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sábado, 23 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27145: Felizmente ainda há verão em 2025 (20): Em louvor da laranja doce guineense que o "tuga" não comia por ser "verde" (!)... E no entanto foram os navegadores e mercadores portugueses que a trouxeram das suas viagens ao Oriente e depois a disseminaram pela Europa, África e Brasil...




A laranja doce  (Citrus sinensis, var. dulcis).  Foi trazida do Oriente, no séc. XVI, pelos navegadores e mercadores portugueses, e disseminada pelo sul da Europa, a África, o Brasil...  Em muitas regiões do Mediterrâneo, do Médio Oriente e até do Cáucaso, a palavra para "laranja" remete diretamente a "Portugal".

Infografia:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Comentário do Cherno Baldé  (Bissau), ao poste P27138 (*).


(...) Efetivamente, na Guiné-Bissau, do Norte ao Sul, assim como em todos os países da região (África Ocidental), as laranjas são uma das frutas mais comuns e apreciadas. 

Em determinado período do ano (de novembro a março), invadem o mercado para logo a seguir dar lugar à chegada da época do caju e das mangas (março-junho). 

Sem sombra de dúvidas, podemos considerar, sem exagero algum, que a Guiné-Bissau é um país muito rico em biodiversidades e frutas que a natureza e o trabalho dos camponeses fornecem todos os anos em abundância. Todavia, a laranja e outros frutos apresentam ao mesmo tempo um grande desafio, pois que, sendo perecíveis e muito pouco transformadas, são sazonais e não duram por muito tempo.

Mas há um pormenor a ter em conta, as laranjeiras (a par de  muitas outras árvores de fruto e  outros produtos agrícolas) não são nativas da região nem do continente, pelo que não são espontâneas ou selvagens como se poderia pensar.

 O local  (na região de Quínara, subsector de Fulacunda) onde o Joaquim Caldeira e seus companheiros encontraram a árvore , era, de certeza quase absoluta, uma aldeia abandonada (tumbum em mandinga e fula) devido à guerra ou a outras razões. 

A cor normal da laranja é a verde, mas que vai mudando de coloração para verde-amarelado conforme vai amadurecendo. No Sul do país demoram mais a amadurecer, são quase sempre verdes e são mais saborosas devido à pluviosidade e à riqueza dos solos.

Em Bissau e em todo o Nordeste, a vida das laranjeiras é muito curta, precisamente devido à pobreza dos solos em certos nutrientes orgânicos de que, certamente, precisam. 

No Sul as laranjeiras duram por muitas gerações, pois em casa dos familiares da minha esposa (Quitafine, região de Tombali) ainda podem  encontrar-se  algumas do período anterior à guerra colonial e que teriam sido abandonadas durante um largo período, e depois recuperadas juntamente com as árvores de rendimento mais típicas da zona que são as coleiras (que dão a noz de cola).

Um pormenor não menos importante sobre a história dos primeiros contactos e das chamadas "Descobertas" e das fases subsequentes, é que durante muito tempo os interesses dos navegadores/exploradores não seria a colonização propriamente dita (que cronologicamente só vai aparecer mais tarde), mas sim o intercâmbio comercial (mesmo se desigual). 

Seria nesse período que ocupou alguns séculos, que a disseminação da maior parte de plantas e produtos  se teria desenvolvido e os portugueses teriam desempenhado um papel importantes nessas trocas e expansão de culturas exóticas de um país a outro e/ou de um continente a outro.

Em conclusão, e sem querer branquear Portugal e os portugueses, podemos afirmar que nem sempre foi um país "colonialista",  como comumente se julga,  e que a colonização que aconteceu em alguns países, para além de tardia, durou pouco tempo, contrariamente ao período que no estudo da História é conhecido por 'mercantilista' e em que Portugal se teria distinguido dos outros países,  seus vizinhos e rivais.(...) (**)

 
quinta-feira, 21 de agosto de 2025 às 12:30:00 WEST 


 2. Comentário do editor LG:

É verdade, Cherno, é intelectualmente honesto e historicamente correto reconhecer-se o papel (pioneiro) dos navegadores e mercadores portugueses na abertura da primeira "autoestrada marítima da globalização".

 Como toda a ação humana coletiva, a "expansão marítima portuguesa" teve efeitos benéficos mas também teve efeitos perversos, contra-intuitivos ou não-esperados. 

A laranja, tal como a conhecemos hoje, a laranja doce, foi umas das coisas boas que chegaram até nós (e à nossa mesa, pobres e ricos, europeus e nao-europeus). A laranjeira é a árvore de fruto mais plantada em todo o mundo... Ou a laranja é o fruto mais consumido em toda a parte.

A laranja doce (Citrus sinensis, var. dulcis) é originária da Ásia, numa região que inclui o sul da China, o nordeste da Índia e o sudeste asiático. O cultivo da variedade doce começou há milhares de anos. Há  referências a esta fruta, na literatura chinesa, que datam de,  pelo menos, 314 a.C. 

Já antes, na Idade Média tinha sido introduzida pelos árabes, na Europa,  a laranja azeda  (Citrus aurantium).  De resto, a palavra "laranja" vem do árabe nāranj (em castelhano, naranja).

Cabe aos navegadores e mercadores portugueses, no séc. XVI,  o mérito de ter trazido a laranja doce, das suas viagens ao Oriente (e nomeadamente á China). 

Esta nova variedade, mais apreciada pelo seu sabor, foi rapidamente adotada e o seu cultivo espalhou-se logo pela bacia do Mediterrâneo. 

A associação de Portugal a esta fruta tornou-se tão forte que, em várias línguas,a palavra para "laranja" deriva do nome de Portugal. De facto, com a expansão marítima portuguesa, a variedade doce (Citrus sinensis, var. dulcis) difundiu-se rapidamente e ganhou... "quota de mercado" (como diríamos hoje, em linguagem de marketing).

Não admira, por isso, que em muitas regiões do Mediterrâneo, do Médio Oriente e até do Cáucaso, a palavra para "laranja" remeta diretamente a "Portugal", porque foi justamente através dos navegadores e mercadores portugueses que o fruto chegou, no s séc. XVI e XVII. Em várias línguas o seu nome ficou associado a Portugal, coisa que eu não sabia de todo ("santa ignorância"!)

  • turco: portakal

  • grego: portokáli (πορτοκάλι)

  • persa / farsi: porteghal (پرتغال– ) (língua oficial do Irão e do Afeganistão)

  • búlgaro: portokal (портокал)

  • romeno: portocală

  • georgiano: phortokhali (ფორთოხალი)

  • árabe marroquino (dialetal): lārānž portuqālī 

  • árabe moderno: borṭuḳān ( برتقال ) (***)

Seguindo as rotas comerciais e, depois, da colonização, os portugueses levaram a laranja doce para o continente africano, onde a aclimataram em diversos pontos das suas feitorias e colónias. 

Em África, a cultura da laranja, tanto azeda como doce, foi introduzida em várias partes do Norte de África, ligando-se à presença árabe e posteriormente aos portugueses. A laranja- doce  espalhou-se, sobretudo, a partir do século XVI.

De igual forma, com o estabelecimento do Brasil como colónia, os portugueses introduziram a cultura dos citrinos no novo território, onde as condições climáticas se revelaram extremamente favoráveis. A laranja adaptou-se tão bem que o Brasil é, atualmente, o maior produtor mundial deste fruto.

No Brasil, oss portugueses trouxeram os primeiros pés de laranja doce ao Brasil por volta de 1530, principalmente para combater o escorbuto durante as longas viagens marítimas. Inicialmente, o cultivo ficou restrito ao litoral, expandindo-se depois pelo país.


(Pesquisa:  LG + IA / Gemini / Perplexity / ChatGPT | Condensação / revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


(***)  A Laranja de Portugal: O Significado de "Borṭuḳān" em Árabe Moderno

Em árabe moderno (falado em 20 países, por c. de 280 milhões de pessoas), a palavra Borṭuḳān (برتقال) significa simplesmente laranja, o fruto cítrico. 

No entanto, por trás dessa tradução direta, esconde-se uma fascinante história etimológica que liga diretamente o fruto a Portugal.

A própria palavra "Borṭuḳān" é uma derivação do nome do país, Portugal. Esta ligação linguística remonta à época em que os comerciantes portugueses introduziram a laranja doce na região do Mediterrâneo e no Médio Oriente.  

Antes da chegada das laranjas doces, trazidas pelos portugueses da Ásia, a variedade predominante na região era a laranja amarga ou azeda, conhecida em árabe como "nāranj" (نارنج), uma palavra de origem persa (ou melhor, do sânscrito). 

Até então só se conhecia a laranja azeda (Citrus arantium) (que deu em italiano a palavvra "arancia" para o fruto da laranjeira; foram os mercdaores genoveses que a trouxeram do Levante). Tinha pouco uso gastronómico e era também conhecida como "maçã da China",

Com a popularização da nova e doce variedade de laranja, muitos povos da região associaram o fruto aos mercadores que a disseminaram. Assim, em diversas línguas, a palavra para "laranja" tornou-se um cognato de "Portugal". 

Esta herança linguística é visível não só no árabe, mas também em línguas como o turco ("portakal"), o grego ("portokáli") e o persa ("porteghal").

Portanto, quando um falante de árabe moderno pede um "Borṭuḳān", está, sem saber, a evocar uma parte da história da exploração e do comércio marítimo português, que deixou uma marca indelével não só na cultura e na gastronomia, mas também no vocabulário de muitas nações. 

A palavra é, pois,  um testemunho duradouro do papel de Portugal na disseminação global deste popular fruto, o mais popular em todo o mundo.  (Fonte: Adapt de IA/Gemini).

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27138: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (8): A deliciosa laranja de casca verde ("Citrus sinensis var. dulcis" ou "laranja-lima" no Brasil)




Laranja verde da Guiné-Bissau (Citrus sinensis, var. dulcis). Imagens fornecidas pela IA / ChatGPT. 

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)



Joaquim Caldeira, hoje e ontem...


1. Mais um  pequeno texto, este "deliciosos", do Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69); vive em Coimbra; é autor do livro "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021)


A laranjeira de frutos verdes

por Joaquim Caldeira (*)

Já aqui referi (no meu livro) a emboscada de abelhas africanas que deixaram o alferes Pio em coma e, para sua recuperação, teve que ser evacuado para o hospital de Bissau. Isto passou-se ao largo de Fulacunda, na direcção de Nova Sintra - Tite.

Certa vez, numa operação que efectuei para esses lados, dei com uma laranjeira carregada de frutos verdes e segui adiante. Era uma árvore de porte médio e estava cercada por mato. Era mesmo muito difícil a nossa aproximação. Segui adiante e não pensei mais no assunto.

Meses mais tarde fiz o mesmo percurso para repetir nova operação de qualquer coisa. De novo a laranjeira carregada de frutos de cor verde. Não me contive. Então, passados meses, ainda não tinham amadurecido? 

Quis ir ver. Mandei fazer o cerco de segurança e à catanada cortei o mato que me separava do tronco. Depois foi só puxar um ramo e colher uma laranja. Estava maduríssima e era de uma doçura sem igual. 

Só havia uma forma de colher todos os frutos. Era subir à árvore. E assim foi feito. Desde ramos partidos para ser mais rápido e fácil a abanar os troncos para fazer cair laranjas, tudo valeu. Tivemos que tirar os blusões, puxar os cordões das mangas e enchê-las. Depois o mesmo para o cordão da cintura e toca a encher o blusão até ao pescoço, depois de abotoado. No final, carregar com aquilo, somado às munições e às armas. Não foi fácil mas valeu a pena. 

Não ficou uma peça de laranja na pobre laranjeira e decerto que, se não tivéssemos feito a colheita, ainda agora lá estavam. Barrigada geral.

(Revisão / fixação de texto, título do poste: LG)



Guiné-Bissau > Outubro de 2024 > "Mercado de Gamamudo: Frutas e  legumes da época" (é sempre um regalo para a vista...). Do lado direito, parecem-nos ser laranjas limas verdes...

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Comentário do editor LG:

De acordo com o "Sabe-Tudo", o assistente de IA do ChatGPT, trata-se de  uma árvore de fruto tropical que dá laranjas... de casca verde. Nome científico, Citrus sinensis, var. dulcis.  

A sua origem deve ser China e nordeste da Índia.  Deve ter sido levada para o Brasil e para a Guiné pelos "tugas".

Muito interessante o teu testemunho, Joaquim Caldeira! Pelo que tu descreves, não se trata de uma laranjeira comum (Citrus sinensis), mas sim de uma laranja de maturação “permanentemente verde”, muito típica das variedades cultivadas (e espontâneas) na Guiné-Bissau. E que encontravámos facilmente nos mercados locais no nosso tempo. Quem tinha preconceitos (etnocêntricos...) e pouca ou nenhuma curiosidade, nunca a provou...e não sabe o que perdeu. 

Digam-me lá quem é que tinha a curiosidade e a pachorra do Joaquim Caldeira ? No meio de um patrulhamento ofensivo, quis ir ver que raio de árvore era aquela: "Mandei fazer o cerco de segurança e à catanada cortei o mato que me separava do tronco. Depois foi só puxar um ramo e colher uma laranja. Estava maduríssima e era de uma doçura sem igual".

Eis alguns pontos a ter em conta para uma melhor descrição  deste citrino tropical:

(i) Frutos verdes mesmo quando maduros:

Nas regiões tropicais húmidas, como a Guiné-Bissau (a região de Quínara incluída), o citrino pode não adquirir a coloração alaranjada típica do nosso Algarve e do Mediterrâneo em geral.

Isso acontece porque  nos trópicos, as noites não arrefecem o suficiente para quebrar a clorofila da casca; a mudança de cor exige noites abaixo de ~13–15 °C, coisa rara na região de Quínara. As noites são, portanto,  quentes: não há o contraste de temperaturas (calor de dia / frio de noite) que desencadeia a degradação da clorofila e o aparecimento da cor laranja. Logo, a casca mantém-se verde ou verde-amarelada, mesmo estando o fruto já doce e pronto a comer. 

(ii) Doçura excecional:

Muitos relatos coloniais (como este do nosso camarada Joaquim Caldeira)  falam da “laranja da Guiné” ou “laranja de casca verde”, extremamente doce, sumarenta, e que amadurece sem mudar de cor. É um tipo de Citrus sinensis var. dulcis (ou var. tropical),  muitas vezes chamado simplesmente sweet orange tropical ("laranja doce", em português do Brasil).

(iii) Ciclo de frutificação:

Nas condições tropicais, algumas laranjeiras dão fruto quase todo o ano, com várias florações. Isso explica o espanto do narrador: meses depois quando lá voltou a passar, mpo subsetor de Fulacunda na zona de Nova Sintra -Tite,  a árvore parecia sempre “carregada de frutos de cor verde", quando na verdade já havia frutos maduros, apenas sem coloração visível. A laranja "estava maduríssima" e tinha "uma doçura sem igual".

Portanto, o que foi encontrado na zona de  Nova Sintra-Tite em 1968/69. pelo narrador era muito provavelmente a “laranja verde da Guiné” (Citrus sinensis, var. tropical), um citrino comum no país, de porte médio, muito doce, e cuja maturação não se denuncia pela cor da casca.

Esta laranja doce, de baixa acidez, adaptada e cultivada em climas tropicais,  é também conhecida no Brasil  como laranja lima verde. Quem não conhece o livro do José Mauro de Vasconcelos, "O Meu Pé de Laranja Lima", uma verdadeira obra-prima da literatura infanto-juvenil, em língua portuguesa ?

O assistennte de IA / Perplexity também confirma que a Citrus sinensis var. dulcis corresponde à laranja lima verde encontrada e consumida no Brasil (o maior ptrodutor do mundo de laranjas...). É também conhecida popularmente como laranja-doce.

É uma fruta bastante apreciada por seu sabor suave, pouco ácido e adocicado, indicada especialmente para crianças e pessoas com sensibilidade gastrointestinal. De polpa doce, poucas sementes, casca fina e geralmente esverdeada ou levemente amarela quando madura.

A laranja lima verde é considerada uma variedade de maturação tardia, comum em algumas regiões do Brasil, e faz parte da ampla diversidade de laranjas doces cultivadas no país. Além dela, existem outras variações regionais, como a "laranja lima do céu". Todas pertencem à espécie Citrus sinensis, grupo das laranjas doces, e não devem ser confundidas com limas ácidas ou outros citros.

___________________

Nota do editor LG:

domingo, 17 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27126: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (7): A noite de consoada de 1968 em Fulacunda: houve batatas com bacalhau e couves, sessão de cinema (um grande filme de cobóis de 1959...), um ataque à canhoada pelos "vizinhos" que eram belicosos, e até "fake news", a de que o quartel tinha caído em poder deles...



Cartaz do filme "O Homem das Pistolas de Ouro" (título original: "Warlock", EUA, 1959, 115 minutos)... Passou no "cine-ao-ar-livre" de Fulacunda, na noite de natal de 1968. Mal começou o filme, ouviram.se as primeiras canhoadas do PAIGC. (Os "turras" sempre foram uns desmancha-prazeres e, neste caso, queriam ver o filme à borla; não havia cinema nas "áreas libertadas")

Imagem e sinopse: Cortesia da RTP Programas (com a devida vénia)


Sinopse 

Um "western" clássico, com Henry Fonda, Richard Widmark e Anthony Quinn : Warlock (título original do filme, EUA, 1959; realização de Edward Dmytryk) é uma pequena cidade dominada por um bando de pistoleiros. Depois de numerosos assassinatos, os cidadãos elegem Clay Blaisdell (Henry Fonda), como xerife da cidade. Clay é um pistoleiro profissional, sempre acompanhado pelo seu fiel amigo Tom Morgan (Anthony Quinn), e Johnny Gannon (Richard Widmark), que tinha em tempos, pertencido a esse bando.

Jessie Marlow (Dolores Michaels), conhecida como "Angel de Warlock", apaixona-se por Clay, mas este tem, acima de tudo, a sua atenção centrada no confronto com o líder do bando de pistoleiros, Abe Mcquown (Tom Drake).




1. Mais um pequeno texto do Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905, ex-fur mil at inf,  CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69); vive em Coimbra; é autor do livro "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021)



A Noite de Consoada de 1968

por Joaquim Caldeira (*)


O bom do capitão tudo fez para que a consoada fosse a mais parecida possível com a tradicional. Até conseguiu arranjar batatas, bacalhau, couves, nozes, castanhas e vinho.

Após a ceia, seria projetada num lençol preso a uma das paredes de uma caserna desativada, uma película cinematográfica, cujo tema estava mesmo a condizer: “O Homem das Pistolas de Ouro”. Protagonizado por, entre outros, os grandes actores Henry Fonda e Anthony Quinn.

Pobre cabo Lima. Era sempre a ele que se pediam sacrifícios na hora de comer. Teve por missão chefiar uma equipa que cozinhava para aquela tropa toda. E às vezes nem o furriel Estanqueiro sabia o que mandar cozinhar porque não havia o quê.

Mas naquela noite até havia batatas com bacalhau e couves, seguidas de nozes, castanhas e vinho. Tudo regado com azeite. E tudo a postos. Houve tempo para comer, beber com moderação, até porque a ração de bebida era muito curta, mas de boa vontade.

Depois, enquanto as sentinelas eram substituídas para a refeição, deu-se início à projeção do filme para o que havia dois homens do serviço de fotocine do exército, cuja missão era projetar o filme e não se borrarem de medo.

E começou o filme e começaram a ouvir-se tiros de canhão. Eram demasiado ruidosos para serem do filme. E fizeram tanto estrago que o filme prosseguiu sozinho e penso que só acabou quando faltou a corrente elétrica que era desligada sempre que ocorria um ataque.

Cada qual correu já de arma na mão, que também jantou ao nosso lado, em direção ao abrigo mais próximo e vai de defender a pele o melhor que podia e sabia.

Ao fim de cerca de meia hora, o rescaldo era do quartel quase destruído, vários feridos. Não havia mortos militares, mas na tabanca havia mortos provocados por uma canhonada que rebentou numa habitação.

O resto não conto. É trágico demais para ser lembrado. Apenas uma homenagem ao cabo Melo que passou a noite a chorar por ter que construir os caixões para os mortos e nem madeira tinha para tal. Serviu-se da madeira das caixas do bacalhau. Foste um herói, grande amigo.

De manhã, ainda cedo, tocou o meu telefone - depois conto o episódio do telefone - e quando atendi era a minha namorada que já sabia do que tinha acontecido. Queria saber notícias mais próximas do real daquelas que, prazenteiramente, foram transmitidas por Manuel Alegre, na sua Rádio Argel.

Mas naquela noite e naquele local, haviam 180 homens que tinham em Portugal os seus familiares e amigos e que alguns destes ouviriam a falsa notícia de que o quartel de Fulacunda tinha sido ocupado pelo PAIGC.
 
(Texto enviado em 9/8/2025, 17:28 | Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27089: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (6): A noite do Adriano, um herói desconhecido

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27089: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (6): A noite do Adriano, um herói desconhecido




Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > A famosa "torre de vigia", onde estava montada uma Breda, e que já existia no tempo dos Boinas Negras, a CCAV 2482 (1968/70)



Foto (e legenda): © Armando Oliveira  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]



1. Mensagem do  Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905,  ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69) (*)


Data - terça, 29/07/2025  12:14  
Assunto -  A noite do Adriano

Desta vez, envio um relato sobre a heroicidade por vezes forçada de um grande homem a quem Portugal ainda não fez justiça.

Ontem fui surpreendido por um telefonema que me fez o nosso amigo, coronel Trabulo. Queria incentivar-me e ao mesmo tempo corrigir algumas imprecisões, sobretudo de datas. Fiquei maravilhado por saber que já estão a fazer comentários ao que escrevi. Peço a todos os que lerem estas palavras que comentem e, se possível, complementem com alterações que lhes pareçam pertinentes. Sobretudo, ajudem-me com material porque eu já não me lembro de tudo.

Mas vamos ao Adriano.

Um abraço, caro amigo.
J.Caldeira


A noite do Adriano, um herói desconhecido

por Joaquim Caldeira (*)


Nas noites mais escuras, dentro da mata, a nossa fila indiana mantinha-se graças ao ouvido, pois que à distância regulamentar que cada um devia manter dohomem da frente, cerca de três metros, não se via nada. Mas, tal como eu e muitos de nós, oAdriano também estava a perder qualidades auditivas e com maior grau de perigosidade.

Estava quase surdo. Penso que acabou por ficar surdo total. Efeitos do ruido sobre o sistema auditivo, dizem-me os otorrinolaringologistas. É assim que se escreve? Bem, como o Adriano estava surdo e não conseguia ver dada a enorme escuridão, ao passarmos numa bifurcação do caminho, ele seguiu pelo outro ramo, levando atrás o resto da coluna. E, quando se deu conta, era tarde. De noite não é possível juntar duas colunas. Mesmo de dia é altamente perigoso, como já aqui referi no episódio da enfermeira. Foi então necessário esperar que o dia nascesse para que as duas colunas, entretanto paradas, pudessem caminhar para o encontro.

Este episódio não teria importância se não fosse introito para o que vem a seguir:

Certa noite, em Fulacunda, calhou a vez ao Adriano de subir ao palanque para sentinela noturna de duas horas. Esse palanque não era mais do que um tronco de "cibe"  com unsquatro metros de altura, encimado por um estrado de madeira, quadrado de dois metros, e nele estava um metralhadora Breda  com dois cunhetes de balas em permanência. Para quem já esqueceu, um cunhete tem mil balas. Para ajudar na subida tinham sido pregados uns sarrafos e, na subida para a plataforma, um pouco de ginástica. Para descer era o cabo dos trabalhos.

E nessa noite, comandado pelo próprio Nino Vieira,  um grupo altamente armado e em número elevado, atacou as nossas fortificações com vários canhões, vários morteiros e roquetes e várias metralhadoras e outras armas ligeiras, dispostas em ninhos por espécie e colocadas a pouco mais de cinquenta metros do arame. Foi uma flagelação destinada a entrar e arrasarconnosco, pois que eles sabiam que nessa altura estavam apenas dois pelotões. O terceiro e o quarto pelotões tinham sido desviados para a psicossocial em Bedanda e no Catió. Está certo?por ordem do comandante do batalhão.

Voltando ao ataque, dessa vez era para acabar com Fulacunda. Mas o Adriano estava lá. E via de onde saiam os disparos. E estava em local privilegiado para apontar ao sítio e ter sucesso.

E teve. Sozinho, nós apenas podíamos fazer barulho e evitar a entrada, sozinho, portanto, foidizimando o IN ninho a ninho, começando pelos canhões, passando aos morteiros e acabando nas metralhadoras. E pô-los em fuga. Mas com o Nino era tudo muito a sério. Não deixaram os feridos nem os mortos nem o armamento. Apenas ficou o sangue, muito, e o mato pisado pelo arrastar de quem não poderia andar.

E, porquê fez tanto e tão bom trabalho, o Adriano. Então ele conta que via as balas tracejantes à sua volta e via os clarões das granadas de canhão, morteiro e roquete rebentar na base do "cibe" e manteve-se firme no seu posto. É que ele nunca teve a noção verdadeira do perigo em que estava porque não ouvia e porque era muito difícil descer dali.

Foi um grande herói. Pedi ao capitão que não se esquecesse dele para as nomeações aos "Óscares". Levou um louvor. Merecia mais. E, do país, não levou nada. Quando os nossos governantes enaltecem quem defendeu o bom nome de Portugal na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão. etc, etc, dando-lhes benesses, merecidas, esquecem quem defendeu o bom nome e a integridade de Portugal, deu a vida, deu a saúde e, em troca, nem uma pensão por invalidez lhe concedem. Se fosse para dar benesses a comendadores ou outros, a políticos ou a outros, haveria dinheiro. Ao Adriano ainda não foi feita justiça. 

Pobre Portugal.  Afonso Henriques, no que te meteste com a teimosia de ser rei!

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 18 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27028: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (5): Consagração de um grande homem e combatente, o João Gualberto Amaral Leite (1944-2011)

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27028: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (5): Consagração de um grande homem e combatente, o João Gualberto Amaral Leite (1944-2011)




Da esquerda para a direita, Fernando Almeida, Narciso Durão, João Leite e Anselmo Adrião, ex-furrieis da CCaç. 2314. Foto: cortesia de Blogue BART 1914 > 9 de fevereiro de 2011 (Legendagem: Joaquim Caldeira)


Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCACÇ 2314, "Brutos", TIte e Fulacunda, 19689/609; nosso grão-tabanqueiro nº 905; 
vive em Coimbra; autor do livro, "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021)


Fotos (e legendas: © Joaquim Caldeira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]



Consagração de um grande homem e combatente: o João Gualberto Amaral Leite
 
por Joaquim Caldeira (*)


Estávamos nos finais de 1967 e, à entrada  do quartel de Tomar, cruzei-me com o João que trazia um braço ao peito e vinha abatido. Mal nos conhecíamos e não nos víamos desde os tempos da recruta, muitos meses antes. Nem sabia o seu nome tal como ele não saberia o meu. Satisfez a minha curiosidade dizendo que se chamava João Leite e que tinha tido um acidente…

Despedimo-nos nesse dia e só voltámos a rever-nos no seguinte, na caserna que nos foi destinada. Ficámos a saber que o nosso destino era comum. Íamos formar companhia para depois seguirmos para o ultramar, mas nem sabíamos ainda para onde.

Não sabíamos que os dois anos seguintes iriam ser muito cheios de emoções fortes, perigos, mas também de solidariedade só possível de construir nos momentos mais difíceis e de grande perigo.

E vim a conhecer melhor o Leite e toda a equipa com quem fizemos grandes amizades.

Passarei a designá-lo por Leite, pois era o nome que usávamos por lá e mais tarde, já no fim da guerra, quando nos encontrávamos por ocasião dos convívios.

Afinal, era um homem diferente do que conheci à entrada do quartel, em Tomar. Era folgazão, brincalhão, sempre de boa disposição e muito bem humorado.

Cedo demos conta de que se tratava de homem determinado, sabia o que queria, como queria e quando queria.

Quis o destino que tivéssemos de viver o desastre de Bissássema onde ele, mesmo na linha da frente por onde o IN pretendia repetir o assalto, tal como fizera uns dias antes e se apoderara de armamento, equipamento e prisioneiros, soube infligir a maior derrota sofrida pelo IN durante toda a guerra que travou com o Exército português. Esta batalha nem consta da história de guerra do PAIGC.

Outros desastres aconteceram nas nossas vidas e, em todos, o Leite teve participação com vantagens para o nosso lado.

Desgostoso com o conformismo que reinava na companhia, decidiu formar o seu próprio grupo indo buscar os melhores de entre os melhores. E assim nasceu o grupo “Os Brutos ”. E fizeram história deixando um rasto de medo nos grupos do IN.

Estavam sempre na linha da frente. Tive o privilégio de os comandar nas ausências do Leite. Eram o escol da companhia. E ajudaram o seu comandante, o Leite, na conquista de uma condecoração justa e merecida, só atribuída aos bons. Uma “Cruz de Guerra” (**).

Mas nem sempre foi fácil a vida do grupo. Tiveram as suas horas más. Entre outras, talvez a pior, o acidente do Viriato Lopes.

E assim se passaram dois anos de uma convivência fraterna, só possível em teatros de guerra. Fizemos amizades para a vida. Ficaram as saudades dos amigos e de algumas, muitas vivências.

Só voltei a ver o Leite passados alguns anos, por ocasião dos convívios a que ele não queria faltar, mesmo vindo de tão longe.

Por fim, soube da sua doença. Fui dar-lhe o meu abraço numa das suas vindas a Lisboa para tratamentos. A doença venceu o homem. Mas não venceu o marido, o pai, o profissional bem realizado, o amigo e o camarada de quem todos sentimos saudades.

O Leite ainda vive em nós. Até sempre, companheiro.


(Revisão / fixação de texto: LG)


PS - O João Gualberto Amaral Leite nasceu em São Miguel, Açores, em 13/07/1944, e faleceu em 16/02/2011. Era bancário.

______________

Notas do editor:


(*) Último poste da série > 10 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27001: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (4): A carta de condução, tirada na Escola de Condução Angélica da Conceição Racha


(**) Furriel Miliciano de Infantaria JOÃO GUALBERTO AMARAL LEITE, CCaç 2314/BCaç 2834 - RI 15, GUINÉ - Cruz de Guerra, 4." CLASSE



Cruz de Guerra de 4ª Classe. Imagem:
cortesia do Portal UTW - Dos Veteranos da
Guerra do Ultramar


Transcrição da Portaria publicada na OE nº 15 - 3ª série, de 1970.

Por Portaria de 15 de Abril de 1970:

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 4ª classe, ao abrigo dos artigos 9.° e 10.° do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província da Guiné Portuguesa, o
Furriel Miliciano de Infantaria, João Gualberto Amaral Leite, da Companhia de Caçadores 2314/Batalhão de Caçadores nº 2834 - Regimento de Infantaria nº 15.

Transcrição do louvor que originou a condecoração.
(Por Portaria da mesma data, publicada naquela OE):

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, louvar o Furriel Miliciano de Infantaria, João Gualberto Amaral Leite, da Companhia de Caçadores nº 2314, do Batalhão de Caçadores nº 2834 - Regimento de Infantaria n.º 15, pelo modo brilhante e abnegado como se desempenhou de todas as missões de que foi incumbido durante a sua comissão de serviço na Província da Guiné.

Criando um Grupo de Combate tipo Comandos, "Os Brutos", soube logo de início imprimir-lhe notável eficiência para o combate, incutindo nos seus homens o espírito aguerrido e audaz de que ele próprio é' possuidor.

Realizando dezenas de emboscadas, participou em numerosas acções, onde a actuação do seu Grupo de Combate foi bastante influente nos resultados obtidos.

Num ataque sofrido por um dos nossos aquartelamentos, em 24 de Dezembro de 1968, apesar do intenso fogo, deslocou-se para um dos abrigos periféricos mais próximos das posições inimigas, onde dirigiu eficientemente o fogo do pessoal que o guarnecia, tendo ele próprio efectuado o lançamento de dilagramas, de posições a descoberto.

Já antes, em 09 de Fevereiro de 1968, numa acção semelhante, manteve a sua posição num abrigo que guarnecia, apesar de na altura dispor de poucas munições, contribuindo para o aniquilamento de quinze elementos inimigos e para a captura de diverso armamento e outro material.

Numa operação em 26/29 de Maio de 1969, soube conduzir o pessoal do seu Grupo de forma assinalável, no assalto a um acampamento inimigo, debaixo de intenso fogo e na perseguição imediata ao inimigo, até este dispersar.

Militar dotado de elevadas virtudes militares e invulgar capacidade para o comando do seu Grupo, tendo resultado dos seus serviços honra e lustre para a Pátria e para o Exército a que pertence, merece o Furriel Leite que aqueles sejam considerados extraordinários e importantes.

 
 Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1970-1971). Lisboa, 1994, pág. 202/203.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27001: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/69) (4): A carta de condução, tirada na Escola de Condução Angélica da Conceição Racha


Crachá da CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 , "Brutos" (Tite e Fulacunda, 1968/69),
grão-tabanqueiro nº 905, ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69) (*)


Joaquim Caldeira, ex-fir mil at inf,  CCACÇ 2314, "Brutos", TIte e Fulacunda, 19689/609; nosso grão-tabanqueiro nº 905, ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 

Fotos (e legendas: ©  Joaquim Caldeira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]


A CARTA DE CONDUÇÃO

por Joaquim Caldeira (*)


Decorria o verão de 1969 e a situação política não alterara em nada a situação militar.

Era muito difícil sair dos buracos que nos estavam reservados. Só com uma forte justificação tal era consentido.

Mas forte justificação tinha eu quando solicitei autorização para me deslocar a Bissau a fim de fazer exame de condução, o qual tinha sido requerido havia mais de seis meses.

Deferido. Só faltava transporte para a cidade e marcar a data do exame, depois de ter alugado viaturas para tal.

E lá fui, desta vez não me lembro de que meio de transporte nem como decorreu. Sei que marquei o exame para o dia seguinte –
tinha prioridade por ser bicho de mato – e só faltava alugar a viatura. 

Desloquei-me à Escola de Condução Angélica da Conceição Racha (**), onde era instrutor um antigo soldado condutor que passara por Fulacunda e com quem eu fizera amizade.

Aluguei um camião com atrelado e uma mota para o exame das duas modalidades.
À hora marcada, o Paulo, o tal condutor, estava com as viaturas preparadas eis que chega o alferes examinador.

Comecei pelo código, a que respondi muito satisfatoriamente, depois das lições que o Durão me deu e que complementei com uma leitura rápida do livro e, passado nesta fase, passei à prática, obtida sem consentimento do Fernando Almeida.

– Um apito é para fazer dois oitos para a esquerda. Dois apitos são para fazer dois oitos para a direita. Três apitos são para regressar a este local e acabar o exame. 
Depois, passamos ao exame do camião   disse o alferes.

E lá vou eu, fazendo tudo muito certinho, regressando ao local de partida aos três apitos. Aí, quis brilhar. Lembrei-me de passar uma rasteira ao alferes e, quando quis travar para parar, a mota não parou. Entrou pela escola dentro.

– Azar, nosso furriel. Depois de uma prova tão boa não o posso passar. Deu muito nas vistas.

Fiquei vacinado e nunca mais pensei na mota. Fiquei-me pela carta de tractor com reboque.

Era assim. Agora, um pouco diferente. Vejam como circular nas rotundas.

Joaquim Caldeira


(**) Segundo a Wikipedia, citando a agência Lusa, em 2013 seria a escola de condução mais antiga da Guiné-Bissau.

Adaptou-se aos novos tempos, e depois independência da ex-colónia portuguesa, passou a denominar-se também por Escola de Condução 3 de Agosto. 

Dá ainda aulas em viaturas da época colonial. O parque automóvel é constituído essencialmente por viaturas bastante antigas

A escola já pertenceu a um português, migrado na ex-colónica portuguesa, de seu nome Telesfório Américo Racha. Tendo mais tarde pertencido a Augusto Soares, entretanto falecido. Actualmente o proprietário é João Augusto Soares, de 59 anos, irmão do anterior dono e conhecido em Bissau como “mestre Joãozinho”.

domingo, 6 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26989: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/60) (3): O levantamento de rancho em Nova Sintra, por causa do meu "prato", uma lata de Coca-cola, meia de água, com quatro feijões a nadar...


1. Mais um excerto do livro "Guiné: Memórias da Guerra Colonia", do Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905,  ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69) (*)


Mensagem do Joaquim Caldeira
Data - sexta, 4/07/205  19:41  
Assunto - Levnatamento de rancho
 
Caro Luis. O post de hoje tem a ver com as dificuldades passadas em Nova Sintra, local de má memória, até pelo texto anexo (*).Um abraço e feliz fim de semana.

J.Caldeira.

Imagem à direita: Capa do livro de Joaquim Caldeira, "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021) 



O LEVANTAMENTO DE RANCHO

 por Joaquim Caldeira (**)



Nova Sintra. Já aqui referida muitas vezes e sempre pelas piores razões. Chegámos a passar fome. E o trabalho era incessante. Andávamos todos mal nutridos e esgotados, além de cheios de medo de que aquele fosse o nosso último dia. 

A comida era uma desgraça em qualidade – já nem nos preocupava a qualidade – e em quantidade. 

Certo dia, hora de almoçar, peguei na minha lata de Coca-Cola, à qual tinha sido retirada a tampa, e me dirigi para a improvisada cozinha onde o cabo cozinheiro fazia o melhor que podia e tinha e, nesse dia, perdi a razão. 

A minha lata vinha meia de água e tinha quatro feijões a nadar. E era o meu almoço, igual ao de todos, capitão incluído. Talvez para ele houvesse cinco ou seis feijões dentro do caldo. A taça era também a lata de Coca-Cola. Danei-me. Fiz uma chinfrineira danada – por isso é que digo que me danei – e aconselhei os soldados a recusar comer.

Aí, entra em ação o segundo comandante, alferes Barros, engenheiro de profissão, homem muito sensato e que eu admirava pela sua cortesia e fair-play. Pegou-me no braço e tentou arrastar-me para longe dos soldados. Eu não aceitei e continuei a reclamar e a aconselhar o levantamento de rancho. Estava cheio de fome e aquilo não era comida suficiente para o resto do dia que se adivinhava muito trabalhoso e difícil.

Com uma calma que só o bom do alferes Barros, lá me fez acalmar e sugeriu-me
que repetisse a dose, se ainda desse para repetir.

A custo, aceitei a sugestão dele mas entendia que era injusto eu poder repetir só porque tinha reclamado e, os restantes terem que ficar só pela dose de água e quatro feijões. E não repeti.

Interveio o capitão que me disse que podia acontecer eu ser preso pelo delito que estava a cometer e que devia dar bons exemplos, dada a minha posição de comandante de secção, etc. etc.

Para mais, se fosse para a prisão, deixaria de correr riscos e teria três refeições diárias.

E assim ficou a minha rebelião que, afinal, não chegou a servir para nada.

Coitados dos que tiveram que passar fome, nesse e nos dias que se seguiram. Coisas que só podiam ser compreendidas pelo estado de graça ou de guerra em que vivíamos.

Hoje, passados tantos anos, penso que fiz bem em ter-me revoltado e fiz bem por ter acatado as sugestões do senhor Barros, a quem endereço um forte abraço e peço que, se um dia vier a ler estas linhas, se recorde deste episódio. 

(Revisão / fixação de  texto: LG)

______________

Notas do editor LG:

(*) Originalmente publicado no blogue do autor, que foi descontinuado e não consgeruimos recuperar nem Arquivo.pt nem no Archive Net

http://ccac2314.blogspot.com/2010/07/levantamento-de-rancho.html

sábado, 28 de junho de 2025

Guiné 671/74 - P26965: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834, Tite e Fulacunda, 1968/60) (2): o soldado Rebouta, municiador de morteiro, para quem a Ditosa Pátria Amada ficou em dívida

1. Mais um excerto do livro "Guiné: Memórias da Guerra Colonia", do Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905,  ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69) (*)

Imagem à direita: Capa do livro de Joaquim Caldeira, "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021) 


O  soldado Rebouta, municiador de morteiro, para quem a Ditosa Pátria Amada  ficou em dívida

por Joaquim Caldeira




Muito alto e magro, embora dotado de boa constituição física, o Rebouta era um soldado natural de Felgar, arredores de Moncorvo. Tinha necessidade de mostrar que queria ser amigo de todos e esforçava-se por merecer a amizade de todos. Mas era um amigo e eu agora que o diga, passados mais de trinta anos. 


Joaquim Caldeira: vive em Coimbra

Tinha como missão municiar o morteiro que o Machado apontava com precisão e grande mestria. O Machado, rapaz forte e bem constituído, natural de Larinho, também de Moncorvo, ficou feliz por ter arranjado para municiador do seu morteiro um homem seu conterrâneo, com quem viera a fazer grande e duradoura amizade que ainda hoje perdura. Ambos eram mestres no que faziam e eu sabia que não precisava de preocupar-me em dar-lhes instruções. Tiro do Machado, era tiro que acertava. Granadas dentro do tubo nunca faltavam ao seu jeito porque o Rebouta estava sempre atento às necessidades do seu apontador e sabia o momento ideal para deixar cair a granada.

Naquele fatídico dia 31 de Janeiro, corria o ano de 1968, cerca das 16 horas, durante uma operação que tinha por missão iniciar preparativos para construção do futuro quartel de Bissássema, a companhia, comandada pelo capitão Neves, caiu numa emboscada e, debaixo de tiros do IN, de roquete e de canhão e rajadas de metralhadora ligeira, responde com um fogo cerrado das nossas armas e consegue pôr em debandada o grupo IN que nos atacara. 

Feridos do IN, não constam. Ao meu lado, durante a refrega, cai o Rebouta e rebola-se como pode para debaixo de umas raízes a fim de poder abrigar-se enquanto uma dor lancinante lhe dilacera todo o pé e parte da perna esquerdos. Gritei para o Zé Carlos que heroicamente se dirigiu para o improvisado abrigo do Rebouta e ambos ajudámos a descalçar-lhe a bota para se dar inicio o seu tratamento. 

Credo! Tinha ficado sem o calcanhar, levado por estilhaço de granada de canhão sem recuo. Tratado como soube e pôde, pelo Zé Carlos que lhe fez um garrote na perna para evitar hemorragia e, bem ligado, havia que o carregar até que pudesse chegar ao quartel. 

Qual quê? Chamem já o helicóptero, gritei. Para que é que eles servem? E, assim, lá se foi o nosso primeiro ferido, ainda por cima um dos meus melhores homens. 

Fiquei em choque. Que mal teria eu feito para merecer tal coisa. Eu? Então o mal maior nem sequer foi meu. O pobre coitado é que foi ferido e eu estava a lastimar-me! Burro é o que eu sou. Em chegando ao quartel vou tentar lembrar-me de rezar para que ele não esteja muito ferido e possa curar-se rapidamente. Mas aproveitei o silêncio que se fez entretanto e rezei mesmo ali. Tinha-me despedido dele, pensando que nunca mais saberia notícias suas nem voltaria a vê-lo. 

Assim foi até ao dia 7 de junho – o mês dos Santos- só que do ano seguinte, 1969, portanto. Era perto do meio-dia e o sol tinha raiado depois de uma valente trovoada acompanhada de chuva intensa, daquela que abre rios onde antes era monte. O cheiro da terra é tão doce. O calor já não era como durante os meses de verão e inverno em Portugal. Eu estava de serviço ao piquete e tinha, entre outras preocupações e tarefas, a de garantir que a pista de aterragem estivesse desminada e a protecção de qualquer avião que quisesse ali aterrar.

 


DO-27. Arquivo do blogue
O Dornier encarnado sobrevoou o quartel e encaminhou-se para a pista de terra batida, ainda fresca da chuva mas sem poeira e lá vou eu, de jipe, correndo para me certificar de que todos os procedimentos de segurança estavam activados para a aterragem. 

Estávamos já em Fulacunda, povoação que encimava o nosso quartel onde tínhamos chegado quase um ano antes. A sua população civil era de maioria Fula e gente boa era o que não faltava. Os soldados regalavam-se, nas suas folgas a deitar-se pela tabanca, onde houvesse uma bajuda de mama firmada que os retivesse.

A picada que passava pelo meio da povoação até a pista estava muito esburacada e a chuva que tinha caído ainda ajudara à sua deterioração. Eu cavalgava aquele jipe sem dó, pois que não era meu e sabia que o meu amigo Almeida me ia desculpar por qualquer estrago que lhe provocasse. Logo que pude aumentei a velocidade e corri para o abrigo junto da porta de entrada da pista, donde verifiquei que a segurança estava feita e vi o avião iniciar a descida. Logo que parou, guiei até debaixo da sua asa e ajudei a abrir a porta do pequeno avião. 

Espanto meu. Ri-me de contentamento. Gritei até. O Rebouta estava de volta, com um saco de lona diferente dos que nos tinham sido dados antes. Sinal de progresso na Manutenção. Abraço-o. Ajudo-o a descer do avião e, já no chão, vi que ele coxeava. Abracei-o novamente e perguntei-lhe o que ele estava ali a fazer. 

− Voltei para a companhia!

Ele também estava contente por me voltar a ver. Mas estava também muito triste por não ter conseguido libertar-se da tropa. Ainda por cima, mandaram-no para o mato. 

−  Quando um homem não tem sorte, furriel, nada há a fazer.

 Trouxe-o para o quartel e fui com ele até à presença do capitão Neves. Pedi-lhe que desse um impedimento fácil ao Rebouta que, afinal, apenas tinha sido objecto de operação plástica ao calcanhar, com aplicação de prótese e aí andava ele sem poder calçar botas. Coitado de quem tem azar ou não tem padrinhos. E assim foi decidido, com a anuência do alferes Pio, meu comandante de pelotão, que aceitou que o Rebouta passasse o resto da comissão como ajudante de cozinheiro. 

Finda a comissão, regressou a Portugal, emigrou para França onde trabalhou como pedreiro até que as dores lho permitiram. Quando já mais não podia, regressou definitivamente a Portugal, criou os filhos com uma esmerada educação e aguarda há seis anos que o Estado português lhe faça a justiça de lhe dar uma pensão que o ajude a comer a sopita até ao fim dos seus dias. 

Ditosa Pátria que tanto demora a reconhecer a dívida que tem para com os seus heróis!..


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Guiné 671/74 - P26934: Memórias da tropa e da guerra (Joaquim Caldeira, ex-fur mil at inf, CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834. Tite e Fulacunda, 1968/60) (1): RI 15, Tomar, outrubro de 1967: a "graxa" que custava 3$00, a caixa, e que o 1º sargento queria descontar no meu pré de 1º cabo miliciano (que era de 90$00 mensais, 37 euros a preços de hoje)


Capa do livro de Joaquim Caldeira,  "Guiné - Memórias da Guerra Colonial", publicado pela Amazona espanhola (2021)


1. Texto enviado pelo Joaquim Caldeira, grão-tabanqueiro nº 905 (*),   ex-fur mil at inf CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69)

(Vive em Coimbra; reformou-se da Caixa Geral de Depósitos em 1996; foi um dos primeiros camaradas a ter um blogue criado uns anos a seguir; o blogue chamava-se Reviver a Guiné; ele já não se lembra exatamente da URL, talvez: https://reviverguine.blogspot.com

O blogue foi enretanto descontinuado. Recuperou muitas histórias, integrando-as no seu livro de 2021. Ainda não conseguimos localizá-lo no Arquivo.pt nem no Archive Net... A URL pode estar errada.

2. Perguntámos ao asssistente de IA da Gemini / Google, "quando é que apareceram os primeiros blogs em português no servidor Blogger"... A resposta foi a seguinte:

(...) "O Blogger foi lançado em agosto de 1999 pela Pyra Labs. Foi uma das primeiras ferramentas a facilitar a publicação de blogs, popularizando o formato. Em 2003, o Blogger foi adquirido pelo Google.

Embora não haja uma data específica para o surgimento dos primeiros blogs em português no servidor Blogger, podemos inferir que começaram a aparecer pouco depois do lançamento da plataforma e com a popularização da internet no Brasil e em Portugal no início dos anos 2000.

Naquela época, os blogs eram frequentemente usados como diários online, e o Blogger, por ser uma ferramenta gratuita e fácil de usar, contribuiu para a proliferação desses espaços pessoais na internet. (...)


3, Esta é uma das histórias que o Joaquim Caldeira reteve da sua passagem pelo RI 15 (Tomar), em outubro de 1967. 

Era 1º cabo miliciano e recebia de pré 90$00 (noventa escudos) (equivalente naquela época a 37,00 euros da preços de hoje de acordo com o simulador de inflação da Pordata).

Passado menos de 3 meses o seu batalhão, o BCAÇ 2834, estava a embarcar, em 10 de janeiro de 1968, para o CTIG.


Data - domingo, 8/06/2025, 19:30

Assunto -  História anterior à guerra



A "graxa" do 1º sargento...

por Joaquim Caldeira


Decorria o ano de 1967 e o mês de outubro.

Em formatura, aguardávamos a chamada para nos ser entregue o pré correspondente à patente.

No meu caso, 90$00 (noventa escudos). Sobre este montante, ainda eram deduzidos 8% para a Caixa Geral de Aposentações (CGA), de que eu era subscritor e exigia que os descontos fossem feitos para efeitos de contagem de tempo.

Afinal, o meu primeiro trabalho na CGD (Caixa Geral de  Depósitos) tinha sido, exatamente, a contagem de tempo e o abono das pensões aos novos subscritores. Era, portanto, um assunto do qual eu sabia muito, e bem, o que deveria ou não fazer.

Chegada a minha vez, em sentido, feita a devida continência, recebia o pré com a mão direita, conferia, passaria para a mão esquerda com a qual guardaria o dinheiro, nova continência, dois passos à retaguarda, meia volta e iria embora.

Só que o valor não estava correto. E reclamei, no ato.

Com modos de malcriado e muito zangado, o primeiro sargento quis saber o motivo da minha discordância. Em resposta, informei que deveria receber 82$80  e não 79$80. 

Com péssimos modos, esclareceu que a diferença correspondia ao valor da caixa de graxa (3$00) que ele disponibilizava diariamente, na arrecadação, conforme aviso na entrada da caserna. Ripostei que utilizava a minha e, portanto, não pagava. 

 − Paga, sim senhor, como todos os outros. 

 − Então, irei reclamar para o comando.

Pôs-me fora do gabinete e eu mantive que iria reclamar. Era uma sexta feira à tarde e deixei isso para a segunda feira seguinte.

Dia seguinte, sábado, munido de uma licença de fim de semana, rumei à estrada Tomar-Coimbra, devidamente fardado por ser mais fácil obter boleia e vai de fazer o gesto habitual do pedido de boleia. Ninguém parava e, passada meia hora, já com fome, fui a uma tasca que estava junto à estrada e comprei algo para comer e regressei ao meu posto.

Passa um carro preto, marca Mercedes, com um único ocupante. Pára à frente, o que me obrigou a uma ligeira corrida e...

 − Bom dia, vou para Coimbra.

 − Está com sorte, entre. Vou para Condeixa e fica perto de casa. 

E começámos uma conversa sobre a tropa. Onde eu estava e há quanto tempo.

− Olhe, estou no quartel de Tomar há duas semanas e vim formar batalhão para ir até ao Ultramar.

− E antes da tropa, que fazia ?

Lá fui informando de que era “funcionário” da CGD, meio ano em Lisboa e meio ano em Aveiro, com pedido para ser colocada em Coimbra, minha terra de eleição.

− Muito bem. E quem é o seu comandante aqui em Tomar?

− Para ser franco, estou há tão pouco tempo que ainda nem sei quem é e nem sei ainda o seu nome.

Quis saber mais da minha experiência de trabalho e lá expliquei que há muito vivia do meu trabalho e que, além de saber fazer de tudo, tinha facilidade de adaptação a tudo.

E chegámos a Condeixa.

− Já agora, vou levá-lo a Coimbra. É um pulo.

E assim foi. Deixou-me no Largo da Portagem, praça de entrada na cidade.

E, na despedida, disse:

− E o seu comandante...sou eu.

Perfilei-me em sentido, continência e votos de bom fim de semana trocados de ambas as partes.

No dia seguinte, domingo, à tarde, enfio-me na camioneta para Tomar e, após a chegada, rumei ao quartel e, neste, à minha camarata. E passada a noite, estava a vestir a farda para novo dia de instrução aos homens que eu queria bem treinados para me defenderem a pele quando chegasse a hora.

Ouvi, então, que o cabo da secretaria chamava:

− O cabo miliciano Caldeira?

− Sou eu. Há alguma novidade?

− Há sim. Vá ao nosso primeiro.

Era o primeiro sargento da secretaria. Chegado lá, aos berros, perguntou:

− Que merda fez você durante o fim de semana? Vá apresentar-se, com urgência, ao nosso comandante.

Confesso que fiquei inquieto. Aqueles modos e ir ao comandante, poderia ser alguma coisa de desagradável.

E lá fui, ao edifício por cima da porta de armas, local do gabinete do comando. Chegado lá, um cabo sentado a uma secretária, perguntou-me ao que ia e, após a minha informação, levantou-se, bateu na porta e entrou.

Pouco tempo depois, saiu e disse que o nosso comandante pedia para que eu entrasse.

É pá! Isto estava tudo do avesso. Afinal, o comandante não devia estar muito zangado. Até pedia para que eu entrasse.

Entrei, sentido, continência e...

− Bom dia, meu comandante. Passou um bom fim de semana?

Que sim e indagou que tal foi o meu. Mas sempre afável e de modos educadíssimos. O que estaria para vir?

Afinal, as minhas capacidades de saber tratar com papeladas poderia ter muita utilidade porque o seu gabinete estava muito desorganizado e, se eu aceitasse, poderia dar um jeito e arrumar toda a documentação.

Até tinha a possibilidade de ficar livre de dar a instrução que, nos meses de inverno, é sempre mais desconfortável.

Aceitei logo. Passei a ter horário de comandante. E logo que soube do meu novo posto, o primeiro sargento veio ter comigo para me restituir os 3$00 que indevidamente me tinha cobrado da graxa para as botas e que eu nunca tinha utilizado.

Moral da História:

"Temos sempre muito a ganhar quando sabemos mamar. Até o comandante."


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

___________________

Nota do editor:


(*) Vd, poste de 5 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26845: Tabanca Grande (575): Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar 905