segunda-feira, 23 de abril de 2018

Guiné 61/74 - P18551: (D)outro lado do combate (28): Balanço dos combates entre a CCAÇ 2533 e a CCAÇ 14 e o PAIGC (Corpo do Exército 199-B-70) no setor de Farim - Parte I (Jorge Araújo)



Citação: (1963-1973), "Coluna de guerrilheiros do PAIGC avançando por um trilho", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43531 (2018-4-20), com a devida vénia





O nosso coeditor Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp/Ranger,
CART 3494  (Xime-Mansambo, 1972/1974).



Mensagem do Jorge Araújo, com data de 21 do corrente:

Assunto - Balanço dos Combates entre as NT e o PAIGC - CE 199- B-70. Parte I 


Caro Luís,

Boa tarde.

Anexo mais um texto com um duplo sentido... 1.º; para o incluir na minha série «(D)o outro lado do combate", e , 2.º; como documento a publicar no âmbito do 14.º Aniversário do Nosso Blogue, caso estejas, naturalmente, de acordo.

Até breve. Bom fim-de-semana.

Ab. Jorge Araújo.


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE > BALANÇO DOS COMBATES ENTRE A CCAÇ 2533 E CCAÇ 14 E O "CORPO DE EXÉRCITO" 199-B-70 [PAIGC]  NO SECTOR DE FARIM - A MORTE DO CMDT DO BIGRUPO ANSÚ BODJAN (1944-1971) - (Parte I)



1. INTRODUÇÃO


No momento em que se comemoram catorze anos de existência do Blogue da «TABANCA GRANDE», a 'mãe' de todas as «TABANCAS», período de tempo equivalente a sete comissões no CTIG, constata-se que os fundamentos que levaram o camarada Luís Graça à sua criação continuam actuais. Não é, pois, necessário gastar muito tempo na defesa desta afirmação. Basta consultar os números referentes a: membros, postes, comentários, fotos, visitas/visualizações e reuniões anuais em Encontros Nacionais. O "XIII" é já no próximo dia 5 de Maio, em Monte Real.

Foi (e continuará a ser!) neste espaço virtual de partilha que a partir de 23 de Abril de 2004 algumas centenas de ex-combatentes se encontram diariamente, desde os mais veteranos até aos mais "periquitos", dando o seu contributo na reconstituição do maior puzzle da memória da guerra colonial, na Guiné, transmitindo por escrito, e com imagens, as suas vivências e experiências, independentemente da época, do lugar ou do contexto.

Numa retrospectiva histórica e cronológica, a grande maioria das narrativas foram escritas na primeira pessoa, intercaladas com a divulgação de factos, feitos e resultados grafados nas brochuras elaboradas pelas respectivas Unidades. Agora, com o acesso público ao espólio documental de Amílcar Cabral (1924-1943) existente na Casa Comum – Fundação Mário Soares, passou a ser possível "circular" entre os dois lados do conflito, cruzando as diferentes versões no sentido do seu aprofundamento factual na busca da verdade possível, como é o presente exemplo.

Pelo acima exposto… envio ao aniversariante os meus PARABÉNS!

Para o seu criador vão as minhas felicitações e apreço, pela persistência, pela resistência e pela competência, ou seja «PRC», a sigla biopsicosocial que faz prolongar o sucesso.

Agora, para o colectivo tertuliano, apresento o resultado de mais um trabalho de pesquisa, nascido da adição de informações diversas obtidas de cada um dos lados do combate, título com que baptizei estas narrativas específicas, cujos episódios estão a uma distância de quase meio século. Trata-se de reconstituir a história com mais (outros) dados.

2. CONTEXTOS E UNIDADES ENVOLVIDAS


Os episódios que me propus partilhar, hoje, no fórum, e que constam nesta narrativa como objecto central da pesquisa, inscrevem-se no quadro das actividades operacionais desenvolvidas pela Companhia de Caçadores 2533 [CCAÇ 2533], de origem metropolitana, e pela Companhia de Caçadores 14 [CCAÇ 14], de Recrutamento Local.

Esses factos, que serão identificados por ordem cronológica ao longo do texto, ocorreram no Sector de Farim, situado na margem Norte do Rio Cacheu, na Região do Oio [ver mapa abaixo], dizem respeito aos combates travados pelas duas Unidades das NT, na sequência de duas emboscadas montadas pelo "Corpo de Exército" 199-B-70 [PAIGC], a primeira a 14 de Dezembro de 1970 (2.ª feira) e a segunda a 30 do mesmo mês (4.ª feira), tendo-se verificado baixas de ambos os lados.




No mapa acima [Frente Norte] a seta a vermelho indica o território onde ocorreram os combates, localizados no itinerário entre Farim e Jumbembem, o primeiro envolvendo a CCAÇ 2533 (14Dez1970) e o segundo a CCAÇ 14 (30Dez1970), tendo do outro lado da "barricada" o bigrupo do "Corpo de Exército" 199-B-70, liderado pelo Cmdt Ansú Bodjan.

As setas a azul correspondem aos locais de penetração das forças do PAIGC vindas das bases existentes em território da República do Senegal, em particular os corredores de "Lamel" e "Sitató".


2.1. A EMBOSCADA DA CCAÇ 2533 – A 14DEZ1970

Da consulta realizada às "Histórias" desta Unidade, encontrámos uma referência a este episódio no P13390, escrito pelo ex-alf Armando Mota, do 1.º Gr Comb, ao qual deu o título de «ENCONTRO EM LAMEL».

Pelo valor historiográfico no contexto da guerra e, como suporte documental deste trabalho, decidi transcrevê-lo na íntegra.

A esse propósito, Armando Mora disse:

"Naquele dia 14 de Dezembro de 1970, o 1.º Pelotão fora escalado para transportar e fazer a segurança de um grupo de africanos que iria fazer a capinagem junto à estrada em Lamel, dado que se verificava que aquele corredor estava a ser muito utilizado para a infiltração do IN no território, e o capim ajudava a esconder a seu presença.

"O 3.º Pelotão partira antes, para fazer a picagem da estrada até ao local dos trabalhos. Eram 8h10, após fazermos a chamada do pessoal da capinagem, distribuímos os trabalhadores pelas viaturas e partimos.

Passados alguns 15 minutos chegámos ao Bolumbato, onde avistámos a equipa de picagem. Decidi que a coluna esperaria ali, pois era mais seguro do que seguir em andamento lento atrás do pelotão da picagem.

Toda a gente desmontou das viaturas, montámos a segurança como habitualmente e ficámos por ali, descontraidamente, lembro-me de tirar uma foto ao soldado Guilherme [João Bento Guilherme] do Batalhão de Farim [BCAÇ 2879], condutor da minha viatura, a Berliet que seguia à frente.

Só próximo do fim da recta que antecede a rampa para Lamel, avistei o último dos elementos do 3.º Pelotão que nos fazia sinais para encostar. Pedi para parar e entrar no mato à direita pois o IN estava a atacar do lado esquerdo (Norte).

Ouvi perfeitamente 3 ou 4 tiros na nossa direcção, que não nos atingiram, saltei para o chão, atravessei a estrada e instalei-me enquanto o resto do 1.º Pelotão estacionava e tomava também posições. Ouvi uma rajada bastante próxima e perguntei quem tinha feito fogo… o fogo não era nosso. Íamos começar a avançar quando o Fonseca me disse que o soldado Guilherme [condutor] estava caído e ferido. Arrastámo-lo para estrada, inconsciente e logo me apercebi que era sério.

Como estava de pistola, pedi a G3 emprestada ao Fonseca e fui buscar o nosso enfermeiro que me confirmou que era muito grave. Decidi evacuá-lo imediatamente para Farim. Desloquei-me à 2.ª viatura para conseguir ajuda no transporte do ferido, mas ao aperceber-me do drama e para facilitar, o soldado Solipa ofereceu-se pois não tínhamos condutor, para conduzir a viatura dali para Farim, e corremos os dois para junto do grupo que protegia o ferido. Ainda debaixo de fogo, o Solipa manobrou a Berliet e carregámos o Guilherme já inconsciente. Partimos, eu o enfermeiro e mais três soldados rapidamente para Farim. Recordo-me de lhe segurar a cabeça para não se magoar no chão da viatura, enquanto com a outra mão me segurava à estrutura do banco corrido. No outro extremo o Evangelista segurava-lhe as pernas, também deitado e agarrado ao banco com uma mão. As minhas pernas já iam fora do estrado da viatura e era difícil manter a posição dada a velocidade da Berliet e as irregularidades da picada.

Acreditávamos que ia valer a pena…

Foi um esforço em vão, inglório. Marcou-nos a todos também… Aqui destacou-se o soldado Solipa ex-condutor e condenado por indisciplina, pelo comando de Bissau, a "fazer a tropa connosco" no mato.

O soldado Solipa foi louvado pela atitude de solidariedade com um camarada, debaixo de fogo. Enviei à família do soldado Guilherme uma nota de sentimento com a foto que lhe tirei vinte minutos antes de falecer, descrevendo a acção onde caiu. Não obtive resposta e nunca mais comunicámos".

[O camarada João Bento Guilherme era natural da Vila de Fazendas de Almeirim, Município de Almeirim].

Ass. Alf. Armando Mota, 1.º Pelotão



2.2. A EMBOSCADA DA CCAÇ 14 – A 30DEZ1970Depois de concluída no CIM. (Centro de Instrução Militar), em Bolama, a sua formação/instrução em finais de Outubro de 1969, a Companhia de Caçadores 14 [companhia das etnias mandinga e manjaca - ex-CCAÇ 2592] rumou nos primeiros dias de Novembro para a zona operacional que lhe tinha sido destinada – CUNTIMA, mesmo junto à fronteira com a República do Senegal.



Cuntima. Tabanca juno à fronteira com o  Senegal. Foto do álbum do camarada Humberto Nunes (ex. alf mil Cmdt do 23.º Pel Art, Gadamael Porto e Cuntima, 1972/74) – P10340, com a devida vénia.



Para caracterizar a actividade operacional da CCAÇ 14, recorremos aos depoimentos do camarada ex-fur Eduardo Estrela (Cuntima, 1969/71). No P11365, ele refere: "Em Cuntima, a actividade operacional era intensa pois estavam no mato permanentemente dois ou mais grupos de combate, por períodos de quarenta e oito horas. A guarnição de Cuntima, normalmente composta por duas companhias operacionais, Pelotão de Obuses e Pelotão de Milícias, para além das interdições ao corredor de Sitató, fazia picagens à estrada, escoltas às colunas para Farim, segurança próxima e afastada ao aquartelamento e as operações militares que obrigavam a utilização de maiores meios.


As colunas a Farim eram diárias e o desgaste físico e psíquico muito grande, pois volta não volta o PAIGC aparecia. (…) Em Farim fazíamos interdição ao corredor de Lamel, numa época em que o PAIGC estava muito activo. De tal modo activo que entre o início de dezembro de 1970 e meados de janeiro de 1971, a guarnição do BCAÇ 2879 sofreu algumas baixas, entre mortos e feridos".

Por ausência de testemunho escrito relacionado com esta emboscada sofrida pela CCAÇ 14 no dia 30 de Dezembro de 1970, apenas podemos acrescentar que neste combate aquela unidade das NT registou dois mortos, um do recrutamento local e outro do contingente metropolitano, a saber:




2.3. A ACTIVIDADE OPERACIONAL DO "CORPO DE EXÉRCITO"  199-B-70 (1970/1971)

No âmbito deste trabalho, apurámos que o "Corpo de Exército" 199-B-70 foi criado durante o mês de Novembro de 1970, na Frente Sul, tendo Nino Vieira (1939-2009) tomado a iniciativa de enviar uma carta, de Kandiafara , a Aristides Pereira (1923-2011), datada de 18 desse mês, informando-o desse facto.




Citação: (1966-1974), "Relatório remetido por Nino Vieira a Amílcar Cabral expondo a situação na fronteira com a República da Guiné, designadamente os ataques entre Kebo e Guileje", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40775 (2018-4-20), com a devida vénia.



Como fonte de informação oficial, e por isso importante para melhor se compreender o contexto e as dimensões das actividades subversivas do PAIGC na Frente Norte, particularmente na avaliação e controlo dos diferentes factores com elas relacionadas, localizámos um documento elaborado por Osvaldo Vieira (1938-1974), à época membro do Conselho Superior de Luta e do Comité Executivo da Luta, de 9 de Agosto de 1971.

Partindo da análise do conteúdo, circunscrevemos as partes que melhor se enquadram na presente temática, não deixando de reproduzir o texto na íntegra.

Osvaldo Vieira refere que, após realizar a sua missão de inspecção no Norte [Frente], concluiu que a situação era razoável, embora a falta de homens e de munições eram um problema bastante sério, principalmente na Região do Canchungo [ex-Teixeira Pinto] e outros Sectores como Naga e Morés. Para além disso, as actividades das Forças Armadas eram consecutivas e a maior parte delas com bastante êxito, e que nos últimos tempos têm causado ao inimigo [NT] duras perdas em homens e em materiais de guerra. Quanto ao comportamento dos camaradas em geral era bastante bom e com maior disciplina.



Aquando da sua entrada em território da Guiné, somente se encontrava um "corpo do exército", o n.º 199-C-70, que fazia as suas actividades na Frente Nhacra-Morés. Os restantes "corpos de exército" encontravam-se na linha da fronteira com a República do Senegal, exercendo as suas missões naquela área.


Quanto aos outros dois "corpos de exército", 199-A-70 e 199-B-70 [aquele que nos interessa] encontravam-se na linha de fronteira a fazer missão e logo que ela esteja cumprida, irão para o interior do país [Guiné], segundo a determinação de Amílcar Cabral [SG]. Em relação às forças locais [FAL] encontram-se estacionadas no Cassu, S. Domingos, Camparada, Ingoré, Sano, Cumbamore e Faiarte. Também existe um grupo no Ermancono, na linha de fronteira, que tem como tarefa apoiar a entrada de munições e tudo o que se refere a necessidades do exército. Tem havido certas fugas [deserções] no seio do "corpo de exército" dos camaradas que vieram para o reforçar, especialmente os oriundos do Sul. Quanto à fuga em direcção à fronteira [Norte] tem havido muito raramente, que, segundo ele, é devido à organização que se nota no interior do exército.





Citação: (1971), "Relatório de missão de inspecção à actividade das Forças Armadas no Norte", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40059 (2018-4-20), com a devida vénia.



2.4. BALANÇO DA ACTIVIDADE OPERACIONAL DO "CORPO DE EXÉRCITO" 199-B-70 (1970/1971)


 Para concluir o primeiro fragmento desta narrativa, importa agora dar conta do que consta no relatório, tipo "caderno de apontamentos", manuscrito pelo responsável militar do "Corpo de Exército" 199-B-70, Cmdt Braima Bangura, também ele membro do Conselho Superior de Luta e do Comité Executivo da Luta. O documento foi elaborado em Ziguinchor [República do Senegal] com data de 24 de Dezembro de 1971.








Citação: (1971), "Relatório da acção do CE [Corpo de Exército] 199-B70, desde a sua formação, em Dezembro de 1970, até ao final do ano de 1971.", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40099 (2018-4-20), com a devida vénia.


Continua…

À vossa consideração.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.

Jorge Araújo.

21ABR2018.

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Nota do editor:

domingo, 22 de abril de 2018

Guiné 61/74 - P18550: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XXVIII-A: As minhas viagens por terras do Cacheu em 1968

Foto nº 1 >  Cacheu, 1968 > Monumento


Foto nº 2  > Cacheu, 1968 > Casas novas


Foto nº 3 > Cacheu, 1968 > Vista do mato


Foto nº 4  > Cacheu, 1968 > Eu, na autometralhadora Daimer, ME-90-72


Foto nº 5 > Cacheu, 1968 > Vista do rio Cacheu


Foto nº 6 > Cacheu, 1968 > Vista di quartel de Cacheu


Foto nº 7 > Cacheu, 1968 > Picada do Cacheu


Guiné > Região de Cacheu > Cacheu > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69).

Fotos (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem, de 23 de março último, de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69); natural do Porto, vive em Vila do Conde, sendo economista, reformado; tem mais de 4 dezenas de referências no nosso blogue:


Olá, Luís e demais camaradas,

Hoje lembrei-me de mandar mais umas fotos.

Estas são algumas de muitas sobre as diversas viagens que fazia no tal barco da Engenharia, o Sintex, com 2 motores fora de borda, entre São Domingos e Cacheu. Umas vezes em serviço, e outras nem por isso, mais desenfiado e para 'desopilar' daquele local que chamei de 'Campo de concentração de S. Domingos'.

Normalmente íamos todos bem, 4 pessoas apenas, depois na vinda já vinha tudo com a cabeça à volta. Ia com o Alferes Gatinho, da CART 1744, ele era um prato, e passávamos bons momentos.
Fica para a história desta passagem por aquelas terras.

Cacheu era de longe muito mais importante que São Domingos, aliás era a região que dava o nome a Sao Domingos.

O pessoal de lá recebia-me muito bem, não faltava nada.

Um Bom Domingo para todos, com este vento frio que não para de soprar.

Virgílio Teixeira
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Guiné 61/74 - P18549: Blogpoesia (563): "As borboletas", "Pressurosos, bem alinhados...", e "Como será o paraíso...", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) três belíssimos poemas, da sua autoria, enviados entre outros, durante a semana, ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


As borboletas

Bailam contentes as borboletas.
A Primavera chegou.
Já têm flores,
De todas as cores,
Brilhando ao sol.
Podem poisar.
Sugar-lhes o pão,
Seu alimento.
O vento as leva,
Dum lado para o outro.
Não têm fronteiras.
Podem girar.
Se contentam com pouco.
Quando a fome lhes dá.
E levam para casa
O que conseguem levar.
Têm filhos pequenos.
Não conseguem voar.
Foi sempre assim.
Com seus pais e avós.
Se querem viver,
Não podem parar.
Borboletas ladinas,
De asas tão lindas,
De todas as cores,
Parecem flores
Que sabem voar…

Berlim, 17 de Abril de 2018
16h41m
Jlmg

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Pressurosos, bem alinhados...

Pressurosos, bem alinhados,
aqueles dedos percorrem de trás para a frente e no inverso,
sobre as teclas inúmeras,
soltando sons e acordes
que nos enlevam a alma
e fazem sonhar...
Como tudo é belo.
quando a paz e a harmonia
impera e reina.
O sossego vem. Nosso corpo tenso se distende.
Se desenlaça de todos os nós
que lhe atam a alegria do coração.
De olhos fechados, navegamos mundo além,
pairando na serenidade astral
do pensamento,
que não sente limites.
Esta capacidade inefável com que nascemos de vibrar à beleza,
em todas as suas expressões,
são a marca indelével da nossa dimensão espiritual.
Só nós a temos, à semelhança de quem nos deu a vida e forma...

ouvindo "O concerto para piano e orquestra de Grieg", por Alice Sara Ott
Berlim, 20 de Abril de 2018
6h24m
lindo nascer do sol
Jlmg

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Como será o paraíso... 

Aquele lugar distante com festa a toda a hora. 
Onde a alegria reina e inunda e a luz é suave e colorida. 
Não há espaço ou tempo para o sofrer. 
Não há desejos porque estes são a marca do que não há. 
A passividade é a paz. 
A contemplação o mar da sabedoria. 
Não há fome nem sede. 
Não há o reino dos cinco sentidos, por natureza imperfeitos. 
Não há o mais nem o menos. 
Há o ser mais que perfeito. 
Tudo é e está à mão. 
A segurança é leve. 
E o belo paira infinito pelo ar... 

ouvindo Elgar
Berlim, 21 de Abril de 2018 
6h50m 
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 15 DE ABRIL DE 2018 > Guiné 61/74 - P18524: Blogpoesia (562): "Insaciável...", "Irrompeu a Primavera", e "Roda viva", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P18548: O nosso livro de estilo (11): Proverbiário da Tabanca Grande, 4ª edição revista e aumentada: "Camarada, mais do que um dever, é uma honra que te é devida, ir a Monte Real pelo menos uma vez na vida"...


Infografia: Miguel Pessoa (2018)

No 14.º  aniversário do nosso blogue (23/4/2018) e a escassos duas semanas  da realização do XIII Encontro Nacional da Tabanca Grande (Monte Real, 5 de maio 2017), decidimos reeditar os nossos provérbios (e outros lugares comuns do nosso humor de caserna), agora em lista revista e aumentada 4.ª edição...

Esta lista, aberta, é património de toda a Tabanca Grande e de todos os amigos e camaradas da Guiné... Afinal, este blogue é de quem o faz, edita, escreve, comenta, lê, divulga, diz bem e diz mal...

A última edição do "nosso proverbiário" era de 4 de abril de 2017  (*). E muitos dos nossos mais recentes "periquitos" ainda não a conheciam... Recorde-se que  já somos hoje 772, entre vivos (710) e mortos (62).



O NOSSO PROVERBIÁRIO


A blogar é a que a gente se entende.

A 'roupa suja' lava-se na caserna, não na parada.

Ainda pior do que o inferno da guerra, é o inverno do esquecimento dos combatentes.

Amigo do seu amigo, camarada do seu camarada.

Amigo traz amigo e amigo fica.

As nossas queridas enfermeiras paraquedistas: os anjos que desciam do céu.

Até aos cem, ainda se aguenta, depois dos cem, só com água benta.

Até aos cem é sempre em frente!... E depois dos cem, é só para quem for resistente e resiliente...

Até aos entas, bem eu passo, dos entas em diante, ai a minha perna, ai o meu braço!...


'Bazuca': o que fazia mal ao fígado, fazia bem à alma.

Beber a água do Geba.

Boa continuação da viagem pela picada da vida!... Cuidado com as minas e armadilhas!

Brincando por fora, sangrando por dentro.


Cabral só há um, o de Missirá e mais nenhum.

Camarada e amigo... é camarigo!

Camarada não tem que ser amigo: é o que dorme contigo, no mesmo buraco, na mesma cama, no mesmo abrigo.


Camarada, mais do que um dever, é uma honra que te é devida, ir a Monte Real pelo menos uma vez na vida.

Camarada, que a terra da tua Pátria te seja leve!

Catorze anos a blogar, pois é!, são sete comissões na Guiné!

Combatente um vez, combatente para sempre!


Dão-se lições de artilharia para infantes.

Desaparecidos: aqueles que nem no caixão regressaram.

Desarmados, jubilados, reformados, aposentados mas não... arrumados.


E quem não bebeu a água do Geba, nunca poderá entender a vida, o conteúdo e o continente das nossas estórias.

E também lá vamos facebook...ando e andando.

É proibido fazer juízos de valor sobre o comportamento de um camarada (do ponto de vista operacional, disciplinar, ético, moral, social).

Encontro Nacional da Tabanca Grande: orar, comer.. e amar em Monte Real!

Entra e senta-te à sombra do nosso poilão.

Estás com o bioxene. [Estás com os copos.]

Estás porreiro ou vais p'ró carreiro!?...

Estorninhos e pardais, aqui somos todos iguais.

Exorcizar os nossos fantasmas.


F... e mal pagos.

'For the Portugese Armed Forces from Scotland with love'... [Da Escócia com amor, para as Forças Armadas Portuguesas.]


Guerra do Ultramar, guerra de África, guerra colonial (, como se queira).

Guerra ganha, guerra perdida? Camarada, não percas tempo com a discussão do sexo dos anjos...

Guiné, de floresta verde e de chão vermelho.

Guiné? ... Não era pior nem melhor, era diferente.


Há comentadores e comentadores: alguns são como o peixe e o hóspede, ao fim de três dias fedem...

Havia os desertores, os refratários, os faltosos... e nós.

Humor com humor se (a)paga.


In Memoriam: para que não fiques, pobre camarada, na vala comum do esquecimento.


Lá vamos blogando, recordando, (sor)rindo, e às vezes cantando, gemendo e chorando!

Lá vamos contando (e cantando) os quilómetros pela picada da vida fora!

Lembra-te, ó português, a tua bandeira é a das cinco quinas, a dos cinco pagodes é na loja... do chinês!

Luso-lapão só há um, o Zé Belo, e mais nenhum.


Mais morto de alma do que vivo de corpo.

Mais vale andar neste mundo em muletas do que no outro em carretas.

Mais vale um camarada vivo do que um herói... morto!

Melhor que as bajudas, era a 'água de Lisboa' que nos fazia esquecer as bajudas.

Meu pai, meu velho, meu camarada.

Miguel & Giselda, o casal mais 'strelado' do mundo.

Muita saúde e longa vida, porque tu, camarada, mereces tudo.


Não deixes que o teu espólio de memórias vá parar à Feira da Ladra ou ao OLX.

Não deixes que sejam os outros a contar a tua história por ti.

Não é o Panteão Nacional, é melhor, é... a Tabanca Grande.

Não fazemos a História com H grande, mas a História não se fará sem a nossa... pequena história.

Nem medalhas ao peito nem cicatrizes nas costas.

Ninguém leva a mal: em cima o camarada, em baixo o general.


O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!

O nosso maior inimigo: o Alzheimer (de que Deus nos livre!)...

O seu a seu dono: respeita os direitos de autor.

Ó Sitafá, deixa lá, cabeças e rabos de sardinha não são bem a mesma coisa.

O último a morrer, que feche a tampa... do caixão.

Olhe que não, sr. general, olhe que não.

Os bravos não se medem aos palmos.

Os bu...rakos em que vivemos.

Os camaradas tratam-se por tu.

Os camaradas da Guiné dão a cara, não se escondem por detrás do bagabaga.

Os filhos dos nossos camaradas, nossos filhos são.

Os netos dos nossos camaradas, nossos netos aão.

Os nossos queridos 'nharros'...


Para que os teus filhos e netos não digam, desprezando o teu sacrifício: "Guiné? Guerra do Ultramar? Guerra Colonial? Não, nunca ouvi falar!"...

Partilhamos memórias e afetos.

Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas" em Bissau.

'Periquito' salta pró blogue, que a 'velhice' já cá está!

Periquitos até aos 6 meses, maçaricos até a um ano... e depois vccês  (velhinhos comó c...)

P'rós insultos, não há contemplações nem indultos.



Que Deus, Alá e os bons irãs te protejam!

Quem não faz 69, não chega... aos 100!

Quem não tem "turpeça" senta-se no chão... e quem "turpeça" também cai.


Rapa o fundo ao teu baú da memória.

Recorda os sítios por onde passaste, viveste, combateste, amaste, sofreste, viste morrer e matar, mataste, e perdeste, eventualmente, um parte do teu corpo e da tua alma...


Saber resolver os nossos diferendos, os nossos conflitos... sem puxar da G3!

Sempre presentes, aqueles que da lei da morte já se foram libertando.

Siga a Marinha!

Só há três coisas de que aqui não falamos: futebol, política e religião.

Somos uma espécie em vias de extinção.

Soubemos fazer a guerra e a paz.


Tabanca Grande: a mãe de todas as tabancas.

Tabanca Grande: onde todos cabemos com tudo o que nos une e até com aquilo que nos separa.

Tabanca Grande: onde não há portas nem janelas nem arame farpado nem cavalos de frisa

Tuga, que Deus te livre da doença do... alemão.

T/T Niassa, Uíge, Ana Rita, Angra do Heroísmo... Os cruzeiros das nossas vidas.


'Um blogue de veteranos, nostálgicos da sua juventude' (René Pélissier dixit).

Uma geração que soube fazer a guerra e a paz.

Uma guerra... a petróleo!


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sábado, 21 de abril de 2018

Guiné 61/74 - P18547: Os nossos seres, saberes e lazeres (263): De Estremoz para as Termas de S. Pedro do Sul (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 23 de Janeiro de 2018:

Queridos amigos,
Procurava-se pôr em marcha, com alguma meticulosidade, um farto passeio pela Lisboa que o engenheiro Ressano Garcia criou, projetavam-se itinerários, já se efetuara a 1.ª viagem exploratória quando se propôs uma viagem pelo Interior, começando por Estremoz, estacionando com alguma demora em Monsanto e dali arribar às termas de S. Pedro do Sul, na companha havia gente disposta a fazer inalações, aquelas termas são boas para isso e para as doenças músculo-esqueléticas.
Ora o viandante nunca fora a S. Pedro do Sul, dera cursos em Carregal do Sal, viajara pelo Caramulo e proximidades, mas ali não. Acrescia que a sua mãe, quando ele fizera guerra na Guiné, dali lhe enviara postais com vistas opíparas, ele guardara religiosamente tais imagens, era o momento azado para se reencontrar com o lugar onde sua mãe procurara, em vão, minorar o sofrimento das artroses dos joelhos.
E assim se concordou, sem hesitação, em tal viagem, que ora começa.

Um abraço do
Mário


De Estremoz para as termas de S. Pedro do Sul (1)

Beja Santos

Congeminava o viandante uma nova série de itinerância, bojuda e bem lisboeta, passear-se pelos muitos sítios desenhados pelo engenheiro Ressano Garcia, aquele talento das obras públicas que mais mexeu na capital depois dos arrojados trabalhos da reconstrução após o terramoto, quando lhe chegou o convite de gente amante de estâncias termais para um passeio deveras singular: começar em Estremoz, passar por Nisa e subir para o Interior, visitar com detalhe Monsanto e daqui avançar para as termas de S. Pedro do Sul. Acertados os pormenores, apanha-se autocarro até Estremoz, daqui se seguirá para um monte, início da confraternização. O viandante pede tréguas, duas horas para se passarinhar por alguns sítios. Pedido aceite. Começa a viagem





Manda o roteiro turístico que se vá à Alcáçova, contemplar a Torre de Menagem, a Capela da Rainha Sta. Isabel, ver o miradouro, descer e andar por portas e baluartes, e depois há o património religioso, enorme. Com pouco tempo, impõe-se a seletividade, começa-se pelo Convento dos Congregados, tem a ver com a Congregação dos Padres do Oratório, um monumento singularíssimo edificado por ordem de D. Pedro II. O primeiro olhar vai para os belos azulejos que acompanham a escadaria de mármore, temos motivos religiosos e motivos laicos, predominam as cenas de caça. Houve selvajaria dos soldados de Loison, no decurso da 1.ª invasão francesa andaram a picar aqueles belíssimos azulejos. Sobe-se e chega-se às instalações da Câmara. Desce-se e contempla-se a extraordinária beleza da fachada.


O que há de especial aqui, queridos amigos? São os alçados ondulantes, sente-se a influência de Borromini, e parece que estamos diante da fachada de Sta. Engrácia, Panteão Nacional, aliás são estes os dois únicos alçados ondulantes em Portugal. E muda-se de registo.


No Rossio Marquês de Pombal vendem-se produtos locais mas também flores de Inverno, o viandante sente-se atraído por tanto viço em amores-perfeitos e prímulas, quer encher os olhos de cor, tem muito tempo para se adaptar a quilómetros de granito, a partir de Penamacor, está de antemão informado que verá a desolação dos incêndios, muito antes de chegar ao rio Vouga.



Neste mesmo Rossio Marquês de Pombal há estabelecimentos de outras eras, entra-se no primeiro para se matar a sede e tapar uma fome, aproveita-se para mexericar nas brochuras oferecidas no Posto de Turismo, onde aliás se comprou um livro sobre o património religioso de Estremoz, leitura para mais tarde. Anuncia o folheto que o café Águias D’Ouro foi construído entre 1908 e 1909, é todo Arte Nova e desempenhou um papel central na vida quotidiana da cidade. Era aqui que no início do séc. XX se reuniam os estremocenses em tertúlia. Não se sabe se por aqui viajaram ideias republicanas. Hesita-se em bisbilhotar as portas da cidade, em contemplar os panoramas que se disfrutam no Largo do Gadanha, há que optar, estamos em terra de um consagrado regimento de cavalaria, ponham-se os olhos em memoriais de combatentes.




Preito aos nossos mortos, os da nossa geração, os que combateram na Flandres e nas Áfricas, da I Guerra Mundial. E não se pode ficar insensível aos Dragões de Olivença, a Espanha ocupou e jamais desocupou o que é nosso, é política e diplomaticamente um assunto arrumado, mas ficaram sinais que não se devem apagar de que Olivença é terra portuguesa usurpada. Para que conste.


O viandante tem uma séria paixão por casas de livros, mas esta é bem peculiar, está adossada ao Convento dos Congregados, ao que parece toda esta bela azulejaria veio de igrejas arruinadas, é uma bela biblioteca, dá gosto vir para aqui estudar, ler jornais ou escrever ou tomar conhecimento de tudo quanto se publica sobre esta terra cheia de belezas. Acabou-se o tempo, impõe-se mudar de agulha, ultrapassa a vintena o número de igrejas, capelas e ermidas que se podem conhecer, e perto temos outras belezas, por exemplo em Evoramonte, S. Bento do Ameixial, S. Lourenço de Mãoporcão e Veiros. Mais uma razão para aqui se voltar, para além do património religioso há os museus e os baluartes, a comida é de truz, não se pode esquecer a fartura do mármore. E da próxima vez, está garantido, o viandante senta-se no Largo do Gadanha a olhar para o céu, para a Alcáçova e para a Torre de Menagem. Assim se fará, haja saúde e esta permanente curiosidade em vasculhar lugares, mais aqui e mais além.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 17 DE ABRIL DE 2018 > Guiné 61/74 - P18530: Os nossos seres, saberes e lazeres (262): 1.º Encontro de Teatro Sénior, Organização Actis Sintra, dia 21 de Abril de 2018, Casa da Juventude das Mercês (António J. Pereira da Costa)

Guiné 61/74 - P18546: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 41 e 42: "“Olha lá ó 118! Tens-te portado bem, se quiseres ir de férias à Metrópole eu assino a autorização”, disse-me o capitão no dia do Festival da Canção da RTP; em 26 de fevereiro de 1973


 Uma das duas AK 47 (Kalashnikov) apanhadas ao PAIGC,  na operação de 24 de fevereiro de 1973, na tabanca de Farnan


Eu com o miúdo que nos lavava a louça.


Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CART / BART 6520/72 (1972/74) > 1973 >  

Fotos (e legendas): © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar): Blogue Luís Graça]



1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome da Pátria") do nosso camarada José Claudino Silva [foto atual à esquerda] (*)

(i) nasceu em Penafiel, em 1950, de pai incógnito" (como se dizia na época e infelizmente se continua a dizer, nos dias de hoje), tendo sido criado pela avó materna;

(ii) trabalahou e viveu em Amaranete, residindo hoje na Lixa, Felgueiras, onde é vizinho do nosso grã-tabanqueiro, o padre Mário da Lixa, ex-capelão em Mansoa (1967/68), com quem, de resto, tem colaborado em iniciativas culturais, no Barracão da Cultura;

(iii) tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado; completou o 12.º ano de escolaridade; oi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção);

(iv) tem página no Facebook; é avô e está a animar o projeto "Bosque dos Avós", na Serra do Marão, em Amarante;

(ix) é membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande.

Sinopse:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;

(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, da Via Norte à Rua Escura.

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré;

(v) no dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau,

(vi) fica mais uns tempos em Bissau para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(vii) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas companhia; partida em duas LDM parea Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos', os 'Capicuas", da CART 2772;

(viii) faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(ix) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe";

(x) a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(xi) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(xii) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda;

(xiii) ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerogram as por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(xiv) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina, que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado;

(xv) fica revoltado por o seu camarada responsável pela cantina, e como ele 1º cabo condutor auto, ter apanhado 10 dias de detenção por uma questão de "lana caprina": é o primeiro castigo no mato...; por outro lado, apanha o paludismo, perde 7 quilos, tem 41 graus de febre, conhece a solidariedade dos camaradas e está grato à competência e desvelo do pessoal de saúde da companhia.

(xvi) em 8/11/1972 festejava-se o Ramadão em Fulacunda e no resto do mundo muçulmano; entretanto, a companhia apanha a primeira arma ao IN, uma PPSH, a famosa "costureirinha" (, o seu matraquear fazia lembrar uma máquina de costura);

(xvii) começa a colaborar no jornal da unidade, e é incentivado a prosseguir os seus estudos; surgem as primeiras sobre o amor da sua Mely [Maria Amélia], com quem faz, no entanto, s pazes antes do Natal; confidencia-nos, através das cartas à Mely as pequenas besteiras que ele e os seus amigos (como o Zé Leal de Vila das Aves) vão fazendo...

(xviii) chega ao fim o ano de 1972; mas antes disso houve a festa do Natal (vd. capº 34º, já publicado noutro poste);

(xix) como responsável pelos reebastecimentos, a sua preocupção é ter bebidas frescas, em quantidade, para a malta que regressa do mato, mas o "patacão", ontem como hoje, era sempre pouco;

(xx) dá a notícia à namorada da morte de Amílcar Cabral (que foi em 20 de janeiro de 1973 na Guiné-Conacri e não no Senegal); passa a haver cinema em Fulacaunda: manda uma encomenda postal de 6,5 kg à namorada;

(xxi) em 24 de fevereiro de 1973, dois dias antes do Festival da Canção da RTP, a companhia faz uma operação de 16 horas, capturando três homens e umas Kalashnikov, na tabanca de Farnan.


2. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 41 e 42

[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. E muito menos fazer autocensura 'a posterior', de acordo com o 'politicamente correto'... Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]
 
 41º Capítulo > 16 HORAS NO MATO

Entre o amor, um copo, uma piada e a guerra, aquilo de que gosto menos de escrever é sobre a guerra. Neste projecto a que me propus, tenho de o fazer e basta-me copiar:

“Não é costume escrever-te de manhã mas hoje tenho uma série de coisas para te contar e decidi fazê-lo.

Quero que saibas que ontem os meus camaradas saíram para o mato, apanharam três “turras” e duas metralhadoras, agora eles estão aqui no quartel presos até vir uma avioneta busca-los para Bissau.


Eles foram capturados numa aldeia chamada Farnan que fica a mais de 35 km daqui. Os meus colegas saíram às duas horas da manhã e chegaram aqui às seis da tarde, por isso já podes ver que andaram durante 16 horas. Atravessaram rios, bolanhas, pântanos, matas etc. Quando chegaram aqui confesso que até chorei com pena deles.

Os meus camaradas eram 76, nós aqui no quartel só ficamos 65 para defender Fulacunda. Ao chegarem vinham completamente exaustos, até o capitão que também foi não podia dar mais um passo. Uns vinham descalços com os pés ensanguentados, outros com a farda rasgada inclusive o capitão. Acredita meu bem ser soldado numa guerra é a pior coisa que pode acontecer a um homem, ainda bem que houve uma coisa que lhes deu coragem que foi terem trazido esses três “turras” e as armas pois assim sabem que o esforço não foi em vão.

É assim meu bem eu tive imensa sorte, por aquilo que te digo e não é tudo já vês o que os meus camaradas passam, e vês também que esta guerra não é uma guerra de brincar como no cinema.
Não sei se ouves na rádio, ou se lês no jornal, os boletins das forças armadas da Guiné, se ouvisses ou lesses, saberias que aqui todos os dias há lutas entre as nossas tropas e o inimigo e ocorrem em toda a província e também sabias que por cada morto nosso morrem dez deles, de maneira que a Guiné não interessa a ninguém. Pelo menos para aqueles que como nós estão destacados no mato.”

As armas capturadas foram duas AK 47 (Kalashnikov)

No dia seguinte, foi domingo. Pedi para a metrópole que me mandassem umas garrafas de vinho e enviei o postal da Praça do Império, em Bissau.

Continuando os meus relatos estupidamente descritos nestas páginas, quero que libertem a vossa mente, porque dois dias após o que acabei de vos dizer, esteve alegremente e comigo quase toda a companhia, a ouvir o festival da canção.

No dia 26 de Fevereiro de 1973, quando eu completei oito meses de Guiné, ouvi, num pequeno rádio a 4000 km de distância, uma das melhores canções de sempre num festival da canção. Fernando Tordo ganhou com a canção “Tourada”; letra de José Carlos Ary dos Santos. Talvez o melhor poema sarcástico interpretado até hoje num festival para a Eurovisão.

Nesse dia, o capitão disse-me:

“Olha lá ó 118! Tens-te portado bem, se quiseres ir de férias à Metrópole eu assino a autorização”

Três dias depois já escrevia:

“Talvez me safe, ando doente do estômago se for de férias dou baixa ao hospital militar”



42º Capítulo > SOLIDARIEDADE

Uma das mais fascinantes memórias que guardo está descrita no aerograma do dia 7 de Março de 1973. O carnaval tinha sido no dia anterior, festejado a preceito. O Zé Leal recebeu uma encomenda com os artigos que tinha pedido aos pais. Não foi uma encomenda normal.



“Queridinha, ontem veio na avioneta uma encomenda que o Leal mandou vir que continha roupas para o rapazito que nos lava a loiça, não imaginas a esfusiante alegria que o moço sentiu. Conto-te isto porque fiquei deveras sentido com a reacção do moço quando ele viu a roupa, até chorou de alegria. Menciono isto para mais tarde poder recordar que um pouco de roupa deu uma alegria das Maiores que assisti até hoje”.


Em todas as gerações, há sempre quem se destaque em momentos de enorme altruísmo e partilha, sem olhar a quem, e sem disso fazer alarde. Devem ser muito poucos os soldados que tiveram a atitude do Zé Leal. Lembro-me que aquele gesto me influenciou a proceder de igual modo. Honestamente, não sei se o concretizei. Se na restante correspondência encontrar algo que o prove, di-lo-ei. Com o gesto do meu amigo, até a guerra parou e houve uma festa. Afinal, era dia de carnaval.

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Nota do editor: