Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta colonialismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta colonialismo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28311: Verso & reverso (4): Salazar & Caetano: conhecer ou não conhecer o "ultramar português": eis a questão ?! (António Rosinha/ Luís Graça)

 



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: António Rosinha e Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.





Guiné > Zona Leste > Bafatá > c. 1931 > "Jangada no Rio Geba. Passagem entre Bafatá e Contuboel"... Imagem reproduzida em "O Missionário Católico" , Boletim mensal dos Colégios das Missões Religiosas Ultramarinas dos Padres Seculares Portugueses, Ano VIII, n.º 81, Abril de 1931, p. 169 (Exemplar oferecido ao nosso blogue por Mário Beja Santos).

Digitalização, edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2018)



1. Comentário de António Rosinha ao poste P27379 (*)


Tenho dúvidas sobre o que dizes, que o Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...

Luis Graça, de facto ninguém conhecia o Ultramar africano, no que diz respeito a governantes portugueses, desde ministros, caso de Marcelo que até foi ministro das colónias, aos governadores gerais, que faziam papel de mangas de alpaca em comissões de 4 anos.

Até ao Estado Novo não nos entendíamos aqui no retângulo, como depreciativamente chamavam à metrópole os estudantes do império, quanto mais sabermos navegar de jangada no Geba, no Quanza ou no Zambeze.

Mas tenho uma ideia que criei em Angola com colonialistas que gostavam dos inimigos do Salazar, e que admiravam as ideias de Henrique Galvão, Norton de Matos, e até o Marcello e outros turistas, por exemplo, e com estudantes do império, e seus pais, que conheci muitos e trabalhei com vários.

Essa ideia, em que fui acreditando, e mais tarde acreditei ser verdade, Salazar aguentou-se "até cair da cadeira", porque em 1961 deu o grito, "Para Angola, rapidamente e em força".

Mas esses colonialistas, e entre eles imensos militares, continuavam a acusar Salazar que ele não os deixava desenvolver, no caso, Angola, nossa terra, riquiiiiíssima!

Só que Salazar, não conhecendo África, e nem gostando de África, vista como uma maldita herança, ele sabia ou adivinhava, como ninguém, que quanto mais investisse maior seria o transtorno.

E viajar de jangada era bom, fabulosa aquela foto da jangada de Bafatá até Contubuel, lembrei-me do Governador refastelado em Bolama, conheci muitos jangadeiros em Angola, sempre sem pressa, como Salazar gostaria "se visse" ao vivo (ao longe, mas invisível, a partir de São Bento) os turistas a passearem-se de fato e gravata nas aguas cristalinas do Gega, e nas picadas de Angola.

Em 1961, em milhares de quilómetros, havia 60 km de asfalto, imagine-se em 1935!

Salazar não levava o império a sério, nem sequer as ilhas adjacentes, a Madeira e os Açores.

Pessoalmente tive uma prova do pouco que representava o ultramar para o Salazar. Eu como funcionário dos Serviços Geográficos, mandou-me, a mim e a vários colegas, mapear Angola, e no meu espólio, além do equipamento indispensável, ia uma injeção antiofídica vários anos caducada e uma bússula avariada, e tinha que devolver tudo integral como recebi, caso contrário tinha comprar novo.

Assim, como na tropa, de armas pesadas dei apenas 3 tiros de Mauser, e 3 tiros de pistola Parabelum, de treino na recruta. Até que rebentou o terrorismo e tive que comprar farda de furriel, e tudo mudou um pouco.

terça-feira, 4 de novembro de 2025 às 00:52:00 WET


2. Comentário de Luís Graça: conhecer ou não conhecer, eis a questão ?!

Rosinha, eu é que te disse: "Tenho dúvidas sobre o que dizes, que Marcelo Caetano 'conhecia bem o ultramar' "...

De qualquer modo, Rosinha, a pergunta é pertinente: "conhecer ou não conhecer bem o ultramar, eis a questão"...

E já não digo a Guiné ou Timor, mas Angola e Moçambique, as únicas colónias que tinham potencialidades para serem grandes "colónias de povoamento", que era aquilo que interessava às "potências colonizadoras"... Mas parecia não interressar a Salazar nem à meia-dúzia de grandes famílias que dominavam a econonia (a abundância de mão de obra, os baixos salários e a repressão não as obrigavam a modernizar as empresas e os latifúndios).

A questão que levantaste, tu e o Alberto Branquinho, é importante para se compreender as diferenças de visão, pensamento e ação entre Salazar e Marcelo Caetano, especialmente no que toca ao "fim do império" e ao modo como o Estado Novo enfrentou a descolonização e a guerra do ultramar/ guerra colonial... que foi aquela em que tu, eu e o Branquinho participámos. (Na Academia Militar, prefere-se falar em "Guerra de África", esquecendo-se a Índia Portuguesa, Timor...)

Disseste tu, Rosinha: "Caetano foi ministro das colónias, com visita prolongada às colónias, e tinha ideias bem claras, e opostas ao pensamento de Salazar"...

Eu sei que és um leitor apaixonado da história do nosso país, e atento ao que se escreve e se publica sobre o período do Estado Novo e em especial sobre a colonização e a descolonização da "menina dos teus olhos", que era Angola... (Descolonização que foi, estamos os dois inteiramente de acordo, uma tragédia imensa, para todos; a história poderia e deveria ter sido escrita de outra maneira.)

Claro que entre Salazar e o seu sucessor político (e que chegou a ser o seu "delfim") havia diferenças substanciais na maneira de ser, pensar, sentir, estar, falar e fazer... Substanciais mas não antagónicas...

Um era ruralista, provinciano, nacionalista, conservador, autoritário-paternalista, admirador e Mussolini; o outro era industralista, tecnocrata, luso-tropicalista, europeizante, paternalista-autoritário... 

Ambos eram professores, brilhantes, um de Coimbra, outro de Lisboa, um "fiscalista", outro "administrativista"... Ambos governaram em ditadura, obrigaram-nos a fazer uma guerra
inútil, desgastante e estúpida e perderam o comboio da História...

Afinal, "a solução na continuidade", com Marcello Caetano, acabou por nos levar a um beco sem saída, com o regime alienando o apoio (que era lhe vital) das Forças Armadas.

Eu também tenho dúvidas quando alguém me diz que Marcello Caetano "conhecia bem o ultramar"...

Seguramente que conhecia melhor que o Salazar, o qual que nunca sujou as botas de elástico com a terra vermelha de África, nunca lá foi, de resto, nunca saiu praticamente do país.

Caetano fez um périplo pelo Império (África Ocidental) em 1935 com estudantes, um cruzeiro turístico-cultural; foi comissário nacional da Mocidade Portuguesa (1940–1944); em 1945, realizou uma longa viagem a África, visitando territórios como Angola e Moçambique, além de se deslocar à então União Sul-Africana, na qualidade de minisro das Colónias (1944–1947); em 1969, fez uma visita oficial aos territórios em guerra (Guiné, Angola e Moçambique).

Marcello Caetano tinha a obrigação de conhecer melhor o Ultramar português, e nomeadamente África... Muito melhor do que Salazar, por muito bem "informado" que este pudesse estar através da leitura de dossiês, relatórios, reportagens, da audição de testemunhos, do visionamento de filmes (embora fosse pouco cinéfilo), etc.

De facto, a relação pessoal, afetiva, emocional e intelectual de cada um com o Ultramar é uma chave interpretativa fundamental.

Salazar não era um "africanista", como tu, Rosinha, o foste... E tantos outros a que mais tarde chamaremos, impropriamente, "retornados" (porque já nascidos em África ou lá crescidos e educados, desde pequeninos).

Tenho amigos/as nascidos/as em Angola... Angola continua a ser a sua "pele", a sua "idiossincrasia", a sua" cultura", a sua "musiquinha", as suas "comidinhas", etc.... independentemente da sua cor... Temo-los aqui no Blogue, a começar por ti, pelo Patrício Ribeiro, etc.

Marcello, intelectualmente, sim, era um "africanista" (o termo é extramente ambíguo), mesmo nunca lá tendo vivido... E mais: era um adepto do luso-tropicalismo, formulado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freire...

Era um "académico", que veio do "downstairs" (pai sargento), apanhou o ascensor social... Por mérito próprio, sem dúvida. Tal como os seminaristas Salazar e Cerejeira. Nenhum deles nasceu em berço de ouro. E, no fundo, os três desprezavam as elites (económicas e sociais).

Vejamos algumas diferenças entre os dois homens a quem calhou a "batata quente" da gestão do fim do império (ou fim de "ciclo histórico") mas que fizeram como a avestruz, enterraram a cabeça na areia. Física e simbolicamente. Julgo que é assim que a História os irá julgar, daqui a 50, 100 anos... (No fundo, líderes cegos que conduziram um povo de cegos quase até ao abismo, tal como o Dom Sebastião ...)

(i) Salazar: o império “abstrato”, com a cabeça, 
tronco e até membros (!)... no Terreiro do Paço 
(e no Palácio de São Bento)

O facto de nunca ter saído de Portugal continental (com exceção de algumas deslocações curtas dentro da Península) diz muito... E de Portugal, o que é que ele conhecia ? Nem sequer a Madeira ou os Açores... E nunca foi ao Pulo do Lobo, como o prof Cavaco Silva.

É verdade que no seu tempo, no seu auge, ainda as viagens não eram rápidas nem cómodas...E as estradas mal começavam a ser alcatroadas.

E depois, bolas, o raio do império ficava longe, bem longe: do Minho a Timor eram 20 mil quilómetros de distância, um mês de barco... Tudo somado eram mais de dois milhões de quilómetros quadrados, coisa que fazia bem ao ego do Zé Povinho (mesmo que este não soubesse nada de geografia, onde ficava Buruntuma, o rio Quanza ou a ilha de Ataúro, etc).

O império era uma construção abstrata, ideológica e simbólica, não uma experiência vivida. Para Salazar, Angola e Moçambique não tinham cheiros, sabores, cores, lama, sangue, mijo, esperma, suor, lágrimas, drama, comédia, tragédia... Só as conhecia do mapa dos geógrafos (e dos mapas da contabilidade publica).

Salazar via o império como um "instrumento de legitimação nacional", um "desígnio da providência" (logo, do domínio do sagrado, inalienável), um eixo da “unidade pluricontinental e plurirracial" que dava grandeza ao Estado Novo e a Portugal no seio das Nações.

Era, todavia, uma "herança histórica", um "património", cuja manutenção era dispendiosa, para a sua contabilidade de perito em finanças... Era um "luxo", caro... Era uma "amante", cara...

Daí a política colonial de Salazar ser "fortemente doutrinária, ideológica e centralizadora", reforçando-se, com a propaganda, a falsa ideia da "missão civilizadora", fazendo -se tábua rasa do passado das civilizações africanas (e outras), recusando-se quaisquer concessões à autonomia dos povos, índigenas, colonos e assimilados...

A Exposição do Mundo Português, em 1940, foi a sua coroa de glória. E depois do que viu, não precisava mais de ter a maçada de ir a África e à Ásia, "perder tempo e dinheiro"...

 O branco de Angola, como o Rosinha, seria sempre um português de 2ª... Tal como os portugueses da metróple, tirando a elite dirigente e a classe dominante, eram cidadãos de 2ª classe (e as mulheres de 3ª classe).

Salazar nunca viu, ao vivo, "in situ", uma roça de cacau, uma fazenda de café, um plantação de algodão ou de chá, um campo de mancarra, uma bolanha, uma tabanca, uma bajuda de mama firme, um régulo, um soba ou um liurai, um doente de paludismo ou da doença do sono, uma mina da África do Sul (para onde se mandavam os desgraçados dos moçambicanos)...

Nem sequer um leão ou um elefante ao vivo (a menos que tenha ido ao Jardim Zoolófgco de Lisboa, o que eu até duvido...).

Salazar era um ruralista de Santa Comba Dão, um provinciano de Coimbra, e, aqui, enquanto pôde, travou os impulsos de modernização e industrialização dos "tecnocratas" do regime, de Lisboa, como Ferreira Dias, Marcello Caetano, etc.

(ii) Marcelo Caetano e a experiência 
direta ou indireta do Ultramar

Marcello, além da sua viagem turístico-cultural em 1935 às colónias do "Ocidente" (e repare-se que até 1951 a palavra "colónias" fazia parte do discurso dominante, da realidade económica, jurídica, administrativa e política, sem quaisquer complexos!), foi ele próprio Ministro das Colónias (1944–1947), num período ainda marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelo início do fim dos "impérios coloniais", tal como eles foram brutalmente desenhados, a régua e esquadro, na Conferência de Berlim, 60 anos antes, pelos ingleses, franceses, alemães, esses, sim, os verdeiros colonialistas, as três grandes potências europeias da 1ª era do capitalismo industrial. Conhecia relativamente bem Angola e Moçambique.

Caetanto era um jurista e, como tal, interessou-se pelo direito colonial, fez trabalhos sobre a administração colonial, etc. Mas estava habituado a "mudar por decreto". Como os colonialistas europeus que desenhavam territórios a régua e esquadro.

Estava informado, e no início da década de 1960 era um dos intelectuais ("orgânicos") do regime que percebia a inevitabilidade das mudanças... e também conhecia as vulnerabilidades do império e do Portugal macrocéfalo, em vias de desenvolvimento acelerado.

Deve ter feito uma análise de tipo SWAT, dos pontos fortes e fracos de Portugal e do império de pés de barro, ameaças e oportunidades...As ameaças eram muitas, e não apenas exógenas, vindas de fora, mas também endógenas, vindas de dentro...

As eleições de 1958 (e o "terrorismo" em Angola, em março de 1961, e depois o "desastre" da Índia Portuguesa, em dezembro desse ano horrível para todos nós) fizeram soar as campainhas para os homens do Estado Novo (pelos menos para os mais lúcidos, como Marcello Caetano, Adriano Moreira, Correia de Oliveira, Teotónio Pereira; e do lados dos militares, Botelho Moniz, Costa Gomes...).

E nada seria depois como dantes, quando Portugal se abre, economicamente, ao exterior, com a adesão, ainda em 1960, à EFTA (a Associação Europeia do Comércio Livre). Aí Salazar, que tinha horror, não apenas ao "comunismo" soviético como ao "capitalismo" americano e à sua "democracia liberal", perdeu o controlo dos acontecimentos...(se é que não perdera já antes, em 1945, com a vitória dos Aliados ).

(iii) O pós-salazarismo e a "evolução 
na continuidade"

A partir de 1968, sentado na cadeira de São Bento, manietado pela extrema-direita do regime e com um guerra cada vez mais "feia" e impopular em Angola, Guiné e Moçambique, Caetano inventou a política de “evolução na continuidade”, as "conversas em família" e a "cosmética reformista", mantendo embora o fomentismo, o desenvolvimentismo, enfim, o esforço da modernização da economia e da sociedade portuguesas... O país crescia a um ritmo que dava para ir pagando a guerra...até 1973 (a par das remessas dos emigrantes em França e na Alemanha).

Em África, a palavra de ordem era: 

 (i) manter a defesa do império, a todo o custo;
 (ii) desenvolver demográfica e economicamente os territórios; 
 (iii) abrir-se ao capital estrangeiro; (iv) modernizar a administração ultramarina...

Demasiado tarde: o falhanço das tímidas reformas políticas do marcelismo (a fugaz "primavera política") e o contexto internacional (ONU, OUA, guerra fria, luta armada na Áfria Austral, apartheid, crise petrololífera de 1973, a primeira grande crise do capitalismo pós-guerra, etc....), vieram condenar-nos definitivamente "ao orgulhosamente sós", ao ostracismo internacional, e inviabilizar qualquer experiência de descolonização gradual dentro do quadro do regime (como se viu na Guiné, com Spínola)...

Acredito que ele, Marcello Caetano, tinha também uma relação emocional e intelectual forte ao "Ultramar português"... O que terá também contribuido para bloquear, a par do travão da extrema direita do regime, qualquer tentativa de ensaiar ou apoiar soluções políticas que levassem a médio e longo prazo a uma progressiva autonomia dos territórios ultramarinos (como pretendia Spínola em "Portugal e o Futuro") e depois a uma verdadeira descolonização em que todos ganhassem...

Prisioneiro dos mitos imperiais, paralisado pelos constrangimentos da realidade, preferindo o suicídio coletivo do exército na Guiné à perda das"joias da coroa" (Angola e Moçambique), Marcello Caetano revelou-se um líder fraco, deixou-se cair, não fisicamente da cadeira, mas politicamente na secretária da inércia trágica, esticando a corda da guerra até 1974 (o seu annus horribilis). Morreu no exílio, no Brasil, a fazer aquilo de que gostava, que era dar aulas de "direito administrativo".

Reconhecido como o "pai" do direito administrativo moderno portugues, importou e adaptou as metodologias da ciência jurídica europeia (sobretudo francesa, alemã e italiana) para erguer um edifício conceptual lógico, claro e articulado. Crou uma escola, deixou discípulos.

Mas o seu direito administrativo não deixou de refletir formalmente a matriz ideológica do regime corporativo e autoritário, que ele serviu, de alma e corção. Mais: foi útil para enquadrar legal e ideologicamente a administração colonial e o conceito de "Portugal pluricontinental e multirracial", sustentando juridicamente a presença portuguesa em África e a negação da autodeterminação dos territórios e povos ultramarinos. (**)

____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 2 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27379: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte I: um grande evento social e político

(**) Último poste da série > 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28235: Fauna e flora (30): O decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar, não é apenas um regulamento "colonialista" da caça, mas sim um diploma pioneiro (e premonitório) sem o qual os guineenses não teriam hoje Parques Nacionais como os do Cantanhez, João Vieira e Poilão (marinho), Ilhas de Orango, ou os parques naturais como os dos Tarrafes do Rio Cacheu ou das Lagoas de Cufada , ou o Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (corredor transfronteiriço)

 

Angola > c. anos 30 > "A Exma. Esposa  do Coronel Félix montada num búfalo-pacaça, que, minutos antes, ela própria abatera a tiro de rifle"  (Joaquim António da Silva Félix era ofcial do exército, coronel, industrial, agricultor e publicista, dono da fazenda Glória, colaborador do Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, que congregava parte da "intelligentsia" do colonialismo republicano, radicada no Brasil)

Fonte: Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, nº 8, janeiro e março de 1934, pág. 35.

 


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Primatas do Cantanhez: o "fatango" (macaco-fidalgo)... Desenhado nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento, em Iemberém. (Para saber mais, ver  Guia_Mamiferos_Cantanhez_web-res_2017.pdf .)

No Cantanhez, há  o macaco fidalgo vermelho (Piliocolobus badius).  e o  macaco fidalgo preto (Colobus polykomos). Em crioulo, ambos são fatango.

Nomes locais, para o macaco fidalgo vermelho: Mane (nalu) | Nhandjo (fula) |  Tugdu-hanz (balanta).

Nomes locais para o macaco fidalgo preto: Madisom/Dossé (nalu) | Bando (fula) | Tugdu-mon (balanta).



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 > A "onça" [leopardo-africano], um animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Era abundante em tempos, foi sobrecaçada, por causa da beleza da sua pele (e não só:  metia-se onde não devia, por exemplo no perímetro armadilhado dos nossos aquartelamentos)... E hoje o seu habitat vai-se degradando... 

Fotografia de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de março de 2008).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Decreto nº 40 040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar. Anexo I:  Animais cuja caça é proibida.


1. Julgamos que é a primeira lista, aprovada por diploma legal, proibindo a caça de certas espécies animais protegidas nos territórios ultramarinos, de Cabo Verde a Timor... Na Guiné,  contemplam -se, pelo menos, 16 espécies de mamíferos e 11 de aves (incluindo os abutres ou jagudis):

Este diploma merece ser visto como um marco histórico . O Decreto n.º 40 040, de 20 de janeiro de 1955, da autoria do Ministério do Ultramar, sob tutela de Manuel Sarmento Rodrigues (1899-1979), é provavelmente o primeiro grande diploma português que estabelece uma política sistemática de proteção da natureza e regulamentação da caça em todas as províncias ultramarinas.

O contexto é importante. Estamos em 1955, numa época em que a palavra "ecologia" praticamente não fazia parte do discurso político. A preocupação dominante era a gestão cinegética, mas o diploma vai muito além disso: cria reservas, coutadas, fiscalização, serviços veterinários especializados e comissões de caça, prevendo inclusivamente investigação científica e medidas de conservação da fauna. 

Para a época, é um documento bastante avançado. Pioneiro. E premonitório.

No preâmbulo e no articulado, a fauna é apresentada como um património que importa conservar, fomentar e aproveitar racionalmente, evitando a sua destruição indiscriminada. A proteção das espécies aparece ligada tanto ao interesse científico como ao interesse económico e ao equilíbrio dos ecossistemas.

Importa, todavia, sublinhar que, na década de 1950, o regime do Estado Novo enfrentava já crescentes pressões internacionais em relação aos seus territórios ultramarinos. 

Ao mesmo tempo, no plano da conservação, consolidava-se a diplomacia ambiental europeia em África.

 O preâmbulo do diploma refere explicitamente a Convenção de Londres de 1933 (focada na preservação da fauna e flora no continente africano) e a Conferência de Bukavu de 1953.

Com este decreto, o Estado português procurava modernizar a sua legislação ambiental nas colónias (que passaram a "províncias ultramarinas" em 1951) para se alinhar com as recomendações das potências coloniais vizinhas  (Grã-Bretanha, França e Bélgica) e demonstrar uma gestão "científica" e "civilizada" do território.


No caso da Guiné, a lista das espécies totalmente protegidas revela bem o conhecimento zoológico existente na época.
 
Mamíferos protegidos na Guiné

Entre as 16 espécies de mamíferos figuram espécies emblemáticas:
  • pangolim;
  • urso-formigueiro (aardvark);
  • chimpanzé;
  • lémure;
  • macaco-de-nariz-branco (macaco bijagó);
  • macaco-fidalgo;
  • gato-almiscarado;
  • leopardo ("onça");
  • elefante-da-floresta;
  • manatim (ou peixe-bice);
  • cabra-grande (bongo);
  • elande-gigante;
  • oribi;
  • palanca-vermelha;
  • sitatonga;
  • ancon (alcélafo-maior).
O anexo identifica estas espécies pelo respetivo nome científico e pelo nome local ( crioulo), e indica também a sua distribuição por províncias ultramarinas: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, Índia, Macau  e Timor.

É interessante notar que muitas destas espécies continuam hoje classificadas como vulneráveis ou ameaçadas (ou até extintas, no território).

Também a lista das 11 aves é reveladora:
  • abutres (jagudis);
  • andorinhas;
  • calaus;
  • cegonhas;
  • estorninhos;
  • galinha-azul;
  • garças-brancas;
  • marabus;
  • papagaio-cinzento;
  • pavão-gigante;
  • pratíncolas.

Há aqui algumas escolhas curiosas:

(i) os abutres, por exemplo, eram protegidos numa época em que, para muitas populações rurais, eram vistos apenas como aves necrófagas, desprezíveis, sem valor;  já sabíamos, nós, os militares,  que desempenhavam um papel sanitário fundamental na eliminação de carcaças e no controlo da disseminação de doenças;

(ii) o papagaio-cinzento africano é hoje uma das aves mais ameaçadas pelo comércio ilegal;

(iii) o pavão-gigante africano continua a ser uma espécie rara das florestas húmidas da Alta Guiné;

(iv) quanto à galinha-azul (Guttera edouardi pallasi), trata-se de uma ave florestal de grande interesse biogeográfico.

2. Um diploma pioneiro... 

Visto à distância de setenta anos, impressiona encontrar disposições que hoje associaríamos à biologia da conservação, denotando uma visão "integrada e sistémica" do problema.

De facto, uma das grandes inovações deste diploma para a época foi integrar, num único corpo legal, a proteção do solo, da flora e da fauna. 

O preâmbulo justifica abertamente essa opção: «pretendeu-se traduzir na lei a unidade que no campo da natureza existe entre o solo, o seu revestimento vegetal e os animais selvagens».

 Criou-se também em cada província um Conselho de Protecção da Natureza (gerido sob a alçada dos governadores) e dividiram-se as zonas protegidas em parques nacionais, reservas naturais integrais, reservas parciais e reservas especiais, a par de:
  • fiscalização especializada;
  • estudos científicos sobre a fauna;
  • controlo das migrações;
  • combate às doenças da fauna selvagem;
  • repovoamento cinegético;
  • estações experimentais de domesticação;
  • limitação do abate de espécies protegidas.

Naturalmente, havia também uma lógica utilitária e colonial: conservar para permitir um aproveitamento futuro dos recursos naturais. Não era ainda uma conservação baseada na biodiversidade enquanto valor intrínseco. Também não sabemos como, na prática, no terreno, o diploma foi implementado...

Todavia, para quem, como nós, viveu na Guiné ( e alguns, em Cabo Verde, Angola ou Moçambique)  dois anos (ou mais),   esta lista desperta inevitavelmente memórias.

É curioso verificar que os jagudis, tantas vezes lembrados nas histórias de humor de caserna (quase sempre associados às lixeiras das tabancas e dos nossos aquartelamentos) figuravam afinal entre as aves legalmente protegidas desde 1955. 

A imagem popular do jagudi como simples "almeida" (=varredor do lixo) escondia a sua enorme importância ecológica como necrófago.

Também impressiona pensar que espécies como o elefante-da-floresta, o chimpanzé, o manatim ou o pangolim, relativamente bem conhecidas na Guiné dos anos 1950, sofreram depois uma forte regressão devido à caça, à destruição do habitat e ao crescimento demográfico. 

Em suma, o Decreto n.º 40 040 representa um documento pioneiro na história da conservação da natureza nos territórios portugueses de África. Embora concebido numa perspetiva colonial e cinegética, antecipou em vários aspetos princípios que só décadas mais tarde se tornariam correntes na política internacional de conservação da biodiversidade. 

A lista de espécies protegidas da Guiné constitui, além disso, um valioso retrato da riqueza faunística do território em meados do século XX.

3. Um diploma também premonitório...

Com a guerra (1961/74), o elefante-da-floresta deixou de aparecer. Mas pode não ter desaparecido completamente da Guiné-Bissau, como aconteceu com o leão.

Durante muitos anos pensou-se que sim, que o elefante-da-.floresta tinha desaparecido mas trabalhos de campo realizados entre 2020 e 2022 confirmaram a sobrevivência de um núcleo minúsculo, provavelmente de apenas alguns indivíduos, na região fronteiriça do sul, entre o Cantanhez, o Corubal e a Guiné-Conacri. É uma das populações mais pequenas e isoladas de toda a África Ocidental, sendo vital a criação e/ou a manutenção de um corredor transfronteiriço ( como é o caso do Complexo Dulombi-Boé - Cheche).

De qualquer modo, há muito que o elefante deixou de fazer parte da paisagem guineense. Um caçador profissional dos anos 1950 ainda podia sonhar encontrar um elefante; hoje seria um acontecimento absolutamente excecional. Os miúdos das escolas do poderão conhecê-lo, mas só para nos livros.

Quanto às outras espécies, a evolução destes 70 anos é dramática.

(i) Praticamente desaparecidas ou funcionalmente extintas
  • Elande-gigante (Taurotragus derbianus): muito provavelmente desapareceu da Guiné-Bissau ainda no século XX; os últimos registos credíveis são antigos e admite-se que apenas aparecessem animais errantes vindos do Senegal ou da Guiné-Conacri;
  • Bongo ("cabra grande"): era uma espécie típica das florestas húmidas; hoje é considerado extinto na Guiné-Bissau;
  • Leopardo ("onça"): sobrevive apenas através de relatos ocasionais; não existe confirmação recente de uma população viável;
  • Palanca-vermelha e sitatonga: sofreram um colapso muito acentuado; sobrevivem, se sobreviverem, apenas em bolsas muito localizadas.

(ii) Espécies muito reduzidas:

  • Chimpanzé: o contrário do que se receava nos anos 1980, não desapareceu; os estudos mais recentes apontam para várias centenas de indivíduos, concentrados sobretudo no Cantanhez e no Boé; o Boé poderá albergar cerca de 700 chimpanzés, e o total nacional ronda aproximadamente 600–1.000 indivíduos, embora as estimativas variem; 
  • Manatim: continua presente nos estuários do Cacheu, Geba, Corubal e Cacine, mas é hoje muito raro devido às capturas acidentais em redes, caça e degradação dos mangais;
  • Pangolim: continua a existir, mas tornou-se muito mais raro por causa da caça para consumo e do comércio ilegal.

(iii) Espécies relativamente resistentes:

  • Macacos (fidalgo, bijagó, patas, babuínos): ainda persistem em várias regiões, embora com densidades muito inferiores às de há meio século;
  • Calaus, garças, marabus e muitos abutres ainda existem, mas algumas populações diminuíram significativamente.

(iv) Porquê esta diminuição drástica da fauna da Guiné-Bissau, em 70 anos ?

Haverá pelo menos umas cinco causas principais, de resto já sobejamente conhecidas: 
  • Caça, primeiro para subsistência e depois para abastecer os mercados urbanos (onde espécies com o macaco-cão, por exenplo, são produto gourmet);.
  • Armas de fogo cada vez mais acessíveis (durante da guerra de independência);
  • Explosão demográfica: a população da Guiné-Bissau passou de cerca de meio milhão de habitantes nos anos 1950 para mais de dois milhões atualmente;
  • Destruição do habitat, especialmente pela expansão dos cajueiros, agricultura itinerante, produção de carvão, abertura de estradas e mineração;
  • Fragmentação das florestas, isolando pequenas populações incapazes de manter diversidade genética.

Em 1955, o legislador protegeu espécies como o elefante, o chimpanzé, o bongo, o manatim ou o pangolim porque já reconhecia que eram raras ou vulneráveis. Setenta anos depois, percebe-se que essa lista tinha um valor quase premonitório: muitas das espécies então protegidas são precisamente aquelas que mais sofreram ou desapareceram da fauna guineense, como se pode ver na comparação a seguir:

Espécie protegida em 1955 | Situação aproximada em 2026
  • Elefante-da-floresta > Restam apenas alguns indivíduos, se a população sobreviver
  • Chimpanzé  > Algumas centenas, sobretudo Boé e Cantanhez
  • Bongo (cabra-grande) > Extinto no país
  • Elande-gigante  > Extinto no país
  • Leopardo  > Eventualmente residual, sem população confirmada
  • Manatim > Muito raro
  • Pangolim > Em forte declínio
  • Papagaio-cinzento  > Em declínio devido à captura e perda de habitat

Essa comparação tem ajuda-nos a valorizar, a nós, portugueses e guineenses, a importância histórica, legal e ecológica deste diploma do "colonialista" Sarmento Rodrigues e a a sua equipa: c
omo é que  como um documento colonial de 1955, pensado para regular a caça, acabou por se transformar involuntariamente num testemunho da extraordinária riqueza faunística que a Guiné-Bissau possuía antes da grande transformação ecológica da segunda metade do século XX.

E mais: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a delimitação posterior de coutadas e áreas de proteção na Guiné,  cujos ecossistemas viriam mais tarde a sofrer forte impacto com o eclosão da guerra colonial / guerra de libertação (1961/74), mas cujas bases de inventariação serviram de referência para a rede de Parques Nacionais e Naturais da Guiné-Bissau pós-independência, geridos pelo IBAP - Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas.

(Continua)

Pesquisa: LG + Blogue + IBAP + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini Google)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links: LG.
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28133: Documentos (66): Para a história da administração civil ultramarina: "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província!"... Despacho (do Governador ?) a uma nota do administrador António Augusto de Barros, vítima de agressão, em Pete, chão mancanha, em 8/4/1920


Governo da Província da Guiné Portuguesa | 5ª Circunscrição CFivil (Brames) | Secretaria dos Negócios Indígenas | 2ª Secção | Ano de 1920 | *Processo nº 41 | Objeto: Agressão ao adminstrador da 5ª circunscrição civil (Brames), António Augusto de Barros, e assuntos que a mesma se prendam 

(A letra manuscrita, lê-le: "Concessão de terreno, Okika de Sá")


Governo da Província da Guiné  | Administração da Circunscrição Civil dos Brames |  

Bula, 9 de abril de 1920 
À Secretaria dos Negócios Indígenas   
Bolama

Registo de entrada: Governo da Província da Guiné Portuguesa | 3ª Secção  Nº 0717 | 17 abr 1920 | Secretaria Geral | Procº nº 9/1920

Despacho (ao alto, em letra manuscrita): 

Mo mo "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província. 24-4-920.  


Para conhecimento dessa Secretaria e devidos efeitos, tenho a honra de comunicar o seguinte:

Em 1917, por informação que obtive, os indígenas da povoação de Pete reclamaram ao então administrador interino desta circunscrição, Eugénio Veloso da Veiga, a entrega de uns terrenos destinados à cultura de arroz, os quais, segundo se afirma, desde há muitos anos eram cultivados pelo concessionário João Gomes Okika [de Sá] que os adquiriu por compra ao antigo régulo do Brame Grande, Muncuruco. 

Aquele, porém, receando que as insistentes reclamações dos indígenas conseguissem  tirar-lhe uns terrenos que só a ele pertenciam, quis pôr termo a essas reclamações apresentando, 



para esse efeito, o documento da compra e o alvará da sua concessão na qual supunha que entravam os terrenos em litígio e, ainda, para maior segurança, requereu uma nova medição.

 Esta, porém, tendo sido feita por pessoal competente, veio demonstrar, muito ao contrário do que ele, Okika, imaginava, que as terras não tinham entrado nos 200 hectares da concessão.

Restava-lhe, pois, a última prova, além da testemunhal,  o documento de compra, mas este não o pôde apresentar por lhe ter desaparecido juntamente com outros papéis e dinheiro num incêndio que dias antes houvera na sua casa.

Muito desanimado, teve que assistir à posse que foi dada aos mancanhas de Pete, das suas bolanhas, mas ainda convencido que lhas restituiam logo que ele pudesse provar que desde há

2.

muitos anos, essas bolanhas eram por ele cultivadas e que, para as desbravar e preparar para a cultura de arroz, tinha gasto algumas centenas de escudos, aproveitou as disposições da Portaria nº 588, de 5 de dezembro findo, requerendo a S. Exª o Governador a  mera posse dessas terras. 

Seguindo para Bolama a fim de tratar do assunto, de lá voltou com umas tabuletas para a demarcação das mesmas, pedindo-me para eu assistir à sua colocação.

Anui ao pedido para evitar um conflito entre os mancanhas de Pete e o Okika, o que, certamente, se dava logo que eles vissem aquele a colocar as referidas tabuletas.

Seguindo, pois, para aquela povoção às 5 horas da manhã do dia 8 do corrente, mandei chamar os indígenas para lhes dizer que as tabuletas não representavam para eles nenhum prejuízo e que eu muito desejava que entre todos houvesse um entendimento sobre a futura cultura das bolanhas, afim de se pôr termo a rivalidades e a questões que, a todo o transe, eu não permitiria.

Ouviram-me muito desconfiados e, um tanto exaltados, pediram-me para os

acompanhar a fim de eu ver o terreno demarcado pelo pessoal da agrimensura e também verificar que as bolanhas eram só deles e não do Okika. 

Para ali me dirigi no intuito de examinar essa demarcação e verificar se os marcos tinham ou não sido deslocados do seu primitivo lugar.

No momento, porém, em que eu, a cavalo, examinava uma dessas tabuletas, fui agredido por um indígena de nome [ espaço em branco ] o qual, devo confessar, não matei a tiro em seguida à agressão, porque as nossas leis não permitem que uma autoridade civil, quando gravemente ofendida por um indígena, execute imediatamente esse indígena para que o respeito e o prestígio sejam sempre, e através de tudo, bem mantidos.

Limitei-me, pois, a defender-me o melhor que pude, arrancando-lhe das mãos o cacete com o qual continuava a ameaçar-me e apenas o castiguei com o mesmo o cacete. O castigo, porém, foi pequeno mas... Dura Lex... Sed Lex...

Encontra-se  aqui, sob prisão, o indígena que me agrediu, à disposição de S. Exª o Governador, e, por intermédio dessa Secretaria, eu peço licença ao mesmo Exmo. Sr. para me dispensar de propor a penalidade que lhe deve ser imposta.

3.

Devo ainda acrescentar que, se a falta de respeito praticada por esse indígena é grave, a altivez desrespeitosa como  os indígenas me falaram, fazendo até ameaças, não é a meu ver menos grave. 

Mas, infelizmente, não é só nos Brames que se nota a pouca consideração e a falta de respeito que os indígenas têm, ultimamente, pelas ordens da autoridade; em outras circunscrições o mesmo está acontecendo. 

Dão-se ordens para os indígenas trabalharem nas estradas, recusam-se ou fogem. O comércio precisa de trabalhadores, não os encontra porque eles preferem morrer de fome ou afogados em aguardente do que trabalhar; e,  não tendo necessidades, têm no entretanto abundância de dinheiro e este não se esgota rapidamente porque o álcool, ultimamente, tem faltado na Província.

Finalmente, sou de opinião que os indígenas estão carecendo, presentemente, de castigos muito severos e que as autoridades administrrativas devem ter poderes mais latos para poderem proceder com o máximo rigor nos casos em que seja preciso mostrar e manter bem íntegros o respeito e os poderes das mesma autoridade Não são as deportações para os Bijagós que os


incomoda, como eles de resto confessam: as multas, pouco ou nenhuma diferença lhes fazem - há dinheiro em quantidade -  e na aplicação de castigos corporais todo o cuidado é pouco porque as leis da metrópole, tendo aplicação nos julgamentos indígenas, aparece nos Tribunais um ou outro advogado para defender e exigir uma condenação severa para os administradores por terem abusado da sua autoridade.

Concluindo, são estas as considerações que tomo a liberdade de levar ao conhecimento dessa Secretaria, informando-a igualmente que o indígena em questão também já faltou ao respeito ao meu colega Eugénio Veloso da Veiga quando ele aqui esteve como administrador interino, tentando agredi-lo, tendo o referido administrador que o mandar amarrar e conduzir para esta Administração onde o mesmo se conservou algum tempo sob prisão.

O administrador, António Augusto de Barros,

Instituição: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, Bissau

Pasta: 09907.085 | Assunto: Envio de nota da 5.ª circunscrição civil (Brames), respeitante a concessão de terrenos, assinada pelo administrador António Augusto de Barros | Remetente: Secretaria Geral do Governo | Destinatário: Secretaria dos Negócios Indígenas | Data: Sexta, 21 de Maio de 1920 | Fundo: C1.6 - Secretaria dos Negócios Indígenas | Tipo Documental: Correspondencia | Cota Original: C1.6/01.085 

Fonte: (1920), Sem Título, Fundação Mário Soares / C1.6 - Secretaria dos Negócios Indígenas, Disponível HTTP: http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=09907.085 (2026-6-25)
[ Com a devida vénia...]


1. É um documento (de 3 páginas ) interessante para que se conhecer as "agruras" da vida de administrador de circunscrição na "província da Guiné Portuguesa", mal acabada de "pacificar" em plena República..

Esta "nota" do administrador António Augusto de Barros, da 5ª Circunscrição Civil (Brames), não é um simples "fait-divers",   tem um enorme valor documental para a historiografia da presença portuguesa em África e, em especial, para a história do  colonialimo na Guiné.

Não temos dados biográficos deste administrador, possivelmente de origem cabo-verdiana. Mas sabemos por onde andou nos anos de 1920, de acordo com registos da plataforma Casa Comum (que disponibiliza a reprodução e descrição de documentos custodiados pela Fundação Mário Soares e Maria Barroso, neste caso do .Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), Bissau):

  • Administrador da 13.ª circunscrição civil (Bijagós) em 1924;
  • Administrador da circunscrição civil de Buba em 1928;
  • Intendente, Intendência de Bolama, em 1930.

É contemporâneo de Eugénio Veloso da Veiga, outro administrador colonial português na Guiné, com atividade registada nas décadas de 1920 e 1930, de acordo coma a mesma fonte (INEP / Casa Comum):

  • Administrador de Bubaque (Arquipélago dos Bijagós): documentos entre 1927 e 1928 registam a sua correspondência com a Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas; as suas funções incluíam a cobrança do imposto de palhota pelas ilhas e o envio de mapas de importação de bebidas;
  • Administrador de Gabu, em  1933 e 1934; 
  • Administrador da Circunscrição Civil de Bafatá em 1934;
  • Membro da Comissão de Limites (1934):  a 25 de janeiro de 1934, integrou a comissão portuguesa de representação do governo da Guiné Portuguesa que se reuniu com as comissões da Guiné Francesa na região de Catabá, para definir a fronteira.


Augusto de Barros
(1917-1969). Arquivo da família.
Não sabemos quando terminou a  carreira do António Augusto de Barros.. Mas há mais nomes de apelido Barros, ligados à administração ultramarina na Guiné: por exemplo, António Augusto de Barros Júnior, bem como Augusto de Barros.  É possível que tenham alguma relação de parentesco. 

Este último, Augusto de Barros,  nasceu em 1 de março de 1917 e faleceu em 21 de maio de 1969.  Foi administrador do concelho de Nova Lamego (1960/69). Deixou em vida um primeiro volume de  um livro inacabado em língua fula, que ele intitulou “Rudimentos da Língua Fula” e escreveu no final da década 1950 enquanto chefe de posto de Piche. 

O seu filho, António Augusto de Jesus Ferreira de Barros (nascido em Piche, em 17 de setembro de 1958) publicou em coautoria o livro "Rudimentos da língua fula: fúlbé rímbé ê djiábé = fulas forros e pretos" (Lisboa, Edições Nimba, 2023, 223 pp.).

Mas voltando ao administrador António Augusto de Barros, acrescente-se que à data da "nota" acima transcrita, era Govcrnador da Guiné Henrique Alberto de Sousa Guerra (de 31 de maio de 1919 a 16 de Junho de 1920).

Será dele o despacho, seco e cru, "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província. 24-4-920" ?.



Durante a República (1910-1926), a taxa de "turnover" dos governadores da Guiné era altíssima: praticamente o governador mudava todos os anos (ou a cada governo da Metrópole)...

Enfim, não somos especialistas da historiografia da presença portuguesa em África, e muito menos da história do nosso colonialismo.  Talvez o nosso especialista, amigo, camarada e colaborador permanente do blogue, o Mário  Beja Santos, queira e possa acrescentar algo mais sobre este caso e sobre esta época, bem co.o sobre o papel da Secretaria dos Negócios Indígenas.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, notas, parênteses retos, links e título: LG)
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  25 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28131: Documentos (65): A administração civil ultramarina

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

 Imagem: A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. E se os portugueses de Quatrocentos tivessem dado ouvidos ao "velho do Restelo" ? 

Nunca teriam descoberto o "caminho marítimo para a Índia"...
Nunca teriam aberto a "autoestrada" para o Novo Mundo...
Nunca teriam conhecido o "Cabo das Tormentas"... 
Nem nunca o teriam rebatizado como "Cabo da Boa Esperança"...
Nunca teriam chegado ao Japão, ao Brasil, à Califórnia, à Austrália... 
Nem o  pobre do Camões  teria sonhado sequer escrever "Os Lusíadas"...

E o nosso el-rei Dom João II ?  Esse, nunca teria seria o "Príncipe Perfeito"
E muito menos o Dom Manuel I,  a ter reinado, seria  o "Venturoso...

Nem eu nunca teria ido passar umas "férias" à Guiné, à pala do Estado...

Nem, por  certo, teria havido a República, o Estado Novo, o 25 de Abril...
Nem sei se Portugal ainda existiria hoje... 
(era mais provável que fosse uma província do Reino das Hespanhas
e os portugueses falassem "portunhol")...

Esta é a uma "caricatura" da  história que  não se escreveu... 
Foram os portugueses os primeiros a dobraram o "Cabo das Tormentas"
e chegarem  a "Porto Seguro" no Novo Mundo...
Mas bem poderiam ter sido outros!...

Bom,  é um facto que há muito mais gente no mundo a falar português 
do que os portugueses de Portugal...
(aqui, o Portugal europeu representa só 3% do universo dos falantes lusófonos).

Mal ou bem, caros leitores,  é a história, a nossa história...

PS - E eu, e eu, e nós, e nós... o que é que fazemos aqui, neste blogue ?!


A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

A obra prima do pintor académico Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, 1832 — Rio de Janeiro, 1903).  A tela é um hino ao ecumenismo, ao retratar a chegada pacífica da armada de Álvares Cabral a Porto Seguro, no sul da bahía, e a celebração da primeira missa, no Novo Mundo, assistida pelos habitantes locais, tupiniquins, pertencentes á nação tupi... Os descendentes dessas hstóricas testemunhas da chegada dos portugueses ao Novo Mundo não deverão ultrapassar hoje um milhar...

"A primeira missa no Brasil foi celebrada por Dom Frei Henrique de Coimbra no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. Foi um marco para o inicio da história do Brasil e descrita por Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal, D. Manuel I (1469-1521), dando conta da chegada ao Brasil, então Ilha de Vera Cruz, pela armada de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia" (Fonte: Wukipédia).
__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28107: Humor de caserna (274): O pé de Salazar e o de Eusébio: "uma boa história para eu contar aos rapazes" (Cilinha) (excerto da sua biografia, por Sílvia Espírito-Santo)

terça-feira, 2 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28066: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (7): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte I

Castanha de caju:  a nova "semente do diabo" ?

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O cunhado do nosso camarada Beja Santos, o professor Dragomir Knapic (1925-2006), especialista em geografia económica,  terá sido um dos primeiros a antever,  em 1964, a  importância da fileira do caju no desenvolvimento agroindustrial da então Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau, a partir de 1974, quando Portuga reconheceu a independência).

É um pequeno trecho, premonitório, de uma "sebenta" sobre a geografia económica da Guiné. Merece ser lido e comentado (*):



Fonte: Excerto, pág. 28, de Dragomir Knapic (1925 - 2006) - "Geografia económica de Portugal : Guiné". (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada). (Sublinhados a vermelho, nossos).


2. Em 1964 haveria penas umas escassas centenas hectares de cajueiros plantados na antiga colónia portuguesa da Guiné, segundo o citado autor. A castanha de caju não era exportada nem tinha interesse industrial na época.  (E muito menos os subprodutos do cajueiro.) Era ainda uma cultura marginal.

O grande ciclo económico colonial assentava sobretudo no amendoim ("mancarra" ou a "semente dio diabo", como lhe chamavamos fulas) (**), no coconote (copra), no óleo de palma, em alguma madeira e em produtos alimentares para consumo interno  (arroz, milho, fundo, jeijão, mandioca, batata doce, inhame,  banana e outros frutos tropicais).

Entre 1960 e 1965, exportou-se em média (segundo os números recolhidos por Dragomir Knapic):
  • Amendoim > 31,4 mil toneladas | 107,8 mil contos  | 3,4 contos por tonelada
  • Coconote > 11,9 mil toneladas | 31,2 mil contos |  2,6 contos por tonelada
  • Óleo de palma > 87,7 toneladas  (1960/63) | 381  contos | 4,3 contos por tonelada
Em contrapartida, a Guiné, que era autossuficiente em arroz, antes da guerra,  exportou em média, de 1956 a 1969, 1,4 mil toneladas, ao preço de 3 contos por tonelada. Com a guerra, passou a importar arroz: 8,9 mil t em 1962: 11,8 mil em 1963; 29,9 em 1964. (Não sabemos a que preço.).

Observ. - Em 1965, um conto (=1000 escudos) seria equivalente a menos de 500 euros a  pre 

3.  O caju existia, mas quase como árvore dispersa, de quintal ("ponta") ou de sombra (na "tabanca"). Tal como a papaia, a banana, o abacaxi, o coco, a manga, a cola, a laranja...  

Qual seria então a produção de caju ? Quantos hectares, quantas toneladas ? E hoje ? Quem teve responsabilidade política na decisão de fazer caju para exportação ? É uma perigosa monocultura... não acautela a segurança alimentar da população guineense.

Não se encontrou um recenseamento agrícola colonial suficientemente rigoroso para dizer quantos hectares havia exatamente em 1964. Mas há alguns indicadores.

Segundo séries estatísticas da FAO, a produção de castanha de caju na Guiné-Bissau rondava apenas as 2  mil toneladas em 1961.

Um estudo histórico refere que as primeiras exportações documentadas ocorreram em 1966, e que nesse período o caju ocupava apenas o quarto lugar entre os produtos exportados, muito atrás do amendoim e do coconote. Em 1970 as exportações eram ainda da ordem das 1,2 mil  toneladas.

Portanto, para 1964, a ordem de grandeza plausível será:

  • poucos milhares de hectares (talvez 2 mil  a 5 mil  ha, mas esta estimativa deve ser tomada com muita prudência);
  • produção anual na casa das 2 a 3 mil  toneladas de castanha;
  • praticamente nenhuma indústria local;
  • peso económico insignificante quando comparado com o amendoim.

Hoje estamos noutra galáxia. A produção recente oscila entre 120 mil  e 200 mil  toneladas anuais, conforme os anos e as campanhas. Em 2024, por exemplo, foram reportadas cerca de 178 mil  toneladas, das quais 163 mil  toneladas exportadas.


A área plantada é frequentemente estimada entre 200 mil  e 250 mil  hectares, embora os números variem conforme as fontes e os critérios utilizados. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos e o caju representa cerca de 90% das exportações



"Mancarra"

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Comparen-se estes números com os da "mancarra" (em 1964):

  • era o principal produto de exportação da Guiné;
  • representava 76% do total (em 1965, um pouco menos: 61%);
  • área cultivada: 100 mil hectares (=25% do total);
  • produção: c. 65 mil toneladas;
  • rendimento médio: 0,65 toneladas por hectare;
  • regiões de maior produção:  Farim, Bafatá e Gabu.

3. Quem tomou a decisão política?

A questão é interessante porque não houve propriamente uma decisão única nem há um "pai do caju".

A expansão começou ainda no final do período colonial, quando a quebra da produção moçambicana abriu espaço no mercado internacional.

Mas a verdadeira transformação ocorreu após a independência.

Os governos do PAIGC, desde a década de 1970, favoreceram a plantação do cajueiro porque:

  • era uma cultura resistente;
  • exigia pouco investimento;
  • dava rendimento monetário rápido às famílias rurais;
  • permitia obter divisas num país com escassas exportações.

Durante os anos 1980 e sobretudo 1990, com os programas de ajustamento estrutural apoiados pelo FMI e Banco Mundial, o modelo consolidou-se: a Guiné-Bissau passou a exportar castanha em bruto, principalmente para a Índia e mais tarde para o Vietname.

Ou seja, a responsabilidade política é repartida entre:

  • os últimos anos da administração colonial, que reintroduziram o produto nos circuitos comerciais;
  • os governos do PAIGC pós-independência;
  • as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial,  FMI) que incentivaram culturas de exportação.

4. Pergunta o leitor: foi um erro?

Não há um resposta  simples. O caju trouxe benefícios reais:

  • rendimento monetário para centenas de milhares de famílias;
  • entrada de divisas;
  • integração de regiões rurais na economia de mercado.

Mas os custos também são evidentes (ambientais, sociais, económicos, alimentares, etc.). Diversos estudos alertam para o avanço dos cajueiros sobre antigas áreas agrícolas e florestais e para a dependência excessiva de uma única cultura de exportação.

O problema maior não  seria tanto o cajueiro em si, mas  o facto de ele ter passado a dominar o sistema agrícola.

Quando o agricultor troca arroz, milho, sorgo, mandioca ou hortas por cajueiros, fica dependente de vender castanha para depois comprar alimentos. 

Se o preço internacional cai ou se a campanha corre mal, a segurança alimentar deteriora-se rapidamente.

A Guiné-Bissau vive hoje uma espécie de paradoxo:

  • exporta quase duas centenas de milhares de toneladas de castanha;
  • mas continua a importar arroz em grandes quantidades.

Há algo de estruturalmente frágil nisto: o país passou de uma dependência colonial do amendoim ("mancarra")  para uma dependência pós-colonial do caju. Mudou o produto, mas não desapareceu a lógica de especialização excessiva.

O desafio seria transformar o caju numa componente importante da economia, sem deixar que ele substitua as culturas alimentares tradicionais nem destrua os sistemas agroflorestais que durante séculos garantiram a subsistência das tabancas. 

Essa é hoje uma das grandes questões económicas e ecológicas da Guiné-Bissau.

(Pesquisa: LG + Knapic (1964) + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

(Continua)

__________________________

Notas do editor LG:

(**) Vd. poste de 7 de abril de 2019 > Guine 61/74 - P19654: (Ex)citações (352): O amendoim ('mancarra'), a semente do Diabo ('Iblissa', em fula) (Luís Graça / Cherno Baldé)