O primeiro parto que fiz na Guiné. A mãe registou o bébé com o nome de Adão Doutor
1. Mensagem do nosso camarada e amigo Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68, com data de 27 de Abril de 2026:
Estive ontem em Vale de Cambra, na apresentação do livro “Guerra do ultramar, combatentes de Vale de Cambra", cujo autor é o amigo Professor Martinho Almeida. Tenho uma pequena colaboração no livro, da qual já não me lembro. Infelizmente, por razões pessoais, fui obrigado a abandonar a sessão, tendo ouvido, ainda, o apresentador do livro, cuja palestra achei correcta e historicamente fidedigna. Perdi, com pena, a intervenção do autor, que presumo ter sido importante.
Sendo um dos ditos “combatentes”, e tendo uma visão provavelmente bem distante das centenas de pessoas que encheram a sala, gostaria de deixar aqui a minha posição. Fui um dos primeiros a serem mobilizados no concelho de Vala de Cambra, para a guerra colonial da Guiné-Bissau, como médico. Princípios de 1966 até ao fim de 1967. Queria dizer que fui empurrado à força para uma guerra que nada me dizia, uma guerra cruel, injusta e criminosa como são todas as guerras coloniais. Não me considero combatente de nada nem de ninguém. Apenas combatente da doença e da injustiça.
Não levei agarradas a mim qualquer honra ou qualquer pátria. A minha missão e o meu dever resumiam-se curar doentes, militares e nativos, a salvar o maior número de vidas possível e a procurar encontrar os melhores resultados de uma verdadeira acção pedagógica e psico-social. Estive sempre no mato, na linha da frente, quer no leste da Guiné quer no norte. Sofri muito. Sofri muito com as perdas dos nossos soldados, sofri com as perdas das milícias e dos seus familiares, sofri com a pobreza e a desgraça dos nativos e também dos próprios guerrilheiros, a quem nunca chamei nem seria capaz de chamar “turras”.
No fim de contas, e de forma resumida, cheguei à conclusão de que a vida é uma sucessão de acasos, o que leva a que seja muito difícil dizer o que se perde ou que se ganha. Neste caso, com a obrigação de cumprir o serviço militar, não sei bem o que perdi, mas sei o muito que ganhei em experiência de vida com esta guerra tão dura e cruel. A Guerra Colonial, onde quer que se tenha dado, onde quer que se dê ou venha a dar é sempre um crime contra a humanidade e a soberania dos povos, decorrente de outro histórico crime, o colonialismo, por sua vez pai do neocolonialismo e do imperialismo.
Não posso dizer que sinto saudades da minha vida na guerra, longe disso, mas é impossível não ter recordações. A guerra ainda hoje arranca dentro de mim uma espécie de nostalgia estranha, um rebuscar no fundo do tempo o sentido do sangue que corria nas veias, uma sensação de perda profunda, semente de uma vida que até hoje aceitámos como vitória. Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou.
_____________
Nota do editor
Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27833: (In)citações (285): Somos camaradas, mas somos mais do que isso, somos amigos! Somos assim camaradas e amigos, ou seja, somos camarigos! (Joaquim Mexia Alves, régulo da Tabanca do Centro)


Sem comentários:
Enviar um comentário