1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...
Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, misóginos, racistas, e portanto anticristãos...
Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema.
- Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (a família do noivo).
- Umane: significa a família que "doa" a esposa (a família da noiva).
2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece querer dar-nos um bom conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"...
Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!
(i) Vejamos um primeiro nível, mais superficial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):
O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...
Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, tão universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"), num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).
Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...
É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".
São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...
Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que pões à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e de outros organizações.
(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval
Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação).
"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).
"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espírito" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.
É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...
(iii) O machismo e a misoginia implícitos
Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (do inglês "gender", género).
Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resignando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...
Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria".
Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" ( ou dessocializa) a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).
(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)
Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun", francês) se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!")...
É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias:
- a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo");
- a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada");
- a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar");
- o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo");
- a inveja social, a arrogância, a estupidez, a diabolização da ciência ( e nomeadamente das ciências sociais e humanas), etc.
É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.
(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)
Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto.
Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...
Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.
(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)
Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:
"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);
"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);
"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)
(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...
Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa:
- fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos;
- fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça, quem está sob as luzes da ribalta;
- fingimos ser racionais, mentalmente sãos, mas somos bipolares, subindo aos céus em delírio com as vitórias dos nossos heróis, para logo cair nas labaredas do inferno do ressentimento, da imprecação, da demonização, quando eles falham;
- fingimos ser solidários, mas desconfiamos, com inveja, de quem partilha com generosidade.
É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)
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(*) Vd, poste de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28163: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte X : semana de 7 a 13 de abril: Ainda sobre o "barlaque": quem parte e reparte e não leva a melhor parte, ou é tolo ou não sabe da arte ?!












