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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Assim se conclui o punhado de textos que se elaboraram sobre o livro "Portugal em África depois de 1851", uma estupenda narrativa do 6.º Marquês do Lavradio. Tudo quanto ele diz sobre a Guiné já é do conhecimento do leitor, as permanentes rebeliões e atos de submissão, os ataques a Bissau, etc., tudo se tem procurado documentar e ilustrar aqui no blogue. O que o autor diz sobre Moçambique também não é inédito, precisou-se de chegar ao século XX para se dizer que do Cabo Delgado ao sul de Lourenço Marques tínhamos uma presença efetiva. Um dos pontos mais curiosos dos comentários tecidos pelo autor é o de nos contar as prepotências, atos insidiosos, os pagamentos aos rebeldes e até oferta de armas deles, por parte dos ingleses e do grupo financeiro onde pontificava Cecil Rhodes, não o impede de concluir que sem uma forte aliança com Inglaterra o Império português se iria desgovernar. Não aconteceu assim, o Marquês do Lavradio não podia prever na década de 1930 que em breve começaria um novo conflito mundial que iria fazer emergir a era dos nacionalismos.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 9

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Verificámos anteriormente as campanhas de ocupação de Angola e passámos de imediato para Moçambique e Guiné. Gungunhana e os Vátuas era uma das questões prioritárias a resolver. Gungunhana enviara em 1885 uma embaixada a Lisboa para prestar vassalagem ao rei de Portugal, mas na prática não permitia no seu território qualquer forma de ocupação portuguesa. A resposta foi a criação do comando superior do Limpopo, com a intendência de Gaza. Aventureiros ingleses da Chartered, o empreendimento financeiro colossal ligado ao Standard Bank da cidade do Cabo, intrigavam contra os portugueses junto de Gungunhana, dando-lhe como presentes armas e munições. A intriga da Chartered foi ao ponto de conseguir com que Gungunhana enviasse a Londres dois seus representantes que no seu regresso trouxeram uma taça de prata com a inscrição da rainha Vitória. Os Vátuas mostravam em permanência hostilidade, não faltaram roubos nem massacres. Em dezembro de 1894 foi nomeado comissário régio de Moçambique António Enes, soube-se rodear de uma plêiade de oficiais, caso de Caldas Xavier, Freire de Andrade, Aires de Ornelas, Paiva Couceiro, Mouzinho de Albuquerque, entre outros.

E começam as campanhas de ocupação: Marracuene, em 2 de fevereiro de 1895, cujo efeito será imenso, desembaraçava a cidade de Lourenço Marques; a atitude de Gungunhana era dúbia, o que não o impedia de receber o tributo anual que a British South Africa Company lhe pagava. Em finais de maio de 1895, o distrito de Lourenço Marques estava limpo de revoltosos, mas o grosso das forças ativas da revolta permanecia armado no território de Gungunhana. António Enes enviou embaixadas ao régulo dos Vátuas, este exigiu que fossem retiradas as forças portuguesas das fronteiras de Gaza.

Em 8 de setembro tem lugar o combate em Magul, o efeito moral foi enorme, Gungunhana pedia diplomaticamente a proteção de Inglaterra. Lorde Salisbury, porém, não permitia atentados contra a soberania de Portugal. Segue-se o reencontro em Coolela, o império Vátua está ferido de morte. Tudo culmina com a marcha sobre Chaimite, há fuzilamentos de chefes revoltosos e Gungunhana é aprisionado. O régulo de Maputo pretendia livrar-se da soberania fictícia que ali exercíamos e foi necessário, em 1896, enviar uma força que, sob o comando de Mouzinho, percorreu o Maputo e obrigou o régulo a fugir para o território britânico. Ainda haverá reencontros importantes, como em Chibuto, depois Augusto Castilho pacificou a Zambézia, haverá também desastre das armas portuguesas, caso do Barué. O Governo decidiu dominar e ocupar o Barué, em 1892, a campanha durou dois meses, não abundou em feitos heroicos, mas em compensação foi decisiva.

Também em 1896, o território fronteiro à ilha de Moçambique era ocupado por povos que nos eram adversos, as primeiras expedições portuguesas tiveram que retirar, só em outubro desse ano na ação de Moguenga as forças hostis ficaram manifestamente desanimadas. O Marques do Lavradio descreve detalhadamente as façanhas de Mouzinho de Albuquerque, incluindo as que se realizaram no distrito de Cabo Delgado. Só no dobrar do século se pode dizer que havia ocupação da maior parte do território de Moçambique.

Para concluir, o autor relata uma nova fase de ocupação na Guiné. Convém ter em atenção o que escreve:
“Se as pedras da fortaleza de Bissau pudessem falar relatar-nos-iam as lutas, sacrifícios e tragédias sangrentas que testemunharam, contar-nos-iam dos assaltos que tiveram de sofrer e como as suas muralhas tantas vezes serviram para proteger vidas e haveres portugueses.
Ainda em 1906 os negros habitantes da ilha assaltaram a fortaleza, roubando munições do Paiol e pondo a vila em estado que os seus habitantes só com risco de vida podiam sair dela, e, em 1911, os Papeis negavam autorização para um campo de futebol fora da praça.”


Há relatos que desde a década de 1840 foi um suceder de ataques traiçoeiros, de recontros e escaramuças sanguinolentas, de chacinas bárbaras, da assinatura de Tratados que não passaram do papel, é longo o rosário de extorsões e pilhagens. E mais uma vez, nunca faltando à verdade, o Marques do Lavradio deixa bem claro como era ténue a presença portuguesa na Guiné:
“Em 1890 vários povos da Guiné desprezavam por tal forma a nossa autoridade que o Conselho de Guerra da Província, reunido a 2 de Dezembro, era unânime em declarar o estado de guerra em todo o território que formava a Circunscrição de Geba, houve que atacar o gentio rebelde em Intim e Bandim, a operação foi malsucedida, os revoltosos, armados de Snyder, abrigados pelas habitações, fustigaram o quadrado com um chuveiro de balas que trouxe grande pânico às fileiras dos soldados e auxiliares, que fugiram e puseram em debandada dois pelotões. Os rebeldes contra-atacaram, os nossos soldados fugiram para a Praça, o insucesso custou-nos 41 mortos, 22 feridos e duas peças de artilharia Krupp, os revoltosos ficaram moralizados.”

As rebeliões sucedem-se, em Bissau, Oio, no Churo, no Cuor, Costa de Baixo, o Governador Muzanty foi obrigado a pedir ao Governo central forças para bater e ocupar militarmente a região do Oio e do Cuor; e a situação também não era fácil, como era evidente o descontentamento dos Felupes de Varela. Em abril de 1907 batera-se toda a região do Cuor e o régulo rebelde fugiu; seguiu-se o bombardeamento de exposições inimigas de Bissau, mas os Papeis resistiam e atacavam a força portuguesa. Em suma, grande parte da Guiné estava verdadeiramente sublevada, os régulos dispostos a desprestigiar-nos.

Em 1912 Teixeira Pinto é nomeado o chefe do Estado-maior da Província, encetou uma série brilhante de combates que terminariam pela ocupação da parte continental da colónia. O autor esclarece que em 1912 a autoridade portuguesa era perfeitamente nominal na região compreendida entre os rios de Farim, ao noroeste, no rio Geba, a sul e circunscrição de Geba, a leste. Era uma ocupação somente focada em Cacheu e Bissau e no posto militar de Gole. Teixeira Pinto, em 1913, ataca a região do Oio e submete a região de Cacine, seguem-se as operações contra os Papeis e os Grumetes de Bissau, campanhas árduas, combates quase diários, marchas extenuantes, baixas numerosas, mas em agosto de 1915, depois da prisão do régulo de Biombo e da criação de postos em Bor, Safim, Bejimita e Biombo, dava-se a Guiné como ocupada, o problema dos Bijagós só será resolvido em 1936.

Nas suas conclusões, o Marques do Lavradio não deixa de chamar a atenção para problemas que necessitam de resolução urgente, caso das transferências de Angola, os fretes marítimos. Também não deixa de relevar o impulso dado pelo rei D. Carlos no esforço de ocupação que a sua hábil diplomacia com o acordo com Inglaterra e vale a pena citar as considerações do aristocrata e diplomata acerca do valor que ele confere a tal aliança:
“Se um dia a China conseguisse apoderar-se de Hong Kong nós não poderíamos conservar Macau; se a India se revoltasse e triunfasse, expulsasse Inglaterra, nós não necessitaríamos mais de um Governador da India; se a União Sul Africana se desmembrasse do Império Britânico, a nossa província de Moçambique deixaria de ser portuguesa e teríamos de lutar no sul de Angola para ali conservar a nossa bandeira. Conservar e valorizar esta aliança é um dever de todos os portugueses.”

O mínimo que se pode dizer do trabalho do Marquês do Lavradio que aqui fomos pondo é a demonstração eloquente de que só se pode falar, e com relativa leveza de uma ocupação em termos de administração e criação de infraestruturas básicas no território colonial de Guiné, Angola e Moçambique no século XX. É o que diz a documentação patenteada por inúmeras fontes, e o Marquês do Lavradio é uma delas, deitando por terra a falácia da nossa presença de cinco séculos em África.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Standard Bank of South Africa, século XIX
Esboço da execução de alguns súbditos de Gungunhana, por parte do exército português, no contexto da ofensiva de Mouzinho de Albuquerque em Chaimite, 28 de Dezembro de 1895.
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Notas do editor

Vd. poste de 27 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio que revela-se altamente documentado, tem o privilégio de acesso a um arquivo notável, o da sua família, diplomatas com correspondência trocada com governantes de Londres e Lisboa, investigações em trabalhos de Caldas Xavier, António Enes, obras de Mouzinho de Albuquerque ou de Alberto de Almeida Teixeira sobre Alves Roçadas, muita pesquisa feita no Arquivo Histórico Ultramarino, descreve-nos neste resumo a ocupação de Angola, escreve de modo incisivo, gostando das descrições naturalistas exuberantes como vai fazer sobre a região dos Dembos, detalha as campanhas de ocupação por toda a Angola e o que houve que fazer quando os alemães invadiram o sul. e não se esquece de enfatizar que a escassos quilómetros de Luanda a hostilidade das populações era praticamente total. Iremos seguidamente ver o que aconteceu em Moçambique.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 8

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Abordámos anteriormente o chamado Regime dos Prazos, no fundo concessões a particulares, que se veio a revelar desastroso, passou-se em revista as companhias majestáticas e chegámos agora à ocupação efetiva. De novo o Marquês do Lavradio nos faz revelações surpreendentes que, em boa-fé, nos leva a interrogar como foi possível termos vivido à sombra daquele mantra do Estado Novo de que estávamos de pedra e cal há 500 anos em África.

Veja-se o que ele diz da nossa presença em Angola, Guiné e Moçambique:
“Em Angola, no distrito do Congo, no interior de Landana, o estado de guerra era permanente; no distrito de Luanda, às portas da capital, os Dembos consideravam-se independentes; na Lunda negociávamos, mas não tínhamos posto algum; no distrito de Benguela, onde a influência portuguesa se estendia mais, ainda em 1902 o gentio atacava a Fortaleza do Bailundo; no distrito de Moçâmedes o posto militar do Humbe era insuficiente para dominar a região e nem sempre se podiam considerar seguras as suas comunicações com o litoral; além Cunene dominavam os Cuamatas e Cuanhamas, que opunham tenaz resistência ao domínio português.

Na Guiné, não éramos quase autorizados a sair da Praça de Bissau durante o dia e nunca o podíamos fazer durante a noite.

Em Moçambique, ao sul do Save, dominava o Gungunhana, cujas hostes chegavam a ameaçar Lourenço Marques; na Zambézia, os prazos que cercam Quelimane eram portugueses de facto, mas a Maganja colocara-se num estado de completa independência; nos territórios de Manica e Sofala, que iam fazer parte da Companhia de Moçambique, não havia sinal algum de ocupação e domínio; no distrito de Inhambane apesar da submissão dos indígenas, vivia-se sob o peso do terror que inspiravam os Vátuas.”


E num tom quase de epopeia, e com pormenores onde domina o sopro épico, o Marquês do Lavradio fala de uma época gloriosa, de heróis destemidos que submeteram o gentio. Em termos literários, a narrativa chega a ser empolgante. Não nos sendo possível alongarmos em minúcias, começa-se com o retrato do que foi a ocupação de Angola:
“Subir a majestosa serra da Chela, atravessar o planalto, passar o Cunene, internar-se nas vastas regiões do Cuamato, Cuanhama e Evale não era possível no princípio do século atual.
Foi em 1845 que pela primeira vez se tentou a ocupação do Gambos, seguindo-se em 1859 a tentativa de ocupar o Humbe para o que para ali seguiu uma pequena força; a falta de recursos em tropa regular e dinheiro fizeram abandonar a ideia de ocupar o Cunene. Em 1863 retiram os postos militares do Humbe e dos Gambos e em 1880 a ocupação do distrito de Moçâmedes reduzia-se a algumas feitorias da Costa.

Em 1880, o estabelecimento de uma colónia bóer no planalto de Huila e a fundação da missão católica do Espírito Santo chamaram de novo a atenção do Governo português para essas regiões e o Humbe é novamente ocupado.
Em 1885 os Hotentotes atacam o posto do Humbe, no regresso à reação aos rebeldes o comandante do posto é morto juntamente com 52 dos seus homens.”


A descrição é completíssima, escrevem-se as diferentes expedições e a forma como iam sendo dominados os povos dentro do território angolano. O custo em sangue suor e lágrimas foi enorme. Falando das operações sobre os Cuamatos, dirá o autor que houve dez ações que custaram a vida a 5 oficiais, 53 praças brancas, 8 indígenas e registaram-se 139 feridos, foi assim que se ocupou o sul de Angola.

Voltando à região dos Dembos, às portas de Luanda, o autor lembra uma frase de Henrique Galvão, que era “uma região negra, impenetrável, onde nem sequer os indígenas que trajavam à europeia eram admitidos”. Dava-se o caso de o nosso domínio e influência ter sido grande no fim do século XIX, quando da inauguração do caminho-de-ferro de Matadi, os enviados do rei do Congo, ao serem apresentados aos representantes de Portugal, deram sinais de submissão. Em 1872 uma revolta não castigada levara os Dembos à independência, desdenhando do nosso poder e manifestando-se agressiva e insolentemente.

É muito bela e expressiva a apresentação que o autor faz desta região dos Dembos:
“A região é das mais inóspitas da África portuguesa; negras cadeias de montanhas encabeleiradas de exuberantes abundâncias de vegetais, espessas, emaranhadas, pujantes, assentando numa série de contrafortes que servem de base a planaltos interiores, atingindo por vezes altitudes de 1300 a 1500 metros; vales atulhados de vegetação, ásperas ravinas, ora cortadas a prumo ora em declives vertiginosos; subidas tão ásperas que tornavam necessário cavar degraus para os cavalos passarem; descidas tão penosas que os próprios homens, agarrados às trepadeiras e arbustos, mal se aguentavam; planícies alagadiças; linhas de água frequentes, que na época das chuvas transformam as margens em lameiros intransitáveis; vegetação luxuriante, que chega a forma maciços impenetráveis; temperaturas que atingem 47 a 48ºC; terreno empestado de mosquitos e mosca tsé-tsé; tal era a região onde, em 1907, uma coluna de 900 homens, em grande parte formada por condenados, ia escrever uma das mais belas páginas da nossa história colonial.”

Heroísmo atrás de heroísmo, a ocupação da Lunda, depois de duras campanhas, ocupação, em 1887, de Santo António do Zaire, mas em 30 de janeiro de 1900 os povos do congo atacavam e roubavam a missão católica de Santo António do Zaire.

Vamos seguidamente falar das páginas de heroísmo da ocupação de Moçambique.



D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
A batalha de Mongua, sul de Angola, 1915.

“O combate durou três dias, entre 17 e 20 de Agosto de 1915, e terá constituído a maior batalha campal alguma vez ocorrida em solo africano entre tropas indígenas e europeias. Apesar da diferença qualitativa, dum grau de eficácia e letalidade incomensuravelmente superior do armamento luso, a verdade é que o cerco às nossas tropas durou três dias, tendo um só combate durado 10 horas, chegando as forças nativas a aproximarem-se até a uns escassos 50 metros do quadrado.”
Imagem retirada da RTP Ensina, série As guerras de ocupação, com a devida vénia

(continua)
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Notas de editor

Vd. post de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 20 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se discorre sobre os antecedentes do Ultimatum, a precariedade dos nossos argumentos para defender o Mapa Cor-de-Rosa, o corolário de tensões e hostilidades, a importância de personalidades como Livingstone ou Cecil Rhodes que tudo fizeram para denegrir o nosso argumentário, as tensões chegaram ao rubro com a expedição de António Maria Cardoso ao Niassa e a expedição de Serpa Pinto que teve de empregar a força para se defender dos Makololos assim se chegou ao dia e a hora da humilhação que o Ultimatum provocou, a reparação diplomática só chegará a 27 de junho de 1891 com o Tratado que irá demarcar as fronteiras anglo-portuguesas; aqui se discorrerá também sobre as relações luso-alemãs e depois o regime dos Prazos e em implantação de companhia de teor majestático na África Oriental Portuguesa. A etapa seguinte será dedicada aos tempos da ocupação e uma vez mais o Marquês do Lavradio mostrará como era pura falácia andarmos a falar que estávamos há 500 anos em África.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 7

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Caminhamos agora para a Conferência de Berlim. Cecil Rhodes trabalhara bem para ter o máximo de apoio de Londres para gerar ambições não só no Zambeze nem na África do Sul, mas para encontrar apoios para negócios que podiam ir desde a cidade do Cabo ao Cairo. Não se pode dizer que Portugal estivesse inteiramente inativo, prosseguiam as viagens científicas, fora assinado o Tratado de limites com o Transvaal, fizera-se a concessão do Caminho de Ferro Lourenço Marques, foram criados os distritos de Manica e Zumbo, pacificava a Zambézia, por exemplo. Lutava-se contra o tempo. A Conferência de Berlim iria estipular quais as condições essenciais para as novas ocupações do continente africano e como elas seriam consideradas efetivas. As tensões com os britânicos eram permanentes.

O Governo britânico, logo que tivera conhecimento do mapa cor-de-rosa anexo aos Tratados português-francês e português-alemão de 1886, reclamara contra este espaço colorido compreendendo toda a região que se estende entre Angola e Moçambique, não reconhecia a soberania portuguesa nestes territórios, as relações diplomáticas agravaram-se dia-a-dia. A expedição de António Maria Cardoso ao Niassa, destinada a firmar influência portuguesa na região, veio dificultar as negociações; a expedição de Serpa Pinto foi olhada com desconfiança, multiplicaram-se os incidentes.

Em março de 1889, o Major Serpa Pinto saiu de Lisboa com destino à África Oriental, levava a missão de firmar o nosso domínio em território dos Makololos, conquista que se deve a João de Azevedo Coutinho. Novos protestos britânicos. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Barros Gomes apelou para arbitragem, propondo que a contenda fosse decidida pelas potências signatárias da Conferência de Berlim; o Governo britânico estava escaldado com as arbitragens que tinham sido favoráveis a Portugal tanto na questão de Bolama como na de Lourenço Marques, preferiam entregar à força, e assim surgiu a nota de 11 de janeiro de 1890 que respondia à proposta de Barros Gomes, estava declarado o Ultimatum, era completa insensatez tentar resistir à primeira esquadra do mundo que tinha já concentrado navios em Zanzibar, Gibraltar e nas águas de Cabo Verde, resistir traria como consequência a perda de Cabo Verde, de Lourenço Marques e igualmente de todo o Moçambique. Seguir-se-ão negociações difíceis e demoradas, dar-se-ão numerosos incidentes na Europa e na África, o Tratado que demarca as fronteiras anglo-portuguesas será assinado em 27 de junho de 1891.

Importa vir um pouco atrás para perceber um outro nível de contenda, as ambições imperiais alemãs. Aquando da questão do Zaire, procurou-se definir diplomaticamente com Berlim o limite meridional da possessão portuguesa de Angola. Os alemães propunham em 27 de junho de 1886 um convénio nas seguintes bases: traçar-se uma linha que partindo da foz do Cunene, seguisse pela margem esquerda o curso deste rio até a um ponto fronteiro ao domínio português do Humbe, até chegar ao Zambeze, proposta considerada inaceitável por Portugal que apresentou uma contraproposta que naturalmente não agradou os alemães. A diplomacia portuguesa lembrava que a região do Cubango fora explorada por Serpa Pinto, Capelo e Ivens, houvera recentemente uma expedição militar que consolidara o domínio português Cunene e Cubango até à região dos Ambuelas.

Em 30 de dezembro desse ano assinava-se em Lisboa o Tratado que delimitava as possessões portuguesas-alemães na África Oriental, garantia-se a Portugal a livre expansão comercial nos territórios situados entre as duas províncias de Angola e Moçambique. Como se procurou pormenorizar, o Ultimatum deitou por terra o sonho português.

Uma das consequências da Conferência de Berlim deixava claro que já não era possível continuar a possuir centenas de quilómetros quadrados africanos sem nada fazer, impunha-se um plano colonial, mostrar às outras potências que éramos capazes de dominar o que era nosso, de civilizar o que descobríramos. Era na Costa Oriental que a nossa ação mais necessária se tornava, até porque era aí que as ambições estrangeiras mais se faziam sentir.

Os territórios da antiga Capitania dos Rios de Sena haviam sido divididos no século XVII em grandes porções, denominadas prazos, distribuídos ou concedidos a particulares, com o fim de povoar e enriquecer a Capitania, desenvolver a sua agricultura e aumentando a sua população. Os prazos não deviam ter mais de três léguas quadradas e o concessionário devia residir na Província, os filhos sucediam nos prazos dos pais. A lei não foi cumprida, a fazenda pública ficou seriamente afetada. O autor desvela as trafulhices cometidas. Em vista de tais arbitrariedades, tornava-se indispensável acabar com um sistema tão vicioso, em dezembro de 1854 um decreto abolia o antigo regime dos Prazos da Coroa.

Os Prazos passaram a ser concedidos por arrematação em hasta pública, por um espaço de tempo mais ou menos limitado, e os arrendatários deviam cultivar áreas de terreno proporcionais ao número de indígenas que habitavam os Prazos. O autor não deixa de tecer um elogio a resultados havidos no antigo regime dos Prazos:
“Não deixaremos de notar que ao regime dos Prazos deve a Zambézia o desenvolvimento de uma admirável colónia agrícola, que é a esse regime que se devem os maiores palmares do mundo assim como os maiores campos de cana sacarina e que à sombra desse regime se criou a mais bela obra económica da Província de Moçambique.”

Ao tempo em que o autor escreveu este livro o regime de Prazos já fora abolido. Ao tempo da alteração do regime de Prazos atrás referida havia uma atmosfera favorável à criação de companhias majestáticas. Foram criadas algumas que faliram por falta de capital. Em 1891 concedeu-se à Companhia de Moçambique a administração e exploração dos territórios entre o curso do rio Zambeze e a fronteira do distrito de Tete, faz o autor o reparo sem esta companhia os territórios de Manica e Sofala não teriam tido o desenvolvimento que hoje (década de 1930) têm. Também no ano de 1891 foram concedidos à Companhia do Niassa direitos majestáticos e no ano seguinte concedeu-se à Companhia da Zambézia a administração dos Prazos da Coroa.

Na Costa Ocidental não se seguiu nem o regime dos Prazos nem o das companhias majestáticas, mas sim um sistema de concessões mais ou menos extensas que deram lugar à formação de companhias ou à exploração de terrenos por simples particulares.

O autor irá seguidamente debruçar-se sobre a época da ocupação, vai deixar bem claro que custou sangue, suor e lágrimas, deixando também demonstrado como era pura mistificação o argumento imperial insistentemente teclado durante o Estado Novo de que estávamos em África há 500 anos.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Imagem alusiva aos debates sobre a questão do Congo, marcam preponderância da Bélgica e das ambições francesas, britânicas e alemãs.
Mapa de África em 1886, fazem-se referência às expedições e à questão da Bacia do Congo, veja-se a superfície que então se atribuía a Angola e Moçambique.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Não será excessivo o rótulo que dou a este livro, como assombroso? Confesso que não. Com a sua redação concluída em 1934, publicado em 1936 pela Agência Geral das Colónias, dá-nos o estado das colónias portuguesas de África em 1851, é uma narrativa de tal crueza, e bem documentada, que ficamos a saber, ao contrário do que se vai repetir obsessivamente a partir de 1961, que até ao último quartel do século XIX tínhamos um punhado de entrepostos nas orlas costeiras e uma presença limitadíssima no interior das colónias (com exceção de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe); tece-se um tratamento às questões diplomáticas com o recurso privilegiado que o autor teve ao Arquivo Lavradio, e logo se torna claro, tanto na questão de Bolama como na questão do Zaire que o imperialismo britânico tudo fazia para nos cercear os direitos à posse das colónias africanas; deixa-se clarificado, logo na questão do Zaire, que havia um conjunto de potências coloniais que se arrogavam à decisão de escolher as fatias de território na consonância dos seus interesses, basta pensar na África ocidental francesa e na linha britânica do Cairo ao Cabo; e o autor dá-nos uma excelente lista da nossa participação entre os séculos XVI e XIX de viagens e travessias africanas; o Zambeze, bem como a baía de Lourenço Marques serão outro pomo de discórdia com o imperialismo britânico, ao mesmo tempo que o Governo de Napoleão III intimidava o Governo português a libertar um escravocrata que tinha sido apanhado com a boca na botija; e caminhamos agora para os antecedentes do Ultimatum e as suas consequências. Bom seria que uma instituição científica reeditasse obra de tal qualidade.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 6

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

A questão do Casamansa tem vindo a ser tratada aqui com bastante detalhe, pelo que se procurará, e nada mais, fazer um resumo dos pontos mais salientes do grave conflito político-diplomático. A França procurava alargar as suas possessões e começou a espraiar-se na região do que é hoje o Senegal, evitando conflitos com a Grã-Bretanha no tocante à Gâmbia. Em 1828, em pleno período da nossa guerra civil, fundaram um estabelecimento na parte setentrional na foz do Casamansa, rio onde fazíamos largamente comércio e onde estava implantado o estabelecimento de Ziguinchor. Começaram os litígios e as violências no rio, comerciantes franceses foram estabelecer uma feitoria em Selho, a cerca de 30 milhas de Ziguinchor. O Governo francês, face aos nossos protestos, alegava falsidades como a de que o rei Luís XV concedera a diversas companhias o privilégio exclusivo de comércio desde Cabo Branco até à Serra Leoa. Honório Pereira Barreto tudo contestava.

Diplomacia francesa insistia que os franceses podiam comerciar e navegar pelo Casamansa. Mais reclamações dos portugueses, mais feitorias francesas no Casamansa. E a partir de 1882 os atentados e as hostilidades cresceram de tom, já se arriava a bandeira portuguesa em vários lugares, é nessa altura que o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, António de Serpa, propôs ao embaixador francês em Lisboa a nomeação de delegados para se fixar definitivamente os limites franco-portugueses na Guiné. A reunião dos delegados terá lugar em outubro de 1885 e levará à celebração da Convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886.

A questão Charles e Georges resulta do apresamento da barca francesa do mesmo nome na costa de Moçambique, tudo acabará com uma espécie de ultimato em que vasos de guerra de Napoleão III virão ao Tejo numa franca atitude de declaração de guerra. Tudo começou em 1854 quando o Governador da Guiana francesa pediu ao Governo português, por intermédio do nosso embaixador em Paris, licença para contratarem em Inhambane, por um prazo de cinco anos, um certo número de pretos livres para a ilha da Reunião. Havia o compromisso de se provar que os negros seriam desembarcados na ilha da Reunião e que usariam do tratamento de homens livres (na ilha a emancipação dos escravos foram proclamada em 1848). O Governo português interferiu no pedido, não era permitida a saída de negros senão na conformidade das leis em vigor. O engajamento dos chamados trabalhadores livres não era mais do que um expediente para fazer o tráfico negreiro.

O Governador-geral de Moçambique, contrariando as ordens do seu Governo, autorizou alguns navios da ilha da Reunião a contratarem negros na Província de Moçambique. O Marquês Sá da Bandeira, logo que disto teve conhecimento demitiu o Governador-geral. O representante francês em Lisboa instava para que fosse revogada a ordem de proibição, Sá da Bandeira recusou.

Apesar das recusas, fundeou na baía de Condúcia uma barca que se supunha estar a carregar escravos. O Governador-geral mandou um barco de guerra português capturar a barca francesa Charles e Georges que tinha a bordo 110 chamados trabalhadores livres, tudo gente raptada. O capitão da barca Charles e Georges foi condenado de trabalhos públicos e a pagar uma pesada multa. O Governo de Napoleão III apressou-se a reclamar a soltura do barco com os fundamentos de que o navio saíra da ilha de Reunião para recrutar trabalhadores noutras paragens, que só uma força maior o obrigara a ir a um porto de Moçambique e que a presença a bordo de uma autoridade francesa atestava que o navio não se dedicava ao tráfico de escravos. Foi demorada a discussão entre os dois Governos, a barca foi conduzida para Portugal e com a bandeira portuguesa.

Novos protestos franceses, o Governo português ordenou ao seu representante em Paris que propusesse a mediação de uma terceira potência, proposta recusada. Não tendo Portugal força suficiente para sustentar o seu direito contra as ameaças francesas esperava auxílio do Governo britânico, mas este esquivou-se. E das ameaças passou-se ao confronto. Em 3 outubro de 1856 entravam no Tejo duas naus francesas. O Ministro dos Negócios Estrangeiros comunicava ao embaixador português em Paris por nota, que se o capitão da Charles e Georges não fosse libertado nas próximas 48 horas, o embaixador francês abandonava o país e custasse o que custasse o comandante da Charles e Georges reembarcaria com as forças francesas sediadas no Tejo.

Houve cedência, mais uma vez a Grã-Bretanha, por diferentes razões de conveniência, abandonava Portugal. Indo mais adiante já estamos no Tratado dos limites com a França quanto à Guiné. Portugal reclamava como fronteira o norte do rio Casamansa, ficaríamos na margem esquerda, renunciando ao domínio na margem direita; em contrapartida no Congo queríamos que a ocupação dos territórios compreendidos entre o Chiloango e Massabi nos fosse reconhecida. A França pretendia que Ziguinchor e os territórios portugueses de Casamansa colocados entre os portos de Carabane e Selho, pertencentes à França, lhe fossem cedidos, e no sul entendia que os limites deviam ser os territórios dos Nalus, entre o rio de Bolor e Cacine; no Congo propunha que a fronteira franco-portuguesa fosse o curso do rio Chiloango.

As propostas francesas eram inaceitáveis, no entanto, e surpreendentemente, os nossos negociadores mostraram-se dispostos a abandonar o Casamansa, mas reivindicavam compensações, ceder Ziguinchor implicava um reconhecimento dos nossos direitos. Ao fim de dezasseis sessões em 12 de maio de 1886 Portugal tinha conseguido o reconhecimento no Congo dos territórios de Massabi e estendido mais para o sul a fronteira da Guiné. Vários estudiosos consideram que a cedência do Casamansa fora feita pelo aceno francês de que tudo envidaria para nos ser reconhecido o protetorado de uma longa faixa do território entre Angola e Moçambique, como aliás vem no artigo 4º do texto da Convenção:
“O Governo da República francesa reconhece a Sua Majestade Fidelíssima o direito de exercer a sua influência soberana e civilizadora nos territórios que separam as possessões portuguesas de Angola e Moçambique, sob reservas dos direitos anteriormente adquiridos por outras potências, e obriga-se pela sua parte, a abster-se ali de qualquer ocupação.”

Era a primeira vez que no mapa africano figurava uma larga faixa de terreno pintado a cor-de-rosa e ninguém suporia então que iria acabar no Ultimato.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Onde fica a região do Casamansa de que a França se apoderou pela Convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886
Documento alusivo ao apresamento da barca Charles e Georges, 1858

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 6 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio consegue traçar e enquadrar os elementos fundamentais que levaram as potências coloniais a reunirem-se em Berlim para se tomarem decisões sobre o continente africano. A questão do Zaire foi um dos detonadores, as potências coloniais melhor apetrechadas, ambicionavam os negócios africanos, fazer caminhos de ferro, pagaram dispendiosas expedições científicas, o rei dos belgas, sob o pretexto de criar uma associação internacional para melhorar a civilização em África, fundou o Estado do Congo, surgiram conflitos para nos afastar das margens do Zaire; é facto que a Conferência de Berlim fez reconhecimento às possessões coloniais portuguesas, mas não passou do mero interlúdio para novas tentativas de reduzir a presença portuguesa em África. As hostilidades não vinham só da nossa mais velha aliada, a França já não escondia as suas ambições na África Ocidental, veremos adiante a questão do Casamansa e a sua tentativa de nos humilhar com a questão do navio Charles e Georges.

Um abraço do
Mário


Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 5

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, Subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos quatro textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

O que se entende por a questão do Zaire? O Governo português sustentava os nossos direitos aos territórios da Costa Ocidental de África, ao norte de Ambriz, o que indispunha a diplomacia britânica. Como observa o Marquês do Lavradio, quando se ocupou Ambriz, em 1855, fez-se a declaração da intenção de ir sucessivamente ocupando os territórios ao norte, caso de Cabinda. Logo em 1856 o Governo inglês dava instruções ao almirantado para que se opusesse pela força a qualquer nova tentativa de ocupação por parte de Portugal. Estas medidas de força violavam os Tratados existentes entre Portugal e a Grã-Bretanha. Que justificação davam os nossos aliados para tão tenazmente se oporem à nossa presença no Ambriz e mais ao norte? Que não tínhamos possibilidade de impedir o tráfico de escravos. O Ambriz, antes de ser novamente ocupado pelos portugueses, era o grande mercado dos escravos, e depois da ocupação não constava que saísse daquela localidade um só escravo.

Comentando a situação, escrevia o Visconde de Sá da Bandeira: “Parece-me que o Governo inglês tem preparado para pouco a pouco estabelecer no Zaire e costa adjacente o mesmo sistema que tem conseguido fundar na Costa da Mina, isto é, uma espécie de protetorado sobre todos os régulos. A consequência de tal protetorado tem sido que o comércio britânico adquiriu, com o andar do tempo, tal supremacia na Costa da Mina que quase que monopolizou as transações que se fazem nos portos.” A diplomacia portuguesa continuou a insistir nos seus direitos, como abonam as iniciativas de Andrade Corvo e as do Duque de Saldanha. Toda aquela região era ambicionada por potências coloniais, expedições como as de Livingstone, Stanley ou Brazza revelavam o valor dos territórios. As viagens, que haviam chamado a atenção das potências para a questão da escravatura em tráfego, originaram a conferência Internacional de Bruxelas, que se reuniu a 12 de setembro de 1876, Portugal não se fez representar, e foi nessa conferência que nasceu a Administração Internacional para a Exploração e a Civilização da África Central.

Em 1878, em resultado das novas explorações de Stanley, fundava-se em Bruxelas a Comissão de Estudos do Alto Congo e posteriormente a Associação Internacional do Congo. Foi nessa ocasião que a Inglaterra se decidiu finalmente em encetar negociações connosco para um Tratado que nos devia reconhecer o direito de ocuparmos o que legitimamente nos pertencia. A Inglaterra impunha-nos que se declarasse a liberdade de navegação no Zambeze e Congo, que se concedesse o tratamento de nação mais favorecida aos súbditos britânicos, que se desistisse de qualquer pretensão sobre terrenos ao sul ou no interior que não estivessem efetivamente ocupados e que se suprimisse o tráfico da escravatura.

Numa tentativa de recapitulação podemos considerar que a questão do Zaire, a criação de uma associação internacional sobre a égide do rei Leopoldo da Bélgica, a delimitação da bacia do Congo, a própria política hostil dos Estados Unidos que exigia uma total liberdade comercial na região do Congo, as expedições de Stanley, numa tentativa de encontrar apoios junto das chefaturas nativas em detrimento dos interesses portugueses estão entre as causas principais que conduziram à Conferência de Berlim, na justa medida em que a Alemanha também cobiçava porções de território africano. A Alemanha já pusera o pé na África Oriental entre Zanzibar e Tanganica, e começava a assentar arraiais no Togo. Como escreve o Marquês do Lavradio, “Ingleses, franceses e alemães lançaram-se sucessivamente nos sertões africanos, ou com fins meramente científicos ou com intuitos de especulação comercial, resultando destas viagens o conhecimento completo da geografia africana, a criação de novas colónias ou protetorados e, ainda, o nascimento de um Estado novo.”

O autor procura denunciar que grande parte destas expedições em que pessoas como Livingstone ou Stanley ou Cameron alegavam que eram os primeiros a atravessar África escondiam o facto dos portugueses já terem importantes viagens, e avança com dados históricos:
“Não devem ser esquecidos os nomes de João Fernandes, o primeiro europeu que penetrou no terreno de África, ficando no Rio de Oiro em 1445, para aprender a língua e costumes, a fim de informar o Infante D. Henrique; padre Gonçalo de Silveira, que em 1561 conseguiu batizar solenemente o rei de Monomopata, que meses depois o mandava assassinar; frei João dos Santos, que de 1568 a1597 encontrámos exercendo a sua missão na África Oriental; padre Jerónimo Lobo, que em 1624 estava na Abissínia; Domingos de Abreu e Brito, 1592 reconhecia a facilidade de passar de Benguela para as minas de Monomopata; Baltazar Rebelo de Aragão; Manuel Cerveira Pereira; Luís Mendes de Vasconcelos.”

E, mais adiante:
“O Tenente-coronel Francisco Honorato da Costa, Comandante da Feira de Cassange, mandou em 1802, por ordem do Governador de Angola, dois dos seus pioneiros a Tete com cartas para o Governador dos rios de Sena. Estes dois homens, Pedro João Baptista e Anastácio José, saíram de Cassange em fins de novembro de 1802 chegaram a Tete em 2 de fevereiro de 1811, onde Pedro João Baptista entregou ao Governador dos rios de Sena um roteiro do caminho seguido. É esta a primeira travessia entre as duas costas africanas de que há conhecimento afetivo.”

Como iremos ver adiante, estávamos a pagar forte e feio a nossa negligência e não possuíamos nem meios nem poder para concorrer com as grandes potências. Houve, é facto, uma comoção nacional face a esta corrida em África, o que levou à formação de uma comissão geográfica africana e à fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Creio que se justifica uma explicação quanto à extensão que estou a dar à recensão deste livro. O Marquês do Lavradio, possuidor de um arquivo histórico ímpar, tendo acompanhado no exílio o rei D. Manuel II até ao seu falecimento, pode debruçar-se a preceito, neste livro que concluiu em 1934 a discretear com rigor e sem nacionalismos tolos ao estado das colónias portuguesas, às razões do seu estado decadente e à análise das mais palpitantes questões diplomáticas que se prendiam com a formação do nosso Terceiro Império.
Assim como a História da Guiné não se pode elaborar exclusivamente com os dados que possuímos sobre a presença portuguesa quer na Senegâmbia quer na Província, havendo o imperativo de convocar historiografias de Cabo Verde, Senegal, Guiné Conacri, pelo menos, do mesmo modo não se pode entender o esforço de ocupação e pacificação que a Guiné viveu sem entender o pano de fundo da ténue presença portuguesa na Grande Senegâmbia e o que representou a Conferência de Berlim para esse papel de ocupação e pacificação, que se estenderá até 1936 e culminará com o desempenho do governador Sarmento Rodrigues.
Obviamente que esta obra do Marquês do Lavradio irá ser taticamente esquecida na argumentação das autoridades portuguesas na era da descolonização mundial, aqui se revela, preto no branco que estávamos há cinco séculos em África em entrepostos, pagando dinheiro às chefaturas para ali comerciar e traficar. Como, de igual modo, valerá a pena ler com atenção uma conferência que o Conde de Penha Garcia, que presidiu aos destinos da Sociedade de Geografia de Lisboa de 1924 a 1940, conferência produzida em 1892, onde disse claramente que Portugal estava ligado ao continente africano por interesses de quase 500 anos.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 4

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Já florámos o estado das colónias portuguesas de África em 1851, as causas principais de decadência no olhar do Marquês do Lavradio, entramos agora nas questões diplomáticas, a seguir à questão de Bolama temos a de Lourenço Marques que igualmente originou graves discussões com as autoridades britânicas.

Lourenço Marques deve o seu nome ao navegador português que em 1544 entrou naquela baía e tomou posse em nome do rei de Portugal. Em 1733, os holandeses expulsaram-nos de Lourenço Marques e construíram uma fortaleza; mais tarde, os austríacos expulsaram os holandeses. Em 1781, saiu de Moçambique uma expedição por ordem de D. José, os austríacos foram expulsos e tomou-se novamente posse daquele porto e território.

A questão de Lourenço Marques teve a sua primitiva origem no procedimento do capitão Owen em 1824. O governador Lourenço Marques maltratara o rei Capela, e devendo tratá-lo com respeito, como ordenavam as cartas régias, ultrajara-o e matara-lhe gente, porque não se prestara às rapinas que lhe propusera. O rei Capela foi buscar auxílio do capitão de mar e guerra Owen, encarregado de levantar a carta hidrográfica de toda a costa oriental de África e que então estava na baía de Lourenço Marques. Owen, para atrair o régulo, prometera-lhe auxílio, içou uma bandeira inglesa na ponta sul das terras daquele rei, fronteiras ao estabelecimento português. Owen conseguiu ainda de outras autoridades gentílicas vassalagem ao rei britânico. Começaram as contendas entre autoridades portuguesas e britânicas: arriar a bandeira britânica, apresamento de brigues, ameaças, intimidações.

Seguiram-se negociações diplomáticas sobre a legitimidade de direitos portugueses a Lourenço Marques, contestação britânica, com prova de força, a 28 de julho de 1860, o contra-almirante Keppel entrava na baía de Lourenço Marques e escrevia ao governador: “Que aquela baía era considerada como limite entre as possessões portuguesas e inglesas, e que a parte sul e território sul pertenciam à coroa britânica, e o governo de Sua Majestade britânica mantinha o seu direito de reclamar e conservar o mesmo território.”

Em 5 de novembro de 1861, o governador do Cabo da Boa Esperança mandou a Lourenço Marques um navio para se apoderar de ilhas declarando ao governador Lourenço Marques que eram possessão inglesa e ficavam anexadas à colónia do Natal. Protesto do comissário português, diligências diplomáticas em Londres. O Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico continuava a negar os direitos portugueses. O diplomata português, o Marquês do Lavradio, respondeu:
“Que à vista da inqualificável declaração que ele acabara de fazer-me, eu começava por lhe perguntar se ele considerava Portugal uma nação independente ou como uma conquista da Inglaterra? Que eu não podia admitir que se duvidasse da independência de Portugal, e que então o emprazava para que me dissesse com que direito o Governo britânico havia não só mandado violar o território português, mas até anexado uma porção dele, sem respeito aos Tratados vigentes? O Governo britânico, prevalecendo-se da superioridade das suas forças e confiando que nós nem sequer havemos de confiar ao mundo civilizado os resultados da nossa opressiva aliança, exerce sobre nós uma verdadeira tirania, de um género que não conheço outros exemplos na história das nações.”

O diplomata português confessou abertamente a Lord Russell a sua profunda indignação e esperava, no entanto, que houvesse uma reparação aos atos praticados pelo governador da colónia do Cabo.

A Inglaterra não tinha argumentos que pudesse contrapor para justificar o direito a ocupar as ilhas da baía de Lourenço Marques. A Inglaterra sabia que Portugal não tinha forças para evitar as prepotências britânicas. Nestas condições, só restava a Portugal o recurso de negociar, a arbitragem era o único meio que Portugal dispunha para poder segurar as suas possessões. E o Governo português procurou alianças. A 29 de julho de 1869 assinava-se em Pretória um Tratado de paz, amizade, comércio e limites entre Portugal e a República do Transval, seguiram-se protestos britânicos. A diplomacia portuguesa reagiu apelando para que se terminasse amigavelmente a questão de Lourenço Marques. Indicou-se então como árbitro o Presidente da República Francesa, Mac-Mahon pronunciou em 24 de julho de 1875 a sentença arbitral dando completa satisfação às reclamações portuguesas, o que veio consolidar o domínio português na Província de Moçambique. O Governo britânico aceitou a decisão do árbitro. Fez-se um novo Tratado com o Transval, estipulando a construção do caminho-de-ferro Lourenço Marques a Pretória, isto em 1875, e no ano seguinte Portugal assinou um Tratado com o Estado Livre de Orange sobre as mesmas bases do Tratado de Transval.

O Marquês do Lavradio vai agora demoradamente debruçar-se sobre a questão do Zaire e a Conferência de Berlim, temas-chave para o reconhecimento de Portugal como potência colonial e porta de saída para a reconfiguração de territórios coloniais com as presenças francesa, britânica, portuguesa e alemã. Lembra o autor uma citação num livro sobre a colonização dos povos modernos, da autoria de Leroy Beaulieu:
“Portugal pela sua inércia, incapacidade e corrupção, devidas ao tráfico negreiro, deixou passar o momento propício de reconstituir um florescente império português em África.”

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Chegada de um comboio oriundo do Transval à então novíssima estação ferroviária de Lourenço Marques (1ª fase) pouco depois da inauguração, ocorrida em Março de 1910 (note-se que a imagem foi recolhida já após o golpe de Estado que impôs uma república em Portugal, evidenciado pela bandeira nacional verde e vermelha, imposta pelo regime republicano). A estação inicial, muito mais rasca, que ficava do lado direito deste e mais ao fundo, ainda existe, mas foi desativada na altura (Ver o postal em baixo). Se o Exmo. Leitor reparar, ao fundo ainda não se vê a parte de trás da fachada que daria para a Praça (então chamada Azeredo, depois Mac-Mahon, hoje dos Trabalhadores) e que seria construída posteriormente e concluída cerca de 1916 (2ª fase). Note-se ainda a torre de iluminação elétrica, que na altura era considerado o píncaro da modernidade e que permitia utilizar a estação quando os comboios partiam e chegavam durante a noite.
Navios fundeados em frente a Lourenço Marques, 1895. Em primeiro plano, barcaças chatas. Esta foto foi tirada aquando dos ataques a Lourenço Marques, que motivaram os portugueses a enviar uma expedição ao Sul de Moçambique, chefiada por António Ennes e que incluía, entre outros o Major Mouzinho de Albuquerque.

Estas duas imagens foram retiradas do site The Delagoa Bay World, com a devida vénia

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Para sermos justos não há verdadeiramente nada de novo na narrativa do Marquês do Lavradio quanto à questão de Bolama. O autor, detentor do arquivo dos marqueses do Lavradio, tendo vivido em Londres como aio do Rei D. Manuel II, teve seguramente acesso à documentação britânica para além de possuir os arquivos de seu pai, que fora representante de Portugal na primeira metade do século XIX, tendo-se relacionado com primeiros-ministros e ministros dos negócios estrangeiros britânicos que tudo fizeram para expulsar Portugal das franjas da Guiné, de Angola e Moçambique. Inequivocamente, o Reino Unido, como este livro revela pela documentação mostrada, tinha um plano imperial para África onde urgia reduzir drasticamente a presença portuguesa. E como o próprio Marquês do Lavradio aponta nas suas conclusões o Reino Unido preparava-se para negociar com a Alemanha, ainda no século XIX, a retirada de Portugal de Angola. Nas conclusões, para nosso espanto, o Marquês do Lavradio condiciona a existência do Império português em África ao beneplácito dos políticos de Londres, e dirá coisas que parecem ter uma carga premonitória, tais como: "Se um dia a China conseguisse apoderar-se de Hong Kong nós não poderíamos conservar Macau; se a Índia se revoltasse e, triunfante, expulsasse a Inglaterra, nós não necessitaríamos mais de um governador na Índia." Para que conste.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 3

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi editado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Era inevitável que a Guiné aparecesse neste trabalho logo a questão de Bolama era uma das três questões importantes que tínhamos com os britânicos: em Bolama, em Lourenço Marques e em Angola. Vejamos a primeira, seguindo textualmente o que ele escreve.

A ilha de Bolama estava na posse de Portugal desde 1607 por uma doação que dela havia feito o Rei de Guinala, em recompensa do auxílio que os portugueses lhe haviam dado para o defenderem dos ataques dos Bijagós; em 4 de abril de 1753, Portugal havia tomado posse da ilha; em 1628, os Régulos que então dominavam a ilha haviam espontaneamente feito de novo cessão da ilha a Portugal, assinando um tratado e ajuste de posse, pelo qual era conferido à Corte Portuguesa o seu perpétuo domínio. A Inglaterra reclamou pela primeira vez em 1884 a ilha fundando-se em que em 1792 ela lhe fora cedida pelo Rei de Canhabaque e pedindo esclarecimentos sobre o fundamento que a nação portuguesa tinha para se julgar com direito ao domínio da ilha.

A verdade era que até 1792 nunca o domínio de Bolama fora contestado a Portugal, que em 1792 alguns ingleses fundando-se na tal venda haviam ali estabelecido, mas em 1793 haviam sido expulsos pelos naturais, só voltando em 1814; em 1827, Sir N. Campbell, tentara obter do Rei do Rio Grande uma ratificação da cessão ou venda feita em 1792; e em 1828 o Governador da Serra Leoa havia querido tomar violentamente posse daquela ilha o que lhe fora impedido pelas medidas adotadas pelo Governador e Capitão General de Cabo Verde, D. Duarte da Costa Sousa Macedo. Em 1830, o tenente da marinha A. Kellet comandando o brigue Bisk dirigira-se a Bolama, e com o fundamento de que ali se traficava em escravos, cortara o pau da bandeira, arrancara esta da mão de um soldado e chegara mesmo a cuspir-lhe.

Houve protesto em Londres. A nota ficou sem resposta até 22 de maio de 1840, dava razão a Kellet e declarava que não podia permitir que Bolama, reclamada pelo Governo inglês, servisse para mercados de escravos. Em 9 de junho de 1841, Lorde Palmerston declarava por escrito que a ilha de Bolama pertencia à Inglaterra, dizendo que os documentos apresentados por Portugal nada provavam a favor dos seus direitos e que os por ele apresentados provavam claramente os da Grã-Bretanha. Em 1842, o vapor de guerra inglês Pluton fundeava na ilha de Bolama, cometendo arbitrariedades. Em 15 de julho de 1842, o Governador de Bissau comunicava que o comandante do navio Pantaloon lhe participara em 23 de maio que por ordem superior ia tomar posse da ilha de Bolama, mas o Governador não mandou retirar o destacamento sem para isso receber ordem; a 6 de novembro de 1843, o Governador de Bissau mandava arriar a bandeira inglesa em Bolama, o que gerou protesto do Ministro de Inglaterra em Lisboa. Em 13 de janeiro de 1847, o comandante do brigue Rolla abusava da sua força em Bolama, com o fundamento de que a ilha era possessão inglesa. Nova queixa do Governador Militar de Bissau ao Governador Geral de Cabo Verde, este atribuiu o ato a embriaguez, ordenou ao Governador Militar de Bissau que repelisse a força quando o número de agressores não fosse tal que só causasse vítimas.

O autor elenca um corrupio de situações hostis, inclusive do Governador da Serra Leoa, sempre protestos das autoridades de Bissau e o Governo português sustentando que Bolama pertencia à coroa de Portugal. Em 1861, o Ministro dos negócios estrangeiros britânico propõe a decisão da contenda submetida a uma arbitragem. Havia mais de 20 anos que o Governo britânico disputava a Portugal o domínio de Bolama, fundando-se em documentos que o Governo português não podia reconhecer, por serem inválidos. O Ministro de Portugal em Londres, o 5.º Marquês do Lavradio conferenciou com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e dele deixou o seu relato:
“Fiz a narração do que na ilha de Bolama havia praticado o Governador da Serra Leoa. Notei a insolência, a falta de princípios das duas cartas do Governador da Serra Leoa, a dignidade e prudência da resposta do honrado Governador da Guiné. Depois de fazer algumas poucas, posto que severas, observações sobre o procedimento do Governador da Serra Leoa, procedimento sem exemplo na história das nações civilizadas, concluí dizendo a sua excelência que fazia a devida justiça ao Governo de sua Majestade britânica e que por isso não podia, nem mesmo suspeitar que o Governador da Serra Leoa tivesse procedido em virtude ordens do seu Governo, e que igualmente estava certo que o Governo britânico, por sua própria honra se havia de apressar a corrigir o seu agente e a reparar as péssimas consequências do seu insólito e indiscutível procedimento.”

Encurtando razões, a arbitragem era o único meio que to Governo português tinha para poder assegurar não só as suas possessões na Guiné, mas também as das duas costas da África Meridional. O Governo britânico disputava o uso dos nossos direitos na costa ocidental ao norte de Ambriz; contra o nosso direito, e apesar dos nossos protestos, exercia direitos soberanos em uma parte das nossas possessões na África Oriental; na baía de Lourenço Marques pretendia usurpar-nos alguns pontos essenciais; por meios ostensivos e traiçoeiros procurava privar-nos do interior do Zambeze; procurava considerar-nos com os povos africanos. Cientes que a razão estava do lado português, o Governo britânico não quis aceitar a arbitragem proposta pelo Governo português quanto às questões relativas a Bolama.

O Conde de Ávila foi nomeado plenipotenciário em 28 de junho de 1864 para negociações quanto à posse da ilha de Bolama. E o Conde do Lavradio declarou a Lord Russell, Ministro dos Negócios Estrangeiros que tinha recebido ordem de propor novamente ao Governo britânico uma arbitragem. A arbitragem tornava-se absolutamente necessária porque o Governo inglês não reclamava já unicamente Bolama, queria apossar-se das ilhas adjacentes e do rio Grande até Bolola e o rio de Guinala. As hostilidades britânicas em Bolama mantiveram-se, os protestos portugueses redobraram. Finalmente, em 8 de julho de 1868, o Ministro britânico em Lisboa participava que o governo britânico estava disposto a aceitar a arbitragem e posteriormente propôs para árbitro o Presidente dos Estados Unidos da América. Em 21 de abril de 1870 o Presidente Ulysses Grant proferia a sua sentença dando completa satisfação aos direitos de Portugal. A teimosia britânica durara 28 anos, houve prepotências, a nossa bandeira arriada. E não será por acaso que em 1879, quando a Guiné se autonomizou de Cabo Verde, a capital da Província foi Bolama.

Iremos proximamente e em síntese falar da questão de Lourenço Marques e a do Zaire, assim chegamos à Conferência de Berlim, ponto de viragem da política imperial portuguesa.

Imagem de 1930
Bolama, a velha capital ao abandono
Imagem da inauguração da estátua do 18.º Presidente dos Estados Unidos da América, General Ulysses Grant, na Ilha de Bolama
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)