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domingo, 25 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28462: Documentos (70): "Relatório Periódico da Acção Psicológica n° 2: período 01 a 29Fev64; um exemplo, amadorístico, de "fazer psico", ainda do tempo do brig Louro de Sousa, com-chefe






Legenda: " A África é nossa amiga. A família e os amigos abraçam a gente do mato que estva enganada e não vivia na tabanca há muito tempo".



Guiné > c. 1965 > Estamos a reproduzir os postais de propaganda das NT, dirigidas ao IN e à População. Fazem parte de uma colecção do Joaquim Sequeira (1940-2024), ex-1º cabo canalizador, BENG 447 (Brá, 1965/67), carinhosamente tratado por "Sintra" (ele morava no Mucifal, concelho de Sintra, e era assíduo frequentador da Magnífica Tabanca da Linha).

Trata-se de uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro. Ccmeça com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz"). À direita está escrito, esferográfica azul: "Do Sintra, 8/65".

Estes postais de propaganda têm vindo a ilustrar os últimos da série "Documentos" dedicados à "ação psicossocial" das NT no CTIG (*).

No primeiro postal mostra-se um grupo de "homens do mato" (nunca "guerrilheiros"), feridos, esfomeados, esfarrapados, desmoralizados. Os combatentes do PAIGC nunca são tratados como tal, mas simplesmente como "homens do mato" (leia-se: bandidos, foragidos, indivíduos que estão fora da lei e da ordem).

Aliás, no nosso tempo, "ir no mato" era, no falar das gentes da Guiné ( a começar pelos soldados do recrutamento local), juntar-se à guerrilha, fugir das zonas sob administração portuguesa (civil e militar).

Portugal, de resto, nunca reconheceu o PAIGC como inimigo, no sentido militar e legal do termo, nem a luta contra o "terrorismo" (ou a "subversão) como uma situação de guerra, face à Convenção de Genebra.

O título do primeiro postal é : "No mato, há doença, fome e morte", A legenda, por sua vez, acrescenta o seguinte: "O Chefe do Grupo do mato julga que vai morrer. Foi gravemente ferido". Deduz-se que são os sobreviventes de uma ação ofensiva das NT.

No 2º postal vemos o mesmo grupo de "homens do mato", desalços, vestiados apenas de tanga ou calções (!), a entregar-se às autoridades militares portuguesas da zona.

Depois do chefe do mato ter ido falar com o "homem grande da tabanca" (o régulo, que veste à maneira fula, o que está longe de ser inocente, já que os fulas eram os nossos grandes aliados), o homem grande intercede por eles junto da tropa. Legenda: "O Homem Grande diz à tropa que estes homens foram enganados, estão arrependidos e fartos da guerra".

No 3º postal, vemos os "homens do mato, arrependidos" serem bem tratados pelas autoridades portuguesas: (i) a começar pelos enfermeiros da tropa que cuidam dos seus ferimentos, (ii) bebem referigerantes com os nossos soldados do recrutamento local; (iii) recebem alimentos (pão, arroz, conservas) da tropa.

No 4º postal, vemos uma tabanca ou aquartelament com tabanca ao lado, sob a bandeira portuguesa- Legenda: 

"A África é nossa amiga. A família e os amigos abraçam a gente do mato que estava enganada e não vivia na tabanca há muito tempo".  

Julgamos haver alguma ingenuidade e sobretudo desconhecimento do território por parte do ilustrador gráfico. Por outro lado, a legenda "A África é nossa amiga" pode parecer um "remake" de um célere slogan de 1961, "Angola é nossa", ou então um "lapsus linguae"... 

Para um cartaz dirigido aos guineenses, fazia mais sentido dizer "A Guiné é nossa amiga"...Que a África, essa, ou pelo menos a OUA (Organização de Unidade Africana), éramos cada vez mais hostilll

Apresenta-se a seguir um excerto de um dos primeiros relatórios periódicos de acção psicossocial. Data do tempo do tempo brig Louro dos Santos. É contemporâneo da Op Tridente. O mínimo que se pode dizer, é  que um exemplo ainda muito amadorístico da acção das NT... Ainda não naão a Rep ACAP (Assuntos Civis e Ação Psicológica). O Exercito aí da estava a aprender a "fazer a psico" e contava com escassos recursos, de médicos a professores, de engenheiros a antropólogos...  Mas, enfim, cabe sobretudo aos leitores comentar.

Todavia, ficamos a saber algumas das coisas que se passavam no terreno, no mês de fevereiro de 1964: 

  • sete batalhões era o essencial do dispositivo das NT;
  • "ainda a guerra era uma criança" (embora já estivesse a decorrer a Op Tridente. jan / mar 64);
  • Guileje acabava de ser ocupado pelas NT (jan64), tal como Cumbijã e Ganturé;
  • ainda se cultivava mancarra (na zona leste), a "semente do diabo" (como lhe chamavam os fulas), obrigados a cultivá-la para fazer patacáo e pagar o imposto de palhota:
  • as minas e armadilhas não eram apenmas um instrumento de terror, mas também de propaganda;
  • continuava, por parte do PAIGC, a prática da intimicao e do assassinato (dos régulos fiéis as NT);
  • cortar orelhas aos que colaboravam com as NT também fazia parte da "justiça revolucionária";
  • o IN que deixa panfletos nos trilhos dirigidos aos "Caros inimigos" (sic);
  • de um lado e do outro, sabe-se que ganha a guerra quem tiver o apoio das populações;
  • percebe-se que a administração civil colapsou com o início da guerra;
  • ainda era difícil, a nível de comando, operacionalziar o cocneito de "propaganda";
  • referida a importância da rádio e dos "jornais de parede";
  • ainda não havia uma aposta forte na assisténcia sanitária (limitada na prática à distribuição da "milagrosa pastilha LM", ou seja, a "aspirina" do Laboratório Militar que funcionava como panaceia (cura para os males);
  • a assistência económica ainda era  "miserável" (um arremedo de "caridade") (se a compararmos com o tempo do gen Spínola);
  • quanto às NT, e ao fim de  um ano, "(continuavam) a dar provas da sua grande capacidade de adaptação e resistência fisica".

Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]


"Relatório Periódico da Acção Psicológica n° 2: período 01 a 29Fev64
 

(Excertos de: CECA, 2014, pp. 271/278)


Acção Psicológica


Para se dar uma noção do trabalho de acção psicológica ao nível das unidades e QG/CTIG apresenta-se como exemplo:

"Relatório Periódico da Acção Psicológica n° 2: período 01 a 29Fev64

Este relatório foi elaborado com base nos relatórios enviados pelas seguintes Unidades:

  • BCaç 506 (*), 
  • BCaç 507 (*), 
  • BCaç 512 (*), 
  • BCaç 513 (*), 
  • BCaç 599 (*), 
  • BCaç 600 (*)
  • e BCaç 619.
(*) Apenas composto de Comando e CCS, não dispondo de subunidades operacionais orgânicas.
 


Dispositivo das NT em 1 de julho de 1964. Fonte: adapt de CECA (2013)



Guiné > Região de Tombali _ Qiuitafine > CCAÇ 726  (Guileje, out 1964/ julho de 1966)> Cambança de um rio... Foto: Arquivo pessoal de Alberto Pires, o "Teco" (Adapt de CECA, 2014.  Restituição e colorização digital, com recurso a IA/ChatGPT)



1. Generalidades

a. Segundo se constata de alguns relatórios recebidos, a acção psicossocial desenvolvida, apesar de todas as dificuldades, tem dado resultados apreciáveis cujos frutos já se colhem, em alguns sectores;

b. No aspecto social nota-se que, em certas regiões do Gabú, a campanha da mancarra aumentou os proventos da população, tornando menos necessária a acção dos nossos elementos. Inversamente, nas regiões que confinam com aquelas onde o ln exerce a sua actividade, a miséria tem aumentado e com ela a necessidade de intervenção das NT;

c. No campo psicológico, além do mencionado no relatório anterior, a acção sobre as populações tem sido alargada, nomeadamente na região de Guileje, ocupada no princípio do mês;

d. A acção psicológica sobre o ln continuou a ser feita principalmente, através da actividade operacional. É de admitir que a dificuldade que o adversário tem encontrado em aliciar determinadas populações e a fidelidade incontestável de outras lhe crie problemas de natureza psicológica.

2. Acção Psicológica conduzida pelo adversário

a. A acção psicológica desenvolvida pelo ln continuou tendo como objectivo principal a obtenção do apoio da população a qual procura indispor contra as NT.

Admite-se que a colocação de minas e engenhos explosivos nas e stradas que passam próximo das povoações, tenha, também, por fim levar-nos a supor que foram essas populações que os implantaram e sobre elas exerçamos acções punitivas, as quais eles exploram a seu favor;

b. Enviou duas mensagens (assinadas por Nicolau Correia) ao Régulo Malan Soncó de Missirá, cujo conteúdo é "um convite a retirar as tropas de Missirá e um ajuste de contas futuras, nem que seja daqui a 10 anos".

Na região de Ingoré, cortou uma orelha a quatro nativos do Sedengal como represália por terem colaborado connosco na região de Bula-Binar. 

Continua a amedrontar as populações tendo, entre outras acções, morto o chefe da tabanca de Pete (15451205 Hl) e espancado os filhos por terem também colaborado com as NT.

No Senegal, o ln tem impedido o regresso de numerosos manjacos a Teixeira Pinto, dizendo-lhes que a tropa os vai matar.

Sobre a actividade psicológica ln considera-se de interesse transcrever a seguinte passagem dum relatório duma Unidade:

" ao que se julga o ln está a enveredar algo frequentemente pelo campo de intimidação ou até da violência. 

Será um mau caminho, porquanto o nativo vítima terá dois termos de comparação - a acção das NT e as suas possibilidades e a acção do ln com a sua nomadização, doença, pilhagem e promiscuidade - entre os quais o esclarecido e bem orientado não terá dúvidas em escolher. 

Admite-se, como conclusão, que a acção psicológica conduzida pelo adversário sobre as populações nativas não está em campo de progressão. Antes, sim, de regressão. A mentira, de que com frequência lança mão, acaba por vir ao de cima e só nos pode vir a beneficiar, à medida que vai ficando patente";

c. A acção psicológica que o ln por vezes ensaia sobre as NT não tem obtido qualquer resultado. 

Durante o período a que este relatório se refere foi encontrado um panfleto ln na região de Missirá, no qual nos manifestam o seu desejo de combater e nos convidam a regressar à Metrópole.  Como nota curiosa salienta-se o facto de nos tratarem por "Caros Inimigos".

3. Acção Psicológica conduzida por órgãos estranhos à Unidade

Duma maneira geral, os relatórios enviados das Unidades não  contém ou contém muito poucas informações acerca destas actividades.

Reconhecem as melhores ou piores relações existentes entre as diferentes autoridades e as variações que as mesmas vão sofrendo, conforme a evolução dos acontecimentos se verifica ou não de modo a satisfazer os seus pontos de vista. 

Reconhece-se a vantagem de existir um plano de conjunto no qual todos se integrariam o que, além do mais, permitiria tirar maior rendimento dos meios existentes.

4. Acção Psicológica conduzida pelas Unidades

a. A acção psicológica desenvolvida sobre as populações teve os seus aspectos mais relevantes pelo que respeita à ocupação de diferentes localidades ao longo da fronteira sul. 

Do relatório do Batalhão respectivo transcreve-se o seguinte:

"A ocupação de Guileje, Cumbijã e Ganturé moralizou extraordinariamente as populações. Antes de efectuada esta ocupação, teve-se o sentimento de que as populações, por influência da propaganda do ln, punham algumas reservas sobre a possibilidade de um dia voltarem às suas terras. Mais saliente no régulo Abibo, de Gadamael, este sentimento, agora felizmente desvanecido."

- O mesmo comando considera que os êxitos obtidos só ficarão completos quando o régulo Abibo lograr atrair à tabanca a população que está dispersa ou quando se verificar a ocupação de outras localidades consideradas de importância.

- Pelas Unidades competentes foi exercida uma determinada acção psicológica sobre os elementos da população que, tendo sido raptados pelo ln e levados para o Como, agora
regressaram às suas tabancas por acção das NT.

- Fez-se uma reunião com os grandes de Missirá e de outras tabancas, tendo-se salientado as intenções da tropa e chamado a atenção para as diferenças de procedimento entre os terroristas e as NT.

- As NT têm visitado frequentemente a população do Geba, começando a verificar-se modificação na sua maneira de  ser. Primeiramente apresentavam-se ressentidos mas com a
assiduidade da nossa presença tornaram-se mais comunicativos e até já se realizaram jogos de futebol entre equipas de militares e civis. 

(1) Propaganda

Além do que tem sido dito nos relatórios anteriores, pouco mais se poderá acrescentar. Julga-se, no entanto, que, com o fim de unificar o conceito de propaganda existente
nas diferentes Unidades não será descabido transcrever a seguinte definição de tão discutido termo:

" Propaganda é qualquer informação, ideia, doutrina ou apelo especial, disseminado com o fim de influenciar opiniões, emoções, atitudes e comportamento dum determinado grupo cujas reacções devem beneficiar os promotores directa ou indirectamente".

(2) Contrapropaganda

Acerca deste parágrafo, por se considerar de interesse transcreve-se o que consta dum dos relatórios recebidos:

" Nunca se esgota o tema da cooperação entre a acção benéfica das NT e a violência, a mentira e o não cumprimento do prometido por parte do adversário. Este campo é melindroso e tem de ser trilhado com tacto e não a esmo.

Devem estabelecer-se ideias fixas esclarecidas sobre o que deve dizer-se ao nativo nas "conversas" em que tal ponto se debate. 

As atitudes que vêm sendo frequentes, da apresentação de cumprimentos pelos chefes e homens grandes, às autoridades militares são sempre aproveitados para tal doutrinação".

(3) As informações fornecidas não impedem que tivessem circulado alguns boatos, principalmente relacionados com as operações em curso. 

Igualmente é de referenciar o aparecimento de um boato que, já há bastante tempo circula e que diz respeito ao tempo de permanência das Unidades nas Províncias Ultramarinas.

b. A acção psicológica sobre o ln fez-se sentir principalmente na região de Como, Caiar e Catunco onde se têm realizado importantes acções militares.

As operações realizadas ao longo da fronteira sul devem também ter afectado o ln que, por via delas, vê dificultadas as suas possibilidades de movimento e a sua acção de propaganda junto das respectivas populações.

c. A acção psicológica sobre as NT tem-se processado normalmente sendo de admitir que tem tido boa aceitação o programa de rádio diariamente emitido.

 Esta actividade tem tido apenas um carácter recreativo e são muito frequentes os pedidos de músicas preferidas, as quais, dentro das possibilidades, tem-se procurado satisfazer.

- Algumas Unidades têm publicado jornais de parede o que, segundo afirmam, também tem tido bom acolhimento por parte das praças e se confirma ser um bom meio para aumentar os seus conhecimentos e ajudar a formular as suas opiniões.

5. Acção Social


a. Enviadas pela Cruz Vermelha Portuguesa foram recebidas  apreciáveis quantidades de medicamentos, vestuários e leite condensado que serão brevemente enviadas para os Batalhões a fim de que possam contemplar os elementos que julgarem mais merecedores.

b. A acção social tem-se mantido sem alteração nos diferentes campos de acção.

(1) Assistência sanitária

Durante o período a que este relatório se refere foi possível obter os seguintes dados estatísticos referentes a este tipo de assistência:



A assistência sanitária administrada em 3 dezenas de localidades , tantas quantas onde havia aquartelamentos das NT no início de 1964  (Fonte: Adapt de CECA, 2014)



Mais uma vez as Unidades são unânimes em afirmar que este tipo de assistência é o que tem dado melhores resultados. A testemunhar esta opinião, num dos relatórios pode ler-se:


" De todas as actividades sociais, continua a ser a assistência sanitária a que mais parece sensibilizar as populações, até porque o estado de doença é o que, psiquicamente, mais valoriza a humanitária tarefa de quem sabe tratar de igual modo corpos e almas. 

Daí o papel importantíssimo desenvolvido pelos médicos militares, a merecer as maiores atenções até para além do âmbito estritamente militar".

(2) Assistência religiosa

- A nota mais saliente da actividade religiosa desenvolvida durante o período é a que se refere à celebração da missa em Geba, por um capelão militar, à qual assistiu elevado número de pessoas.

- Este período foi também caracterizado pelas festas do Ramadão que permitiu a vários elementos qualificados das NT assistirem, como convidados, a alguns dos seus actos
de culto religioso ou manifestações festivas.

O respeito pelos seus usos e costumes deve ser objecto de cuidada doutrinação dentro das NT, nomeadamente entre os menos cultos.

(3) Assistência educativa

- Embora com as dificuldades mencionadas no relatório anterior têm continuado a funcionar as escolas mantidas no âmbito da Acção Psicossocial.

- Extraiu-se dum relatório recebido a seguinte passagem julgada de interesse:

" Num domingo, foi feita uma visita à escola de Jugudul onde se sabia que os alunos estavam a jogar à bola. Com  
o pretexto de ver a escola, provocou-se uma reunião com
os alunos que, na quase totalidade, estavam presentes.

Um aluno da 4ª classe que é auxiliar do professor, foi buscar giz e pediu para darmos aula. Perguntou-se o que queriam saber e aproveitou-se a oportunidade para, ao mesmo tempo que se faziam perguntas se explicarem as proporções entre as superfícies dos territórios ultramarinos e da metrópole, comparando com as populações que
habitam esses territórios e realçando o valor do conjunto como unidade nacional. Isto pareceu bem compreendido.

Foi evidente a diferença entre a expressão de estranheza e receio revelado pelos alunos à nossa chegada e o ar confiante que mostraram no fim da visita".

- Em várias localidades tem-se realizado competições desportivas entre equipas mistas de militares e civis, o que tem servido de pretexto para estreitamento das relações
entre uns e outros.

(4) Assistência económica

Entre outras actividades relacionadas com este tipo de assistência destacam-se as seguintes:

- protecção a nativos nos trabalhos agrícolas nas áreas ameaçadas pelo ln;

- facilitados muitos transportes de colheitas e de haveres de habitantes deslocados por acção do terrorismo;

- auxílios diversos para funerais;

- distribuição em quase todos os quartéis, de sobras de alimentação;

- ofertas de géneros e por vezes de refeições a elementos da população necessitados;

- dádiva de determinada quantia a dois régulos que se encontravam em precária situação económica;

- distribuição de tabaco e cola a caçadores fulas;

- retribuição de ofertas feitas por nativos (por exemplo: uma saca de farinha a uma padeira que ofereceu galinhas);

- distribuição de leite e açúcar a algumas parturientes e de guloseimas a crianças:

- facilidades para construção de moranças em diversas localidades;

- facilitado o aproveitamento da mão de obra, bem remunerada;

- compra por justo preço de artigos vendidos pelos nativos para alimentação das tropas.


6. Conclusões

a. A população continua aceitando bem o contacto com as NT.

As populações vivendo em zonas que confinam com aquelas onde o ln actua, sentem receio pelo seu futuro e pedem a protecção da tropa.

b. O estado psicológico das NT mantém-se estacionário, continuando a dar provas da sua grande capacidade de adaptação e resistência fisica.

c. Apesar da considerável endoutrinação do ln é de admitir que, psicologicamente, a sua situação tivesse sido abalada por virtude das operações efectuadas pelas NT.

d. Presume-se que o ln, executando acções em sectores onde tem estado relativamente mais calmo, pretende levantar o seu nível psicológico [...]."

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 271/278.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
 
_________________


Vd. dois últimos postes anteriores:

17 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28443: Documentos (68): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II)

16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I)






Guiné  > c. 1965 >   Este é o primeiro postal de uma coleção de postais de propaganda das NT, dirigida aos "homens do mato" (SIC)... A coleção foi -nos disponibilizada,  para ser digitalizada e publicada no blogue, pelo nosso saudoso  camarada Joaquim Nunes Sequeir, o "Sintra" (1944-2024), que foi 1º cabo canalizador, BENG 447 (Brá, 1965/67), e que encontrávamos quase sempre nos almoços-convívios da Magnífica Tabanca da Linha. 

 

Joaquim Sequeira (1944-2024): vivia em Mucifal, Sintra; era um entusiástico 
membro do Núcleo de Sintra da Liga dos Combatentes


O cartaz, tipo vinheta de BD, a cores, foi "restaurado" digitalmenete, com recurso à IA. É um material produzido no âmbito da Acção Psicológica (mais conhecida pela abreviatura  APsic)  e deve remontar ao tempo do com-chefe e governador-geral gen Arnaldo Schulz (1964-1968).

Não sabemos se já existia na época a  Rep ACAP (Assuntos Civis e Ação Psicológica), do QG/CCFAG, a funcionar no forte da Amura. 

Já aqui o  dissemos, é um material muito interessante, do ponto de vista documental, iconográfico e e historiográfico, mesmo que  revele; (i) muita ingenuidade; (ii) desconhecimento grosseiro  da organização e funcionamento das FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo, criadas em fevereiro de 1964: fardas, armamento, etc.);  e (iii) uma estética pobre,  de mau gosto e de duvidosa eficácia, já que o público-alvo são os próprios combatentes do "mato" (nem sequer o artista se lembrou dos amuletos dos "bandoleiros", e os fenótipos representados são incaracterísticos, tendo pouco ou nada a ver com os balantas e outros grupos  guineenses que engrossavam as hostes do PAIGC).

O PAIGC não era  a UPA/FNLA, um simples bando de gente esfarrapada, descalça, esfomeada, desmoralizada (o mesmo não se pode dizer eventualmente da população que "vivia no mato", e nomeadamente no interior do território)... 

Mas, provavelmente, era essa a imagem boçal, caricatural,  que "encomendaram" ao artista gráfico, cuja identidade ainda hoje desconhecemos. 

A mensagem que se queria transmitir, na época,  era sobretudo psicológica: associar a guerrilha à miséria, a fome, à doença, ao sofrimento físico e à morte, apresentando o "homem do mato" (sic )  como um foragido, uma vítima da  própria desgraça, o "vírus subversivo" que ele andava a espalhar...

É uma representação propagandística, não é (nem pretende ser) um retrato documental neutro. Tal como os documentos de propaganda do PAIGC dirgidos aos "tugas" e aos "cães dos colonialistas" que eram os nossos soldados e mílicias fulas. A propaganda de guerra é sempre caricatural, feita a preto e branco, a traço grosso, e tem o propósito de "diabolizar" o inimigo.

Iremos reprodir os restantes cartazes, restaurados digitalmente.



Guiné > c. 1965 >  "Guiné Portuguesa, Guiné Feliz... O nosso camarada Joaquim Sequeira, o "Sintra, assinalou os nomes dos aquartelamentos e destacamentos por onde passou em serviço, como 
 1º cabo carpinteiro, BENG 447 (Brá, 1965/67):
  • no sector de Bissau, Brá, Santa Luzia, Bissalanca e Safim;
  • na região de Quínara, Enxudé, Tite, Jabadá e São João; 
  • no arquipélago dos Bijagós, ilha das Galinhas e Bolama; 
  • na região do Gabu, Nova Lamego;  
  • no região do Oio, Cuntima, Jumbembem, Canjambari, Farim, K3, Mansabá, Mansoa, Cutia, Bissorã, Olossato; 
  • na região do Cacheu, Binta...

A colecção (no fundo, é uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro) começa com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz") (cópia do original, não restaurada digitalmente; o restauro é um "desastre"). À direita está escrito: "Do Sintra, 8/65".

Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]



Fernando Louro


1. Vamos recuperar para esta série ("Documentos") alguns textos sobre a "Psico", como dízíamos na Guiné. APsic, na terminologia militar.  (Ou "Pchícola",  como pronunciavam 
 algumas  das nossas praças, em linguagem brejeira, já que para eles fazer a "psico" era ir  às tabancas catrapiscar  as bajudas...).

Recorde-se que em plena "Spinolândia"  (maio de 1968 / agosto de 1973)  havia no QG/CCFAG, na Amura, a 2ª Rep, a  Rep ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica) onde trabalharam ilustres militares como Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Lemos Pires, etc., a "intelligentsia" político-militar do gen Spínola.  Mas também o nosso camarada Ernestino Caniço, hoje médico.

A "Psico" não foi uma "invenção" de Spínola, mas foi com ele e os seu "estado-maior" que ela se tornou uma "arte & ciencia", castrense, apurada... Em todo o ca, convira ir aos "primordios.Vale a pena rcuar até ao tempo de Fernando Louro, ao ano do início da guerra com o PAIGC, para perdermos melhor como evoluiu o conceito e se ch3gou a criação da Rep ACAP.

Recorde-se que o brigadeiro Fernando Louro de Sousa (1911–1989) foi nomedao Comandante-Chefe das Forças Armadas na Guiné Portuguesa em 13 de março de 1963, cargo que exerceu durante pouco mais de um ano. 

Ele e o governador, o comandante Vasco Rodrigues, nunca se terão entendido sobretudo no exercício e na partilha das suas funções, permitindo  com isso que  PAIGC tivesse uma arrancada fulgurante, sobretudo no sul. (E isto, apesar da Op Tridente, cujo sucesso relativo não chegou para mudar a ideia de que o brigadeiro  fora um tremendo erro de "casting".)

Ambos, o comandante-chefe e o governador,  serão substituídos em maio de 1964, pelo brigadeiro Arnaldo Schulz, que passou a acumular os dois poderes, o político e o militar.

 As ideias de Fernando Louro sobre a "acção psicossocial" não destoavam muito do "assistencialismo" que ainda se praticava no início dos anos 60 na metrópole. 

E, em termos práticos, não passaram do papel, por falta de meios humanos, técnicos e financeiros, etc., além da proverbial falta de articulação entre as ainda escassas forças armadas e a administreção civil, já em colapso.  

Enfim, não havia médicos, professores, engenheiros, quadros técnicos, nem civis nem militares... Sobretudo não havia visão  estratégica nem tática para fazer frente ao PAIGC... que muito rapidamente ganhou  a adesão, a mal  ou a bem,  o da grande maioria dos animistas (em especial os balantas, que vão servir de "carne para canhão" ) mas também parte da população muçulmana (biafadas, mandingas, nalus...).

O "checklist" que a seguir se publica é de um indigência intectual atroz, resultante de uma leitura apressada da "Bíblia", o manual “O Exército na Guerra Subversiva” produzido pelo Estado-Maior do Exército (1963) (em 5 volumes, revistos em 1966).  

Vê-se que Louro é um militar de outro tempo, ainda eivado de estereótipos coloniais, como o uso infamante do termo "nativo", apesar de tudo mais "neutro" do que "indígena" (o indigenato  tinha acabado de ser abolido, pelo Decreto-Lei n.º 43 893, aprovado em 6 de setembro de 1961 sob a alçada do ministro do Ultramar, Adriano Moreira). 

__________________________

 
Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (I) 
(Excertos: CECA, 2014)
 

O primeiro documento de que se tem conhecimento na Guiné, sobre o assunto, é a Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63. (#)

Na primeira parte, trata da acção psicossocial com o objectivo de "obter ou manter apoio da população". Na segunda parte, da "Acção psicossocial sobre as NT", no âmbito da acção psicológica e acção social.

Expõem-se de seguida ambas as partes.

Em 15Nov, através da Nota n° 247/C da 3ª Rep/QG/CTIG, foi enviado aos Comandantes de Sector e Chefes de Serviço, entidades que o iriam elaborar, o modelo de "Relatório Periódico de Acção Psicológica" com a finalidade, âmbito, periodicidade e difusão. Este é apresentado no final: Anexo A "Acção Psicossocial-Instruções".

1ª  PARTE

Acção Psicossocial junto das Populações

Introdução

Uma das principais diferenças existentes entre a Guerra Convencional e a Guerra Subversiva, é que, nesta última, se procura conquistar a população para depois dominar o território por ela ocupado. 

A população é, pois, o objectivo número um de qualquer dos partidos em luta, e quem tiver o seu apoio dispõe de muito maiores possibilidades de vitória.

Para manter ou obter o apoio da população, existem diferentes modos de acção sendo de destacar entre eles a "Acção Psicossocial".

"Quando houver que actuar psicologicamente sobre a população dum território onde se leva a efeito uma luta contra a subversão, é possível conquistar simultaneamente o afecto e a confiança dessa população, tornando-a mais sensível à acção psicológica, por meio de uma acção social ou de assistência dirigida no sentido de diminuir as suas principais deficiências morais e materiais. É ao conjunto destas duas acções, psicológica e social, que se chama Acção Psicossocial". (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicológica).

I. Acção Social

A Acção Social consiste na aplicação planeada de um conjunto de medidas, que têm por fim não só levantar o nível de vida da população como também ganhar o seu afecto e confiança,  tornando-a mais facilmente permeável à Acção Psicológica.

- Exige muito bom senso e ponderação, pois de forma alguma se pode prometer aquilo que não se pode ou não se tem a certeza de poder dar ou realizar. Em todos os escalões é preciso "saber prometer, a fim de nunca comprometer".

- É igualmente muito importante actuar com autoridade e não pretender convencer que somos muito ricos ou todo-poderosos, capazes de tudo resolver dum momento para o outro. Há que ter a noção clara das realidades e das possibilidades,  procurando sempre resolver ou tornear as dificuldades no sentido de serem atingidos os objectivos propostos e cuidadosamente seleccionados.

- É também muito importante procurar compreender o nativo mostrando-se interessado pelos seus problemas e aspirações. A população civil branca deve ser levada a interessar-se pelos problemas respeitantes à Acção Psicossocial. É pois fundamental que exista uma "compreensão mútua" entre os diferentes elementos da sociedade.

Os campos de acção normalmente abertos à Acção Social das Forças Militares são os seguintes:

  • Assistência Sanitária;
  • Assistência Religiosa;
  • Assistência Educativa;
  • Assistência Económica.

Seguidamente se indicam algumas das muitas actividades que se podem realizar nestes campos:

Assistência Sanitária

Campo Sanitário:

- Criação de P.S. [Posto de Socorros] e centros de tratamento.

- Elaboração de calendários de visitas de modo a garantir uma assistência regular às diferentes localidades do sector.

- Procurar colaborar com o S.S.[Serviço de Saúde] da Província e obter a sua colaboração.

- Utilizar viaturas militares para o transporte de doentes. Quando as circunstâncias o aconselharem providenciar para se efectuar a evacuação aérea.

- Por intermédio deste Comando, procurar obter a colaboração das Autoridades Administrativas, MNF Movimento Nacional Feminino] , Cruz Vermelha Portuguesa, Cáritas e elementos civis para a aquisição de medicamentos (não há distribuição mas apenas aplicação de medicamentos, quando se torna necessário a aplicação repetida de um medicamento, é o doente que se desloca até ao P.S.).

- Vigilância do estado sanitário das populações.

- Conselhos de profilaxia.

- Vacinações.

- Consultas e tratamentos (incluindo as vítimas dos insurrectos).

- Intervenções cirúrgicas dentro das suas possibilidades.

Campo de higiene

- Divulgar medidas de higiene.

- Aconselhar sobre a alimentação mais adequada.

- Orientar a construção de novas casas com melhores condições de habitabilidade.

- Demonstrar os perigos e inconvenientes que tem o gado andar dentro de casa, pelas ruas, etc .


Assistência religiosa

- Elaboração de calendários de visitas de modo a garantir uma assistência regular às diferentes localidades do sector.

- Procurar colaborar com as autoridades eclesiásticas e obter a sua colaboração.

- Prestar assistência religiosa, a qual pode apresentar as seguintes modalidades:  apoio espiritual, celebrações de acto de culto, catequese.


Assistência Educativa

Cultura Geral

- Criar escolas para crianças e adultos.

- Procurar colaborar com os professores nos locais onde já existem escolas e obter a sua colaboração.

- Procurar aumentar a frequência das escolas não esperando que venham inscrever-se.

- Divulgar a existência das escolas e as vantagens que podem usufruir aqueles que as frequentam.

- Criar prémios para os melhores alunos e para os mais assíduos.

- Procurar obter a colaboração de elementos civis (fornecimento de material escolar).

- Organizar bibliotecas populares com livros, jornais e revistas, pedindo por intermédio deste Comando a colaboração de A.G.  [Agência Geral do] Ultramar, MNF, entidades particulares, etc .

- Organização de festas culturais, orfeões, sessões de música (principalmente folclórica), cinema, etc .

Cultura Técnica

- Organizar escolas de artes e ofícios em todas as localidades onde isso for possível e obter para elas a colaboração dos elementos civis.

- Construções.

- Conselhos técnicos.

- Fornecimentos de alimentação, abafos, alojamentos, etc. (em casos especiais) .

- Compras (os pagamentos serão feitos a pronto e os contratos estabelecidos livremente).

- Entusiasmar os nativos na organização de granjas com vista não só à satisfação das suas necessidades como também para poderem fornecer às Forças Militares, aumentando assim os seus proventos.

- Interessar os nativos na criação de animais com vista à satisfação das suas necessidades e fornecimento às F. Militares que os comprarão, aumentando assim os seus lucros.

- O contacto com as populações deverá ser sempre procurado preconizando- se o seguinte:

  • Participação nas festas gentílicas, quando convidados;
  • Pernoitar e tomar refeições nas tabancas e convidar para estas os elementos mais importantes;
  • Convidar os régulos, chefes de tabancas e homens grandes para visitarem o quartel;
  • Quando dos reconhecimentos, efectuar visitas de cortesia àqueles indivíduos (não estranhar que inicialmente as populações fujam ao contacto com a tropa e procurar, a bem, fazer-lhes ver que somos amigos e procuramos a sua amizade e confiança);
  • Tomar as medidas que estiverem ao seu alcance para resolver os problemas apresentados pelos nativos;
  • Procurar que os colonos tratem os nativos como homens, não os explorando (enviar relatórios imediatos sobre actos de injustiça de que tenha conhecimento);
  • Aproveitar todas as oportunidades para explorar em nosso favor os erros, mentiras e exageros de propaganda adversa (facilmente rebatíveis, pois duma maneira geral são grosseiros);
  • Aproveitar todas as oportunidades para efectuar uma propaganda baseada em factos ou temas que possam ser facilmente verificados pelo indígena. Os dados utilizados devem ser rigorosamente verdadeiros; 
  • Aproveitar todas as oportunidades para elevar o nível político através duma doutrina dirigida e compatível com o grau de civilização da população.
(Continua)

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 149 / 154.

(Seleção, revisão / fixação de trexto, negritos: LG)


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Nota da CECA:
 
(#) Para elucidação sobre os antecedentes, organização, estruturas e actividades do Exército no campo da acção psicológica veja-se o Capítulo VII do 10 Volume "Enquadramento Geral", da Resenha Histórico Militar das Campanhas de Africa (1961-1974) da CECA/EME; páginas 373 a 398.
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Notas do editor LG:


Último poste da série > 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28133: Documentos (66): Para a história da administração civil ultramarina: "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província!"... Despacho (do Governador ?) a uma nota do administrador António Augusto de Barros, vítima de agressão, em Pete, chão mancanha, em 8/4/1920

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Com a maior discrição, a verve reivindicativa que temos notado do Boletim quase que se apagou, conquanto o responsável do Boletim avise solenemente os associados que se estava num quadro de grandes mudanças. A participação guineense do Boletim reduziu-se drasticamente, vamos ter artigos do Comandante Teixeira da Mota de cariz histórico, publicam-se as intervenções do deputado James Pinto Bull, há noticiário económico, verbera-se uma Biblioteca associativa que está vazia, chama-se a atenção dos associados para o que a Associação tem a dar, desde um fundo de assistência, apoio médico, um curso para tenistas, sucedem-se os artigos históricos tendo inclusivamente um artigo sobre o Líbano e a sua história. Conforme já informei o leitor, temos Boletim até 1966, escrevi para a Biblioteca Nacional, ali nada existe. E é tudo.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 6


Mário Beja Santos

O que posso dizer ao leitor sobre o ano de 1963 é que se alterou profundamente a natureza da escrita, é de admitir que a eclosão da guerra de guerrilhas tenha levado os associados à contenção, fruto das incertezas produzidas pelas alterações demográficas na região Sul, nas margens do Corubal, nas florestas do Morés. São convocados deputados e investigadores, chega-se mesmo a apresentar escritos de Brito Camacho e Paiva Couceiro. Logo no número de janeiro aparece um apontamento assinado pelo deputado da Guiné James Pinto Bull, sublinhando toda a conveniência em se incrementar a concessão de bolsas de estudo aos estudantes autóctones do nosso Ultramar, dizendo mesmo:
“A Guiné Portuguesa, com uma população de cerca de 530 mil habitantes, tem apenas treze indivíduos habilitados com um curso superior, o que corresponde a um formado por cada 41 mil habitantes, e onze indivíduos habilitados com um curso médio, isto é, um diplomado por cada 48 mil habitantes; encontram-se presentemente cursando escolas superiores e médias na Metrópole 36 bolseiros que terminaram os seus estudos na Província.”

É certo que se mantém o cuidado em apresentar os dados económicos sobre a exportação do amendoim, arroz, borracha, cera, coconote, couros, madeiras, óleo de palma. Está em curso na Associação um Fundo de Assistência para associados em estado de precariedade; há um clínico avençado na Associação que presta assistência médica.

Num outro número do Boletim reproduz-se a intervenção do deputado Pinto Bull na Assembleia Nacional, em 6 de fevereiro desse ano, lembra a quem está no hemiciclo que é preciso encarar mais objetivamente as aspirações da população quanto ao ensino geral, as bolsas de estudo em particular, a assistência sanitária fixa e móvel, a assistência social e os seus mais diversos aspetos; e de novo enfatiza que é muito baixo o número de guineenses com formação superior, estão praticamente ausentes de cargos diretivos no escalão médio-superior nas organizações. Fará uma desenvolvida exposição sobre o sistema educativo e apela ao crescimento das bolsas de estudo. Na sua esteira, temos uma extensa exposição do deputado José Fernando Nunes Barata sobre o estado atual do desenvolvimento da Guiné e as suas potencialidades. Outra questão marcante em diferentes números passa pela enumeração das vantagens da Unidade Económica Nacional, a política do Estado Novo demarcara até então os regimes pautais entre a Metrópole e as colónias, procurava-se a todo o transe sossegar os investidores e os proprietários e os agentes económicos em geral com alívios aduaneiros.

Chegou o momento de saudar o novo Comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, o ainda Coronel Tirocinado Fernando Louro de Sousa. Surge o primeiro artigo do Comandante Teixeira da Mota dedicado a Honório Pereira Barreto, este falecera em 26 de abril de 1851, portanto há 104 anos. A Associação criou uma escola de ténis. Sucedem-se os artigos sobre a história da Guiné. Faz-se um abate exaustivo das comemorações do 46.º aniversário da Associação. Reapareceu a secção “Atentos à Legislação”. Faz-se o obituário do escritor Aquilino Ribeiro. Segundo artigo de Teixeira da Mota desta vez sobre a morte de dois franciscanos martirizados em 1742. Publica-se a notícia sobre a criação da Liga dos Amigos da Guiné Portuguesa, na Metrópole. Há um número completo dedicado ao obituário de Presidente da Associação, António José Osório Flamengo. Seguramente a pensar-se na comunidade sírio-libanesa publica-se um artigo intitulado O Líbano na História.

Fica-se com a sensação de que a vida associativa deu uma reviravolta e o diretor do Boletim dedica um texto aos perigos do individualismo, texto esse que termina com uma séria advertência:
“A Guiné prestou-se idealmente aos propósitos e manejos do individualismo mais desaforado, e, tendo sido alfobre de ganhunças, houve para si apenas as migalhas do lauto festim.
Chegados ao termo de uma época particularmente favorável há reprodução de cifras em progressão geométrica, em que as preocupações eram nenhumas, as oportunidades timbravam pela constância e os problemas financeiros quase não se punham porque o crédito era fácil, temos que reconhecer a superioridade, a argúcia, a inteligência dos indivíduos para melhor manobrarem. Os factos deram-lhes razão.
Doravante, porém…
A recente e inopinada reviravolta no tradicional sistema ‘quem tem olho é rei’ e o consequente estendal de complicações e vicissitudes, supomos venha a transformar, apesar de inveterados, os hábitos anti fraternos, se é que já não destroçou a até agora solidíssima razão do cisma isolacionista – ‘chacun s’arrête’. E ninguém nos convence que do colapso ao ‘debacle’ do individualismo medeie ainda muito tempo.”


Queixa do diretor do Boletim, a Biblioteca devia estar permanentemente às moscas…
Falando por mim, tive um estremeção quando vi esta imagem, instantaneamente me ocorreu a minha vida numa enxovia, alimentação rudimentar, sempre sujeitos a faltas de toda a ordem, com a agravante de que na época das chuvas transportávamos à cabeça e às costas, cheguei mesmo a meter pacotes de esparguete nos bolsos das calças, o vinho era uma zurrapa, mas a água era Perrier ou Evian, questionei sempre, sem resposta, havendo aqui água de Carvalhelhos, do Luso, e muito mais, a que título bebíamos obrigatoriamente Perrier ou Evian.
Eram outros tempos, o tabaco dava estatuto, era prestigiante, nas décadas seguintes vieram em catadupa as doenças cancerosas, os AVC, e tudo o mais que se sabe.
Raparigas Bijagós
Mulher Nalú
Pesca à linha no rio de Sonaco

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1963

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26504: Notas de leitura (1773): Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné em "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro; Chiado Books, 2019 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Outubro de 2023:

Queridos amigos,
José Maria Monteiro permaneceu 4 anos na Guiné, ligado à telegrafia. A sua ambição é mostrar a exemplaridade da Marinha de Guerra na Guiné, em Angola e Moçambique, referindo que esta geração de todas as gerações foi a mais combatente, a mais sacrificada e a mais revolucionária. Temo que exagere nas laudes que faz ao desempenho dos fuzileiros (cuja bravura jamais alguém contestou), e faz-se uma síntese, de acordo com os elementos que ele apresenta da intervenção dos fuzileiros e da Marinha de Guerra em geral a partir de 1961. Ele recorda que no segundo semestre de 1962 já havia confrontos com a guerrilha, na região Sul, faz uma menção detalhada da operação Tridente e de outras que se seguiram, vamos proximamente continuar com a síntese das atividades que ele apresenta entre 1964 e 1968, as alterações impostas por Spínola à atividade da Marinha, haverá mesmo espaço para se falar da operação Mar Verde.

Um abraço do
Mário



Um outro olhar sobre a Marinha na guerra da Guiné (1)

Mário Beja Santos

A obra intitula-se "Os Mais Jovens Combatentes, A Geração de Todas as Gerações, 1961-1974", por José Maria Monteiro, Chiado Books, 2019. O autor alistou-se em 1967 na Marinha, ofereceu-se como voluntário para a Guiné, nos dois primeiros anos desempenhou as funções de radiotelegrafista de uma lancha de fiscalização pequena; terminados os dois primeiros anos, passou para o Comando da Defesa Marítima da Guiné, continuando mais dois anos como marinheiro telegrafista. Foi aumentando as suas habilitações, concluiu o curso de Economia e, mais tarde, o de Direito.

Começa por lamentar a indiferença com que o país no seu geral trata os que combateram pela pátria, refere o sentimento de revolta que atinge os ex-combatentes; depois faz um esboço dos inícios da guerra colonial, uma descrição do recrutamento dos mais jovens combatentes, como se processava a partida para os teatros de operações e entramos propriamente na guerra de guerrilhas da Guiné, tudo matéria bem conhecida dos leitores, incluindo o mantra que as coisas na Guiné não correram nada bem durante a governação de Arnaldo Schulz, que em 1968 os relatórios não escondiam avanços e sucessos dos guerrilheiros, esperava-se uma mudança providencial com o brigadeiro António de Spínola, refere as primeiras diretivas do novo comandante-chefe, também matéria conhecida dos nossos leitores.

E lança-se então na gesta da Marinha de Guerra na Guiné, então encomiástico, assim, enaltecendo os fuzileiros:

“Penetraram nas matas africanas até ao fim do mundo, com uma vontade férrea de um povo que insistia em manter viva a herança de séculos e séculos, sem pensar que, um dia, as Forças Armadas portuguesas viriam a pôr fim a uma guerra suicida. No final do ano de 1961 embarca um pelotão de fuzileiros para a Guiné. Em junho do ano seguinte, embarca, por via aérea, o Destacamento de Fuzileiros Especiais (DFE) N.º 2, no final de dezembro de 1962 registaram os primeiros feridos entre os fuzileiros. Com o ataque a Tite em 20 de janeiro de 1963, começam as grandes façanhas dos guerrilheiros em terras da Guiné, uma vez que eram os homens mais bem preparados para este tipo de guerrilha. Existindo no Sul do território algumas áreas sobre o controlo do IN, os DFE, apoiados por diversos meios navais, a fragata Nuno Tristão, a LFP Argos, a LFP Escorpião e a LFP Dragão, entre outras, iniciam no Sul da Guiné, concretamente nas ilhas de Como, Caiar e Catunco, penetrando pelas matas serradas naquelas ilhas. Nas operações Trevo, Seta e Lima, competia ao DFE n.º 2 e DFE n.º 8 bater toda a zona envolvente a Darsalame, ocupando-a, tendo em vista içar de novo a bandeira portuguesa, facto que veio a acontecer em novembro de 1963.”

Não terá sido exatamente assim pois o comandante-chefe Louro de Sousa começou a arquitetar a operação Tridente para expulsar os guerrilheiros destas ilhas. José Maria Monteiro descreve a operação Tridente até à sua finalização, ficou a partir de março de 1964 uma unidade do exército na mata do Cachil, a Norte da ilha do Como, com a missão de patrulhar a ilha, controlar a margens do rio Cobade, de modo a assegurar o abastecimento aos operacionais de Catió. Ainda sob o comando de Louro de Sousa, o DFE n.º 2 participa com forças terrestres na operação Alvor, na península Gampará, em busca do quartel-general de Rui Djassi, esta península nunca tinha sido percorrida por forças militares; o relato não deixa claro o que aconteceu.

Com a nomeação de Arnaldo Schulz o Comando da Defesa Marítima da Guiné é alterado e descentralizado, criando-se quatro comandos sediados em quatro zonas distintas: Bacia hidrográfica do rio Cacheu; Bacia hidrográfica dos rios Geba, Mansoa e Corubal; Bacia hidrográfica dos rios Grande de Buba e Tombali; e Bacia hidrográfica dos rios Cumbijã e Cacine. O autor volta a desfazer-se em elogios aos fuzileiros: “Todos os movimentos independentistas só tinham medo e temor aos homens brancos ou negros, com a boina azul-ferrete pertencente aos destacamentos de fuzileiros especiais, em qualquer frente de batalha.”

E vem a seguir novos parágrafos de exaltação:
Se
“Dada a elevada preparação destes jovens combatentes, os DFE eram chamados para participarem nas operações de maior envergadura, tendo no mês de setembro de 1964 participado nas operações Touro, Hitler e Tornado, em que, nesta última, além dos quatro DFE, também participaram três companhias de cavalaria, uma de artilharia, uma de caçadores e um pelotão de paraquedistas, apoiados por duas LFG, duas LFP, oito LDM, três LDP e um ferryboat, sem, no entanto, encontrar qualquer resistência da guerrilha na zona do Cantanhez. A atuação quase permanente das forças especiais da Marinha de Guerra em toda a zona Sul, mormente na região do Corubal e Cacine, conduziu a um notório abrandamento da atividade inimiga, obrigando o PAIGC a deslocar-se para Leste e para Norte, em que os guerrilheiros do PAIGC tiveram de alterar os seus corredores habituais.”

Compreende-se que o autor tenha um elevado espírito corpo, mas os factos históricos desmentem esta gesta laudatória. Mas vale a pena continuar a acompanhar esta escrita:
“Na sequência da operação Tridente, os contactos com o inimigo continuavam a ser frequentes, pelo que havia necessidade de efetuar operações de reconhecimento no extremo sul, a ideia das operações no rio Camexibó e da operação Hitler era estancar e intersetar os corredores intervenientes da Guiné-Conacri, nomeadamente através do corredor de Gadamael. A LDM 305 entrou na foz do rio Camexibó no dia 6 de fevereiro de 1964, em fase de preia-mar com o objetivo de efetuar uma fiscalização àquele rio durante cinco dias. Para o efeito, foi reforçada com uma secção de fuzileiros da CF 3. Dois dias depois, quando se preparava para fundear a montante do rio, um dos elementos da companhia de fuzileiros apercebeu-se de um grupo numeroso de homens armados na margem direita daquele rio. Inicialmente, houve troca de palavras entre os elementos da companhia de fuzileiros e um comandante dos guerrilheiros do PAIGC, conversa que durou pouco tempo uma vez que o oficial que comandava a companhia de fuzileiros deu ordem à guarnição da lancha e aos fuzileiros para dispararem, tendo os guerrilheiros fugido para o interior da mata com baixas muito pesadas. A lancha de desembarque continuou a subir o rio Camexibó, a intenção era patrulhar todo o rio até à confluência com o rio Nhafuane, não só para certificar que comunicaria com o rio Inxanche, mas também verificar se aquelas zonas permitiriam a navegação fluvial a lanchas como a LDM 305 ou mesmo a de porte superior. No dia 29 de fevereiro de 1964, a LDM 305 iniciou a descida do rio Camexibó, sempre na expetativa de ataques dos guerrilheiros, perto das oito da noite foram atacados perto das margens do rio, sem provocar danos humanos, mais adiante foram localizadas cinco canoas, que foram destruídas. A partir do conhecimento obtido no local e das experiências adquiridas naquelas intervenções, foi decidido levar a bom porto uma nova operação, a qual teve o nome de operação Hitler, entregue ao DFE 8, sob o comando de Alpoim Calvão.”

Observa o autor que nenhuma destas intervenções foi bem-sucedida. Vamos ver seguidamente o que o autor tem para nos dizer quanto à síntese das atividades da Marinha de Guerra entre 1964 e 1968.

Ilustração do livro de José Maria Monteiro

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26496: Notas de leitura (1772): Philip J. Havik, um devotado historiador da Guiné: Uma mulher singularíssima, Bibiana Vaz, século XVII (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Guiné 61/74 - P25088: Notas de leitura (1659): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2024:

Queridos amigos,
Esta obra de investigação carreia documentação histórica tanto de operações que envolveram a FAP bem como os relatórios do próprio Comandante-chefe acerca da evolução do PAIGC para procurar intimidar a mobilidade aérea, então totalmente preponderante. O que aqui se relata são as operações que se desenvolveram tanto no Cantanhez como no Quitafine, e o então Comandante da Zona Aérea, Coronel Krus Abecasis, não escondeu a sua admiração pela bravura dos combatentes do PAIGC que enfrentaram o fogo aéreo, morrendo no seu posto. Entretanto, chegou o apoio cubano, em termos humanos, o fornecimento de material já tinha antecedentes. E, em 1967, os cubanos forneciam médicos, conselheiros e técnicos. Segundo o antigo embaixador Oscar Oramas, o primeiro diplomata que se aproximou de Amílcar Cabral assassinado, na noite de 20 de janeiro de 1973, morreram 17 cubanos pela causa guineense.

Um abraço do
Mário



O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974
Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (8)


Mário Beja Santos

Deste segundo volume d’O Santuário Perdido, por ora só tem edição inglesa, dá-se a referência a todos os interessados na sua aquisição: Helion & Company Limited, email: info@helion.co.uk; website: www.helion.co.uk; blogue: http://blog.helion.co.uk/.

Capítulo 2: Eles não conseguiram parar a nossa luta


Demos início no texto anterior informações sobre a Operação Samurai, tinha por missão levar ao afastamento de grupos do PAIGC na ilha do Como, a guerrilha estava a fazer a vida negra ao destacamento de Cachil, criado por decisão do Brigadeiro Louro de Sousa, então Comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné, na sequência da Operação Tridente. A Operação Samurai teve duas fases, uma de intensos bombardeamentos, e uma segunda que envolveu a participação dos helicópteros que largaram grupos de paraquedistas em diferentes pontos, eles vinham com a missão de busca e destruição da presença da guerrilha. Fora estabelecido um destacamento de apoio aéreo em Cufar para auxiliar a ofensiva terrestre, a coordenação era fornecida por Bissalanca e uma Secção Conjunta de Apoio Aéreo que tinha um posto de comando avançado em Catió. As aeronaves destinadas a apoiar os paraquedistas incluíam um par de Fiats em alerta em Bissalanca, um par de T-6 em alerta em Cufar onde também estavam DO-27 e Alouettes III, com a missão de colaborarem em evacuações. Tinham sido produzidas centenas de fotografias aéreas que deram informações de enorme valor para a execução operacional.

Finda a operação de bombardeamentos noturnos, iniciada em 13 de novembro, e que forçosamente desmoralizaram os grupos do PAIGC, a segunda fase foi precedida por um lançamento dos paraquedistas que estavam sediados em Cufar, foram várias levas de 5 helicópteros Alouette III que transportaram 97 paraquedistas para a zona Sul do Como. A primeira leva de paraquedistas encontrou uma oposição feroz junto do reduto de Caiar, houve que pedir apoio de fogo, um par de T-6 e de Fiats chegaram quase simultaneamente e assim diminuiu a resistência do grupo de guerrilha, e a força de assalto continuou o seu avanço, um DO-27 que desempenhava funções de PCV foi submetido a disparos antiaéreos ineficazes durante este acontecimento. Com o contínuo apoio aéreo, os paraquedistas alcançaram todos os objetivos que tinham sido atribuídos, sem terem sofrido perdas.

O sucesso que se previa para a ilha do Como revelou-se ilusório. No curto prazo cessaram os ataques contra o destacamento de Cachil e parecia estar preparado o terreno para que as forças portuguesas reocupassem completamente a ilha. Só que nenhuma ação desta natureza foi decidida pelo Comandante-chefe, como irá permanecer um reduto guerrilheiro durante o resto da guerra. O Coronel Abecasis considerou que a capacidade de combate na guerrilha se mantinha intacta. Não querendo aceitar uma batalha aberta contra a superioridade da Força Aérea e confrontos com as forças terrestres, os insurgentes recuaram novamente para o centro da floresta, a aguardar o fim da operação. Um mês após a Operação Samurai, a Zona Aérea e o Grupo Operacional 1201 direcionaram o seu foco para o Cantanhez, local da Operação Resgate cerca de um ano atrás. Dois desenvolvimentos intermédios chamaram a atenção das chefias portuguesas: primeiro o PAIGC restaurara as suas defesas antiaéreas na região, o que representava uma ameaça credível às operações aéreas; segundo, as forças do PAIGC começaram a usar a península do Cantanhez como base para ameaçar o tráfego no estratégico rio Cumbijã, a única ligação à guarnição das tropas em Cufar, o que tinha levado a Marinha a solicitar a intervenção da Força Aérea. Uma tentativa de suprimir a renovada ameaça do sistema de defesa antiaérea do PAIGC e desalojar as posições insurgentes que ameaçavam o rio, a Zona Aérea lançou a Operação Valquíria, em 19 de dezembro, sob o comando do Grupo Operacional do Tenente-coronel Hugo Damásio.

A operação de dois dias seguiu o modelo agora familiar de bombardeamentos noturnos seguidos de operações de reconhecimento armado na superfície. Os C-47 começaram por atacar posições do sistema antiaéreo e abrigos do PAIGC na noite de 19 para 20 de dezembro, enquanto se reuniam informações adicionais sobre alvos para ataques posteriores. A fase seguinte, durante o dia de 20 para 21 de dezembro envolveu 8 Fiat, 12 T-6, as atividades de guerrilha praticamente cessaram. Mesmo assim, a Operação Valquíria deixou o comandante da Zona Aérea, coronel Abecasis, inquieto. Tendo vivido pessoalmente ao “furioso” fogo antiaéreo durante a primeira noite d Operação Valquíria, ele “teve a oportunidade de admirar a coragem como no solo se manejavam as peças antiaéreas à frente dos aviões… O inimigo foi batido e morreu no seu posto” demonstrando uma bravura “desconhecida pela generalidade dos militares portugueses.” Isto representava um grave desafio para a causa defendido por Portugal, caso as suas observações se revelassem rigorosas: “Qual seria o resultado desta guerra se o desequilíbrio psicológico entre os combatentes fosse tão chocantemente a favor do inimigo?”, questionava o comandante da Zona Aérea.

Para corrigir esse desequilíbrio, Abecasis recomendou uma ofensiva aérea total no Quitafine, onde o PAIGC tinha restabelecido o seu domínio e retomava os ataques contra as forças portuguesas. Assim se delineou a Operação Apocalipse, “a ofensiva mais violenta ao alcance dos nossos recursos… A Operação Apocalipse iria mobilizar todo o nosso potencial, pretendia-se demolir a presença do PAIGC do Quitafine.” Era esta a expetativa de Abecasis. Mas para sua consternação, esta proposta não atraiu qualquer entusiasmo entre os seus superiores ou até mesmo nos seus aviadores, dado os riscos crescentes de operar no “Forno do Quitafine”; na verdade, um dos seus oficiais declarou que se recusaria formalmente a realizar tal missão. Ao fim ao cabo, a Operação Apocalipse acabou por ser nada mais que uma miragem, não houve operação. Dececionado, o Coronel Abecasis deixou a Guiné no termo da sua comissão, em 12 de janeiro de 1967, foi substituído pelo Coronel Rui da Costa Cesário, um oficial que compartilhava do seu entusiasmo pelas “operações de intervenção” helitransportadas e ataques aéreos focados.


Capítulo 3: “Eram eles ou nós”

“As missões mais memoráveis que tive na Guiné foram as missões contra as armas antiaéreas. Eram eles ou nós.” – Tenente Egídio Lopes, comandante da Esquadra 121, 1966-67

Em janeiro de 1967, o Comandante-chefe Arnaldo Schulz e o seu novo Comandante Aéreo enfrentaram uma situação aérea que parecia cada vez mais incerta. “Apesar dos danos sofridos durante os dois últimos anos, a virulência político-militar do PAIGC não diminuiu”, tinha ele relatado em dezembro passado, chamando a atenção para o aumento da influência regional e militar do PAIGC, do maior apoio internacional, da chegada de equipamentos mais sofisticados, e com uma ação de propaganda eficaz a todos os níveis. Schulz dava ênfase especial a “um fator relativamente novo – o aparecimento de branco, especialmente cubanos, como instrutores, conselheiros ou especialistas.” Há muito que se suspeitava da participação de conselheiros do Bloco de Leste, mas em 1967 assistia-se a uma escalada de intervenção estrangeira em nome do PAIGC, tendo à frente os autoproclamados “internacionalistas” da Cuba de Fidel Castro.

O envolvimento cubano militar em África começara com a ajuda aos rebeldes argelinos e, 1960-1961 e nos três anos seguintes os militares cubanos tinham realizados missões de aconselhamento em vários locais subsarianos. O interesse crescente de Havana em África fora reforçado com a viagem de Ernesto “Che” Guevara por sete nações do continente, entre dezembro de 1964 a março de 1965, o que levou aos primeiros contactos formais entre Cuba e o PAIGC. Naquela época, o chefe dos serviços secretos de Castro, Manuel Piñero, identificara a Guiné insurgente como a “nossa estratégia prioritária em África”, dados os seus sucessos. Castro concordara e as primeiras armas cubanas para as forças militares de Amílcar Cabral chegaram a Conacri a 14 de maio de 1965, isto enquanto os primeiros formandos do PAIGC viajavam para Cuba para receber instrução política e militar. Armas e materiais adicionais partiram de Cuba em 1966 e os primeiros especialistas militares cubanos chegaram em 1 de maio de 1966.

Nos oito anos seguintes, cerca de 500 “voluntários” cubanos serviram como conselheiros, instrutores, pessoal médico e combatentes pela causa do PAIGC, segundo Oscar Oramas, antigo embaixador cubano na República da Guiné. Um despacho do PAIGC de 1967 listava 32 militares e médicos cubanos ativos na província, e nove deles eram especialistas antiaéreos. No que diz respeito a Amílcar Cabral, os seus “camaradas cubanos, qualquer que seja a sua especialidade” eram “considerados militantes do PAIGC enquanto durasse a sua colaboração” – colaboração que, enfatizou ele, “poderia ter consequências decisivas para o progresso da nossa luta”. Morreram 17 cubanos na Guiné, segundo Oscar Oramas, o primeiro em 2 de julho de 1967. Além disso, pelo menos um oficial cubano, o capitão Pedro Rodriguez Peralta, foi capturado pelos paraquedistas que operavam no corredor de Guileje, em 18 de novembro de 1969.


Amílcar Cabral, Aristides Pereira e o embaixador Oscar Oramas durante o encontro com “internacionalistas cubanos”, na Embaixada Cubana em Conacri (Casa Comum/Fundação Mário Soares)
Primeira fotografia do capitão cubano Pedro Peralta na sua cama de hospital depois de ter sido capturado pelas forças portuguesas. Peralta estava ferido no seu braço direito e foi evacuado para Bissau (Arquivo da Defesa Nacional)
A ZPU na região de Cassebeche protegida por um espaldão em espiral com revestimento em terra (Arquivo da Defesa Nacional)
Uma DShK 12,7 mm capturada durante a Operação Barracuda (Arquivo da Defesa Nacional)

(continua)
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Notas do editor

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