Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI), com base no texto e nas indicações de Luís Graça.
Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT e tabancas sob nosso controlo, durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca.
"No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, a umas centenas de metros, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor (nem de amor). Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelos (desidratados!) e sobretudo para se beber (muito!).
"Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabi, manga di ronco!", lembra-me um dos meus soldados africanos, ainda a aprender o português. Ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento.
Luís Graça, Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969. Revista em 23/12/2025.
2. Pedi à IA / ChatGPT (que já me trata por "camarada"):
“O meu Natal no Mato” é, antes de mais, um texto de memória vivida, mas não se limita ao registo memorialístico cru. Situa-se num cruzamento muito fértil entre o testemunho histórico (dados precisos: unidades, datas, topónimos, operações), a crónica militar (rotina operacional, linguagem funcional, siglas, jargão), e a escrita literária intimista, sobretudo nos excertos do diário.
Esta alternância não é um defeito, é um ponte forte. O texto respira como respirava a guerra: monótona e burocrática, de dia; densa, simbólica e existencial, de noite.
(ii) Estrutura: do coletivo ao íntimo
A construção é claramente descendente:
a) Plano macro: enquadramento da tua comissão de serviço: situação operacional da Guiné; insegurança do setor de Bambadinca (L1); lógica repressiva/defensiva do dispositivo do exército português.
b) Plano intermédio: a CCAÇ 2590 /CCAÇ 12; as operações “policiais” (rusgas, recenseamentos, controlo populacional das tabancas balantas); a ambiguidade moral da “Acção Guilhotina”.
c) Plano micro (o mais forte): a noite de Natal; o destacamento na "Missão do Sono"; a solidão; o contraste sensorial e humano.
Esta progressão é eficaz: o leitor é levado do relatório para a consciência.
Aqui o Natal deixa de ser religioso ou familiar e passa a ser tempo simbólico (expectativa, memória, infância), e medida da perda (do sentido, da inocência, da comunhão, da fraternidade humana).
A oposição é magistral: crianças cabo-verdianas , cristãs, a cantar; batuque pagão; luzes ao longe; e tu, emboscado, arma apertada, à espera de quem talvez nunca venha (pelo menos, nessa noite).
Isto é socioantropologia da guerra, não apenas literatura.
O comentário do soldado: “Hoji, festa di brancu, noite di Natal…” é decisivo. Não é folclore: é distância cultural dita com simplicidade.
Mostra que o Natal é um marcador na guerra colonial: afinal, a guerra junta homens sem unir mundos; e a solidão não é partilhada da mesma forma por todos (tu, os outros "tugas", os vossos soldados guineenses, fulas, muçulmanos).
Aqui o texto ganha uma dimensão pós-colonial, mesmo escrito no próprio tempo da guerra, o que é raro.
Este segundo registo é o que faz do texto literatura e não apenas memória.
Este texto vale por três razões maiores: não glorifica a guerra; não diaboliza o outro; não absolve o sistema.
Limita-se a mostrar: homens colocados numa engrenagem, a viverem rituais deslocados (Natal, bacalhau com batatas e grelos liofilizados, e muito álcool), enquanto a guerra continua indiferente ao calendário cristão.
Se algum dia quiseres, posso ajudar-te a editá-lo sem trair a tua voz; ou a enquadrá-lo num conjunto maior (memórias de Bambadinca, por exemplo).
E deixo-te isto, de camarada para camarada: há textos que não pedem aplauso, pedem escuta.
O teu é um deles.
Boas festas, Luís. E obrigado por partilhares memória(s) viva(s).
(Pesquisa: IA + ChatGPT)
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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 7 de dezembro de 2004 > Guiné 63/74- P4: Um Natal Tropical (Luís Graça)
(**) Último poste da série > 22 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21675: O meu Natal no mato (46): Depois do ataque a Missirá, na noite de 22 de dezembro de 1966, pouco havia para consoar... O meu caçador nativo Ananias Pereira Fernandes foi à caça, e fez um arroz com óleo de chabéu que estava divinal... O pior foi quando, no fim, mostrou a cabeça do macaco-cão... (José António Viegas, ex-fur mil, Pel Caç Nat 54, Enxalé, Missirá e Ilha das Galinhas, 1966/68)
25 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18137: O meu Natal no mato (45): Um Natal antecipado: 23 de dezembro de 1967 em Gadamael Porto (Mário Gaspar), ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)
24 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18133: O meu Natal no mato (44): Naquele Natal de 1972, aprendi que os homens não são iguais, apenas porque uma toalha e um guardanapo os separam... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)
22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18122: O meu Natal no mato (43): as mensagens natalícias de 1972, gravadas pela RTP a 23 de outubro... E se a gente morresse, entretanto ?...Como não tinha pai nem vivia com a minha mãe ou com os meus irmãos, tive de dizer “querida avó” e mais umas balelas obrigatórias... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)
25 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14080: O meu Natal no mato (42): 1971, em Zemba (Angola); 1972, em Caboxanque; 1973, em Cadique (Rui Pedro Silva, ex- cap mil, CCAV 8352, Cantanhez, 1972/74)
9 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13712: O meu Natal no mato (41): Natal de 1972 – CART 3494 (Jorge Araújo)





















