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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28464: In Memoriam (593): Victor Costa (1952-2026), ex-fur mil at inf, CCAÇ 4541/72 (Safim e João Landim, mar-ago 1974); era natural de Lavos, Figueira da Foz


Victor Costa (1952-2026), ex-fur mil at inf,  CCaç 4541/72 (Safim, 1973/74). 
Empresário, ligado à aquacultura marinha no rio Mondego, natural de Lavos, Figueira da  Foz.


1. Mensagem do António Murta (ex-alf mil at inf, MA, ex-alf mil MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74): 


Data - sábado, 24/10/2026, 22:49 
Assunto -  Falecimento do Victor Costa

Olá, Luís Graça e Carlos Vinhal.

Soube hoje, por mero acaso, que faleceu o Vitor Costa, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 4541/72, nascido em Lavos - Figueira da Foz em 1952 e membro da nossa Tabanca Grande. (*)

Sei também que o seu funeral foi hoje dia 24, mas não tenho mais informações.

Abraços para vocês do
António Murta.


Foto do BI Militar do Fur Mil At Inf Vitor Manuel Ferreira Costa,
 emitido pelo cmtd do R.I. Coimbra, com data de 11 de outubro de 1975. 
(Imagem melhorada com recurso a IA / Google AI)


2. Comentário do editor Luís Graça:

2.1. O Victor tem 23 referências no nosso blogue, Passou a sentar-se sob o nosso poilão, no lugar nº  855, a partir de 30/11/2021, ainda  o tempo da pandemia. Vivia em Bizorreiro, Lavos, Figueira da Foz. A sua morte é também confirmada pela Funerária Oliveira, da Figueira da Foz. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Lavos. Tinha 74 anos.

Foi um dos últimos soldados do império, tendo regressado a casa em 3/10/1974.

(...) O meu nome é Victor Manuel Ferreira Costa, sou natural da freguesia de S. Julião da Figueira da Foz e resido na freguesia de Lavos do mesmo concelho. Nasci a 17 de abril de 1952.

Fui recenseado pelo DRM 12 de Coimbra, com o NM  01271573, e incorporado em 26 de abril de 1973 no RI 5 das Caldas da Rainha (...).

No fim da recruta, fui transferido para o CISMI de Tavira, tendo completado o curso de sargentos milicianos de infantaria na especialidade de atirador de infantaria. De acordo com a minha classificação, passo à categoria de rendição individual.

Colocado no CICA 2,  da Figueira da Foz, exerço a função de instrutor, durante 4.º turno de 73 e o 1.º turno de 74.

Mobilizado em 4 de março de 1974 para a Guiné, benefício de 10 dias de licença e no dia 16 de março do mesmo ano, a bordo de um Boeing 727 da FAP, chego ao aeroporto de Bissalanca e daí em transporte rodoviário para Bissau, a fim de render um camarada, fur mil, morto em combate na região de Bafatá.

Fico instalado no QG/CTIG e aguardo ordens, que chegam uns dias depois: fazer o espólio de guerra do camarada acima citado.

No final do mês de março, , sou colocado na CCaç 4541/72, em Safim.


Guião da CCAÇ 4541/72 (Caboxanque, Jemberém, 
Cadique, Cufar e Safim, 1972/74).
Coleção: Carlos Coutinho (2009) (
com a devida vénia...)
Nesta unidade é-me atribuído o comando de uma secção constituída por mim, 3 cabos e 7 praças e dou início à minha actividade operacional realizando patrulhas e controlos em João Landim Sul, Impernal, arredores da BA 12 e Capunga. E a norte do Rio Mansoa no destacamento de João Landim Norte, s
egurança e patrulhas do Rio Mansoa até Bula.

Em maio de 1974, fui eleito membro da delegação do MFA na CCaç 4541/72.

Regresso à Metrópole a 3 de outubro desse ano,  em avião da FAP. (...)

2.2. Em 27 de novembro de 2021,  o Victor pediu para se sentar â sombra do nosso poilão nestes termos (*):

(...) Há cerca de dois meses que tenho conhecimento desta vossa iniciativa e desde então que tenho seguido uma pequena parte das vossas publicações, mas nem preciso de ver mais para considerar este trabalho muito importante para que se escreva a verdade histórica sobre o que foi a Guerra Colonial e em particular na Guiné.

Não há em Portugal consciência da coragem manifestada por estes combatentes neste teatro de guerra, apesar da insuficiência quer em quantidade quer na qualidade do nosso equipamento militar, comparado ao do IN.

É também a nossa obrigação, darmos a conhecer aos nossos netos este período da nossa vida, resistirmos e denunciarmos a manipulação dos factos feita por alguns jornalistas sobre os nossos heróis com o intuito de apagar a história, nomeadamente o 25 de Novembro de 1975.  (...)


Guiné > Região de Bissau > Safim > CCAÇ 4541/72 > Abril de 1974 > O Victor a ler o jornal "República"... Nos balneários do aquartelamento. Não sabemos a data precisa da foto, se antes ou depois do 25 de Abril. Foto original, a preto e branco, reconstituída e colorizada com recurso à IA.

Foto (e legenda): © Victor Costa (2022). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / OPen AI)]


2.3. Não nos conhecíamos pessoalmente. Nem o António Murta o conhecia, apesar de ambos residirem no mesmo concelho. O Victor era um pequeno empresário (desde 1976, mais tarde ligado à aquacultura marinha no Rio Mondego, segundo ele nos  informou).  E chegou a dar-nos conta, num ou noutro  poste,  das atribulações da sua vida profissional após a "peluda" . 

Era uma homem que não escondia as suas opiniões,  preferências ou paixões políticas. Fora nomeado delegado do MFA, eleito em maio de 1974 pelos seus camaradas  da CCAÇ 4541/72 (que ele apenas  conhecera em Safim, já no fim da comissão).  Mas considerava-se, ironicamente, um "reacionário", tendo sido de "esquerda", e leitor em Safim do "República".

Mesmo sem já  não ser do seu tempo, manifestava grande apreço  pelo antigo governador e comandante-chefe, o general António Spínola, para ele  simbolo das velhas virtudes militares.

Também expressou  aqui, por diversas vezes, com frontalidade,  a sua divergência em relação ao rumo que o MFA seguiu no CTIG (e depois na Metrópole). 

A CCAÇ 4541/72 terminou a sua comissão e regressou a casa em 25/8/1974. O Victor, que era de rendição individual, ainda ficou em Bissau até 3/10/1974.

À família, ao seu filho (que vive nos EUA, segundo cremos)  e amigos íntimos deixamos aqui a nossa solidariedade na dor. Em nome pessoal e da Tabanca Grande.  O Victor continuará a ser lembrado pelos seus antigos camaradas  (LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 7 de outubro de 2026 > Guiné 63/74 - P28411: In Memoriam (592): Joaquim Ganhão, natural de Moura (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965)

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26228: Operação Grande Empresa, a reocupação do Cantanhez e a criação do COP 4, a partir de 12 de dezembro de 1972 - Parte I: O que diz a CECA



Guiné > Região de Tombali > Rio Cumbijã > Proximidades de Caboxanque (?) > Op Grande Empresa (que começou em 11 e 12 de dezembro de 1972) > LDM > Imagens do 1º cabo apontador da HK21, Victor Tavares, CCP 121 / BCP 12, ao centro.

Fotos (e legenda): © Victor  Tavares (2022).Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I. Há dois anos publiquei o poste P23910 (*), no dia a seguir ao Natal... Justamente sobre a reocupção do Cantanhez, em finais de 1972, seis anos depois de ter sido proclamada pelo PAIGC como "área libertada"... 

E aproveitei para usar estas duas fotos do álbum do nosso grande paraquedista, da CCP 121 / BCP12, o ex-1º cabo Victor  Tavares, o homem da HK21 e comentar, com a bonomia, a candura e  o pacifismo próprios da quadra natalícia, essa Op Grande Empresa em que ele e os seus camaradas do BCP 12 estiveram empenhados, bem como outras unidades, quer da Marinha quer do Exército... O que lhe escrevi, acho que merece ser relembrado, agora, a escassas três semanas do Natal de 2024 (mais um, há dois mil anos, sem paz na terra).

"Victor, há natais que nunca mais se esquecem. E menos ainda as guerras por onde andámos.  Em março de 2008 tive ocasião de conhecer o que restava do Cantanhez do teu tempo. Um verdadeiro inferno verde. Deslumbrante mas onde ainda havia marcas de guerra. Tudo nos falavava da guerra que por ali passara, há 40 an0s, mesmo no mais recôndito da floresta onde se escondiam os irãs dos nalus... 

"O silêncio da floresta não conseguia abafar os muitos anos de guerra e as bombas que lá foram largadas, incluindo as de napalm... 

"A Op Grande Empresa foi um duríssimo golpe para o PAIGC e o orgulho de Amílcar Cabral.  Caía por terra o último dos mitos, o dos dois terços de território libertado... 

"Doravante, o PAIGC iria sobretudo refugiar-se nos santuários para lá das fronteiras, na Guiné-Conacri e no Senegal, onde poderia mais facilmente usar as armas pesadas e os camiões russos.

"É claro que neste tipo de território, de extensa floresta-galeria, cruzada por míríades de cursos de água, não há áreas controladas nem libertadas... Mas a resposta do PAIGC foi a do costume: fugir para se reagrupar... A resistência das suas tropas foi fraca, não foi capaz sequer de defender a sua população... 

"Mas também é verdade que Spínola estava a gastar os seus últimos cartuchos... E um mês depois Amílcar Cabral seria abatido como um cão pelos seus homens...  (A mando de quem ?  Dos seus inimigos, internos e externos). E três meses depois, em 25 de março de 1973, há um  'strela', vitorioso, apontado ao coração da nossa Força Aérea.

 
Victor Tavares (ex-1º cabo pqdt,
apontador de HK21
CCP 121/ BCP 12, BA 12,
Bissalanca, 1972/74;
natural de Águeda,
é membro da Tabanca Grande
desde 6/10/2006)
"E tudo isto, para quê, Victor? Nada disto valeu a pena, incluindo o sacrifício inútil
de
 milhares de jovens combatentes de ambos os lados, das dezenas de milhares de mulheres, crianças e velhos da população civil, afinal as grandes vítimas do conflito... 

"Nada, de resto, que tirasse o sono ao Amílcar Cabral ou ao Sékou Touré,  ou ao Spínola ou ao Marcello Caetano, para não falar dos donos do mundo bipolarizado, a ex-URSS e os EUA, o Nixon e o Brezhnev, respetivamente.

"No que nos dizia respeito mais diretamente, Spínola estava já numa relação de divórcio litigioso com o chefe do Governo... Este por sua vez exigia que o exército continuasse a lutar na Guiné com os escassos meios que de dispunha...E até já admitia a sua derrota militar, mas o mais importante era não hipotecar, do ponto de vista jurídico e político, as conmdições a continuação da   defesa das 'joias da coroa', Angola e Moçambique... Sim, por que o resto eram 'peanuts'...

"Entende isto, Victor, como um 'devaneio de paz natalícia', e que não pretende de modo algum pôr em causa a qualidade excecional da tua subunidade (CCP 121) e da sua unidade (BCP 12) nem muito menos o grande combatente, 
de corpo inteiro, de grande coragem e estofo moral que tu foste." (...)


II. Dois anos depois, está na altura de conhecer, em mais detalhe, os planos que, os nossos "maiores", desenharam para a Op Grande Empresa... Voltaremos a falar dela...E. com graça, da maneira como um trio, Spínola e dois dos seus adjuntos, "cozinharam a coisa"... 

Um deles é membro da Tabanca Grande...E quis partilhar comigo, já por mais de uma vez, 
esse "segredo" (que já não de Estado)... 
(Refiro-me ao cor inf Mário Arada Pinheiro 
a quem já pedi autorização para publicar essa conversa, "top secret", que teve com o Spínola, o major Baptista, chefe da Repartição de Operações; era então, o major Pinheiro o comandante de 13 mil tropas africanas...).

De qualquer modo, importa sublinhar qiue a Op Grande Empresa, que se arrastou +por mais de ,meio ano (12Dez / 07Jul73), foi  "uma das mais complexas e difíceis travadas em qualquer dos três TO africanos, pelas Forças Armadas de Portugal" (...), face  à envergadura dos meios humanos e materiais necessários e empregues, oriundos do Exército, da FAP e da Marinha.(diz-se npo sítio da História dss Tropas Paraquedistas Portuguesdas). 
 
Foram empenhadas:
  • como forças de intervenção, três CCP/BCP 12 e o DFE 1 (Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 1), depois substituído pelo DFE 12; 

  • como forças de quadrícula, três Companhias de Infantaria, uma de Cavalaria, três Pelotões de Artilharia e uma Companhia de Engenharia; 

  • como força de apoio atuou um CFT (Cmd de Força Tarefa/Marinha), com duas LDG (Lancha de Desembarque Grande), quatro LDM (Lancha de Desembarque Média), uma LFG (Lancha de Fiscalização Grande), duas LFP (Lancha de Fiscalização Pequena) e, a pedido do Cmdt da operação à FAP, os indispensáveis e disponíveis meios aéreos. 
"O objetivo principal foi a reocupação da região do Cantanhez, no sul da Guiné, a qual há muito tinha sido abandonada, decorrente da retração do dispositivo militar e, como consequência, livremente ocupado pelo PAIGC, onde criara uma embrionária estrutura política e administrativa, apoiada por relevantes forças de guerrilheiros. 

"O difícil objetivo foi atingido, atuando-se em duas vertentes, a operacional através de uma intensa e permanente atividade em toda a zona, que conduziu à desarticulação da dispositivo IN, e outra vertente mais estrutural, tendo sido implantados rapidamente quatro aquartelamentos para as NT, depois mais um outro; concomitantemente foram concentradas as populações da área em aldeamentos de muito boa qualidade, construídos para o efeito, com mão de obra dos próprios e material fornecido, tudo sob orientação das NT. 

"As condições de vida asseguradas às populações, nomeadamente médico-sanitárias, e as ações psicológicas exercidas sobre as mesmas na região, afetaram severamente as forças adversas que, consequentemente, se viram privadas do apoio da população, mormente das colheiras do arroz das produtivas bolanhas. 

"Em cerca de quatro meses foi contruída também uma estrada alcatroada, com cerca de 13 Km de extensão, ligando Cadique a Jemberém, desmatando-se para tal uma zona onde apenas havia uma picada que, na sua maior parte e devido à altura da vegetação, quem nela circulava não via o céu."




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Península de Cubucaré > Cantanhez > Cananima > 9 de Dezembro de 2009 > c. 18h > Imagens da comunidade da aldeia piscatória de Cananima, na margem direita do Rio Cacine, frente a Cacine.

Fotos (e legenda): © João Graça (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Operação "Grande Empresa" - Parte I


A Directiva n" 19/72 de 29Nov do Comandante-Chefe tem de assunto a "Criação do COP 4". 

Transcrevem-se os primeiros quatro pontos:

"1. No quadro da manobra de contra-subversão a conduzir de acordo com a Directiva para a época seca de 1972-73, a execução de reordenamentos nas áreas de Caboxanque, Cadique e Cafine, para recuperação das populações da região do Cantanhez, é uma das concretizações de maior alcance do esforço da manobra socioeconómica que se pretende desenvolver no Sul da Província.

2. Considerando:

- que o lN pode vir a empenhar elevado potencial na região do Cantanhez, para obstar à execução daqueles reordenamentos;

- que o Sector S3 não tem capacidade de exercício de comando para o cumprimento desta missão específica, face à missão que atualmente já lhe está cometida;

determino a criação do COP 4 sob o comando do tenente-coronel Pqdt Sílvio Araújo e Sá, apoiado pelo Cmd/BCP 12.

3. O COP 4 fica na dependência directa do CCFAG, sendo-lhe atribuída a seguinte missão, meios e ZA:

a. Missão

- implanta destacamentos militares nas áreas de Caboxanque, Cadique e Cafine e desenvolve imediatamente e com a maior intensidade os trabalhos de construção de reordenamentos nas referidas áreas;

- recupera as populações sob controlo do lN e cria as condições psicológicas que permitam a aceitação voluntária dos reordenamentos;

- desenvolve adequada actividade militar em ordem a garantir a segurança das populações, trabalhos de reordenamento e meios materiais;

- limita a iniciativa militar ln na região de Cantanhez por actuação sobre os seus dispositivo militar, aparelho militar de controlo e segurança das populações e infraestrutura político-administrativa existentes na área;

- desenvolve permanente ação psicológica sobre as populações de modo a que aceitem a presença das NF, colaborem na construção dos reordenamentos e, progressivamente, adiram ao programa de promoção socioeconómica em curso na Província.

b. Meios

- 2 CCP do BCP 12

- 2 DFE (1 Destacamento a atribuir posteriormente)

- CCaç 6

- CCaç 4540/72

- CCaç 4541/72

- CCav 8352/72

- Destacamento de Cabedú

- 1 Pel Art 14 cm (T) a 2 Sec BP.

c.ZA
  • Foz do R. Cumbijã, curso do R. Cumbijã até Guileje 3 A5-I5,
  • R. Demba Chiudo, Guileje 2 G3-45, Guileje 2 F7-23, R. Dideregabi,
  • R. Cacine até à foz.

4. Atribuo alta prioridade à missão do COP 4. Consequentemente, impõe-se desde já iniciar com maior intensidade os trabalhos que permitam a instalação dos destacamentos e a execução dos reordenamentos de Caboxanque, Cadique e Cafine que, em linhas gerais, se deverá processar nas seguintes fases:

a. 1ª Fase - Preparação (desde já e até 08Dez72)

(1) Realização de ações ou operações na região do Cantanhez ou de Catió com a finalidade de aniquilar o ln e criar condições psicológicas que facilitem a aceitação por parte das populações dos futuros reordenamentos.

(2) Preparação das Unidades (pessoal e material) para a execução da 2ª. fase e transporte para Cufar dos materiais considerados indispensáveis.

b. 2ª Fase - Implantação (de 08 a 16Dez72)

(1) Transporte e desembarque das forças responsáveis pela implantação dos destacamentos e do material necessário, atendendo ao seguinte:

- Os destacamentos de Cadique e Caboxanque devem ser estabelecidos simultaneamente ou então apenas com um dia de intervalo, mas neste caso o de Cadique tem prioridade.

- Não devem concentrar-se simultaneamente em Cufar efetivos superiores a 1 Comp, além dos atualmente lá existentes.

(2) Desenvolvimento da atividade militar que garanta a necessária segurança à implantação dos destacamentos e à recuperação das populações.

c. 3ª Fase - Consolidação ( a partir de 16Dez72)

(1) Consolidação da ocupação militar e desenvolvimento dos trabalhos de reordenamento.

(2) Desenvolvimento de actividade operacional em proveito da segurança dos destacamentos e populações recuperadas. [... ]"

• Para cumprimento da Directiva n° 19/72, o COP 4, com sede em Cufar, integrando o subsector de Bedanda e a área do Destacamento de Cabedú, ambos transferidos do BCaç 4510/72, teve início em 12Dez72 e a extinção em 02Ju173 .

• Para concretizar a missão, foi decidido executar a Operação "Grande Empresa" de cujo Plano de Operações, elaborado pelo Comandante do COP 4 e datado de 01Dez72, se reproduzem as "Situação", "Missão" e "Execução".

1. Situação

a. Forças Inimigas

Anexo B (Informações) (omitida)

b. Forças Amigas

(1) CDMG

- Realiza os transportes de pessoal e abastecimentos necessários, em coordenação com o CTIG, em ordem ao cumprimento da missão.

- Atribui permanentemente 1 LDM para transportes de material e pessoal.

- Garante o apoio administrativo - logístico às suas Unidades.

(2) CZACVG

- Atribui diariamente 
  • 1 "DO-27" (DCON- TMAN) , 
  • 2 "T-6" (ATAP) 
  • e 1 "ALL III" (TMAN/TEVC) 
para apoio de fogo, ligação entre os destacamentos, e evacuações, e, quando necessário, um meio aéreo para exercício de comando e PCV

- Atribui os meios aéreos necessários à execução de operações, com:
  •  "FIAT G-91" ATAP
  • "T-6" ATAP
  • "ALL III" TMAN/TASS
  • "ALL III" ATAP
  • "DO-27" DCON

- Executa e atribui meios aéreos para intenso reconhecimento da ZA, em ordem à execução do esforço e transporte de manobra em exploração imediata de informações.

- Garante o apoio administrativo-logístico das CCP.

(3) CTIG

- Fornece os meios e serviços necessários ao apoio administrativo- logístico das Unidades do Exército, à implantação dos destacamentos, e à construção dos reordenamentos.

- Liga-se com o CDMG para efeito de transporte dos meios e serviços necessários.

(4) QG/CCFAG

- Fornece uma equipa que assegura diretamente e em permanência o suporte psicológico do cumprimento da missão, considerando como finalidade primordial desta missão a recuperação das populações do Cantanhez.

- Garante o apoio de caráter técnico e logístico aos trabalhos de construção dos reordenamentos, dentro da sua esfera de ação.

(5) BCAÇ 4510/72

- Fornece ao COP4 todo o apoio, em especial em Cufar, no que respeita a instalações de pessoal e material, e ao exercício do Comando.

- Garante a segurança dos meios aéreos e do pessoal e material desembarcado em Cufar.

- Garante o apoio administrativo-logístico do destacamento de Cabedú.

(6) COE

- Colabora na interdição das zonas de passagem mais frequentes do ln, lançando campos de minas quando tal lhe for solicitado pelo comando do COP 4.

2. Missão

- Implantar destacamentos militares nas áreas de Caboxanque, Cadique e Cafine e desenvolver imediatamente e maior intensidade, os trabalhos de construção de reordenamentos nas referidas áreas.

- Recuperar as populações sob controlo do ln e cria as condições psicológicas que permitam a aceitação voluntária dos reordenamentos.

- Desenvolver adequada atividade militar em ordem a garantir a segurança das populações, trabalhos de reordenação e meios materiais. 

- Limitar a iniciativa militar lN na região do Cantanhez por atuação sobre o dispositivo militar, aparelho militar de controlo e segurança das populações e infraestrutura político-administrativa existente na área.

- Desenvolver permanente acção psicológica sobre as populações, de modo a que aceitem a presença das NT, colaborem na construção dos reordenamentos, e, progressivamente, adiram ao programa de promoção socioeconómica em curso na Província.

3. Execução

a. Conceito da Operação

- Construir quatro Agrupamentos, com a missão específica e particular:

- Agrupamento de Forças de Intervenção (Agrup I) - Assegurar a proteção afastada dos reordenamentos, executando ações ofensivas sobre áreas fulcrais, e interdizer ao ln as "cambanças" tradicionais.

- Agrupamentos de Reordenamento (Agrup A, B e C) - Efetuam os reordenamentos em ordem ao cumprimento da missão, e as- . seguram a sua protecção imediata e próxima.

- Atribuir aos Agrupamentos de reordenamento, a organização e funcionamento das missões específicas relativas a:

- Segurança imediata e próxima dos trabalhos de cada reordenamento.

- Organização e controlo do trabalho de cada reordenamento.

- Instalação e segurança do pessoal e dos estacionamentos temporários.

- Exercer intensa ação psicológica, procurando recuperar a população da ZA.

- Atribuir a cada Agrupamento de reordenamento, um sector de responsabilidade
para manutenção da actividade normal de rotina, em ordem a garantir uma ação efetiva e contínua na segurança próxima dos trabalhos de reordenamento, ou a ela ligada.

- Atribuir à CCaç 6 um sector de responsabilidade para manutenção da atividade normal de rotina, em ordem a contribuir para a segurança afastada dos trabalhos de reordenamento.

- Com o Agrup das Forças de Intervenção, executar ações por helitransporte ou por desembarque em meios navais, nas Zonas que possam afetar a segurança dos trabalhos de reordenamento.

- Prever a alteração das Zonas de ação dos Agrupamentos, assim como a articulação das forças, de acordo com a evolução e adiantamento dos trabalhos, e a situação na ZA.

- Anexo C (Zona de acção dos Agrupamentos) (omitido)

b. Agrupamento das Forças de Intervenção

(1) CCP 122

- Articula-se a 2 Agrupamentos a 2 Grupos de Combate.

- Após helicolocação em D-l, de um dos seus Agrupamentos na Zona x e do outro na Zona y, garante a segurança afastada das Zonas ALFA e BRAVO.

- Em D+ 1 é helirecuperada para Cufar, onde fica à ordem do Comandante do COP 4 para intervenção.

- Após helicolocação em D+4 na Zona 2, garante a seguranç afastada da Zona CHARLIE.

- Em D+5 é helirecuperada para Cufar.

- A partir de D+5 fica à ordem do Comando do COP 4 para o desempenho de missões de intervenção na sua ZA.

(2) DFE 1 (-)

- A partir de D+4 faz a interdição, em permanência, da "cambança" tradicional do ln entre Darsalame e a Ilha do Como.

c. Agrupamentos de Reordenamento

(1) Agrupamento ALFA

(a) 2 GComb/CCP 121 (-)

- Após ser helicolocada em D, em Caboxanque, contacta e controla a população, e garante a segurança imediata do desembarque da CCaç 4541/72.

- Findo o desembarque da CCaç 4541/72, passa a garantir a segurança próxima do Agrupamento em íntima coordenação com aquela.

(b) CCaç 4541/72

- Após o seu desembarque em D, em Caboxanque, procede à segurança imediata do ponto de desembarque, e colabora no desembarque do material transportado. Monta a segurança imediata do estacionamento provisório, em coordenação com a CCP 121 (-).

- Com apoio do COE, coloca em D, um campo de minas na região de Bedanda C 1; em data a indicar.

- Procede aos trabalhos de consolidação da sua defesa imediata, e instalação e segurança do pessoal e dos estacionamentos temporários.

- Procede à organização e controlo dos trabalhos de reordenamento.

- Recupera a população da sua ZA, mantendo com a mesma as melhores relações; apoia-a na medida do possível, e desenvolve adequada acção psicológica em conformidade com as instruções que lhe forem dadas.

- Mantém íntima ligação com a CCP 121 (-).

(2) Agrupamento BRAVO

(a) CCP 121 (-)

- Após ser helicolocada em D em Cadique, contacta e controla a população e garante a segurança imediata do desembarque da CCaç 4540/72.

- Findo o desembarque da CCaç 4540/72, passa a garantir a segurança próxima do Agrupamento em íntima coordenação com aquela.


(b) CCaç 4540/72

- Após o seu desembarque em D, em Cadique, procede à segurança imediata do seu estacionamento provisório, em coordenação com a CCP 121 (-).

- Procede aos trabalhos de consolidação da sua defesa imediata, e instalação e segurança do pessoal e dos estacionamentos temporários.

- Procede à organização e controlo dos trabalhos de reordenamento.

- Recupera a população da sua ZA, mantendo com a mesma as melhores relações; apoia-a na medida do possível, e desenvolve adequada acção psicológica em conformidade com as instruções especiais que forem dadas.

- Mantém íntima ligação com a CCP 121 (-).

(3) Agrupamento CHARLIE

(a) DFE 1 (-)

- Após ser helicolocado em D+4 em Cafine, contacta e controla a população e garante a segurança imediata do desembarque da CCav 8352/72, após o que colabora com esta na defesa imediata do estacionamento, em íntima coordenação
com aquela companhia.

(b) CCav 8352/72

- Após o seu desembarque em D+4 em Cafine, procede à segurança imediata do ponto de desembarque, e colabora no desembarque do material transportado. Monta a segurança imediata do estacionamento provisório, em coordenação
com o DFE 1 (-).

- Procede aos trabalhos de consolidação da sua defesa imediata, e instalação e segurança do pessoal em estacionamento temporários.

- Procede à organização e controlo dos trabalhos de reordenamento.

- Recupera a população da sua ZA, mantendo com ela as melhores relações; apoia-a na medida do possível, e desenvolve adequada acção psicológica em conformidade
com as instruções especiais que lhe forem dadas.

- Mantém íntima ligação com o DFE 1 (-).

d. CCaç 6

- De D-l a D+ 1 bate a região de Cura- Braia em ordem a contribuir para a segurança afastada da Zona ALFA.

- A partir de D+ 1 efectua patrulhamentos da sua ZA, em ordem a prosseguir a mesma finalidade.

- Apoia o 17° Pel Art.

- Desempenhará missões indicadas pelo comando do COP 4 em ordem ao cumprimento de missão.

e. Destacamento de CABEDÚ

- Mantém apoio de comunicações, e logístico quando ordenado pelo Comando do COP 4.

- Apoia o 5° Pel Art.

f. Artilharia

(1) 17° PelArt (14 cm)

- Executa AID à ordem do Comando do COP 4, do PCV, ou a pedido das forças empenhadas, em operações dentro da sua ZA.

- Executa fogos noturnos de flagelação na sua ZA, à ordem do comando do COP 4.

(2) Pel Art (Eventual-Cufar) (14 cm)

- Executa AlD à ordem do Comando COP 4, do PCV, ou a pedido das forças empenhadas, em operações dentro da sua ZA.

- Executa fogos nocturnos de flagelação na sua ZA, à ordem do Comando do COP 4.

(3) 5° Pel Art

- ExecutaAID à ordem do Comando COP 4, do PCV, ou a pedido das forças empenhadas, em operações dentro da sua ZA.

- Executa fogos nocturnos de flagelação na sua ZA, à ordem do Comando do COP4. [... ]"

•A instalação no terreno teve início em 12Dez através de uma operação
 [1] .

A missão atribuída ao Cmdt do COP4 pelo Cmdt-Chefe através da Directiva n.º 19/72 de 22 de Nov foi concretizada conforme se comprova:

"As Companhias de Caçadores e de Cavalaria construíam os seus aquartelamentos em Cadique, Caboxanque, Cafal Balanta (e em Jemberém, mais tarde), cuja segurança imediata e próxima garantiam. Controlavam e apoiavam a população. Apoiavam e protegiam a execução dos reordenamentos e  faziam a protecção imediata e próxima à construção da estrada.

As três Companhias de Pára-quedistas e o Destacamento de Fuzileiros
Especiais actuavam ofensivamente sobre os grupos armados inimigos onde
eles fossem detectados, garantindo a segurança em toda a área a fim de permitirem a recuperação das populações e o seu reordenamento, bem como a construção da estrada Cadique-Jemberém. ,

A CMI- Companhia de Material e Infraestruturas do BCP 12 faria o apoio logístico imediato a todo o COP 4.

O Destacamento de Engenharia construiria a estrada Cadique-Jemberém
e apoiaria todas as restantes obras a realizar na Zona de Acção.

A Marinha asseguraria os transportes de pessoal e os reabastecimentos por via marítima e fluvial. Para este efeito, em 07 de Dezembro de 1972, o Comando da Defesa Marítima da Guiné criou uma Força Tarefa exclusivamente
para esta operação, o CTG6.

A Força Aérea asseguraria os reconhecimentos visuais, os transportes de manobra, as evacuações sanitárias e os apoios de fogo aéreos.

Em Janeiro, após as bem sucedidas instalações das Unidades que iam ocupar os novos aquartelamentos no Cantanhez, o dispositivo militar português na região ficou como segue:
  • Em Caboxanque [2] , a CCaç 4541/72 e a CCav 8352/72 ocupando as instalações e a CCP 122 fazendo a segurança afastada. O Agrupamento era comandado pelo Capitão de Artilharia Nelson de Matos.
  • Em Cadique [2] , a CCaç 4540/72 ocupando as instalações e a CCP 121 fazendo a segurança afastada. O Agrupamento era comandado pelo Major de Infantaria Carlos Gordalina.
  • Em Cafal   [3], a CCaç 3565 ocupando as instalações e o DFE 1 fazendo a segurança afastada.
 
- Em Bissau estava a CCP 123, em reserva, com uma prontidão de 15 minutos.

Começaram então as difíceis, melindrosas e persistentes acções de captação da confiança das populações, numa região que não via tropas portuguesas  há anos e onde o PAIGC se instalara em força, controlando todos os aspectos do  quotidiano das ditas populações. 

Durante os primeiros meses de 1973, paulatinamente, [... ] Caboxanque, Cadique, Cafal- e mais tarde Jemberém [4] - tornaram-se centros populacionais onde eram efectuadas muitas trocas comerciais, consequência da visita diária de muitas pessoas que ali acorriam vindas de aldeamentos vizinhos. 

De acordo com os Relatórios Periódicos de Informações do Comando-Chefe, naquele período, Caboxanque era a seguir a Tite e Pirada a localidade que, em toda a Guiné, tinha maior afluência de população vinda do exterior, geralmente para efectuarem trocas comerciais [... ]". [5]

• Integradas na "Grande Empresa" foram realizadas subsequentes operações
destacando-se entre outras:

 - "Cavalo Alado" (17 e 18Dez72) e "Dragão Bravo" (28 a 30Dez72) constantes da actividade operacional deste Capítulo);

- "Tamarú" (OlJan73) e "Gato Espantado" (30 e 31Jan73) constantes da actividade operacional do Capítulo III; 

- "Tigre Poderoso" do BCP 12 onde foi morto em combate, a 01Mai73, o Comandante de bigrupo que era simultaneamente Comandante Militar da área do Cantanhez"  [6].


Foto (CECA, 2015, pág. 235):  Operação "Grande Empresa": primeira missa em Caboxanque
_____________

Notas da CECA:

[1] Operação "Grande Empresa" - Actividade Operacional - 2° Semestre deste Capítulo.

 [2]    Subsectores criados em 12Dez72.

 [3]    Subsector criado em 10Jan73 e a partir de 13Mar73, com uma subunidade de reforço em Cafine, Chugé e Cobumba, ambas em 7Abr73.

 [4 ]Subsector criado em 20Abr73.

 [5] CALHEIROS, José de Moura, A Última Missão, Editora Caminhos Romanos, Porto, 2010, p.336

 [6] Relatório Op. N° 15/73, 6° período, do BCP 12. pp. 225/235
____________

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 225-235 (Com a devida vénia...).

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 26 de dezembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23919: Facebook... ando (70): A Op Grande Empresa (reocupação do mítico Cantanhez) foi há 50 anos (Victor Tavares, ex-1º cabo ap MG 42, CCP 121/BCP 12, 1972/74)

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Guiné 61/74 - P25557: Os 50 anos do 25 de Abril (24): "As gargalhadas" de Salgueiro Maia (Victor Costa, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 4541/72)


1. Mensagem do nosso camarada Victor Costa, ex-Fur Mil At Inf, da CCAÇ 4541/72 (Safim, 1974), com data de 22 de Maio de 2024:


"As gargalhadas" de Salgueiro Maia

"Salgueiro Maia - Das Guerras em África à Revolução dos Cravos" é um livro de Moisés Cayetano Rosado, de Badajoz, uma terra que também fazia parte da Lusitânia.

Salgueiro Maia foi acusado de Comunista, de fascista, foi um dos primeiros subscritores do Documento dos Nove, deixou durante algum tempo de participar nas comemorações do 25 de Abril e pediu para ser enterrado em campa rasa ao som do Grândola vila morena, o hino do MFA.

Vejamos o prefácio deste livro e o que escreveu o Sr. Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sobre o Cap. Salgueiro Maia:

Associo-me, com honra e júbilo, (...) saudando o ensaio histórico-biográfico do Sr. Professor Moisés Cayetano Rosado (...). E não encontro mais adequado modo de traduzir essa partilha (...), ocasião em que juntei às justíssimas Ordens da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito e da Liberdade, atribuídas pelos Presidentes António Ramalho Eanes e Mário Soares, a Ordem do Infante D. Henrique.

Eis o que disse em 2016.

Foi há quarenta e dois anos!

Um homem em cima de uma chaimite. Que interpela o Poder que tarda em cair, enquanto o novo tarda em chegar (...)

(...) e termina. Neste Abril de 2021, tanto ou mais ainda do que há cinco anos, toda a homenagem e indelével gratidão é devida!

Marcelo Rebelo de Sousa

Palácio de Belém, 29 de Março de 2021.

Será que o Cap. Salgueiro Maia está a rir-se lá em baixo e quer dar uma lição de História à malta, sobre Castelos, a Ordem do Templo e a Ordem de Cristo?

O Rei D. Dinis, foi um senhor muito inteligente e hábil e fez tudo quanto quis. Antes da extinção da Ordem do Templo em 22 de Março de 1312, conseguiu integrar os bens da Ordem do Templo no Reino de Portugal, mantendo assim todo o seu património intacto.

Deu umas férias Grandes aos nossos Cavaleiros Templários e mandou-os para Castro Marim para proteger e manter a nossa Elite de Cavaleiros e formar novos guerreiros. As férias só terminaram depois de criar uma nova Ordem em 26 de Novembro de 1319, a que chamou Ordem de Cristo, onde foram integrados.

O melhor agora é citar algumas partes deste livro, sobre a vida deste guerreiro lusitano que foi Salgueiro Maia que terminou os seus dias como membro e Dirigente da Associação dos Amigos dos Castelos.

Pág. 62 (...) de 1 a 3 de Junho de 1973, celebrar-se-ia no Porto um encontro que viria ser uma "resposta" ao anterior: O "I encontro de Combatentes do Ultramar" (...). É interessante constatar que a hierarquia castrense proibiu que os militares no ativo participassem no encontro. O Gen. Spínola já tinha expresso, dois anos antes, que a solução do problema da Guiné (onde era Governador e Comandante-Chefe) era política, e muitos eram os militares spinolistas do Quadro Permanente que tinham intenção de intervir defendendo esta posição.

Em 5 de Março de 1974, tinham acordado na reunião celebrada em Cascais, a aprovação do importante documento. "O Movimento, as Forças Armadas e a Nação". Dos 197 presentes, 111 assinam o documento.

A pág. 75 (...) Distribuição das missões para o Golpe de Estado do 25 de Abril. O sr. Major Otelo esclarece. "Tens alguma dúvida? Não tenho nenhuma". Queres fazer alguma pergunta? "Duas" Quais são? Primeira: Programa político, (...). Segunda questão? E o Salgueiro Maia pergunta-me. Temos Generais no Posto de Comando? Aí eu tive uma mentira necessária e piedosa e disse-lhe: Concerteza pá, podes garantir pá que temos Generais no Posto de Comando.

Era mentira, não tínhamos porque os Generais não arriscavam nada (...).

A pág. 78 (...) O Salgueiro Maia - conta Otelo -, quando lhe dei a missão, avisou-me de que os soldados só tinham uma semana de recruta, não sabiam dar tiros. Disse-lhe, não faz mal, a tua coluna vai ser a coluna de isco, traz a maior quantidade de material de combate que puderes, Chaimites, M-47, Panhares, MBR, os soldados de capacete, metralhadoras e espingardas automáticas, munições, tudo. Quem vai opor-se a uma coluna dessas? Montas o arraial todo no Terreiro do Paço. Ficas à espera. Se por acaso estiver o Ministro do Exército no Gabinete, vais prendê-lo. E vão todos ter contigo.

Eu só tive uma amante na Guiné, chamava-se G3, tratava-a por tu, dormia ao meu lado com o carregador e uma bala na câmara.

Um atirador de Infantaria que domine o tiro instintivo pode agarrar a G3 só com uma mão e acertar num alvo a 50 metros sem apontar. Para isso é necessário premir o gatilho muitas vezes e gastar largas centenas de munições.
Eu nem imagino quantas vezes terá pensado o Cap. Salgueiro Maia, no Arraial do Terreiro do Paço e na sua responsabilidade sobre os militares que utilizou. Vem-me à memória o exemplo um deles estendido ao longo do passeio, a apontar a G3, não se sabe bem para onde, perante a curiosidade de três putos ao seu lado.
A sorte protege os audazes, mas não devemos abusar da sorte e muito menos a comandar uma força constituída por militares que nunca deram um tiro.

A pág. 75 e 78 permitem compreender a sua excitação em envolver-se a partir do 25 de Abril de 1974 sem ter a certeza de que tinha Generais no Posto de Comando.

Acresce que: Consta da pág. 110 e 111. O Maj. Vítor Alves adiantar-se-ia para expressar a Spínola a sua intenção de fazer um comunicado público divulgando o Programa do MFA, com os três grandes postulados de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver, e o velho general lançar-lhe-á um "jarro de água fria":

- "Vocês são muito jovens, sem formação política, deixem isso para quem sabe, eu tenho uns amigos que trataram desse assunto".

Esta declaração é vaga, não identifica quem são os amigos e não permite identificar a linha política defendida por esses amigos.

Pág.120. A Unicidade Sindical e a liquidação dos latifúndios e entregar a terra a quem realmente a trabalha. Esta é uma conversa para parolos, porque a unicidade Sindical foi objecto de forte contestação no meio operário e, trabalhar a terra, provoca muitos calos nas mãos e dores nas costas. Dos 20.000 trabalhadores necessários para trabalhar a terra, 50.000 passaram a vida a fazer comícios, nomeadamente nas cooperativas e unidades colectivas de produção.

Pág. 121. Estes acontecimentos vão pressupor a ruptura do "aparente" entendimento do PCP e do PS, e são um alerta ao socialismo europeu, representado pelas figuras de Olof Palme e Willy Brandt os grandes apoios de Mário Soares, hostis ao protagonismo do PCP. E mais hostil ainda ao Secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, que por estes dias dirá a Soares:
- "Portugal está perdido, vai ser um novo país comunista. Vai ser uma nova Cuba".

De facto há razões para as preocupações dos líderes ocidentais. No frente a frente realizado entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, em 8 de Novembro de 1975, este defende que no PS existem duas linhas.

Os dias loucos do PREC pág. 382. (...)

Mário Soares (...). O Partido Socialista já escolheu o seu campo (...), instaurar em Portugal uma sociedade socialista, uma sociedade sem classes mas em liberdade (...). Não fará uma revolução (...) que transforme este País numa ditadura e o PCP deu provas durante estes meses de que quer transformar este País numa ditadura.
Álvaro Cunhal. - Olhe que não! Olhe que não!
(...) Álvaro Cunhal - (...) Há membros do Partido Socialista que querem as duas coisas, querem liberdade e querem socialismo. Mas infelizmente isso não parece a política do Partido Socialista (...). Pág. 382 Os dias loucos do PREC. ÚLTIMAS OFENSAS, (Promoções e outras coisas)

Pág. 142. O Sr. Maj. Gen. Adelino de Matos Coelho grande amigo de Salgueiro Maia animou-o a pertencer à Associação dos amigos dos Castelos, como membro da Associação e seu dirigente, participa em actividades sobre Património nomeadamente em Braga, Castelo Branco, Coimbra, Alcobaça, Santarém, Monsanto, Sortelha, Almada, Castelo de Vide Marvão, Évora, Beja, Olivença e muitos mais.
Não é de estranhar que Salgueiro Maia, tenha estudado o percurso de D. Gualdim Pais (1118-1195), 6.º Mestre Templário ( de 1159 a 1195).

Era de 1209. O Mestre Gualdim certamente de nobre geração, natural de Braga, existiu no tempo de Afonso, Ilustríssimo Rei de Portugal. Abandonando a milícia secular em breve se elevou como um astro, porquanto, soldado do Templo, dirigiu-se a Jerusalém onde durante cinco anos levou vida trabalhosa. Com seu Mestre e seus irmãos, entrou em muitas batalhas, movendo-se contra o Rei do Egipto e da Síria. Como fosse tomada Ascalona, partindo logo para Antioquia, pelejou muitas vezes pela rendição de Sidon. Cinco anos passados, voltou, então para o Rei que o criara e o fizesse Cavaleiro. Feito procurador da Ordem do Templo em Portugal, fundou, neste, o Castelo de Pombal, Tomar, Zêzere e este que é chamado Almourol, Idanha e Monsanto (...). José Manuel Capêlo Portugal Templário, pág. 76 e 77.

Pág. 150. Em declarações à revista "Expresso", Vasco Lourenço considerava Eanes o principal responsável pela marginalização e persecução dos militares de Abril (...). Ramalho Eanes, militar de costumes austeros e vida ascética, imparcial na execução das suas convicções, teve de enfrentar-se com líderes políticos em contínua tensão: (...).

Costumes austeros e vida ascética é um dos princípios da Ordem do Templo. O percurso militar de alguns membros do MFA, indicia que Ramalho Eanes, não era o único a seguir estes princípios: Ser o primeiro a dar o exemplo e cortar a direito é um princípio de base.

Foi no programa "O que dizem os teus olhos" de Daniel Oliveira que ouvi este perguntar ao actor Vítor Norte, também ex-combatente:
Como foi a sua Guerra na Guiné? Resposta de Vítor Norte (...) Fui para lá um puto e vim de lá um velho. Mas... Esteve lá muito tempo? Perguntou o Daniel. Dois anos, foi a resposta seca de Vítor Norte.

As primeiras Eleições livres decorreram em 25 de Abril de 1975. A eleição da Mesa da Assembleia Constituinte decorreu no dia 5 de Junho de 1975 e teve como Presidente Henrique de Barros, que deu início aos trabalhos.

O 25 de Novembro de 1975 pôs fim ao PREC e à linha do MFA que defendia o manual da Revolução de Outubro de 1917 "Catástrofe iminente e os meios de a conjurar" de Lenine. Felizmente não conhecemos o resultado de uma guerra civil em 1975.
Os trabalhos da Assembleia Constituinte foram aprovados na sua votação final em 2 de Abril de 1976.

Pág. 105. No dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o Golpe de Estado, (...). Mais tarde conta a sua conversação com Caetano: "Passei por uma antecâmara, onde se encontravam Moreira Baptista (Ministro do Interior) e Rui Patrício (Ministro dos Negócios Estrangeiros), chorando como uma criança, olhando para o infinito o primeiro. Marcelo estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno.

Pág. 154. Tem um curioso encontro com Cavaco Silva numa visita que este efectuou à EPC.

"Aproximam-se e o Coronel - Comandante da Escola diz a Cavaco. Sr. Professor, não sei se já conhece, este é o Ten-Coronel Salgueiro Maia, o Cap. de Abril que prendeu o Primeiro Ministro Marcelo Caetano... O governante sorri discretamente e cumprimenta Salgueiro Maia. Este demolidor, dispara sem pestanejar: "Prendi esse, sim senhor e prenderei outros se necessário for". Cavaco engole em seco e passa adiante, decerto pouco à vontade com tão inadequada analogia".
Salgueiro Maia não estava "para brincadeiras" com os políticos. (...).

Termina assim o autor deste livro, na pág. 190.

Caro Fernando.

Partiste cedo. Tens-nos feito cá muita falta!

Vais-te rir certamente, com a informação que te dou: depois de partires, depois de deixares de poder, causar-lhes problemas, fizeram de ti um Herói!

Vá lá, acaba com as gargalhadas. A vida e a morte são mesmo assim!

Um grande , um enorme abraço, muito amigo e de Abril!

10 de Setembro de 2021.

Baltazar Rebelo de Sousa, pai do nosso actual Presidente da República, foi Governador Geral em Moçambique, durante 2 anos e Ministro do Estado Novo de 7 de Nov. 1973 ao 25 de Abril de 1974.

Salgueiro Maia foi um guerreiro e não estava "para brincadeiras" com os políticos, ficou de forma simbólica ligado ao fim do Regime do Estado Novo.

Este guerreiro Lusitano da Arma de Cavalaria, com provas dadas em combate, é um justo merecedor da Ordem de Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito e da Liberdade.

Os políticos não faziam, nem fazem, a mais pequena ideia, do que é uma guerra. Mas quando uma guerra começa ficam a saber, o que é a verdadeira violência.

Tem razão o autor quando diz: Depois de partires, depois de deixares, de lhes causares problemas, fizeram de ti um herói.

Vá lá, acaba com as gargalhadas! A vida e a morte são mesmo assim.

Junto Capas dos livros:
"Salgueiro Maia - Das Guerras de África à Revolução dos Cravos", de Moisés Cayetano Rosado.
"Portugal Templário", de José Manuel Capêlo
"Catástrofe iminente e os meios de a conjurar", de Lenine
Contracapa do livro "Catástrofe iminente e os meios de a conjurar"
Editada para facilitar a leitura do texto

Um abraço,
Victor Costa,
Ex-Fur Mil At Inf
CCaç 4541/72

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Nota do editor

Último post da série de 20 DE MAIO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25542: Os 50 anos do 25 de Abril (23): Hoje, na RTP1, às 21:01, o 6º episódio da série documental, "A Conspiração", do realizador António-Pedro Vasconcelos (1939-2024)

terça-feira, 18 de abril de 2023

Guiné 61/74 - P24231: (In)citações (238): Da contestação da Guerra, à mobilização e regresso da Guiné, o operário de Sines e a evolução das costelas (Victor Costa, ex-Fur Mil At Inf)

1. Mensagem do nosso camarada Victor Costa, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 4541/72 (Safim, 1974), com data de 25 de Março de 2023:

Amigos e camaradas da Guiné

Cruzei-me várias vezes com Jaime Gama no CICA 2, mas apenas falei com ele 4 vezes durante um serviço comum, ele no papel de Oficial de Dia e eu no papel de Sargento de Dia. Foi o único contacto directo que tive e por isso não dá para falar do ex-Presidente da Assembleia da República, enquanto pessoa ou militar. Desse dia recordo a imagem dum individuo pouco falador, não dava nas vistas, não era vaidoso, não era militarista mas cumpria as regras. Depois da minha mobilização foi um exemplo a seguir para evitar problemas na tropa.

No final da recruta do 1.º turno em fevereiro de 1974 no CICA 2, realizou-se a semana de campo numa mata chamada Foitos, localizada na freguesia de Louriçal, apesar de decorrer sem incidentes, ficou gravada na minha memória para sempre. No penúltimo dia da dita semana, uma 5.ª feira, houve melhoria de rancho, o Vitor Costa pouco bebia e não era todos os dias que se comiam febras na brasa (rancho melhorado) e eu aproveitei a oportunidade para regar as febras com tintol. 

Com o aproximar da noite, a bebida a subir à cabeça e eufórico, decidi fazer uma sessão de esclarecimento à tropa contra a guerra colonial, estava a dita tropa já acomodada dentro das viaturas Morris cobertas com toldo. Que seca... deviam pensar os soldados, quem pensa este gajo que é. Quando terminei a sessão lá fui para o acampamento do "IN" a que pertencia, salvo erro, com a arma e as munições simuladas.

No dia seguinte, sexta-feira, com a boca ainda seca, começaram os preparativos para a tropa regressar ao quartel e o Victor Costa ia recordando as peripécias da noite anterior e nem me queria lembrar daquilo que tinha feito. Na segunda-feira seguinte e durante a semana tudo decorreu sem incidentes e eu, já mais calmo, comecei a pensar que afinal não tinha dado nas vistas. Mas veio a outra segunda-feira e, às nove horas da manhã, chamaram-me pelo altifalante do quartel, ao gabinete do 2.º Comandante, o Major Pires. Ao chegar à porta faço anunciar-me, faço a continência e, "V.ª Ex.ª meu Major dá-me licença", segue-se um momento de silêncio e lá veio a resposta:

- Entre nosso cabo miliciano, esteja à vontade. Seguiu-se um período de silêncio.
- Então a semana de campo correu bem - pergunta-me de chofre.

 Seguiu-se um período de silêncio e lá veio a resposta.
- Sim meu major correu bem...
- Hum - ouvi eu...
- Mas, ouvi dizer que houve política que não estava no programa da semana de campo... - 

Silêncio.

Seguiu-se uma lição de meia hora sobre dever, disciplina, exemplo a dar à tropa, a política não era para ali chamada etc. E a terminar:

- Olhe, quero dizer-lhe que foi mobilizado para a província portuguesa da Guiné para render um camarada seu. É tudo, pode sair.

Faço a continência, despeço-me, dou meia volta aos tacões e lá segui para casa, com a convicção que tinha mijado fora do penico e falado de mais. Daquela reunião com o 2.º Comandante, fiquei também a saber com quantos paus se faz uma canoa, ou seja, havia um pau que tinha uma ponta no bico e tinha havido uma mão que tinha aproveitado o pau para escrever.

Aqui começou o início de uma nova vida, seguiram-se 10 dias de licença para tratar da farda e da papelada, no Depósito Geral de Adidos de Lisboa, e apanhar um Boeing 727 da FAP em Lisboa e daí para Bissalanca. Até nisso eu tive sorte, porque foi a primeira vez que andei de avião. Ao chegar a Bissalanca já tinha uma carrinha Mercedes do Exército para me levar para os quartos do QG em Bissau junto ao bar de Sargentos.

No outro dia depois de arrumar a mala com o fardamento e outros pertences, dirijo-me para o dito bar e, ao passar pelas mesas na esplanada, começo a ouvir umas bocas que me eram dirigidas, não liguei e dirigi-me para o balcão.

As bocas, "piu... piu... piu"..., eram de gozo, divertidas, nunca as tinha ouvido e com tendência para aumentar. Que sorte, eu a pensar que ia ver gente triste e carrancuda e sai-me esta cena, a seguir de uma das mesas começa um coro, que só lhe faltava a música. Hoje já não existem praxes pelo menos daquele tipo, para mim que sempre gostei de praxes, esta foi do melhor, ser praxado permite conhecer novas pessoas e uma boa integração melhora o nosso moral.

Entretanto o coro foi aumentando:

piriquito vai no mato... óréréré
que a velhice vai no Bissau... óréréré
salta, salta piriquito... óréréré
que a velhice já saltou... óréréré


E a festa continuou.

Numa das mesas as picadelas tornaram-se mais fortes e foi para lá que eu me dirigi para os cumprimentar. Nem parecia que tinha chegado à Guerra, de onde és pergunta um, não havia sol lá na terra, diz outro, para onde vais? Vai trocar as divisas porque essas cheiram a leite (ainda hoje tenho as divisas de outro furriel). O que queres beber, foi aqui que comecei a beber o bom Whisky Old Parr, simples e seco, porque a água estraga o whisky e este, 5$00 a bolha e 127$50 a garrafa, era barato. 

Só no dia seguinte é que comecei a ouvir relatos sobre a guerra. O ambiente era bom, não fosse a saturação e a pancada no sotão, em alguns "velhinhos" com mais de 28 meses de comissão, fartos daquilo que era a fruta da época a aguardar que os mandassem para casa. Na minha primeira visita ao "Barracão", perdão queria dizer Hospital Militar de Bissau, para visitar uns amigos do "velho" furriel Bilhau da Leirosa, é que vi que tinha chegado à Guerra.

No dia 17 de Março, ao som do altifalante e da voz de Raul Solnado, que falava das munições da Guerra de 1908, recebi a ordem para fazer o espólio dum furriel miliciano morto em combate na região de Bafatá e que era o objecto da minha mobilização.

Foi um momento difícil, conhecer o historial desse camarada, fazer a seleção dos seus pertences para os enviar à família e queimar a correspondência imprópria das cartas enviadas por cinco mulheres ou raparigas que com ele tinham tido uma relação muito íntima, não sei se seriam madrinhas de guerra ou outra ligação qualquer, a verdade é que aquele tipo de escrita até dava vida a um morto. 

Fiquei então a saber que a fotografia dele de camuflado com chapéu à cowboy com a walter de 9 mm a pender para o lado direito pronta a sacar não era nada, quando comparada com a dita escrita das cartas. Apenas o vi em fotografias, não vi nem o caixão e a dita escrita não permitiu saber que tipo de vida levava na Metrópole, prefiro recordá-lo apenas como um guerreiro com tomates.

Entretanto a dita rendição para Bafatá nunca se concretizou, nem cheguei a saber a razão. O facto é que fui direitinho para a CCaç 4541/72 para aprender a arte da Guerra. Depois de começar a beber bom Whisky é difícil parar, só temos que manter o controle da situação. A primeira coisa que me lembro quando cheguei à CCaç 4541/72, foi da minha deslocação ao barraco, perdão queria dizer Bar, pedir um Old Parr e o soldado dizer que não havia,  porque dava prejuízo, foi a minha oportunidade para saber quantas bolhas tinha uma garrafa e ensinar o soldado a gerir o bar. 

De facto 5$00 por cada dose e sendo elas 28, dava para ganhar dinheiro, mas a melhor opção seria vender do Dimple porque a garrafa custava 125$00, ainda hoje é raro o dia, não beber um Whisky a seguir ao almoço. As moedas que ainda mantenho na minha posse têm a ver com Whisky. Na tropa aprendi que há limites para tudo e 10$00 correspondia a dois Whisky e eram suficientes para andar direito, não falar demais, não dar nas vistas e não fazer coisas que nos tragam problemas. É o melhor remédio.

Destas recordações sobre a minha mobilização para a Guiné, resta-me apenas um papel timbrado que a grande maioria não possui, que guardo como recordação e sem complexos de esquerda ou de direita. O facto de ser contra a situação da guerra nas ditas colónias, refletia o pulsar da juventude do meu tempo e ela só trazia problemas, mas uma vez chegado à guerra da Guiné, o meu lado da barricada estava escolhido, a minha obrigação era cumprir e fazer cumprir as ordens, respeitar a hierarquia e fazer a guerra, ali comecei a respeitar aquele povo, mas também a aprender que, afinal, além de ter costelas de esquerda, tinha uma mão direita e um dedo que disparava a G3 apenas com o apoio do braço e da anca do mesmo lado e enquanto existissem ordens as ditas eram para funcionar.

A minha passagem pela Guiné mostrou-me que, se o Regime que nos conduziu à Guerra não era bom, o PAIGC não era melhor e as minhas costelas de esquerda começaram a perder força. Entre outras coisas eu consegui uma Declaração em papel timbrado de uma comissão por imposição, que nem o filho do Secretário do Gabinete do Ministro das Colónias, Baltazar Rebelo de Sousa dessa altura tem. 

 Quando regressei da Guiné esperava-me outra surpresa. Fomos mal recebidos, os empregos eram poucos e muito menos para aqueles que não fossem soviéticos ou próximo deles, mas a tropa e a psícola da Guiné tinham-me tornado mais forte e por isso fui à luta.

No início de 1975 comecei a trabalhar na empresa Sepsa, de Leça do Balio, na montagem da Petrosul em Sines, o centro do furacão da revolução no Alentejo, onde vi e assisti àquela cegueira ideológica dos soviéticos que nada tinham compreendido daquele poema do Zeca Afonso, ou da queima das fitas e da linha férrea entre Coimbra e a Figueira.

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
Quando um homem se põe a pensar
Quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
Dorme a noite ao relento na areia
Dorme a noite ao relento do mar
Dorme a noite ao relento do mar

E se houver uma praça de gente madura
e uma estátua
uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
E não há quem lhe queira valer
E não há quem lhe queira valer

Vejam bem
Daquele homem a fraca figura
Desbravando os caminhos do pão
Desbravando os caminhos do pão

E se houver
Uma praça de gente madura
Ninguém vai levantá-lo do chão
Ninguém vai levantá-lo do chão

Vejam bem que não há só gaivotas em terra
Quando um homem
Quando um homem se põe a pensar

Que poema bonito este.

Mas a realidade era outra, aquela gente no complexo Industrial de Sines esqueceu-se que alguns da minha geração já conheciam o poema, conheciam as praxes académicas de Coimbra e já tinham aprendido a pensar e aquela revolução tinha mais a ver com aquele ditado popular "Olha para o que eu digo, mas não olhes para o que eu faço" e o pior, estava para vir.

Um abraço,
Victor Costa
Ex-Fur Mil At Inf

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Nota do editor

Último poste da série de 16 DE ABRIL DE 2023 > Guiné 61/74 - P24226: (In)citações (237): "Reflexão sobre a pobreza" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)

terça-feira, 21 de março de 2023

Guiné 61/74 - P24159: Os nossos seres, saberes e lazeres (563): O Estado a que isto chegou (Victor Costa, ex-Fur Mil At Inf)

1. Mensagem do nosso camarada Victor Costa, ex-Fur Mil At Inf, CCAÇ 4541/72 (Safim, 1974), com data de 16 de Março de 2023:


O Estado a que isto chegou

Para mim a guerra não foram só problemas. A capacidade de liderança, tolerância e a resistência aprendi-as na tropa, essa tolerância e resistência foram fundamentais quando iniciei uma nova atividade em 1976.

Numa empresa é fundamental dizer "o cliente tem sempre razão", mas para engolir tantos sapos e aguentar tanta razão, foi precisa muita resistência, tolerância e ouvir muita m..da. Eu sou empresário desde 1976.

Nem sempre há tempo para responder em devido tempo aos comentários, mas neste caso, com um barco da nossa Marinha de Guerra na Madeira, tive de arranjar tempo para escrever esta mensagem, porque ela me trouxe as recordações de um amigo com idade de ser meu pai chamado Maximiliano de Sousa, mais conhecido por Max.

Pouco tempo convivi com ele, mas aquela do "magala", numa conversa com ele numa mesa do café Nicola, depois da sua actuação no salão de festas do Casino da Figueira no outro lado da rua foram inesqueciveis.

Max era um homem vivido, com muita categoria, que não deixava ninguém indiferente, que saudades tenho daquele tempo. A primeira conversa com ele começou numa simples mesa do café Nicola e terminou com a mesa rodeada de assistência.

No que a mim me toca sendo eu um "reacionário" eleito pela CCaç 4541/72 para o MFA, que acima de tudo procura honrar os antigos combatentes, vou voltar a ouvir o "magala" de Max e meditar.

Depois deste desabafo vou responder ao último comentário da minha anterior mensagem.

A carta militar de 1947, mostra o estuário do rio Mondego, junto à Figueira e depois o início do baixo Mondego, que depois continua para Nascente até Montemor o Velho. A constituição do terreno (aluvião) é igual, mas as culturas são diferentes.

Da Ínsua, passando pelo marco geodésico (Pontão), até à Ribeira, para Noroeste é o Estuário do Mondego, para Sudeste da Quinta do Canal, Lares e Carrapatosa e até Montemor o Velho fica o Baixo Mondego, como mostra a simbologia da carta.

Durante mais de 4 anos fiz um trabalho de pesquisa no Arquivo da Universidade de Coimbra sobre escrituras do século XVIII e XIX, relativas a terrenos privados no Estuário do rio Mondego.

Este trabalho permitiu-me conhecer, a evolução da escrita, heróis da época, as virtudes do nosso povo e a covardia de alguns dirigentes que fugiram para o Brasil. Com as invasões francesas, veio o "aliado", o Duque de Wellington para organizar a resistência, este estabeleceu o seu Q.G. no Porto de Lavos em 1808.

A Figueira da Foz era então uma pequena vila em pleno crescimento devido à exportação de sal. Portugal tinha então um cobarde como Rei e com a falta de Forças Armadas capazes, as tropas de Wellington chegaram e fizeram uma política de "Terra Queimada" na região.

A maioria da população refugiou-se na Vila da Figueira que não estava preparada para este aumento de população. Seguiu-se um período de doenças, sofrimento e miséria tais que não constam dos manuais de História, mas que está registada nos velhos livros do Arquivo da Universidade de Coimbra.

Nas escrituras de aforamento do princípio do século XIX, do notário Manuel Peregrino de Carvalho, consta o Dr. Manuel Fernandes Tomaz, um ilustre figueirense do século XIX, deputado do Reino e o seu pai João Fernandes Tomaz. Da descrição consta a utilização de terrenos de aluvião na região de Lares e Carrapatosa, para instalar marinhas, que foram até aos anos 60 do século XX, actualmente são campos de arroz.

A constituição dos terrenos é igual, mas as culturas são diferentes devido ao tipo de água que utilizam. No Estuário a água é salgada e as culturas são Marinhas, Sal, Peixe, Crustáceos e Bivalves e no Baixo Mondego até Montemor o Velho, predomina a cultura do arroz, onde as águas são doces, ambas estão representadas na carta com simbologia diferente.

As invasões registadas na História de Portugal a nós trouxeram muitos problemas, mas também nos trouxeram conhecimento. No Estuário do rio Mondego junto ao mar a invasão do Império Romano trouxe-nos o conhecimento das marinhas para levar o sal até Conimbriga, a influência da água salgada chegava a Montemor o Velho vulgarmente chamado de Baixo Mondego.

A invasão dos mouros trouxe-nos o conhecimento da cultura de produção do arroz e a tecnologia dos canais de irrigação que conduziram a água doce para jusante até ao início do estuário.

As marinhas de sal são constituídas por diversos compartimentos, sendo o primeiro deles o viveiro ou reservatório da marinha, aqui através da comporta entra além de água salgada, peixe, crustáceos e Bivalves, daí que a produção extensiva destas culturas já venha do tempo do Império Romano.

Nos anos 80 do século passado alguns produtores converteram as marinhas de sal e construíram novas instalações para produção de peixe e com a utilização de novos equipamentos, alteraram as instalações para o regime semi-intensivo.

Para exercer esta atividade é preciso saber lidar com a vida animal, a DGRM, ex-Direção Geral das Pescas passou a chamar-lhe Aquacultura Marinha, eu sou um dos pioneiros ainda vivos.

Como a História mostra as invasões e as guerras trouxeram sempre problemas, mas não podemos esquecer aquilo que aprendemos com os romanos e os árabes e também não devemos esquecer aquilo que ensinámos a outros povos, por esse Mundo fora.


O Estado Fascista, o Estado Comunista e o Estado a que isto chegou.

Há gente neste País que colaborou com o IN, outros fugiram cheios de "coragem" e são hoje apresentados como heróis, há outros "democratas" que pediram ao regime "fascista" um adiamento à sua integração nas FA. Esse direito foi-lhes concedido e tratam os ex-combatentes com peste. Há ainda os filhos do papá, que não foram à guerra e opinam sobre tudo e todos e desprezam tudo o que deixámos em África e no Brasil.

Há ainda alguns que procuram o "ouro do Brasil", ou do quinto dos infernos que vinha na Nau dos Quintos para devolver aos "Brazileiros". Deste ouro, ainda só encontrei pedras já que as jóias da coroa foram roubadas na Holanda, está a decorrer a "investigação" e eu como "homem de fé ainda não perdi a esperança", porque a fé é a última a morrer.

Quando regressei da Guiné em Outubro de 1974, a Presidente da C.M. da Figueira da Foz, convocou-me para uma reunião cujo objectivo era a criação de uma comissão para elaborar os Cadernos do Recenseamento Eleitoral da Freguesia de Lavos.

A minha abertura a esta tarefa foi imediata, a caloirice falou mais alto, foi um trabalho que durou dois meses, as eleições de 25 de Abril de 1975 foram realizadas graças ao trabalho deste e de outros "parolos" deste País. Se a velhice fosse um posto, eu devia debitar os serviços prestados pela elaboração dos Cadernos Eleitorais, das inúmeras vezes que pertenci a várias mesas de voto, quatro anos como 1.º Secretário da Assembleia de Freguesia, só para falar destas e tudo isto a custo zero, mas não o vou fazer porque vivemos num "Estado de direito democrático". Hoje até os membros de uma simples Mesa de Voto, recebem 75 Euros pela execução daquela "tarefa dificil".

Já só falta o Presidente, numa qualquer comemoração atribuir um prémio aos parolos, "habituem-se", porque o valor que é dado às coisas depende das "costelas".

Se as "costelas" forem de esquerda, levam-se as facturas ao contabilista para registar, esperamos pelo relatório no fim do ano e sabendo que há contas por pagar, vamos para casa descansados e dizemos ao vizinho "as contas estão certas."

Se as "costelas" forem de direita, além das contas certas, sabemos que é importante pagar as dívidas e ter lucro para não deixar problemas aos filhos.

Estes são os novos tempos, por este andar ainda vou morrer reacionário. Os Donos disto tudo continuam a reclamar o Estado de direito democrático, mas o que nós temos, é o Estado a que isto chegou. Quer gostem ou não, o que está em causa é o Estado de Direito. Quem sabe se não precisamos voltar ao "ferro", ou a outro 25 de Abril?

Antes de terminar quero agradecer ao Luís Graça, Carlos Vinhal e restante equipa pela coragem que têm demonstrado na defesa da liberdade de expressão e pedir-lhes desculpa por não saber elaborar um texto que possam perceber, mas há uma razão para isso, eu sempre gostei mais de lidar com números.

Um abraço,
Victor Costa
Ex-Fur Mil At Inf


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Nota do editor

Último poste da série de 19 DE MARÇO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24154: Os nossos seres, saberes e lazeres (562): Os meus livros. Ao todo, quinze (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico)