Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Rio Geba > 1969 > Uma belíssima foto de uma lavadeira, em contraluz. O Valdemar Queroz atribuiu os créditos fotográficos ao seu "irmão siamês" Cândido Cunha.
Foto (e legenda): © Cândido Cunha / Valdemar Queiroz (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Com a nossa chegada a Aldeia Formosa as mulheres locais acorreram em grupos à procura dos “periquitos” oferecendo os seus préstimos para a lavagem da roupa.
O dia da lavadeira era o mais esperado da semana no quartel. Vinham em rancho com os seus trajes coloridos, com a trouxa de roupa à cabeça e uma alegria contagiante nos rostos. Aguardavam impacientes junto ao sentinela a autorização para entrarem no quartel, o que geralmente acontecia ao meio da tarde, e era vê-las entrar em grande algazarra, de sorrisos rasgados, dispersando-se pelo quartel como rebanho comunitário acabado de chegar, do monte, ao povoado. (...)
Cada lavadeira lavava a roupa de vários militares mas nunca trocava uma única peça que fosse. Achava extraordinário como fixavam o nome de todos os militares e suas patentes. Mais extraordinário porque de 2 em 2 anos estes eram substituídos por outros, e assim sucessivamente ao longo dos anos. (...)Certo dia, a minha lavadeira chegou com uma grande trouxa de roupa à cabeça lavada e já separada pelos diferentes donos. Colocou-a junta à porta da caserna dos furriéis e ficou à espera que aparecesse alguém para a entregar. Como não apareceu ninguém foi à procura. Entretanto, chega um colega que pega na trouxa e começa à procura, na tentativa de encontrar as suas peças. Deixou tudo numa grande desordem e não encontrou nada seu, nem podia já que esta não era a sua lavadeira.
Quando esta chega, quase ao mesmo tempo que nós (eu e mais dois camaradas, sem certezas julgo que o Carlos Machado e o António Gouveia), a rapariga fica muito preocupada e, ao mesmo tempo, indignada com o que fizeram à sua trouxa de roupa, desfazendo-se em desculpas com receio de ser despedida por desleixo.
Começámos a separar as nossas peças, tentando acalmar a simpática e eficiente lavadeira. Ela, um pouco mais calma e já com um sorriso nos olhos, tira as nossas mãos de cima da roupa e começa ela a distribuir: esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'... esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'….
Nem de propósito, este foi o dia em recebemos, pela primeira vez, a visita do “grande chefe” (General Spínola) a quem prestei honras militares com o meu pelotão com a farda bem lavada e engomada e o que fez Spínola retardar o gesto da continência, dado o cheiro agradável a roupa lavada!... (**)
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 23 de março de 2021 > Guiné 61/74 - P22028: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte V: As nossas lavadeiras... e o furriel 'Pequenina'



5 comentários:
Como diz o Joaquim (que faz anos) as nossas lavadeiras na Guiné eram uma "instituição"... Quem é que não era sensível ao cheirinho a roupa lavada e engomada? ... Tanto mais que vínhamos do mato a "tresansar a merda"...
Não sei se a roupa do governador e com-chefe era lavada no rio Geba como a minha. Mas que ele andava sempre "impex", andava!...
Gostei, Joaquim.
Um Ab.V.C.
O que vale é que não usávamos roupa com muitos botões.
Na traseira do Palácio do Governador havia um pequeno edifício que alberava a Guarda ao Palácio e a Lavandaria do Palácio, esta servida por trabalhadores guineneses. Durante os dois meses que lá servi como Sargento da Guarda ao Palácio também pagava aos trabalhadores da Lavandaria para tomarem conta da minha roupa. Acrescento que o seu trabalho era impecável.
Abraço transatlântico.
José Câmara
Obrigado, José Câmara... Mas tinha mais piada a farda do nosso Com-Chefe ser lavada no rio, como as nossas...
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