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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28020: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte V: semana de 3 a 9 de março“: "Castelo de cinco quinas / Só há um em Portugal, / Que fica à beira do Coa, / Na cidade de Sabugal"


Sabugal > s/df > "Castelo de 5 quinas" > Foto da galeria da CM Sabugal
(com a devida vénia...)



Rui Chamusco, antigo professor
de música, reformado, é cofundador e líder
 da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários
com Timor Leste
1.  Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste.


Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). 

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). 

Este ano de 2026, não  irá por razões de saúde, embora ainda acalente a esperança de lá ir passar o Natal...

Está hospitalizado, depois de uma bem sucedida intervenção cirúrgica no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, tendo surgido entretanto algumas complicações pós-operatórias. 

Fazemos votos para que regresse, depressa e bem, à sua casa na Lourinhã, a sua segunda terra natal. (Nasceu em Sabugal.)


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 2 a  a 1 de março

por Rui Chamusco
 
04.03.2019, segunda feira - A guerra do espaço

O que outrora parecia ser somente um filme, hoje já é realidade.

Vem isto a propósito da viajem do Dr. Manuel Meirinho, que chegou a Dili um dia depois da data prevista. Estranho a tal ocorrência, tentei saber por que é que isto acontece (aconteceu). 

O grande amigo J. Ascenso deu-me a explicação que precisava: 

"Quando há países em guerra o seu espaço aéreo não pode ser violado. Ora a Índia e o Paquistão estão em guerra declarada, e portanto, sem poderem sobrevoar os seus espaços aéreos, todos os voos têm de contornar a sua viajem pelos espaços aéreos permitidos.”

E pensamos nós que lá por cima é que se anda bem! Qualquer dia o céu será como a terra: latifúndios e minifúndios, onde um palmo de espaço será o suficiente para declarar guerra ao vizinho do lado. Com a mentalidade individualista, qualquer um terá atitudes e comportamentos de tudo querer, de ser mais que o outro. “O que é teu é meu; o que é nosso é nosso”. E assim vamos fazendo as nossas guerras espaciais, assim na terra como nos céus.

Fiquemo-nos ao menos por aqui, com estas guerras de manjerico e manjerona, onde, se for necessário, resolvemos os problemas à chapada e ao murro, ao sacho ou à cacetada. E viva a “justiça de Fafe!” porque com Fafe ninguém fanfe...

Nota: Vim depois a saber, pelo Dr.Manuel Meirinho, que o desvio da rota aérea se deveu a poeiras que povoaram a atmosfera e que impediram uma aterrizagem segura.

06.03.2019, quarta feira - A pontualidade portuguesa


Na Europa, e sobretudo em Portugal, falamos da pontualidade suíça, talvez até mais por alusão aos relógios suíços que são de qualidade excelente. Esse complexo de pontualidade, inerente ao nosso modo de ser, tem pouca aplicação aqui em Timor, em terras de oriente. E já por diversas me dei conta disso mesmo.

Ontem, a pedido da família Aurora, fui mais uma vez à escola CAFE em Taibessi, a fim de falar com a coordenadora Professora Mabilde sobre a transferência de um aluno, Jetónio Ribeiro, que abandonou a escola Farol. Tinhamos combinado com o pai estar às 8.30 horas em Ailok Laran para depois nos dirigirmos à escola CAFE.

Muito tranquilamente os minutos iam passando e o Venâcio, pai do rapaz, nunca mais aparecia. Foi preciso que a Aurora, irmã do Venâncio, se irritasse ao telefone, dizendo que o Ti Rui está à espera, chateado, para que finalmente respondesse “ já vou”. Já dentro do carro perguntou-me: “que horas são”. E respondi-lhe “quase nove”. 

E pronto. Lá foi andando nas calmas, que aqui não se pode andar depressa pois as estradas (caminhos) são horríveis. Felizmente chegamos a tempo, e ainda tivemos de esperar.

Portanto mais que pontualidade portuguesa eu direi impaciência portuguesa. Não sei se é bom ou se é mau. Mas o Eustáquio diz que as doenças somos nós que as criamos, que as metemos na cabeça e que, por isso, também as podemos tirar de lá. 

Temos de estar sempre contentes. “Se chovi, contenti; se não chovi, contenti; se comi, contenti; se não comi, contenti. Sempri contenti!...” 

Ajuda a deitar fora, a aliviar, a curar. Já antes do Eustáquio mahatma Ganhdi (1869 - 1948) dizia:

 “Aquilo que não dizemos acumula-se no corpo, transformando-se em noites sem dormir, em nós na garganta, nostalgia, dúvidas, insatisfação e tristeza. O que não dizemos não morre...MATA-NOS.”

Aqui está, como diria São Francisco de Assis, a verdadeira alegria.

06.03.2019 - Dia de anos

A Aurora faz hoje 51 anos. Esta mulher, que apesar do AVC de que foi vítima há sete anos e que lhe limita os movimentos do lado esquerdo, nunca está quieta, orientando a vida da casa. É uma guerreira que bem merece uma festa de anos. Por isso, sem que ela se apercebesse, o Eustáquio, o Gaspar e eu fomos às compras, para que á noite os pudéssemos festejar condignamente. Houve flores do quintal, houve bolo de anos, e até vinho do Porto.

A Aurora é uma pessoa muito emotiva. Por isso fez um grande esforço por controlar as suas lágrimas. Estou certo que não irá esquecer estes momentos e que, com toda a sua vontade de viver, irá celebrar muitas mais festas de aniversário. Que assim seja!...

08.03.2019, sexta feira  - Encontros, protococolos e outras coisas mais...


Ao longo deste curto caminhar da ASTIL (há mais ou menos um ano e meio) têm surgido apoios importantes de pessoas e instituições que muito nos têm ajudado neste caminho. Eu direi até que sem estas preciossas colaborações não teríamos chegado onde já nos encontramos.

Embora na retaguarda, são a nossa proteção e amparo, e vão nos dando ânimo e meios para prosseguirmos a nossa luta na linha da frente. Somos os “novos guerrilheiros”, desarmados. A nossa grande arma é a solidariedade que, a pouco e pouco vai criando um mundo melhor para estas crianças e jovens que nos rodeiam, respeitam, agradecem com os seus sorrisos e amam de coração.

Uma das instituições que nos tem dado o seu apoio constante é o município de Sabugal, através do seu executivo camarário, facilitando-nos locais para encontros e ações do projeto em causa, cedendo-nos um espaço para a sede da Astil, apoios
económicos pontuais, etc...

Desde maio de 2018, aquando da nossa segunda estadia, que andamos a preparar a geminação entre os municípios de Liquiça e Sabugal, pretendendo assim que se possa estabelecer uma cooperação mútua entre estes dois municípios.

Hoje foi um dia muito importante, dando-se um passo significativo neste processo.

Aproveitando a estadia de uma semana em Dili do Dr. Manuel Meirinho, presidente da assembleia municipal de Sabugal, por motivos profissionais, reservamos a manhã de sexta feira para, no município de Liquiçá, se lavrar e assinar a carta de intenções.

Numa cerimónia carregada de protocolos, com a presença de representantes de todos os serviços deste distrito, cumpriu-se a assinatura desta carta de intenções em português e tetum, as duas línguas oficiais de Timor Leste, e que ficou devidamente documentada através das fotos da praxe.

Feita a despedida nos moldes habituais de apertos de mão e vénias, tivemos ainda uma visita à escola CAFE de Liquiçá, onde a maioria dos professores são portugueses. 

Mais um momento único e intenso, onde até ouvimos a quadra: 

Castelo de cinco quinas
Só há um em Portugal,
Que fica à beira do Coa,
Na cidade de Sabugal. 

Imaginem-se as emoções que tivemos de controlar.

E assim vamos afirmando por aqui a nossa portugalidade...

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)
_________


Nota do editor LG:

domingo, 10 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28008: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte IV: semana de 23 de fevereiro a 1 de março : "barak obrigadu" (muito obrigado) a todos!


Timor > Díli >Hotel Timor > 3 de fevereiro de 2019 > "A vida tem destas coisas... hoje conheci um primo (aos 46 anos) e a mais de 14500 km da nossa terra. Foi um prazer e privilégio conhecer-te,  primo Rui Chamusco! Temos muitas aventuras para realizar em Timor em prol deste maravilhoso povo maubere! " 

Foto e legenda da página do Facebook de Rui Nunes Ferreira, comandante-de-fragata, em serviço em Timor-Leste, com a devida vénia; o Rui Pedro Nabais Nunes Ferreira foi entretanto promovido a capitão-de-mar-e-guerra da classe de Marinha; é o atual Adido de Defesa de Portugal em Bissau; foi Antigo Aluno do Colégio Militar, nº 300/1982.

O Rui Chamusco e o Rui Pedro Ferreira conheceram-se pessoalmente neste dia, em Díli, onde o oficial da Marimnha, ainda seu parente, estava destacado em serviço de Portugal, durante um ano, desde setembro de 2018.

1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde. Está hospitalizado, depois de uma bem sucedida intervençãp cirúrgica no Hospital Cury Cabral, em Lisboa, mas surgiram algumas complicações pós-operatórias. Fazemos votos para que regresse, depressa e bem, à sua casa na Lourinhã.


Fundadores: Rui Chamusco (Sabugal e Lourinhã) | Glória Sobral (Sabugal e Coimbra)  | Gaspar Sobral (Timor Leste e Coimbra)



Rui Chamusco

A publicação desta série, já o dissemos, é uma  pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez mais  200 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e as crianças de Boebau, nas montanhas da martirizada Liquiçá.

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses, e  os timorenses, por sua vez, não se esquecerem de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste. Enfim, é também, da nossa parte, um tributo à lusofonia.

O Rui Chamusco é membro da Tabanca Grande ( nº 886), desde 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste, com sede em Coimbra. 

O João Crisóstomo, o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona (Nova Iorque, EUA),  é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de  24 de fevereiro a 1 de março

por Rui Chamusco

24. 02.2019, domingo - A festa de Domingo

Ao romper da bela aurora fomos chegando á escola, recomeçando os trabalhos de finalização para recebermos os ilustres convidados. A eucaristia está marcada para as 11.00 horas, e até lá cada um vai-se anafaiando para este encontro dominical. 

Todos ajudam: uns na distribuição de fardas aos alunos da escola, outros nos enfeites dos arcos;  uns limpam e varrem o local, outros ensaiam os cânticos. A pouco e pouco vão chegando as crianças, as famílias, e por fim alguém anuncia que os visitantes estão quase a chegar. As crianças fazem alas, os adultos vão se aproximando. Todos na expetativa de conhecerem os “amos” (padres) e o acompanhante Rui Pedro. 

Logo queo carro aparece, e logo que os seus ocupantes se mostram toda a atenção lhes é dedicada. Qualquer gesto, qualquer palavra é ansiosamente recebida. E depois de oferecerem um coco a cada visitante a fim de saciarem a sua sede, seguiu-se o canto do hino da escola, o beija mão (gesto típico timorense de respeito dos mais novos para com os mais velhos) e a preparação da eucaristia.

O Padre Fernando, que esteve onze anos em Timor Leste, pelo seu saber e personalidade, depressa sintonizou a assistência, falando em tetum. Graças aos cânticos a língua portuguesa também se fez ouvir.

Depois, na casa do Bôzé, foi a vez de alimentarmos o corpo. Um almoço frugal, onde mais que a comida ao dispôr, era necessário pôr as conversas em dia. Foi um dia em festa, que só acabou com as formalidades da despedida.

Este povo agradece a todos os que dele não se esquecem e lhes dão o prazer de uma visita. 

Boebau / Manati também é Timor Leste. Onrigadu,  frei Feranando; Obrigadu, frei Tinoco; Obrigadu, comandante Rui Ferreira!...

25.02.2019, segunda feira  - Mais uma boa notícia

Hoje, ao consultar o correio eletrónico deparo com um e-mail do Dr. Manuel Meirinho, presidente do ISCSP,  da Univerisdade de Lisboa, confirmando a sua chegada a Timor Leste no próximo dia 2 de Março. 

Com a agenda cheia de trabalho, pois juntamente com outros professores vêm dar formação a quadros timorenses, não poupa esforços em se encontrar connosco, mais concretamente em Liquiçá, a fim de podermos concretizar passos em ordem à geminação dos municípios de Sabugal e Liquiçá. 

O Dr. Manuel Meirinho, para além do múnus de docente,  é também presidente da Assembleia Municipal de Sabugal. E ninguém melhor para representar o município a que ambos pertencemos.

Será para nós uma honra e um privilégio colaborar neste ato de solidariedade. Aliás, foi por influência nossa, da ASTIL, que este processo se iniciou. Com certeza que o protocolo de colaboração entre os dois benefícios vai trazer benefícios para ambos. E particularmente vai criar laços de amizade que nos irão dar a conhecer mutuamente.

Bem vindo,  Dr. Manuel Meirinho! Já estamos de braços abertos para o receber...


27.02.2019, quarta feira  - Alegrias e dores, penas e cansaço

Hoje foi um daqueles dias em que tudo parece correr mal. Logo de manhã, às 9.00 horas, fomos à embaixada de Portugal em Dili a fim de legalizar dois documentos na seção consular. 

Com ou sem razão, as senhoras que me atenderam resolveram não proceder à legalização (tratava-se de carimbar os documentos), e foram de uma prepotência e arrogância raramente vistas. Claro que saí de lá revoltado e a ferver.

Teremos que dar a volta doutra maneira. Com todo o respeito que os funcionários públicos me merecem, acho que há outras maneiras e outras formas de tratar os assuntos, dialogando e inteirando-se verdadeiramente da situação.

É verdade que perante estas e outras dificuldades o cansaço se apodera de nós. Algumas vezes até o desânimo e a vontade de desistir. Mas felizmente que a paz de alma faz vencer estes obstáculos. Fica no entanto a má imagem de atendimento, que não abona nada a favor da embaixada de Portugal em Dili.

28.02,2019, quinta feira - Ei-los que partem...

Há mar e mar; há ir e voltar. Por volta do meio-dia dirigimo-nos ao aeroporto, em motor, a fim de me despedir do Pe Frei Fernando. Um abraço de despedida bem sentido, pois sei o esforço que o frei Fernando dispendeu para aceitar e cumprir o nosso convite de visitar a escola de São Francisco de Assis em Boebau. Estamos-lheeternamente gratos. Bom regresso a Portugal, e até um dia, cá ou lá, na senda de Francisco de Assis, “como peregrinos e forasteiros neste mundo”.

O regresso a Ailok Laran foi doloroso, pois, para além das mazelas corporais que há oito dias me afligem, dores musculares no pescoço ombros e pé esquerdo deixaram-me prostrado, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Espero bem que estas dores acalmem, porque já me chateia fazerem de mim o objeto das atenções desta gente da casa, que se desfazem em aliviar a minha dor com os meios que têm ao dispôr.

01.03.2019, sexta feira  - Uma questão de sensibilidade

Esta história de ficar doente de modo a preocupar os outros tem muito que se lhe diga.

Então não é que ontem, deitado no chão sobre um “triplex” e com quase toda a família à minha volta, me sai desta boca de ocidental uma frase perdida, que põe a Aurora e a Adobe (mãe e filha) a chorar? 

Em tom de brincadeira digo para o Eustáquio: "vai buscar duas tábuas, tira as medidas e faz o caixão”.Não sei se por imaginarem a cena ou talvez porque me querem bem demais, começo a ouvir o choro lacrimoso que, por mais que eu lhes dissessse que estava a brincar, não lhes pude evitar uns bons minutos de choradinho. 

Ainda mais: como para me acomodar pus as mãos cruzadas no peito, depressa a Adobe me corrigiu a posição, dizendo: “Pai Rui, assim não. Assim fazem aos mortos. E nós não queremos que o Pai Rui morra”.

Tanta coisa ainda por entender da cultura e psicologia deste povo! Mais uma vez me vem à memória o título do livro de Roger Garaudy “Oriente ou O(A)cidente? Quem poder entender que entenda...


02.03.2019, sábado - A amizade alimenta-se, cuida-se...


Os verdadeiros amigos fazem tudo para fortificar a sua amizade. Vem a propósito o convite que fizemos ao comandante Rui Pedro para vir jantar a Ailok Laran. E, embora muito fatigado pelo esforço dispendido com bastantes horas de mergulho no dia de hoje, à hora combinada lá fomos ao seu encontro para o trazermos a este labirinto do Bairro Pité. A gente da casa desfez-se e primorou por apresentar uma refeição não muito habitual. 

Até uma garrafa de vinho de Setúbal serviu para brindarmos. Mais umas fotos, mais um fio de conversa, música, cantorias particularmente em língua portuguesa fizeram parte do pequeno serão que se organizou no “alpendre” da casa.

Dizia o Rui Pedro: “ Mesmo sem televisão e outras comodidades, como esta gente se sente feliz com outros valores que, nós ocidentais, quase desprezamos”.

E como o cansaço era notório no rosto do meu amigo, propus de imediato ao Eustáquio para reconduzirmos o Rui ao seu paradeiro.

Entretanto o Rui agradecia “barak” a todos. “Obrigado,  primo Rui!” E, porque também sou Rui, tive de explicar a esta gente “o Tio Rui Pedro é comandante de fragata (todos icaram muito admirados e estupefactos); o Pai Rui sou eu, que vós já bem conheceis.” 

São momentos destes que nunca se agradecem suficientemente e que alimentam e cuidam da nossa amizade.

(Continua)

(Seleção, revisão / fixaçãod e texto: LG)
___________________

Nota do editor LG

Último poste da série > 3 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)

domingo, 3 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27983: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte III: semana de 17 a 23 de fevereiro: finalmente a caminho de Boebau... de "motor" (motorizada)


Timor Leste > Fevereiro de 2018 > Escola São Francisco de Assis (ESFA), em Boebau, Manati, Liquiçá, inaugurada em 19 de março de 2018. E os difíceis acessos a Boebau (na foto nº 2, o Rui Chamusco teve de se apear da moto, ei-lo em segundo plano, à frente da moto e do condutor). Sáo cerca de 50 km, de Dili até Boebau, na montanha, que podem demorar 4 a 5 horas, na época da monção. Entretanto foi comorada uma viatura com tração âs quatro rodas... E os melhores têm vindo a melhorar...

Foto da página do Facebook da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (com a devida vénia...)


1. Estamos a publicar excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), de Rui Chamusco a Timor Leste (fazem parte de um ficheiro em pdf, de 273 páginas, com todas as suas crónicas de viagem àquele país lusófomo, desde 2016, e que ele disponibilizou aos membros da ASTIL e demais amigos, em 28 de maio de 2025).

Já publicámos excertos das crónicas da I viaggem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).   Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem). Este ano de 2026, irá por razões de saúde.

Fundadores: Rui Chamusco,
Glória Sobral e Gaspar Sobral


Entendam, caros leitores, a publicação desta série como uma pequena homenagem a Timor-Leste e ao nosso Dom Quixote lusitano que já fez perto de 250 mil quilómetros de avião, desde 2016, por solidariedade com o povo timorense e  as crianças de Boebau, nas montanhas de Liquiçá (um topónimo que tem uma carga emocional muito grande para os timorenses que sofreram a brutakl ocupação inmdonésia, de 1975 a 2002, mas também para os portugueses que lá estavam na II Guerra Mundial) (**)

É também uma forma de a gente não se esquecer dos timorenses..., para que os timorenses, por sua vez, não se esqueçam de nós. Ser solidário com quem é solidário é também uma das nossas formas de ser estar dos amigos e camaradas da Guiné, alguns dos quais também são amigos de Timor-Leste.

O Rui é membro da  Tabanca Grande ( nº 886), de 10 de maio de 2024. E preside à ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste. com sede em Coimbra. O João Crisóstomo,  o "nosso régulo" da Tabanca da Diáspora Lusófona, é também membro da ASTIL, fundada por Rui Chamusco, Gaspar Sobral e Glória Sobral.

O Rui tem tido problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma intervenção cirúrgica, delicada, no Hospital Curry Cabral. Estava na Lourinhã a recuperar. Mas voltou a sentir-se mal e está de novo internado. O João Crisóstomo acaba de me telefonar de Nova Iorque, visivelmente preocupado. Fazemos votos para que o Rui recupere de novo, e rapidamente, de mais este susto. 


Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019): semana de 17 a 23 de fevereiro

por Rui Chamusco


Rui Chamusco,
Lourinhã (2017)

17.02.2019, domingo  - Do outro lado do mundo

Hoje, domingo, dou comigo a pensar no outro lado do mundo, mais concretamente nos territórios que frequento: Malcata, Sabugal, Lourinhã. A estas horas oiço os sinos a tocar, vejo as pessoas apressadas a caminho da igreja, espreito os homens na Torrinha pondo as conversas em dia. 

Dizem que no Sabugal, o domingo é o dia mais morto da semana, porque lhe falta a maioria da juventude das escolas, mas sei que por lá também os sinos tocam ao domingo e as pessoas são devotas e vão às igrejas.

Já na Lourinhã, ouço o ruído das ondas, vejo o frenesim da gente que enche os
supermercados para se aviar, sinto o prazer de tomar um café na praia e de curtir algum tempo ao sabor do sol e da brisa do mar.

Neste outro lado do mundo, em Ailok Laran-Dili, é um regalo ver quem passa, crianças, jovens e alguns adultos bem anafaiados porque vão à catequese e à missa.

Muita juventude que, crente nos ensinamentos que lhes transmitem, procura nas celebrações religiosas ocasião para manifestar a sua fé, rezando mas sobretudo cantando. E mesmo que a fé que temos não seja mola suficiente para nos levar a esses locais, muitas vezes por comodismo, vale bem a pena aproximarmo-nos para ouvir e saborear os seus cânticos, as suas melodias e harmonias.

E, porque hoje é domingo, estamos em sintonia e em sinfonia, graças à música, com os dois lados do mundo, com o universo...

17.02.2019 - Ai haunek e a malária

Esta tarde aprendi mais uma receita., para combater a malária. Mesmo em frente, de quem olha da varanda da casa (em construção) vê-se uma árvore de grande porte, que por isso mesmo ressalta aos nossos olhos. Quis saber que árvore é aquela. E entao o Eustáquio deu-me uma verdadeira lição sobre a mesma. Chama-se Ai haunek, e produz kerosina. 

Antigamente faziam-se pratos da sua madeira. Os rebentos novos das folhas cozem-se e podem ser acompanhadas com arroz. A casca do tronco é cozida e o chá daí resultante é bebido para combater a malária.

Tantos ensinamentos, a partir de uma boa utilização da natureza. E nós a pensar que já sabíamos tudo! Vai lá, vai...

18.02.2019, segunda feira  - Estes “pequenos heróis”!...

Esta tarde, junto ao Pateo, encontramos algo que aqui em Dili é habitual. Um senhor de pequena estatura, carregando aos ombros creio que dez frutos de kulo, tentando vender a sua mercadoria. Cada fruto pesa no mínimo uns seis quilos, que multiplicado por dez vai aproximadamente para os cinquenta quilos. 

Era impressionante olhar para esta figura franzina com tanto peso às costas. De modo que disse ao Gaspar para lhe comprarmos um fruto a fim de aliviarmos o homem. 

Pediu dez dólares, mas vendeu por cinco. Em curta conversa ficamos a saber de que, este “pequeno herói” veio assim carregado desde Dare, que fica a três-quatro quilómetros daqui, e assim tem passado o dia vergado ao peso deste apreciado fruto que mais parece uma grande pinha.

Despediu-se de nós profundamente reconhecido pelo nosso gesto, com pequenas vénias e palavras onde os seus olhos diziam tudo. Que sacrifícios esta gente passa para poder ter uns dólares no bolso...


Gaspar Sobral,
 Lourinhã (2017)

18.02.2019 - Dia de festa...

Faz hoje 69 anos que o Gaspar veio ao mundo, logo de madrugada, o segundo de sete irmãos desta grande família Sobral. E por morte do irmão mais velho, o José Sobral, Gaspar é neste momento respeitado como o chefe deste clã familiar.

Foi preciso que os outros, eu incluído, se lembrassem desta efeméride, porque o
Gaspar nem se lembrava que fazia anos. Então logo de manhã, ao sair do seu quarto,
lá estava eu a cantar-lhe os parabéns e a dar-lhe um abraço apertado.

 Não sei se durante o dia se lembrou mais alguma vez de que faz anos no dia 18 de Fevereiro. Aparentemente não. Mal sabia ele o que lhe estava preparado logo à noite, após a nossa chegada de Dili. Um bolo de anos personificado, também com as velas 69, com champanhe e tudo, 
e boa parte da família a festejar o homenageado. 

Durante a tarde, eu,  o Eustáquio e a Adobe (sua mulher),  fomos às compras e, mesmo viajando connosco, o Gaspar de nada desconfiou. Por isso nada estranho a sua euforia quando, em direto para Portugal, mostrava à Glória (mulher) e à Bene (filha) o ambiente festivo que aqui se estava a viver.

Pois é meu amigo! Os amigos são para as ocasiões. E fazer 69 anos de vida só acontece uma vez. Muitas felicidades e muitos anos de vida!...

18.02.2019 - a fúria da Ribeira Malôa

Em tempo de inverno, quase todos os dias chove em Timor. Esta tarde foi mais uma das chuvadas habituais. Mas eis que sou alertado para ir ver a ribeira Malôa que passa aqui mesmo ao lado.

Impressionante! Como é que, com mais ou menos uma hora de chuva, se acumulou tanta água no leito desra ribeira, que está quase sempre seca? Mas a prova estava à vista. Dos lados de Dare, vinha correndo com tanta força, aos turbilhões, que ninguém ousava qualquer desafio ou brincadeira. Era perigoso demais. De modo que todos nos limitávamos a ver e a comentar. Por acaso consegui documentar a situação fazendo pequenos videos no meu iphone. 

À noite, vimos a ribeira que atravessa a cidade de Dili, já com o seu caudal mais suave, mas mesmo assim impressionante. E se há males que vêm por bem, esta enxurrada de hoje teve o condão de limpar todo o leito desta ribeira, que normalmente está cheio de porcaria, nomeadamente plásticos e latas.

Claro que todo este lixo teve que ser despejado nalgum lado. E está-se mesmo a ver que esta lixeira foi para o mar. Infelizmente continuamos a entupir os oceanos. Tão mal que tratamos o mar!...

18.02.2019 - Encontro de amigos

Pela segunda vez combinamos encontrar-nos: eu, o Rui Pedro [comandante-de-fragata Rui Pedro Ferreira, destacado em Timor-Leste, em serviço durante um ano, e que tem ascendentes com origem em Malcata, Sabugal],  o Gaspar, o Eustáquio num pequeno restaurante à beira mar, em jantar (peixe assado, claro está!) e sobretudo em amena conversa que nos une e motiva a nossa presença neste canto do mundo.

Tudo veio à baila: histórias de família, ligações com Malcata, andanças de cada um, sobretudo do Gaspar. Perguntou-lhe o Rui Pedro "como é que foi a ter a Malcata?” E então o Gaspar, que nasceu em Timor, percorreu uma boa parte do mundo para tentar explicar a sua aterragem em Malcata, Sabugal: Lisboa, Angola, Lisboa, Castelo Branco, Fundão, Sabugal, Malcata, Coimbra... Claro que o Gaspar demorou muito mais tempo a explicar.

E para não faltar nada, uma chamada de Portugal para o iphone do Rui Pedro: A
Susana, sua namorada. Tivemos o prazer de nos conhecermos a tantos quilómetros de distância. Desejo-vos todo o bem do mundo porque, pelo que me apercebi, vocês são duas pessoas extraordinárias.

É de salientar, sempre que nos encontramos, a paixão e o entusiasmo com que todos falamos de Timor, das suas gentes, e dos projetos que cada um tem em mãos e tenta pôr em ação. Aprendemos sempre muito uns com os outros. Por isso tenho a certeza de que estes pequenos encontros irão continuar.



19.02.2019, terça feira  - As obras da casa do Vitor

Hoje poderemos dizer que é o princípio da reconstrução da casa do Sr. Vitor, ainda
que os primeiros trabalhos sejam de destruição. Com efeito, depois de uma visita ao local, onde podemos falar com os principais intervenientes, os filhos do Vitor (o
Francisco até é pedreiro), chegou-se à conclusão de que a primeira coisa a fazer seria abater uma árvore, a manga que ocupa boa parte do terreno destinado à reconstrução.

Feito o negócio com um cortador profissional, procedeu-se de imediato ao corte,
A seguir virão as carradas de pedra e de areia que lhes permitirá fazer a base. Então
para que se saiba, o acordo ficou assim: a Astil, através de doações de alguns sócios e outros amigos mais sensabilizados que contribuiram expressamente para esta obra, suportará as despesas dos materiais, e os filhos e amigos da família Vitor oferecem a mão de obra. 

Foi-nos dito pelo filho Francisco que, se os materiais não faltarem, mais ou menos daqui a três meses a casa estará pronta, em condições de ser habitada.

Neste momento uma grande chuvada, com trovoada e tudo, está descarregando aqui, em Ailok Laran. Mas a grande árvore já está no chão, e acredito que a boa vontade dos que estão envolvidos neste caso irá fazer com que a obra avance. De todas as formas, cá estarei eu para impulsionar esta obra solidária e para vos transmitir as notícias relativas à mesma.

20.02.2019, quarta feira  - Notícias matinais

Depois da chuvada torrencial de ontem à tarde ficamos com alguma apreensão do que teria sucedido por este país fora. Logo de manhã, não tardaram algumas notíciasarrasadoras. Na estrada entre Tibar e Liquiçá, um avião bimotor, talvez um taxi do governo pois ostenta na sua cauda a bandeira timorense, está, aparentemente sem consequências trágicas, embatido, notando-se bem os estragos nas suas asas depois de uma aterragem forçada.

Em Comoro, na zona circundante da praia, um bis / bus ( pequeno autocarro que
transporta pessoas e bens para as terras mais distantes) foi arrastada pela corrente da ribeira Maloa, causando o pânico nos seus ocupantes e em todos os que de fora
presenciavam o acontecimento. A preocupação e a curiosidade de todos era saber se tinha havido vítimas e quantas. E perante tanta ansiedade o jornalista que comentava a reportagem informou: “não houve vítimas.” Houve, sim, um grande susto, e possivelmente a perda de alguns bens que, como bem sabemos, são transportados sem o mínimo de condições de segurança.

Pois é! Ninguém brinca com as forças da natureza... E todo o cuidado é pouco...


23.02.2019, sábado - A caminho de Boebau

Sempre que se toma a decisão de ir a Boebau há um certo frenesim e um nervoso
miudinho em preparar as mochilas e o meio de viajar. O mais comum é o “motor”
(motorizada). Mas tudo serve: motor, carreta, anguna... Só de avião ou de barco não se pode lá chegar.

Hoje a partida de Ailok Laran  [o  bairro de Díli onde o Eustáquio e a Adobe, e onde o Rui fica], pelas 16.00 horas, foi em três “motores”  [motorizadas];

Bartolo + Gaspar, Venâncio + Rui, Akesu + Adobe. 

Chegamos às 18.30 horas. Tivemos muita sorte, porque durante a viagem não choveu, coisa que aconteceu cinco minutos depois de arrivarmos. Tudo bem, embora convenhamos que, com setenta e dois anos em cima, esta viagens deixem as suas marcas e mazelas corporais. Vale-nos ao menos a boa vontade, mas vamos lá a ver até quando esta massa corporal suportará estas agruras.


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2024 > Escola de São Francisco de Assis (ESFA) , que celebrou o  seu 6º aniversário (e o acesso, desde Díli também já melhorou)... Mas erguer paredes é sempre o mais fácil... É preciso agora assegurar o seu futuro... e essa tem sido a preocupação maior do Rui Chamusco e dos demais membros da ASTIL que apoiam e financiam o projeto (incluindo o pagamento do pessoal docente e auxiliar), bem da ASTILMB. Em 2019 ainda não havia a casa dos professores, o que já há.
 
Foto (e legenda): © Rui Chamusco (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


23.02.2019 - Sabores e dissabores

O dia de hoje foi destinado particularmente a inteirar-nos da situação da escola, ouvindo alguns dos seus agentes para podermos tirar algumas conclusões que ajudem a resolver alguns conflitos. 

Não tem sido fácil tomar decisões, pois uma das partes não apareceu na reunião previamente convocada. Temos muitas questões a esclarecer, mas estou convencido que com a boa fé e a vontade de todos tudo se resolverá.

Neste momento, das 75 crianças inscritas só 40 crianças do ensino pré escolar frequentam a escola São Francisco. Todas as outras foram matriculadas na escola de Kilo, que é a escola mais próxima. Há uma certa revolta dos pais destas crianças porque se sentem enganadas. Disseram-lhes que esta escola era para os seus filhos, e afinal têm que frequentar a outra escola. Claro que a solução não está nas nossas mãos, ainda que procuremos junto de instituições e particularmente junto do ministério de educação timorense, ajuda e resolução destes problemas. 

Mas neste momento, a ASTILMB (ASTIL Manati / Boebau,  a ASTIL local) não tem capacidade para motivar e pagar a professores que queiram lecionar em Boebau. Ainda não podemos oferecer condições mínimas de habitabilidade a professores voluntários ou contratados

. A Escola de São Francisco de Assis tem o estatuto de ensino privado / particular. E embora estatutariamente contemple o ensino pré-escolar e o ensino primário (ensino básico), ainda não temos capacidade de resposta para todas as necessidades desta famílias e destes alunos.

Por outro lado, custa-nos a entender alguma ingerência do ensino público, na pessoa da professora Rita, no nosso ensino que é particular / privado. Ainda não percebemos porque aparece esta professora como coordenadora da nossa escola. Vamos tudo fazer por esclarecer esta situação.

Como se vê, há problemas em todo o lado. Compete-nos tudo fazer por resolvê-los... e encontrarmos soluções adequadas.

23.02.2019 - Amanhã é dia de festa...

Esta tarde há alguma azáfema em preparar a receção aos visitantes. Uma visita pré- anunciada e muito esperada: o Padre frei Fernando Alberto, provincial dos missionários capuchinhos em Portugal, o frei Tinoco, da fraternidade dos capuchinhos de Tíbar, e o Rui Pedro, comandante de fragata em serviço em Timor Leste,  vêm cumprir a promessa que me fizeram: visitar a Escola de São Francisco em Manati/ Boebau (ESFAMB).

Do programa consta a celebração da missa dominical, que aqui, por sorte, tem lugar uma vez por ano. Também a igreja abandona os seus fiéis. Porque o acesso é difícil; porque não há padre; porque... Razões esfarrapadas a quererem justificar atitudes comodistas.

Por isso amanhã será dia de festa, e tudo se prepara para que assim seja. Não há igreja, não há sinos a badalar, mas esta gente já espalhou a notícia por todo o ladoUm bom grupo de voluntãrios estão preparando devidamente o local. As canas enormes de bambú e as lonas que as sobrepôem já são visíveis. E amanhã de manhã se fará o resto.

(Continua)

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos: LG)
______________

Notas do editor LG:

(**) Liquiçã, um topónimo doloroso: carrega uma forte carga simbólica e emocional para dois grupos diferentes: para os timorenses, como lugar de violência extrema no final da ocupação indonésia; para os portugueses, como um dos cenários da experiência traumática da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

(i) Para os timorenses (ocupação indonésia, 1975–2002)

Liquiçá (cidade e sede e município) tornou-se um símbolo de sofrimento sobretudo por causa do que aconteceu em 1999, já no fim da ocupação indonésia. A chamada Massacre de Liquiçá ocorreu em abril desse ano, quando milícias pró-indonésias, com apoio ou tolerância de setores das forças de segurança, atacaram civis que se tinham refugiado numa igreja. Houve dezenas de mortos (o número exato continua debatido, há quem fale em duas centenas), e o episódio ficou como um dos mais marcantes da violência que antecedeu o referendo de independência organizado pela ONU.

Esse período insere-se na mais vasta ocupação indonésia de Timor-Leste, que causou enorme destruição, deslocamentos forçados e perda de vidas. Por isso, Liquiçá permanece um lugar de memória dolorosa para muitos timorenses.

(ii) Para os portugueses (II Guerra Mundial, 1942-1945):

Durante a Segunda Guerra Mundial, Timor, terriotório sob administração portuguesa, foi invadido pelo Japão em 1942, apesar da neutralidade de Portugal. Em consequência da ocupação japonesa de Timor, militares portugueses e civis foram capturados e internados.

Liquiçá foi um dos locais onde existiram campos de internamento e onde passaram prisioneiros portugueses (e também outros, incluindo timorenses e aliados). As condições eram duríssimas ( fome, doença e trabalho forçado) e muitos não sobreviveram. Embora não seja o único local associado a esse sofrimento (Aileu é também lembrado pelo massacre de 1/10/1942, perpretado pelas "colunas negras"),

 Liquiçá também faz parte das nossas geografias emocionais.

terça-feira, 16 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25748: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte VII: "Bom dia, professor!"



Timor Leste >Liquiçá > Manati > Boebau > Escola de São Francisco de Assiz, "Paz e Bem"  (ESFA) > Alunos e professores. Foto da página do Facebook do João Moniz ("Eustáquio"), publicada em 22 de março de 2023. (Com a devida vénia...)



T
Timor Leste >Liquiçá > Manati > Boebau > Escola de São Francisco de Assiz, "Paz e Bem"  (ESFA) > 2024 > Aspeto exterior da Escola. Foto da página do Facebook do Rui Chamusco,, publicada em 5 de maio de 2024. (Com a devida vénia...)



Timor Leste > Liquiçá > c. 1936-1940 > Residência do Chefe de Posto de Liquiçá, na época colonial... Liquiçá  é hoje um dos 13 municípios de Timor Leste (c. 63 mil habitantes). Ficou tristemente famosa pelo massacre perpetrado pelas milícias pró-indonésias em 1999 ("massacre de Liquiçá") .

Foto do Arquivo de História Social > Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo com a Wikimedia Commons. 

Editada por Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024). Com a devida vénia...



Timor Leste > Liquiçá > 2016 > Vista aérea da cidade costeira de Liquiçá > Foto de Jorge Santos (aka Jrg Snts), publicada no belíssimo álbum  "Timor - a ilha feiticeira". Esta foto aérea está alojada na Wikimedia Commons.  

A vila de Liquiçá é rodeada por  duas ribeiras que vêm da montanha, à esquerda  Gularkoo, e à direita Lacló.  A cidade,  sede de município do mesmo nome, tem 19 mil habitantes.

Foto: © JgrSnts (2016) / This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International license.
 



Lourinhã > 2017 > Rui Chamusco e Gaspar Sobral

1. Continuação da publicação de uma selcção das crónicas do Rui Chamusco, respeitantes à sua segunda estadia em Timor Leste (janeiro / julho de 2018) (*).

Membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio último, é cofundador e líder da ASTIL (Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste), criada em 2015 e com sede em Coimbra.
 
Professor de música, do ensino secundário, reformado, natural do Sabugal, e a viver na Lourinhã, o Rui tem-se dedicado de alma e coração aos  projetos  que a ASTIL tem desenvolvido no longínquo território de Timor-Leste.

O Rui Chamusco partiu para Timor, em 25 de janeiro de 2018, com o seu amigo, luso-timorense, Gaspar Sobral, cofundador também da ASTIL. Em Dili ele costuma ficar na casa do Eustáquio, irmão (mais novo) do Gaspar Sobral, e que andou, com a irmã mais nova, a mãe e mais duas pessoas amigas da família, durante três anos e meio, refugiado nas montanhas de Liquiçá, logo a seguir à invasão e ocupação do território pelas tropas indonésias (em 7 de dezembro de 1975) (tinha "apenas" 14 anos...).

Voltamos à Escola de São Francisco de Assis, localizada em Boebau, Manati, município de Liquiçá, em plena montanha.


II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VII -  "Bom dia, professor!"



Dia 16.04.2018, segunda feira - Reunião Geral


A fim de se esclarecerem algumas situações e alguns pequenos conflitos foi convocada uma reunião geral na escola neste dia 16 de abril. 

Depois de ouvidos todos os intervenientes pudemos pôr a água na fervura e acalmar as hostes. A minha presença e do Eustáquio trouxe a compreensão e a paz a esta gente. Claro que seria melhor que este conflitos não aparecessem. Ou se calhar até não. Tudo isto ajuda a crescer e a ser mais forte, tal qual como quem nasce e aprende a dar os primeiros passos em ordem a um longo caminho que tem de fazer.

A proteção de São Francisco ajuda-nos a compreender e até a rezar a sua oração: onde houver guerra que haja paz; onde houver ódio que haja amor; onde houver ofensa que haja perdão, etc... 

Há gente que me identifica com esta personagem recorrente e este espírito franciscano. Que hei-de dizer? Eu não posso deixar de ser aquilo que me ensinaram a ser ao longo da vida. Mas quem sou eu para ser comparado com tal santo? Um grande pecador que, por mais que disfarce, nunca chegarei aos seus calcanhares. Por isso peço constantemente a sua proteção, para mim e para os outros.


 A alegria e a vontade de aprender



Hoje foi a primeira aula (se assim se pode dizer). A sala de São Francisco estava repleta de crianças de todas as idades, algumas ao colo de suas mães, para aprenderem a falar o português. 

Há crianças de 10 e 11 anos que nunca foram à escola. Estou certo que para a maioria delas terá sido a primeira vez que balbuciaram tais palavras. Imitando, cantando, soletrando por mais de duas horas estivemos “online”, com a vontade enorme de saber, de aprender, de comunicar em português. 

O facto de as escolas estarem de férias em Timor (final do 1º período) trouxe-nos ainda mais afluência à nossa escola. Por isso, organizamos um turno de tarde para os mais crescidos, jovens e adultos. Ou seja, um dia bem cheio de atividades. Valeu-me a ajuda preciosa da professora Rita, que dá aulas de manhã na escola mais próxima, e de tarde na nossa escola.

Já sei, por experiência da minha avançada idade, que todas as atividades têm um início empolgante, e que depois sofrem de algum desinteresse e entusiasmo. Mas não deixa de ser compensador a alegria sobretudo das crianças ao repetirem palavras, gestos, sons que lhes são propostos. E então o entusiasmo com que cantam e dançam o malhão, deixam-nos o coração em pedaços.

Dizem e desejam que “se o Tiu Rui cá estivesse todo o ano a gente aprendia depressa o português”, talvez porque é ensinado a cantar. 

Pois é! A idade não perdoa e não será fácil tal decisão. Mas, enquanto houver forças, o meu apoio nunca faltará. Não há por aí voluntários e voluntárias que queiram experimentar?...


Arco iris, símbolo da esperança


Não é nem de longe a primeira vez que contemplo este fenómeno da natureza. Todos sabemos como ele se forma, mas cada vez que com ele nos encontramos ficamos atónitos, a olhar para a sua beleza. Pois em montanhas timorenses sim que é o primeiro encontro. Agora imaginem a beleza e encanto neste quadro tão elegante da natureza. 

À semelhança de São Francisco, contemplo embasbacado esta beleza e dou por mim a louvar o Senhor que criou tanta beleza: “Louvado sejas meu Senhor pelo nosso irmão o arco iris, que fizeste tão belo e esplendoroso. De Ti Senhor ele é a imagem.”

A policromia das suas cores faz-me lembrar a harmonia dos sons, das notas musicais. Um tema forte para uma criação musical, que talvez um dia aconteça, em terras de Boebau. A harmonia é o símbolo forte da nossa escola, que se pode traduzir em cores, em sons, em relações sociais e atitudes individuais. A esperança, essa virtude tão humana e tão divina, será um farol que, com as cores do arco iris, nos iluminará e guiará rumo a um futuro cada vez melhor para estas crianças e toda esta gente. Assim cremos e queremos...

 Colia... colia... colia...

Estamos aqui em Timor, em tempo de campanha eleitoral para o Parlamento. Não sei de nada, mas vou ouvindo. Tal como aí ou em qualquer parte do mundo civilizado, multiplicam-se os pregadores e anunciadores de programas, tentando convencer o eleitor de que o seu partido é melhor do que os outros. Falam...Falam...Falam...! (colia...colia...colia...).

É fácil falar... É difícil dizer algo com substância... É difícil fazer... É muito mais difícil fazer bem... Como diz o ditado:” Não faças como o Tomás. Olha para o que ele diz e não para o que ele faz.”  (...)


Dia 17.04.2018 - Presente!...



Mais ou menos 50 crianças e alguns adultos disseram “Bom dia,  professor” ao entrarem ordenadamente para a sala de São Francisco. Depois, seguem-se as palavras de identificação de objetos, as expressões e frases mais usuais em português, as canções, as notas da música. 

Durante duas horas estivemos ensinando e aprendendo. É certo que a missão do professor é ensinar, mas também se aprende muito com esta gente. Aprender até morrer, uns com os outros.

Como o lenço não é objeto que se use por estas bandas, o mais comum é recebermos o cumprimento das crianças (o beija-mão) entre ranho e lágrimas, Nada que nos incomode, porque este viver é tão natural que o nosso corpo tudo aguenta e suporta. E mesmo que alguns hábitos culturais, por exemplo o mascar do betel (malus+areca+cal), a vontade de aculturação é tão forte que tudo suporta. È uma questão de pensarmos no essencial da vida.

De tarde, antes do turno da tarde às 16.00 horas, quis ir conhecer a escola mais próxima, a escola de Fatu. Acompanhado do Laurindo, percorremos a distância que nos separa, parando aqui e acolá para cumprimentar amigos do Laurindo. 

Há crianças que chegam a fazer 7,50 quilómetros por dia para frequentarem esta escola. A carência desta gente é tanta, devido ao isolamento e falta de meios económicos, que algumas famílias queriam oferecer o café aos visitantes mas não puderam, justificando-se “não temos café nem açucar”. Assim, pude sentir na pele as dificuldades do caminho a que estes alunos estão sujeitos, com sol que foi o caso, ou com chuva.

Dia 18.04.2018, quarta feira  - Um almoço inesperado


Devido às dificuldades de comunicação digital por não haver rede elétrica disponível, e a conselho do amigo Laurindo, fomos até à casa ainda em fase de acabamentos do sr. Manuel dos Santos, ou como eu gosto de o chamar comandante Sarunto Limurai. 

Já falei com ele várias vezes, cumprimentando-nos sempre com um caloroso abraço. O meu comandante estava ausente devido ao trabalho, mas o seu filho João recebeu-nos com toda a simpatia. O objetivo da visita era carregar o meu telemóvel através do gerador ali em funções. 

Telemóvel à carga, umas cadeiras para descansar e um pouco de conversa como aqui é habitual. E, enquanto esperava pelo sinal de partida, eis que chega a ordem da casa: “Vamos comer!...” 

Já vou entendendo esta gente e o seu modo de ser. Chegando a hora da refeição, esteja quem estiver a refeição é para todos. Há sempre lugar para mais um, para mais dois ou para mais três. Já me vou habituando a não recusar e a aceitar toda esta hospitalidade. Claro que almoçamos, com todo o prazer, e que bem me soube aquele invariável arroz, acompanhado de peixe e folhas de mandioca, com o remate do bom café timorense. 

Já no final do almoço aparece o nosso herói que, surpreendido, manifestou efusivamente a sua alegria de nos ter em sua casa através de um forte abraço. Obrigado,  amigo e família. Com certeza que celebraremos mais vezes esta amizade sincera.


Restos mortais e outras coisas...


Junto à escola estão umas quantas campas dos antepassados das famílias que aqui moram e que, por uma questão de respeito, nós prometemos que iríamos reparar. Hoje, olhando em pormenor este espaço com a ajuda de alguns dos trabalhadores na terraplanagem (feita a pulso sem qualquer máquina) da escola, vim a saber algo inesperado.

 Foram encontrados uns quantos cadáveres, alguns ainda bastante recentes, que depois de serem contactadas as famílias foram deslocados para o sítio do cemitério familiar que queremos reparar. Os cadáveres não identificados foram sepultados em campa comum, supondo-se até que haja alguns de soldados indonésios.

 Precisamente em primeiro plano a seguir à escola está um espaço demarcado sem qualquer elemento identificativo que afirmam estar sepultado o Mau Quinta, aquele de quem já falei nas primeiras crónicas e que durante a guerra, num gesto de desespero e vingança, cortou com a sua catana a cabeça do seu comandante por este o ter tentado matar. Este espaço é um símbolo de que a traição não é coisa boa, e de que a confiança mútua é sempre o melhor caminho.


Dia 19.04.2018, quinta feira - O Hino da escola


Não sei porquê, mas a insónia desta noite levou-me a estar em alerta várias horas, pelo que tive tempo de mentalmente percorrer muitos caminhos e projetos. Foi então que surgiu a ideia: e se fizesse um hino da escola para que todos possam cantar? 

Vira e revira, põe e tira, de trauteamento em trauteamento vou criando a melodia, a letra, a forma. Às sete horas da manhã já estava na escola tentando concretizar a respetiva partitura que, com inspiração ou sem ela, ficou pronta num instante.

Pelas dez horas chegam as crianças que, acompanhadas de alguns adultos, enchem literalmente a sala de São Francisco. À semelhança dos dias anteriores, começaram as saudações, as palavras, as frases em português, seguidas de canções. 

E pronto, aparece o hino da escola que, com facilidade é assumido na sua letra, música e gestos. Esta gente de Boebau, tal como qualquer timorense, tem cá um ouvido de invejar. Em poucos minutos tudo canta com entusiasmo o hino da escola. Não posso esconder que senti alguma emoção ao ouvir estas vozes cristalinas cantando “Obrigado! Obrigado! Obrigado com amor... Obrigado Obrigado! Obrigado meu Senhor!...” E, já agora, a letra do hino:


HINO DA ESCOLA DE SÃO FRANCISCO BOEBAU / MANATI

Letra e música:  Rui Chamusco

1. A escola de São Francisco,
Um projeto de Paz e Bem,
Para o povo de Boebao/Manati,
Um presente que a gente tem.

Por isso cantamos:

Refrão:

OBRIGADO! OBRIGADO!
OBRIGADO COM AMOR...
OBRIGADO! OBRIGADO!
OBRIGADO, MEU SENHOR!.
..


2. São Francisco lá na glória,
Lá nesse formoso céu,
Protege a nossa escola,
Protege este povo teu.

Por isso cantamos:

Refrão (...)

3. Vamos todos contribuir
Com amor e confiança,
Construir um mundo novo
Para todas as crianças.

Por isso cantamos:


Refrão (...)

(Ver aqui na página da ASTIL os miúdos da ESFAMB (Escola São Francisco de Assis. de Manati, Boebau) a cantarem  o seu hino. Uma ternura!... Vídeo: 4' 44''. Data: 8 de dezembro de 2020.)

 (Título, seleção de excertos, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 8 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25724: II Viagem a Timor: janeiro / junho de 2018 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte VI: Uns com tanto, e outros com tão pouco