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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)


O primeiro parto que fiz na Guiné. A mãe registou o bébé com o nome de Adão Doutor

1. Mensagem do nosso camarada e amigo Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68, com data de 27 de Abril de 2026:

Estive ontem em Vale de Cambra, na apresentação do livro “Guerra do ultramar, combatentes de Vale de Cambra", cujo autor é o amigo Professor Martinho Almeida. Tenho uma pequena colaboração no livro, da qual já não me lembro. Infelizmente, por razões pessoais, fui obrigado a abandonar a sessão, tendo ouvido, ainda, o apresentador do livro, cuja palestra achei correcta e historicamente fidedigna. Perdi, com pena, a intervenção do autor, que presumo ter sido importante.

Sendo um dos ditos “combatentes”, e tendo uma visão provavelmente bem distante das centenas de pessoas que encheram a sala, gostaria de deixar aqui a minha posição. Fui um dos primeiros a serem mobilizados no concelho de Vala de Cambra, para a guerra colonial da Guiné-Bissau, como médico. Princípios de 1966 até ao fim de 1967. Queria dizer que fui empurrado à força para uma guerra que nada me dizia, uma guerra cruel, injusta e criminosa como são todas as guerras coloniais. Não me considero combatente de nada nem de ninguém. Apenas combatente da doença e da injustiça.

Não levei agarradas a mim qualquer honra ou qualquer pátria. A minha missão e o meu dever resumiam-se curar doentes, militares e nativos, a salvar o maior número de vidas possível e a procurar encontrar os melhores resultados de uma verdadeira acção pedagógica e psico-social. Estive sempre no mato, na linha da frente, quer no leste da Guiné quer no norte. Sofri muito. Sofri muito com as perdas dos nossos soldados, sofri com as perdas das milícias e dos seus familiares, sofri com a pobreza e a desgraça dos nativos e também dos próprios guerrilheiros, a quem nunca chamei nem seria capaz de chamar “turras”.

No fim de contas, e de forma resumida, cheguei à conclusão de que a vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha. Neste caso, com a obrigação de cumprir o serviço militar, não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel. A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez pai do neocolonialismo e do imperialismo.

Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, longe disso, mas é impossível não ter recordações. A guerra ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitámos como vitória. Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.

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Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

 (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

 O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

Mesmo após a jubilação como professor catedráti
co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
  • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
  • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
  • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
  • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

 A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

JN - Porque não fugiu?

JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41

domingo, 14 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27219: Blogpoesia (807): "O nosso segredo", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


O NOSSO SEGREDO

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.

Quando as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de branco
de alma enorme e de pão quente
e do eco à volta do teu ninho
nascem reflexos de sol poente
vermelho de sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
fora do calor do deserto que aqui mora
sem o dilúvio deste desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas
onde o segredo que a vida encarna
entre as mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
São horas de saber se a vida vale a pena
neste dobrar de avessos e fantasias
junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem.

Vou  [a] correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.


adão cruz

(Revisão / fixação de texto: CV / LG)
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Nota do editor

Último post da série de 12 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27114: Blogpoesia (806): Versejar em Nova Sintra - 3: "Nova Sintra", pelo Cap Fonseca e Silva da CCS/BCAV 2867 (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)

domingo, 3 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26112: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887) (9): Um buraco na parede

1. Mais um conto verdadeiro da Guiné, do nosso camarada Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68.


MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA

9 - Um buraco na rede

(Mais um conto – verdadeiro – da Guiné)

Acordei a meio da noite e não fechei mais os olhos. A insónia levou-me onde bem lhe apeteceu. Gemi ao estalar do coração de uma mãe, senti o amargo do choro convulso de um pai, reabsorvi a minha dolorosa resignação… um barco e as amarras que o prendem aos olhos esbugalhados do cais, amarras que se despedaçam, pois ninguém lhes sabe desfazer os nós.

A madrugada de hoje começa a clarear. Quem olha através da rede da janela, sem vidros, julga que vai nascer uma amena manhã de primavera, mas em breve ela parecerá vomitada do ventre de uma fogueira.

Passarinhos coloridos salpicam de gorjeios o silêncio morno do amanhecer. Um grande inseto marra nervosamente de encontro à rede, numa volúpia incontida de liberdade. Eu e aquele moscardo à procura de um buraco na rede!

De um salto, corri da cama até ao chuveiro improvisado que borrifava sobre mim os mais deliciosos minutos do dia. Enquanto a água escorria em fios esganados, eu ia antevendo o prazer de uma caçada matinal às rolas. Iria pedir a carabina ao libanês senhor Heyle, o qual, àquela hora, ensonado, não se lembrava que não gostava de a emprestar. De qualquer forma, a mim nunca a recusaria, pois precisava de mim como médico.

Postar-me-ia a cem metros do arame farpado, por detrás do poço do jagudi, bem perto do canavial. Vindas das árvores que se encontram no baixio junto à bolanha, as rolas atingem, sem qualquer desconfiança, o mangueiro que está mesmo por cima da minha cabeça.

Será só apontar. Mas… nem apontar foi preciso, pois, as rolas não vieram, e as que vieram, fugiram, sem hesitações de pouso, como se, do lado de lá do canavial, alguém as tivesse avisado.

Quando se vive no isolamento, sobretudo na solidão da guerra sem sentido, o tempo jamais passa, mas as frações de tempo parecem voar como estas rolas que escarnecem de mim. Não sei se adormeci, penso que sim, movido pelo zumbido melífluo e hipnotizante de um desses enxames de abelhas selvagens que, à volta de um galho de cajueiro, ordenam a sua inquietante anarquia.

Quando acordei e olhei para cima, uma rolita inocente, vestida ainda com o castanho-torrado da primeira penugem, esticava o pescoço curioso para ver quem eu era. Estava tão perto, que eu lhe enxergava os olhitos faiscantes e quase ouvia as primeiras falas que as cordas vocais começavam a ensaiar. Instintivamente, colei-me à arma e só vi a cabecita inquieta estremecendo na ranhura do ponto de mira. Se ao menos ela fugisse! Se ao menos ela fugisse! Apertei o gatilho, e como estava tão perto, nem dei pela queda do seu minúsculo corpo.

Caiu o meio-dia sob a forma de um sol escaldante que só as árvores mais frondosas conseguiam coar. Espetei os olhos na avezita moribunda e vi que um fio de sangue lhe pintava o bico. Senti profundamente o gosto acre daquele sangue. Soube-me à guerra, a roubo, a crime, a futuro sem vida e vida sem futuro, à terra calcinada, à chacina. Torci-lhe três vezes o pescoço e atirei-a ao regato mais próximo. Puxei de um cigarro e tentei, com ele, acabar a tristeza e a amargura desta manhã.

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Nota do editor:

Vd. postes da série de:

25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene

2 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16356: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (2): Cadi suma outra mulher

6 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16363: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (3): Os prisioneiros

11 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16381: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (4): Joãozinho, nunca na vida te deixarei sozinho

16 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16392: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (5): O diagnóstico

6 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16453: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (6): Pequenas Grandes Verdades

13 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16485: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (7): Guiné - Irkutsk

27 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16528: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (8): O Tanque

terça-feira, 7 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25490: Os 50 anos do 25 de Abril (18): Guerra Colonial - Pequenas Grandes Verdades (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887)

Corpo Clínico de Bigene - Dr. Adão Cruz em primeiro plano, à esquerda
Foto: © Adão Cruz


GUERRA COLONIAL

A vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que nela se perde e o que nela se ganha. Com a dura e cruel guerra da Guiné, não sei calcular o que perdi, mas sei o que ganhei em experiência de vida. Aprendi que o colonialismo, o neocolonialismo e o imperialismo, por mais que tentem branqueá-los, suavizá-los e justifica-los, bem como as guerras a que conduzem, são verdadeiros crimes contra a humanidade. Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, mas tenho recordações que ainda hoje arrancam dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que me corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitamos como vitória. Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristezas e alegrias, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualáveis fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos de toda a minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.

O texto que se segue, baseado em factos rigorosamente verdadeiros, não é um texto de descrição comum. Ele tenta criar a envolvência um tanto filosófica, um tanto psicológica e mesmo psicopatológica com que as guerras, todas as guerras estrangulam as nossas vidas.

PEQUENAS GRANDES VERDADES

Fiquei sempre com esta paradigmática sensação desde que, por volta de 1970, encontrei no átrio da Faculdade de Medicina da Salpêtrière, em Paris, um busto holográfico de Hipócrates que parecia dizer-me: Mon fils, la vie est le chemin pour la rencontre de nous-mêmes. Mas já muito antes, na guerra colonial, as longas horas a olhar para o vazio se enchiam inesperadamente de pequenas explosões, não de granadas, mas de pequenas grandes verdades de um pensamento acorrentado à la rencontre de nous-mêmes.

Sentado numa pedra junto à margem, no meio do dilema entre vida e suicídio, depois de encontrar um dedo humano na boca do peixe-serra que tinha um fígado de um metro quadrado, dizia o filósofo, condenado a mais nove meses de mato por tentar embarcar para a metrópole uma G3, com o fim de matar o sogro que lhe havia violado a mulher: Este é um sítio porreiro para alguém se suicidar, não acham? Mas não havia ninguém à volta para receber a pergunta. Concluiu que falava para si mesmo. Ora merda, ninguém me ouve. Mas têm de concordar que é um poço fundo, tão fundo que não dá tempo para chegar vivo lá abaixo.

A verdade procura sempre o amor na densidade dos processos e na empatia do sofrimento, clamava bem alto o meu amigo, capitão e arquitecto, pés bem assentes no escuro do pequeno cais de madeira, entre a amplidão do espaço de uma noite estrelada e os limites das margens do Rio Cacheu. Muito se tem falado sobre o facto de umas coisas da vida imitarem as outras ou não coincidirem com as outras. Não se trata de uma questão de imitação ou discordância, mas de procurar saber o que acontece quando duas coisas se juntam, naturalmente, para criar algo de novo, isto é, saber o que acontece se ambas descobrem a verdade absoluta ou se a verdade absoluta não é mais do que a verdade relativa e circunstancial dos momentos das nossas vidas. Não entendi muito bem, mas compreendi perfeitamente porque é que ele trazia debaixo do braço meia dúzia de discos de Beethoven, em vez da espingarda.

Assim que for dia, se dia chegar a ser nesta escura paisagem, lembraremos o amigo que na véspera escrevia versos com sangue da primeira bala, com a força da vida que cedo se apagou na segunda bala, gritando entre sonhos para os jagudis que o miravam e esperavam comer-lhe o corpo: O valor simbólico da percepção da vida está para além das filosofias baratas, e lembra que entre as grandes verdades da vida, outras mais pequenas se encontram a uni-las, como o amor, a poesia… e a morte.

A lua ia já muito alta, e caía a pique nas águas fundas do Cacheu. Eu e o padre capelão embarcávamos numa lancha LDM em direcção a Binta, que ficava vinte milhas a norte. Ele levava como missão confortar as almas e eu levava como missão tratar uma caganeira geral do pelotão que ali se encontrava. A margem esquerda do Rio Cacheu, o Oio, era uma mata completamente cerrada de tarrafe, e território dos guerrilheiros. A meio do caminho, nas entranhas do mais absoluto silêncio, apenas apunhalado pelo arrepiante pio de alguma ave nocturna, o padre perguntou-me: O que é para si a verdade? E eu respondi: Neste momento, para mim, a verdade não é esta enorme lua andar à volta da terra, mas as bazucas que, eventualmente, estarão por trás do tarrafe e nos farão mergulhar no fundo do rio, onde uma legião de jacarés esfomeados nos espera. A verdade para mim, caro padre, está no facto de estarmos aqui os dois, no coração da selva, sem termos a coragem de confessarmos um ao outro que não nos cabe um feijão no cu. O Senhor com o breviário e eu com Les Damnés de la Terre, de Frantz Fanon, duas realidades completamente diferentes, unidas pela força de uma pequena verdade circunstancial, o cagaço. E o Padre, com duas lanchas no fundo do rio desde há dois meses, ancoradas na sua cabeça, pedia explicações não se sabe a quem: Alguém tem de me indicar a saída da noite sem regresso, não pode haver quem não saiba o caminho da derradeira fome, do calor do resto de lume do último verso, não acha caro doutor? E eu respondi: Já viu estes passarinhos fritos, amavelmente e inesperadamente oferecidos por dois fuzileiros, no meio do Rio Cacheu, noite fora, nos confins da selva? Somos quatro dentro de uma lancha perdida no tempo, dois fuzileiros, um crente e um ateu. Enquanto deus anda à deriva, esta metralhadora com balas do tamanho de um palmo, não.

Os gritos sem voz das mães dos filhos que por aqui ficaram, nem sequer beliscavam o silêncio. Não havia mães nem filhos, nem momentos de aflição. Apenas medo. A sensação de que o tempo era de morte, e a superfície espelhada do rio um vidro vermelho de sangue deram para conversar: A noite e o vazio estão na origem cosmológica do mundo. Sofrer pode ser apenas sorrir. A pequena grande verdade do ser dissolve-se na tensão interna de quem ama a vida. Não será verdade? E o fuzileiro, ainda com alguns passarinhos na sertã de meio metro de diâmetro avançou: Já fiz muitas missões por este rio fora, mas nunca com um padre e um médico. Uma bênção e um privilégio, mas que, nem por sombras, me dão a segurança desta Browning. E deu um beijo na metralhadora.

Já a lua se havia sumido e o sol faiscava nas três ou quatro garrafas vazias, quando abrimos os olhos, estendidos no convés. Ainda ecoavam nos ouvidos as pequenas grandes verdades, libertadas pelo estimulante whisky que os dois fuzileiros conseguiram no contrabando: Parecendo às vezes um lago tranquilo de um qualquer paraíso-diz o segundo fuzileiro-e embora os rios corram para o mar, este parece nascer do mar, avançando sobre nós e tentando afogar-nos como aconteceu no último afundamento da lancha. Pois é, comenta o padre, parece uma blasfémia, mas os desígnios de Deus nada mais são do que interacções sensoriais e perceptivas entre realidades virtuais e realidades reais, indispensáveis à compreensão da vida e do papel do ser humano. Esta grande verdade nada mais produziu nos presentes do que um eructante soluço. Não se riam. Assim como a dor transforma em humilde ignorante todo o que a sofre, também a mente humana, no meio do cagaço, discorre sabiamente sobre todas as filosofias, respondi eu, com as palavras ainda envoltas em vapores etílicos: Nada se confunde plenamente, nada se distingue de forma absoluta, mas toda a nossa vida comporta áreas de intersecção muito importantes. Na relação gemelar entre os seres humanos, só a queda da hegemonia dos disparates torna possível as pequenas verdades da simplicidade da vida, no seu sentido antropológico.

Ao fim de dois dias, estancada a diarreia e reacesa a luz do Espírito Santo, alguém levantou, mais ou menos a despropósito, não o modus faciendi do seguimento para norte, mas a questão da transdisciplinaridade da vida, relação profunda e não superficial entre os saberes, uma das atitudes e estratégias fundamentais no avanço do conhecimento para a justiça, para a ética, para a solidariedade e cidadania, a fim de acabar com a puta da guerra. Dizia o alferes, já no fundo da garrafa de bagaço que trouxera de férias: Ainda há quem pense que existe um qualquer tipo de antagonismo entre imaginação de natureza poética, política, e bélica, mas não há. O que há é uma relação podre entre a razão e anti-razão, levando à morte das pequenas verdades e à destruição do ser humano.

Ora, nada destas filosofias tinha a ver com a terrível picada de vinte quilómetros que tínhamos pela frente, através da selva, durante sete horas, entre Binta e Guidage, já na fronteira do Senegal, onde íamos tentar acalmar alguns apanhados da cuca, pertencentes ao pelotão que lá se encontrava desterrado. O ataque de um enxame de abelhas selvagens a meio do caminho, ataque mais temido do que uma emboscada, foi uma daquelas pequenas verdades que se agarram como crude ao caminho da memória. Como não havia qualquer deus na farda do padre capelão a receber as angústias dos homens, concedi a mim mesmo a difícil tarefa de ser eu o senhor e dono do nosso desígnio. Com muita sorte e pequenas verdades dentro de uma caixa de ampolas de hidrocortisona, conseguimos reverter dois graves choques anafilácticos. Diga-me lá meu caro padre, de que nos servem as grandes verdades? Servem para lhe pagar, com todo o gosto, caro Doutor, a pequena verdade de uma cerveja, quando chegarmos a Guidage.

As pequenas grandes verdades da vida continuam a dizer-me que a relação do Homem com os inúmeros fenómenos que o rodeiam, com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende, é a mais poderosa essência da vida. A razão do Homem, fruto da obediência ao facto de existir…é um facto. Três perguntas: Não será esta cerveja, saída do fundo do bidon de gelo para uma goela a quarenta graus, um milagre? Acha que, algum dia, a terra engolirá os exércitos genocidas que se empanturram de vidas e se embebedam de sangue para glória do Senhor dos Exércitos? Há alguma razão para andar com um colar de orelhas ao pescoço ou dar um sabonete Lux às bajudas e fuzilá-las de seguida? O capelão, com um pé no Senegal e outro na Guiné – a fronteira era o caminho da fonte – encolheu os ombros, sorriu e sentenciou: Sempre haverá espinhos nos olhos e aguilhões nos flancos da vida. Sim, respondi, sempre haverá “grandes” verdades na noite do Homem, a tapar as pequenas verdades do nascer do sol.

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Nota do editor

Último post da série de 6 DE MAIO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25485: Os 50 anos do 25 de Abril (17) : Conversas sobre "Portugal-África. Guerra Colonial. Madrinhas de Guerra", com Marta Martins Silva e 3 antigos combatentes, Hélder Sousa, Luís Graça e Jaime Silva. 3ª feira, dia 7 de maio, no ISCSP-ULisboa, Campus Universitário do Alto da Ajuda

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Guiné 61/74 - P24203: Blogoterapia (311): A sombra do jagudi (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)

A SOMBRA DO JAGUDI

adão cruz

Acordei com um sol baço, esfreguei os olhos, espreguicei-me a todo o comprimento dos braços e bocejei a toda a largura da boca. Na rede mosquiteira, um grande insecto, enredado nas malhas, desesperava por se libertar, arrancando das asas um zumbido estridente de raiva e de agonia. Ainda ensonado, achei que era eu próprio a libertar-me da prisão onde me enfiaram.

Só tinha adormecido pela madrugada, com um peso no peito e um amargo na boca, deixado pela repetida leitura da carta da mãe da Sónia.

A Sónia vivia na África do Sul. Conheci-a em Lisboa, onde ela passava as férias com os pais, que eram amigos da família do meu colega Carvalho Santos. Era uma lindíssima miúda de vinte anos, cheia de sol e futuro. Com ela convivi durante os dias que precederam o meu embarque para a guerra da Guiné e o regresso da Sónia à África do Sul. O tempo suficiente para que dentro de nós se criasse uma linda relação e uma promessa de correspondência futura.

Entra a Guiné e a África do Sul, trocámos tantas cartas quantas o tempo e a distância o permitiram. Todas levavam e traziam as mais bonitas palavras que cada um de nós tinha dentro de si. Mas este fio de água cristalina que tão bem refrescava o calor da Guiné, subitamente secou. Durou metade da guerra. De um momento para o outro, as cartas deixaram de aparecer, como se no céu as estrelas se apagassem. A última que recebi foi da mãe da Sónia, dizendo que a filha morrera, vítima de um cancro da medula. Nunca de tal coisa a Sónia me falara. Nunca as suas cartas se escureceram. O estrondo que senti dentro do peito não foi menor do que o duma bazuca. Fugi para o meu quarto e encolhi-me até onde as carnes se dobraram. Dentro da carta vinha um pequenino alfinete de ouro, “a singela joia de que ela mais gostava” e que ainda guardo… mas não sei onde.

(Jagudi era o nome dos abutres, na Guiné)

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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE JANEIRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P23944: Blogoterapia (310): Não estou bem, e como anteriormente já dissera, voltei a ir para o "Corredor da Morte" (Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil Art MA)

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Guiné 61/74 - P23399: Blogpoesia (770): "Já Poeta não sou", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887

© ADÃO CRUZ


Em mensagem do dia 28 de Junho de 2022, o nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68) enviou-nos este seu pema:


JÁ POETA NÃO SOU

Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.
Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.
Quando a vida alumiava o infinito e eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.
Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino.

A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus.
Um dia abri as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só me apareceram muralhas.
Nada de crianças.
Os homens comeram as crianças os homens comeram-se crianças.
Os homens pariram-se adultos.
Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro.

Já não sou poeta não sou luz da serra nem sombra da noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada.
Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa.
Não sou quebra-luz nem gavinha entrelaçada num abraço de frio.
Não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem seiva.
Já não sou quem era não sinto as noites de prata nem mexe comigo a ventania que varre as faldas da serra.
Não me doem as videiras espetadas no céu nem os castelos de fantasia caídos por terra.
Cada erva cada semente é resto de uma canção que já não sei cantar.

Sete raios de sol queimaram o sonho que sete chuvas de esperma fecundaram.
Morreram Afrodites e leões de pelo fulvo quando se inventou a alma e eu não sou mais que rescaldo.
Fugiu do peito o coração foi-se embora o luar e o rio que eu era nem sequer chegou ao mar.

Resta-me a tarde que declina como o lento caminhar de uma nuvem para o fundo escuro da noite.
A tarde declina para onde não há outra manhã de corpos apertados e corações bem perto.
Resta-me a saudade da luz viva de um sonho perdido num campo de violetas.

Já não sou poeta nem nada nem credo nem sonho nem dilema nem a magra esperança de uma luz que faça nascer um verso para acabar o poema.
Sou pirilampo das sombras voando pelos regatos secos não sei se vou longe se vou perto se ao cimo se ao fundo não sei se giro por dentro ou por fora do mundo.


adão cruz
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Nota do editor

Último poste da série de 28 DE JUNHO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23392: Blogpoesia (769): Nomes atribuídos às Missões e Operações no TO da Guiné, por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro da CCS/BCAÇ 2845

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Guiné 61/74 - P22996: Os nossos médicos (92): Nunca na vida te deixarei sozinho (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico, CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


1 - Em mensagem de 12 de Fevereiro de 2022, o nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68) enviou-nos este seu conto:


NUNCA NA VIDA TE DEIXAREI SOZINHO

Nunca na vida te deixarei sozinho, disse a Isabel ao seu marido Joãozinho, na véspera de meter outro homem na sua cama.

A Isabel não andou na Faculdade, para assim falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato, era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres paridas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave caminhando fora dos passos. Isabel, o torvelinho das tonturas do Joãozinho.

Joãozinho, servente da messe, sabia a mulher que tinha e todo se babava quando a gente dizia que ela era mais linda que surucucu empinada, mais pura que fruto de cajú. Todo ele era uma viagem por dentro da Isabel, adivinhando-lhe o mundo no contar das coisas. Manhã levantada era sol de todo o dia, noite deitada era sonho que não morria.

Um dia…

Encontrava-me eu frente à palhota da Isabel, limpando com uma compressa embebida em permanganato de potássio, as feridas do dorso das vacas, verdadeiros buracos abertos pelos estilhaços das granadas e pelos pássaros pica-sangue, impiedoso tormento dos animais, quando ouvi atrás de mim uma voz de asas, leve de tempo, onde não havia destino, medida por lonjuras de sonho.
- Sr. Doutor, Sr. Doutor.

Do peito me nasceu um soluço que só anos mais tarde se escapou.
- Olá Isabel, que bela surpresa!
- Doutor, tenho galinha que consegui arranjar e vou fazer frango à cafreal para Doutor e nosso Capitão.
- Isabel, tu és um anjo, e nosso capitão, todo católico, vai pensar que é dádiva do céu, quando eu lhe contar.

Todos somos fingimento quando o sangue não se entorna no desaconchego da solidão. O provisório serve o regresso da alma, o fogo de outros calores invade os olhos através de janelas que há muito se não abriam. O capitão não mediu a fome nem a galinha, esqueceu a comunhão do Padre Gama, sonhou o despir da Isabel até à nudez pecaminosa e espetou os olhos no cair da noite.

Ao cair da noite, lá fomos os dois à palhota da Isabel, enquanto o Joãozinho lavava a loiça na messe. A Isabel estava no último acto da confecção do delicioso cafreal da tabanca. Primeiramente refogado, apenas em sumo de limão e piripiri, depois grelhado na brasa e em seguida frito com cebola.

Notei que os olhos do capitão se cruzavam constantemente com os meus, não na galinha mas nas ancas da Isabel. Seguiam a luz sensual do petromax, que penetrava abusivamente na malha de tule até às roupas que vinham de dentro. Senhora de reflexos e de encontros, Isabel não prestava menos atenção à sedução do que à galinha.
- Doutor, nosso Capitão, tenho gira-disco e morna, mim dançar para doutor e nosso capitão.

Não nos empenhámos em perceber como é que uma pequena caixa e um disco de madeira giravam música. O esvoaçar do tule era o centro do mundo, o arder da fogueira de todo o nosso frio. Toda a força daquele colo maternal, toda a ternura da silhueta envolta em cabelos penosamente desfrisados durante longos anos, toda a firmeza das carnes subtis, todo o trigo desse abrigo adormecido, toda a tempestade recolhida nesse pedaço de noite tombaram sobre nós quando a Isabel iniciou o strip-tease.

Não me lembro do sabor da galinha. Recordo apenas uma espécie de vento fustigando as entranhas, reduzindo-me a um calção e uma camisa, ardendo dentro de mim com sabor a cinza.

Olhámos um para o outro, sorrimos, assumindo o que sempre estivera assumido, antes de darmos ao espírito a momentânea liberdade de um passeio pelo sonho que morre ao pé dos coqueiros.

Aconteceu nessa noite ou na noite seguinte. O Joãozinho entrou em casa e deu com alguém a fugir da cama da Isabel. Pobre do Joãozinho, sofreu mais com a sova que deu na mulher do que com a traição. Sofreu mais pelo avesso do que ela dissera na véspera, nunca na vida te deixarei sozinho, do que em todas as noites que passara enterrado na bolanha à espera de turra. Doeu muito mais do que picada de escorpião.

Isabel apresentou queixa no Chefe de Posto. Argumentava e provava com as equimoses dificilmente visíveis na sua pele de negra. Dolorosas como as equimoses em pele de branca. Afastara bondades de Joãozinho, denegrindo sua violência, grande de mais para coisa de momento. Não ser vontade de ela mas força de imaginação que vem de dentro. Destino de todo fogo que acende rápido.

Foi constituído o tribunal. Perante o Chefe de Posto, Capitão e eu, compareceram queixosa e réu. O Joãozinho estava disposto a perdoar, a despeito de um sonoro desabafo, bengala de toda a sua alma, letra de toda a sua filosofia, resguardo de toda a sua defesa.
- Boca de ela ser boca de mim, olho de ela ser olho de eu ver, dor de ela corpo de mim qui dói, vida de ela valer morte de mim, mim ca pude pensar que Zabel durme cum gajo na cama de mim, dibaxo di memo tecto… inda si foi sinhô dôtô ou nosso capeton…!

(Conto rigorosamente verdadeiro. Mas nem dotô nem capeton estiveram na cama de Zabel).

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Nota do editor

Último poste da série de 10 de Fevereiro de 2021 > Guiné 61/74 - P21878: Os nossos médicos (91): recordando o sentido do humor do nosso saudoso J. Pardete Ferreira (1941-2021), ex-alf mil médico (CAOP, Teixeira Pinto, e HM 241, Bissau, 1969/71)

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Guiné 61/74 - P22548: (Ex)citações (392): Vamos lá pôr os pontos nos iii... “Exageros de Marcelino da Mata?“ (Carlos Silva, ex-Fur Mil da CCAÇ 2548/BCAÇ 2879)

1. Comentário do nosso camarada Carlos Silva, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2548/BCAÇ 2879 (Jumbembem, 1969/71), publicado no Poste P22539 em 14 de Setembro de 2021:

Amigos e camaradas:

Vamos lá pôr os pontos nos iii...

“Exageros de Marcelino da Mata?“

No livro agora recenseado pelo nosso camarada Mário Beja Santos,[*] é referido a páginas 71/72 que os “Roncos de Farim” foram chamados de urgência para tentarem resgatar a CCaç 1546/BCaç 1887, que fora apanhada à mão pelos guerrilheiros quando efectuava um reconhecimento em força na fronteira, mencionando:

"Em Agosto de 1967 …
[Pediram-me que os trouxesse de volta à Guiné Portuguesa. Sabia-se que tinham sido levados para um aquartelamento onde estavam foças do PAIGC e um batalhão de paraquedistas senegaleses. E nós lá fomos, 19 homens para resgatar 150!

Os do meu grupo iam todos fortemente armados, mas eu não. Levava apenas uma tanga igual à que os senegaleses usam naquela zona. Foi assim que consegui chegar perto do arame farpado. Os presos portugueses estavam todos sentados na parada, descalços e em cuecas. Um deles reconheceu-me e avisou o capitão.

Depois passaram palavra entre eles e esperaram pela acção“



“Atirei uma granada ofensiva para o meio da parada e no meio de grande tiroteio gerou-se confusão. Os “páras” senegaleses desataram a fugir e aproveitamos para tirar dali os nossos.

Foi assim que fugiram - descalços. Fizeram 40 quilómetros até à fronteira escoltados por nove homens do meu grupo, enquanto outros 10 ficaram para trás a aguentar os tipos do PAIGC.

Quando finalmente chegaram à Guiné Portuguesa, voltámos para trás para dar porrada aos guerrilheiros. Foi uma operação em que ganhei a Torre Espada, recorda Marcelino .” ]


O Autor não refere a fonte de onde extraiu este episódio, que nos faz lembrar os filmes de cowboys.

A
CCaç 1546 pertencente ao BCaç 1887 comandado por um grande combatente Ten Cor Agostinho Ferreira, seguiu em 13Maio66 para Piche, a fim de efectuar a instrução de adaptação operacional, sob orientação do BCaç 1856, até 02Jun66.

Seguidamente foi colocada em Nova Lamego, como subunidade de intervenção e reserva do Comando-Chefe e orientada para actuação na Zona Leste, onde foi atribuída ao Agr 24. Inicialmente, foi utilizada em operações realizadas nas regiões de Bucurés/Camajabá, Madina do Boé, Ché-Ché e Beli, entre outras, em reforço do BCaç 1856.

De 20 a 22Set66, foi utilizada numa operação realizada na região de Madina-Enxalé, em reforço do BCaç 1888.

Em 20Out66, transferiu a sua sede para Fá Mandinga, mantendo-se em reforço do BCaç 1888, tendo realizado várias operações nas regiões de Xitole, entre outras.

Em 16Dez66, foi substituída em Fá Mandinga pela CCAÇ 1589 e recolheu seguidamente a Bissau, onde se manteve até 27Dez66, após o que seguiu para Binta. Em 28Dez66, rendendo a CCaç 1550, assumiu a responsabilidade do subsector de Binta, com um pelotão destacado em Guidage, ficando então integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão, BCaç 1887.

Em 13Jan68, foi rendida pela CArt 1648 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

[In, Estado-Maior do Exército – Comissão para o Estudo das Campanhas de África ( 1961-1974 ), 7.º Volume – Fichas das Unidades - Tomo II – Guiné – 1.ª Edição – Lisboa 2002]

Ora, face à experiência de combate desta Unidade CCaç 1546, como decorre do seu pequeno historial, qual é o Combatente de boa fé que acredita nesta história que nos faz lembrar os filmes de cowboys?

Não vi, não ouvi e nem li e nem acredito que algum dos gloriosos Combatentes desta UNIDADE pertencente ao glorioso BCaç 1887, comandado por um Comandante de gabarito, Ten Cor Agostinho Ferreira, que alguma vez tenham omitido uma tamanha humilhação resultante do episódio descrito no mencionado livro intitulado "No mato ninguém morre em versão John Wayne, Guiné o Vietname português", págs 71/72 da autoria . da autoria de Jorge Monteiro Alves.

O nosso camarada bloguista Domingos Gonçalves, ex-Alferes da CCaç 1546[**], que esteve sediada em Binta com um Pelotão destacado em Guidage, e que por duas vezes esteve a comandar o pelotão destacado em Guidage, não faz qualquer alusão no seu diário composto por 3 volumes a um episódio de semelhante natureza.

Eu também nunca ouvi da boca de vários elementos dos “Roncos de Farim“, inclusive do próprio Marcelino da Mata, tamanha façanha, caso contrário teria mencionado no meu livro “Os Roncos de Farim“, na medida em que tratava-se de uma intervenção do grupo e por certo teria de ser comandado pelo Alf Filipe Ribeiro, à altura comandante deste grupo aguerrido, que não era e nunca foi comandado por Marcelino da Mata.

Vamos lá desfazer as mentiras, nem oito, nem oitenta.

Carlos Silva

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Notas do editor

[*] - Vd. poste de 13 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22539: Notas de leitura (1381): "No mato ninguém morre em versão John Wayne, Guiné o Vietname português", por Jorge Monteiro Alves; LX Vinte e Oito, 2021 (Mário Beja Santos)

[**] - Vd. poste de 20 DE DEZEMBRO DE 2014 > Guiné 63/74 - P14057: (Ex)citações (255): O Marcelino da Mata, que foi um militar valoroso, não precisa que se inventem, e lhe atribuam episódios desse género (Domingos Gonçalves)

3. Esclarecimento do camarada Domingo Gonçalves.

Prezado Manuel Luís Lomba:

Respondendo ao teu pedido de esclarecimento tenho a referir o seguinte:

Quando se realizou a operação em causa eu estava a comandar o destacamento de Guidage pelo que acompanhei muito de perto a operação Chibata.
Os Comandos de Farim - os Roncos -, como eram conhecidos, participaram na operação, comandados pelo Marcelino da Mata, que teve, uma intervenção importante no desenrolar dos acontecimentos.

Participei, aliás, em várias ações levadas a cabo pela CCAÇ 1546, reforçada pelo citado grupo. O Marcelino era um combatente arrojado. Teve influência decisiva em várias ações de combate. Ele e o grupo, claro.

Contudo, sobre o episódio da libertação de prisioneiros, pertencentes à minha Companhia, apenas posso referir, que é mentira. Quer a minha Companhia, quer as outras duas, a 1547 e a 1548, que integravam o BCAÇ 1887, fizeram, ao longo da sua permanência na Guiné, prisioneiros, mas não sofreram prisioneiros.

Vi, também, na Net, a descrição do episódio que referes. Uma libertação, aliás, de prisioneiros, de forma bastante simplória. Como disse, é pura mentira.
O Marcelino, que foi um militar valoroso, não precisa que se inventem, e lhe atribuam episódios desse género.


Último poste da série de 12 DE SETEMBRO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22538: (Ex)citações (391): Ainda não sabemos a proveniência da foto de capa do livro do TCor Pedro Marquês de Sousa, "Os números da guerra de África" (Guerra e Paz Editores, 2021), escolhida pela editora (António Bastos / Carlos Vinhal)

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Guiné 61/74 - P22454: Notas de leitura (1371): "Os Roncos de Farim", por Carlos Silva; editora 5 Livros, 2021, a ser apresentado amanhã na Tabanca dos Melros (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Agosto de 2021:

Queridos amigos,

Carlos Silva tinha guardado este acervo de apontamentos em que trabalhou durante anos até 2007. Dá-os agora à luz do dia com um conjunto apropriado de imagens, depoimentos e bibliografia junto até esse tempo. Continua a mexer nos papéis e promete para breve surpresas. 

O que ele aqui rolou tem a ver com o início e o desenvolvimento da história dos Roncos de Farim, falta esclarecer como é que este mítico grupo de combate arrumou as botas e quem o dirigiu depois do grave acidente de Cherno Sissé. 

Também não fica esclarecida a saída de Marcelino da Mata que mais tarde aparece como fundador de um grupo especial, Os Vingadores. Inquiriu os diferentes responsáveis pelo grupo de combate ao mesmo tempo que compendiava os sucessivos anos de atividade operacional desenvolvida. 

Temos aqui uma peça de extrema utilidade, se bem que focado numa região, Farim, onde a presença do PAIGC era constante, e presta-se a justa homenagem aos valorosos combatentes guineenses que sacrificaram a vida não só durante a guerra, como foram enxovalhados e executados no período da pós-independência.

Um abraço do
Mário



Aquele que foi o mais mítico grupo de combate português da guerra da Guiné

Mário Beja Santos

Começo por uma declaração de interesses: há anos que reúno uma estreita amizade e cooperação ao Carlos Silva. Vezes sem conta lhe bati à porta para lhe pedir livros emprestados (é possuidor de vastíssima biblioteca alusiva à nossa guerra), emprestou-me a história do BCAV 490, que eu não encontrava em parte nenhuma, ele atravessou o país para ir a um quartel e fotocopiá-la, foi obra indispensável para tudo o que escrevi no livro "Nunca Digas Adeus às Armas"; e o seu precioso dossiê sobre os "Roncos de Farim" já aqui foi alvo de recensão[*] e consta de um outro livro meu. 

Chamo a atenção do leitor que este livro, "Os Roncos de Farim", 5 Livros, 2021, reporta-se a um trabalho que estava concluído em 2007 e que hibernou até aos dias de hoje.

Surpreende-me a tenacidade deste nosso confrade que combateu em Farim, em 1969/1971, acompanhou o período terminal deste audacioso grupo de combate e conheceu os protagonistas, desde oficiais superiores, líderes do grupo de combate, com todos contatou para elaborar o documento, profusamente ilustrado, é uma verdadeira homenagem aos vivos e aos mortos que fizeram tremer os combatentes do PAIGC.

Carlos Silva começa por precisar a criação dos Roncos, falou com o alferes Filipe Ribeiro que postulou que foram constituídos na Operação Cigarra, que ocorreu em 10 de outubro de 1966, intervieram secções de milícias comandadas pelo 1.º Cabo Marcelino da Mata e por Cherno Sissé, Filipe Ribeiro contava com a sua colaboração e ficou satisfeito pelo valor militar demonstrado. 

O Tenente Coronel Agostinho Ferreira, comandante do BCAÇ 1887, concordou com a criação do grupo especial de tropa de choque. Filipe Ribeiro terá pensado nalguns nomes e considerou que os Roncos era a melhor designação que correspondia literalmente ao comportamento daqueles combatentes. 

Na ordem de serviço o grupo é criado formalmente em 15 de novembro de 1966, na dependência do BCAÇ 1887, sediado em Farim e com unidades militares disseminadas em Bigene, Guidaje e Binta, localizadas a Oeste, Jumbembem e Cuntima a Norte e Canjambari a Leste, bem como a zona de Bricama e Saliquinhedim-K3, a Sul, na outra margem do rio Cacheu. 

O comandante dos Roncos era o alferes Filipe Ribeiro coadjuvado por Marcelino da Mata e Cherno Sissé. Carlos Silva faz o historial de outras unidades a quem o grupo de combate esteve ligado, refere que participaram em mais de 30 operações desde a sua criação até ao final de 1967, com destaque à Operação Chibata, que decorreu em Cumbamori, já no Senegal. 

Ainda não está esclarecida a data de saída de Marcelino da Mata deste grupo de combate e o percurso percorrido por este, nos anos seguintes. O autor releva a atividade operacional no âmbito do BCAÇ 1887, há sempre louvores para o alferes, para Marcelino e Cherno, e descreve minuciosamente a Operação Chibata, de que, curiosamente, Luís Cabral, virá a ser primeiro dirigente da Guiné-Bissau depois da independência também relata no seu livro "Crónica da Libertação", pois nessa data ele e Chico Té estavam em Cumbamori. 

Os Roncos seguiam no primeiro dos três destacamentos da força operacional, entraram no acampamento de forma surpreendente, infligiram ao PAIGC um elevado número de mortos, capturaram armamento e documentos, mas na refrega perderam-se quatro vidas, Cherno Sissé foi ferido. Vale a pena destacar o que escreve Luís Cabral: 

“A surpresa tinha sido total. Depois de mais de quatro anos de luta armada, era a primeira vez que as forças colonialistas se aventuraram a entrar em território senegalês para, a partir daí, atacar uma base no interior deste país. Antes do romper da aurora, tinham-se aproximado cautelosamente do local onde estava instalada a nossa base. Até chegar à enfermaria, não tiveram nenhum contacto com a nossa gente. A barraca onde se encontravam os médicos e os técnicos cubanos foi a primeira a ser avisada. Um técnico cubano de artilharia deu o primeiro tiro que alertou toda a gente. Pela primeira vez eu estava presente num encontro entre as nossas Forças Armadas e o exército colonial”

Cherno Sissé contará mais tarde ao autor, chegou a haver luta corpo a corpo com recurso ao emprego da faca de mato.

Noutro capítulo, Carlos Silva destaca a atividade operacional no âmbito do BCAÇ 1932, estamos já em 1968, os atos valorosos sucedem-se e preparam as condecorações de Marcelino da Mata e de Cherno Sissé como Cavaleiros da Ordem Militar da Torre e Espada, para além das suas promoções. 

Nesta sequência, também o autor faz sobressair a atividade operacional dos Roncos com outra unidade militar, o BCAÇ 2879, estamos em 1969, ocorre um acontecimento histórico, numa localidade chamada Faquina foram apreendidas várias dezenas de toneladas de armamentos e munições. Os Roncos já são comandados pelo Furriel Cherno Sissé. 

A documentação oficial e as investigações apresentavam números díspares sobre a quantidade de armamento apreendido e foi neste contexto que Carlos Silva escreveu ao Major General Agostinho Ferreira para que este confirmasse o resultado da Operação Faquina, foram 24 toneladas. Mais tarde, os Roncos ficaram adstritos à Companhia de Caçadores 14, também sediada em Farim, o seu comandante, o então Capitão José Pais, irá contar no seu livro "Histórias de Guerra" o drama de Cherno que ficou, por razões de combate, sem uma perna e um olho e com um braço retorcido e mais curto, a viver em Lisboa em condições manifestamente degradantes. Foi assaltado em casa, reagiu disparando um tiro à queima-roupa, matou um dos gatunos. 

“A polícia desarmou-o e, enquanto saía à rua pedindo reforços e uma ambulância para o morto, a populaça atacou Cherno e com um varão de ferro vazou-lhe o único olho que lhe restava. Cherno Sissé ficou cego e foi preso. Lá fui à Boa-Hora e lá tentei explicar ao meritíssimo juiz o que é ter servido o Exército Português, o que é ter sido combatente operacional na Guiné durante nove anos seguidos, o que é ser ex-combatente desprezado e o que representa para um homem destes a perda da dignidade pessoal, face à vida. O meritíssimo parece ter entendido e aplicou-lhe três anos e meio”.

Carlos Silva junta anexos, referências, por exemplo, a Bodo Jau, um bravo do pelotão dos Roncos de Farim que posteriormente fez parte do grupo Os Vingadores, que foi fundado por Marcelino da Mata.

Uma obra de profundos afetos, insista-se. E dou comigo a pensar como a atividade operacional destes bravos veio de um passado que historicamente parece inexistente, lê-se a atividade operacional de 1966 a 1968, há todos estes atos de bravura que o autor aqui regista e em quase tudo quanto se tem publicado sobre a História da guerra da Guiné há um manto diáfano de silêncio sobre tudo o que foi combater com denodo e bravura até Spínola ter surgido e merecer em exclusivo as honras do heroísmo e da combatividade. Mistérios da historiografia.


Tenente Coronel Marcelino da Mata
Alferes Miliciano Filipe José Ribeiro e o 1.º Cabo Cherno Sissé (CCAÇ 1585)
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Notas do editor

- Este livro vai ter amanhã, dia 14 de Agosto de 2021, a sua primeira apresentação na Tabanca dos Melros, Fânzeres, Gondomar, durante o habitual convívo dos segundos sábados de cada mês.

[*] - Vd. poste de 25 de outubro de 2013 > Guiné 63/74 - P12199: Notas de leitura (528): "Os Roncos de Farim - 1966-1972", por Carlos Silva (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 10 DE AGOSTO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22445: Notas de leitura (1370): Prefácio de Ricardo Figueiredo ao livro "Um caminho a quatro passos", de António Carvalho

domingo, 4 de outubro de 2020

Guiné 61/74 - P21416: Blogues da nossa blogosfera (142): Jardim das Delícias, blogue do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (53): Palavras e poesia


Do Blogue Jardim das Delícias, do Dr. Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68), com a devida vénia, reproduzimos esta publicação da sua autoria.




 GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS)

ADÃO CRUZ

Bigene


Esta velhota, fumadora de cachimbo, veio um dia ter comigo porque tinha o “Verme-da-Guiné”. Chamávamos a este verme “Dracontia”.
Embora Dracontia seja o nome de uma das vinte e cinco mil espécies de orquídeas, aqui é um parasita denominado “Dracunculus Medinensis” o qual produz uma doença chamada “Dracunculíase”. Pertence ao grupo das “Filarias” e é um parasita que é transmitido pela água infectada com larvas de Dracunculus. No intestino acasala-se com os machos, que depois morrem, e em seguida infiltra-se na pele, no tecido celular subcutâneo (gordura debaixo da pele), onde cresce e se desenvolve, podendo atingir o tamanho de um metro.
Aloja-se em qualquer parte do corpo, mas aparece sobretudo nas pernas e abdómen. Não tem tratamento, podendo causar graves infecções e processos inflamatórios. Vi alguns casos, e felizmente todos bem sucedidos, graças a uma técnica que alguém inventou, e quem a inventou, não há dúvida que “tinha esperto no cabeça”.

Reparem bem na maravilha desta invenção. O parasita vem pôr os ovos (um a três milhões) quando está dentro de água. Para isso abre um pequeno orifício ulceroso e muito doloroso, onde enfia uma espécie de cabeça, semelhante ao escolex da ténia. Nesta mulher, essa úlcera estava na parte interna da perna, logo acima do tornozelo. Então, com uma pinça, agarra-se a cabeça, puxa-se suavemente para fora alguns centímetros (nunca por nunca partir ou romper, pois dessa forma fica o caldo entornado e nunca mais o conseguimos tirar), e enrola-se num palito, fixando-o à perna com adesivo.
Ao outro dia, como o verme se sente preso, sai um pouco mais para o exterior e enrolamos mais uns centímetros, fixando de novo com adesivo. E assim sucessivamente, todos os dias, até sair por completo, o que pode levar semanas. Associamos alguma medicação analgésica, anti-infecciosa e anti-inflamatória.

Em 1986 havia cerca de 3,6 milhões de casos. Nesta altura, o Verme-da Guiné, existente em muitos outros países, está praticamente erradicado.

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Nota do editor

Último poste da série de 7 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21396: Blogues da nossa blogosfera (141): Jardim das Delícias, blogue do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (52): Palavras e poesia

domingo, 27 de setembro de 2020

Guiné 61/74 - P21396: Blogues da nossa blogosfera (141): Jardim das Delícias, blogue do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (52): Palavras e poesia


Do Blogue Jardim das Delícias, do Dr. Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68), com a devida vénia, reproduzimos esta publicação da sua autoria.




 GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS)

ADÃO CRUZ

Bigene - O nosso Corpo Clínico




O que está do meu lado esquerdo, de barbas, é o furriel Pimentinha, meu furriel enfermeiro, que ainda hoje me telefona uma a duas vezes por ano. A sua profissão, antes de vir para a guerra, era electricista, electricista do Hotel Estoril-Sol. Pois, meus amigos, transformou-se num excelente parteiro e melhor puericultor. Leu e releu a minha sebenta de obstetrícia e deixava os bebés todos perfumadinhos e polvilhados de pó de talco, o que fazia a delícia das mães.

Duas histórias sobre o Pimentinha:

Primeira:
Um dia de madrugada, apareceu uma parturiente com uma apresentação de pelve, isto é, com o bébé a nascer de rabito em vez da cabeça. É um parto difícil e perigoso. Tentei, quanto sabia, algumas manobras, o mais suaves possível, mas não fui bem sucedido. Virei-me para o Pimentinha e disse: - meu caro Pimentinha, logo que comece a raiar a manhã, peça uma evacuação “Y” (urgente) de helicóptero, para levar esta mulher para Bissau, e fui-me deitar. Algum tempo depois, entra o Pimentinha no meu quarto, dizendo cheio de entusiasmo: - sr. Dr. o catraio já está cá fora. Com muito jeitinho lá consegui tirá-lo.


Segunda:
O Pimentinha ia de avioneta a Bissau, acompanhar um soldado que tinha um enorme hidrocelo (líquido nos testículos). Logo pela manhã, a avioneta, um Dornier levantou voo e meio minuto depois estatelou-se no solo. Felizmente não morreu ninguém, apenas o piloto fracturou uma vértebra. A carlinga da avioneta passou a ser a casota do nosso macaco.

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Nota do editor

Último poste da série de 20 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21376: Blogues da nossa blogosfera (140): Jardim das Delícias, blogue do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (51): Palavras e poesia