sábado, 13 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7278: Estórias avulsas (99): Flora e Fauna de Galomaro (António Tavares)

FLORA E FAUNA DE GALOMARO

Galomaro > Maio de 1970 > Vista aérea


1. Mensagem de António Tavares* (ex-Fur Mil da CCS/BCAÇ 2912, Galomaro, 1970/72), com data de 11 de Novembro de 2010:

Caro Carlos Vinhal,
Dentro do arame farpado de Galomaro houve colegas que tentaram fazer uma horta (semente que caísse à terra, bem trabalhada, germinava em pouco tempo), mas a bicharada tudo comia e nenhuma planta vingava apesar dos esforços de quem inclusive recebia sementes da Metrópole. Experiências não faltaram… só vingou mesmo uma alface… o nosso camarada de Évora, Joaquim J.P. Alface, que nos acompanhou de 01-05-1970 a 23-03-1972.

A fauna da CCS/BCAÇ 2912 tinha um Carneiro, um Pinto e dois Coelhos, sendo um bravo e outro manso, porém as matas do leste da Guiné - Galomaro - eram ricas em coelhos (verdadeiros) selvagens.

Os nossos camaradas, cada um com o seu estilo, não se importavam nada de assim serem tratados e todos os conheciam pelas alcunhas, que nada tinham de depreciativo mas sim de pura camaradagem de combatentes que foram obrigados a uma guerra de guerrilha, na Guiné.

Em 29-05-2004, na Curia, XI Convívio co-organizado pelo “Coelho Manso”, o Belarmino Coelho, que faleceu em 2009, assinou: “Coelho Bravo” no meu livro de recordações.

Paz à sua alma e à de todos os ex-colegas combatentes falecidos.

Na noite de 15-08-1970 foram apanhadas 14 lebres, a maior caçada de sempre. Durante umas refeições os Oficiais e Sargentos comeram bem em Galomaro.

O 2.º Sargento H. Nobre, Mecânico Auto do BCAÇ 2912, saía ao anoitecer de Unimog com 2 ou 3 homens e regressavam pouco tempo após a saída, porque era presa fácil toda a lebre que aparecesse à frente… as necessidades assim obrigava a estes disparates de caçadas nocturnas.

Um coelho ou lebre custava 10$00 Pesos… um frango, pouco maior do que um pintainho, tinha o preço de 20$00 Pesos… só com a intervenção dos chefes das Tabancas previamente presenteados conseguíamos comprar os frangos.

Também praticavam e conheciam a Lei da Oferta e da Procura!

O coelho é um dos signos da astrologia chinesa e fazia jus à condição de animal reprodutor naquela zona do leste da Guiné.

Com toda a certeza que não dava o nome às “coelhinhas” da Playboy, nem era o coelhinho da pilha que dura… dura…, nem o símbolo da Páscoa para uma População - Fulas - Islâmica que praticava o feiticismo nos anos setenta do século passado.

Outras Terras… outras Culturas.

A título de curiosidade refiro que os dentes dos coelhos crescem à medida que são limados pelo uso.

Um abraço,
António Tavares
Fur Mil SAM
Foz do Douro, 11-11-2010
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 9 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6355: Convívios (149): XVII Convívio da CCS do BCAÇ 2912, no dia 5 de Junho, em Pedrógão Grande (António Tavares)

Vd. último poste da série de 30 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7193: Estórias avulsas (98): Memórias de uma noite terrível em Canquelifá – 1971 (Francisco Palma)

Guiné 63/74 – P7277: Controvérsias (110): O que era ser ranger entre 1960 e 1974? (3) (Pedro Neves, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 4745/73)


1. O nosso Camarada Pedro Neves, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 4745/73 - Águias de Binta,
Binta, 1973/74, enviou-nos, com data de 10 de Novembro de 2010, a seguinte mensagem:

Camaradas,
Depois de ler os textos dos Rangers (uma vez Ranger… Ranger para sempre!) José Gonçalves e Magalhães Ribeiro (Grande Amigo), devo dizer que estou de acordo com o pensamento deles e demais camaradas, sobre o treino operacional que nos era ministrado, em Penude-Lamego e devo esclarecer o seguinte:
- Fui colocado na C.CAÇ. 4745-Águias de BINTA e quando cheguei e me apresentei na mesma, já o I.A.O (Instrução de Adaptação Operacional) tinha acabado, tendo seguido dois dias depois, para Binta, sem conhecer praticamente ninguém, fui colocado no 4º pelotão de combate e como se sabe os pelotões eram formados desde os alferes, furriéis, cabos e soldados, por ordem de classificação, sendo 1º pelotão, os elementos que melhores classificações tiveram durante a especialidade e os restantes pelotões formados pela mesma ordem.
- Fui colocado no 4º pelotão, por duas razões:
1ª- Eu era o furriel mais novo da CCAÇ, porque todos os outros eram do 3º turno e eu era do 4º de 72, apesar da minha nota de fim de curso de Operações Especiais ser superior à dos outros camaradas furriéis.
2ª- Fui colocado no 4º pelotão, com o pedido do Comandante de Companhia, Cap. Capucho, de incutir disciplina no grupo, uma vez que era formado com operacionais com as notas mais baixas da especialidade e citando as palavras dele, era o pelotão dos “básicos”.
3º- Verifiquei ser verdade, porque na primeira saída do meu grupo, iam aos pares, falavam alto, riam e mais parecia que iam para uma romaria.
4º- Falei com o Alf Mil Pimenta e com os Fur Mil Andrade e Rebelo e demonstrei, sem grande alarde, como se deveria actuar no mato. Devo dizer que aceitaram de bom grado tudo o que tinha aprendido no curso de Operações Especiais. Pouco tempo depois, actuávamos como um autêntico grupo de combate e a nossa amizade nunca foi beliscada, por eu ser de Operações Especiais e em cada Cabo e Soldado, tinha um amigo (e ainda tenho).
5º- Devo acrescentar que com dois meses de comissão, o Furriel Andrade foi evacuado, ferido na viatura que rebentou uma mina anti-carro e cujo condutor faleceu, o Furriel Rebelo (já falecido), foi destacado para tomar a responsabilidade das minas e armadilhas de protecção do destacamento, isto já em Polibaque, sector de Mansoa, destacamento de apoio à construção da estrada Jugudul-Babadinca (não havia população junto de nós), o transmissões, 1º Cabo Manteigas, do meu pelotão, ficou a tomar conta do gerador do destacamento, porque era electricista, antes de ir para a “tropa” e o Alf Mil Pimenta esteve durante alguns meses com problemas de saúde, em Bissau, no Hospital Militar. Fiquei sozinho a comandar o meu pelotão e era ao mesmo tempo o homem das transmissões. Assumi sem problemas e só cá para nós, preferia ser eu a andar com o AVP-1 (banana), assim sabia de tudo, em 1ª “mão”.
6º- Devo acrescentar que na CCAÇ 4745, só tínhamos, desde a formação da mesma, o Alf Mil Louro e eu furriel, como graduados de Operações Especiais, sendo o Alf Mil Louro do 1º pelotão e 2º Companhia de Companhia.
7º- Tudo isto para vos transmitir, que assumi sozinho, o que acabei de relatar e independentemente de outros terem, eventualmente feito o mesmo, ou mais e melhor, sem serem de Operações Especiais, entendo que o que aprendi em Penude, me foi bastante útil e é com muito orgulho, que posso gritar: “RANGER… YÁÁÁ!!!”.
Só quem passou por lá, sabe dar o real valor à palavra RANGER e ao seu significado!!!
Cumprimentos a todos os membros do Blogue e em especial aos aniversariantes do mês de Novembro e restantes camaradas.
Um abraço,
Pedro Neves
Fur Mil OpEsp/RANGER da CCAÇ 4745

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Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P7276: História da CCAÇ 2679 (42): A noite em que ninguém queria ir levar o rádio a Tabassi (José Manuel Matos Dinis)

1. Mensagem José Manuel Matos Dinis* (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), com data de 11 de Novembro de 2010:

Carlos,
Aqui vai um episódio em que fui um dos intérpretes. É verdade, verdadinha, mas até parece mentira.
Um abraço para ti, e outro mais abrangente para o Tabancal.
JD


HISTÓRIA DA CCAÇ 2679 (42)

A noite em que ninguém queria ir levar o rádio a Tabassi

Um dia, ao entardecer, o Foxtrot ficava dentro do aquartelamento e eu estava deitado a aguardar o jantar, quando se desencadeou algum burburinho junto da pseudo porta-de-armas, em frente ao meu quarto, a escassos três ou quatro metros. A razão era a seguinte: o 3.º Pelotão desdobrava-se em duas saídas noturnas. Dois terços foram com o Ramalho passar a noite em Amedalai, os restantes acompanhariam o Transmissões que levava o rádio para passar a noite em Tabassi (não havia rádios suficientes, pelo que, ao fim do dia, um dos rádios que saíam para o mato ou em colunas seguia para aquela aldeia), e dois furriéis da Companhia de Cavalaria com dois grupos estacionados em Bajocunda, um dos quais em Tabassi.

Por alguma razão a saída atrasara-se, o sol declinava, e o pessoal recusava-se a sair de noite com furriéis periquitos. Pareceu-me mais uma qualquer revanche, do que uma justificação suficiente. No entanto, a resistência para sair era persistente e teimosa. Nem os furriéis demoviam o pessoal, nem o pessoal encontrava outra lógica que não fosse a recusa de os acompanhar a pé, meia dúzia de quilómetros.

Houve intervenções de alguns graduados, mas foram infrutíferas, e só serviram para consolidar a posição dos contestatários. Veio o Trapinhos, finalmente, para resolver a situação. Eu acabei por me levantar e assistir ao que se ia passar. O Trapinhos ficou a um nível mais alto, na extrema da varanda, em frente à janela do meu quarto. Em redor, alguns graduados aguardavam curiosamente o desenrolar dos acontecimentos. Tal como eu.

Nesse interim, o capitão terá constatado que não era capaz de persuadir o pessoal a sair com os furriéis e o rádio, pelo que começou a levantar a voz e a prometer porradas. A reacção foi de desafio, ele se quisesse que desse porradas, mas dali, sem outras condições, não arredavam o pé. Esguio, os ombros salientes das carnes magras e o olhar encovado, o Trapinhos dava um ar de incapaz, bradava que isto e aquilo, mas ninguém lhe ligava puto. Entretanto, engrossara o número de observadores, pois uma parte do pessoal passava por ali na direcção do refeitório, e ficava na assistência, de onde se ouviam risadas e dichotes. O nosso Comandante crescia em desespero e não tinha qualquer capacidade para se fazer respeitar, nem qualquer ideia brilhante que salvasse a situação. Os dois furriéis, por seu turno, referiam ali perto que sozinhos também não iam.

Era um imbróglio. Alguns dos graduados dirigiam-se aos contestatários perguntando-lhes se não achavam que era chato passar uma noite sem rádio em Tabassi, e se não tinham solidariedade pelos camaradas da outra Companhia que lá estavam; outros referiam-se menos apropriadamente, dizendo-lhes para não serem maricas, que não custava nada fazer meia dúzia de quilómetros, e assim acicatavam a resistência.

Dirigi-me ao meu quarto, vesti o camuflado, calcei as botas, peguei na arma, no cinto de carregadores, e a coberto da noite contornei aqueles que ladeavam o capitão já aos berros. Chamei dois cabos do grupo de resistentes, e perguntei-lhes se saíam comigo. Que sim, comigo saíam. Disse-lhes para chamarem os restantes, sem banzé, mandei avisar os furriéis e o Transmissões que já estava a andar, e a pequena coluna já estava organizada e em andamento ao passar pelo depósito de géneros.

O curioso, é que por força da escuridão, o pessoal assistente não se deu conta da ocorrência, e o Trapinhos, lá do alto, ainda se ouvia a refilar com autoridade, no enunciado de porradas e perseguições.
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Nota de CV:

Vd. último opste da série de 1 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7207: História da CCAÇ 2679 (41): Uma visita do Gen Spínola (José Manuel Matos Dinis)

Guiné 63/74 - P7275: Notas de leitura (169): O Império dos Espiões, de Rui Araújo (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Novembro de 2010:

Queridos amigos,
As questões da Guiné andarão connosco até ao fim dos tempos. Aquela terra até espionagem teve, como se refere no livro do Rui Araújo. O que acontece é que ele dá a versão do que os britânicos sabiam sobre os alemães. Era importante saber quem eram os agentes dos Aliados na Guiné. A nossa missão em catar títulos é uma surpresa interminável.
Ainda há dias me dizia o Sousa Pires se eu tinha lido o romance do Mário G. Ferreira “Tempestade em Bissau”. Disse-lhe que não conhecia o livro e o autor, ao que parece, foi médico em Bambadinca, ao tempo do BART que veio substituir o BCaç 2852. Confrades como o Benjamim Durães poderão certificar quem foi o Mário G. Ferreira.

Um abraço do
Mário


A espionagem na Guiné, durante a II Guerra Mundial

Beja Santos

“O Império dos Espiões – A espionagem em Portugal e nas colónias”, de Rui Araújo (Oficina do Livro, 2010) propicia uma leitura absorvente e levanta mais questões do que os problemas que parecem ter ficado esclarecidos quanto a quem e para quem praticou espionagem em Portugal, na II Guerra Mundial.

Por diferentes razões, mas no decurso de todo o conflito, os principais serviços de informações das forças em contenda aqui actuaram, pagaram colaboração a cidadãos de diversa proveniência: marujos, estivadores, jornalistas, diplomatas, polícias, legionários, militares e até desportistas. A polícia política portuguesa não tinha meios para despistar a tempo e horas as actividades dos outros ou dividia-se claramente em apoios ao Eixo ou aos Aliados, favorecendo ou trabalhando discretamente por conta doutrem.

Rui Araújo baseia-se nos 12 volumes dos Diários de Guy Liddell, uma personagem fascinante da espionagem britânica. O autor investigou fontes nacionais que lhe permitiram ter acesso a informação inédita: Cândido Oliveira, futebolista e jornalista foi agente dos serviços secretos britânicos; o capitão Agostinho Lourenço, director da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado era Jimmy, nome de código que lhe foi atribuído pelos norte-americanos. Terá sido um auxiliar muito útil na decepção dos serviços secretos japoneses, em Lisboa. O nosso Império Colonial não ficou à margem dos diferentes serviços de informações: em Cabo Verde, havia refugiados políticos, actuavam agentes italianos, portugueses e alemães; em Angola, foram patentes as actividades de espionagem alemãs e que tinham a ver com tráfego marítimo britânico, o movimento de tropas e a situação política no Congo e na África Austral; na Guiné, a espionagem alemã estava muito activa, os alemães estavam particularmente interessados no que se passava na Gâmbia e Serra Leoa mas também o movimento no porto de Dakar. Os principais dirigentes e agentes da polícia política portuguesa estavam bem identificados pela espionagem internacional: quem era pró-britânico ou pró-alemão. A polícia política procurava estar atenta às reacções, conversas e tomadas de posição públicas tanto dos intelectuais como dos militares. Um diplomata britânico em Lisboa escreveu: “Creio que a melhor forma de penetrar a Polícia Internacional é elogiar a vaidade natural e nacional dos seus responsáveis, que até muito recentemente não eram objecto de atenções por parte do lado britânico e só ouviam dizer mal de nós. Também são sensíveis a pequenas atenções, como charutos e cigarros, uísque, almoços, jantares, passeios de carro e chocolates para as esposas, etc., despesas até hoje inteiramente suportadas por mim”. Ronald Campbell, embaixador britânico, tinha uma noção clara da lealdade de Agostinho Lourenço a Salazar e sabia que a sua demissão acarretaria consequências desastrosas para a espionagem britânica. Esta julgava também que Lourenço trabalhava para os alemães e por quantias elevadíssimas. O capitão José Catela do Vale Teixeira, secretário-geral da polícia política, teria tido um relacionamento privilegiado com os serviços britânicos.

Pois bem, vejamos em concreto o que Rui Araújo refere sobre a Guiné Portuguesa. Ele refere exclusivamente a espionagem alemã, dirigida a partir de Lisboa. A informação seria enviada do arquipélago dos Bijagós para Lisboa. As mensagens da espionagem alemã também chegavam por correio, com o recurso a agentes que viajavam em navios portugueses. Recorria-se à tinta simpática, o processo de dissimulação mais usado na época. O juiz Dr. Elmano “Armando” Cunha e Costa seria uma das figuras mais importantes da espionagem em Bissau. Os alemães queriam fundamentalmente saber o movimento das tropas e tráfego marítimo dos aliados. Os emissores estariam colocados na ilha de Bubaque, onde havia uma firma alemã de óleo de palma, a Companhia Agrícola e Fabril da Guiné. De acordo com as informações existentes, os agentes alemães forneceriam comida e mensagens aos submarinos alemães. Para além do Dr. Elmano, Rui Araújo elenca outros importantes associados à organização de espionagem alemã. Eram eles: Hussein Jabre; Wilhelm e Ernesto Koenig; August Lohendorf (assim classificado: proprietário de um comércio e de uma plantação em Geba, é um selvagem); Paul Nienhaber (director da firma Sociedade Comercial Ringel, era um especialista em transmissões); Eduard Nicolai (português com ligações à firma alemã de Bubaque, trabalhava para um notório agente alemão de Lisboa); Eric Ortelbach (chegou a Bissau em Fevereiro de 1942, era controlador do tráfego telegráfico); Abel Valente de Oliveira (negociante ligado a negócios com a África Ocidental Francesa); capitão Horácio Faria Pereira (director da aviação da colónia, era abertamente pró-nazi); Paul Seifort (cônsul alemão em Bissau, vivia lá há 25 anos).

E nada mais se fica a saber. Talvez algum dos nossos confrades possua pistas para se espiolhar o que faziam os agentes aliados, com Cabo Verde a 500 quilómetros, era inteiramente impossível os aliados não terem informadores na Guiné.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7269: Operação Saudade 2010 (Mário Beja Santos) (5): Páginas de um diário quase improvável, antes de viajar para a Guiné (3) 1 de Novembro

Vd. último poste da série de 10 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7259: Notas de leitura (168): Crónica da Libertação, de Luís Cabral (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P7274: Parabéns a você (171): José Manuel Lopes, ex- Fur Mil Inf Armas Pesadas, na CART 6250 (Editores)



1. Completa hoje 60 primaveras o nosso Camarada José Manuel Lopes, que foi Fur Mil Inf Armas Pesadas, na CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74).Já aqui foi dito que ele é natural da Régua, onde é um conceituado vitivinicultor, explorando a Quinta da Senhora da Graça, com sede em Senhora da Graça, 5030-429 Lobrigos (S. J. Baptista), concelho de Santa Marta de Penaguião, distrito de Vila Real, telef. 254 811 609.

Tem vinhos premiados e partilha os seus néctares com os amigos e os clientes.

Tem uma equipa de cinco estrelas: a esposa (Maria Luísa), uma filha (ainda estudante) e um filho (o Vasco Valente Lopes) que é também um promissor enólogo, já premiado e estágio na Austrália.
O nosso camarada também oferece turismo rural na dita quinta.

É membro da nossa Tabanca Grande desde finais de Fevereiro de 2008 e frequenta, religiosamente, às 4ªs feiras, a Tabanca de Matosinhos.

2. Em nome do Luís Graça, Carlos Vinhal, Virgínio Briote, Magalhães Ribeiro e demais tertulianos, aqui lhe endereçamos as maiores felicidades, melhores níveis de saúde e alegria, junto dos seus queridos familiares e amigos, neste seu dia de aniversário, desejando que o mesmo se prolongue por muitos, bons e felizes anos.
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Nota de M.R.:
 

Vd. último poste da série em:

10 de Novembro de 2010 >
Guiné 63/74 - P7257: Parabéns a você (169): António Garcia de Matos, baboso tris...avô, mas hoje criança...(Miguel Pessoa / Editores)

Guiné 63/74 - P7273: Parabéns a você (170): Amadu Djaló, o nosso querido camarada septuagenário, que continua a escrever as suas memórias


A história do "minino", feito prisioneiro no mato, com 4 anos,  e depois adoptado pelo nosso camarada Manuel Joaquim (*), e que só agora, muitos anos depois, é divulgada por um dos protagonistas,  tem algum paralelismo com a de Malan Nanque, mais velho (8/9 anos), já aqui contada pelo nosso camarada Amadú Djaló, ou melhor, contada no seu livro Guineense, comando, português (Lisboa: Associação de Comandos. 2010), cuja 1ª edição se esgotou em escassos meses (**). 


O Amadu fez há dias 70 anos (nasceu em 10 de Novembro de 1940). A efeméride escapou-nos completamente. Com três dias de atraso, mas ainda a tempo, aqui vão  as felicitações da toda a nossa Tabanca Grande. 


Saúde, muita saúde, carinho, solidariedade, paz interior e algum dinheiro, é o que o Amadú agora mais precisa. Sei, através do Virgínio Briote, que vive neste momento sozinho, na Amadora, com a partida, para Inglaterra,  da filha e do neto que viviam com ele. Teve há dias a companhia do seu filho  [, Idrissa ?,],  que está a acabar o curso de direito em Londres, se não me engano.  


O Virgínio também me confidenciou que o Amadú continua a escrever, o que muito nos alegra a todos. E,  se Deus lhe der vida e saúde (e um novo editor...), talvez possamos ainda ver, no próximo ano,  nos escaparates,  o prometido 2º volume das suas memórias, relativas ao período do pós-independência, incluindo o desenvolvimento da história do "minino" Malan Nanque, beafada, que ele baptizou como Malan Djaló, e a quem chamava sobrinho, tendo ficado ao cuidado de uma sua irmã, em Bafatá. 


Recorde-se que, anos depois da sua captura, em 1964,  na região do Xime, seguido da sua adopção por parte do Amadú [, foto direita, Lisboa, Belém, 2009], este levou-o a conhecer a mãe, em Bissau, em 1973. Continou, porém, a viver na casa de Bafatá. Depois da independência, deu aulas de português em quartéis do PAIGC. 


Entretanto, o desfecho deste caso não foi tão feliz como o do Adilan. O Malan Nanque (aliás, Malan Djaló), "casou, teve um filho, adoeceu e morreu pouco tempos depois no hospital de Batafá. O único filho que teve, uma menina, também sobreviveu pouco tempo. Morreu, ainda não tinha dois anos". 


São de facto, duas histórias, dois destinos.  Em todo o caso, são histórias felizes, com lágrimas, usando uma metáfora do escritor e antigo combatente em Angola, o açoriano João Melo. Neste último caso, do menino beafada, é de realçar mais uma vez a grandeza moral e humana do  bom muçulmano que foi (e continua a ser) o nosso camarada Amadú Djaló, agora septuagenário.
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Notas de L.G.:


(*) Vd. postes de:






 12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan,nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)



(**) Vd. poste de 27 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6257: O segredo de... (12): O meu sobrinho Malan Djaló, aliás, Malan Nanque, o rapazito de 8 ou 9 anos anos, apanhado pelo Grupo Fantasmas, do Alf Mil Comando Saraiva, em 11 de Novembro de 1964, em Gundagué Beafada, Xime... (Amadú Djaló)

Guiné 63/74 - P7272: (In)citações (20): 14 de Novembro, às 10h30, na BBC, mais um Remembrance Day (António Martins de Matos)


1. O nosso Camarada António Martins de Matos (ex-Ten Pilav, BA12, Bissalanca, 1972/74, hoje Ten Gen PilAv Res), enviou-nos, em 11 de Novembro último, a seguinte mensagem:

Camaradas,

Conhecem aquele ditado “Quem te manda a ti sapateiro, tocar rabecão...”?
Se conhecem, deixem-me dar-vos uma última (prometo que é a última) sessão de música.

Honra seja feita à nossa Ana Duarte, foi ela que me pôs diante dos olhos a incongruência do comportamento dos nossos antigos combatentes, sempre sem se conseguirem fazer respeitar, com pseudo comemorações em diversos dias, em diversos locais, com diversos impactos, não a homenagear os antigos combatentes mas sim a servir alguns outros interesses ocultos, tratados pelos nossos governantes como um fardo incómodo que o tempo se encarregará de resolver.
Não me vou repetir, que de tudo isto já vos dei conta nos postes P6618, P6705 e P6725.
Apenas recordar que alguns de vós me deram inteira razão, “que sim, anda, estamos contigo, blá blá”.
Diz o LG que somos à volta de 450, no total manifestaram-se para aí uns 40, os outros ficaram-se nas suas pantufas, eventualmente devem ter agitado ligeiramente a cabeça num hipotético sinal de concordância, talvez com um ligeiro tremelicar de olhos, a poupar energias, e pronto... o dever cumprido!!
Cambada de amorfos, andamos todos pelos sessenta, ainda armados em vivos por fora mas já mortos por dentro, queremos é sopas e descanso.

Dito isto, a minha última tentativa para vos acordar da letargia em que andais embrenhados.

No próximo domingo, dia 14 de Novembro, por volta das 10:30 é transmitido pela BBC mais um “Remembrance Day”.
Deixem-se de desculpas, levantem esses rabos gordos da cama e vejam como o Reino Unido homenageia os seus veteranos.
Não têm o canal BBC? Não é desculpa, vão ver a casa dos amigos!!!
Este ano são menos, só vão desfilar 7.444 (sete mil quatrocentos e quarenta e quatro) veteranos mais um milhar de familiares em substituição de alguns que, ou não podem ou já partiram.
Todos os anos o desfile é iniciado por um Regimento ou Entidade diferente, este ano cabe a honra aos veteranos da Guerra da Koreia, o “ British Korean Veterans Association”.
Depois já podem voltar para a cama e dormir sossegados, à espera que os chamem para o almoço.

Um Abraço,
António Martins de Matos
Ten PilAv da BA12

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Nota de M.R.:
Vd. último poste da série em:

12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7266: (In)citações (24): Africanização da guerra, tema para um colóquio a organizar pela Tabanca Grande, e pretexto para a efectiva reconciliação nacional (Nelson Herbert)

Guiné 63/74 - P7271: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (9): A Suíça de África, o narcotráfico, a justiça e a falta que faz o Luís Cabral

1. Texto do António Rosinha [, foto à direita, Angola, 1961 ]:

Data: 4 de Novembro de 2010 23:31

Assunto: Guiné Bissau, o narcotráfico, a Justíça e a falta de Luís Cabral

 Agora que embalagens de droga dão à costa nas praias de Portugal, segundo os jornais, e não temos submarinos nem helicópteros nem marinha para travar este contrabando, até parece ridículo um português falar de narcotráfico em Bissau.

Mas não vou falar desse problema, mas apenas de Luís Cabral e de um caso de consumo de droga que ele solucionou à maneira dos velhos Chefes de Posto coloniais.

Pretendo esclarecer que as coisas que afirmo neste blog, em geral só podem ser corroboradas ou desmentidas por dois ou três tertulianos, pois de uma maneira geral foi quase tudo passado antes ou depois da guerra. Quando narro factos passados durante a guerra ou testemunhei ou são públicos e uso apenas a memória pois faço os possíveis para não recorrer nem a livros nem a documentos nem à wikipédia.

A minha guerra (sem tiros, felizmente) não foi de 24 meses mas de 13 anos, antecedidos por alguns anos de paz (?) em Angola e seguidos por alguns anos de paz  (?) na Guiné. Dos poucos tiros de guerra que ouvi, uns dois ou três foram de carro de combate em Bissau, na noite em que Luís Cabral foi derrubado em 14 de Novembro de 1980.

Como sempre achei imprópria e em hora inadequada para a Guiné a guerra imposta pelo PAIGC, nada me impede de considerar que Luís Cabral ao ser "excluído" da governação, a Guiné ficou condenada a sofrer tanto ou mais do que tinha sofrido durante a guerra anti-colonial.

Luís Cabral ficou a fazer muita falta à Guiné, principalmente por se saber que não havia alternativa válida, mas talvez Luís fosse vítima dele próprio e do projecto do PAIGC, como talvez se possa dizer o mesmo de Amílcar, caso não apareçam testemunhas com outros motivos mais válidos.

E passo a relatar uma decisão inteligente, prática e simples e diplomática que demonstra a capacidade que Luís Cabral e o seu governo tomaram para resolver um caso de uso (e talvez de tráfico) de droga, uns meses antes de ser derrubado (1980). Envolvia estrangeiros e nacionais nesse escândalo de droga.

Embora na Guiné só houvesse um pequeno jornal,  o NÔ PINTCHA

, do partido, que publicou alguma coisa sobre o escândalo, tudo se sabia de boca em boca. Havia uma invasão tão grande de cooperantes internacionais que no meio de tanta gente alguma escandaleira surgia de vez em quando naquela sociedade tão heterogénea que até se pode dizer que era uma grande confusão.

Foi o caso de uma arquiteta portuguesa e um professor francês e uns tantos guineenses que, segundo o NÔ PINTCHA e o boca a boca, se entretinham numas festas em que metia droga e a polícia entra em acção. E aqui entra a experiência que só um africano ou alguém com cultura africana pode resolver sem incidentes.



Luís Cabral durante a 1ª Assembleia Nacional Popular, na Região do Boé,  23 a 24 de Setembro de 1973.


Foto:  Fotografias Amílcar Cabral / Fundação Amílcar Cabral (2003) (Com a devida vénia...)






Sabemos que a chamada África negra tradicionalmente não tinha prisões, nem advogados nem juízes, no entanto como em qualquer sociedade também lá havia crimes a punir e justiça a ser feita. Também sabemos que os Chefes de Posto tinham uma pequena casa junto à administração que servia de prisão apenas momentânea pois não era feita para uma prisão definitiva.

Quem fazia de juiz, de advogado de acusação e de defeza era o próprio Chefe de posto, só não fazia de testemunha, pois aí entravam as pessoas da tabanca a favor ou contra. Em caso de crime provado uma das punições era a régua de cinco olhos e o cipaio (polícia) a executar a sentença. E a denúncia do criminoso perante a tabanca toda.

Os chefes de tabanca constantemente recorriam aos chefes de posto para resolver muitas quezílias e até problemas de ordem matrimonial que familiarmente havia dificuldade em solucionar.

Estes processos conheci em Angola no tempo colonial, mas foi extamente assim que vi no Gabu o presidente do Comité a residir na antiga casa do Aministrador colonial, resolver um caso de furto de uma vaca por um cidadão jovem (1987).

Como não assisti ao julgamento, apenas sei que o juiz e os advogados de defesa ou acusação eram inexistentes como no tempo colonial, e vi o cumprimento da sentença, ou parte dela, que constou de uma volta pelas ruas retilíneas do Gabu (Nova Lamego) pelo criminoso, com a pele da vaca a cobrir-lhe o corpo, depois de devidamente extraída do animal, com cornos integrados, e com a corda ao pescoço, que antes servira para levar o animal. Um polícia acompanhava o ladrão e a criançada,  e mesmo gente maior, fazia um enorme cortejo, que depois deste castigo nada discreto, o culpado não ia ficar com vontade de repetir.

No caso da droga, que era um caso mais melindroso, as autoridades do governo de Luís Cabral diplomaticamente recambiou os cidadão estrangeiros, "discretamente" com o aeroporto repleto de gente a bisbilhotar de quem chega e parte no primeiro avião da TAP que apareceu. Com o cenário da bisbilhotice, penso que a portuguesa e o francês ficaram sem vontade de regressar a Bissau.

E os cidadãos guineenses implicados, depois de passarem dois ou três dias na prisão de Bissau, com tudo devidamente confessado "voluntariamente" sem advogados nem juízes, e certos pormenores publicados e explicados ao povo, acabaram por não precisar de ficar presos, pois se o arrependimento matasse...!

A solução foi de uma eficiência que se soube que alguns intervenientes emigraram logo que puderam, assim como alguns que milagrosamente escaparam à rusga da polícia. Conheci pessoalmente um desses intervenientes por ser escriturário na empresa onde eu trabalhava, a Tecnil.

Estou a contar estes factos, como já contei outros factos após a independência da Guiné, tentando demonstrar que a governação de Luís Cabral era eficiente, dinâmica, e em Bissau pelo menos havia alguma ordem, e tento também demonstrar que Luís seguia a política que Amilcar escreveu em discursos e em entrevistas.

Tudo o que era ligado à justiça, agricultura, indústria etc, rara era a matéria em que Amílcar não deixasse algo escrito, até à maneira de comer a vianda com a mão, ele faz uma observação.  Luís Cabral seguia tudo à risca, e quero aqui realçar aquilo que já se falou no blog,  «fazer da Guiné a Suíça de África». Luís não tinha limites para tentar atingir o máximo de modernidade e credibilidade. Diariamente surgiam novas intervenções estrangeiras na educação, como um grande Liceu, na indústria, a fábrica do automóvel «Nhaye»,  da Citroen, uma camisaria industrial, na agricultura com novas técnicas desde as japonesas às portuguesas, etc.

Pelo que se via da sua actução era de cortar qualquer mal pela raíz. Cheguei a ver rusgas em Bissau à procura de jovens sem documentos ou sem trabalho e enviar às carradas de camião para a esquadra e devolver esses rapazes para as suas tabancas de origem. Um dia a polícia levou-me da minha viatura,  num auto stop no Alto Crim, os meus três ajudantes porta-miras por não terem nenhuma carta no bolso a dizer onde trabalhavam. Foi preciso o «soco por baixo da mesa» para os livrar de regressarem à tabanca. Talvez este política de cortar os males pela raíz tenha levado ao exagero dos fuzilamentos e das valas comuns de que [Luís Cabral] foi acusado.

Com este post particularmente, pretendo afirmar que se Luís Cabral seguisse mais uns anos na governação, neste momento, 2010, a Guiné Bissau poderia não ser a Suíça Africana, mas não era de certeza a imagem de uma capital do narcotráfico e outros males.

Mas tem que se fazer sempre a pergunta, porque correu tudo tão mal com Luís Cabral, Amílcar Cabral, e todos os dirigentes do PAIGC? E outras perguntas por exemplo, como correu melhor com o PAICV, se em Caboverde nem guerra houve?

O que se passou no interior do PAIGC desde a sua fundação, para haver tanta sede de sangue e tanta falta de respeito pelo povo da Guiné?

Para terminar regresso àquela ideia da «Suíça de África», dizendo que ainda mesmo depois de Luís Cabral ainda se continuava a ouvir essa frase, pois o entusiasmo do partido pelo desenvolvimento ainda continuou por algum tempo, os jovens continuavam a devorar livros pelos jardins para se instruirem, apenas os mais velhos e as mais velhas baixavam os braços e já não colaboravam na "produção e produtividade" que era uma máxima de que o regime socialista usava até à exaustão na rádio e nos comícios e no NÔ PINTCHA.

Temos que ter esperança que tudo melhore para aquele povo, em Bissau, mas também na Arcena, na Moita e que nós,  velhos tugas,  não desanimemos pois por cá tambem há uns problemas à procura de solução.

Com os meus cumprimentos para toda a tertúlia,

Antº Rosinha
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Nota de L.G.:


Último poste da série > 24 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7170: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (7): Da Casa Gouveia aos Armazéns do Povo

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7270: O mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (31): Achado e perdido, o meu amigo Mulai Baldé (Amílcar Ventura)


Guiné > Zona leste > Bajocunda > 1.ª CCAV/BCAV 8323, 1973/74 > Álbum fotográfico do Amílcar Ventura > "Foto 10 - Crianças amigas [ , em primeiro plano o Mulai Baldé, que mais tarde viria para Portugal]

Foto: © Amílcar Ventura (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Na sequência da história do Adilan, na minino, aqui apresentada pelo nosso camarada Manuel Joaquim (*), viemos a descobrir mais um djubi que, em tempos, conviveu com a malta da tropa... E muitos outros haverá, como foi o caso o Cherno Baldé, por exemplo, que conviveu connosco em Fajonquito e agora é um membro muito querido da nossa Tabanca Grande.

Eis o filme dos acontecimentos (com referência ao Mulai Baldé) aqui narrados pelo Amílcar Ventura e pelo Cherno Baldé... A confirmarem-se as pistas, é caso para mais uma vez dizermos aqui, alto e bom som, que o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!


(i) Comentário de Amílcar Ventura (que vive em Silves; foto à esquerda, Bajocunda, 1973/74):

Manel, eu tive uma história parecida com a tua, só que o menino é o meu amigo Mulai Baldé. Na altura não tive a coragem de o trazer. Era um puto que nos servia na messe de sargentos.

Quando regressei,  em 9 de Setembro de 1974,  nunca perdi o contacto com ele, escrevia-lhe todos os meses três cartas, até que, passados oito anos, ele conseguiu vir para cá. Ajudei-o a formar uma empresa de construção civil. Depois trouxe a família para cá. Esteve muito tempo comigo no Algarve.

Mas depois foi para Lisboa e há dois anos que ando à procura dele. Deixou-me de telefonar, perdi-lhe o rasto, até já contactei a embaixada e até agora nada. Tenho estado muito preocupado.

Um grande bem haja para ti. Uma abraço do tamanho da Guiné para ti e tua família

Amílcar Ventura, ex-Fur Mil Mec Auto,
1ª CCAV / BCAV 8323
(Pirada, Bajocunda, Copá, 1973/74)


(ii)  Mensagem do Cherno Baldé (, foto à esquerda, quando estudante, em Kiev, Ucrânia, 1989,) para o Amílcar Ventura:

(...) Ao Amílcar Ventura aproveito informar que o Mulai, natural do Sector de Pirada (Bajocunda?), foi meu colega no Liceu de Bafatá, dormimos na mesma esteira e degustámos, comemos juntos, em Bafatá, de 1975 a 1979, o pão que o diabo amassou.

Actualmente ele vive e trabalha em Gabú, sua região natal. Aparentemente, é um Empreiteiro (ou Empresário) de sucesso e um homem de peso na região. Quero aqui felicitar-te pelo empurrão que lhe deste e que, certamente, contribuiu para o seu sucesso hoje.

Um abraço para todos,

Cherno Baldé (Chico de Fajonquito)

(iii) Comentário do Manuel Joaquim (, foto actual, à direita):

Oh Amílcar Ventura, que grande "bomba", hem?! O teu amigo Mulai Baldé apareceu! ( embora só nas palavras do Cherno).

A minha "estória" já fez abrir uma garrafa!

E viva a Tabanca Grande!

Um abraço
 
(iv) Comentário de Luís Graça (, foto à esquerda, em Nhabijões, Bambadinca, 1970):
 
Amigos:

Tantos e tantos djubis que não tiveram a sorte grande de encontrar um homem, de coração grande, como o nosso Manuel Joaquim!... Lembro-me, por exemplo, do Tchombé, a mascote (sic) da messe de sargentos de Bambadinca do meu tempo (BCAÇ 2852, BART 2917, CCAÇ 12, 1969/71)...

O que será feito desse minino, que não teria mais do que cinco anos quando o conheci, e que ninguém pôde ou quis trazer para a metrópole ?... Julgo que era "órfão de guerra" (ou talvez fosse apenas mais um "rafeiro", como diz o Cherno Baldé, que vivia na órbita da tropa de Bambadinca...).

Eh!, malta de Bambadinca, alguém de lembra do puto Tchombé ?

(v) Comentário, de novo, do Amílcar Ventura:

 Manel, que grande história de vida que nos contas nesta segunda parte. Também é maravilhosa, o Adilan encontrar a sua família, etc. Manel, quero dar-te um grande e forte abraço.

Por tua causa descobri o meu amigo Mulai Baldé. Já envie um e-mail ao Cherno e outro ao Pepito para verem se descobrem o contacto.

Obrigado do fundo do coração. Um grande bem haja para ti. Uma abraço do tamanho da Guiné para ti e tua família (...)

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Nota de L.G.:

(*) Vd. postes de:

10 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)

 12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)

Úlçtimo poste desta série que se passa a chamar-se O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande >

30 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7192: O Mundo é Pequeno e o Nosso Blogue... é Grande (30): Forgotten African Soldier / O Soldado Africano Esquecido (Jochen Steffen Arndt, Universidade de Illinois em Chicago)

Guiné 63/74 - P7269: Operação Saudade 2010 (Mário Beja Santos) (5): Páginas de um diário quase improvável, antes de viajar para a Guiné (3) 1 de Novembro

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 8 de Novembro de 2010:

Queridos amigos,
Há muito tempo que não fazia um exercício destes. Não é petisco nenhum, são carambolas da memória, anda-se de pinça em riste, à procura das emoções vividas. A chatice é que estou atolado de trabalho, até partir. E a Guiné já está a mexer comigo. Hoje fui buscar vários quilos de roupa para entregar à filha do Abudu, vai ser uma das primeiras missões deste recoveiro. E há chamadas, contactos ainda a estabelecer. E há o medo de que falava o Torcato, talvez o mais insidioso de todos: o que é que se vai dizer, passado todo este tempo? Como é que é possível não deflagrarem várias granadas ofensivas e defensivas naquilo a que se chama o coração e os sentimentos?
Glosando o que a minha irmã escreveu num daqueles bilhetes-postais, eu tenho que aguentar a viagem a que me impus, não foi ninguém que me empurrou, de cá para lá.

Um abraço do
Mário


Operação saudade 2010 (5)

Páginas de um diário quase improvável, antes de viajar para a Guiné (3)

Beja Santos

Os bilhetes-postais, os telefonemas, os livros

1 de Novembro

Faço vigília pelos meus mortos, os do sangue, os da mais terna amizade, aqueles de quem serei devedor para todo o sempre. Incómoda foi a hora em que decidi abrir a caixa de sapatos com os bilhetes-postais recebidos na Guiné, até aqueles que enviei para os meus mortos. Todas estas imagens desinquietam, me transferem prematuramente para a aventura que vou viver, dentro em breve.

Primeiro os bilhetes que a Manuela me enviava frequentemente, fosse a que pretexto fosse. 3 de Março de 1979, com a fachada da Estação do Rossio, a minha irmã recomenda-se: “Um dia de Páscoa o melhor possível é o que sinceramente te desejamos. Que Deus te vá dando forças para suportares tudo o que seja imposto. A 10 de Agosto desse ano, a minha mãe, a caminho de São Pedro do Sul, na companhia do Rodolfo, o meu sobrinho, com a biblioteca da Universidade de Coimbra, despede-se como sempre: “Beijo da tua mãe que nunca te esquece, Ângela”. Há bilhetes para todos os gostos, bilhetes policromos, do tipo arte pop, castelos, aldeias típicas e santinhos como aquele que a minha mãe me envia em Fevereiro de 1969, recordando um ano antes, as férias que passara nos Açores, na minha companhia. Leio e releio o que me dizem Junho de 1970 a minha irmã com uma imagem da Basílica de Fátima: “Viemos de passeio no nosso Fiat 850 Especial, o teu cunhado fez exame de condução com 27 lições e comprou o carro novo no dia. Desejo-te um rápido e feliz regresso”. A gratidão que devo à minha irmã não tem preço. Meticulosamente, aos sábados à tarde, ela ia visitar todos os feridos que estavam no Hospital Militar, levava-lhes comida e muito carinho. O marido e os filhos ficavam no carro enquanto ela atravessava aqueles corredores com gente com membros amputados, cegos, em cadeiras de rodas. Ela fez a comissão toda com uma devoção fraternal e um grande espírito de dádiva, muito próprio das enfermeiras.

Escrevo à minha mãe em 20 de Janeiro de 1967 e mando-lhe um bilhete-postal com uma plantação de chá em S. Miguel. Comunico-lhe que vou para exercícios finais para a Lagoa do Fogo. E é da Lagoa do Fogo que a minha amiga Cremilde Tapia me envia notícias, pedindo-me para ser perseverante e cumprir a vontade de Deus. Chega mesmo a dizer que quando acabar a comissão na Guiné irei passar por lá. Como aliás aconteceu, o Carvalho Araújo lá foi arrastado do cais do Pidjiquiti até à Ponta Caió, depois atirou-se pela noite escura em direcção a Cabo Verde, contingentes foram largados na ilha do Sal e depois em S. Vicente. A etapa seguinte foi o porto de Ponta Delgada, tinha os amigos todos à minha espera. O mais emocionante foi o barco a avançar lentamente sobre aquele esporão de cimento onde uma multidão de mulheres trajando de negro aguardava filhos, maridos e irmãos. De um silêncio sepulcral passou-se à estridência máxima enquanto de lá para cá, e de cá para lá, se faziam os reconhecimentos da voz do sangue.

A Lagoa do Fogo, ilha de S. Miguel

Plantação de chá, ilha de S. Miguel

Estação do Rossio em 1969

Não sei o que hei-de fazer destes bilhetes-postais. Procurei-os como teias de todo esse tempo que me parecia já descodificado, reconhecido, escancarado. É mentira, somos mnésicos, mas há sempre sombras, leituras dúplices. É um dos sabores da velhice, redescobrir lembranças do passado, poças de água que resistiram aos escaldões do vento suão.
Agora importa conversar, saber o que se vai passar na Guiné.

Começo pelo Cherno.
- Cherno!
- Pronto, às ordens!
- Cherno, já conseguiste encontrar o Doutor (Doutor é Quebá Sissé, cozinheiro, atirador e outras coisas mais, perdi-lhe o rasto, vive perto de Farim, pedi ao Cherno para o contactar)?
- Tumulu Soncó foi comprar tecidos a Zinguichor, passou por Farim, deixou recado. Boa notícia, Tomani Sanhá está vivo, vive perto de João Landim, a caminho de Mansoa. Com o telemóvel as coisas agora são mais fáceis, ficou combinado que vou seguir a tua viagem e a partir do dia 18 vou saber quando chegas a Bambadinca. No Cossé e em Badora, está tudo informado. Ninguém sabe do Campino, deve andar pelo Senegal. Tumulu deixou recado em Ziguinchor. A gente de Amedalai quer fazer-te uma festa, vais receber galinhas e panos.
- Cherno, não tenho palavras para te agradecer!
- Nosso alfero manda sempre, sempre. Pessoal da Guiné está à espera.

A seguir ligo para o Queta Baldé.

- Boa tarde, Queta.
- Boa tarde, boa tarde.
- Queta, já falei com o Mamadu, há muita informação a correr entre Bambadinca e o Xime, mas há nomes em falta, ninguém encontra Domingos nem o Príncipe Samba.
- Zé Pereira já foi encontrado. Está em Catió, vem para Bissau para te ver. Guardou sempre os louvores e a condecoração. Gostava de ser ajudado, não sei o que dizer, há muita tristeza, tens de partir preparado para o que vais ver.
- Vai-me dando notícias, meu bom Queta.

Amanhã vou ligar para Santa Helena e Bissau. Hoje já chega de emoções.

Remexi na bibliografia de tudo o que li na Guiné. Cheguei à conclusão que há títulos omissos. Agora sei bem porquê. Livros que não me tocaram, mesmo que fossem obras-primas. Foi o caso de “As Vozes do Silêncio”, de André Malraux. Para quem se lembra, o café Bento tinha uma pequena livraria ao fundo, ali encontrei relíquias. Recordo que na segunda visita a Bissau, em Julho de 1969, andava à procura de livros, perdera tudo no incêndio de 19 de Março, em Missirá. Malraux era para mim um grande escritor. Como, aliás, vim a confirmar quando, anos mais tarde, li "A Condição Humana" e as memórias que ele dedicou a Charles de Gaulle. Comprei “As Vozes do Silêncio” à toa, não me pude entender com aquela catadupa de análises. Dois exemplos: “O génio pode nascer de uma ruptura individual; a evolução e a mutação brusca dos valores provocam, contudo, em certas épocas privilegiadas, rupturas relativamente numerosas. Vários artistas tomam consciência, quase simultaneamente, de um desacordo fraterno entre cada um deles e a arte que admiram em comum; certas descobertas são retomadas por todos, como as descobertas técnicas do cinema o são hoje numa contradança inextrincável”. E mais adiante “É impossível compreender o papel desempenhado na nossa civilização pela ressurreição que ela suscita, senão descobrirmos que a arte que a pede surgiu das brechas da cristandade. Não do cristianismo, nem do pensamento religioso, mas da sociedade toda-poderosa que modelou a alma e o espírito dos homens, e cuja última expressão encontramos no que conservam do seu passado a Índia inquieta e o Islão”. Eu sei que isto é muito belo e seguramente profundo. Li na Guiné e não compreendi. E continuo a não alcançar esta forma de falar do absoluto e da permanência do acto criador. Paciência.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 10 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7259: Notas de leitura (168): Crónica da Libertação, de Luís Cabral (5) (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 7 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7237: Operação Saudade 2010 (Mário Beja Santos) (4): Páginas de um diário quase improvável, antes de viajar para a Guiné (2) 31 de Outubro

Guiné 63/74 - P7268: Nome de código Chaminé (António Matos)


1. O nosso camarada António Matos, ex-Alf Mil Minas e Armadilhas da CCAÇ 2790, Bula, 1970/72, enviou-nos, em 11 de Novembro de 2010, a seguinte mensagem:

Nome de código Chaminé

A operação foi preparada discretamente…

Ao fim da tarde reuni os meus mais exímios soldados e pedi-lhes que se preparassem para a acção.

Objectivo, estratégia e progressão, seriam desvendados em cima da hora para evitar fugas de informação e as consequentes interferências.

Ao cair da noite, fiz o ponto de situação e dei os últimos retoques no atavio daqueles homens.

Homens e algumas mulheres pois naquele dia havia mulheres grandes da tabanca que se mostraram absolutamente determinantes no sucesso da investida na sua qualidade de apoio psicológico uma vez que mantinham relações de parentesco com eles.

No total éramos 11 a formar o grupo de assalto que levaria a cabo o golpe de mão.

O resto do pessoal foi dispensado ainda que só o viessem a saber no dia seguinte estranhando, contudo, a ausência de alguns dos camaradas com quem costumavam disputar longas sessões de lerpa.

Debruçados sobre o mapa da zona, indiquei-lhes o ponto onde perpetraríamos o assalto.

Elegi quem tomaria o comando caso um azar me pusesse KO.

Verificámos as munições e partimos.

Numa 1ª fase avançámos rapidamente até se detectar o primeiro obstáculo.

Tomámos posições defensivas e eu avancei para uma observação pormenorizada.

Era uma mina, porra!

Não estava enterrada mas estava armada o que fazia supor ter sido assim colocada para nos distraírem de eventuais outras armadilhas.

Era de forma cilíndrica com o percutor bem à vista e o detonador pronto a estoirar.

O material explosivo não era sólido o que dificultava o manuseamento.

Calculei os riscos e optei por desmontá-la para que um rebentamento provocado não viesse a denunciar a nossa aproximação.

Parecia não estar armadilhada e não tinha cordão de tropeçar.

Inspeccionei-a pela esquerda, depois pela direita.

Felizmente a temperatura fria da noite jogava a nosso favor.

Hoje recordo que os homens (não tanto as mulheres) se entusiasmaram demasiado e aproximaram-se para além dos limites de segurança para verem os pormenores.

Uuaauuuu! esta já estava!

Recolhidas as peças, continuámos em direcção ao nosso objectivo.

Felizmente que tudo estava muito bem planeado pois pelo caminho ainda tive que desactivar mais 4 engenhos semelhantes e mesmo assim, às 4 da manhã estávamos emboscados em semi-círculo frente a umas sentinelas que não se aperceberam da nossa aproximação.

Havia agora que as eliminar e para isso munimo-nos de facas e numa deslocação de verdadeiro bailado em pontas, surpreendemo-las sem grande alarido.

Num excesso de zelo que se justificava, a cada inimigo a quem espetávamos a faca, confirmávamos o seu aniquilamento com um género de forquilha com que lhe perfurávamos as entranhas.

Recuperadas todas as armas e munições que estavam naquele acampamento, apressámo-nos no regresso evitando qualquer reacção de algum grupelho que por ali andasse.

Chegámos ao quartel e reunimos para de imediato se fazer o relatório da operação.

As minas tinham inscrições em português!

Fabricadas num depósito de armamento ofensivo no Alentejo!

Estavam numeradas.

O explosivo, líquido e escuro, desaparecera, deixando-nos sem qualquer hipótese de o estudar.

Tivemos sorte pois deve ter-se vertido sem contudo provocar qualquer acidente.

Não era corrosivo o que afectaria o soldado que o trazia no burnal caso lhe chegasse à pele.

Tinha o nome de código Chaminé.

Passámos ao segundo ponto do relatório.

O inimigo era muito numeroso mas apanhado de surpresa como foi, soube-nos a pouco.

As facas, esmeradamente afiadas, cortavam as fatias do lombo do porco com batatas e castanhas de maneira exímia.

Não ficou nenhuma para contar como foi!

O bacalhau bem tentou fugir mas não conseguiu!

Finalmente, o inimigo dos inimigos apareceu disfarçado de leite creme, de toucinho do céu, de tiramisu, mas teve a mesma sorte: completamente dizimado!

Demos por terminado o relatório e todos o assinaram.

Uma última formatura e cada um seguiu para a sua caserna para um merecido descanso.

Pessoalmente dormi como um justo mas acordei cedo com uma dor de cabeça dos diabos.

Estávamos a 10 de Novembro de 2010, 39 anos depois de um outro incidente em Augusto Barros com direito a Panhards e tudo.

Recordações dum guerreiro que diz daquela longínqua guerra o que Moisés não disse do toucinho!

António Matos

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Nota de M.R.:

Vd. último poste deste autor em:

8 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7243: (Ex)citações (106): Netos ou peluches, tudo por uma boa saúde mental! (António Matos)

Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)


1. O nosso Camarada Manuel Joaquim, ex-Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419/BCAÇ 1857, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67, enviou-nos, com data de 5 de Novembro de 2010, uma mensagem cuja primeira parte foi publicada ontem no poste P7261 e vinha acompanhada da seguinte introdução:


Camaradas,

Envio-vos um texto e fotos, sobre um menino balanta-mané, o JM meu "familiar" desde 1967, quando o trouxe da Guiné e que hoje ronda os 50 anos de idade (estou mesmo velhote!).

Tentei que o relato não fosse tão extenso mas não consegui. Aliás, o tema tem bem por onde se pegar e se desenvolver.

Mas este relato limita-se a dar uma ideia do porquê da vinda do menino para Portugal e suas peripécias, do ambiente familiar que encontrou, do seu regresso à Guiné em 1978, do encontro com seus pais e do seu regresso a Portugal, onde reside atualmente.

As fotos são minhas. Não sei se acham interessante a formatização do texto do Apêndice com selos da Guiné-Bissau. Fi-lo porque este texto é quase todo composto por excertos de correspondência por mim recebida, vinda do meu JM. [O texto segue as normas do acordo ortográfico em vigor].

2. ADILAN, nha minino.  Ou como se fica com um menino nos braços (2ª Parte)

APÊNDICE

Texto e imagens: © Manuel Joaquim (2010). Todos os direitos reservados.

Oito meses após a sua chegada à Guiné,  JM escreve aos padrinhos para os informar que tinha encontrado os seus pais. Seguem-se excertos de correspondência:
Bissau, 1/9/1978
(...) Agora tenho-lhes a dar uma excelente notícia que não irão acreditar! A descoberta da minha família, não acreditam? Então aí vão os nomes: pai, Adjula (...); mãe, Fati (...); irmã, Fulô (...) e eu, ADILAN (…).
Através do (...) de Bissorã, um dia eu e uns tipos do Partido resolvemos fazer umas buscas pela zona de (...), antes de lá chegarmos já lá tinham ido (...) interrogar as pessoas (...), acerca de um jovem que tinha sido levado pequenino para Portugal, não conhecia as suas famílias, (...) morava naquela região, enfim manga de coisas (...).
(...) uma pessoa da tabanca sobressaiu-se dizendo que tinha um filho muito pequenino (4 anos) que estava a guardar o milho com um outro miúdo qualquer e que os tugas (desculpem-me a expressão) tinham-no prendido e levado para Bissorã e mais tarde para Portugal. (...) lhe perguntou se o filho tinha qualquer sinal (...) ela respondeu:
- Sim, tem uma cicatriz no lado direito (na cara). Tem uma orelha furada no lado esquerdo. Um pouco atrapalhado a falar.
( ... ) estas respostas levaram-nos no dia 26/8/78 a ir certificar-nos. ( ... ) eu + 3 pessoas, incluindo um intérprete especial do balanta ( ... ). Chegámos a um lugar totalmente diferente daquele ( ... ) que eu tinha em mente, terreno plano ( ... ) arroz por todos os lados ( a minha cabeça começou em funcionamento como se estivesse a jogar xadrez com o padrinho e tivesse perdido a raínha, as torres e os bispos todos sem que o adversário sofresse nada e chegou o momento da pergunta, «Como será possível que estas pessoas passem tanta fome com tanto arroz semeado?» Veio logo o xeque-mate. «Não vês que esse arroz depois de cortado vai para Bissau e aí é consumido ( ... ) o que chega aqui é um tudo de nada que mal chega para a cova de um dente?» ( ... ) e calei-me, pois com o xeque- mate não há nada a fazer).
A tabanca estava quase vazia, só duas criancinhas mal sabiam o que era a vida é que estavam cá fora a brincar (o resto estava tudo na bolanha) mal tentamos aproximar-nos destas, sumiram-se logo ( ... ) Não havia nada a fazer senão esperar ( ... ).
( ... ) começam a chegar pessoas da bolanha (o meu coração aumentava cada vez mais enquanto o seu batimento era triplicado), esqueci-me de referir que as pessoas de ( ... ) se tinham refugiado no Senegal, a maioria delas, lá ao fundo uma velhinha ( ... ) vem calmamente andando com o seu cesto de encomendas à cabeça, chega junto de nós, pára e calmamente põe o cesto no chão e a primeira coisa em que ela põe o sentido é em mim, olha-me dos pés à cabeça, de trás e de frente enquanto eu me limitava a seguir os seus gestos até que chega um momento e o intérprete lhe pergunta em balanta:
- A senhora (mulher-grande) foi quem perdeu um filho?
- Fui.
- E como o perdeu, em que lugar, como era ele, em que altura foi?
Respondeu ( ... ) igual ao que está escrito atrás.
- Acredita que ele está vivo? ( ... )
A mulher grande baixou a cabeça chorando que nem uma perdida e respondeu não, um não de raiva, ele está morto e mesmo se ele estiver vivo nunca voltará aqui ( ... ) o pessoal da tabanca juntou-se todo à nossa roda, escutando com atenção o que se estava a passar, chorando também. No meio ( ... ) estava uma jovem, olhos castanhos, orelha furada do lado esquerdo, a mesma cicatriz e do mesmo lado, cor igual à minha ( ... ) de nome FULÔ ( ... ), e que a mulher-grande dizia ( ... ) era a minha única irmã, era autenticamente o meu retrato ( ... ).
Para acalmar os choros todos o intérprete disse que o tal rapaz era eu, euforia por parte da Fulô que se lança aos meus braços, beijando-me e abraçando-me com toda a sua força ( ... ) a mulher grande dançava, pulava, gritava, enfim foi uma tarde triste-alegre.
As pessoas juntaram-se todas à minha volta e levaram-me ( ... ). ( ... ) diziam que é o meu pai, que estava de cama (doente), este saltou da cama abraçou-me beijou-me até nunca mais parar. Queriam matar galinhas, porcos, ( ... ), enfim manga de coisas, falavam sempre comigo em balanta mas eu limitava-me a abanar a cabeça, eu disse-lhes que não podia ser, ( ... ). ( ... ) era muito tarde e a visita era curta e que ficaria para outro dia, comprenderam e guardaram tudo para Dezembro ( ... ) para eu não faltar em Dezembro.
Regressamos ( ... ), queriam que levasse um porco para Bissau mas era grande de mais ( ... ).

Quase um mês após este encontro, JM volta a falar dele e a relatar algumas cenas com mais pormenores, aflorando algo que o está a incomodar e que é o grau de emoção sentida, que sente muito abaixo do nível que tinha imaginado:
Bissau, 28/9/78
( ... ) Não tenho a certeza se a carta que lhes escrevi ( 1/9/78) irá aí parar ( ... ) mas vou-lhes relembrar ( ... ) passagens de interesse que nela iam.
Desde o primeiro dia que cheguei à Guiné-Bissau, perguntavam-me sempre pela minha família! a resposta era sempre estão mortos. Eles estão vivos e tu é que não os conheces (diziam-me).
( ... ) há uns dias atrás um ( ... ) de Bissorã ( ... ) descobriu uma família reduzida a três pessoas ( pai, mãe e filha ), faltando um filho que essa família dizia que tinha ido para Portugal levado por um soldado ( ... ) se ele estivesse vivo nunca mais voltaria ( ... ) por várias razões, condições melhores, com 4 anos já não se lembra nada da família ( ... ).
Então num fim de semana do mês passado fomos certificar-nos ( ... ) eu poderia pertencer a essa tal família ( ... ).( ... ) A mulher-grande da família foi interrogada em balanta por um intérprete ( ... )
- Qual o nome do seu filho que perdeu? R: - ADILAN ( ... )
- Em que ano o perdeu? R: – Em 1966.
- Idade que tinha quando o perdeu? R: – 4 anos.
- Que sinais tinha? R: – Um corte nas costas, quando lhe estava a cortar o cabelo caiu-me a faca, ( ... ) lado esquerdo orelha furada, olhos castanhos, um pouco gago ( ... ) sinal do lado direito marca dos meus filhos.
E baixou a cabeça chorando e dizendo: Ele nunca mais voltará... nunca mais voltará... um filho é uma fortuna que uma mãe nunca poderá perder mas eu perdi o meu... (...).
( ...) apresentado a essa família que sem perder um mínimo de tempo se lançou aos meus braços dizendo que eu era o seu filho . Será verdade pelas interrogações feitas e pelas respostas dadas, mas o meu coração não se inclina a aceitar por enquanto esta nova família, porque será? Esta é para vocês me darem a resposta o mais urgente possível. S.F.F. não se esqueçam.
Mas dentro desta família houve uma pessoa que me confundiu muito a cabeça, a tal filhinha de cor mulata, olhos castanhos, lábios finos, sinal do lado direito da cara, uma só orelha furada do lado esquerdo ( ... ) diziam que ela era realmente o meu retrato e devia sem dúvida ser a minha própria irmã, eu acredito que seja , não só pelas suas características serem idênticas às minhas mas também pela reacção quando me abraçou: ADILAN, ÉS TU PRÓPRIO O MEU IRMÃO! ADILAN, FALA! ( ... ). Eu não podia fazer nada senão limitar-me a fechar a boca porque não só o meu coração não se inclinava para o sim mas também residia e ainda reside a incerteza em mim.
Depois de um grande choro e lágrimas por todos os cantos veio ( ... ), canções de alegria, palavras de carinho, ( ... ) uma farra que não foi grande farra pelo meu coração não o querer e não sentir ainda aquele amor que devia sentir pela família ( ... ).

Fiquei preocupado com os problemas de índole afetiva que surgiram ao JM, ao encontrar seus pais e irmã, e não demorei a responder-lhe. Se bem me lembro, a minha resposta é um derramar de afetividade mas também leva como que um pedido de desculpas da minha parte, por me ver o causador de tais problemas. A contra-resposta aparece já um pouco fora de tempo (mais de três meses depois) e, surpresa, é muito agradável para mim, um alívio, um “docinho”.
Bissau, 6/2/79

( ... ) Na frase seguinte, o padrinho diz: “ se achas que eu teria feito melhor deixando-te pelo Oio, não me recrimines. Perdoa lá. Não foi com más intenções ( ... )”. Esta frase, apesar de ser optativa, deixou-me um pouco aborrecido, o que seria agora de mim se eu tivesse ficado no Oio? Estava agora vivo? Seria um Adilan vestido com calças e camisa? Seria um rapaz sentado numa secretária? ( ... ) a melhor coisa que fez, e agradeço-lhe por isso, foi levar-me como menino e trazer-me como homem, muito obrigado padrinho (as boas intenções nunca se recriminam). ( ... )

Mas o problema continua por resolver, mais de um ano depois:
Bissau, 1/5/80

( ... ) pois o problema trata-se da família. Família essa que dentro de mim não a sinto ainda (não sei porquê ) como verdadeira minha família e que neste momento me está trazendo várias complicações ( ... ) quer que eu siga todos os seus costumes, religião, que faça juntamente com eles os seus festejos (comprando vacas e porcos) e tradições ( fanado, chôro e demais coisas existentes nestas tradições ) e que finalmente case com a mulher que eles entenderem que devo casar, ( ... ) até a este momento não chegamos a um entendimento, o que pensarão vocês acerca deste assunto? (queria que me dessem uma opinião, se possível na próxima carta). ( ... )

O padrinho, eu, bem tenta entrar nestes problemas, dá os conselhos comuns e começa a vislumbrar o caso como difícil. Confia no tempo e aposta na desdramatização. Mas, perante o tipo de incompatibilidades surgidas, o que se prenuncia é o afastamento emocional da família pois a distância cultural é muito grande para haver hipóteses de aproximação funcional e afetiva entre estes dois mundos.
E o tempo foi passando, assim.
Bissau, 13/1/81
( ... ) Quanto à minha família tudo continua como dantes, as dúvidas persistem, até quando? Eu propriamente não sei explicar-vos porquê mas não consigo, mesmo que queira, considerá-los como um verdadeiro filho considera os seus pais e os estima verdadeiramente, eu não consigo adaptar-me e como farei, padrinho?

Bissau,17/3/81

( ... ) O amor de um filho pelos pais não existe ainda em mim ( na Guiné ). ( ... ) para mim esse amor existe e existirá sempre em Lisboa. Não quer isto dizer que eu nego os meus parentes, nada disso ( ... ). ( ... )

De vez em quando aparecem as saudades de Portugal (um contra-peso ?).
Bissau, 19/10/81
( ... ) Quando falam no nome de Casal Novo sinto uma coisa dentro do meu coração, recordar esta bela aldeia, as suas gentes, a amabilidade desta pequena povoação, enfim um paraíso para não esquecer nunca mais - ali nasceu e cresceu a infância de um pretinho de nome ( ... ) - obrigado CASAL NOVO, obrigado madrinha PIEDADE, padrinho ZÉ BISPO, ti JQUINA e ti MANEL, ti SANTIEIRA e ti RAINHO, mas não perdi a esperança de um dia poder voltar a essa belíssima aldeia... não perdi a esperança ( ... ).
Uma das últimas vezes em que se refere ao tema, que o tempo parece estar a resolver, aborda mais uma vez a aldeia da sua infância:

Bissau, 25/1/82
( ... ) A família continua a ser um caso cheio de casos ( ... ), continuo com aquele pensar que sempre tive desde a infância, que não tenho família e que ela morreu na guerra ( ... ) e, como não poderia deixar de ser, continuo a pensar cada vez mais em vocês, e no Casal Novo, ninguém me tira ou tirará esta ideia ( ... ).( ... )
E o tempo, em vez de consolidar os vínculos com a família natural e com a tabanca natal, vai os desvanecendo e, em contrapartida, vai fortalecendo a ligação afetiva com a família portuguesa e com a aldeia da sua meninice. Nota-se alguma emoção no relembrar o Casal Novo e seus habitantes.

Bissau, 29 de Setembro de 1983
( ... ) Essas belíssimas férias como foram passadas? Foram até ao Casal Novo? Falando daquela terra, as saudades são imensas, lembro-me ( ... ) a ajudar a madrinha no corte do milho, na apanha da azeitona por aqueles cerrados abaixo, encostas e ladeiras, aquele amor que os vizinhos tinham por mim, enfim lembro-me sempre do Casal Novo e da sua gente, daqui um abraço para eles todos, dêem-lho por minha conta e digam-lhes que ainda estou vivo e não perdi a esperança de ir visitá-los, era este ano mas gorou-se, penso que será para o ano. ( ... )
Não foi “para o ano”, como ele pensava. O ansiado encontro só se concretizou sete anos depois.
FIM
Sintra, Outubro de 2010
Um abraço,
Manuel Joaquim
Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419 do BCAÇ 1857
Emblema de colecção: © Carlos Coutinho (2010). Direitos reservados.
Fotos: © Manuel Joaquim (2010). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:

10 de Novembro de 2010 >
Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)