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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca

A partir de agora, estamos em novembro de 1969, quando tenho saudades do Cuor, venho até ao porto de Bambadinca e olhar para lá da bolanha de Finete, fico ali especado a ver toda aquela massa florestal, por vezes o barqueiro, de nome Mufali Iafai, que me atravessou vezes sem conta de um lado para o outro, vem conversar comigo, faço dele o meu elemento de ligação com o passado. Ele lembra-se muito bem daquela noite de 28 de maio de 1969, quando Bambadinca sofreu a sua primeira flagelação, tomei a liberdade de vir em seu auxílio, o Geba na maré-baixa, ganhei lama até ao umbigo, este mesmo Mufali queria levar-me às costas para não entrar na lama da outra margem, recusei, mas não esqueci a deferência.

A intervenção em Bambadinca traduz-se numa multiplicidade de operações: levar e trazer correio de Bafatá; fazer patrulhamentos noturnos; fracionarmos o pelotão em secções, cada uma vai para o seu mister; passar noites abomináveis num lugarejo que dá pelo nome de Undunduma; participar em operações em Mansambo, Xitole, Xime; fazer colunas de reabastecimento entre Bambadinca e Xitole… enfim, um desgaste, uma perda da relação com os meus homens, por ironia estaremos sempre juntos nas operações ou naquelas emboscadas defensivas em que passamos a noite toda num ponto ermo para hipoteticamente defender Bambadinca.

O último mês de verdadeira atividade operacional, julho, traduz-se em sair de madrugada para proteger os trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Até que recebo a notícia de que devo partir para Bissau, antes de partir voltei a ver uma nova prova do rancor que separa os guineenses dos cabo-verdianos, o meu substituto é cabo-verdiano, os soldados convocaram-me, acusam-me de deslealdade, tanta amizade, tanta amizade e agora entrega-nos ao velho patrão com chicote, um gajo que certamente nos odeia. Tudo se veio a concertar, mas a estadia do meu substituto não foi longa.

Depois de doze dias de viagem, de Bissau para o Sal, do Sal para Mindelo, de Mindelo para Ponta Delgada e daqui para o mesmo cais da Rocha do Conde Óbidos, regresso a Lisboa, sei que tenho que acalmar as recordações, prometo a mim mesmo que não quero descurar as amizades feitas, mas sei perfeitamente que tudo vai mudar, desisti de voltar ao meu antigo emprego, fiz um contrato com o Ministério do Exército, darei recrutas em Mafra, serei colocado em Lisboa na Agência Militar, recomecei os estudos, gota a gota vou fazendo exames, tenho família, nasceu-me uma filha, restabeleci uma vida social mitigada, fazer exames é o mais importante.

Veio depois o 25 de abril, o país tem uma inflação superior a 30%, os governos provisórios são obrigados a tomar medidas que obriguem à contenção dessa inflação. É agora nesse serviço público que eu vou descobrir a política dos consumidores, tanto a nível profissional como na participação cívica. A Guiné parece estar cada vez mais longe, visito e recebo em casa os meus soldados gravemente sinistrados, escrevo e recebo mensagens, há trocas de fotografias, descubro que falar da guerra incomoda muita gente, aliás o Governo garrota toda e qualquer informação que revela a evolução a que chegou a guerra nos três teatros de operações, é facto que há as notícias necrológicas, as mensagens de Natal do soldado, as campanhas do Movimento Nacional Feminino, não se mostram as partidas e chegadas dos contingentes militares, a filosofia é de que toda aquela tropa está em missões de policiamento, existe terrorismo que vem de outros territórios, é tudo estratégia do comunismo. Claro que há famílias enlutadas, mas a guerra continua longe.

O grande abalo, o de 1961, parece ultrapassado. De 1973 para 1974 entramos numa maré de sobressaltos: qualquer coisa de muito grave aconteceu na Guiné, não se sabe muito bem o quê; uma guerra para os lados de Israel vai desencadear uma crise petrolífera, as consequências serão visíveis na sociedade portuguesa, todos os preços sobem; em fevereiro de 1974 o General Spínola publica um livro onde consta uma frase fatal, não há solução militar para aquela guerra, só solução política. E assim chegámos ao 25 de abril.



VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita

Trabalhei no Ministério da Economia, no Ministério do Comércio e Turismo e até no Ministério do Ambiente, estou ativo na tal política dos consumidores, só a tutela é que muda. Ora algo aconteceu em 1989 que leva a que dois funcionários do Instituto do Consumidor se desloquem à República da Guiné-Bissau para discutir da viabilidade de um protocolo na área da política dos consumidores. Em janeiro de 1990, regresso à minha Guiné. O ministro do Ambiente de então, reunira-se com os seus colegas da lusofonia para negociar uma posição comum relativamente a um acontecimento que iria ocorrer em 1992, a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro. O ministro da Indústria e dos Recursos Naturais da Guiné-Bissau surpreendeu o ministro português quando lhe pediu um programa de recuperação na área da defesa do consumidor. O ministro português disse que sim, encarregou o Instituto do Consumidor das diligências necessárias.

Foi uma semana intensa de contactos, sentia-se a ver sinceridade e preocupação quando se expunham os motivos de pedido de protocolo, dando uma grande abrangência à defesa do consumidor. Tomou-se nota de tudo e prometeu-se elaborar um documento favorável ao que se pedia e enviá-lo ao ministro português. Mas o meu coração não descansava, senti uma enorme vontade de visitar o regulado do Cuor. Um cooperante com quem se almoçava na chamada Pensão Central, ou da Dona Berta, ofereceu-se para lá irmos num domingo. Como aconteceu. 20 anos depois entrei em Missirá, houve choro convulsivo, abracei muitos amigos, recebi inúmeras cartas com pedidos, reencontrei o meu guarda-costas a quem prometi que tudo faria para vir para Portugal. Como aconteceu.

Chegado a Lisboa, preparei um relatório da missão em concordância com a expetativa das autoridades guineenses quanto ao lançamento daas bases de uma política para consumidores, eles pediam intervenção legislativa e formativa na área alimentar (punha-se a necessidade de saber minimamente o que se importava) no combate ao esbanjamento dos recursos naturais, na criação de uma instituição onde se articulasse as intervenções a favor dos consumidores, em paralelo com a concertação dos programas das agências das Nações Unidas em projetos com impacto no consumo; reconhecia-se como tutela o Ministério de Recursos Naturais e da Indústria, da Guiné-Bissau, a entidade colaboradora seria o Ministério do Ambiente de Portugal. Passaram-se semanas e meses, até que em maio de 1991 o Ministro do Ambiente convocou-me para me dizer que tinha conversado com o seu homólogo da Guiné-Bissau e que ele insistia numa cooperação para uma estrutura muito maleável que ajudasse os consumidores a otimizar os seus recursos. O Ministro previa um protocolo envolvendo um pequeno financiamento do lado português, lera o meu relatório, nomeava-me para essa missão. E em pleno verão português e até às vésperas de Natal dediquei-me de alma e coração a fomentar alianças entre a administração, as agências das Nações Unidas e algumas organizações não governamentais. Tive a satisfação de fazer uma série de programas para a televisão da Guiné-Bissau, o título era Um milhão de consumidores. Deu-se então uma cena caricata, já tinham sido emitidos seis programas e um dos diretores da referida televisão veio-me pedir que encontrasse um patrocinador, caí das nuvens, não era a mim que cabia tal missão, sugeri alguns nomes de empresas públicas, o dito diretor entendeu que não havia condições para continuar, intuí que ele não percebia que um cooperante estrangeiro não podia andar diretamente a angariar patrocinadores.

Chegou-se ao entendimento, e mesmo houve uma decisão presidencial, para se criar uma comissão interna e industrial, propunha-se uma verba para fazer obras em instalações dadas pelo Governo guineense, nomeava-se um secretário-geral remunerado e pagava-se ajudas de custo aos participantes das reuniões. Vim para Lisboa, trazia a promessa do Ministro guineense de que enviaria o seu colega português os termos da aceitação. Silêncio total, insisti por carta e por telefone. Aprendi amargamente quanto pesam os silêncios africanos.

Chegou, entretanto, a Lisboa o filho mais novo do régulo do Cuor, passei a receber assiduamente notícias de gente que eu tanto estimava. O diretor de uma revista destinada a estudos coloniais, Carlos Cruz Oliveira, pediu colaboração, publiquei alguns artigos, escritos à pressão, não sentia disponibilidade para intervir a fundo, tinha o propósito de esperar pela reforma para lançar mãos à empreitada. É nisto que recebo um telefonema de um antigo furriel de armas pesadas de uma unidade de Bambadinca, estávamos paredes meias na sede do batalhão, vinha-me pedir autorização para reproduzir no seu blog um texto que eu publicara numa revista científica online. Combinámos encontro no seu ganha-pão, a Escola Superior de Saúde, e ainda hoje estou para saber o que me levou, imprevistamente, a declarar-lhe de que ia publicar o meu diário da Guiné no blog. Trabalhei neles durante dois anos, foram publicados em 2008 e 2009, ano a ano, de 1968 a 1969 com o título "Na Terra dos Soncó", nome de família do regulo do Cuor, e de 1969 a 1970, com o título "O Tigre Vadio", nome da operação mais sangrenta em que participei.

Enquanto ia publicando no blog estes trechos, juntavam-se outras peças resultantes das informações que me eram dadas por gente que tinha estado no Cuor ou regiões próximas. Também antigos militares meus residentes em Portugal me prestavam informações, eram sinistrados de guerra ou fugitivos da repressão do PAIGC sobre os comandos guineenses. Um acontecimento dramático, a perda de uma filha, em 2009, deu-me ocasião de me envolver em projetos de bastante fôlego, um inventário da literatura da guerra colonial da Guiné e um romance envolvendo uma mulher nonagenária que tinha vivido na Guiné entre os anos de 1950 e o início da guerra, proporcionou-me um relato sobre uma Guiné colonial antes do desencadear da luta armada.

Lia no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné relatos de ex-combatentes que visitavam a Guiné ou que acompanhavam projetos de ajuda humanitária. Sabe-se lá que as saudades do Cuor e de Bambadinca não estavam a ser avivadas por esta escrita. E comecei discretamente a congeminar uma viagem, fazia perguntas soltas, diziam-me frequentemente não vás, aquilo está tudo uma miséria, o país entrou num ocaso, se acaso alguma vez foi um país, virás de lá traumatizado, ainda por cima não encontras instalações disponíveis, é tudo uma insegurança e sozinho, se estás mesmo com saudades viaja em grupo.

Fui então estabelecendo um plano, conversei com os meus amigos guineenses em Lisboa, consegui obter apoio logístico perto no Cuor, em Santa Helena, na outra margem do Geba, escrevi a um amigo muito querido a viver em Bambadinca, um sinistrado de guerra, de nome Fodé Dahaba para ver da possibilidade de me encontrar toda a rapaziada dos antigos caçadores nativos e dos dois pelotões de milícias, queria visitá-los, o meu propósito era ir despedir-me deles todos, agradecer-lhes a leal colaboração que me tinham dado, visitar os locais onde combatera, falar com antigos combatentes do PAIGC. Pedi mesmo ajuda junto da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau. E em novembro de 2010, ajoujado de sacos com livros e lembranças, com uma listagem de endereços, inclusivamente transportando um bom conjunto de encomendas de guineenses residentes em Portugal para guineenses residentes na Guiné-Bissau, apresentei-me no Aeroporto da Portela. A sonhar da viagem da reconciliação e sem qualquer ilusão quanto ao peso das emoções que me esperam, vai começar.


(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

Último post da série de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no Pel Caç Nat 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Foi mais um reencontro, moramos em ruas paralelas, ambas a desaguar na Avenida de Roma ou no Campo Pequeno. Encontramo-nos muitas vezes na rua, sempre com promessas de reencontro, desta vez aconteceu, pedi-lhe para trazer os seus álbuns e que me desse licença para tirar algumas imagens, falei-lhe do blogue, ele é assumidamente info excluído, prometi-lhe que no dia da publicação lhe iria telefonar, ele encontraria uma solução para ver as imagens. Devo-lhe imenso, como explico no texto, foi de uma dedicação sem limites, confessou-me que fez muitas vezes um esforço enorme para não se zangar com a minha hiperatividade, com tantas obras nos quartéis de Missirá e Finete, emboscadas e aquelas malditas viagens quase diárias a Mato de Cão. Agora somos octogenários, um tanto especiais, não falámos das maleitas, mas das lembranças da Guiné.

Um abraço do
Mário



Memórias do meu braço direito no PEL CAÇ NAT 52, em Missirá e Bambadinca:
O Furriel João Manuel Sousa Pires


Mário Beja Santos

Quando cheguei a Missirá e Finete, em 4 de agosto de 1968, os meus colaboradores diretos no Pelotão de nativos eram os Furriéis Saiegh e Ferreira, estavam de partida até ao final do ano. No ano seguinte, a conta-gotas, chegaram os furriéis Sousa Pires, Luís Casanova e Pina.

Depois de muitas promessas para encontros prometidos, em 4 de setembro de 2025 houve nova troca de recordações ao vivo, antes pedi-lhe para trazer os seus álbuns e licença para fotografar algumas imagens, o que me foi concedido.

Voltei a dizer em João Sousa Pires que lhe estava profundamente grato, dera-me uma ótima colaboração, apoiara-me em momentos decisivos, por exemplo, contava sempre com ele para as contas e pagamentos, a burocracia dos autos de abate, a resposta expediente, até as escalas de serviço. Nunca esqueci o apoio indefetível que me deu quando caí na cama e o médico do Batalhão, David Payne Pereira, determinou que eu ficasse vários dias no estaleiro, socorri-me do Sousa Pires para mandar correio à família; também ele me apoiou do princípio ao fim quando me foi aplicada uma pena de dois dias de prisão simples, esbracejei junto de todas as instituições militares possíveis, isto independentemente de, na data em que era punido, o comandante do Agrupamento de Bafatá me louvava e me dava como exemplo pela mentalidade ofensiva e de liderança das forças a meu cargo.

O João Sousa Pires desembarcou em Bissau em setembro de 1968, foi colocado temporariamente na CCS do Quartel-general, deram-lhe trabalho no Serviço Postal Militar, só mais tarde é que foi despachado para o regulado do Cuor, começou aí uma cooperação que forjou a minha estima e elevada consideração pelo apoio que dele recebi.

Só nesta conversa é que me apercebi que ele estivera mobilizado para Moçambique, nas marchas finais, numa noite escura como breu espetou-se no arame farpado de uma propriedade rústica, estatelou-se e fraturou o ombro, hospitalização no Porto, regresso a Tavira e daqui mobilização para a Guiné. Fez-me companhia em Bambadinca até qualquer coisa como junho de 1970, foi então destacado para a secretaria do BART 2917, eu regressei em agosto e ele em outubro. Foi com maior satisfação que lhe redigi um louvor que lhe foi dado pelo Comandante do Batalhão.

Fotografei algumas imagens alusivas aos nossos tempos, tenho muito orgulho que fiquem no blogue:

Este era o nosso balneário primitivo, espaço tenebroso, aquelas chapas afiadas ensanguentaram muita gente, meses depois o Batalhão de Engenharia forneceu um novo conjunto de bidões e mandou material para renovarmos o balneário, entretanto chegou sanita e criou-se um espaço sanitário que acabou com a degradação da fossa. Quando fui castigado com dois dias de prisão simples, bem aleguei, mostrando cópias da documentação que mandava para Bambadinca, que pedia materiais para renovar o quartel, grande parte dos abrigos estavam podres, nada feito. Foi preciso haver a destruição de 19 de março de 1969 e eu ter ido a Bissau para fazer uma operação que me permitiu uma conversa com o Capitão Rui Gamito e o Alferes Emílio Rosa, ganhei uma carrada de materiais e duas grandes amizades, entre os benefícios veio o novo balneário.
Este espaço era conhecido pelo nome pomposo de parada, por detrás do Sousa Pires estava o abrigo do morteiro 81 e as suas granadas encaixotadas, era aqui que eu trabalhava nas noites de flagelação auxiliado pelo Cabo António da Silva Queirós, ele metia uma braçadeira resistente às altas temperaturas e ali estávamos até a força do PAIGC nos deixar em paz.
Não escolhi esta fotografia por mero acaso. O Sousa Pires pousou para a fotografia no limite do porto de Bambadinca o que permite ver ao fundo uma canoa no Geba a caminho da bolanha de Finete, havia depois um caminho acidentado com cerca de quatro quilómetros, enchíamos o burrinho (Unimog 411) com os nossos haveres, primeira paragem Finete, dezasseis quilómetros depois Missirá. Quando voltei pela primeira vez a Missirá, vinte anos depois, tinham encerrado aquele caminho, tudo se resolvera com uma ponte a atravessar até Bambadinca, chegava-se a Finete de autocarro, mota, bicicleta, automóvel, camião, mas nada de atravessar a bolanha de Finete.
Não é a primeira vez que aqui se publica esta imagem, não escondo que me comovo profundamente quando a revejo. É dia de Natal de 1969, no ano anterior, nesse mesmo dia, vivi a festa mais emocionante que a vida me proporcionou, irrepetível. Neste ano estamos na ponte do rio Undunduma, um dos sítios mais horríveis pelas condições deploráveis, pelos riscos de ali estar sem os meios de defesa combatíveis. Fui tomar banho ao rio, chegou o condutor com a comida e também se foi molhar, é ele que está à direita. Estes são os meus fiéis companheiros, Sousa Pires está no centro, o Alferes encolheu-se, não se quer mostrar em cuecas, exibe despudoradamente a patorra de quem calça 45, feliz pela companhia, tristonho na relembrança, a generalidade destes homens já partiu para as estrelinhas, mas eles só morrerão quando deles não se falar, por isso deixei o nome de todos eles escrito num dos meus livros.
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Nota do editor

Último post da série de 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27539: Humor de caserna (228): O Natal de Missirá que teve bacalhau ensaboado e, como prenda, o Menino... Braima (Abraão, em fula) (Jorge Cabral, 1944-2021)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição orientada pelo editor LG


O Bacalhau ensaboado e os Três Reis Magos

por Jorge Cabral (1944-2021)

Poucos são os Natais de que me lembro. E no entanto, já passei mais de setenta. Mas este, o de Missirá 1970, nunca o  esqueci. 

Tínhamos bacalhau. Tínhamos batatas. Fomos tarde para a mesa, a mesma de todos os dias, engordurada, sem toalha. Chegou o panelão fumegante e começámos.

– Caraças!, o bacalhau sabe a sabão! – disse o Branquinho.

E eu para o cozinheiro Teixeirinha:

– Quanto tempo esteve de molho?

– Esqueci-me, meu Alferes, mas o Pechincha, disse que, na terra dele, costumavam lavá-lo com sabão e que ficava bom.

– Porra, Teixeirinha! Se não fosse Natal, estavas lixado! Assim, vais à cantina buscar cervejas para a malta toda e pagas a meias com o Pechincha…

Batatas, umas latas de conserva e cerveja morna, pois a arca frigorífica tinha explodido na semana anterior, foi a nossa ceia de Natal.

Meia hora depois apareceu o soldado Alfa Baldé aos gritos:

– Alfero! Alfero! Já nasceu! Já nasceu É macho! É macho!

– Eu não te tinha dito?!

A alegria do Alfa era legítima. Já tinha três filhas e duas mulheres, mas há uns meses fora à sua Tabanca buscar outra mulher, herdada do irmão que havia morrido. 

Não trouxera só a viúva, treouxe também uma velha, muito velha, a bisavó, que se chamava Maimuna, mas que o Alfero alcunhou logo de  a "Antepassada". Meia cega passava os dias à porta da morança, dormitando de boca aberta…Nunca falou comigo, mas quando eu passava, sorria mostrando o único dente que conservava:

– Vou ver o teu filho, Alfa! Não lhe vais chamar Alfero Cabral. Vai ser Jesus!
 
– Desculpa, Alfero! Tem que ser Braima!

E fui com o Branquinho e com o Amaral. Só lá estavam mulheres e o Bebé, todo enfaixado. Logo que entrámos, o Amaral, que estava um pouco tocado, exclamou:

– Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima!

Vai fazer 46 anos! Dos Três Reis Magos, um morreu e os outros dois estão velhos…Como a Maimuna, já parecem "Antepassados"… (*)

Jorge Cabral 

Lisboa, 7/12/2016 (Revisão / fixação de texto, título: LG)


Nota de LG - Já morreram todos, o narrador e as suas personagens, o Cabral, o Branquinho, o Amaral... O que será feito do Menino Braima ? Terá chegado a completar um ano ? E depois os cinco anos ? A ser vivo, terá hoje 55 anos. O que é um feito notável  para um guineense. 



Jorge Cabral (1944-2021)

1. Comentário do editor LG:

O Jorge adorava o Natal. Fingia que não, como alguns de nós, mais cínicos, que dizem não ligam  nada ao Natal...E a prova é  que escreveu várias "estórias cabralianas" sobre o tema... Passadas na Guiné. 

Esta é das últimas, a nº 92,  que me entregou , em dezembro de 2016. Para comemorar, à sua maneira, mais um "Natal na Guiné". 

Passou lá dois Natais, tal como eu (o de 1969 e o de 1970). Um em Fá Mandinga e outro em Missirá (aqui muito mais isolado do mundo, com o rio Geba a separá-lo  da sede do sector L1, Bambadinca, que já era a "civilização". O  seu miserável destacamento era mais a norte, em terra de ninguém.

Foi meu camarada e amigo, meu contemporâneo. Três anos mais velho. Não o deixaram completar o curso de direito. Julgo eu, mas não tenho a certeza. Nunca falámos disso. 

Foi depois advogado e professor universitário de direito penal.

Vai fazer 4 anos, no próximo dia 28 deste mês, que ele deixou a terra que tanto amava. 
Morreu cedo demais. Deixou muitos amigos e amigas, inconsoláveis. A começar pelos seus antigos alunos e sobretudo alunas do curso de serviço social. A quem tratava  carinhosamente por "almas". E que ainda hoje lhe escrevem mensagens de muita saudade e ternura na sua página do Facebook (Jorge Almeida Cabral).

Era da arma de artilharia. Passou por Vendas Novas. Comandou um Pelotão de Caçadores Nativos, o Pel Caç Nat  63... Eram poucos, cerca de 30, a maior parte guineenses. 

Cinco anos depois, de ter escrito esta peça de antologia,  de humor de caserna (que acima reproduzimos), o Jorge morreu em plena pandemia. De cancro. Deixou-nos o coração destroçado.  

Pedi à IA que fizesses uma análise sumária do microcono. Género em que ele era mestre. Microconto pícaro, burlesco, absurdo. Ele fazia a guerra como quem representava uma peça do teatro do absurdo. 

 Pedi, além, disso, á menina  IA, que é "talentosa", para criar uma ilustração, divertida, caricatural, alusiva a esse Natal, algures no mato, na Guiné, em Missirá, em 1970, longe de casa (a 4 mil km de distância)... 

Era o Natal possível de muitos de nós, soldados portugueses. É uma homenagem saudosa ao "alfero Cabral" , como diziam os seus soldados. Mas também ao António Branquinho, nosso grão-tabanqueiro, irmão do Alberto.  Sem esquecer o Amaral, de que também me lembro ainda, mas mais vagamente.


Guiné > Zona leste >r Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Regulado do Cuor > Missirá > Pel Caç NAT 63 > 1971 > O António Branquinho, simulando tocar um instrumento tradicional,  com uma bajudinha, no meio,  e o Amaral (sentado). 

Segundo a oportuna observação do nosso amigo e consultor permanente para as questões etnolinguísticas, Cherno Baldé, "o instrumento, na lingua fula, chama-se 'Hoddu', é mais antigo e, provavelmente, serviu de inspiração para a criacão do cora dos Mandingas"... Em crioulo, "nhanheiro".


Foto: © António Branquinho / Jorge Cabral (2007). Todos os Direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



2. Análise literário do microconto Missirá, 1970 > A Noite de Natal do Bacalhau Ensaboado

(Pesquisa: LG + IA / Gemini e ChatGPT) (Condensaçáo, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

O texto (e o contexto) partilhado é uma memória vívida e comovente de um Natal passado em Missirá, no ano de 1970, durante a guerra colonial na Guiné. É uma narrativa curtíssima, mas rica em detalhes, humor e humanidade. Em dois parágrafos e meia dúzia de diálogos , o autor cria uma atmosfera natalíica, de densidade humana e literária raríssima. 

O nosso amigo e camarada Jorge Cabral, falecido precocemente, é escritor de primeira água. N o futuro merecerá figurar em qualquer antologia do conto sobre a temática da guerra colonial.

Vejamos alguns dos pontos principais da história e do seu contexto:

(i)  O jantar de Natal "cnsaboado"

Cenário: a ceia de Natal aconteceu numa mesa "engordurada, sem toalha", no destacamento  de Missirá. O narrador (o alferes) e os seus camaradas, metropolitanos, "tugas" (Branquinho, Amaral, Teixeirinha) reuniram-se para o que deveria ser um jantar especial. No Natal, em Portugal, come-se bacalhau, com batatas e "pencas" (no Norte). É uma data festiva. A maior do ano.

Incidente: o prato principal era bacalhau com batatas (supremo luxo, naquelas paragens). No entanto, quando começaram a comer, o Branquinho notou que o bacalhau "sabia a sabão".

Explicação: o cozinheiro, Teixeirinha, confessou que se tinha esquecido do tempo de demolha e que o soldado Pechincha lhe dissera que, na terra dele, costumavam "lavá-lo com sabão" para ficar bom.

Punição: o Alferes, numa mistura de frustração e espírito natalício, mandou o Teixeirinha, como castigo,  ir à cantina buscar cervejas para todos, a pagar a meias com o Pechincha.

Ceia final: a ceia resumiu-se a batatas, latas de conserva e cerveja morna (pois o frigorífico tinha avariado na semana anterior).

(ii) O nascimento do menino  e os Três Reis Magos

Notícia: meia hora após a ceia, o soldado Alfa Baldé, que já tinha três filhas e duas mulheres, e recentemente trouxera uma nova esposa, adotada por levirato (**), mais  a bisavó idosa, Maimuna,  irrompe, a gritar de alegria: "Alfero! Alfero! Já nasceu! Já nasceu! É macho! É macho!"

Batismo proposto: o Alferes, num gesto de afeto e ironia, sugeriu que o bebé se chamasse Jesus, mas o Alfa Baldé, fula e muçulmano, já tinha nome para a criança: seria Braima (na língua fula, é uma variação do nome árabe Ibrahim, o equivalente a Abraão em português).

Visita: o "alfero Cabral", mais os furriéis Branquinho e Amaral, foram ver o recém-nascido.

Momento mágico: ao entrarem, o Amaral, que estava "um pouco tocado" (pela cerveja, mesmo "choca"), proclamou: "Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima!"

(iii) O passar do tempo

Conclusão: o narrador reflete sobre o tempo que passou  (46 anos,  de 1970 a 2016)  e sobre a inevitabilidade da velhice.

Metáfora: dos "Três Reis Magos", um já tinha morrido (o Amaral) e os outros dois estavam velhos (o Branquinho e o Cabral), comparando-se a si próprios com a bisavó Maimuna (a "Antepassada"), que passava os dias a dormitar. 

É uma história belíssima que contrasta a simplicidade e as dificuldades da vida militar em cenário de guerra  (a mesa suja, o bacalhau estragado, a cerveja morna) com a alegria e o simbolismo do Natal (o nascimento do "Menino Braima" e a visita dos "Três Reis Magos"). 

A memória do narrador é claramente moldada por este momento único e inesperado de humanidade partilhada, naquele lugar onde Cristo nunca parou (e onde nem sequer o Diabo perdeu as botas).

Outros pontos a destacar:

Este microconto é um exemplo  do microconto pícaro e burlesco, atravessado por uma camada de absurdo existencial, que transforma a experiência traumática da guerra colonial numa espécie de teatro do quotidiano, onde o riso não nega a dor, domestica-a.

(iv) A memória selectiva e o Natal como exceção:

O texto começa com uma afirmação fundamental: “Poucos são os Natais de que me lembro.”

A memória aqui não é cronológica, é afetiva. Entre dezenas de anos e vários Natais, só um se fixa, o de Missirá, 1970. O Natal surge como ritual deslocado, arrancado do seu cenário simbólico europeu e transplantado para o mato guineense. É um Natal “possível”, não ideal.

(v) O bacalhau: símbolo nacional convertido em farsa

O bacalhau, pilar do Natal português, obrigatório à mesa nesse dia mágico, aparece ensaboado, literalmente contaminado pelo erro, pela improvisação, pelo desenrascanço,  pela santa  ignorância ( bem-intencionada, apesar de tudo).

O episódio é magistral porque:

  • subverte o sagrado produto gastronómico nacional (que é o bacalhau);

  • introduz o humor de caserna (o castigo não é a "prisão", é cerveja, paga a meias pelo desastrado cozinheiro Teixeirinhz e o "chico-esperto" do soldado Pechincha):

  • revela a cadeia de mal-entendidos culturais (o Pechincha, a tradição “da terra dele”, a de ensaboiar o bacalhau em vez de o demolhar em várias águas e vários dias).

Aqui, o riso nasce do choque entre vários mundos, mas nunca há desprezo, humilhação,  apenas risota, humanidade.

(vi) A autoridade do “Alfero”: justa, teatral, cúmplice

O narrador constrói a figura do alferes Cabral como:

  • autoridade funcional;

  • figura quase teatral:

  • mediador cultural.

O castigo é simbólico e coletivo. Não humilha, integra. Isto revela o comando humanizado, típico de quem percebe que naquela guerra ninguém está “inteiro” e tem "toda a razão".

(vii) O nascimento: epifania no meio do caos

O nascimento do filho do soldado guineense Alfa Baldé é o centro simbólico do conto. É um Natal sem presépio formal, sem luzes, sem enfeites, sem artifícios;

  • um parto real, no mato, natural, sem parteira (como terá sido o de Jesus na gruta de Belém);

  • um menino que nasce enquanto outros matam ou morrem;

  • um menino que tem de ser "Braima"... e não o "Jesus" dos cristãos ou o "Alfero Cabral", comandante daquela tropa matrapilha.

A figura da Maimuna / “Antepassada” é absolutamente extraordinária:

  • guardiã do tempo;

  • elo entre gerações;

  • quase uma personagem mítica

O sorriso com um único dente é um recurso literário de enorme economia e força.

(viii) Os Três Reis Magos: embriaguez, teatro e revelação

Quando o Amaral diz: “Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima!”

o microconto atinge o seu auge. Aqui acontece tudo ao mesmo tempo:

  • o Natal cristão é reencenado de forma profana e ecuménica;

  • Jesus é um menino pretinho:

  • a guerra transforma-se em farsa absurda;

  • os soldados são atores improvisados num palco de todo  improvável.

É o teatro do absurdo em plena guerra, com a gente gosta de dizer das "estórias cabralianas" (de que o "alfero Cabral" publicou, no nosso blogue, mais de 9 dezenas).

(ix) O tempo final: melancolia sem sentimentalismo

O último parágrafo é devastador na sua contenção: “Dos Três Reis Magos, um morreu e os outros dois estão velhos…”. Aliás, cinco anos depois, morreria o narrador, e em 2023 o Branquinho. O Teixeirinha e o Pechincha não sabemos se são nomes reais.

Sem lamento, sem retórica. Apenas o tempo. A guerra passou, mas deixou corpos gastos e memórias resistentes, como a de todos nós. 

 A comparação final com a Maimuna fecha o círculo: todos acabamos “antepassados”. Todos seremos amanhã antepassados, quando os nossos filhos e netos se lembrarem de nós, se um dia forem à Guiné, em viagem de turismo: "Os nossos antepassados, que andaram por estes matos, rios e bolanhas..."

(x) Conclusão

Este microconto é um ato de resistência pela memória, um riso contra a desumanização,  uma homenagem implícita aos soldados anónimos que combateram naquela guerra absurda, um Natal sem redenção, mas com dignidade e humanidade.

O Jorge Cabral escrevia como alguém queria sobreviver contando histórias. e isso é talvez a forma mais honesta de literatura de guerra. N a realidade, eu sempre o oconheci como o mais "paisano" dos combatentes. Ele que era filho de militares e foi até "menino da Luz", seguramente contra a sua vontade.


Capa do livro de Jorge Cabral, "Estórias Cabralianas", vol I. Lisboa: Ed José Almendra, 2020, 144 pp.  

Tinha um II volume, praticamente pronto para ser publicado.  
A morte  emboscou-o.

________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 11 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27518: Humor de caserna (227): Ainda o Pechincha, que o Hélder Sousa comnheceu em Bissaiu... "P*rra, que este gajo ainda está mais apanhado do que eu!"

(**) Levirato: o costume, observado entre alguns povos, nomeadamente semitas, que obriga um homem a casar-se com a viúva de seu irmão quando este não deixa descendência masculina, sendo que o filho deste casamento é considerado descendente do morto. Este costume é mencionado no Antigo Testamento como uma das leis de Moisés. O vocábulo deriva da palavra "levir", que em latim significa "cunhado". Fonte: Wikipedia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26274: Humor de caserna (87): A virilidade lusitana: das bagas do Sambaro ao estoicismo do Sousa (Jorge Cabral, 1944-2021)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Fá Mandinga > Pel Caç Nat 63 (Fá Mandinga e Missirá, 1969/71 >  O 1º cabo Monteiro (já falecido): "com um pequenino Alfero Cabral, às costas", legendou o cmdt do Pel Caç Nat 63, com graça ... A par da tragédia, a guerra da Guiné foi também um peça do Teatro do Absurdo... Jorge Cabral (1944-2021) tinha o grande talento e o especial mérito de nos mostrar, com um toque de genial humor castrense, esse outro lado da guerra, que era o nosso quotidiano de gente "saudavelmente louca", que se não fora esse "grãozinho de loucura" não teria vencido (leia-se: sobrevivido).

(Foto gentilmente cedida, pelo Jorge Cabral, em 2006, sem menção de autor, e que passou a ser parte do arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

 
1. Chega esta altura do Natal e eu sinto uma doce saudade de alguns amigos e camaradas que foram ficando pela picada da vida. Um deles é o "alfero Cabral", o Jorge Cabral (1944-2021), um dos "históricos" do nosso blogue... 

Já lá ficou ele, em plena pandemia, "sentado no marco quilométrico nº 77 da nossa picada da vida", cada vez mais cheia de minas e armadilhas...Sinto que tenho que ir reler algumas das suas "estórias cabralianas"... Para experimentar estar mais próximo dele, do seu legado, da sua irreverência mas também da sua empatia, da sua capacidade de compreensão e compaixão do outro...

Esta "estória" foi publicada há 18 anos, na quadra natalícia (*).. Talvez seja pouco ... natalícia mas é divertida, irónica, desconcertante. E a gente precisa de rir-se como só ele sabia pôr-nos a rir, a sorrir,  a pensar, com a sua graça brejeira e a sua ironia desarmante, desconcertante    (ninguém como ele para ser capaz de  "avacalhar" o sistema, a tropa, a guerra..., mas sem ódio, sem insultos, sem grosseria) .

Onde quer estejas,  Jorge, tu que foste noutra incarnação alferes miliciano de artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63 (Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, região de Bafatá, Zona Leste, 1969/71), continua a inspirar-nos e dar-nos ânimo para podermos continuar a contar e partilhar as nossas estórias da Guiné, umas tristes, outras mais divertidas, umas mais safadas outras mais provocatórias, umas mais estúpidas outras mais inteligentes...

Bem sabes que nunca invejei (e tu também não...) o lugar de comandante de coisa nenhuma, no TO da Guiné, e muito menos deste tipo de destacamentos (como o de Missirá), isolados, na linha de fronteira dos setores, na terra de ninguém, guarnecido por pelotões de caçadores nativos, mais uns tantos milícias com a sua numerosa família às costas, além dos cães e dos cabritos   e das galinhas (nunca vi gatos) 
,  e mais meia dúzia de graduados (1 alferes, 2 ou 3 furriéis, outros tantos cabos e especialistas de origem metropolitana), à beira do abismo, esquecidos e abandonados, sem eletricidade, sem bebidas, sem frescos, sem comida decente, sem artilharia... Enfim, entregues à sorte e ao azar...  E, ainda por cima, sem direito a um lugar na História. (No Arquivo Histórico-Militar, não há sequer  história destas subunidades, porque ninguém as escreveu.)

Amigos e camaradas da Guiné: não vejam nestas "estórias cabralianas" qualquer propósito de ofender a secular e nobre instituição militar, mas tão apenas o relato das manifestações de uma saudável loucura, própria dos seres humanos que são postos à prova em situações-limite...

Contrariamente a qualquer bestiário da guerra, as estórias cabralianas são um hino à idiossincrasia lusitana, à plasticidade comportamental dos nossos soldados, à enorme capacidade de resistência, de sobrevivência, de imaginação, de adaptação e de "desenrascanço" da nossa gente...

Eu sei que as estórias do Jorge têm fãs e detratores... Eu, que estou do lado dos fãs, tiro-lhe o quico, bato-lhe a pala, desfaço-me em adjetivos e louvores... Infelizmente este filão esgotou-se: uma doença crónica de evolução prolongada  cortou-lhe o fio da vida, o húmus do humor, a torrente da escrita,  já no final de 2021...

Fica a sua memória,  a sua verve, a sua capacidade de grande observador da natureza humana, o seu talento literário: ninguém como ele sabia, com duas pinceladas, criar uma personagem (um "boneco") e mostrar aquilo que é o único na espécie humana que é a compaixão (no seu sentido etimológico, cum + passio > sofrimento comum, comunidade de sentimentos, partilha da dor) e a capacidade de rir-se  de si próprio quando a gente se olha ao espelho... no outro.

O Jorge, que enquanto estudante universitário tinha devorado o Ionesco e o teatro do absurdo, não se colocava na situação, confortável, do marionetista, manipulando as suas criaturas... Ele fazia parte, de alma e coração, da peça e do cenário, e do "makng of" do seu teatro do absurdo...

Caro leitor: que não sejam precisas as bagas do Sambaro no teu/nosso sapatinho para nos pormos a sorrir, a pensar,  a ter esperança, saúde, boa disposição, amor, amizade, liberdade,  paz... E, já agora,  Bom Ano Novo, saudemo-lo, a ele que aí vem, cheio de promessas, de ilusões, de oportunidades e de ameaças como todos os Novos Anos que já vivemos... 


O "alfero Cabral", 
em carne e osso
A virilidade lusitana: das bagas do Sambaro ao estoicismo do Sousa

por Jorge Cabral
 (1944-2021)


Amigo Luís, cá continuo relembrando a vida nos Destacamentos, com a ajuda dos Amigos que me acompanhavam, e que me contam extraordinárias peripécias, algumas das quais eu já havia esquecido.

Num Destacamento isolado como era Missirá, a forma de estar e de viver dependia muito da personalidade do respectivo Comandante, suas capacidades, limitações e peculiaridades. Até porque as funções que lhe eram atribuídas, excediam a mera chefia militar. Médico, Psicólogo, Juiz, Conselheiro, superentendia em todos os assuntos, e do seu carácter podia resultar um férreo ambiente prisional, ou uma agradável comunidade de afectos, como creio ter sido o meu caso.

Claro que estávamos todos apanhados, mas numa loucura amena e saudável, que nos divertia e  
nos ajudava a mascarar a tristíssima rotina.

Todos, metropolitanos e africanos, alinhavam  n imaginação do alferes  que cada dia surgia com uma nova ideia. É por isso que devo ter material para centenas de estórias, desde a comemoração de São Mamadu, até o ter colocado as mulheres de sentinela…

As decisões mais difíceis aconteciam com as evacuações por doença, principalmente porque o meu enfermeiro, o maqueiro Alpiarça, quando não estava bêbado, para lá caminhava…
A estória que hoje remeto, descreve, precisamente, uma situação em que tive muitas dúvidas. Felizmente, o Sousa recuperou…

Bom Natal, Amigo! Grande Abraço!
Jorge (*)
______________


Aos domingos vestíamo-nos à paisana e dávamos longos passeios à volta da parada, imaginando praças, avenidas, ruas, adros de igreja e até estações de comboio. Depois entrávamos na Cantina e invariavelmente pedíamos:

− Um fino e uns  tremoços!!!

Não havendo tremoços, triplicávamos a cerveja, não sem o Pechirra, o nosso motorista, explicar a importância do acompanhamento em falta, o qual segundo ele possuía um monumental efeito afrodisíaco, pois…  E lá contava uma delirante estória das suas proezas sexuais. Só os soldados africanos e algum adido metropolitano periquito, ainda o escutavam, embora o seu calão portuense fosse dificilmente traduzível.

Uma vez o bazuqueiro Sambaro anunciou que possuía umas bagas suma (**) tremoço,  tão boas que um homem podia estar toda a noite… Achei piada. À basófia tripeira respondia a basófia fula… Afinal as diferenças não eram assim tão grandes…

O certo é que o Sambaro foi buscar as tais bagas, e calhou ao Sousa experimentar. Ao fim de uma hora resultou. Passadas quatro horas continuava a resultar. Oito horas depois o Sousa uivava de dor, e suplicava-me a sua evacuação. Que fazer?

Reuni com os furriéis. Podia eu lá evacuar um soldado com aquele motivo ?! Que escreveria na mensagem? Ataque de tes*o…? 

Pragmático,  o Amaral sentenciava:

− O que sobe, desce. 

E o Branquinho acrescentava:

− Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe.

E quanto ao Pires inventava:

 − A curiosidade não matou, inchou o gato.

Tomada a decisão, o pobre do Sousa aguentou três dias, como um herói.

Quando terminei a comissão, deixei-lhe proposto um louvor “porque durante setenta e duas horas suportou com estoicismo a dor resultante de fogo interno, devendo ser apontado como exemplo da virilidade lusitana"...

Parece que o Polidoro (***) não concordou. Enfim, injustiças…

Jorge Cabral

( Revisão / fixação de texto, títulos, itálicos e negritos, notas, título: LG)
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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 14 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1369: Estórias cabralianas (16): As bagas afrodisíacas do Sambaro e o estoicismo do Sousa

(**) Igual a, como (em crioulo)

(***) Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72). Substituiu o tenente-coronel Magalhães Filipe.

(****) Último poste da série > 12 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26260: Humor de caserna (86): O ”turra” e a boina verde da enfermeira paraquedista (Maria Arminda, ex-ten graduada enfermeira paraquedista, FAP, 1961/70)

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26047: Efemérides (444): 15 de outubro de 1969, perdas, inesquecíveis, uma saudosa amizade e porquê

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de hoje, 15 de Outubro de 2024:

Queridos amigos,
Cada um se arroga o direito de ter o seu dia de memória, com ou sem textura de religiosidade. Exatamente há 55 anos, uma mina anticarro ceifou vidas e deixou gente marcada por diferentes tipos de mazelas, desde traumatismo craniano a fratura no calcâneo. Lição mais amarga não podia ter, permiti-me viajar pela noite escura, a tragédia podia ter sido maior se a força do PAIGC que ali nos aguardava não tivesse percebido que os tiros às escuras é metralha de dois bicos. Recebi enorme solidariedade do batalhão de Bambadinca, é inquebrantável a gratidão que dela guardo. E nasceu uma grande amizade por alguém que me tratou dos olhos. Sempre que voltava a S. Miguel, era inevitável um encontro com o Zé Luís, podíamos estar até 2 ou 3 anos sem qualquer contacto, em nada diminuía a euforia do encontro. E foi assim durante décadas até ele partir para as estrelas, e hoje junto-o na minha memória ao lado daqueles camaradas que tanto sofreram com a explosão de Canturé, no regulado do Cuor, em 15 de outubro de 1969.

Um abraço do
Mário



Efeméride: 15 de outubro de 1969, perdas, inesquecíveis, uma saudosa amizade e porquê

Mário Beja Santos

Aí por fevereiro de 1969, comecei a dar tombos nas viagens quase diárias entre Missirá e Mato de Cão, ou no sentido inverso, uma dor aguda, por detrás do joelho direito, levava-me à queda, parecia que logo me recompunha, a dor suavizava; o maqueiro bem me punha emplastros, mas fazendo notar que havia algo de anómalo na curva interior do joelho; conversa com o médico do batalhão, David Payne, confesso-lhe que se repetem com mais frequência as quedas, passa-me requisição para ir à consulta de ortopedia a Bissau, aproveito para pedir para ir ao estomatologista e ao oftalmologista, pedido aceite.

Parto no início da segunda semana de março, fico surpreendido com a rapidez do atendimento, trato uma cárie dentária, o médico ortopedista, face ao resultado do raio-x, informa-me que tenho uma exostose, uma enorme cartilagem, dali já não saio, vou ser operado; na véspera de entrar no HM 241, consigo uma desistência e vou ao oftalmologista. É um homem de estatura avantajada, voz abaritonada, cedo descubro que vem dos Açores, o acento é tipicamente micaelense. Palavra puxa palavra, falo-lhe da minha estadia entre outubro de 1967 e março de 1968, as belíssimas lembranças que trouxe, ainda não faço a mínima ideia como elas se vão cinzelar na minha existência, estamos entusiasmados na conversa, é nisto que ele propõe que jantemos juntos, vamos matar saudades da terra. Apresenta-se, é o único oftalmologista na Guiné, tem que fazer algumas horas no hospital civil, chama-se José Luís Bettencourt Botelho de Melo, tenente-médico, tinha acabado de montar consultório quando foi chamado para estas lides na Costa Ocidental de África; interrogo-me, olhando esta fotografia, devia estar mesmo uma noite mais do que acalorada para haver todo aquele suor na camisa, alguém nos tirou a fotografia, ambos de boa disposição e já com a promessa de encontros futuros. Não iria acontecer tão cedo.

A 20 de março, apoiado nas canadianas, vou a um determinado guichet buscar uma guia de marcha, um sargento desbocado, quando houve falar em Missirá, no Cuor, diz sem rebuço que houve mortos e feridos na flagelação da véspera, ardera o quartel. Transido, peço ao condutor que me leve de novo ao HM 241, consigo encontrar o régulo Malã Soncó, tem o peito estilhaçado, fala dos mortos e dos outros feridos; nova viagem até ao Quartel-General, suplico uma partida do que é que entre pelos ares, mandam-me para Bissalanca, um helicóptero deposita-me no Cuor, aviso todos que temos de ter o quartel pronto antes que cheguem as chuvas, o que aconteceu.

Ando duríssimo, os meus caçadores nativos recalcitrantes, andam pelos matos fechados desde 1966, sonham com a boa vida, é nisto que vou amolecendo quanto às medidas de precaução, acho que tudo me é permitido, como andar pela noite escura nas picadas. E assim contribuí que em plena noite, à entrada de Canturé, uma mina anticarro despedaçasse a parte dianteira de viatura, o soldado-condutor Manuel Guerreiro Jorge entrou logo em agonia, eu saí disparado, felizmente com a G3 na mão, não vale a pena falar mais do que aconteceu, bem me pesa na consciência o resultado de um ato inequivocamente negligente.

Com a cara queimada e óculos perdidos, volto novamente à oftalmologia, o José Luís tratou-me dos olhos e nasceu um ritual de encontros que se irão prolongar até que dolorosos esclarecimentos obrigaram o seu internamento, era sempre uma festa ir até S. Miguel. Havia que o avisar com alguma antecedência. Ainda hoje, paro no Largo da Matriz, em Ponta Delgada, a olhar onde era o seu consultório ou percorro a rua Bruno Tavares Carreiro, ali bem pertinho, imagino que lhe vou bater à porta, fazemos sala e depois partimos para uma iguaria e para conversa que puxa conversa e que nos despedimos com a quase certeza de que em breve haverá novo toque de reunir. E voltaremos a falar do 15 de outubro. Escreveu alguém que a fotografia é um documento fascinante porque nos permite apreciar um instante que existiu. Ela permite infindáveis perguntas, estas duas fotografias têm resposta numa amizade inesquecível, que nasceu na tormenta da guerra.

Escrevo estas recordações exatamente 55 anos de factos ocorridos que iriam solidificar uma amizade para a qual não há qualquer veleidade em responder quanto ao seu porquê.


Março de 1969
15 de outubro de 1969, o meu amigo Humberto Reis parece que não acredita no que está a ver
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Nota do editor

Último post da série de 19 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25762: Efemérides (443): Hoje, no dia do 139º aniversário natalício de Aristides de Sousa Mendes (1885-1954), e na inauguração do seu Museu, em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, o Papa Francisco deu-nos a graça e a honra da Sua Benção (João Crisóstomo)

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25670: Elementos para a história dos Pel Caç Nat 52, 54 e 63 que, ao tempo do BART 2917 (Bambadinca, jun 70 / mar 72), estavam destacados no Sector L1 - Parte I




1. A partir da História do BART 2917 (de 15/11/69 a 27/3/72) podemos obter mais alguns dados informativos sobre os 3 Pel Caç Nat que operaram, no setcor L1 (Zona Leste, região de Bafatá)



I. O dispositivo inical das NT na zona de ação do BART 2017, em junho de1970 era o seguinte (referem-se apenas os Pel Caç Nat) (*):
 
  • Pel Caç Nat  52 > Bambadinca
  • Pel Caç Nat  54  > Missirá
  • Pel Caç Nta 63 >  Fá Mandinga

Havia um Gr Comb na Ponte Rio Udunduma, que era rendido  de 3 em 3 dias numa escala que incluía 5 Gr Comb: 4 da CCAÇ 12 (Bambadinca) e 1 um do Pel Caç Nat 52 (Bambadinca)

 Posteriormente foram introduzidas as seguintes alterações ao dispositivo inicial, nas datas a seguir indicadas:

  • em 18 out 70, o Ple Caç Nat 52 vai para Fá Mandinga;  
  • em 19 out 70,  desloca-se o Pel Caç Nat 63 para Missirá;
  • em 20 out 70,  o Pel Caç Nat 54 vem para Bambadinca.
 
Em 2 de julho de 1971, nova rotação destas subsunidades africanas:
  • Pel Caç Nta 52 > Missirá:
  • Pel Caç Bat 54 > Fá Mandinga;
  •  Pel Caç Nat 63 > Bambadinca 

De 26 de julho  a 9 de setembro de 1971, o Pel Caç Nat 54 é destacado para Bafatá,  regressando depois a Fá Mandinga. Nessa altura, é o Pel Caç Nat 63 a ir para Bafatá, donde regressa, a Bambadinca , em 26 de outubo de 1971.
 
E parece ser o Pel Caç Nat 63 que vai "inaugurar" o destacamento de Mato Cão.  


II. Estas três subunidades, ao tempo do  BART 2917, foram comandadas por:

  • Pel Caç Nat 52: 


(i) até Até 24.jul 70, alf mil at inf  Mário António Gonçalves Beja Santos; 

(ii) de 24.jul 70 até para além do regresso do BART 2917 à Metrópole, alf mil at inf Alferes Miliciano Atirador Nelson Alberto Wahnon Reis.



  • Pel Caç Nat 54:

(i) até 18 nov 70, alf m,il at inf Correia (desconhece-seo o nome completo); 

(ii) de 18. nov 70 até para além do regresso do BART 2917 à Metrópole, alf mil Hélder P. R. Martins;


  • Pel Caç Nat  63:

(i) até 1 jul 71, alf mil at art Jorge Pedro Almeida Cabral (1944-2021);

(ii) de 11 jul 71 até 27 mar 72, alf mil at Manuel David Coelho, da  CART 2714 (que estava em Mansambo);

(iii)  em 2 jul 71 o alf mil Arsénio Pires, inicialmente nomeado como Comandante do Pel Caç Nat  63, foi colocado na CART 2714, em substituição do alf mil at Manuel David Coelho.


O "alfero Cabral" (1944-2021), no meio, entre dois dos seus homens do Pel Caç Nat 63


III. Outras transferências de pessoal:

  • em 30 jun.71 foi transferido da CART 2716 (Xitole) para o Pel Caç Nat 52, o fur mil at  Atirador Paulo Ferreira CRUZ [ou Paulo Pereira Cruz];
  • em 16 set 71 foi colocado no Pel Caç Nat  63 o fur mil at Jorge Abreu Batista  da CART 2715 (Xime):
  • em 23 set 71 foi colocado no Pel Caç Nat 63 o fur mil at  Sérgio Oliveira Carvalho Pinto, da CART 2714 (Mansambo);

  • António Branquinho (1047-2023)
    em 24 set 71 por ter terminado a sua comissão de serviço no CTIG  marchou para Bissauo fur mil at António Júlio Abrunhosa Branquinho (1947-2023),  do Pel Caç Nat  63, a fim de aguardar transporte para a Metrópole;
  • em 7 dez 71 foi colocado no Pel Caç Nat 63 o fur mil at Loureiro,  da CART 2714 (Mansambo), onde se encontrava desde 19 out 71;
  • em 15 dez 71 regressou à CART 2715 (Xime) o fur mil at Jorge Abreu Batista. (encontrava-se destacado no Pel Caç Nat 63 desde 16. set 71).

IV. Recomplementos 

JULHO DE 1970

  • Pel Caç Nat 52

- Alferes Miliciano Atirador Nelson Alberto Wahnon Reis 80063969;

- Furriel Miliciano Atirador Manuel Augusto Castro Silva 12709969;

- Soldado Atirador Francisco Lopes 82054167;

- Soldado Atirador Tiburcio Gomes Ofany  82055367;

- Soldado Atirador Mama  Obralé 82036266;

- Soldado Atirador Ogo Baldé 82023766;

  • Pel Caç Nat  54

- 1º Cabo Atirador Roberto Pina Araújo 82022165;

- 1º Cabo Atirador Armando António Silva 82038664;

- 1º Cabo Atirador Dino Vieira 82074665;

  • Pel Caç Nat  63

- 1º Cabo Atirador João S. Guilherme 16335969;

- 1º Cabo Atirador Joaquim S. Freitas 17722969;

- Soldado Atirador Jango Candé 82055065;


AGOSTO DE 1970

  • Pel Caç Nat 52

- Soldado Atirador Paté Mané 82060167:

  • Pel Caç Nat 54

- Furriel Miliciano Atirador Alfredo J. S. Freitas 14037769;

- Furriel Miliciano Atirador José Mário  C. Ferreira 06205370;

- Furriel Miliciano Atirador José A. L. Pires 10684269;

  • Pel Caç Nat  63

- 1º Cabo Atirador António S. Barroso 05674470;

- 1º Cabo Atirador António M. S. Araújo  17925969;

SETEMBRO DE 1970


  • Pel Caç Nat 52

- Furriel Miliciano Atirador João  M.M. Branco 07125668;

- Soldado Atirador Mamassali Baldé 82063867;

- Soldado Atirador Bacar Baldé 82057465;

- Soldado Atirador Mango Baldé 82057165

- Soldado Atirador Seco Umaro Baldé 82055266;

- Soldado Atirador Tunca Sanhá 82037066;

  • Pel Caç Nat 63

- Furriel Miliciano Atirador Carlos E. C. Nunes Amaral 14288269;

- 1º Cabo Atirador Sanassi Baldé 82052865;

- Soldado Atirador Indouque Queta 82052265;


OUTUBRO DE 1970

  • Pel Caç Nat 52

- 1º Cabo Atirador Fodé Mané 82023866;

- Soldado Atirador Adulai Embaló 82049567;

- Soldado Atirador To mango Baldé  82057465;

  • Pel Caç Nat 63

- 1º Cabo Atirador José Sangá 82016164;

- Soldado Atirador Braima Candé  82014060;

- Soldado Atirador Holdé Embaló 82035565;

NOVEMBRO DE 1970

  • Pel Caç Nat 52

- 1º Cabo Atirador António A. F. Rocha 05955270;

- Soldado Atirador Sambaro Baldé 82095264;

  • Pel Caç Nat 54

- Alferes Miliciano Atirador Hélder P- R. Martins  07543668;

- 1º Cabo Atirador Fernando Vasco Menoita 00762170;

DEZEMBRO DE 1970

  •  Pel Caç Nat 54

- Soldado Atirador Adi Jop  82077770

- MARÇO DE 1971


  • Pel Caç Nat 54

- Soldado Atirador Sambaro Embaló 82092068;

- 1º Cabo Atirador Manul Augusto Gaspar12528870;

  • Pel Caç Nat 63

- Soldado Atirador Braima Jau 82035066;

ABRIL DE 1971

  • Pel Caç Nat 54

- 1º Cabo Atirador Amílcar Prazeres Pereira  11702470;

  • Pel Caç Nat  63

- 1º Cabo Atirador Cralos José Pereira Simplício  12687370.

(Continua)

(Seleção, revisão/ fixação de texto: LG)

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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 4 de junho de 2024 > Guiné 61/74 - P25600: O armorial militar do CTIG - Parte I: Emblemas dos Pelotões de Caçadores Nativos: dos gaviões aos leões negros, das panteras negras às águias negras...sem esquecer os crocodilos