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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28042: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte II: recuperar a gente do "mato"






Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2, 2A e 2B







Foto nº 3, 3A, 3B e 3C







Foto nº 4, 4A, 4B e 4C





Foto nº 5, 5A, 5B e 5C







Foto nº 6 e 6A







F oto nº 7, 7A, 7B, TC

Guiné > Bissau > Rep ACAP / QG/CCFAG > c. 1971 > Possível legenda: população, anteriormente sob controlo do PAIGC (que vivia, portanto, no "mato", a avaliar pelo traje: um simples pano a cobrir as vergonhas, as bajudas e mulheres de seios à vela, homens e mulheres descalços, com exceção de 3 homens na foto nº 3, e que devem ser três gajos importantes), que usam as sandálias de plástico, típicas dos guerrilheiros do PAIGC); população entretanto "recuperada" pelas NT.

Visita de acção psicossocial organizada pela Rep ACAP. A um reordenamento. Preparada e conduzida com cuidado: por exemplo, o condutor da viatura é guineense (foto nº 4), não há tropa por perto (a não ser um alferes, na foto nº 7), apenas elementos da administração civil (porventura o chefe de posto da localidade) (foto nº 5).

Talvez o Ernestino Caniço nos possa dar mais detalhes sobre estas preciosas fotos. Parece haver alguma tensão ou apreensão nos rostos dos "visitantes" deste reordenamento (que não sabemos onde ficava). Provavelmente estão a falar entre eles sobre o que vão fazer, o que vão dizer sobre o que viram e ouviram... Gostaram, não gostaram ? E será que vão voltar para o "mato" ou vão ficar na "Spinolândia" ? Será que temem represálias ?... (Os mamilos femininos foram esbatidos, para violar as regras do Blogger, o nosso servidor.)

Fotos (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 



O médico Ernestino
 Caniço (Tomar, 2014)
1. Mensagem, mais abaixo. de Ernestino Caniço (ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, Bissau, jan 1970/ dez 1971, hoje médico, vive em Tomar, estando reformado do SNS (em 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel); trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho):


Data - 4 de maio de 2026, 21:11
Assunto - Rep ACAP

Votos de ótima saúde


A fim de dar continuidade ao “material” sobre a Rep ACAP (Assuntos Civis / Acção Piscológica), remeto mais algumas fotos sobre esta temática.

De relevar, a população que após informação, visitava obras e estruturas do governo da Guiné.

Aproveito o ensejo para referir que ao visualizar os postes sobre o PIFAS, concluí que eu e o camarada Garcês Costa fomos contemporâneos na Rep ACAP e ao qual deixo um abraço.(O resto da mensagem será publiucada noutro poste a seguir.) (...)

Um abraço,

Ernestino Caniço


2. Comentário do editor LG:

Obrigado., camarada, por mais este lote de fotos, relativas ao tempo em que estiveste na Rep ACAP. 

Embora as legendas sejam sucintas, e não tragam  datas, tudo indica tratar-se de população "turra", que está em fase de recuperação e reintegração.  Pelo aspect0, é gente do mato e, maioritariamente, balantas. De onde vieram não sabemos. Nem sequer o local da visita. Talvez possas ajudar a fazer o "enquadramento".

Com Spínola enquanto governador e comandante-chefe, houve uma forte aposta na "recuperação" de antigos combatentes do PAIGC como da população que vivia no "mato"...

Dos relatóros da ação psicológioca  realizada  no ano de 1972, destaco por exemplo este excerto (vd,. nmais abxio, em itálico), bastante elucidativo sobre o sucesso que estava a ter o desenvolvimento da política "Por uma Guiné Melhor".

O gen Spínola, em 1970 e 1971, não só estava a "inverter a situação militar" como a ganhar pontos ao PAIGC, na (re)conquista das populações que viviam no "mato", nas chamadas "áreas libertadas": mal instaladas, refugiadas nos sítios mais recônditos  das matas e floresta, mal alojadas, mal alimentadas, mal vestidos, tendo de alimentar também a guerrilha, dispondo de poucos ou mesmo nenhuns cuidados de saúde, sujeitas  aos abusos dos "senhores da guerra", obrigados a "trabalho forçado" (colunas logísticas, etc.), vítimas de bombardeamentos, assaltos de tropas helitransportadas, golpes de mão da tropa de infantaria, flagelações da artilharia, etc.  Enfim, um inferno!...

Viver num reordenamento, com escola, posto sanitário, água potável, mercado, estradas mais seguras, transportes, casa com telhado de zinco, bolanhas ricas para cultvar o arroz (como Sambassilate, no subsector do Xime, Sector L1),  em segurança relativa, no seu primitivo chão, etc., era bem melhor do que viver no  "mato"...

(...) "População

O aspecto mais significativo no período foi a recuperação de cerca de 3.500 elementos da população balanta em Caboxanque e Cadique  [no Cantanhez, região de Tombali] que, após a implantação das NT naqueles locais, franca e abertamente, se acolheram à nossa protecção, colaborando na construção dos aldeamentos locais imediatamente iniciados.

Esta atitude, manifestada por uma população há anos sob controlo IN, para além de revelar um fraco índice de contaminação subversiva, onfirma o quadro de desequilíbrio psicológico a nosso favor, vindo há muito manifestar-se pela generalidade da população controlada pelo inimigo em consequência dum cansaço de guerra, pesadas exigências do Partido e precárias condições da vida no "mato". (...)


Fonte:  Excerto de: CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo III - Guiné - Livro III (1.ª edição, Lisboa, 2015),  pág. 186.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27967: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte I: "Conquistar mentes e corações"

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27975: O PIFAS, de saudosa memória (22): Semelhanças e diferenças com o programa norte.amerciano "Good Morning, Vietnam"


Cartaz do filme, "Good Morning, Vietnam" (EUA, 1981, 121 m, a cores) (em portuguès, "Bom Dia, Vietname). (Cartaz: cortesia da Wikipedia), Ver aqui o "trailer" oficial (2' 39'').

Disse o Cinecartaz do Público quando o filme se estreou em Portugal:  "Foi com este filme que Robin Williams se tornou numa estrela internacional, interpretando um tipo de personagem que retomaria frequentemente: o rebelde bem disposto e brincalhão, incompreendido pelas autoridades. Em 'Bom Dia, Vietname', Williams é um locutor pouco convencional da rádio do exército americano estacionado no Saigão, que ganha enorme popularidade entre os soldados com o seu estilo extravagante. 'Bom Dia, Vietname' deu a Williams a sua primeira nomeação para um Óscar, prémio que o actor conquistaria em 1998, na categoria de melhor actor secundário no filme de Gus Van Sant «O Bom Rebelde' ". PÚBLICO


O boneco do Pifas


1. Haverá semelhanças entre o Pifas  (Programa das Forças Armadas, no CTIG) e o "Good Morning, Vietnam" ? Sim, há pontos de contacto mas também diferenças fundamentais.

 Antes de mais,  os EUA era uma democracia política, e Portugal vivia numa ditadura, com polícia política, censura e um partido  único. Os EUA era o maior exército do mundo... Portugal tinha um grande império mas era "pobreta"... Até 1969, a guerra colonial era praticamente tabu, nomeadamente na comunicação social e no debate público. As poucas notícias que chegavam aos jornais  era os  telegráficos comunicados das Forças Armadas com a lista dos mortes nas 3 frentes (Angola, Guiné e Moçambique).

No EUA a guerra do Vietname era dada em direto na televisão, o que teve um efeito contraproducente na opinião pública e na população jovem em idade militar. 

Em Portugal, em contrapartida,  a guerra chegava por aerograma e "boca à boca"... O resto era a paz dos cemitério e das ruas... E, claro, a solidão sofrida dos antigos combatentes que, com a "peluda",  voltavam às suas vidas cinzentas ou emigravam (nomeadamente nos Açores e na Madeira, para as Américas...).

Tanto o PIFAS na Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau), durante o comando do general António de Spínola (final dos anos 1960/início dos 1970), como o famoso programa de rádio "Good Morning, Vietnam!", associado ao locutor Adrian Cronauer durante a Guerra do Vietname (1965), são exemplos de programas de rádio militares com um impacto cultural e psicológico significativo em contextos de guerra,  colonial, de contraguerrilha,  ou regional  (como foi o cas o da guerra do Vietname, com uso de meios bélicos poderosos). 

As duas guerras não são comparáveis... Aliás, Portugal não estava em guerra com nenhum país estrangeiro... Mas a Guiné foi o "osso mais duro de roer" das Forças Armadas Portuguesas, na época.

1.1. Vejamos os pontos de "similitude" entre os dois programas:

(i) Objetivo e público-alvo

PIFAS: criado ainda em 1967 mas popularizado no tempo de Spínola, visava melhorar a imagem de Portugal junto das populações locais, transmitindo música, notícias e mensagens em línguas africanas, além de crioulo e português; era uma ferramenta de "ação psicológica" (sic) para ganhar corações e mentes, num contexto de guerra (colonial, ta,bém dita "subversiva"). 

"Good Morning, Vietnam!"
 (com o 
 DJ interpretado por Robin Williams):  também tinha como objetivo levantar o moral das tropas americanas no Vietname, mas acabava por chegar de igual modo à população local alguma da qual se esforçava por aprender inglês (aliás, o Adrian Cronauer também era professor de inglês, no filme); usava música popular americana, humor e um tom irreverente e descontraído, contrastando com a dureza da guerra. Mas o propósito principal era mesmo  animar os soldados no terreno.

(ii) Uso da música popular

Ambos usavam música popular (rock, pop, música local) como forma de comunicação e aproximação. A discografia, do lado português, era necessariamente muito mais limitada, para não dizer "indigente"...   A grande maioria das NT não estava ainda sensibilizada para a música anglossaxónica predominante já na época. Dos discos mais pedidos pelo soldado na mato era... o do Conjunto Maria Albertina, já muito popular na diáspora lusófona!

O PIFAS incluía músicas africanas e portuguesas (e uma ou outra canção de "cantores proibidos": Zeca Afonso, José Mário Branco,  Manuel Freire, etc.), enquanto o programa de Cronauer usava sobretudo  rock'n'roll e hits americanos.

(iii) A linguagem era adaptada ao público

O PIFAS usava crioulo e línguas locais, para chegar à populaçáo guineense. Cronauer usava  a linguagem brejeira e o humor irreverente, com muito calão de caserna, para fidelizar o público militar.

Em ambos os casos,  a rádio servia como companhia no isolamento no mato; era um 
estímulo psicológico; e uma tentativa de aliviar o stress da guerra. 

O humor e a música  eram “armas leves”; música popular, discos pedidos, recados, anedotas, humor, etc., tudo isso aparece nos dois contextos. A ideia era humanizar o quotidiano militar e quebrar a tensão.

(iv) Contexto de guerra e propaganda

Os dois programas surgiram em contextos de guerra, 
 prolongada, difícil, com forte componente psicológica. E crescentemente impopular na retaguarda (com manifestações nos EUA, o que em Portugal era ainda impensável)  e cada vez mais contestada no plano internacional (levando, no caso português, a um boicote no fornecimento de material bélico e ao isolamento diplomático).

Tanto na guerra colonial portuguesa como na guerra do Vietname, a propaganda e a comunicação eram essenciais para manter o apoio ou, pelo menos, a neutralidade das populações, a par do moral das tropas.

O PIFAS era parte de uma estratégia de "pacificação" e "sedução" de Spínola (e do seu estado-maior, de resto brilhante), enquanto o programa de Cronauer era sobretudo  uma forma de "escape" para os soldados americanos (a par do elevado consumo de álco0ol e de substâncias: marijuana,  LSD, cogumelos alucinógenos, metanfetaminas, heroína...).


(v) Impacto cultural e memória

O "Good Morning, Vietnam!" tornou-se icónico, especialmente depois do filme de 1987 com Robin Williams, que imortalizou a figura de Cronauer.

Embora inspirado na figura de Cronuaer,  e na sua história,  o filme vive muito do inimitável talento de Robin Williams e tem cenas de ação ficcionadas. Foi rodado na Tailândia.  

O PIFAS não era de todo conhecido internacionalmente, é hoje apenas lembrado por quem  trabalhou na Rep ACAP - A Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica  como uma inovação na guerra psicológica portuguesa, embora com resultados limitados face à realidade do conflito (e que, de resto, nunca chegaram a ser estudadas de todo). 

É também lembrado por alguns dos ouvintes na época. Já se passou mais de meio século, é difícil (senão impossível) fazer hoje uma avaliação retrospectiva do seu impacto. 

1.2. Vejamos algumas diferenças importantes:

PIFAS: era uma ferramenta de propaganda política e militar, dirigida sobretudo aos militares e às populações locais, com um tom mais institucional, com meios humanos e técnicos limitados (três emissões diárias, de 1 hora cada, difundidas pelo Emissor Regional da Guiné, localizado em Nhacra). Era da responsabilidade da Rep ACAP.

"Good Morning, Vietnam!": era um programa de entretenimento para tropas, com um tom mais informal e irreverente, sem uma agenda política explícita.

O grau de liberdade era muito diferente: o DJ do filme (baseado na figura de Adrian Cronauer) é marcado pela irreverência, crítica mordaz e até choque com a hierarquia militar. Terá havido, no terreno,  mais liberdade para a contestação interna, liberdade também possível pela enorme popularidade do programa "in loco".

O PIFAS era, pelo contrário, um instrumento mais institucional, enquadrado na estratégia político-militar portuguesa e na política spinolista "Por Uma Guiné Melhor".  Portanto, mais conservador e ponderado, nos seus conteúdos, na sua "playlist", etc..  mais 
alinhado com a política oficial do regime, enquadrado por oficiais do quadro como Otelo e depois Ramalho Eanes.

Os radialistas que por lá passaram, estavam sujeitos a censura e sobretudo à autocensura ("a pior das censuras", segundo o Armando Carvalhêda). E  não havia nenhum "cromo" com o enorme  talento do Robin Williams no papel do Adrian Cronauer. 

Conclusão:

Há, de facto, similitudes no uso da rádio como ferramenta de comunicação,  influência e propaganda em contextos de guerra, mas com objetivos e públicos distintos. Ambos refletem a importância da comunicação de massa em conflitos modernos e a necessidade de manter em alta o moral dos combatentes.

(Pesquisa: LG + Wikipedia  + IA (ChatGPT / Open AI  | Le Chat / Mistral AI)
(Condensação revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27581: Humor de caserna (230): A justiça do Cherno Rachide: quando roubar um vitela em Aldeia Formosa (Quebo) saía caro (Arménio Santos, ex-fur mil, SIM- Serviço de Informações Militares, 1968/70)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > Destacamento da Ponte do Rio Udunduma > Uma manada de vacas, cambando o Rio Udunduma, perto de Sambilate e Nhabijões... Possivelmente pertencentes a um notável fula da região (Amedalai, por exemplo, que era a tabanca mais perto)... Só com muita relutância os fulas vendiam cabeças de gado à tropa... Aliás, era preciso ir longe, a Sonaco, já perto da fronteira com o Senegal, comprar gado para alimentar o ventre da tropa... O gado era, tradicionalmente, um "sinal exterior de riqueza", um símbolo de "status" social, dizia a ideologia da "psico"... Com a política spinolista  "Por uma Guiné Melhor" passaram a reprimir-se abusos das NT, como o roubo de vitelos, leitões, cabritos, galinhas... "pró petisco"... Os desgraçados dos balantas é que tinham fama de serem ladrões de gado...

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Esta é uma história deliciosa, já aqui contada pelo Arménio Santos, aquando da sua apresentação à Tabanca Grande, em 8/11/2009.

 O Arménio Santos, furriel miliciano, especializado em Informações e Acção Psicológica, esteve destacado em Aldeia Formosa/Quebo, entre outubro de 1968 e novembro de 1970.

Esteve em rendição individual e, como responsável pelo SIM - Serviço de Informações Militares, trabalhou com os, então, major Carlos Azeredo, tenente-coronel Carlos Hipólito e os majores Pezarat Correia e Mexia Leitão. Bem  como com o Cherno Rachide...

Fez a recruta na EPC (Santarém), em julho de 1967 e a especialidade em Reconhecimento e Informações no CISMI  (Tavira), em etembro de 1968.

Bancário, do BPA e do Millennium BCP, foi presidente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, bem como deputado, com uma longa carreira,  na Assembleia da República, pelo PSD, e Secretário-Geral dos TSD – Trabalhadores Social Democratas. Nasceu em Vagos, em 1945,  reside em Oeiras. Tem página no Facebook. É membro também da Magnífica Tabanca da Linha.
 

A justiça do Cherno Rachid: quando roubar um vitela em Aldeia Formosa (Quebo) saía caro

por Arménio Santos

Aldeia Formosa era um aquartelamento onde se concentravam muitos efectivos militares. Primeiro era o COSAF – Comando Operacional do Sector de Aldeia Formosa [a partir de janeiro de 1968, posteriormente COP1, a partir de agosto] e depois passou a sede de Batalhão  [BCAÇ 2834, responsável pelo sector S2], tinha várias unidades de milícias nativas e era placa giratória de tropas especiais envolvidas em operações na zona de Guilege – Gadamael – Salancaur, no Sul.

Havia, portanto, muitos militares.

O rancho nem sempre era famoso. Pelo contrário. E quando havia oportunidade para fazer um churrasco, especialmente furtivo, para além de se variar do prato habitual, era uma oportunidade fantástica para confraternizar, esquecer os riscos e o isolamento em que se vivia e partilhar pedaços da vida pessoal e familiar de cada um.

Só que o churrasco nem sempre era conseguido pelas melhores vias. Algumas vezes lá ia uma vitela, um porco ou um cabrito à “revelia” do dono. O que era furtado,  tinha outro gosto.

Num desses casos, o Cherno Rachid, o chefe religioso dos Fulas, cuja influência ultrapassava as fronteiras da Guiné-Bissau e era reconhecida desde a Gâmbia à Costa do Marfim, com quem eu trabalhava estreitamente mercê da minha função, e com o qual as tropas portuguesas tinham as melhores relações, mandou o Bubacar Jaló chamar-me que desejava falar comigo.

Pensei que se tratava de mais um dos muitos contactos que tínhamos sobre as actividades do IN ou sobre os problemas na Tabanca.

Quando cheguei percebi logo que o assunto teria de ser outro. O Cherno Rachid não estava sozinho, como era normal naqueles casos de trabalho, estava rodeado por um grupo de “Homens Grandes” e uma bajuda. Bastante bonita, por acaso.

Que assunto pretendia tratar o Cherno Rachid? Simplesmente que eu resolvesse o problema de um dos “Homens Grandes” presentes, que tinha ficado sem uma vitela no dia anterior e que tinha sido comida no quartel.

Que provas tinha o “Homem Grande”?

A bajuda foi a fonte da informação, ingenuamente. Era lavadeira do Delfim, que era dos lados de Matosinhos, a quem ele dera um enorme pedaço de vitela, para ela e para a família, e a quem se vangloriara da sua façanha.

A bajuda tentou dizer alguma coisa, mas os olhos do Cherno e dos outros mantiveram-na no silêncio, tal como eu também não a questionei. Ela estava ali porque o marido, um dos “Homens Grandes” presentes, também tinha comido do naco de carne que o Delfim deu à bajuda. Só que - e aqui é que está o problema - a vitela que o Delfim tinha desviado era, nem mais nem menos, do “Homem Grande” da sua lavadeira.

Postas as coisas neste pé, falei com o Delfim.

Não havia outra coisa a fazer senão remediar o que ele e os seus amigos fizeram. O Delfim não negou e pagaram o triplo do valor normal da vitela, para exemplo.

O Cherno Rachid esteve presente quando acompanhei o Delfim a sua casa, para ele entregar o dinheiro ao dono da vitela.

Esse sentido de justiça foi registado pelo chefe religioso, o Delfim não gostou de pagar aquilo que já considerava uma “conquista”, mas, por mais estranho que pareça, ficou amigo do “Homem Grande” a quem desviara a vitela e ainda mais amigo ficou da sua bajuda lavadeira.

Só a mim o Delfim passou a chamar-me o “turra branco”. Mas também por pouco tempo. Umas cervejas e a camaradagem trouxeram ao de cima os traços de amizade que só num ambiente daqueles são cimentados.

(Revisão / foxação de texto, parênteses retos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27573: Humor de caserna (229): "Uma ginjinha!... Pois dar de beber à dor é o melhor"... já lá dizia o A. Marques Lopes (1944-2024), em Barro, junto à fronteira com o Senegal, no Natal de 1968

terça-feira, 29 de julho de 2025

Guiné 51/74 - P27065: Humor de caserna (207): A fome aguça o engenho: roubar vacas, não prenhas, aos balantas de Nhacra, com recurso aos serviços de um "ginecologista"; e "pescar" galinhas com anzol... (Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAV 4540, 1972/74)




Guiné > Bissau > Nhacra> c. 1973/74 > Na piscina do quartel... O Eduardo Campos aparece em primeiro plano, a bricnar com um cãozinho. 

Foto (e legenda): © Eduardo Campos (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné




Crachá da CCAV 4540/72 (1972/74), "Somos um Caso Sério": a penúltima companhia a guarnecer Nhacra.Em 10 de abril de 1974, tinha um pelootão destacado na Ponte de Ensalmá.  Em 16 de agosto, foi rendida no subsector de Nhacra pela CCaç 4945/73 e
seguiu para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso à metrópole.


1. O  Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540 (Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74) foi um dos nossos camaradas que melhor conheceu Nhacra  onde permaneceu quase um ano, até ao fim da guerra... Tem  cerca de 6 dezenas de referências no blogue. Mora na Mora e faz parte da Tabanca Grande desde 21/5/2008. É autor da série "Histórias do Eduardo Campos".  Algumas delas têm interesse documental para se conhecer melhor como  era o quotidiano da NT nos últimos anos da guerra da Guiné. E estão, em geral,  devidamente recheadas com o "piripiri" do humor de caserna (*).  

Por norma, e se acordo com as nossas regras editoriais, não fazemos juízos de valor (de natureza ética,  disciplinar, deontológica,  política, operacional, etc.) sobre  os episódios aqui relatados (neste caso, sobre levantamentos de rancho, ladrões de vacas,  pilha-galinhas...).  Essa função cabe ao leitor, não ao editor.

A CCAÇ 4540/72, vinda do sul, de Cadique, Cantanhez, região de Tombali, esteve destacada em Nhacra cerca de um ano, desde setembro de 1973 a agosto de 1974.

Como o Eduardo já aqui escreveu, Cadique foi o inferno e Nhacra o paraíso. Ele voltaria ao "local do crime", mais de 3 décadas e meia  depois,   em abril de 2010, com um grupo de companheiros. E não escondeu a sua emoção: 

Quem por lá andou na construção da estrada que liga a Cadique, sabe o quanto nos custou, em sofrimento e morte, essa obra. A partir de Iemberem comecei a sentir e a pensar algo que jamais conseguirei decifrar, mas que posso tentar definir como um misto de emoções, desilusões, euforia, tristeza… por ali fora ia dizendo: “Aqui estive emboscado!”, “Ali morreu o A, o Bê, o Cê..”, “Foi aqui que o capitão paraquedista Terras Marques levantou 4 minas.”, etc, etc. (***)


 A fome aguça o engenho: roubar vacas, não prenhas, aos balantas de Nhacra, com recurso ao serviço de um "ginecologista"; e "pescar" galinhas com anzol... 

por Eduardo Campos


Como nada de importante acontecia  em Nhacra, os dias eram passados de uma forma totalmente diferente das matas do Cantanhez, e, acreditem que por vezes, surgiam-nos as saudades. A vida era tornava-se demasiado sedentária.

As alternativas encontradas, para fugir à rotina, eram as idas a Bissau, e, já que a alimentação nunca foi algo digno desse nome em Nhacra, aproveitava estas saídas para ir ao Pelicano, à Churrascaria de Santa Luzia, ao Bento, etc. Assim, evitava que a “dieta” que me tinha sido imposta, fosse levada muito a sério.

Por falar de alimentação, enquanto no Cantanhez suportávamos tudo, por vezes até com um sorriso, em Nhacra as coisas eram diferentes. O pessoal ficou mais rebelde e negou-se a comer duas vezes. Houve dois levantamentos de rancho.  Um dos quais teve como resultado, que passadas duas horas do início do levantamento, estávamos a comer um bacalhau cozido com batatas, que parecia ter sido confecionado no Hotel Hilton.

Embora não estivesse de oficial de dia nessa data, foi o nosso camarada e amigo tabanqueiro Vasco Ferreira (ex-alferes mil da CAÇ 4540), que resolveu o problema.

A dificuldade em adquirir gado bovino (como já disse em poste anterior , o povo,  por motivos religiosos e tradicionais,  não o vendia) (**), dava origem a que, um grupo de camaradas acompanhado de um especialista em ”ginecologia”, fossem às tabancas, de madrugada, â procura de gado. Então o nosso “especialista” apalpava… apalpava e, não estando prenha a vaca, toca a roubá-la.

Logicamente, o dono da rês vinha atrás deles a gritar e a chorar, mas não havia nada a fazer. Chegados ao aquartelamento, acabavam por fazer negócio e diziam que lhe pagavam um preço justo.

A minha eterna dúvida, nestes negócios forçados, é: “Mas que raio de preço justo era esse, se o homem não queria vender o animal!?”

A minha curiosidade sobre o desenvolvimento destas operações levou-me a que, um belo dia, os acompanhasse para ver como decorria a captura da vaca selecionada.

Nesse dia, logo por azar, o “ginecologista” improvisado enganou-se e trouxe mesmo uma vaca prenha. Foi remédio santo para mim, nunca mais comi carne bovina até ao fim da comissão.

A partir de determinada altura, mesmo cabritos, galinhas e porcos os nativos resistiam em vender. 

Aqui chegados, um camarada das transmissões inventou uma fórmula original, na época, para roubar galinhas, que constava do seguinte: um fio de pesca com vários anzóis, onde colocava uns grãos de milho. Depois pela tabanca fora ia espalhando mais alguns grãos de milho pelo chão. As galinhas vinham por ali adiante a comer os grãos e acabavam, quase sempre, por engolir um dos anzóis. Quando o tal camarada via que a bicha tinha caído na esparrela, saía rapidamente da tabanca com a “vítima” atrás dele.

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

_________________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 28 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27060: Humor de caserna (206): Dois conselhos que aprendi na tropa mas que depois esqueci na guerra: 'Nunca dar nas vistas, nem nunca armar em herói, já que os cemitérios estão cheios deles'..... Felizmente fui para Nhacra e acabou-se a guerra (Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540, Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74)


(***) Vd. poste de 6 de junho de 2010 > Guiné 63/74 – P6546: Histórias do Eduardo Campos (14): Cantanhez: Do inferno ao Paraíso

domingo, 25 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26843: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - Parte IV: Na Repartição de Autos Víveres, tenho de assinar o ponto todos os dias, trabalha-se das 8h00 às 12h30, e das 15h00 às 18h30, sábado e domingo de manhã... "Estamos em guerra, até em Bissau", dizem-me!...

Fotoo nº 1 > Exemplar de aparelho de rádio que era oferecido à população no âmbito das políticas "Por uma Guiné Melhor». Estava sintonizado para o PIFAS,,,




Foto nº 2 > O "Pifas", a popular mascote do Programa das Forças Armadas

(Cortesia do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
 


1. Mais alguns extratos das "Recordações de um Furriel Miliciano, Guiné -1973/1974" (*)
 





O Carlos Filipe Gonçalves, Kalu Nhô Roque (como consta na sua página no facebook): (i) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde; (ii) foi fur mil amanuense, QG/CTIG, Bissau, 1973/74; (iii) ficou em Bissau até 1975; (iv) radialista, jornalista, historiógrafo da música da sua terra, escritor, vive na Praia; (v) membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, nº 790; (vi) tem 2 dezenas de referências no nosso blogue.(*)
 

(...) "Convém alertar neste ponto, que todas as citações, indicações na gíria militar e documentação referida nos textos (já publicados e a publicar) beneficiam de uma 'Nota de Rodapé' explicativa, mas, infelizmente a formatação de textos no Facebook não aceita essa modalidade gráfica. 

"Os textos integrais e respetivas notas estarão disponíveis numa eventual edição do livro em papel, o que dará aos leitores uma outra perspetiva das descrições e personagens. 

"Continuação, pois, das minhas impressões, no primeiro dia da minha apresentação na Chefia dos Serviços de Intendência (Chefint),  situada no Batalhão da Intendência (Bint), no perímetro de Santa Luzia, onde estão o QG e outras infra estruturas." (...)




Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) (*)

Parte IV:   Na Repartição de Autos Víveres, tenho de assinar o ponto todos os dias, trabalha-se das 8h00 às 12h30, e das 15h00 às 18h30, sábado e domingo de manhã... "Estamos em guerra, até em Bissau", dizem-me!...



Ainda na Repartição de Autos Víveres (…),  fico a saber que tenho de assinar o ponto todos os dias à entrada e saída e que os horários de trabalho nos períodos da manhã (das 8h00 às 12h30) e à tarde (das 15h00 às 18h30) contam com mais uma hora do que o normal na metrópole... 

Sábados, trabalha-se de manhã, folga-se à tarde… Logo me dizem que também se trabalha aos domingos de manhã entre as 10 e o meio-dia. Folga? Só no domingo à tarde. 

Penso com os meus botões: isso é de arrebentar uma pessoa! Vendo o espanto na minha cara, explicam: 

“Temos de estar sempre operacionais, porque estamos em guerra! Bissau é também uma zona operacional!”

Pouco depois é hora de saída, vamos ao almoço na messe, onde há muita conversa e movimentação. Entra-se no refeitório, escolhe-se um lugar vago e sentamo-nos à mesa, já lá estão os pratos e talheres, a comida, o vinho, uma garrafa de água e um «balde de gelo», verifico depois que é «fundamental»! Os veteranos enchem os copos com o gelo para refrescar o vinho! 

O calor é intenso, sempre acima dos 33 graus de dia, à noite a temperatura desce um pouco, mas não se nota. Devido ao calor e humidade, ando sempre encharcado em suor, pois acabo de chegar, vindo do frio da metrópole. 

Tenho sempre sede e quanto mais bebo… mais sede tenho! Os ventiladores no teto não criam nenhum efeito de frescura, só roncam e movimentam o ar quente. Mas, a ventoínha é um utensílio que ninguém dispensa, por isso, também comprei uma no bar da messe, que tem quase tudo o que se precisa a preços módicos… 

Nos quartos, todos têm um ventilador que colocam na parede por cima da cabeceira da cama, explicam os veteranos é para evitar a projeção do ar diretamente no corpo… porque já houve paralisias de braços devido à incidência direta do ar do ventilador, noite inteira!

Chama-me atenção e vai marcar a minha rotina de todos os dias a difusão das emissões da rádio na esplanada da messe. Ouve-se o PIFAS, Programa das Forças Armadas,  que antecede o jornal da tarde às 13 horas em direto da Emissora Nacional em Lisboa. O PIFAS é um programa do Comando-Chefe, dizem-me, produzido pelo Departamento APSIC (Acção Psicológica).

“Na Guiné existe apenas uma emissora de rádio, prolongamento da Emissora Nacional. É divertida, tem anúncios locais, passa discos pedidos, ação psicológica, etc.” recorda o ex-militar António Graça de Abreu. 

A partir das 11 da manhã, começava o PIFAS, um programa de altíssima qualidade com muita animação e informação, transmite muita música Pop, os últimos sucessos em Portugal e na Europa! 

A malta em Bissau escutava nas repartições; eu, como ainda não tinha rádio, só ouvia depois do meio-dia, na esplanada da messe. Os discos pedidos eram o prato forte, mas havia também falatório sobre os mais diversos assuntos, notícias do mundo da música, cinema, etc. Recebia, muitas cartas, todas de militares espalhados pelo mato, em lugares com nomes esquisitos. 

Este programa de rádio tinha um boneco que o personificava/simbolizava (hoje diz-se marketing/ merchandising) sob a forma de um repórter, fardado de camuflado e microfone em punho, chamado Pifas! Era distribuído como prémio de concursos e a ouvintes com envio assíduo de cartas, ou por simples cortesia.

Depois do noticiário das 13:00 da Emissora Nacional, em direto de Lisboa, toda a malta recolhe para a sesta. No pavilhão metálico onde estou alojado, o calor é insuportável, impossível tirar uma soneca. 

Nesta altura, toda a instalação de Santa Luzia, é invadida, pelas lavadeiras! Batem à porta, para fazer a entrega da roupa lavada e tomar a roupa suja, há muita conversa, discussões sobre tal peça que desapareceu, ou não está bem lavada… enfim! 

Pouco depois estamos todos a caminho das repartições, verifico que há outras centenas de civis também a caminho, eles trabalham nas diferentes repartições e serviços deste complexo militar onde fui colocado. Homens e mulheres, civis guineenses, trabalham como datilógrafos, arquivistas, escriturários, etc. Espalham-se pelas salas juntamente com os militares. 

Compreendo agora a tal falta de pessoal militar, que o tenente-coronel apontou quando me apresentei; imagino também que é uma forma de se dar trabalho às pessoas. Soube depois que a utilização de civis na tropa é uma consequência da política «Por Guiné Melhor» lançada pelo general Spínola, que consiste em trazer bem-estar às populações, dar emprego, acesso aos serviços de saúde, acesso a toda a espécie de benefícios…

A rádio tem um papel importante e integra-se nas acções desenvolvidas nesta política, como recorda o ex-militar Miguel Pessoa: “uma das acções desenvolvidas era a sensibilização da população através da distribuição de rádios (recetores).” E chama então atenção para o seguinte pormenor: 

“O mais curioso daquele rádio (o recetor distribuído) é que o sintonizador rotativo estava naquele caso particular (não posso garantir que fosse em todos) colado na frequência do Pifas, o que impedia a sintonia do aparelho noutras emissões menos favoráveis às nossas cores...” 

Mas, rapidamente esse «bloqueamento» era desfeito e sintonizavam outras rádios como a «Maria Turra»,  nome pelo qual é conhecida entre a tropa portuguesa a Rádio Libertação do PAIGC. 

Um outro militar diz: 

“Lembro-me bem desses rádios que foram distribuídos a elementos da população do Dulombi e que eles se passeavam com os ditos (rádios) aos domingos, pela área do quartel.” 

Convém notar que na época, o «regime colonial» procurava impedir por todos os meios que a população e a tropa ouvissem a «propaganda» da Rádio Libertação do PAIGC.


(Revisão / fixação de texto: LG)

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domingo, 22 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26300: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (56): Os capitães de março de 1961 que eu conheci em Angola...


Angola > Luanda > 1961 > Desfile de tropas > O António Rosinha, beirão,  vivia já em Angola há uns anos (foi para lá adolescente e fez lá a tropa; amava Angola, pensava lá viver poara sempre e lá morrer, quando chegasse a sua vez)...

Vemo-lo aqui a desfilar com o seu pelotão, que parece ser composto apenas por militares do recrutamento local (ele nunca nos disse a que unidade ou subunidade pertenceu, e por onde andou, em concreto; sabemos que teve uma "guerra" relativamente tranquila, apesar dos acontecimentos de 1961...). 

Foto: © António Rosinha (2006). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]



1. Era furriel miliciano aparece na foto acima: depois do alferes ( cmdt do pelotão em primeiro plano), o Rosinha,  todo garboso, na segunda fila, a dos comandantes de secção: é o primeiro a contar da direita para a esquerda, está de óculos escuros e empunha, durante o desfile, a pistola-metralhadora FBP, tal como os restantes graduados... As praças usavam, evidentemente, a velha espingarda Mauser 7,9 mm m/937 ... A farda, em 1961, era a do "caqui amarelo"... E, em plenos trópicos, os combatentes da época usavam capacete de aço. Uma foto icónica, histórica...

Topógrafo em Angola, africanista de alma e coração, regressou a Portugal em novembrto de 1974, emigrou para o Brasil da ditadeura militar (que vigorou de 1964 a 1985), e mais tarde para a Guiné-Bissau do partido único, onde trabalhou, de 1978 a 1993,  na empresa TECNIL, ao tempo do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, "camaradas", "heróis da liberdade da pátria",  que ele conheceu bem no poder. 

Entrou para o nosso blogue, em 2006, é um histórico da Tabanca Grande (desde 29/11/2006).  E aqui sempre foi tratada, estimado e acarinhado. Que Deus, Alá e os bons irã lhe continuem a dar saúde e ganas de viver (e de partilhar as suas memórias e opinióes sobre as nossas "blogarias").

É autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho". Tem cerca de 150 referências no blogue (o que é uma marca notável para quem estava com "acanhamento" de entrar)... 

Deixem-me,  em plena época natalícia, partilhar aqui um pequeno segredo: a entrada do Rosinha foi incentivada e apadrinhado por mim, pelo Vitor Junqueira e pelo Amílcar Mendes. Se a Tabanca Grande fosse uma equipa de futebol, eu diria que foi uma grande aquisição, "a custo zero"... E a prova é que, dezoito anos depois (!), ele ainda "toca na chincha" como poucos dos mais novos... Seja como autor seja como comentador... É uma alegria vê-lo nestas "peladinhas"... bloguísticas.  

Sem nunca ser chato, inconveniente, demagógico, intolerante, grosseiro... Pelo contrário: nunca os editores tiveram que o censurar ou pòr os pontos nos ii. Saber estar e saber ser,  por inteiro, neste blogue plural,  como homem, cidadão, português, "angolano" e "guineense", é uma das suas virtudes, e seguramente não a menor. 

Boas Festas, Rosinha. Está feita a tua prova de vida!.


1. Mensagem do nosso veteraníssimo António Rosinha, que ainda é do 
tempo da farda de caqui amarelo, do capacete metálico, da espingarda Mauser, da pistola metralhadora FBP e do "Angola É Nossa" (aqui à esquerda, fot0 de 2007, II Encontro Nacional da Tabanca Grande, Pombal):

 Data - terça, 17/12, 23:14 (há 4 dias)

Assunto - Os capitães de março de 1961

Agora, hoje, 50 anos que os capitães de Abril de 1974 acabaram com a Guerra do Ultramar, e sabemos em geral o que uns pensavam sobre essa guerra e outros que misturavam no mesmo saco Salazar e essa Guerra... Será que em 15 de Março de 1961, os capitães daquele tempo tinham ideias aproximadas aos dos capitães de 1974?

Não, pelo menos alguns que eu conheci.

Lembrar que os capitães de 1974, eram o máximo alferes em 1961, não vou mencionar nomes, mas podem consultar as biografias de alguns, na internet.

Estes alferes, da minha geração (eu, furriel), com 22/23 anos, a politização seria semelhante à minha, pouco mais ou menos nicles..

Pelo que vi em Angola, onde a Guerra começou em força, no norte de Angola, na zona do Café,  principalmente, pelo movimento UPA, absolutamente tribalista, racista e jamais com sentido nacionalista angolano, notava-se que os capitães estavam em geral, de acordo com Salazar, "para Angola e em força".

E provavelmente, embora alguns pouco conhecedores da vida angolana (lembrar que a Guiné era muito desigual de Angola), esses capitães traziam algumas ideias preconcebidas sobre aquela guerra.

E, aqui, vou mencionar uma ideia bem real que traziam quando desembarcaram em Luanda, logo no início, em maio/junho de 1961.

Evidentemente que não se deve generalizar, quando se fala de uma classe.

Eis a ideia:

(i) nós, militares, temos que "educar" ("obrigar") os brancos a tratar bem os pretos.

(ii) os pretos revoltaram-se porque os brancos os tratam mal..


E muitos alferes milicianos aceitavam que seria plenamente essa uma das intenções independentistas.

E surgiu, passados poucos meses, a política da psicossocial,  creio que exclusiva ideia dos militares, e creio que inicialmente seria para compensar "os maus tratos", na cabeça dos primeiros militares chegados a Angola.

Não mencionando nomes, mas dizia-se em Luanda que um capitão que teria feito o primeiro ensaio da Psico, no Norte de Angola, teria ficado alcunhado de capitão-rebuçado.

Em 1962, eu furriel, distribui muitas pomadas, muitos antipalúdicos, muito tabaco, muitas aspirinas, dentro dessa política

Como a guerra era no Norte de Angola, de onde as populações fugiram, constou que passados uns tempos algumas populações regressaram.

Seria efeito da Psicossocial?

Mas que os capitães em 1961 ainda tinham ideias de poder salvar o império, isso não se pode duvidar.

Todos os esforços eram bons, inclusive tornar os brancos mais bem comportados.-

Cumprimentos, Antº Rosinha

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Nota do editor:

Último poste da série > 8 de maio de 2023 > Guiné 61/74 - P24297: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (55): aqueles 13 anos de guerra do Ultramar deram-nos tanta ou mais divulgação de Portugal e da língua do que os 500 anos anteriores