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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
É assim que este evento é apresentado em termos de comunicação pela Livraria Verney, creio que diz o essencial sobre a exposição ‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ que vai estar patente na Livraria Municipal Verney, em Oeiras, até ao dia 14 de novembro.
⁠ ⁠‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ nasce do diálogo entre a obra documental do pintor Neves e Sousa e o universo gráfico satírico e geométrico de Cristina Sampaio.
⁠ ⁠Partindo dos desenhos do livro Angola a Branco e Preto, Cristina Sampaio confronta-se com a memória da Guerra Colonial, imaginando a realidade paralela às paisagens e figuras retratadas por Neves e Sousa. Em vez de recriar os desenhos originais, utiliza-os como cenários simbólicos para compor retratos de personagens marcadas pela guerra.
⁠ ⁠A exposição estabelece uma ponte entre passado e presente, memória e interpretação, revelando o contraste entre a serenidade aparente das imagens e a violência da guerra colonial. O resultado é um conjunto de obras onde o desenho se transforma em reflexão visual sobre identidade, conflito e memória coletiva.⁠

Um abraço do
Mário


Uma exposição a não perder:
Retratos de Guerra, desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa


Mário Beja Santos

Tendo sido confiada uma grande parte da obra de Neves e Sousa ao município de Oeiras, tem a havido a preocupação desta autarquia em tratar este património através de um ciclo de reinterpretações. O artista agora convidado é a Cristina Sampaio. Como observa o presidente da autarquia: “A artista parte de uma constatação simples, mas decisiva: enquanto aquelas imagens de aparente serenidade eram produzidas, decorria em simultâneo a guerra colonial. As paisagens os corpos e os quotidianos retratados por Neves e Sousa coexistiam historicamente com um conflito prolongado. O gesto de Cristina Sampaio é simultaneamente contido e incisivo. Os desenhos originais de Neves e Sousa permanecem, mas recuam. Tornam-se fundo, cenário, memória suspensa. Esbatidos, deixam de ocupar o primeiro plano para passarem a funcionar como espécie de arquivo visual sobre o qual surgem figuras apuradas, imóveis, quase frontais – personagens que parecem pousar diante da História, como nos antigos estúdios fotográficos.”

Esta exposição está patente ao público até 14 de novembro na Livraria Municipal Verney, no centro histórico de Oeiras.

Cristina Sampaio dá explicações do seu trabalho pelo catálogo da exposição:
“Nas pinturas identifiquei pontos com o meu estilo, pois, curiosamente, o traço orgânico dos desenhos de Neves e Sousa, ao passar à tela, transformam-se em geometria. Ao continuar a refletir sobre o que fazer, apercebi-me de que os desenhos eram contemporâneos da Guerra Colonial. Provavelmente, algumas daquelas paisagens ou pessoas, terão sido tocadas pela guerra, que decorreu entre 1961 e 1974. Foi assim que me decidi por esta abordagem da reinterpretação dos desenhos do Neves e Sousa. Iria retratar a realidade paralelamente à realidade por ele retratada. Do ponto de vista formal, eu não via sentido nenhum em redesenhar os desenhos de Neves e Sousa. Eles funcionam, nas minhas imagens, como as paisagens pintadas que existiam nos antigos estúdios de fotografia, à frente das quais as pessoas eram retratadas. A maioria dos meus desenhos são, portanto, pessoas a posar para a câmara. Retratos de Guerra.”

Selecionei um conjunto de desenhos e trabalhos da artista que nos levam claramente a Angola, caso dos diamantes e do petróleo, encheu-me as medidas o trabalho dela intitulado A Chegada é um esquiço seguro e sóbrio de uma situação temível para qualquer entrada na guerra, a chegada um teatro de operações; também encontrei universalidade nas duas imagens seguintes intituladas Travessia do Rio e Emboscada, deixando para último um grafismo que nos toca a todos, mas que foi inegavelmente mais associado a Angola e a todo o seu inferno de guerra civil. São estas, em suma, as razões principais que me levam a convidar-vos a visitar a exposição patente na Galeria Municipal Verney.

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Nota do editor

Último post da série de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28087: Tabanca Grande (581): O superintendente, na situação de reforma, Isaías Teles, e presidente do Núcleo de Oeiras / Cascais da Liga dos Combatentes, que foi alf inf na CCAÇ 1591 (Mejo, Aldeia Formosa e Buba, 1966/68), senta-se a partir de hoje à sombra do nosso poilão, no lugar nº 915


Superintendente, na reformado,  Isaías Fernando Ferreira Teles: (i) nasceu em 28 de fevereiro de 1946, em Bragança; (ii) vive em Linda-A-velha, Oeiras; (iii) é membro da Magnífica Tabanca da Linha; (iv) é presidente da direção do Núcleo de Oeiras / Cascais da Liga dos Combatentes, desde 2013; (v) tem página no Facebook; (vi) passa a sentar-se à sombra do nosso simbólico poilão, no lugar nº 915.


1. O ex-alf inf, CCAÇ 1591 (Mejo, Aldeia Formosa e Buba, 1966/68), oficial do exército, da arma de infantaria, Isaías Teles, hoje superintendente da PSP, na situação de reforma, fez também comissões de serviço em Angola e Moçambique; em 1989 transitou para os quadros da PSP; finalmente senta-se connosco à sombra do poilão da Tabanca Grande.

Através do Núcleo de Oeiras da Liga dos Combatentes, recebemos há mês e meio atrás uma mensagem sua, com um texto da sua autoria sobre a viagem que fez à Guiné-Bissau, ainda antes da pandemia, em 2018, e que vamos publicar em próximo poste.

Data - 22/04/2026, 16:12
Assunto - Partir Mantenhas

Camarada e Amigo,

Conforme a nossa conversa no último almoço da Magnifica Tabanca da Linha, junto em anexo um Tema Relato por mim escrito referente a uma ída à Guiné Bissau nos princípios de 2018.

Com um abraço.
Isaías Teles


Ficam assim reunidos os requisitos para a sua apresentação à Tabanca Grande, que já peca por tardia.




Oeiras > Galeria-Livraria Municipal Verney > 4 de março de 2017 > 15h00-16h30 >Sessão de lançamento do livro de fotografia, da autoria de nosso grão-tabanqueiro Jorge Ferreira, "Buruntuma: algum dia dia serás grande!... Guiné, Gabu, 1961-63" (edição de autor: Oeiras, 2016; impressão: Jotagrafe - Artes Gráficas Lda)...

O presidente da direção do Núcleo de Oeiras-Cascais da Liga dos Combatentes, Isaías Fernando Ferreira Teles, superintendente reformado, esteve presente, e teve a gentileza de oferecer ao nosso blogue o livro "Olhares sobre a Guiné e Cabo Verde" (org., Manuel Barão da Cunha e José Castnho Paes) (Linda A Velha: DG Edições; e Porto; Caminhos Romanos, 2012, 389 pp. (Coleção Fim do Império, 9).

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Nada com o como esta data, simbólica, 0 10 de junho de 2026, para apresentar à Tabanca Grande mais um antigo combatente da Guiné, .e com ele "partir mantenhas".

É uma figura de destaque com uma longa e prestigiada carreira militar e policial em Portugal. Atualmente, desempenha funções como Presidente da Direcção do Núcleo de Oeiras/Cascais da Liga dos Combatentes, eleito para o triénio de 2025/28 .

Sob a sua liderança, o núcleo tem mantido uma atividade notável no apoio social aos antigos combatentes e na preservação da sua memória coletiva,   promovendo conferências, homenagens locais e encontros de confraternização. É 
uma função que reflete o seu empenho contínuo em honrar e apoiar aqueles que, como ele, serviram Portugal em tempos de guerra e paz.




Guiné > R3gião de Tombali > Mejo > CCAÇ 1591 > c. 1067 > O alf inf Isaías Teles



Guiné > R3gião de Tombali > Mejo > CCAÇ 1591 > c. 1067 > Vista exterior da porta de armas.   A CCAÇ 1591 foi colocada em Mejo em 23 de outubro de 1966, "para intensificação da actividade bo corredor de Guileje". Era comandada pelo cap inf Luís Carlos Loureiro Cadete (que foi instrutor de alguns de nós, no CISMI, Tavira)

Em meados de 1967, a  CCaç 1591 (-) estava sediada  em Aldeia Formosa, Em 17Jun67, por rotação com a CCaç 1622, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com os seus pelotões distribuídos por Cumbijã, Colibuia e temporariamente em Chamarra e Contabane. 

Mejo seria "desmilitarizado" em 1969, no início do "consulado" de governador e comandante-chefe António Spínola, a par de Beli, Madina do Boé, Ché Che, Contabane, Colibuia, Cumbijã, Ponte Baiana, Gandembel, Sangonhá, Cacoca, Cachil e Ganjola (Região de Tombali, Zona Sul), Gubia (Região de Quínara, Zona Sul) e ainda Banjara (Região de Bafatá, Zona Leste).


Fotos (e legendas): © Isías Teles (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Mais alguns marcos da sua história de vida:
  • Isaías Teles nasceu em Bragança, em 1946, tendo efectuado os estudos secundários nos Liceus de Vila Real e Bragança;
  • em 1966 concluiu o curso da Academia Militar (Infantaria); em 1984 o Curso Geral de Comando e Estado-Maior; em 1994 o Curso de Auditor de Defesa Nacional;
  • cumpriu três comissões no Ultramar: na Guiné (1967); em Moçambique (1970-1972); em Angola (1973-1975),
  • na Guiné foi alferes de infantaria na CCAÇ 1591, em Fulacunda, Mejo, Aldeia Formosa e Buba, onde forjou laços de camaradagem que perduram até hoje;
  • das variadas funções que desempenhou salientam-se ainda as de Comandante do Batalhão Operacional do Regimento de Infantaria de Queluz (1983-1985);
  • foi para a PSP (Polícia de Segurança Pública)em 1985, onde estive até 1989, em comissão de serviço;
  • nesse ano passou a integrar os quadros da PSP no posto de intendente,
     sendo promovido a superintendente em 1994;
  • em 1998 passou à situação de reforma;
  • missões Internacionais: comandou o Contingente da Polícia Portuguesa nas forças da ONU (CIVPOL) em Moçambique, em 1994;
  • exerceu ainda  o cargo de Diretor de Segurança do Primeiro-Ministro (1990–1991), Comandante do Corpo de Segurança Pessoal da PSP (1995–1998) e assessor do Secretário de Estado da Defesa Nacional (2002–2004);
  • é condecorado com as Medalhas de Mérito Militar de 2.ª e 3.ª Clases, Defesa Nacional de 2.ª Classe, Comemoratíva das Campanhas de África, Ouro de Comportamento Exemplar, das Nações Unidas e é Comendador da Ordem do Rio Branco, do Brasil;
  • é autor do livro de memórias, "De Bragança a Macau" (Lisboa: Âncora Editora, 2025, 200 pp.) (Coleção "Fim do Império").

´


3. Comentário do editor LG:

Meu caro Isaías Teles, ficamos honrados com a tua presença entre nós. Que seja também um lembrete do que fomos, do que somos e do que continuamos a ser: uma Tabanca Grande onde muito simplesmente partilhamos memórias (e afetos). 

Um alfabravo de boas- vindas, do Luís Graça em nome de todos os amigos e camaradas da Guiné (vd. aqui a lista alfabética).

PS - As regras por que nos regemos são conhecidas, e podem aqui ser lembradas.

Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné: Política editorial


As opiniões aqui expressas, sob a forma de postes ou de comentários, assinados, são da única e exclusiva responsabilidade dos seus autores, não podendo vincular o proprietário e editor do blogue, bem como os seus co-editores e demais colaboradores permanentes.

O nosso blogue é também uma Tabanca Grande. Originalmente, chamámos-lhe Tertúlia. Tabanca é um termo mais apropriado: nela cabem todos os amigos e camaradas da Guiné. Cabemos todos com tudo o que nos une, e até com aquilo que nos pode separar (religião, política, futebol; nacionalidade, naturalidade, idade, etnia, cor da pele; antigo posto, arma, especialidade; habilitações literárias, profissão, etc.)

Neste espaço, de informação e de conhecimento, mas também de partilha e de convívio, decidimos pautar o nosso comportamento (bloguístico) de acordo com algumas regras ou valores, sobretudo de natureza ética:

(i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem);

(ii) manifestação serena mas franca dos nossos pontos de vista, mesmo quando discordamos, saudavelmente, uns dos outros (o mesmo é dizer: que evitaremos as picardias, as polémicas acaloradas, os insultos, a insinuação, a maledicência, a violência verbal, a difamação, os juízos de intenção, etc.);

(iii) socialização/partilha da informação e do conhecimento sobre a história da guerra do Ultramar, guerra colonial ou luta de libertação (como cada um preferir);

(iv) carinho e amizade pelo nossos dois povos, o povo guineense e o povo português (sem esquecer o povo cabo-verdiano!);

(v) respeito pelo inimigo de ontem, o PAIGC, por um lado, e as Forças Armadas Portuguesas, por outro;

(vi) recusa da responsabilidade colectiva (dos portugueses, dos guineenses, dos fulas, dos balantas, etc.), mas também recusa da tentação de julgar (e muito menos de criminalizar) os comportamentos dos combatentes, de um lado e de outro;

(vii) não-intromissão, por parte dos portugueses, na vida política interna da actual República da Guiné-Bissau (um jovem país em construção), salvaguardando sempre o direito de opinião de cada um de nós, como seres livres e cidadãos (portugueses, europeus e do mundo);

(viii) respeito acima de tudo pela verdade dos factos;

(ix) liberdade de expressão (entre nós não há dogmas nem tabus); mas também direito ao bom nome;

(x) respeito pela propriedade intelectual, pelos direitos de autor... mas também pela língua (portuguesa) que nos serve de traço de união, a todos nós, lusófonos.

PS - Defendemos e garantimos a propriedade intelectual dos conteúdos inseridos (texto, imagem, vídeo, áudio...).

Em contrapartida, uma vez editados, não poderão ser eliminados, tanto por decisão do autor como do editor do blogue, mesmo que o autor decida deixar de fazer parte da Tabanca Grande.

Qualquer outra utilização desses conteúdos, fora do propósito do blogue (ou da nossa página no Facebook), necessita de autorização prévia dos autores (por ex., publicação em livro).

Luís Graça & Camaradas da Guiné
31 de Maio de 2006, revisto em 7 de Abril de 2025
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Nota do editor LG:

sábado, 7 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25919: Verão de 2024: Nós por cá todos bem (10): 57.º Convívio da Magnífica Tabanca da Linha, dia 26 de setembro de 2024, quinta-feira, em Algés (Manuel Resende)



57.º CONVÍVIO DA MAGNÍFICA TABANCA DA LINHA

26-09-2024

RESTAURANTE: CARAVELA DE OURO (Algés)

Morada: Alameda Hermano Patrone, 1495 Algés - Telefone: 214 118 350

Estacionamento em frente tem sistema de "Via Verde Estacionar"



I N S C R I Ç Õ E S

Inscrições até ao dia 23 de Setembro de 2024

Manuel Resende: Tel - 919 458 210

manuel.resende8@gmail.com

magnificatabancadalinha2@gmail.com

dizendo "vou" ao convite no nosso grupo no Facebook

Estarei atento ao grupo do Whatsapp para quem se inscrever aqui.

Agradeço que só respondam os que puderem vir (não digam “talvez”).


+ + + E M E N T A + + +

Começamos com aperitivos e entradas às 12,30 horas

O almoço será servido às 13 horas.

APERITIVOS DIVERSOS

Bolinhos de bacalhau - Croquetes de vitela - Rissóis de camarão - Tapas de queijo e presunto

Martini tinto e branco - Porto seco - Moscatel.

SOPAS

Canja de galinha ou Creme de Marisco

PRATO PRINCIPAL

Lombinhos de pescada com arroz de marisco

SOBREMESA

Salada de fruta ou Pudim

Café

BEBIDAS INCLUIDAS

Vinho branco e tinto “Ladeiras de Santa Comba" ou outro

Águas - Sumos - Cerveja

PREÇO POR PESSOA ... 25.00€

(Crianças dos 5 aos 10 anos se aparecerem, pagam metade)

Peço que tragam a quantia certa para evitar trocos. Ajudem os organizadores.

Quem quiser pagar por Multibanco, vá ao Rés-do-Chão e, ao entrar para a sala, apresente o duplicado.

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Nota do editor

Último post da série de 31 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25899: Verão de 2024: Nós por cá todos bem (9): O amor mora em Queens: Vilma (esloveno-americana) e João (luso-americano) (Recorte do jornal "Dnevnik", 5 de julho de 2024)

sábado, 28 de outubro de 2023

Guiné 61/74 - P24802: Os nossos seres, saberes e lazeres (598): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (126): Nos jardins do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Julho de 2023:

Queridos amigos,
Os palácios, os jardins e as infraestruturas agrícolas são verdadeiramente sumptuosos, merecedores da classificação de monumento nacional. O conde de Oeiras e Marquês de Pombal esmerou-se, abriu os cordões à bolsa e usou a sua fortuna para que não faltassem meios ao arquiteto para que houvesse em profusão e na melhor qualidade ostentação com bom gosto e maravilhamento de uma agricultura modernizada ao tempo, daí a profusão de boa azulejaria, de elementos escultóricos, de um edifício monumental destinado a Adega/Celeiro, no fundo pretendia-se numa conceção de representação cénica grandiosa sair do palácio e avistar mesmo das escadarias as alamedas, as cascatas e uma vegetação luxuriante. Como todos os projetos de grandeza, houve quedas a pique e em 1939 o recheio do palácio foi leiloado e a propriedade vendida e fracionada. Em 1958, a Fundação Gulbenkian adquiriu espaço, lembro-me de ter vindo aqui ver tesouros artísticos inauditos, mais tarde por aqui andou o Instituto Nacional de Administração e estes 6 hectares de palácio e jardins foram adquiridos em 2003 pela autarquia. Vale a pena visitar um espaço que tem conhecido recuperações e cuidados na preservação de um projeto grandioso, a quinta de lazer do temível Sebastião José de Carvalho e Melo.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (126):
Nos jardins do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras

Mário Beja Santos

O conjunto do palácio e jardins está classificado como monumento nacional; faz parte integrante da antiga Quinta de Recreio da Família Carvalho, propriedade formada por vários casais e quintas. A sua construção decorre durante o século XVIII e articulava os espaços de recreio de lazer da casa aristocrática, como os da proveitosa e experimental exploração agrícola. Obra de família, tudo começou com um morgado tio de Sebastião de José Carvalho e Melo, que foi seu herdeiro, e dos dois seus irmãos, Francisco de Xavier Mendonça Furtado e Paulo de Carvalho e Mendonça. Se o leitor observar a primeira imagem, verificará que o palácio foi uma construção que conheceu diferentes épocas, é a capela que faz a ligação entre os dois principais corpos. Bem tentei entrar no palácio, recordo que aqui estive em finais da década de 1950, o palácio será adquirido pela Fundação Calouste Gulbenkian, fazia-se uma exposição de parte da coleção do multimilionário arménio, mesmo quando o museu passou para as instalações atuais ali ficou um grande acervo da coleção, que conheceu danos numas terríveis inundações de 1967, curiosamente fui ver a exposição de estampas japonesas (julho de 2023) no edifício da avenida de Berna e aí se fazia referência a todo o processo de recuperação das obras danificadas pelas inundações; depois instalou-se aqui o Instituto Nacional de Administração, recordo que aí por 1986-87 fui convidado a palestrar a futuros intérpretes portugueses o que era a política dos consumidores a nível europeu, a sessão decorreu numas instalações por cima da Cascata dos Poetas. Bem tenho procurado entrar no palácio, está sempre fechado ao público bem como um conjunto de dependências que penso que são alugadas para eventos como a adega e o celeiro. O leitor verá na imagem esse património construído, a antiga casa dos coches, hoje Paços do Concelho, do lado esquerdo, e a ligação com os jardins faz-se para o Jardim do Bucho, podendo a visita começar por visitar à esquerda o Terraço das Araucárias ou indo diretamente atravessando uma ponte sob a Ribeira da Laje para a Cascata dos Poetas.
A Cascata dos Poetas foi a última obra nos jardins, considerada uma das principais atrações na visita da rainha D. Maria I, em 1783. Chamava-se então Gruta Nobre e depois batizada com o nome Cascata dos Poetas, pelo facto de integrar os quatros bustos de poetas épicos: Homero, Virgílio, Camões e Tasso, bustos esculpidos em mármore por Machado de Castro. Integra ainda a figura de um Deus-rio, inspirado nos que existiam nos jardins renascentistas do Belvedere, no Vaticano. E da cascata bem se pode perceber que o projetista quis adaptar os jardins a um programa mediterrânico de verões tórridos e secos. A gruta é de influência italianizante, concebida em pedra ao natural, encimada por um tanque e varandas.
Da Cascata dos Poetas envereda-se para um amplo espaço ajardinado onde está o Lagar do Vinho e a Adega/Celeiro, este é um edifício monumental que aparenta um palácio ornado com os bustos de emperadores romanos. A Adega tinha uma capacidade para novecentas pipas e era a maior da região. O Celeiro situava-se no andar de cima, cuja cobertura é abobadada e destinava-se a armazenar a produção dos cereais da propriedade, bem como dos géneros que resultavam das rendas e foros pagos ao morgado de Oeiras. O visitante dos jardins contempla esta magnificência, não pode visitar como igualmente não pode visitar o lagar do azeite, ali bem perto. Resta dizer que há um conjunto de dependências que estão em recuperação que é o caso da casa de pesca. Isto vem a propósito de acrescentar mais algumas informações. Esta área do palácio e jardins era designada por Quinta de Baixo, incluía o palácio, a capela, os jardins e todo este complexo de estruturas para transformação dos produtos agrícolas, é o caso da Adega/Celeiro, lagares, o alambique, a azenha e a casa da malta. A Quinta de Cima, ali ao lado, compreendia a Casa da Pesca, o Pombal, a Abegoaria, as cascatas do Taveira e a Fonte de Oiro. Há muitas obras neste lugar, estou ansioso de um dia voltar para conhecer estes espaços. Importa também dizer que os jardins foram objeto de uma intervenção do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, em 1965. Palácio e jardins estendem-se por uma área de seis hectares, são propriedade da Câmara Municipal de Oeiras desde novembro de 2003.
Estamos agora na horta ajardinada e Fonte das Quatro Estações. Atenda-se que o os jardins estão enriquecidos com uma profusão de elementos escultóricos, a imagem destaca o grupo escultórico da Fonte das Quatro Estações, que centra o horto ajardinado, as bicas esculpidas dos tanques do Jardim das Merendas, assim como outros elementos ornamentais que iremos encontrar no Terraço das Araucárias. Aqui se conjugavam os aromas dos pomares de citrinos, flores e plantas com o som da água fresca e murmurante das cascatas. Carlos Mardel (1696-1763), engenheiro militar cujo nome está associado à recuperação da Baixa Pombalina depois do terramoto, terá assinado todo este projeto e planeado o magistral sistema hidráulico da quinta, para que não houvesse lugar ao desperdício de água. Lê-se num dos textos que o Jardim da “Água”, segundo conceção singular dos jardins de Conimbriga e dos tanques dos jardins do Bispo, em Castelo Branco, incluía ainda nos espaços envolventes outros jardins.
Imagem que permite visualizar a conceção aparatosa da ligação entre o palácio e os jardins, chegara-se a uma época em que o palácio é lugar de festividades e receções que se estendiam até ao exterior, seguramente que o Marquês de Pombal queria exibir aos seus convidados este património de ajardinamentos, azulejaria e esculturas e as infraestruturas do portentoso empreendimento agrícola.
A imagem permite fazer a articulação entre dois elementos do palácio, avista-se a grandeza da araucária e as escadarias azulejadas.
Três imagens que permite visualizar os elementos da azulejaria (de estilo rococó da segunda metade do século XVIII), ornamentam os muros, escadarias, terraços e bancos de jardim, com composições variadas: motivos vegetais e florais, ornatos geométricos representado cenas da vida quotidiana da época onde não faltam caçadas ao javali e ao veado.
Chegámos ao final da visita, descemos para o Terraço das Araucárias, sente-se que ainda há muito para fazer na recuperação da azulejaria, contempla-se com satisfação o bom estado em que está o horto, dá-se por muito bem empregue o tempo em que se percorreram os jardins de grandiosas e retilíneas alamedas, terraços, escadarias, cascatas e fontes. Não perca esta visita, é gratuita e os jardins estão abertos todos os dias.

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Nota do editor

Vd. poste anterior de 21 DE OUTUBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24778: Os nossos seres, saberes e lazeres (596): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (125): Em Leiria, pedindo muita desculpa por lhe ignorar os tesouros (2) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 26 DE OUTUBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24796: Os nossos seres, saberes e lazeres (597): Fotos da cidade de Maputo, terra onde nasceram, minha avó e meu pai, e onde estou a passar uns dias de férias (Jaime Machado)

sábado, 8 de abril de 2023

Guiné 61/74 - P24209: Os nossos seres, saberes e lazeres (567): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (97): Hoje, quero muito simplesmente dizer ao senhor Gulbenkian que lhe estou grato (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2023:

Queridos amigos,
Aqui termina a contabilidade das minhas obras preferidas no Museu Gulbenkian. Durante anos procurei ler muito sobre a personalidade do colecionador, aliás houve uma bela exposição sobre o colecionador, exibiam-se mesmo os seus cadernos, os seus comentários sobre as obras, o seu afã em adquiri-las, como qualquer colecionador ele tinha paixões ao rubro e na sua casa apalaçada da avenida Iena, relativamente perto do Arco do Triunfo, ele tinha tudo exposto, seguramente que cirandava por aquelas salas e salões a contemplar todas as conquistas, fruto de apuradas escolhas, era muito exigente, interessava-lhe unicamente o melhor, dentro daquela pauta de critérios de que a arte que o empolgava já não incluía nem cubismos nem expressionismos e todas as correntes e movimentos que se seguiram, aliás está à entrada do museu uma peça modernista que marca a fronteira do seu gosto. Deu-me hoje para recordar o que aprendi com dois diretores e várias conservadoras que tiveram a amabilidade de me receber, confesso que demorei a entender-me com o gosto do colecionador, um arménio com um pé no gosto ocidental e outro nas suas raízes, extensíveis a Chinas e Japões, tudo se reflete na intensidade deste ecletismo que não deixa nenhum visitante indiferente com as escolhas do senhor Gulbenkian.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (97):
Hoje, quero muito simplesmente dizer ao senhor Gulbenkian que lhe estou grato (2)


Mário Beja Santos

Tive o privilégio de conhecer e conversar amiudadas vezes os dois primeiros diretores do museu, Maria Teresa Gomes Ferreira e João Castel-Branco Pereira. Na colaboração que levei de 28 anos no Jornal de Notícias criara uma secção que intitulei “Necessidades espetaculares”, aproveitava uma exposição e conversava com um dos diretores ou com conservadores, no caso de alguma das exposições estar associada a peças em reserva, foi o que aconteceu com as exposições do tapete Mogol, os belíssimos livros que Gulbenkian adquiria, sobretudo com encadernações Arte Nova, a mobília do artista Talma ou a recuperação de obras de arte depois das inundações terríveis que houve no palácio de Oeiras. Apreciei sempre a competência da primeira diretora, admirei a capacidade comunicativa de João Castel-Branco Pereira, impressionou-me a organização de catálogos temáticos que são seguramente obras de referência em diferentes domínios, caso das duas grandiosas exposições sobre naturezas-mortas europeias.
Habituado aos cantos daquele museu, passei a fazer raides, hoje vou limitar-me à coleção de moedas, ou às loiças Iznik, os vasos Seljúcidas ou aos impressionistas ou então cirandar na sala reservada às obras de Francesco Guardi. Fui afinando o gosto, termino agora com as peças do meu relicário, e não posso deixar de insistir que a dívida que tenho para com esta Fundação é impagável, não encontrei melhor homenagem à memória deste filantropo que exaltar esta ou aquela peça que me enche as medidas, uma gratidão pelo bem que este senhor fez, faz e fará aos meus compatriotas. E agora entro numa sala de museu, tudo só por causa de uma peça de ourivesaria, este núcleo ficou ainda mais atrativo depois da renovação, há quem aqui entre para se extasiar com o centro de mesa do grande ourives Germain, eu prefiro a minúcia e a delicadeza deste abafador, faz parte de uma coleção de ourivesaria do século XVIII adquirida por inteiro pelo multimilionário de origem arménia.

Abafador, núcleo de ourivesaria, peça do século XVIII
Naufrágio de um Cargueiro, Joseph Mallord Turner, c.1810

Durante anos, constava na legenda que era o naufrágio de um barco chamado Minotauro, agora diz que é naufrágio de um cargueiro, nada conheço de tão empolgante, o navio afunda-se, mostra-se um mastro destruído, gente apavorada na amurada, o mar está vazio e quem vai na jangada ou nos botes vai seguramente aterrorizada. O que me apaixona nesta tela é o equilíbrio das formas, o céu está medonho, as águas revoltas engolindo despojos, quem vai na jangada, bem ao lado de um mastro desfeito procura salvar um náufrago no meio da violência das ondas espumantes. E há a genialidade da cor, o calado da navio que se afunda parece madeira viva, à sua frente uma vela acastanhada e que se destaca e no centro da tela o borbulhar da intempérie e o equilíbrio daquele bote à direita em que as figuras minúsculas dos náufragos parecem a marinhar pelas velas amareladas. Obra-prima absoluta.
As Bênçãos, Rodin, c. 1900

Tive a dita de visitar em Paris o Museu Rodin, falando do século XIX, é o meu escultor preferido. Temos a escultura de um jovem adolescente no Museu Nacional de Arte Antiga e parece que os desenhos, ficámos profundamente enriquecidos com estas bênçãos, corpos em exercício balético, torcidos e retorcidos dentro de esta base de pedra donde as figuras emergem, atino no contraste entre as rugosidades da base escultórica e a pedra acetinada onde dançam as bênçãos, voluptuosas.
Barcos, Claude Monet, 1869

O que gosto e que venho aqui rever neste Monet é o essencial das formas, o que aqui se exibe é sumaríssimo: vemos os barcos e o seu reflexo nas águas, estão acostados num tramo do cais, a linha do casario é fugaz, mas expressiva, tal como os outros veleiros que vemos esquematicamente à direita, ao fundo. Monet não esteve com meias medidas, quem visualiza a tela tem dois barcos que dominam a cena, cores um tanto escurecidas, o contrapeso vem da luminosidade que sobressai do fundo da tela e que se derrama sobre as águas. Meu tão inesquecível Monet!
Mulher e Criança Dormindo num Barco, John Singer Sargent, 1887

Às vezes, nesta sala de pintura, ponho-me disfarçadamente a olhar para onde vai a atenção dos visitantes. Tenho constatado que esta mulher e criança dormindo num barco é visita de pouca duração, o que me surpreende, acho uma tela impressionante, logo as cores: o branco imaculado, o fundo vermelho, a envolvente das folhagens, a luz que se derrama pelo curso de água, as curtíssimas pinceladas para assinalar os pés de mãe e filho, pasmo como se consegue uma outra tonalidade para o chapéus da mãe e como o pintor nos transmite a sensação de repouso naquela lassidão dos corpos, ainda mais acrescentada pela atmosfera de tranquilidade dada por aquele azul das águas.
Natureza-Morta, Henri Fantin-Latour, 1866

Descobri o prazer de contemplar Fantin-Latour na segunda exposição que João Castel-Branco Pereira organizou sobre natureza-morta, quantas vezes passara por este quadro sem dar o devido valor à subtileza do ângulo, á disposição dos frutos e à sua coloração e ao pormenor requintado desta faca com a lâmina iluminada, mas o ponto mais alto é aquele jarro de bojo arredondado donde despontam, como se saíssem da tela, as hortênsias e dentro do jarro vemos as raízes e o ponto de luz idealizado pelo artista. Que maravilha.
Pulseira Mochos, França, c.1900 René Lalique

A coleção de obras de René Lalique é impressionante, este genial ourives está altamente representado neste museu, gosto praticamente de tudo, mas este mochinhos e o belo engaste das peças em ouro enchem-me as medidas.
O Espelho de Vénus, Burne-Jones, 1877

Estamos praticamente a sair do museu e desde a primeira hora que a Coleção Gulbenkian veio parar à avenida de Berna que Burne-Jones nos apresenta cumprimentos de despedida, pudesse a tela falar e diria “volte sempre”. Calouste Gulbenkian tinha o gosto requintado e não há nenhuma dificuldade em entender como se sentiu atraído por esta energia revivalista dos pré-rafaelitas, de que Burne-Jones foi o sumo pontífice.
O Pintor Brown e a Família, Giovanni Boldini, 1890

Tempos houve em que a despedida era feita por este maravilhoso quadro de Boldini, foi tirado das reservas por João Castel-Branco Pereira, uma nova gerência voltou a colocar Boldini nas tais reservas. Eu não me conformo, guardo saudades desse tempo em que via estas duas magníficas peças de Burne-Jones e Boldini a lembrar-me que este museu é um permanente espaço de encanto, um porto de regresso sem remissão, e espero que assim seja até ao fim dos meus dias.
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Nota do editor

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sábado, 1 de abril de 2023

Guiné 61/74 - P24184: Os nossos seres, saberes e lazeres (566): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (96): Hoje, quero muito simplesmente dizer ao senhor Gulbenkian que lhe estou grato (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Março de 2023:

Queridos amigos,
Não sou capaz de conjeturar o que teria sido a minha vida sem os benefícios que auferi (e aufiro) da Fundação Calouste Gulbenkian. Recordo com alguma precisão a primeira visita que fiz ao Palácio do Marquês de Pombal em Oeiras, senti-me então desorientado com aquele ecletismo de antiguidade oriental, arte islâmica, preciosidades da Pérsia, aquela deslumbrante ourivesaria francesa, nunca vira as obras de René Lalique, o genial artífice do período da Arte Nova, até chegarmos a Burne-Jones, que prontamente me fascinou. O meu débito é interminável, é uma enorme fatura que mete música, bailado, exposições de topo de qualidade, as leituras naquela biblioteca passadas todas estas décadas é a casa de livros mais artisticamente arrojada que conheço, os ciclos de cinema e a doce recordação dos tempos adolescentes em que entrava nas bibliotecas itinerantes e as conversas entre miúdos sobre as nossas leituras. E andava ali pelos jardins quando me ocorreu que não era sem tempo que eu aqui saudasse quem tantas alegrias me proporcionou.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (96):
Hoje, quero muito simplesmente dizer ao senhor Gulbenkian que lhe estou grato (1)


Mário Beja Santos

Passeava displicentemente pelos Jardins da Gulbenkian, com a curiosidade nos trabalhos que se efetuam onde era o Centro de Arte Moderna, quando me ocorreu quanto impagável é a dívida que tenho com esta Fundação. Em adolescente, visitei uma parte do que é hoje o museu no Palácio do Marquês de Pombal em Oeiras, fiquei ofuscado com o ecletismo da coleção, o que levara um arquimilionário a juntar moedas, tapetes, peças escultóricas, ourivesaria e artes decorativas, pintura que se arrastava da Idade Média ao princípio do século XX, mobiliário, marfim, arte oriental? Ainda sem resposta satisfatória, juntava tostões para ir a alguns espetáculos do festival de música, foi assim que conheci artistas de eleição como Arthur Rubinstein, Henryk Szeryng, Maurice Béjart, frequentei a biblioteca no novo edifício, para já não falar nos livros que li graças à biblioteca itinerante, de saudosa memória… E depois a companhia de bailado, os recitais gratuitos, as inolvidáveis exposições, até chegar à majestosa museologia que acolhe a Coleção Gulbenkian, que visito com regularidade, às vezes única e exclusivamente para ver uma peça ou duas. Como pagar tal dívida de gratidão?
E foi assim que tomei a decisão de saudar quem tanto bem me tem feito, entrei de supetão no museu, dizendo para os meus botões, venho agradecer-lhe, senhor Gulbenkian mostrando aos meus amigos algumas dessas peças que para mim são “só o melhor” dentre o que adquiriu, o mesmo é dizer aquelas que mais me tocam, desde que as conheço, minhas amigas e conhecidas desde há mais de meio século. Entenda-se que é tudo uma questão de gosto, não há aqui qualquer classificação, se omitir tapeçaria oriental, mobiliário francês, pintura romântica, etc., a omissão não significa outra coisa que não são as minhas excelsas peças, o polo de atração, independentemente de acompanhar amigos estrangeiros e enaltecer a qualidade de tudo quanto se vê.

Começo as minhas escolhas no século IX a.C.

Baixo-relevo assírio proveniente do Palácio de Nimrud, construído por Assurnasirpal II, século IX a.C.
Taça com pássaros afrontados. Pérsia, final do século XIII-início do século XIV
Prato fundo com romãs, Turquia, Iznik
Bíblia arménica, Istambul, século XVII
Panejamento de seda, Japão
A Virgem e o Menino, Jean de Liège, século XIV
A Virgem e S. João, Alto Reno ou Suábia, século XVI
Descanso na Fuga para o Egipto, Cima da Conegliano, século XV.

Aqui sinto-me obrigado a uma justificação detalhada. Cima da Conegliano não é propriamente um santo do meu culto, mas cada vez me ocorre a lembrança da visita espúria que fiz a Conegliano, sinto-me obrigado a contemplar este “Descanso na Fuga para o Egipto”. Numas férias que fiz na região do Véneto, constava o programa de passar dois dias nos Dolomitas. Para lá chegar a preço mais económico, toma-se o comboio em Veneza até Conegliano, depois um pequenino comboio até Ponti di Alpi, e daqui um autocarro até Mitsurina, ali estão os Dolomitas, gigantescos, a seduzir-nos para passeios pedestres. Acontece que em Conegliano senti um dos pés a tocar no asfalto, o sapato acabava de morrer, desfizera-se de podre, olhe súplice à volta, perguntei a alguém onde havia uma sapataria, lá entrei a mancar e comprei umas belas sandálias, que andar confortável me estava reservado! Só que à noite, antes de saltar para a cama, olhei atentamente para o meu precioso achado e verifiquei que uma das sandálias era vermelha e a outra amarelo-torrado, fiquei um tanto encabulado, mas assumi que a responsabilidade era tanto minha como do sapateiro, e não se reclama calçado usado, alguém me observou que até era uma originalidade. O que para o caso interessa é que nunca mais esqueci Conegliano, e também por uma outra razão, é recordação com alguma mágoa: visitei uma exposição sobre os exércitos que Mussolini mandou para a União Soviética, tiveram triste sorte, passeei os olhos por muitas fotografias de cemitérios gigantescos de caídos em combate. E para quem combateu, há sempre um sentimento de infortúnio, de compadecimento, por quem tombou, independentemente de se estar no sítio certo ou errado.
Figura de ancião, por Rembrandt, século XVII

Detenho-me sempre, não pela imponência da figura por este magistral claro-escuro, o que me prende a atenção são aquelas duas mãos de veias salientes, aquelas marcas da idade, aquela descrição de um pequeno anel ou mesmo aliança no dedo mindinho da mão esquerda, aquelas mãos que com naturalidade seguram o bordão, e então os olhos descem para o panejamento onde assume alguma luz junto dos joelhos, porque toda a iluminação vem de cima, desce do rosto para as mãos e nesses joelhos se detém, é o domínio genial que Rembrandt possuía para nos atrair ao ponto focal da sua obra.
São Martinho repartindo a capa com um mendigo, artista desconhecido, Vale do Loire, século XVI

Duas razões me levam recorrentemente a ficar especado diante deste S. Martinho, o controlo da luz, questão fundamental em museografia, aqui ficamos especados vendo o que essencialmente merece ser visto, da sua montada o cavaleiro corta um pedaço de manto e jamais saberei se este mendigo tem o rosto em sofrimento ou olha o santo em êxtase. E pasmo-me, então, no controlo do mestre da estatuária, a forma delicada que ele encontrou para nos mostrar a crina daquela montada.

Pois bem, ainda há outras preciosidades para vos mostrar, fruição que devo a quem amou o nosso país e nos deixou estes relicários.

(continua)

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Notas do editor:

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