Guiné Conacri, a leste), e de norte (Senegal) a sul (Guiné-Conacri). Era a maior zona da Guiné e a mais povoada: mais de 15 mil quilómetros quadrados, com uma  população (fulas e mandingas, sobretudo) de 180 a 200 mil habitantes (por volta de 1970): mais de 40% do território, mais de 35% da população (que no total não chegava a meio milhão).

Terá sido uma questão de "cálculo político" ou pura "incompetência operacional" ? Tentaremos responder a essa questão em próximo poste desta série ("Nomadizações de um marginal-secante") (**).No rio Cacheu, na clareira do Tancroal, o IN meteu a fundo, duas vezes, a nossa gloriosa LDM 302... Por que raio é que os gajos do PAIGC não haveriam de acertar, em cheio, com uma simples canhoada, num bocado de madeira flutuante como era um "barco turra" (onde também viajei, pelo menos umas quatro vezes, no percurso Bambadinca-Xime-Bissau e vice-versa) (além de 2 viagens de LDG, no princípio e fim da comissão).

Infelizmente a Guiné-Bissau deixou assorear os seus rios... Já nem cenários temos para um simples documentário, quanto mais um filme de ficção.

Por certo, já não se passa hoje no Tancroal (Rio Cacheu), ou no Mato Cão (Rio Geba Estreito)... Em 2008, ainda atravessei o Rio Cacine de um lado a outro,. numa canoa nhominca... Mas o Cacine não é um rio, é um braço de mar...segunda-feira, 29 de junho de 2026 às 14:27:00 WEST



2. Enfim, apetecei-me recapitular algumas situações relaci0nadas com a navegação no rio Geba Estreito e a instalação do destacamento do Mato Cão (que já não é do meu tempo: saí da Guiné em março de 1971). 

O PAIGC, no 2º semestre de 1971, vai "reagir mal" à ocupação, pelas NT, do Mato Cão (Op Tareco  Vilão I, 2-7, nov 71).

Ao Mato Cão,  durante aqueles anos todos da guerra, só lá se ia em patrulhamento ofensivo, para montar segurança aos barcos, essencialmente civis, que navegavam no Geba Estreito.  As LDG também chegavam a Bambadinca, até finais de 1968/princípios de 1969, mas já não era no meu tempo; em 2 de junho de 1969, já desembarquei (ou melhor "abiquei") no Xime (porto fluvial, a par do de Bambadinca).

Em 1 de julho de 1971, ao tempo do BART 2917 (Bambadinca, junho 1970/maio 1972), era a seguinte dispositivo das NT no Sector L1 (Zona Leste), no que diz respeito aos Pel Caç Nat 52, 54 e 63 (que vão depois guarnecer o novo destacamento do Mato Cão, "à vez"):

Pel Caç Nat 52 > Fá Mandinga;
Pel Caç Nat 54 > Bambadinca;
Pel Caç Nat 63 > Missirá (reforçado por 1 Pel Mil 202 / CMil 1) e a seguir Mato Cão


Maio 71, 4 e 5 >  Op Triângulo Vermelho 

Na região de Enxalé-Cuor, sector L1, foi feito um patrulhamento por forças de 3 GComb/CArt 2715 (Xime), CCaç 12 (Bambadinca), CCP 123 / BCP 12 (BA 12, Bissalanca) e 1 Pel Caç 54 (Bambadinca).

O lN flagelou as NT, causando 2 mortos e 9 feridos e sofrendo 4 mortos.

Destruídas 20 moranças e meios de vida (dpois cleiros com meia tonelada de arroz). Capturado 1 elemento armado com esp "Mauser" e documentos diversos.

Agosto 71, 28 > Flagelação ao barco "Manuel Barbosa"


Um grupo IN estimado em cerca de 10 elementos flagelou com RPG-2 e Armas automáticas ligeiras,  de Mato Cão, o barco “Manuel Barbosa” causando 8 feridos graves, e 9 feridos ligeiros.

Pelas 14,50 horas uma secção do Pel Caç Nat 52 iniciou a progressão em meio auto com destino a Finete onde se juntaria uma secção do Pel Mil 201.

Às 15,10 horas, em [BAMBADINCA 4C2-84], a viatura Unimog 411,de matrícula ME-18-93,  accionou uma mina A/P reforçada, com a roda da frente do lado direito, ficando completamente destruída e provocando ferimentos na quase totalidade dos elementos das NT que nela seguiam, nomeadamente no 2º cabo atirador Nhaga Maque (Pel Caç Nat 52) que veio mais tarde a falecer em Bambadinca como consequência dos ferimentos recebidos.

Após o accionamento da mina o sold cond Manuel Castro Ribeiro Silva,    da CCS/BART 2917 (que estava destacado no Pel Caç Nat 52), assumiu o comando da secção, instalando os seus companheiros e montando um dispositivo de segurança à viatura com os elementos mais válidos após o que se deslocou a Bambadinca, transportando aos ombros um dos feridos, a fim de avisar as NT sedeadas neste aquartelamento (CCS/BART 2917, CCAÇ 12...).

Imediatamente se deslocou de Bambadinca uma secção da CCAÇ 12 (acompanhada de um enfermeiro e macas) que se encarregou do transporte dos feridos de Finete, para onde as milícias desta tabanca, que imediatamente acorreram ao local do acionamento da mina os tinham já transportado, para Bambadinca.

Num reconhecimento feito posteriormente não foi detectada a colocação de mais qualquer engenho explosivo, tendo-se no entanto detectado em [BAMBADINCA 4C7-74], vestígios de instalação em emboscada de um Grupo IN estimado em cerca de 10 elementos, o que vem confirmar declarações de milícias em Finete que dizem ter ouvido alguns tiros.

Novembro 71, 2-7 > Op Tareco Vilão I


 No dia 2 de novembro pelas 8,30 horas os 2 Gr Comb da CCAÇ 12 (Bambadinca) deslocaram-se em meios auto de Bambadinca para o Porto (fluvial) de Bambadinca de onde em meios fluviais [barco sintex], prosseguiram para Mato Cão, onde chegaram cerca das 21h00.

Substituíram então, no local, os Gr Comb da CCAÇ 12 empenhados na Op Tudo Vale , montando uma rede de emboscadas nos trilhos de acesso mais provável do IN ao Destacamento de Mato Cão, garantindo a segurança com a colaboração do Pel Caç Nat 63, do pessoal que procedia à instalação daquele Destacamento.

No dia 3 pelas 13,30 horas, um Grupo IN estimado em cerca de 40 elementos flagelou com RPG-2 e Arm Aut Lig de [BAMBADINCA 1H97-61], apoiados por RPG-7 e Mort 82, o estacionamento de Mato Cão, causando 2 feridos graves e 8 ligeiros.

As NT reagiram imediatamente obrigando o IN a retirar, com baixas prováveis.

Feito reconhecimento à área de instalação IN, detectaram-se vestígios de IN se ter aproximado e retirado na direcção de Chicri, tendo-se encontrado vários vestígios de sangue.

No dia 6 pelas 16h55, um Grupo IN não estimado flagelou da direcção de Chicri o estacionamento de Mato Cão e as forças de segurança ao mesmo, durante 5 minutos com Mort 82 e LRock.

As NT reagiram prontamente pelo fogo de Mort 81 obrigando o IN a retirar. Posteriormente o 20º Pel Art (Xime) bateu os trilhos prováveis de retirada.

Não foi feita uma conveniente batida imediata por, após os tiros de artilharia, ter anoitecido sendo a visibilidade muito fraca.

No dia 7 pelas 6h45, quando o Pel Caç Nat 63 explorava o contacto havido ao anoitecer do dia 6 reconhecendo a mata a Norte de arame farpado, detectaram.  a cerca de 600 metros do mesmo, numeroso Grupo IN estimado em 50 elementos que ali se encontrava emboscado.

As NT imediatamente abriram fogo, tendo o IN, ao sentir-se descoberto, reagido com RPG-2, RPG-7, Mort 60 e Arm Aut Lig ao mesmo tempo que um outro Grupo IN localizado mais para Norte e a uns 500 metros do primeiro, começou a flagelar o estacionamento de Mato Cão com Mort 82 e RPG-7.

As NT imediatamente exploraram o contacto manobrando pelo fogo e movimento obrigando o IN a retirar.

Apesar da pronta e enérgica reacção do Pel Caç Nat 63, o IN conseguiu ao fim de cerca de um minuto quebrar o contacto em virtude do Pelotão ter esgotado as munições de Mort 60 e dilagrama que transportava consigo, cujo consumo foi maior do que seria de prever num contacto deste tipo em virtude do LGFog 8,9 cm não ter funcionado.

Remuniciado, o Pel Caç Nat 63 prosseguiu na batida tendo encontrado abandonado no terreno um morto, armado de pistola Ceska Zbrojovka m/1927, de origem checa, identificado por documentos que possuía como sendo Mário Campos, e uma granada de RPG-7.

Foram ainda detectados vestígios e vistos elementos IN arrastando mais cinco corpos de elementos feridos ou mortos pelas NT.

Entretanto, primeiro, os Mort 81 do Destacamento e posteriormente o 20º Pel Art /BAC 7 (10,5 cm) (Xime) batiam os itinerários previsíveis de retirada,  tendo o Pel Caç Nat 63 verificado que alguns dos impactos de artilharia se situavam sobre o trilho seguido pelo IN e nas suas imediações encontrava-se muito sangue.

Neste contacto as NT sofreram 3 feridos graves e 9 (um civil) ligeiros sendo um ferido grave e 3 ligeiros proveniente do contacto directo com o IN e os restantes como consequência da flagelação ao estacionamento.

No dia 7/11/71 pelas 14h30, os 2 Gr Comb da CCAÇ 12, após serem substituídos no local pelas NT empenhadas na Op Tareco Vilão II e II, iniciaram progressão em meios fluviais [Barco Girassol] para Bambadinca, permanecendo o Pel Caç Nat 63 e uma secção do Pel Mil 202 em Mato Cão, onde chegaram cerca das 16h00.

Fonte: Adapt de História do BART 2917, de 15nov1969 a 27mar1972, mimeog, 182 pp. (Cópia, em formo digital, gentilmente cedida por Benjamim Durães)



Guiné > Região de Bafatá > Carta de Bambadinca (1955) > Escala de 1/50 mil > Detalhes: posição relativa de Bambadinca, na maregm esquerda (sul), do rioGeba Estreito, regulado de Badora;

(i) a  sudoeste: Nhabijões,  Sambassilate, São Belchior e o regulado do Xime;

(ii) a noroeste; Mato Cão, Finete, Salá e regulado do Cuor;

(iii) a norte/nordeste: Mero, Fá Mandinga, Missirá e regulados de  Óio, Mansomine e Joladu; 

O PAIGC só mandava (alguma coisa), a partir de Salá... tendo "barracas", maiss a noroeste, na zona de Madina / Belel. Já no Óio havia a "base central" de Sara Sarauol... 

O destacamento, mais a norte de Bambadinca, no setor L1, era Missirá, guarnecido por um Pel Caç Nat (52 ou 63, em diferentes períodos) e um pelotão de milícias e uma esquadra de morteir0 81... 

 A Madina/ Belel , muito para lá de Salá (e que por isso que já não vem nesta carta) ia-se uma vez por ano, na época seca...para "dar e levar porrada".

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


domingo, 28 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28139: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): ainda e sempre os nossos (e)ternos "barcos turras"




Guiné > s/d > s/ l > A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa (embaixador da República de Cabo Verde, reformado) (*).

Foto: © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969, dia em que o homem chegou à lua... O Valdemar, sentado num saco, em frada nº 2,  vai a caminho de Bissau, num barco civil, daqueles a que chamávamos, depreciativamente, "barco turra" (**). 

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís GRaça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > O Rio Geba... o estreito (do Xime para montante) e o largo (do Xime para jusante)... c. 1970, no tempo seco... O rio era navegável de Bissau até Bafatá!... Mas normalmente, as embarcações civis (os "!barcos turras") iam até Bambadinca... As LDG ficavam pelo Xime, mas chegavam a Bambadinca, pelo menos até a 1968... Dois pontos vulneráveis do percurso eram a Ponta Varela (na margem esquerda do Rio, entre a Foz do Corubal/Ponta do Inglês e o Xime), e o Mato Cão (entre o Xime e Bambadinca, no troço serpenteante do Geba Estreito).

Foto do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil op esp (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça &vCamaradas da Guiné]


1. Os ataques e flagelações à navegação no rio Geba, entre Bissau, Xime e Bambadinca não eram sistemáticos nem sequer regulares. Mas ficaram na memória da malta que passou pela Zona Leste (***). 

Em geral, o PAIGC não se metia com a malta da Marinha (as LDG, as LDM que eram "caça grossa"). Preferia a "caça miúda", indefesa, as embarcações civis ( a que nós chamávamos os "barcos turras", por, erradamente ou não, acharmos que os "patrões" pagavam "imposto revolucionário" ao partido do Amílcar Cabral, e que só eram atacados os barcos com as "quotas em atraso")... 

Havia dois ou três pontos críticos: Ponta Varela, Mato de Cão e São Belchior. E em geral, esses ataques ataques e flagelações eram ao fim da tarde ou à noite. A guerrilha sabia que, a essas horas, não seria perseguida pela aviação (e muito menos por forças terrestres de aquartelamentos e destacamentos nas proximidades: Xime, Bambadinca, Enxalé, Finete, Missirá...)

Foi o caso, por exemplo, do ataque à 1 hora e meia da noite, do dia 1 de junho de 1973, ao barco civil, "Bubaque", no Geba Estreito, no troço entre Bambadinca e o Xime, em São Belchior, antes do Mato Cão (que nesta altura já tinha um destacamento permanente das NT); ia a bordo o proprietário e capitão do barco, o Amante da Rosa, pai do nosso camarada (e diplomata, cabo-verdiano, hoje reformado) Manuel Amante.

Uma semana e tal depois, a 10 de junho, ao cair da tarde, há novo ataque, desta vez em Ponta Varela, a oeste do Xime, a um comboio de 3 barcos civis.


2. Pelo pouco que sabemos, a  partir das histórias das unidades e  dos testemunhos e das memórias dos militares e civis que navegaram no Geba, não há indícios de que o PAIGC tivesse desenvolvido uma campanha sistemática para interditar toda a navegação no rio Geba, como aconteceu, por exemplo, em certos troços do Cacheu ou do Corubal em determinadas fases da guerra. 

O que existia eram emboscadas oportunistas, concentradas em alguns locais onde o rio estreitava, obrigando as embarcações a reduzir velocidade ou a aproximar-se das margens.

Esses pontos  críticos eram Ponta Varela (quando o rio começava a estreitar, antes do Xime) e depois no rio Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca: Mato Cão e São Belchior.

Quem serviu no Sector L1 (nos subsetores de Bambadinca,  Xime, Mansambo e Xitole)  fala repetidamente destes locais como "zonas perigosas", embora houvesse longos períodos sem qualquer incidente.

Quanto ao "Bubaque", os registos conhecidos são muito claros.

Na História do BART 3873 surge registado o ataque da madrugada de 1 de junho de 1973, cerca da 01h30, em São Belchior, no troço entre Bambadinca e o Xime, antes do Mato Cão. O barco era propriedade de Amante da Rosa, que seguia a bordo como patrão e comandante. Houve 2 feridos graves na tripulação e o ataque foi suficientemente importante para merecer destaque na história da unidade.

Poucos dias depois, em 10 de junho de 1973, ao fim da tarde, encontra-se registado um novo ataque, desta vez contra um comboio de três embarcações civis, em Ponta Varela. Também este episódio figura na mesma documentação militar. (***)

Há outro aspeto muito interessante, que ajuda a desfazer um mito que muitos de nós ouvimos na época.

O próprio Manuel Amante da Rosa, filho do proprietário do "Bubaque", escreveu anos depois que o pai nunca pagou qualquer "imposto revolucionário" ao PAIGC, nem existiria um acordo de imunidade. 

Segundo ele, o barco fazia simplesmente um serviço público essencial, utilizado indistintamente por população civil, comerciantes, familiares de guerrilheiros, e até guerrilheiros e simpatizantes do PAIGC, além de militares portugueses em deslocação, e sempre desarmados: ninguém levava G3, quando seguia para Bissau, para apanhar o avião da TAP, ir ao dentista, tratar de algum assunto da sua tropa,  ou simplesmente para "desopilar" (o chamado "desenfianço").

Na memória do Manuel Amante da Eosa, o "Bubaque" navegou cerca de dez anos naquela carreira e foi atacado apenas uma vez, precisamente nessa madrugada de 1 de junho de 1973, o que ele considera ter resultado de um erro de identificação.

Enfim, esta explicação parece-nos  bastante plausível e aceitável, mesmo sabendo da ligação do Manuel Amante da Rosa ao PAIGC.

O PAIGC tinha pouco interesse estratégico em destruir barcos (incluindo os da "odiada" Casa Giuveia!) que abasteciam populações sob a sua própria influência, transportavam familiares dos combatentes, asseguravam o comércio local (mas também abastecia a tropa...) e que, na prática, o único meio regular de transporte entre Bissau, Xime e Bambadinca, já que a estrada Bafatá-Mansoa- Bissau estava interdita em diversos troços.

3. Atacar uma LDG ou uma LDM era uma operação muito mais difícil e arriscada. As unidades da Marinha navegavam armadas, tinham treino específico, resposta de fogo muito superior e podiam desencadear rapidamente operações de retaliação. 

Daí que, quando havia ataques, estes incidissem sobretudo sobre embarcações civis desprotegidas ou sobre ocasiões em que se julgava haver militares transportados em número reduzido.

Além disso, os grupos do PAIGC especializados em atacar  embarcações no rios eram poucos e náo tinham o dom da ubiquidade.

A nossa observação sobre a evolução da situação em Mato Cão também faz sentido. Em 1972, com a instalação de um destacamento permanente das NT, o local tornou-se menos favorável para emboscadas prolongadas, o que poderá explicar a deslocação de alguns ataques para zonas como São Belchior (ou a jusante,ou Ponta Varela), onde continuavam a existir boas condições para abrir fogo a partir das margens, embora na mira dos 3 obuses 10,5 cm do Xime.


4. Ao tempo do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), já tinha ocorrido, em 10 de outubro de 1972, às 1h15 da noite, no final das chuvas, e ao fim de dez meses de comissão, o primeiro ataque a um barco civil, o "Mampatá", no Rio Geba Estreito, de que resultaram 4 feridos, 1 militar e 3 civis (um dos quais grave) (***)

Na leitura do comando do batalhão, o ataque do PAIGC ao "Mampatá" inseria-se na estratégia de criar dificuldades ao abastecimento das NT no Leste.

O In voltaria, no mês de julho de 197, a fazer outro ataque ataque, no Rio Geba Estreito, em São Belchior, a seguir ao Mato Cão, desta vez à embarcação "Manuel Barbosa" (ligada a uma comercial de Bissau,); o barco, civil, conseguiu chegar a Bambadinca com um ferido;

5. Talvez valesse a pena  tentar responder à pergunta: quantos ataques houve realmente à navegação no Geba entre 1963 e 1974?

Foram seguramente mais do que aqueles que ficaram na nossa memória, mas certamente muito menos numerosos do que a fama do Geba Estreito poderia fazer supor.  Nalguns casos terima sido "flagelações" ou "tiros sobre embarcações", sem vítimas ou danos importantes, e esses episódios nunca entraram nas cronologias gerais da guerra 8e muito menos no relato da actividade operacional feita nos livros da CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África).

Para fazer a  cronologia completa dos ataques e flagelações à navegação no rio Geba (1963-1974), seria preciso cruzando as histórias das unidades que passaram pelo Sector L1, relatórios da Marinha, testemunhos dos antigos tripulantes dos chamados "barcos turras" (que ninguém sabe quem eram, com exceção do Manuel Amante e do seu filho, que viajava muitas vezes com opai durante as férias escolares, o hoje embaixador Manuel Amante da Rosa).

Penso que esse levantamento mostraria, com bastante rigor histórico, que a navegação no Geba viveu num equilíbrio muito peculiar: 

(i) perigosa o suficiente para nunca deixar ninguém completamente tranquilo;

(ii)  mas suficientemente segura para que, durante anos, centenas de pessoas continuassem a fazer regularmente a viagem entre Bissau, Xime e Bambadinca. 

Isso ajuda a compreender porque esses barcos ficaram tão profundamente gravados na memória de quem serviu na Zona Leste, como eu, o Carlos Marques dos Santos, o Valdemar Queiroz, o Joaquim Mexia Alves, o Humberto Reis, e tantos outros (*****).

_______________



(***) Vd. poste de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28137: As nossas geografias emocionais (68): o temível Mato Cão, no rio Geba Estreito

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28128: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): tropas e paisanos, e "a Guiné...para os guinéus"

t

Foto nº 1 >  Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor)


Foto nº 1 B > Possivelmente, os pais (na segunda fila, do lado direito),  avós (nma terceira fila, de óculos escuros) e familiares e amigos da criança, mais o padre, missionário (em primeiro plano, à direita). A jovem mãe seria de origem libanesa.


Foto nº 1 > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá 


Foto nº 1 C > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor): o Fernando Andrade Sousa é o primeiro da esquerda; o Joaquim Vidal Saraiva (alf mil médico) é o segundo da última fila, de óculos escuros e boné, Há mais 3 militares, fardados, que não identificamos. À esquerda do do Vidal Saraiva, pode ser o José Carlos Lopes, o ex-fur mil dos reabastecimentos...


Foto nº 1 D > Os padrinhos e a criança (ao colo da professora  Dona Violete)


Foto nº 2 > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca... Pelo que se depreende da visualização da imagem, a cerveja Cristal era muito popular na época... Se calhar, era por ser a mais barata... Os comerciantes de Bambadinca também estavam muito dependentes da tropa para efeitos de logística e segurança: os barcos civis que chegavam a (e partiam de) Bambadinca tinham segurança militar, pelo menos em dois pontos do rio Geba: Mato Cão e Ponta Varela...


Foto nº  2 A > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca (pormenor): um civil, em primeiro plano (talvez irmão ou cunhado da mamã libanesa), e o alf mil médico, Vidal Saraiva, já à civil.


Foto nº 2 B >  O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca: O Fernando Andrade, de bigodinho, é o terceiro... (Ele já não se lembrava do bigodinho, à margem do RDM...). 

Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Batizado de um filho de um casal de comerciantes de Bambadinca, para o qual foram convidados alguns militares da CCS/BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12. Por volta de finais de 1969. A mãe da criança era libanesa, o pai possivelmente era português de origem metropolitana, talvez até transmontano (o padrinho, o alf mil Carlão,  era de Mirandela)  (Foto nº 1 B)...

Fotos: © Fernando Sousa (2018). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca >  Abril de 1965 (?) > Festa da primeira comunhão > A menina branca, filha do chefe do posto de Xitole, ladeada pela Professora Primária Dona Violete (à esquerda, de óculos escuros) e a esposa de um dos comerciantes locais (à direita).



Foto nº 4 >Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Foto nº 3 > Abril de 1965 (?) > Capela local > Um grupo de meninos e meninas (só uma das quais é branca, filha do chefe de posto do Xitole, a frequentar a escola primária em Bambadinca), no dia da comunhão solene, devidamente enquadrados por uma freira, católica, muito possivelmente missionária e estrangeira (italiana?)
 
Fotos do álbum do ex-Fur Mil At Manuel Bastos Soares,  natural de Vila Nova de Gaia e residente na Maia.
 
Fotos (e legendas): © Manuel Bastos Soares (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá> Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento, frente à escola primária > Memoriais de unidades que passaram por Bambadinca 

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe de posto de Bambadinca. Diziam que era cabo-verdiano. Tal como a professora primária, Dona Violete. E provalmente o encarregado da Casa Gouveia. Sei que havia uma pequena comunidade cabo-verdiana em Bambadinca. E que era cristã. Também havia, pelo menos, uma família de origem sírio-libanesa. Civis, "paisanos",  comerciantes, incluindo o Fernando Rendeiro (casado com uma guineense, mandinga, e pai de uma ranchada de filhos) e o Zé Maria (que a tropa dizia que era "turra"). De origem metropolitana, estes dois últimos. Mas todos apartados da hierarquia militar. Havia 7 casas comerciais em Bambadinca mas eu nunca as contei.  Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; será depois promovido a intendente).

Nunca vi o chefe de posto nem  a professora, que viviam connosco dentro do perímetro de arame farpado, serem convidados para cerimónias militares ou festas no quartel (Natal, por exemplo). 

Racismo, segregação, discriminação ?... Temos de ser cautelosos com as palavras e sobretudo evitar os "chavões" e o "sociologuês"...

Na metrópole, militares e civis também não conviviam... Como eu costumo dizer, simplificando a realidade, éramos os "três estados": clero, nobreza e povo...Na minha terra, eu também nao convivia com a elite local, e muito menos comia á sua mesa, encontrávamo-nos apenas na igreja, mesmo assim em espaços segregados...

Na Guiné, os oficiais e os sargentos milicianos e as praças  eram mais abertos e conviviam, informalmente, com os civis. Nalguns casos, poderia haver afinidades (pessoas da mesma terra ou região). Falo de Bambadinca, onde estive, de julho de 1969 a março de 1971. 

O Rodrigo Rendeiro, que estava na Guiné desde os 17 anos, e que era natural da Murtosa, convidava alguns de nós, milicianos, para comer o seu famoso "chabéu de galinha". Mas nunca nos apresentou a cozinheira, que era a mãe dos seus filhos. Teve uma aventura rocambolesca que já aqui contámos, quando se conseguiu evadir dos "libertadores" do PAIGC... Já faleceu. Mais recentemente ficámos a saber que tinha sido "informador" da PIDE/DGS e que terá tido problemas ainda na Guiné a seguir ao 25 de Abril. (A propósito, o Anjos de Carvalho,  em 1973, aparece em listas dos colaboradores militares, remunerados, da censura para as obras literárias...).


2. As fotos acima mostram uma cena, que já em tempos cataloguei, há dez anos atrás (*), como  "algo insólita", no TO da Guiné, numa zona de guerra, em Bambadinca, uma festa de batizado para a qual (tal como  na boda), como se costuma dizer, só vão os convidados... 

Mas,  como todas as "fotos de família", estas têm algo de ternurento... Perguntei-me na altura: quem seriam  estas pessoas, por onde andariam então (em 2016)... Algumas, eu conhecia-as, tinham sido meus camaradas... E dos civis, meus vizinhos, nem sequer tinha uma vaga lembrança... 

Afinal, morávamos perto, uns dos outros, durante, quase dois anos... Espantoso: eu vivia a 100 metros da escola, nunca vi, "ao vivo", a professora dona Violete (nem a sua mãe, que vivia com ela, na "casa da professora", anexa à escola primária, as duas enclausuradas). Tal como nunca vi o chefe de posto, nem me lembro de ter entrado no seu "estaminé" (que, se não erro, era junto ao depósito de água e à escola)..

O Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf da CCAÇ 12, 1969/71), que vive na Trofa (e que está doente, infelizmente, ele que foi uma dos mais entusiásticos participantes e organizadores dos convívios anuais do pessoal de Bambadinca desde os anos 90),  já não se lembrava  bem de toda a gente, muito menos dos civis. 

Disse-me ao telefone que;

(i) ele e o alferes Carlão eram os únicos representantes da CCAÇ 12; 

(ii) o Carlão fora convidado para padrinho possivelmente por ser da terra ou da região (Trás-os-Montes) de alguém da família da criança (pai ou avós);

(iii) a criancinha batizada era da "Casa Libanesa", de Bambadinca;

(iv) ele,  Fernando, "caiu lá de paraquedas", foi convidado porque fazia parte do pessoal do serviço de saúde, cujo chefe era o alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, da CCS/BCAÇ 2852 (que deve ter feito o parto, e que acabaria a comissão em maio de 1970) (**);

(v) o Silvino Aires Lopes Carvalhal (fur mil, SAM, CCS/BCAÇ 2852) também esteve presente;

(vi)  ficou de me mandar (mas não mandou...) mais fotos deste "batizo"  

O casal libanês  (ou ela, de origem libanesa, e o pai, português da metrópole, transmontano) que vivia em Bambadinca, moravam possivelmente numa das casas junto à rampa de acesso ao quartel,  do lado direito (no sentido descendente), talvez em frente à casa e loja do Fernando Rendeiro (que ficava do lado esquerdo), e que eu frequentava com alguma regularidade, tal como o bar / tasco do Zé Maria , já na zona ribeirinha... 

Os Rendeiro não aparecem aqui. Possivelmente o jovem casal, os pais da criança, aparecem,  na foto nº 1 B, ao centro, tendo a atrás os avós  e possivelmente um tio (o mais forte).

A cerimónia religiosa foi em Bafatá, onde a foto de grupo (nº 1) é tirada. Quer dizer que não havia padre em Bambadinca. O padre era missionário, possivelmente italiano (foto nº 1 B). Os missionários católicos italianos (do IPME) tiveram uma relação difícil com as autoridades portuguesas. Alguns foram presos ou expulsos (o missionário de Catió, o de Samba Silate....).

Os padrinhos da criança foram o alf mil António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ainda solteirinho, sem a sua Helena que há de vir depois morar para Bambadinca, e a única professora, branca, que lá havia,  a Dona Violete da Silva Aires (que segura a criança, e que era solteira, nascida em Cabo Verde; vivia no edifício da escola, com a mãe). (Foto nº 1 D).

O Fernando lembra-se de ter sido convidado, mesmo sem conhecer (nem privar com) a família. Dos militares, da CCS/BCAÇ 2852  (incluindo Carvalhal) e da CCAÇ 12 (o Fernando), terão sido convidados o pessoal dos serviços de saúde e do reabastecimento (incluindo o José Carlos Lopes, fur mil).

O fur mil enf João Carreiro Martins não aparece aqui, o que não admira: ele recusava-se a sair do arame farpado...  Aparece o alf mil médico Joaquim António Vidal Saraiva (1936-2015), acabado de chegar de Guileje em novembro de 1969 (foto nº 1 C) e que seguramente terá feito o parto da mamã libanesa...

As fotos devem ser de finais de 1969. E eu achava que deviam merecer generosos comentários. Se o Vidal Saraiva não tivesse morrido em 2015 (**), possivelmente estes fotos iriam ficar esquecidas no álbum do Fernando Sousa que pediu, a instâncias minhas, a um sobrinho para as digitalizar...  


3. Estamos a falar de coisas que a historiografia académica não tem abordado... E que são delicados como a "estigmatização" dos civis, comerciantes, metropolitanos, cabo-verdianos ou libaneses, bem como a administração ultramarina onde os cabo-verdianos estavam sobrerrepresentados, uns e outros "mal vistos" pela PIDE e pela tropa... (Mas quem é que queria ir viver e trabalhar para a Guiné?!... E quem numa guerra civil, como foi aquela, não joga com um pau de dois bicos ?)

Mal vistos, e depois marginalizados, com Spínola e a sua política de africanização da guerra e da administração. O slogan "A Guiné para os guinéus" era também uma provocação para o PAIGC de Amílcar Cabral.

Durante a fase final da guerra da Guiné, a política de Spínola procurou, de facto,  promover uma elite política, militar e administrativa guineense, reduzindo o peso relativo das tradicionais elites cabo-verdianas na administração do território. (Administração que, com ele, e com a guerra,  praticamente foi substituída por quadros militares.)

Como muitos cabo-verdianos eram vistos pelos serviços de informação e pela tropa  como potenciais simpatizantes do PAIGC, desenvolveram-se atitudes de desconfiança e, por vezes, de estigmatização e repressão.

Contudo, essa realidade deve ser entendida mais como uma estratégia política de reequilíbrio de poderes e de conquista das populações guineenses do que como uma política oficial de discriminação racial contra os cabo-verdianos (que até ao início cio dos anos 60  eram minorias relativamente influentes na administração, tal como os libaneses, no pequeno comércio).


Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

À direita do Brito, a Helena, mulher do falecido alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende): à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref); e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). Eram as únicas "três mulheres brancas", esposas de militares, que viviam no "quartel".

Em Bambadinca, mesmo dentro do perímetro de arame farpado onde viviam a professora, branca, cabo-verdiana (e a sua mãe), e o chefe de posto, também cabo-verdiano, os espaços de convívios eram socialmente segregados. Os oficiais vinham ao bar e messe de sargentos, os sargentos não podiam frequenta o bar e a messe de oficiais, os civis também não conviviam com a tropa dentro do "quartel"...E as praças tinham o seu  "refeitório e cantina"... E foi assim que fizemos todos a guerra...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


(***) Último poste da série > 21 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças