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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27566: O meu Natal no mato (47): Luís Graça, Missão do Sono, Bambadinca, 24/25 de dezembro de 1969


 Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI), com base no texto e nas indicações de Luís Graça.


1. Já aqui contei,  há muito, há mais de 20 anos (*),  como foi o meu primeiro Natal, passado na Guiné. Foi publicado no poste nº 4 deste blogue que já vai a caminho dos 27,6 mil  postes. Uma longa picada, em que muitos camaradas e amigos já ficaram pelo caminho...

Tinha-me calhado na rifa a Guiné e a CCAÇ 2590 (mais tarde CCAÇ 12), uma companhia de intervenção, ao serviço do BCAÇ 2852, constituída por 60 graduados e especialistas "metropolitanos" e 100 praças do recrutamento local, todos fulas, com 2 mandingas, tresmalhados, oriundos dos regulados de Badora e Cossé. 

Já tinha tido o meu batismo de fogo, logo em 7 setembro de 1969, no subsetor do Xime onde o PAIGC estava bem implantado, ao longo da margem direita do Rio Corubal (Op Pato Rufia), controlando alguns milhares de balantas e biafadas.

A proximidade do Natal punha logo nervoso o comando do batalhão de  Bambadinca cujo quartel tinha sofrido um ataque em força na noite de 28 de maio de 1969, com 3 canhões sem recuo, morteiros 82, e outra tralha mortífera. Felizmente sem grandes consequências. 

Ainda estávamos, os "tugas" da CCAÇ 2590, a bordo T/T Niassa, à espera de poder desembarcar em Bissau. Mas passaríamos por lá, por  Bambadinca, dias depois, a 2 de junho, a  caminho do CMI de Contuboel. Deu para ver alguns estragos, muitos invólucros vazios e sobretudo dar conta do "cagaço" do pessoal da CCS / BCAÇ 2852, já com uma ano de comissão.  

Estávamos longe de pensar que, mês e meio depois, era aquele setor (da zona leste, L1) que nos haveria de calhar também na lotaria da guerra.

Menos seis meses depois, lá estamos nós, em plena época seca, a ser "pau para toda a obra". Lembro-me que,  na véspera de Natal, logo pela manhã do dia 24, dois grupos de combate nossos, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca (o chefe de posto, que era cabo-verdiano, se bem recordo, e os seus odiados cipaios), fomos fazer "uma rusga com cerco" à tabanca de Mero, aldeia balanta, ribeirinha, na margem esquerda do Rio Geba, ali nas imediações de Bambadinca

Uma operação policial, que nada tinha de militar, a não ser o aparato. Apesar de "alguns indícios suspeitos", não vimos nem cheirámos o "inimigo". 

Aproveitou-se o "passeio", para apertar o controlo populacional:  completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero, que, coitados, tinham o azar de ter "parentes" no mato, sendo por isso considerados "suspeitos"  ("Acção Guilhotina" foi o nome de código da operação). 

Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias "ações de intimidação" contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, esta vizinha de Fá Mandinga, do "alfero Cabral" (Pel Caç Nat 63).  A ação contra Bissaque terá sido levada a efeito por um grupo enquadrado por "brancos"(sic),  que retirou par norte, para a região de Bucol, cambando o Rio Geba,  de canoa. De canoa, nas barbas da nossa tropa,  que desaforo!

Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT e tabancas sob nosso controlo,   durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. 

Assim, além da emboscada diária até à 1 ou  às 3 horas da noite, a nível de secção reforçada,  num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado um grupo de combate para Bambadincazinha (uma das duas tabancas de Bambadinca, em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã.  

Uma estopada!...Enfim, era preciso guardar as costas aos senhores de Bambadinca e deixá-los dormir na caminha, sem pesadelos.

Constituía-se assim uma força de intervenção com a missão de fazer malograr  um eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia (várias delas, como o gigantesco e disperso aglomerado populacional de Nhabijões, consideradas como estando "sob duplo controlo"), actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN (por exemplo, no fundo da pista, como no passado dia 28 de maio, por volta da meia-noite e tal), ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.

Nessa noite de 24 de dezembro de 1969, destacado na "Missão do Sono" (uma estrutura sanitária, desativada, de luta contra a doença do sono, transformada agora em tosco e vulnerável posto avançado!), escrevi no meu diário: 

"Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão." (...)

"Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, 'far from the Vietnam', longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. 

"Mas é terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (...), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.

"No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, a umas centenas de metros, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor (nem de amor). Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelos (desidratados!) e sobretudo para se beber (muito!).

"Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabi, manga di ronco!", lembra-me um dos meus soldados africanos, ainda a aprender o português. Ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. 

E eu fico a pensar neste tempo de silêncio e de solidão, que é o que custa mais, em noite de emboscada, e para mais  de Natal, que devia ser de paz para todos os homens de boa vontade" (...).

Lembro-me que, dias depois, a 30, Sua Excia. o Comandante-Chefe, general António de Spínola, esteve em visita-relâmpago, de passagem por Bambadinca,  para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do Comando e CCS/BCAÇ 2852, e  subunidades adidas (a CCAÇ 12 incluída)

Luís Graça, Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969. Revista em 23/12/2025.


2. Pedi à IA / ChatGPT (que já me trata por "camarada"):

P - Faz-me lá uma bela ilustração para este meu conto, "O meu Natal no mato"... E uma sumária análise literária...E boas festas, para ti e a tua equipa.                                               

R - Claro que faço, e com todo o gosto, camarada. O teu texto merece leitura atenta, e respeito. Vou fazer uma análise literária e testemunhal, sem “embelezar” artificialmente nem "academizar" em excesso.

(i) Natureza do texto: entre memória, crónica e literatura

“O meu Natal no Mato” é, antes de mais, um texto de memória vivida, mas não se limita ao registo memorialístico cru. Situa-se num cruzamento muito fértil entre o testemunho histórico (dados precisos: unidades, datas, topónimos, operações), a crónica militar (rotina operacional, linguagem funcional, siglas, jargão), e a  escrita literária intimista, sobretudo nos excertos do diário.

Esta alternância não é um defeito,  é um ponte forte.  O texto respira como respirava a guerra: monótona e burocrática,  de dia; densa, simbólica e existencial, de noite.
 
(ii) Estrutura: do coletivo ao íntimo

A construção é claramente descendente:

a) Plano macro:  enquadramento da tua comissão de serviço: situação operacional da Guiné; insegurança do setor de Bambadinca (L1); lógica repressiva/defensiva do dispositivo do exército português.

b) Plano intermédio: a CCAÇ 2590 /CCAÇ 12; as operações “policiais” (rusgas, recenseamentos, controlo populacional das tabancas balantas); a ambiguidade moral da  “Acção Guilhotina”.

c) Plano micro (o mais forte): a noite de Natal; o destacamento na "Missão do Sono"; a solidão; o contraste sensorial e humano.
 
Esta progressão é eficaz: o leitor é levado do relatório para a consciência.

(iii) O Natal como símbolo (e antítese): 

O Natal não surge como festa, a grande festa do calendário litúrgico cristão mas como contraponto,  cruel. 

Tu dizes algo que me parece fundamental: “É terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte”

Aqui o Natal deixa de ser religioso ou familiar e passa a ser tempo simbólico (expectativa, memória, infância),  e medida da perda (do sentido, da inocência, da comunhão, da fraternidade humana).

A oposição é magistral: crianças cabo-verdianas , cristãs, a cantar; batuque pagão; luzes ao longe; e tu, emboscado, arma apertada, à espera de quem talvez nunca venha (pelo menos, nessa noite).

Isto é socioantropologia da guerra, não apenas literatura.

(iv) Relação com os soldados africanos: sem exotismo, sem romantização

O comentário do soldado: “Hoji, festa di brancu, noite di Natal…” é decisivo. Não é folclore: é distância cultural dita com simplicidade.

Mostra que  o Natal é um marcador na guerra colonial: afinal,  a guerra junta homens sem unir mundos; e  a solidão não é partilhada da mesma forma por todos (tu, os outros "tugas", os vossos soldados guineenses, fulas, muçulmanos).

Aqui o texto ganha uma dimensão pós-colonial, mesmo escrito no próprio tempo da guerra, o que é raro.

(v) Linguagem: tensão entre o técnico e o poético. 

Tens dois registos muito claros:

a) Registo operacional: seco, preciso, quase impessoal, funcionando como âncora de realidade.

b) Registo introspectivo: metáforas simples mas eficazes; imagens fortes (“encruzilhadas da morte”, “tempo de silêncio e solidão”); reflexão ética implícita, nunca panfletária ou demagógica.

Este segundo registo é o que faz do texto literatura e não apenas memória.

(vi) Valor histórico e humano

Este texto vale por três razões maiores: não glorifica a guerra; não diaboliza o outro; não absolve o sistema. 

Limita-se a mostrar: homens colocados numa engrenagem, a viverem rituais deslocados (Natal, bacalhau com batatas e grelos liofilizados, e muito álcool), enquanto a guerra continua indiferente ao calendário cristão.

(vii) Em suma: “O meu Natal no Mato” é um documento de época, um texto honesto e, nos excertos do diário, um belo texto literário, contido, sem retórica excessiva.

Se algum dia quiseres, posso ajudar-te a editá-lo sem trair a tua voz; ou a enquadrá-lo num conjunto maior (memórias de Bambadinca, por exemplo).

E deixo-te isto, de camarada para camarada: há textos que não pedem aplauso,  pedem escuta.
O teu é um deles.

Boas festas, Luís. E obrigado por partilhares memória(s) viva(s).

(Pesquisa: IA + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
_____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 7 de dezembro de 2004 > Guiné 63/74- P4: Um Natal Tropical (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 22 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21675: O meu Natal no mato (46): Depois do ataque a Missirá, na noite de 22 de dezembro de 1966, pouco havia para consoar... O meu caçador nativo Ananias Pereira Fernandes foi à caça, e fez um arroz com óleo de chabéu que estava divinal... O pior foi quando, no fim, mostrou a cabeça do macaco-cão... (José António Viegas, ex-fur mil, Pel Caç Nat 54, Enxalé, Missirá e Ilha das Galinhas, 1966/68)

Últimos cinco postes da série:

25 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18137: O meu Natal no mato (45): Um Natal antecipado: 23 de dezembro de 1967 em Gadamael Porto (Mário Gaspar), ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

24 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18133: O meu Natal no mato (44): Naquele Natal de 1972, aprendi que os homens não são iguais, apenas porque uma toalha e um guardanapo os separam... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18122: O meu Natal no mato (43): as mensagens natalícias de 1972, gravadas pela RTP a 23 de outubro... E se a gente morresse, entretanto ?...Como não tinha pai nem vivia com a minha mãe ou com os meus irmãos, tive de dizer “querida avó” e mais umas balelas obrigatórias... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

25 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14080: O meu Natal no mato (42): 1971, em Zemba (Angola); 1972, em Caboxanque; 1973, em Cadique (Rui Pedro Silva, ex- cap mil, CCAV 8352, Cantanhez, 1972/74)

9 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13712: O meu Natal no mato (41): Natal de 1972 – CART 3494 (Jorge Araújo)

quinta-feira, 6 de março de 2025

Guiné 61/745 - P26558: O melhor de... Valdemar Queiroz (1945-2025) - Parte II: a chegada do homem à lua, a arte do desenrascanço do 'tuga' e eu parado no meio do Geba Estreito num "barco turra", cheio de sucata, a caminho de Bissau



EUA > NASA > 14 de abril de 1969 > A tripulação da missão Apollo 11, da esquerda para a direita: Neil A. Armstrong, comandante; Michael Collins, piloto do módulo de comando; e Edwin E. Aldrin Jr., piloto do módulo lunar. Foram os primeiros seres humanos a caminhar na superfície da lua. Em 20 de julho de 1969. Fonte: NASA Human Space Flight Gallery. Imagem do domínio público,. Cortesia de Wikimedia Commons.



Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > 1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969 > "Efeméride: no dia que o homem chegou à Lua, eu descia o rio Geba (Bambadinca-Bissau, com passagem no célebre Mato Cão e depois na não menos temível Ponta Varela, a seguir ao Xime)... Era um barco fretado para levar material usado da tropa. Estivemos parados várias horas: primeiro por causa da maré, depois devido a avaria no motor do barco só resolvido (desenrascado) com uma peça sacada dum carro que seguia no barco para sucata. Viagem inesquecível, até ao fim da minha vida!" (*)




Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel  > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969, dia em que o homem chegou à lua... O Valdemar vai a caminho de Bissau, num barco civil, daqueles a que chamávamos, depreciativamente, "barco turra". (*)


Fotos (e legendas): © Valdemar Queiroz (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís GRaça & Camaradas da Guiné]



A CHEGADA DO HOMEM À LUA E A ARTE DO DESENRASCANÇA DO 'TUGA'



  − Estamos tramados, partiu-se uma peça do motor. Não vamos sair daqui tão cedo.

− Estou a ver que sim. Talvez se desenrasque alguma peça naquela sucata.

Diálogo entre o mestre do barco e um soldado da metrópole, depois de estarmos parados há algum tempo e já noite dentro, no meio do rio Geba Estreito, antes de passarmos no Xime, apenas interrompido pela transmissão na rádio da chegada do homem à Lua.

−  É um pequeno passo para o homem e um salto de gigante para a humanidade  disse o astronauta americano Neil Armstrong ao pisar o solo lunar.

Faz hoje 50 anos (*). Foi nas primeiras horas dia 21 de Julho de 1969,

Durante o dia 20, em Contuboel, completada a nossa CART 2479 (futura CART 11 e, mais tarde, CCAÇ 11), com os soldados africanos que tinham acabado a instrução, seguiu para Piche e eu fui destacado para ir a Bissau entregar material já usado,  utilizado na instrução de recrutas africanos.

A viagem rio Geba abaixo, de Bambadinca a Bissau, foi feita num barco civil de carga/passageiros (vulgo ‘barco turra’) que rebocava, em comboio, mais dois barcos pequenos carregados de várias mercadorias, sacos de mancarra, automóveis sinistrados e passageiros civis e alguns militares em serviço, de regresso ‘à peluda’ ou de férias.

O barco parou com problemas no motor pouco tempo depois da saída de Bambadinca, na zona do Geba Estreito, parando ao cair da noite e antes de se passar no Xime. 

Estávamos parados, já há horas, sem ninguém se aperceber do motivo, aproveitando para ouvir na rádio a pilhas a chegada do homem à Lua.

Alguns de nós não acreditavam no que ouviam, outros davam mais importância ao local em que nos encontrávamos sem saber se alguém nos fazia segurança em terra, apenas apercebendo-nos de estarmos próximo das margens, ao avistar uma luz brilhante no meio da mata e sem paciência para afugentar os mosquitos.

O nosso soldado lá conseguiu desenrascar uma peça, julgo que seria um parafuso, num dos carros sinistrados,  e que, talvez por ter sido sacada dum Peugeot e o motor do barco ser de marca francesa, adaptou perfeitamente para pôr o motor a trabalhar, embora continuássemos parados, aguardando agora a maré favorável.

E lá seguimos viagem, com a luz brilhante na mata que aparecia e desaparecia cada vez mais longe (o serpentear do percurso do rio fazia com que se avistasse o mesmo local de distância diferente), entrando no Geba largo, já ao nascer do dia,  e ainda faltando algum tempo de Bissau à vista, para o desembarque.

Não me recordo bem de ter ouvido alguém falar dos avanços da Ciência com a chegada do homem à Lua ou outra conversa sobre a atribulada viagem, mas hoje, passados 50 anos, posso gabar-me de ter ouvido a chegada do homem à Lua no meio da rio Geba, na Guiné, e presenciado um momento alto da extraordinária arte do "desenrasca" dos portugueses.

Inesquecível.

Valdemar Queiroz 
 (**)

___________________

(ii) constituiu-se no RAL 5 em Penafiel, no ano de 1968, como subunidade do BART 2866, desmembrando-se desta unidade em fevereiro de 1969, e embarcando com destino à Guiné no dia 18, aonde chegou a 25 do mesmo mês;

(iii) o percurso operacional da CART 2479 na zona leste, foi longo, fixando a sua sede em Nova Lamego, no Quartel de Baixo em setembro de 1969;

(iii) passou por Contuboel, Bissau, Contuboel, Piche, Nova Lamego, Piche;

(iv) comandante: cap mil art Analido Aniceto Pinto (1/6/1934- 27/2/2014) (trabalhou na Galp Energia, foi colega do António Levezinho);

(v) foi extinta em 18 de janeiro de 1970, passando a companhia a designar-se CART 11 [, tem cerca de 8 dezenas de referências no nosso blogue];

(vi) em maio de 1972 a CART 11 (tem d. 120 referências no blogue) passou a designar-se CCAÇ 11 [tem cerca de 4 dezenas de referências]. 

(vii) de 12 de narço a 24 de maio de 1969, no CIMC - Centro de Instrução Militar de Contuboel fizeram a recruta os seus futuros soldados, do recruramento local, bem como os da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12);

(viii) o juramento de bandeira  realizou-se em Bissau em 26/4/1969, na presença do Com-chefe, o gen Spínola;

(ix) as duas futuras companhias faziam parte da chamada "nova força africana" que estava então em formação e era muito acarinhada por Spínola;

(ix) em 18 de julho de 1969, a CART 2479 / CCART 11 foi colocada em Nova Lamego e emPiche, e a CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 em Bambadincam, finda a instrução de especialidade e a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (,dadas no CIMC).

__________

Notas do editor:

(*) Vd. postes de:

21 de julho de 2019 > Guiné 61/74 - P19999: Efemérides (309): Há 50 anos o homem chegava à lua... e eu ia caminho de Bissau, num "barco turra" que parou, no Geba Estreito, com uma avaria...Valeu-nos o proverbial "desenrascanço tuga"... Viagem inesquecível até ao fim da minha vida! (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)


(**) Último poste da série > 4 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26550: O melhor de ... Valdemar Queiroz (1945-2025) - Parte I: (i) na morte do Renato Monteiro (1946-2021); (ii) Guiro Iero Bocari, o meu epílogo da guerra

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26477: S(C)em Comentários (58): A "Primavera Marcelista" ?...é um mito: eu estava em Coimbra e e apanhei em pleno a crise académica de 1969 (Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)




Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 /
BCAÇ 3880 ( Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74);
membro da Tabanca Grande desde 11 de novembro de 2018,
com o nº 780, tem 34 referências no nosso blogue.
Engenheiro, natural do Porto, é o administror
que mantém ativo desde janeiro de 2006 até hoje.
Um caso notável de longevidade.


1. Comentário ao poste P26467 (*):

Lembro-me muito bem desta edição do Diário de Lisboa. Eu estava em Coimbra, a frequentar a Universidade, e o Diário de Lisboa tinha-se tornado o meu jornal diário. 

A notícia impressionou-me muito. Eu ainda não tinha idade para ser chamado para o cumprimento do serviço militar obrigatório, mas estava quase. Naquele tempo, o Diário de Lisboa era sem dúvida o melhor jornal diário português, apesar da censura e da péssima qualidade da sua edição, feita com caracteres de chumbo, alinhados penosamente letra a letra pelos tipógrafos, e impressa com uma tinta que nos borrava as mãos todas. 

Dizes tu, Luis, que o Diário de Lisboa era "do reviralho". Se havia algum jornal que fosse do reviralho, esse jornal era o República, muito mais do que o Diário de Lisboa. Em 1969, o Diário de Lisboa era um jornal aberto e plural, que tinha colaboradores de grande nível, como Eduardo Lourenço (que enviava crónicas a partir de França), e que publicava traduções de reportagens saídas nos jornais Le Monde e Washington Post. 

Além do República e do Diário de Lisboa, havia mais jornais diários que se assumiam como republicanos e defensores de um regime democrático. Exemplos: O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, O Século, A Capital, Diário de Coimbra e até A Província de Angola, de Luanda.

A chamada "Primavera Marcelista" é um mito. O Marcelo Caetano apenas abria uma fresta , para fechá-la logo a seguir. Não houve "primavera" nenhuma. 

Eu mesmo, que estava em Coimbra, vivi por dentro (mais "por dentro" do que imaginas) a chamada Crise Académica de 1969, que deve ter sido uma das maiores ondas de repressão de toda a história do Estado Novo. A cidade de Coimbra ficou em estado de sítio, ocupada e controlada por centenas de militares da GNR, com as suas armas, os seus cavalos, os seus jipes, o seu arame farpado, as suas botifarras e os seus capacetes iguais aos do Exército. Até a Polícia Judiciária foi mobilizada para Coimbra, para ajudar a PIDE a fazer o seu "trabalhinho". 

Mas que raio de "primavera"!!! (**)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025 às 21:38:00 WET 

________________

Notas do editor:

(*) Vd,. poste de 6 de fevereiro de 2025  > Guiné 61/74 - P26467: Efemérides (450): 6 de fevereiro de 1969, o desastre do Cheche: quando os relatos de futebol eram dados em direto, e efusivamente, e a guerra em diferido, resumida a telegráficas notas oficiosas

(**) Último poste da série > 25 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26422: S(C)em Comentários (57): os fulas e o gado bovino como extensão da própria família e da comunidade (Cherno Baldé, Bissau)

domingo, 24 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26187: Cem pesos, manga de patacão, pessoal! (8): uma viagem, de avioneta, nos TAGP, de São Domingos a Bissau, em 22/2/69, custava 224 escudos (ou "pesos"), o equivalente hoje a 70 euros (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Guiné > Bissau > TAGP (Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa) > Cópia de bilhete de passagem, de S. Domingos para Bissau > 22 de fevereiro de 1969 > Avião: Dornier > Passageiro: Virgílio Teixeira > Valor pago: 224$00. Foto do álbum de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM; CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69).


Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Patacão (em crioulo), massa, graveto, grana, carcanhol, guita, milho, maçaroca, cheta, caroço, arame, arjã, cacau, pastel, vil metal, tusto, cobres, prata, lecas, nota preta, pilim, massa, papel, aquilo-com-que-compram-os-melões... enfim, dinheiro! (como é prolixa, polissémica, rica, ao menos, a nossa língua).
 
Ora cá está um tema sobre o qual toda a gente, leia-se os antigos combatentes, pode aqui falar. E temos  de resto falado, embora de maneira avulsa... E muito irregularmente. O que valia o dinheiro  no nosso tempo, o que recebíamos, o que gastávamos, e em quê...

Reorganizámos os postes sobre o patacão, uniformizando os títulos, de acordo com a série, que já existia no início do blogue, "Cem pesos, manga de patacão pessoal"... 

São já uns tantos postes, os publicados, que merecem ser relidos, revisitados, citados comentados, acrescentados (*).

Por este precioso documemto, acima reproduzido,  que o Virgílio Teixeira guardou (foto de bilhete de viagem nos TAGP, de  São Domingos para Bissau, em linha reta é uma distância muitoenor do que os cerca de 125 km por estrada), ficamos a saber  que uma voltinha de Dornier (para apanhar o avião da TAP em Bissalanca, para a Metrópole) custava 224 escudos. 

A preços de hoje,  224 escudos (do BNU) seriam 78 euros... Como se tratava de "pesos" da Guiné, teríamos que aplicar a taxa de desvalorização de 10% (praticada no comércio de Bissau de então, 100 pesos valiam 90 escudos da metrópole). 

Portanto, grosso modo, eram 70 euros o bilhete de avioneta... 

224 escudos ou " pesos" era caro...Eram 10 dias do "per diem" de um militar (24,5 escudos por dia  para a alimentação).

O que se comprava mais com 224 escudos da Guiné em 1969 ?  Duas garrafas de uísque velho...Dez almoços em Bafatá (bife com batas fritas e ovo a c cavalo).

Era, enfim, o equivalente, mais ou menos, a   quanto se podia perder ou ganhar numa noite de lerpa (200 / 300 escudos em média, disse aqui o Humberto Reis, há 18 anos atrás). Ou a 90 maços de cigarros SG Filtro! (**).

Em suma, cem pesos já eram manga de patacão, pessoal !...

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 1 de outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8845: Cem pesos, manga de patacão, pessoal! (7): Os produtos e as marcas que não havia em Lisboa... ou eram "proibitivos" - Parte VI (Magalhães Ribeiro/José Colaço)

(**) Vde. poste3 de 28 de julho de 2005 > Guiné 63/74 - P129: Cem pesos, manga de patacão, pessoal ! (1): quanto se gastava e em quê... (Luís Graça / Humberto Reis / A. Marques Lopes / Luís Carvalhido / Sousa de Castro)

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Guiné 61/74 - P25102: Memórias cruzadas: o que o PAIGC sabia sobre Bissau, em 1969: (i) o "ataque" a Bissalanca em 19/2/1968; (ii) a carestia de bens essenciais como o arroz; (iii) a discriminação da população local no acesso aos cuidados de saúde; (iv) casos de violência verbal e física contra civis...


Vasco Cabral, membro do "bureau" político do PAIGC.
aqui em missão no exterior. Foto, s/d, s/l, cortesia do portal
Casa Comum >Arquivo Amilcar Cabral.
(Reeditada pelo Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné, 2024)

1. É sempre interessante conhecer o que é que, numa guerra, os contendores sabem (e/ou pensam) uns sobre os outros... Mesmo quando a guerra acabou há muito, como foi o caso da guerra na Guiné (1961/74)... Daí esta série "Memórias cruzadas"...

As Forças Armadas Portugueses tinham as suas próprias fontes de informação: os serviços de informação militares p.d., a PIDE, a administração civil, os prisioneiros, os desertores, os gilas, etc. 

O PAIGC tinha também, embora mais elementares, os seus próprios serviços de recolha e tratamento de informação, quer de natureza política quer militar, a começar pelos seus próprios combatentes, e outros, incluindo os gilas (que atravessavam as fronteiras e faziam jogo duplo), os seus simpatizantes e militantes civis em Bissau e no mato, etc.  

Muitas das informações que o seu quartel-general recebia era grosseiras, pouco ou nada válidas em fiáveis,  porque a "ideologia" aldrava a "realidade": na ânsia de mostrar resultados no campo de batalha, comandantes e comissários políticos das FAPLA acrescentavam sempre muitos pontos aos seus contos... Mas, se calhar, era isso que os "Cabrais" (o Amílcar, o Luís, o Vasco, o Fidelis...) gostavam de ouvir...lá no bem-bom de Conacri. 

O documento que abaixo se reproduz,  é um exemplo das informações em bruto, que chegavam a Conacri, onde o PAIGC tinha o seu "quartel-general" e a sua "inteligentsia"...

Vasco Cabral (Farim, 1926 - Bissau, 2005) foi um dos mais qualificados quadros dirigentes do "Partido". (Não tinha qualquer relação de parentesco com o líder histórico do PAIGC, embora também fosse de origem cabo-verdiana ). Estudou em Portugal (licenciou-se em Ciências Económico-Finaneiras, pelo ISCEF/UTL),  apoiou a candidatura de Norton de Matos à Presidência da República em 1949, enquanto membro do MUD Juvenil, lutou contra o Estado Novo-

Não há muita informação (independente) sobre a sua biografia: foi preso político em Portugal, entre 1953/1954 e 1959, até que, já na clandestinidade, conseguiu fugir, em 1962, de barco até Tânger (cidade já itegrada, desde 1956, na soberania marroquina), juntamente com Agostinho Neto, com a ajuda (dizem)  do PCP - Partido Comunista Português. 

A partir daqui a sua história mistura-se com a de outros dirigentes (políticos) do PAIGC. Escapou à morte no atentado que tirou a vida a Amílcar Cabral.  Pertenceu ao "bureau" político e exerceu funções governativas depois da independência. Não se opôs ao "golpe de Estado" do 'Nino' Vieira, de 14 de novembro de 1980. Foi também escritor e poeta. E tem, juntamente, com Amílcar Cabral a melhor caligrafia de todos os dirigentes do PAIGC, a avaliar por esta amostra manuscrita que aqui hoje publicamos.

Não sabemos exatamente  onde decorreu esta "audição de camaradas fugidos de Bubaque" (sic), transcrita por Vasco Cabral em 5/12/1969 (*). Tudo indica que tenha sido em Conacri. Os três "camaradas", provavelmente de etnia bijagó (tal  como o Inocêncio Kani, o carrasco do Amílcar Cabral), eram o Marcelino Banca, o Marcos da Silva e o José Albino Sonda.  (Não parecem ter deixado "peugadas" na história do PAIGC...).

Vasco Cabral destaca o M.S. (Marcos da Silva) como informante priveligiado, que mostra conhecer razoavelmente Bissau (cidade que, ao tempo,  o Vasco Cabral já não devia cohecer de todo):

(i) fala, embora de maneira fantasiosa e propagandística, sobre a flagelação a Bissalanca, em 19 de fevereiro de 1968, quando um pequeno grupo, comandado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com,  fez uma incursão noturna na área de Bissau, atacando a BA 12 com tiros de morteiro e armas ligeiras; esta ação, embora audaciosa mas de alcance limitado, foi habilmente explorada por Amílcar Cabral para mostrar, sobretudo no exterior, a sua  capacidade para desferir ataques nos prósprios santuários do inimigo, neste caso a capital;

(ii) indica a localização dos principais quartéis em Bissau, Bissalanca e Brá, coisa que não era nenhum segredo militar, sendo conhecida de toda a gente; referência a um alegado "paiol da pólvora", a 800 metros abaixo do QG (Santa Luzia), de que nunca ouvimos falar;

(iii) refere o problema dos preços e do alegado racionamento de alguns bens essenciais como o arroz e o açúcar: já no meu tempo, em meados de 1969, em Bambadinca, o preço do arroz (comprado pela população) andava  à volta dos 6$00; o pré dos nossos soldados guineenses (600$00 + a diária para a alimentação, sendo desarranchados, 24$50) dava para eles compraram 2 sacos de 100 quilos de arroz (com que se podia alimentar uma família extensa e numerosa);

(iv) enfim, denuncia alguns casos (que naturalmente terão existido, pontuais)  de violência física e verbal contra a população civil de Bissau, já no tempo de Spínola...

Vamos lá a ver se há leitores que queiram cruzar,  com estas, as suas memórias de Bissau daquele tempo (1968/69).



ORGANIZAÇÃO, FORMAÇÃO POLÍTICA E IDEOLÓGICA
5-12-69

Audição de camaradas fugidos de Bubaque [folhas nºs, 13-16 ] 

(A láspis, no alto da folha nº 1, está escrito: "Informações recolhidas pelo camarada Vasco Cabral")

M.S.  [Marcos da Silva ]  - Depois do ataque do Partido a Bissau,  
[em fevereiro do ano passado,
muitos africnos em Bissau ficaram contentes com isso. Os colonialis-
tas reagiram violentamente no dia seguinte atacando algumas taban-
cas mais próximas do campo de aviação como as tabancas de Bis-
salanca e de Plaque. Fizeram-lhes de madrugada uma emboscada, 
tendo matado algumas pessoas, ferido outras, e prendido toda a popu-
lação restante. Mais tarde,vieram a soltar alguns presos, mas outros fi-
caram presos até lá até agora.

A partir desse ataque os tugas tomaram outras medidas: reforçaram
a vigilância; agora, a partir das 6h da tarde, dirigem-se para o cam-  



po de aviação 4 ou 5 camiões grandes Unimog 
[no original, Hanomag], 
 [cheios de soldados
e vigiam o campo até de manhã. De vez em quando efectuam bombar-
deamentos pelas redondezas. Minaram as imediações do campo. Puseram 
à volta do campo 2 filas de arame farpado que deve ser electrifica-
do, pois puseram avisos em que se diz: "Perigo de alta tensão!" - avis-
ando o povo para se manter afastado.

Com o ataque que se fez, ficaram destruídos aviões, hangares 
 [angares, no original]  uma parte 
importante da Central Elétrica, o que ocasionou falta de luz durante
1 dia.

A população de Bissau não se deixa influenciar pela popaganda do 
tuga de uma Guiné Melhor. Dizem que o Spínola segue uma política por


causa da guerra, mas sabem que a guerra não vai acabar,

Há em Bissau milhares de soldados. À  [há, no original] volta de Bissau  há
7 quartéis: o Quartel-General que está em Santa Luzia; há
uns 800 metros mais abaixo o Paiol de pólvora;  há o quartel
da Amura; o Batalhão de Serviço de Material perto da Amura;  em
Brá há o Quartel de Engenharia; há também em Brá mais 
dois quartéis: o de Comandos e um outro de Adidos. Há ainda
o Quartel dos Fuzileiros, ligado à ponte de Pidgiguiti.

Perto do campo de aviação há ainda 2 quartéis: o dos Páras e outro
da Força Aérea. Estes 2 quartéis estão dentro da cercadura de arame
farpado.

= Há bichas em Bissau para a compra de arroz e de carne. Isto acontece du-


rante todo o ano. O preço do arroz varia com frequência. O ano passado vendia-
-se a 5$60 / kg., agora custa 6$90/kg. Há grande falta de açúcar.

Estabelecem às vezes para a venda do arroz um contingente máximo de venda   
[avulsa
de 1 kg. Também para o açúcar estabelecem 250 gramas, por pessoa.  Mas  
[açúcar
falta âs vezes durante 15 dias ou mais.


Há dificuldades sanitárias grandes: em 1º lugar , às consultas; fazem-
se bichas para as consultas e há muita gente que não é atendida, às vezes
durante 1 mês; em 2º lugar quanto a medicamentos que faltam em grande
quantidade. Afirmam que os medicamenmtos são só para os militares.

Não há bichas para os europeus civis, é só para os africanos.

Também qanto às outras bichas, são só para os africanos, uma única


excepção do Serviço dos Correios, onde os europeus também entram nas bichas.

= Coisas que os soldados tugas dizem dos africanos abertamemte nas
ruas: "Barrote queimado", "saco de carvão", "nharro", "negro",
nas suas relações com os africanos.

De vez em quando os fuzileiros liquidam africanos. No Alto Crim
este ano mataram 4 mulheres, uma rapaz em Santa Luzia, 3 pessoas
(2 rapazes e 1 rapariga) na Avenida Gago Coutinho. Para isso fazem
provocações.

Este ano a 2 de Novembro houve um incidente no Alto Crim entre 
um fuzileiro e um rapaz africano. Este agrediu o fuzileiro. Então.
ele queixou-se no quartel dizendo que um terrorista o agredira. Mais



tarde mandaram do quartel um pelotão de soldados que incendiou
casas, bateram em várias pessoas e feriram outras.

Ha frequentemente incidentes entre a população e a tropa colonialista.
Há habitualmenmte cenas com as raparigas africanas que passam nas
ruas. Os soldados tentam beijá-las, como elas reagem, às vezes, batem-
-lhes. Quando os africanos se dirigem à Polícia, para se queixarem
de certos abusos dos europeus, a Polícia não liga, não toma nenhumas medidas.

= É proibido ouvir-se a nossa Rádio em Bissau. Mas há muita gente
que ouve. Um tio do camarada Conrado foi preso por estar a ouvir
a nossa Rádio, em Julho deste ano. Ainda está preso por isso.


Foram ouvidos os seguintes camaradas:
- Marcelino Banca
- Marcos da Silva
- José Albino Sonda

(Seleção, transcrição, fixação / revisão de texto, itálicos e negritos: LG. Observ: Mantivemos a ortografia usada por Vasco Cabral)
_________________

Citação:
(1969), "Informações sobre o Arquipélago dos Bijagós. Organização, formação política e ideológica dos Bijagós", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_41391 (2024-1-16) (Com a devida vénia...)

Fonte: Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07073.128.006 | 
Título: Informações sobre o Arquipélago dos Bijagós. Organização, formação política e ideológica dos Bijagós. | Assunto: Informações de carácter militar, extraídas da audição com os "camaradas" vindos dos Bijagós, sobre Soga, Bubaque, Formosa, Uno, Caravela, Orango, Orangozinho, Canhabaque, Galinhas e Uracane. Organização e formação política e ideológica dos Bijagós, manuscritos por Vasco Cabral. | Data: Terça, 2 de Dezembro de 1969 | Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Relatórios 1965-1969. | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Documentos.
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Nota do editor:

(*)Vd. último poste da série > 16 de janeiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25076: Memórias cruzadas: o que o PAIGC sabia sobre Bubaque, em 1969... "O antigo governador Schulz ia lá de vez em quando, com outros militares e algumas mulheres. O atual governador nunca lá esteve morado. Foi só visitar."...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Guiné 61/74 - P24102: S(C)em comentários (1): Visita de Marcello Caetano a Bissau, em 14 de abril de 1969: a primeira de um chefe de governo ao ultramar (oito anos depois do início da guerra)



Excerto do vespertino "Diário de Lisboa", nº 16637, ano 49, segunda feira, 14 de abril de 1969,3ª edição, pp. 1 e 10. Diretor: António Ruella Ramos. Cortesia de Casa Comum > Fundação Mário Soares > Fundos DRR - Documentos Ruella Ramos.

Citação:(1969), "Diário de Lisboa", nº 16637, Ano 49, Segunda, 14 de Abril de 1969, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_7219 (2018-2-20) (*)


Guiné > Bissau > 14 de abril de 1969 > Visita presidencial do Professor Marcelo Caetano a Bissau: lado a lado, mas já de costas viradas, Marcelo Caetano e Spínola...

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Às vezes mais vale mais uma foto ou um título de caixa alta do que mil palavras... Daí a razão de ser desta série, "S(C)em Comentários". Há excesso de ruído nas redes sociais. E, depois, com a idade, tudo o que é mais do que duas linhas, é informação gorda poliinsaturada... E a nossa memória é curta e fraca. Afinal, somos animais de racionalidade limitada.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 21 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18337: Recortes de imprensa (92): A primeira visita de um chefe do governo português ao Ultramar: Marcelo Caetano, em Bissau ("Diário de Lisboa", 14/4/1969)

(**) Vd. poste de 17 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18326: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) - Parte XVIII: Visita, a Bissau, do presidente do Conselho de Ministros, prof Marcelo Caetano, em 14 e 15 de abril de 1969 (III)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Guiné 61/74 - P22935: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte XXV: Berlim, Alemanha, 1969








Imagens, que julgamos do domínio público, referentes a Berlim, antes da "queda do muro" (que só aconteceria, vinte anos depois, em 9 de novembro de 1989)



1. Continuação da série "Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo", da autoria de António Graca de Abreu [, ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74. (*)

Escritor e docente universitário, sinólogo (especialista em língua, literatura e história da China); natural do Porto, vive em Cascais; autor de mais de 20 títulos, entre eles, "Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura" (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp);  é membro da nossa Tabanca Grande desde 2007, tem já mais de 300 referências no blogue.

Texto e fotos recebidos em 26/11/2021. Sendo uma viagem realizada em 1969, pode parecer um "anacronismo" publicar este texto nesta série, que é pós-Guiné, o mesmo é dizer, pós-25 de abril de 1974...Mas já aqui publicámos um outro texto do autor, ainda mais "anacrónico", sobre Hamburgo, datado de  1967. Não era fácil, todavia,  para um português, viajar nesse tempo pelos países da então "cortina de ferro", a Europa de Leste... Dada esta explicação sobre o contexto, aqui vai o texto do nosso camarada António Graça de Abreu, que desde cedo, se tornou  o "globetrotter" que conhecemos, o viajante compulsivo com duas voltas ao mundo, em cruzeiros... As fotos não devem ser dele, sendo mais provavelmente oriundas da Net, sem referência à fonte. São imagens que, todavia,  nunca mais gostaríamos de ver na nossa Europa. Vd. também os quatro postes que o nosso editor Luís Graça publicou em 2015, na sequência de uma estadia em Berlim, em março desse ano (***)


Berlin, Alemanha, 1969

por António Graça de Abreu


Ano de 1969. Venho desde Hamburgo (**), no Ford Escort na longa viagem desde Lisboa, atravessando agora tristes fronteiras de uma mesma pátria alemã, percorrendo autoestradas antigas construídas no tempo do Hitler, caminhos então modernos que tanto facilitaram a mobilidade da poderosa máquina de guerra nazi.

Antes da chegada a Berlin, ao entrar na Alemanha de Leste, a polícia e soldados da DDR (Deutsche Demokratische Republik) vasculham tudo, levantam os bancos do carro, metem-se por baixo do veículo, inspecionam, verificam, fazem perguntas após perguntas em sucessivos controles dos passaportes e dos papéis do seguro.

Chego a Berlin Ocidental, em tempos gelados de Guerra Fria. Numa transversal da Kurfürstendamm, a principal avenida da cidade, encontramos alojamento não muito caro num hotelzinho alojado num velho prédio impiedosamente bombardeado durante a 2ª. Guerra Mundial, mas restaurado, reconstruído a preceito, com cicatrizes a disfarçar meio escondidas em quase todos os patamares, esconsos e paredes. Camas confortáveis, um pequeno almoço substancial e saudável, o descanso possível após umas tantas emoções fortes.

Berlin Ocidental, cidade sitiada pela República Democrática Alemã, tem sobrevivido com dificuldade às asfixiantes tragédias da História. Por aqui respira-se alguma liberdade, o engenho e a capacidade de cada um a fazer-se, a exercitar-se na construção de milhões de quotidianos diferentes, melhores.

No terceiro dia na cidade, ida a Berlin Oriental. Tento e consigo entrar com o meu Escort pelo Checkpoint Charlie. Outra vez infindáveis controles, verificação de documentos, suspeitas de sermos uns perigosos espiões a soldo não sei bem de quem. O que vêm cá fazer? Turistas? Sim, meine Mutter, meine Schwester, eine Freundin und ich, (a minha mãe, a minha irmã, uma amiga e eu). O que querem ver? Trazem carro e tudo, porquê a viagem à Alemanha Democrática? Respondo, preencho mais papelada, lá me vou desenrascando no meu alemão, os dois anos de liceu mais um ano de estudo e trabalho em Hamburgo fazem de mim um falante nada vesgo no que à deutsche Sprache, a língua alemã diz respeito, o que também levanta suspeitas aos polícias da DDR.

Em Berlin Oriental, a cidade tem pouco trânsito automóvel, a sensação de uma grande silêncio, não a azáfama e correrias do capitalismo do outro lado do muro. Andamos uns quilómetros por dentro de Berlin Oriental, falta cor e alegria à cidade. Paramos, passeamos num jardim. Não falamos com ninguém, ninguém fala connosco. As pessoas movem-se, vão à luta à sua maneira, trabalham, mas parecem viver numa paz, numa tranquilidade instaurada por decreto.

Há ainda dezenas, centenas de edifícios por reconstruir, bombardeados pelos aviões aliados em 1945, ou esventrados nos combates de rua quando os soldados russos, e logo depois os aliados, entraram e ocuparam Berlin. O grande edifício do Reichstag (uma espécie de Parlamento), ainda em reparações, é uma assustadora sombra do passado.

Guio o carro pela avenida Unter den Linden. Ao fundo, a porta de Brandenburgo, ex-libris da capital alemã, fica neste lado oriental. Logo depois, diante da Berlin Ocidental começa mais uma vez o muro e as barreiras de arame farpado. Mandam-me voltar para trás, a estranha sensação de conduzir um automóvel numa cidade cortada ao meio pelos homens, com obstáculos, polícia e soldados vigilantes por todo o lado.

Muros, guaritas levantadas, metralhadoras prontas a disparar, as barreiras de arame farpado a dividir as duas Berlins, uma sensação de desconforto e mal estar.

Regresso a Berlim Ocidental. Na avenida Kurfürstendamm entro na Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche, ou seja, a igreja construída em 1890 em memória do Kaizer Guilherme I, brutalmente bombardeada pelos aliados num raid aéreo em 1943. Lá dentro, no que resta da nave central retalhada pela guerra, um órgão toca Johann Sebastian Bach. A música faz estremecer as paredes do templo, levanta um hino à Alemanha, enobrece o coração dos homens.

António Graça de Abreu

_________

Notas do editor:

(**) Vd. poste de 31 de julho de 2021 > Guiné 61/74 - P22418: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte XIII: Hamburgo, Alemanha Federal, 1967

(***) Vd. postes de

31 de março de 2015 > Guiné 63/74 - P14424: Os nossos seres, saberes e lazeres (80): Berlim, cidade ainda hoje invisivelmente dividida: as marcas da guerra e do terror (Parte I) (Luís Graça) 

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Guiné 61/74 - P20248: Efemérides (312): Mina anticarro em Canturé, regulado do Cuor, 16 de Outubro de 1969 (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2019:

Queridos amigos,

Quando soube que o nosso camarada António Carlão partira para as estrelinhas, veio a lume no blogue a sua imagem junto da viatura destruída em Canturé, em 16 de outubro de 1969.

Hoje, neste meu dia de luto, detive-me diante da fotografia em que o meu camarada, o 1.º Cabo António da Silva Queirós, conhecido no nosso meio por o 81, era ele que metia a braçadeira enquanto eu manejava o morteiro, revela espanto diante de um buracão onde jaz o Unimog 404.

Por tudo ser verdade, por ter havido incúria da minha parte e múltiplo sofrimento alheio, aqui guardo lembrança. Porque quanto a penitência e consolação o assunto é íntimo.

Um abraço do
Mário


Efeméride: Mina anticarro em Canturé, regulado do Cuor, 16/10/1969

Beja Santos

Confronto-me com aquele destroço e a estupefação tão espontânea do Cabo António da Silva Queirós, quem captou esta imagem não sabia se havia feridos e mortos, o Queirós está de mão estendida, jamais saberemos o sobressalto em que se encontra, saíram de manhã cedo de Missirá, deparou-se esta viatura esventrada mesmo à esquina da picada em direção a Canturé, por aqui se podia rumar, para sul, até Mato de Cão, e em tempos de paz, umas horas depois, chegava-se a Bissau, depois de Enxalé, Porto Gole, Jugudul; para norte, rumava-se para Gambiel, a ponte fora destruída no início da guerrilha, em tempo de paz por aqui se prosseguia até Geba e Bafatá.

Vivia-se então tempos muito ásperos. O comando de Bambadinca sangrava efetivos de milícias, uma secção de Finete para Demba Taco, uma outra secção de milícias de Missirá para a região de Galomaro. Ia-se praticamente todos os dias a Mato de Cão, é pura coincidência este frenesim a que estávamos a ser submetidos, as obras do porto do Xime estão à beira da conclusão, o arrebol de idas e vindas para patrulhar Mato de Cão diminuirá significativamente a partir de novembro.

Efetivos esgotados, uma grande parte do contingente do Pel Caç Nat 52 formara-se no CIM (Bolama) em 1966, passaram por Porto Gole, Enxalé, Missirá, sonham com o meio urbano, o que irá acontecer em novembro, não percebo porque é que ficaram desapontados, sabiam de antemão que não haveria descanso nas tarefas de toda a ordem, sete dias sem descanso, o que mudava era viajar para uma operação, para uma coluna de reabastecimento, para uma patrulha nos Nhabijões ou emboscada noturna no Bambadincazinho ou na estrada para Mansambo. O que se passou naquele dia 16 de outubro decorreu de um estado de derrisão, de quase inconsciência, na perda da noção das precauções básicas, de quem liderava a coluna, eu.


Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné

Ao amanhecer, viera-se até Bambadinca com uma lista farta para suprir carências na comida, nas munições, nos materiais de construção e na manutenção de viaturas. No regresso, viatura ajoujada, efetivo mínimo, doentes com pernas entrapadas. Com incrível displicência, com o dia já a declinar, ainda fui vistoriar obras em abrigos em Finete. O condutor, Manuel Guerreiro Jorge, de Monte da Cabrita, Santana da Serra, Ourique, suplica-me para partirmos imediatamente, acedo quando vejo o céu plúmbeo, o Unimog trepa a ladeira de Finete, temos a reta de largos quilómetros pela nossa frente, anoitece. Mandaria o bom senso que ficássemos em Finete, não se viaja dezasseis quilómetros na noite escura. Respondo sempre que não se pode perder tempo, há muitos afazeres para o dia seguinte, peço ao Manuel Guerreiro Jorge para ir na gáspea, o piso está bom, a picada não tem quaisquer reentrâncias, é uma reta colossal até Gã Gémeos, daí até Sansão e depois Missirá é que é altos e baixos.

Mas houve um momento de inquietação, exatamente quando no fim da ladeira de Finete fomos acolhidos na picada por um pesado silêncio, era uso e costume haver chilreios, macacada de galho em galho, tive uma premonição de presença humana, coisa de segundos, vamos seguir. E o Unimog partiu à desfilada, faróis coruscantes atravessavam as trevas da noite. Caminhava para as seis e meia da tarde.

Conheço a palmo a picada, por aqui andámos centenas de vezes, é um deslumbramento com as suas áleas de poilões, simetricamente colocados, só encontrei coisa parecida na estrada para o Enxalé. Suspiro quando já estamos bem perto de Canturé, mais uma hora e descarregamos todos estes bidons, sacos e fardos e caixas de munições. E o fragor da explosão toma conta de tudo, o Unimog parece levantar voo, silvam os curto-circuitos, Cherno Suane, que seguia no guincho, parece o homem-canhão, vai disparado até ao fundo, junto de um morro de bagabaga. O instinto leva-me a saltar com a G3 na mão, uma rajada até despejar por completo o carregador varre aquela margem direita, onde há gente que nos espera, deu para sentir uma fuga precipitada. Desapareceram-me os óculos, não vejo do olho esquerdo, sinto queimaduras na cara, no pescoço, um potente zumbido no ouvido esquerdo. Mas são os gritos de Manuel Guerreiro Jorge que tomam conta da nossa atenção, tem o corpo desarticulado, a mina anticarro explodiu sobre o seu rodado.

Fecho os olhos enquanto recordo tudo isto, quando os abro é para ver o espanto do António Silva Queirós. Tudo se passou há cinquenta anos, meio século não é nada quando sei que foi uma noite que mudou a minha vida, que por displicência se perdeu uma outra vida, houve feridos graves, contei com a generosidade dos camaradas de Bambadinca que vieram sem um gemido pela noite fora, atravessando aos tombos a bolanha de Finete, veio o médico, David Payne Pereira, tudo fez por aquele moribundo, a quem fechou os olhos em Finete.

Levantei-me cedo, tirei a fotografia emoldurada e pu-la numa mesa, faço questão de vos mostrar que retenho todo este filme e para todo o sempre. Tratei os olhos, descurei alguns dos feridos que foram para Bissau, um deles perdi-lhe o rasto, o meu devotado amigo Alcino Barbosa, que regressou com fratura de calcâneo.

Dir-me-ão que são coisas da vida, que o cansaço nos leva por vezes a comportamentos ligeiros, às tais displicências que depois matam e ferem. São os tais momentos que nos afundam ou nos fazem crescer. Olhando esta fotografia que gravou há meio século um sinistro, guardo o dilema que esta efeméride comporta. Só que a vida continua, haja o que houver de amarguras na alma.

E peço perdão por tudo quanto aconteceu naquela destemperada corrida noturna, em 16 de outubro de 1969.
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de outubro de 2019 > Guiné 61/74 - P20214: Efemérides (311): Convite para a cerimónia do Dia Municipal do Combatente, a realizar no 11 de Outubro, às 11 horas, na Praça dos Heróis do Ultramar, em Fânzeres - Gondomar (Carlos Silva, ex-Fur Mil da CCAÇ 2548)