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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

1. Mensagem de 12 de Fevereiro de 2026 do nosso camarada João Crisóstomo, colaborador permanente, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67); relações externas na diáspora lusófona; natural de Torres Vedras; luso-americano que vive em Nova Iorque desde 1977; ativista social, conhecido por causas como Foz Côa, Timor Leste, Aristides Sousa Mendes:

Caro Luís Graca,

O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o dia dos namorados”, é o ‘Dia da amizade”: uma ocasião para contactar os meus amigos, fomentar amizades presentes ou mesmo passadas que precisam de ser alimentadas para não caírem no esquecimento. Amigos e boas amizades são o melhor que a vida me tem proporcionado; e eu quero que eles saibam da minha satisfação em os ter como amigos e da minha gratidão pela amizade que me têm concedido.

Com isto em mente, tentando contactar os nossos camaradas, fiz dezenas de telefonemas para os quatro cantos do mundo, da Holanda ao Canadá, mas mais uma vez com pouco sucesso que, parece, poucos são os que ainda apanham o telefone. Mas mesmo assim valeu a pena: se de alguns já só consegui saber notícias através de familiares, com outros foi uma alegria falar "ao vivo” com o Freitas na ilha da Madeira, o Henrique Matos no Algarve e alguns outros que me deram o prazer de dois minutos para, relembrando coisas, matar as muitas saudades dos tempos em que vivemos juntos. De outros, como do Cherno Baldé, recebi uma resposta que me encheu de alegria. Até o seu número de telefone me enviou! Se ir novamente à Guiné-Bissau não me parece ser mais possível concretizar, vou pelo menos tentar falar com ele um dia destes.

Se quiseres aproveitar algo disto (cortando e editando como achares pertinente)… que este é acima de tudo para "dar sinal de vida" e enviar aos nossos camaradas o abraço virtual que não posso dar pessoalmente. A todos os que lerem este… de coração um grande abraço.

Aliás parece-me que esta esta idéia de chamar “Dia da Amizade” a este dia não é de todo despropositado: "Thank you very much for your kind message in anticipation of February 14, as the Day of friendship”, foi parte da resposta do Sr. Arcebispo Gabriele Caccia, Representante do Vaticano nas Nações Unidas, a quem eu enviei uma mensagem. O facto de Sua Excelência mencionar "February 14, as the “Day of friendship” foi para mim quase um "reconhecimento oficial”…

No que pessoalmente nos diz respeito… não nos podemos queixar: embora sem a força e energia que no passado nos tem proporcionado eventos de maior amplitude, continuamos fazendo o que está ao nosso alcance. Como te disse,  a Vilma e eu fomos no dia 10 ajudar a celebrar (embora com alguma antecipação) o que eu chamo "Dia da Amizade” em vez de ‘dia dos namorados” para abranger toda a gente, mesmo que não tenham nenhuns “valentinos" nas suas vidas, aos “seniors" da nossa rua.

Entre as muitas fotos/memórias lá apostadas nas paredes, encontrei esta foto que junto, tirada em 2018 no dia em que, com o Rui Chamusco que cá estava na ocasião, fomos celebrar o Natal desse ano. As outras fotos foram tiradas neste dia. Como podes ver, a Vilma foi imediatamente absorvida e dominada pelo seu espírito de artista, e sentando-se numa das mesas juntou-se logo aos “seniors" que neste dia participavam numa sessão de arte dedicada à pintura…

Bom, já chega por hoje. Vou tentar mais alguns telefones…
Para ti, Alice, e teus queridos um bem apertado…
dos João e Vilma

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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27667: Efemérides (382): Conforme noticiado oportunamente, os nossos amigos e camaradas, Luís Graça e José Marcelino Martins, foram agraciados, respectivamente, com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro) e Medalha de Honra ao Mérito (grau Prata), durante as Cerimónias comemorativas do 107.º aniversário do Armístício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"






Guiné > Região de Gabu > Cheche > Rio Corubal > "A jangada da morte">  s/d 

© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia / Ediçã0: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O maior número de vítimas, de uma só vez, no TO da Guiné, aconteceu em 6 de fevereiro de 1969 (*), na sequência da Op Mabecos Bravios. 

Temos cerca de 4 dezenas referências com este descritor, o desastre de Cheche. Morreram 2 furriéis milicianos, 7 cabos, 37 soldados e 1 civil, pertencentes a duas subunidades, a CCAÇ 1790 e a CCAÇ 2405 (**).

Desastre na Guiné": a  notícia chegou tarde às redações dos jornais. O "Diário de Lisboa", que era vespertino, conotado com a "oposiçáo democrática", deu-a em título de caixa alta só na 2ª edição, dia 8 de fevereiro de 1969, que era um sábado. Fez ainda uma 3ª edição.  E limitou-se a reproduzir a "peça" transmitida pela agência oficiosa L [Lusitânia], com proveniência de Bissau e data  8 de fevereiro... 

(...) "Na passagem do rio Corubal, na estrada para Nova Lamego, afundou-se a jangada que transportava uma força militar, havendo a lamentar, em consequência deste acidente, a morte, por afogamento, de 47 militares.(...) 


2. Já "quase tudo" se disse mas ainda fomos descobrir, nos livro da CECA (2015), mais algumas referências ao "desastre do Cheche", que transcrevemos:


(...) Dispositivo (Zona Sul)

Em 08Jun68 é elaborada a Directiva n° 1/68 com vista à remodelação do dispositivo na região do Boé. 

Determina a transferência do aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Ché Che. 

Ordena a recolha imediata a Madina do Boé do Destacamento de Béli, devendo ser destruídas as instalações e material que não fosse recuperável. 

No ponto nº 3 refere:

"O CTIG e o CZACVG procederão imediatamente a um reconhecimento da região do Ché Che, em ordem a escolher o local do novo aquartelamento; deverá satisfazer às seguintes condições:

- Situar-se em "área-chave" da região de Ché Che, que permita o lançamento de acções dinâmicas na região do Boé e na margem norte do rio Corubal, e, se possível, que dê garantias de segurança à passagem deste rio no Ché Che (jangada);

- ter uma boa pista de aterragem para aviões "Dakota";

- oferecer boas condições de defesa do aquartelamento, que deve ser planeada com vista a transformar-se numa grande base operacional. "


 CECA (2015), 
pag. 175


(...) Operação "Mabecos Bravios" - 02 a 07Fev69

Forças da CCaç 1790, CArt 2338 (-), CCaç 2383, 2403, 2405 e 2436, CArt 2440, 1 GComb/CCaç 5, Pel Mil 161, Pel AMetr "Daimler" 1258 (...), Pel Sap do BCaç 2835, com APAR (apoio aéreo), efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Madina do Boé - Nova Lamego, L3.

Accionada min a A/C  no cruzamento de Beli, sem consequências; detectadas e destruídas 2 minas A/C  entre Ché Che e Canjadude. Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências. No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a  jangada que transportava forças de segurança da retaguarda provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 Milícias).



CECA (2015), pág. 353

(...) Em 19fev69, através de Directiva n.º 16/69, foi entregue ao CDMG e ao CZAGCV a realização da Operação no rio Corubal:

"1. Confirmando a ordem verbal dada em reunião de Comandos, determino a realização de uma operação no rio Corubal, com o fim de recuperar os corpos dos militares mortos no trágico acidente de 6fev69, que se encontram à superfície das águas.

2. A operação deve realizar-se na base do helitransporte de uma vaga de "Fuzileiros Especiais",  fortemente apoiada por meios aéreos.

3. Os corpos devem ser agrupados e enterrados no local, devendo as campas ser assinaladas com cruzes de ferro.

4. Desejo ser helitransportado ao local, conjuntamente com um capelão para assistir à cerimónia fúnebre, e colocar nas campas e lançar ao rio coroas de flores com a legenda "A Pátria agradecida". [...]". (***)

CECA (2015), pag. 317


Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pp. 175, 317, 353.



2. Falta-nos, entretanto, o  testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Dinis, da CCAÇ 2338, então comandante da força que guarnecia o destacamento de Cheche.


Recorde-se aqui um excerto do testemunho do então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, na altura cmdt da infortunada CCAÇ 1790, que sofreu o maior número de vítimas:

(... ) Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
[, cor inf Hélio Felgas,] não permitiu que as duas Companhias [, CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405, ] permanecessem no Ché Che para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial, que durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano comandante do Destacamento estacionado no Ché Che [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69] ". (...) (****)


Ainda continua por realizar o prometido encontro, há anos, do nosso editor Luís Graça com o ex-alf mil José Luís Dumas Diniz (da CART 2338), responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé.

Uma peça fundamental para eventual encontro será ou seria o ex-alf mil trms, Fernando Calado, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), membro da nossa Tabanca Grande, e meu contemporâneo da Guiné (estivemos juntos, em Bambadinca, entre julho de 1969 e maio de 1970), e amigo do Dumas Diniz.

Foi o Fernando Calado que me pôs em contacto com o José Luís Dumas Diniz, que vivia a maior parte do tempo em Coruche. Infelizmente o Fernando morreu o ano passado, em 24 de junho.

Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

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Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de  6 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22974: In Memoriam (426): Paz para a alma de todos os nossos camaradas que morreram no desastre de Cheche, faz hoje 53 anos...Foram 47 vidas ceifadas na flor da idade... Estupidamente!... (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS / BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)(*) 

(***) No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  conseguir resgatar  os restos mortais de 11 militares (irreconhecíveis), seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes.

Náo sabemos se o comandante-chefe chegou a estar presente, como era sua intenção.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27703: Foi há... (6): 68 anos... Em 1958 realizaram-se as últimas eleições presidenciais por voto direto e universal: votou menos de um milhão de portugueses, numa população de c. 8,9 milhóes; a grande maioria dos que irão fazer a "guerra do utramar" só irão votar em 25 de abril de 1975 (eleições para a Assembleia Constituinte)


´
Cortesia de Panteão Nacional

1. A memória dos povos é curta. Já ninguém se lembrava do ciclone de 15 de fevereiro de 1941 (*). 

Muito menos da invasão e ocupação de Timor em 20 de fevereiro de 1942 (**).

Nem das grandes cheias de 26/27 de novembro de 1967 que mataram mais de 700 portugueses (***) (A censura não deixou que se falassem em mais de 200 mortes...). 

A memória dos portugueses é curta... A memórias dos povos, em geral, é curta.  Quem ainda se lembra da invasão e ocupação da Índia Portuguesa em 18 de dezembro de 1961 ? (****). 

Ou do início do "terrorismo" (sic) em Angola, em 4 de fevereiro também desse ano, um "annus horribilis" para Salazar e para todos nós. 

Já ninguém se lembra dos massacres do Norte de Angola, do assalto ao "Santa Maria" (Op Dulcineia, por dois antigas  salazaristas e defensores do colonialismo, Henrique Galvão e Humberto Delgado)... e por aí fora.

Nem da morte de Salazar. Na cama de um hospital. Nem até já do 25 de Abril de 1974... Quem ainda se lembra? Memória coletiva? É coisa que não existe... A nossa memória coletiva? É como a cebola, tem muitas camadas. 

A memória coletiva que me inculcaram na catequese e na escola primária, de 1954 a 1958, já não é a mesma que eu tenho ou partilho hoje.  Uma certa representação do que fomos, do que somos, do que imaginamos ser, do que projetamos ser  no futuro enquanto povo, grei, nação.

E recuando a esse tempo: por que razão nos haveríamos de lembrar das eleições de 1958?... Eu lembro-me, porque, nos bancos da catequese e da escola, me mandaram "ter medo"... E o diácono, à beira de ser ordenado padre, Horácio Fernandes, ainda se lembrava, trinta anos depois, porque o seu patrono, o São Francisco de Assis (ou o seu representante em Portugal) mandou-o duas vezes votar, uma de manhã e outra de tarde na mesma junta de freguesia, de Carnide, onde se situava o convento. 

2. Rebobinando o filme do tempo da nossa infância e adolescência, foram as últimas eleições em que o Presidente da República Portuguesa foi eleito através do chamado sufrágio direto (pelo menos no papel, dentro das restrições da época): havia portugueses de 1ª classe e 2ª classe...

Numa população total (Portugal Continental e Ilhas) que se estimavam em c. 8,9 milhões de habitantes, os eleitores (inscritos nos cadernos eleitorais) não chegavam aos 1,3 milhões (15%!). E terão votado menos de um milhão.

Após o "terramoto político" causado pela candidatura de Humberto Delgado, Salazar mudou as regras do jogo para garantir que o susto (para ele, o regime do Estado Novo e a sua restrita elite) nunca mais se repetisse.

O número de recenseados era extremamente baixo (15%) porque o recenseamento não era automático nem obrigatório, dependendo de inscrição ativa nas juntas de freguesia. Os filtros eram muitos- O direito de voto era restrito a cidadãos alfabetizados, chefes de família ou contribuintes, maioritariamente homens, excluindo uma grande parte da população adulta.

A eleição foi "disputada" com regras viciadas entre Américo Tomás (regime) e Humberto Delgado (oposição), tendo este último obtido uma votação expressiva, apesar do controlo dos cadernos eleitorais pelo regime e da  generalizada fraude eleitoral.

A abstenção oficial foi de cerca de 20,7%. Segundo os dados do regime (logo  contestados pela oposição devido a relatos de fraude generalizada), Américo Thomaz venceu com cerca de 76% dos votos, enquanto Humberto Delgado obteve 24% (em Angola e em Moçambique, 31,7% e 38,7% dos votos, respetivamente;  nula ou inexpressiva, nos outros territórios ultramarinos: Cabo Verde, 2,3%; Guiné, 20,9%; São Tomé e Prímcipe, Macau e Timor, 0,0%).

Recorde-se alguns pontos (e contrapontos) do que se passou nas eleições (já esquecidas) desse ano longínquo em quer ainda éramos, a maior parte de nós, crianças ou adololescentes:


(i) O fenómeno Humberto Delgado

Até 1958, a oposição ao Estado Novo era frequentemente fragmentada e sobretudo frustrante. A oposiçãpo era o "reviralho"... No entanto, o general da força aérea Humberto Delgado, o "General Sem Medo" (que veio da extrema-direita, convertendo-se à democracia liberal apenas no após-guerra, depois de uma prolongada missão militar nos EUA, enquanto representante português na NATO, entre 1952 e 1957 ), conseguiu  abanar o regime e galvanizar um país narcotizado (pela propaganda do "Deus, Pátria e Família, e pela generalizada pobreza e analfabetismo). 

O Humberto Delgado apresentou-se como "candidato independente", apoiado por uma coligação de oposição (a "Oposição Democrática"), com apoio (relutante) de última hora do partido comunista, clandestino. 

A sua candidatura terá representado, no plano político e eleitoral, a primeira contestação séria ao regime desde a instauração do Estado Novo.

A sua famosa (e inconveniente) frase sobre Salazar ("Obviamente, demito-o!") galvanizou os portugueses que queriam mudar a "situação". Não era por acaso, que a PIDE chamava "antissituacionistas" a todos os opositores de Salazar.

Apesar da censura e da violência policial, Delgado conseguiu mobilizar multidões em comícios por todo o país, algo inédito até então. O regime reagiu com forte repressão, prisões, intimidação e manipulação dos resultados.
 
Apesar da fraude eleitoral massiva que deu a vitória ao candidato do regime, o Almirante Américo Thomaz (3/4 dos votos), a mobilização popular foi tão intensa que Salazar percebeu que o voto direto era um risco demasiado alto para a sobrevivência da ditadura.


(ii) Revisão constitucional de 1959

Como reação direta ao desafio de Delgado, o regime promoveu uma alteração da Constituição de 1933. O objetivo era "blindar" a Presidência e evitar o golpe de Estado constitucional: com o fim do voto direto, a eleição do Presidente deixou de ser feita pelos cidadãos, passou a passou a ser "cozinhada" num  "colégio eleitoral", restrito, composto por deputados da Assembleia Nacional e membros da Câmara Corporativa, todos, na prática, controlados por (ou alinhados com) o regime.


(iii) O mito do "sufrágio universal"

É importante acrescentar um detalhe técnico: embora se use o termo "direto", o sufrágio não era verdadeiramente universal, bem longe disso:
  • as mulheres tinham restrições severas para votar (baseadas no nível de escolaridade ou pagamento de impostos), a menos que fossem "chefes de família";
  • muitos opositores, os do "reviralho", ou os "antissituacionistas", referenciados pela polícia política, pela Legião Portuguesa, pelos presidentes dos municípios, etc., eram impedidos de se recensear;
  • era preciso saber ler e escrever e ser contribuinte; 
  • o analfabetismo e misogenia foram usados como barreira para excluir a grande maioria da população portuguesa (masculina e feminina).
1958 foi o "canto do cisne" da participação direta (mesmo que reduzida e condicionada) nas presidenciais do Estado Novo.  

Salazar "meteu o povo na gaveta". Deu-lhe jeito, o povo, depois da II Guerra Mundial, e da derrota das potências do Eixo, para mostrar aos seus aliados da NATO que Portugal era um "democracia orgânica" e um "baluarte contra o comunismo".

Salazar, que esperava uma vitória esmagadora e tranquila nas eleições de 1958, viu-se obrigado a reagir: aumentou a repressão, mas também iniciou algumas reformas cosméticas para tentar acalmar a opinião pública e os reformistas. Nem a ala dura (Santos Costa) nem a ala reformista (Marcello Caetano, Craveiro Lopes, Botelho Moniz). 

Por outro lado, o regime teve que recorrer deliberadamente à intimação, à repressão, ao terror e à fraude para derrotar Humberto Delgado e suster as ondas de choque pós-eleitorais. São os primeiros sinais das ditaduras quando começam a ter medo... 

Salazar preferiu retirar o povo da equação a ter de enfrentar a ameaça de ser corrido do poder por um candidato carismático (e populista, na época não se usava o termo).

É hoje pacífico, entre os historiadores portugueses e estrangeiros, que as eleições presidenciais de 1958 em Portugal não foram livres nem democrátricas... Mas o regime de Salazar, que era uma ditadura, apanhou um susto e começou aí o seu fim...
  
Salazar viu a sua "base de apoio" (e "legitimidade") abalada e posta em causa: pela primeira vez, o regime era forçado a reconhecer (mesmo que de forma distorcida) que existia uma oposição real, popular, organizada...

Humberto Delgado, como se sabe, acabou por ser assassinado pela PIDE em 1965, num episódio que marcou definitivamente a violência, a amoralidade e o desespero do regime.

 
2. Já estamos esquecidos... Ou nem sequer soubemos disso... As denúncias de fraude nas eleições presidenciais de 1958 em Portugal foram um dos aspectos mais marcantes e controversos daquele processo eleitoral. A campanha de Humberto Delgado e a oposição democrática acusaram o regime de Salazar de manipular os resultados de várias formas, tanto antes como durante e depois da votação. 

A título de exemplo, eis aqui algumas das muitas das denúncias e das irregularidades (documentadas, são hoje factos históricos).

(i) Manipulação do recenseamento eleitoral

Exclusão de eleitores: muitos cidadãos foram arbitrariamente excluídos dos cadernos eleitorais, especialmente em zonas rurais e urbanas e entre a população mais pobre e operária,  onde o apoio a Delgado poderia ser mais forte.

Recenseamento enviesado: o regime controlava o processo de recenseamento, o que permitia a exclusão de potenciais eleitores oposicionistas e a inclusão de apoiantes do regime, mesmo que não cumprissem os requisitos legais.

(ii) Censura e controle da informação / silenciamento da oposição 

A campanha de Delgado foi alvo de censura nos meios de comunicação social (os principais jornais diários, a rádio, a televisão que acabava de nascer, etc.), e que estavam sob controle do regime. Além disso, o  regime usou os recursos do Estado para promover o candidato oficial, incluindo a distribuição de panfletos e cartazes pagos com dinheiro público.

(iii)  Intimidação e violência / pressão sobre eleitores

Há relatos de pressões diretas sobre eleitores, especialmente funcionários públicos e trabalhadores de empresas estatais, mas também de empresas privadas, que foram ameaçados de despedimento ou represálias se votassem em Delgado. Por outro lado, durante os comícios de Delgado, a polícia política e as forças de segurança intervinham com violência, dispersando manifestantes e prendendo apoiantes.

(iv) Fraude no dia da votação / urnas controladas

Muitas mesas de voto eram controladas por apoiantes do regime, que manipulavam as urnas ou impediam a fiscalização por parte da oposição. Votos em branco e nulos: testemunhos da época indicam que votos em Delgado eram frequentemente anulados ou contabilizados como votos em branco ou nulos. Transporte de urnas: houve denúncias de que urnas foram transportadas para locais secretos, onde os votos eram alterados antes da contagem oficial.

(v) Resultados inverosímeis / disparidades regionais

Em algumas zonas, como no Alentejo, no Ribatejo, no Porto, e em Lisboa, onde o apoio a Delgado era conhecido, os resultados oficiais mostraram, em muitos concelhos,  vitórias esmagadoras de Américo Tomás, o que foi considerado sociológica e estatisticamente improvável. Vários observadores independentes e até alguns membros de mesas eleitorais admitiram, anos mais tarde, que os resultados foram manipulados para garantir a vitória do candidato do regime.

(vii) Reação internacional / críticas da imprensa estrangeira

Jornais europeus, norte-amerticanos e brasileiros denunciaram a falta de transparência e as irregularidades do processo eleitoral. Algumas organizações de direitos humanos e observadores internacionais questionaram a legitimidade das eleições, embora o regime tenha pura e simplesmente ignorado essas críticas.

Após as eleições, o regime intensificou a repressão, com a  perseguição aos apoiantes de Delgado, prisões, demissões e exílios forçados, etc. Delgado foi demitido de todos os cargos e teve de se refugiar na embaixada do Brasil em janeiro de 1959.

As eleições de 1958 (as "eleições de Humberto Delgado", como ainda hoje se diz) deixaram uma marca profunda na sociedade portuguesa, alimentando o descontentamento que viria a explodir em 25 de Abril de 1974... 

Mas haveria ainda um longo período de 16 anos (!) marcado pela guerra colonial (que em rigor já tinha começado, "surda e muda", na joia da coroa que era a Índia Portuguesa...).

Mas a guerra colonial irá ter um duplo efeito, contraditório: por um lado, afastada a hierarquia reformista das Forças Armadas (vd. Botelho Moniz e a "Abrilada de 1961"...), reposto o controlo político de Salazar sobre os militares, o regime ganha um segundo e derradeiro fôlego; mas, a prazo, sem um solução política à vista para um conflito que nunca poderia uma solução imposta pelas armas, acaba por ditar o fim da ditadura, não obstante o tardio e inconsequente ensaio de liberalização protagonizado pelo Marcello Caetano,

 (Pesquisa: LG + Bibliografia +  Internet)

(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

(**) Vd. poste de 26 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25778: Timor-Leste: passado e presente (14): Notas de leitura do livro do médico José dos Santos Carvalho, "Vida e Morte em Timor durante a Segunda Guerra Mundial" (1972, 208 pp.) - Parte VI: Díli, 20 de fevereiro de 1942: a invasão e a ocupação japonesas

(***) Vd. poste de 20 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14905: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (10): Não, nunca percebi para que serviam os CTT no CTIG... Notícias de Alhandra, da minha família, por ocasião da tragédia, as grandes inundações, de 25 para 26 de novembro de 1967, que atingiram a Grande Lisboa, recebi-as através de telegrama militar... (Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

(****) Vd. poste de 28 de outubro de 2018 > Guiné 61/74 - P19142: Manuscrito(s) (Luís Graça) 147): Tinha 14 anos em 1961, o "annus horribilis" de Salazar e da Nação... Depois do desastre da Índia, em 18-19 de dezembro de 1961 e de cinco meses de cativeiro, o general Vassalo e Silva e outros oficiais foram expulsos das Forças Armadas, em 22 de março de 1963... Era um aviso sério para os que combatiam em África.

(*****) Úlltimo poste da série > 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27700: Foi há... (5): 65 anos: duas "negas" aos americanos, Fidel Castro e António de Oliveira Salazar (António Rosinha, que tinha então 22 anos, e vivia feliz em Angola)

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1. Mensagem de António Rosinha, ex-colon, ex-retornado de Angola, ex-emigrante no "Brasiu", ex-cooperante na Guiné-Bissau do Luís Cabral e do 'Nino' Vieira, beirão,  portuguès dos sete costados, grão-tabanqueiro de pedra e cal (com  162 referências no blogue)... Mesmo tendo sido expulso do paraíso em 1974, não perde o bom humor... mas também não se esquece..

Data - 3 fev 2026 00:26
Assunto :- 1961: duas negas aos amaricanos


Já fui à inteligência artificial e podia transcrever o que ela diz sobre o assunto, mas prefiro usar a minha linguagem e a minha memória dos meus 22/23 anos.

Nunca pensei aos 22 anos que, passados 65 anos, ver os mesmos senhores do mundo com os mesmos propósitos de continuarem a fazerem "obedecer" o mundo aos seus caprichos.

Vamos às duas "negas", em 1961, sendo que as duas, simultâneas no tempo, eram distantes geopoliticamente.

Quem foram os "heróis" que em 1961 disseram Não ao presidente americano Kennedy?

Muita gente ainda se lembra dos barbudos de Fidel Castro e da Baía dos Porcos onde a CIA bateu com a cara na porta, e a Coca-Cola foi buscar açúcar a outra colónia.

Em 1961, e durante muitos anos, não só Cuba funcionava como pura colónia norte-americana, como praticamente toda a América Latina.

E o herói Fidel Castro, embora caísse na boca de outro lobo, Khrushchev,  disse "bye bye" a Kennedy! Até hoje! "Embora a luta continue", para azar dos cubanos, mas que Fidel foi único na América Latina, é inegável.

E o segundo herói que neste ano, 1961, disse um redondo Não ao presidente Kennedy foi o português António de Oliveira Salazar.

Mais ou menos, muito perto no tempo da Baia dos Porcos em Cuba, Kennedy propôs a Portugal "ajuda" para resolver o problema colonial que se tinha desenvolvido no Norte de Angola com os ataques terroristas pela UPA no "Congo Português".

Para quem não sabe, esse movimento, a UPA, já era conhecido da CIA e das missões religiosas americanas, onde havia muito disso, que já andavam por ali à muitos anos a dilatar a fé e o império.

E o chefe da UPA, que era cunhado de Mobutu, (em África quando se fala em cunhado quer-se dizer que é da mesma tribo) não iniciou a guerra de libertação de Angola, mas exclusivamente daquela região tribal, que era o Congo Português, irmão dos Congos francês e belga.

Ora os americanos já estavam com a CIA e as Missões religiosas, a financiar e fomentar a luta não só anticolonial, como anticomunista, e já tinham liquidado em janeiro, o Lumumba, tudo dentro da política Kennedy.

Como tinham liquidado o sueco Secretário Geral da ONU que, como sempre, ontem e hoje, um organismo-fantoche, e esse senhor andava a levar por maus caminhos os africanos.

Claro que Salazar só podia dar uma "nega" a esse homem que deixou um nome mítico no mundo mas não passava de um  coboi como todos os outros americanos, a lei era o gatilho.

A ajuda norte-americana, só a um povo "perdido" e desesperado e incaracterístico e despersonalizado, talvez para onde hoje a Europa se esteja encaminhando arrastando todos, só assim se deva entregar tal ajuda.

Angola e Moçambique jamais seriam aquilo que conhecemos, não sabemos se angolanos e moçambicanos gostam daquilo que com unhas e dentes Portugal resguardou.

A América conseguiu a paz na Europa, na II Grande Guerra, ajudou o Vietnam, o Chile a Coreia a Somália, agora ajuda a Ucrânia, ajuda sempre quem precisa.

Houve um momento da nossa geração em que na realidade Portugal teve voz própria, com muito sacrifício, foi com um ditador, mas paciência, historicamente o nosso ditador disse Não ao presidente americano que um tiro matou.

Também foi azar, o tiro poderia ter ferido apenas.

Fico por aqui.

Faz agora anos que se diz que seria o MPLA, iniciou a primeira sarrafusca na cidade de Luanda, em 4 de fevereiro de 1961.

Cumprimentos

Antº Rosinha

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Nota do editor LG:

Ultimo poste da série : 28 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27667: Efemérides (382): Conforme noticiado oportunamente, os nossos amigos e camaradas, Luís Graça e José Marcelino Martins, foram agraciados, respectivamente, com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro) e Medalha de Honra ao Mérito (grau Prata), durante as Cerimónias comemorativas do 107.º aniversário do Armístício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar

A partir da esquerda: Isaías Peralta de Carvalho; António Manuel da Silva Gomes; José Marcelino Martins; Luís Graça; Frederico Carvalho; Sargento-Chefe António Machado Fernandes e Luís Leal Rola. 

Fonte: cortesia da página da Liga dos Combatentes


DIA DO ARMISTÍCIO

No passado dia 18 de Novembro de 2025, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Lisboa, realizou-se a Cerimónia oficial do 107.º aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar.

A cerimónia foi presidida pelo Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, General José Nunes da Fonseca. Estiveram presentes os Vice-Chefes dos três Ramos; Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-General Joaquim Chito Rodrigues; entidades civis e militares assim como representantes dos Núcleos da LC de todo o país.

Durante a cerimónia foram condecorados pela Liga dos Combatentes os seguintes sócios e antigos Combatentes:

Com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro):

- Isaías Peralta de Carvalho, Sócio Combatente da LC;
- Luís Graça, Combatente na Guiné;
- Frederico Carvalho, ex-Presidente de Junta de Freguesia;
- Luís Leal Rola, Sócio Combatente da LC;

Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Prata):

- José Marcelino Martins, Sócio Combatente da LC;
- António Machado Fernandes, Sargento-Chefe, Sócio Combatente da LC;

Medalha de Bons Serviços da Liga dos Combatentes (grau Prata):

António Manuel da Silva Gomes, Sócio Combatente da LC

Um realce para os nossos camaradas e amigos, José Marcelino Martins e Luís Graça, o primeiro, colaborador permanente do nosso Blogue para os assuntos militares, e o segundo, autor, administrador e editor deste Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. 

O trabalho de ambos, em prol dos Antigos Combatentes, foi reconhecido pela Liga dos Combatentes que lhes atribuiu as Medalhas que lhes foram impostas no dia 18 de Novembro passado.
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Notas do editor CV:

Vd. posts de 6 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27392: Efemérides (471): Convite do Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-general Joaquim Chito Rodrigues, para a cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza no dia 18 de novembro de 2025, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa, durante a qual será condecorado, com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes, o nosso editor Luís Graça

21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27447: Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do Fim da Guerra do Ultramar, 18 de novembro de 2025: Simbolismo das coroas de flores depositadas no Monumento aos Combatentes do Ulramar (Luís Graça ) - Parte I
e
22 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27450: Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do Fim da Guerra do Ultramar, 18 de novembro de 2025: Simbolismo das coroas de flores depositadas no Monumento aos Combatentes do Ultramar (Luís Graça ) - II (e última) Parte

Último post da série de 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27592: Efemérides (381): Aconteceu há 60 anos em Bissau, passagem de ano na Associação Comercial, Industrial e Agrícola, a comer do melhor marisco, e na mesa onde até estava o Governador da Guiné (Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27592: Efemérides (381): Aconteceu há 60 anos em Bissau, passagem de ano na Associação Comercial, Industrial e Agrícola, a comer do melhor marisco, e na mesa onde até estava o Governador da Guiné (Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil)


1. Mensagem do nosso camarada Rui Silva, ex-2.º Sarg Mil da CCAÇ 816 (BissorãOlossato e Mansoa, 1965/67) com data de hoje, 1 de Janeiro de 2026:

UMA LINHA MUITO TÉNUE SEPARA O ESTAR COM O NARIZ ENTERRADO NA BOLANHA E “ELAS” A PASSAREM POR CIMA, DO ESTAR NUMA PASSAGEM DE ANO A COMER DO MELHOR MARISCO E NA MESA ONDE ATÉ ESTAVA O ENTÃO GOVERNADOR DA GUINÉ

Eu e um amigo ocasional do Porto, (conhecemo-nos no Hospital Militar de Bissau), bem enfarpelados, entramos logo atrás do Schulz, o Governador da Guiné, pois então!
Estávamos em 31 de Dezembro o último dia do ano de 1966 e havia passagem de Ano na Associação Comercial e na UDIB (ver fotos), pelo menos; também nas sedes do Benfica e do Sporting, clubes locais (ver fotos destas sedes também em anexo).

O edifício da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Bissau era um edifício de linhas modernas com uma boa sala de jantar do lado esquerdo e uma sala de estar e de jogos no rés-do-chão, do lado direito, e, atrás, virados para a estrada que ligava o Quartel da Amura cá em baixo junto da marginal para Santa Luzia lá em cima, onde estava o Quartel General, serviço SPM, Adidos e outras instalações militares, estrada alcatroada e marginada de mangueiros, haviam 1 campo de ténis e uma boa piscina.
Quando se passava lá era olhar e andar. Aquilo era tabú para nós. A nossa vida era no mato, aos tiros.

Só que na passagem de ano eu e o meu conhecido há pouco, armamo-nos em finos e apostamos no baile na Associação o que não seria fácil.
Boas instalações. Vida boa para o colono e militares de patente super. Também se viam lá negros, mas… a servir à mesa. Ah(!) e o porteiro.

Então eu e o meu amigo do Porto, como já disse, conhecido (há pouco), do Hospital Militar de Bissau, onde estávamos internados, eu por uma lesão no joelho, vestidos a rigor, camisa branca “casca d‘ovo” que muito se via por lá, brancas e azuis clarinhas, diziam que vinham de Macau, gravata à maneira e fato tirado do fundo da mala, com vincos saturados nas dobras, agora bem disfarçados com a ajuda dos joelhos, e a cheirarem a naftalina, esta disfarçado com água de colónia, e então escolhemos tentar a sorte na Associação. Aquilo ali era mais chique.
Humm, não devia ser fácil entrar ali!...

Tanto eu como o meu amigo apostamos com parada alta.

Cerca das 23 horas aproximamo-nos da entrada, um pouco timidamente e era só saber como é que havíamos de entrar, o que se antevia difícil. “Fardados” bem à civil e bem penteados e bem engravatados, estávamos nós, mas isso podia não chegar.
Até que chega de automóvel o dono da “Ancar”. Estabelecimento e fabricante (?) de artigos de livraria ali em Bissau. Uma loja perto do mercado de Bissau. Parecia-me ser cabo-verdiano e como era empresário… devia ser mesmo.

“Alto (!) é agora”, pensei. Eu quando vinha a Bissau defendia as cores da Ancar em Andebol de Sete e portanto era aqui a grande chance. E ali o meu presidente mesmo à mão.
Dirigi-me a ele a dizer que era uma atleta da Ancar o “grande” guarda-redes de andebol e ele, sim, disse que me conhecia bem, mas, mais palavra menos argumento, “mandou-me prá bicha”, que não era ele que mandava, etc. e tal, que tivesse paciência, que era afinal o que nós tínhamos menos na altura, digo eu.
Pronto, gorada aquela que me parecia ser uma grande hipótese!

Passam-se mais alguns minutos e já pertinho da meia-noite eis que chega um grande carro preto com bandeirinhas sobre os guarda-lamas e sair de lá Arnaldo Schulz, o Governador, com comitiva e com grande pompa.
Entrou com as devidas honras. Recebido, julgo, por elementos da Comissão organizadora, um casal de brancos, muito elegante, meia-idade. Subiram os degraus para o piso superior (Salão de Festas) e tudo voltou ao normal, isto é, o porteiro indígena, de luvas brancas e uma secretária (mesa) à sua frente e ali perto dois maduros desenfiados do HM 241, que não desarmavam.

- Vamos dar qualquer coisa ao preto e ele deixa-nos entrar.
- Não, isso pode ser pior - respondeu o outro.
- Carago, o que havemos de fazer?

Estávamos ali a cogitar quando nos saiu a taluda!
O porteiro dirige-nos e pergunta se nós éramos os convidados do Sr. Virgílio.
- Somos, somos - dissemos a uma só voz.
- Já podiam ter dito. Façam o favor de entrar.

Antes que houvesse alguma dúvida galgamos os degraus de acesso ao salão sem antes termos esbarrado no porteiro (que queria a nota?), e entramos no Salão de Festas com aparente calmaria e de peito inchado.

Caiu a meia-noite!

Ainda hoje estou por saber quem era esse Sr. Virgílio, ou se foi uma bela jogada do preto que viu ali uma rara oportunidade para ganhar algum, pois mal ele nos abordou e ao ver-nos passar por ele como flechas teve tempo de estender a mão e não era para nos cumprimentar, sabíamos nós. Lá que ficamos os três bem na fotografia lá isso foi verdade e ninguém saiu a perder, pelo menos nós os dois, os desenfiados
Olha que dois! Ou que três!

Passado o reconhecimento do terreno já estávamos a dançar, cada um com o seu par, claro.
No salão, encostada a uma das paredes laterais, estava uma larga mesa, bem decorada com leitão, cabrito e mariscos variados com a lagosta a sobressair e outros diversos comes bem apetitosos.
Um conjunto musical cabo-verdiano animava a festa com “coladeras”, “mornas”, etc.

À hora de “abrir” a mesa (meia-noite), aproximamo-nos e um pouco timidamente. O meu amigo, noutro ponto estratégico, fazia-se rogado, mas por pouco tempo. Vencidas as “sentinelas” comemos bem a nossa parte. Lá no hospital ou no mato o rancho era bem diferente.

Bela noite. Um sonho realizado em pleno palco de guerra.
Saímos já madrugada alta e viemos por a Avenida abaixo. Passamos pela UDIB e o baile também estava a terminar. Ainda deu para ver porrada à porta. Afinal a porrada estava na moda por toda a Guiné.

E pronto, foi regressar ao HM e tudo voltou à normalidade. Aí, farda branca do hospital, de algodão fininho, e havaianas. Rancho do hospital, servido à mesa, mãos no pão, na fruta, e todo o mais, (não me esqueço que na altura que o soube andei com náuseas uns dias) nada mais nada menos que servido pelo Cabo que na morgue, atrás do Hospital, lavava os mortos e os punha nas urnas.
E depois do sonho... mato outra vez!

Um ótimo ano a todos os combatentes da Guiné.
Bem Hajam.

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Nota do editor

Último post da série de 24 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27570: Efemérides (380): Aconteceu há 60 anos em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27570: Efemérides (380): Aconteceu há 60 anos em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:

Aconteceu há 60 anos

No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.

Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.

O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965

O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.

Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.

Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.

Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.

Artur Conceição
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Nota do editor

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional


ENFERMEIRAS PARAQUEDISTAS CONDECORADAS PELA FORÇA AÉREA

A Força Aérea condecorou as Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe, numa homenagem que teve lugar hoje, 10 de dezembro, no Comando Aéreo (CA), em Monsanto.

Presidida pelo Ministro da Defesa Nacional (MDN), Nuno Melo, e na presença do Chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), General João Cartaxo Alves, e de outras altas entidades militares e civis, a cerimónia pretendeu homenagear as mulheres que desafiaram as tradições da época e, com coragem e audácia, envergaram o uniforme da Força Aérea, arriscando a vida em prol de outras.

Conhecidas como "anjos descidos dos céus", entre 1961 e 1974, a Força Aérea formou enfermeiras paraquedistas para atuar em cenários de conflito, tornando-se estas mulheres pioneiras na presença feminina militar mas sobretudo por terem dado início a uma missão que perdura até aos dias de hoje: as evacuações aeromédicas e os transportes médicos por via aérea.

Entre as Enfermeiras Paraquedistas, dezasseis marcaram presença, sendo-lhes impostas a condecoração pelo MDN e pelo CEMFA.

Em jeito de homenagem, o CEMFA usou da palavra para enaltecer tudo aquilo que aquelas militares representaram, não só para a Força Aérea, mas para Portugal, e o impacto direto do legado delas “na evolução da doutrina aeromédica, na formação de novas gerações de militares e na valorização da mulher no seio das Forças Armadas”.

A Medalha de Mérito Aeronáutico destina-se a galardoar os militares e civis, nacionais ou estrangeiros, que no âmbito técnico-profissional revelem elevada competência, extraordinário desempenho e relevantes qualidades pessoais, contribuindo significativamente para a eficiência, prestígio e cumprimento da missão da Força Aérea.

Depois das condecorações procedeu-se ao descerramento de uma placa de homenagem às enfermeiras paraquedistas que ficará eternizada no CA, enquanto órgão da Força Aérea com competência para na atualidade coordenar as missões de Evacuações e Transportes Aeromédicos.

No final da cerimónia, a enfermeira paraquedista com maior precedência entre as presentes, Maria Arminda Santos, agradeceu a homenagem prestada referindo que a Força Aérea é a sua segunda família, sendo impossível esquecer o tempo dedicado à instituição.


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Notas do editor:

A devida vénia ao site do Estado Maior da Força Aérea de onde foram extraidos, o texto e as fotos

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27544: Efemérides (379): No dia 24 de Dezembro de 1969 o PAIGC instalou-se com armas pesadas junto à fronteira, mas dentro do Senegal, desencadeando uma violenta acção militar contra Cuntima (Eduardo Estrela, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2592/CCAÇ 14)

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27468: Efemérides (378): foi há 55 anos a Op Abencerragem Candente (25 e 26 de novembro de 1970, subsetor do Xime), com meia dúzia de mortos de um lado e do outro




Seco Camará, guia e picador das NT.
Morto em 26/11/1970. Está sepultado
em Nova Lamego /Gabu
 Foi vouvado a título póstumo
pelo cmdt do CAOP2, em 28/1/71,
e pelo Cmd-Chefe, em 16/4/71
Foto: Torcato Mendonça (2007)


(...) Um, dois, três, quatro, cinco, seis homens 
vão morrer daqui a três ou quatro horas,
às 8h50,
em vinte e seis de novembro de mil novecentos e setenta,
no cacimbo da madrugada,
na antiga picada do Xime-Ponta do Inglês.
Cinco brancos e um preto,
a lotaria da morte, em L,
numa emboscada que é cubana,
numa roleta que é russa,
com os RPG, amarelos, "made in China"...
no corrocel da morte que é, afinal, universal! (...) (*)



1. Um dos maiores desaires das NT, no Sector L1 (Bambadinca), no meu tempo (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, junho de 1969/ março de 1971) foi a Op Abencerragem Candente  (subsetor do Xime, 25 e 26 de novembro de 1970). 

Temos 3 dezenas de  referências no nosso blogue a esta operação. Em contrapartida, há um estranho silêncio nos livros da CECA (Comissão para o Estudo das Campanhas de África), como já em tempos referimos. Silêncio em relação  este revés das NT bem como a outros... 

De facto, não há sequer uma linha no livro relativo à atividade operacional no CTIG em 1970: vd. CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo II - Guiné - Livro II (1.ª edição, Lisboa, 2015), 

A Op Abencerragem Candente (envolvendo 8 Gr Comb, 3 da CART 2715, 3 da CCAÇ 12 e 2 da CART 2714) foi  há 55 anos atrás (4 dias depois da Op Mar Verde).

Terá sido, no subsetor do Xime, a mais sangrenta das operações ali realizadas, durante a guerra colonial, pelo lado das baixas contabilizadas para as NT: 6 mortos e 9 feridos graves. O IN, por sua vez, terá tido outros tantas baixas.

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Notas do editor LG:

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27459: Efemérides (475): Mais de cem anos depois do Armistício de 11 de novembro de 1918, que encerrou a Primeira Guerra Mundial, é essencial registar o percurso de Portugal até esse conflito e os seus impactos (José Marcelino Marins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)



Loures e Odivelas na Guerra
(Memória, Sacrifício e Monumentos)

José Marcelino Martins

Mais de cem anos depois do Armistício de 11 de novembro de 1918, que encerrou a Primeira Guerra Mundial, é essencial registar o percurso de Portugal até esse conflito e os seus impactos. Num período de grandes crises políticas, financeiras e económicas, Portugal conseguiu ainda defender a sua soberania e os territórios ultramarinos. Este artigo recupera a memória desta geração de Combatentes e o preço da guerra para a Nação.


Do mapa Cor-de-Rosa ao fim da Monarquia

Em 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro do ano seguinte, realizou-se em Berlim uma célebre conferência que reuniu catorze países com interesses em África. Portugal apresentou duas propostas: o denominado “Mapa Cor-de-Rosa”, que pretendia ligar Angola a Moçambique, e o direito de posse fundamentado na “descoberta ou achamento”. Ambas foram liminarmente rejeitadas. A partir daí, a ocupação efetiva dos territórios tornou-se condição essencial para o reconhecimento internacional da soberania legitimando, inclusive, anexações pela via militar.

Em 30 de janeiro de 1892, como resposta à grave situação das finanças públicas, o governo instituiu impostos extraordinários. Os rendimentos do trabalho (ordenados, soldos e pensões) estavam sujeitos a taxas entre 5% e 20%, enquanto os rendimentos prediais, de capitais e industriais podiam atingir 30%. Paralelamente, Portugal foi obrigado a renegociar a sua dívida externa.

Entre 1895 e 1910 intensificaram-se as chamadas Campanhas de Ocupação em África. Esta campanha era para “ocupar efetivamente” o território, mas provocaram forte resistência das populações locais, determinadas na defesa da sua autonomia sob a liderança de chefes regionais. A persistência dos combates deu origem às designadas Campanhas de Pacificação, realizadas com forças expedicionárias metropolitanas de cerca de 650 a 700 homens, compostas por infantaria, artilharia e cavalaria, serviços de saúde, engenharia e administração.

Perante a contínua asfixia financeira, o deputado José Bento Ferreira de Almeida (1847-1902), Capitão-de-Mar-e-Guerra e antigo ministro da Marinha e Ultramar, propôs, na sessão parlamentar de 12 de janeiro de 1902, uma medida extrema: a venda das colónias portuguesas, com exceção de Angola e São Tomé e Príncipe. O objetivo seria liquidar a dívida externa e utilizar o eventual excedente para dinamizar a economia nacional.

(Curiosamente, sessenta anos mais tarde, em 12 de janeiro de 1962, o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Alberto Franco Nogueira (1918-1993), entregou a António de Oliveira Salazar (1889 - 1970) um documento intitulado “Notas sobre a Política Externa Portuguesa”. Nele defendeu a entrega de Macau à China, de Timor à Indonésia e a abertura de conversas condutoras à independência da Guiné e de São Tomé e Príncipe. Propunha ainda que Portugal mantivesse apenas Angola, Moçambique e Cabo Verde. Ao receber o documento, Salazar anotou: “Começado a analisar com o ministro dos Negócios Estrangeiros numa das nossas conferências”) (Revista Expresso, 31 de agosto de 2002, p. 12).


A República e o caminho para a guerra

Quando a República foi proclamada, a 5 de outubro de 1910, uma das primeiras medidas de vulto foi a reorganização do Exército. O serviço militar tornou-se obrigatório para todos os jovens, que passavam inicialmente por uma escola de recrutas, com formação de 15 a 30 semanas. Nos dez anos seguintes foram chamados ainda em períodos regulares de instrução de duas semanas. Criaram-se também escolas de quadros para preparação de oficiais milicianos. Estava previsto um corpo permanente de 11.210 militares: 1.870 oficiais e 9.540 praças e sargentos.

Tal como aconteceu no regime monárquico, o governo republicano não esqueceu a prioridade das possessões ultramarinas. Pouco a pouco, as forças militares instaladas nas colónias foram colocadas sob a tutela do recém-criado Ministério das Colónias (3 de setembro de 1911), embora mantendo uma ligação operacional ao Ministério da Guerra. Esta dualidade prolongou-se até 1959, altura em que a reorganização do Ministério do Exército lhe devolveu a jurisdição plena sobre os territórios ultramarinos.

No plano interno, os primeiros tempos da República ficaram marcados pelas investidas monárquicas de Paiva Couceiro (1861-1944). Entre 1911 e 1912, as suas incursões mantiveram uma instabilidade no norte do país, com combates e escaramuças. Foram silenciadas definitivamente com a batalha de Chaves, em 8 de julho de 1912.  Se internamente a República se consolidasse, externamente enfrentaria ameaças graves: o alegado acordo secreto entre a Grã-Bretanha e a Alemanha. Confirmado por alguns e negado por outros, punha em risco a velha aliança anglo-portuguesa e, sobretudo, a continuidade da presença portuguesa em África. Portugal encontrou-se numa posição delicada: Angola partilhava fronteira com o Sudoeste Africano Alemão e Moçambique com a África Oriental Alemã.

Em 13 de agosto de 1913, foi assinado um novo protocolo que retomou o acordo de 1898, prevendo uma partilha ainda mais ampla das colónias portuguesas. A 20 de outubro desse ano, o entendimento foi rubricado e, semanas depois, reforçado no Reichstag, onde o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros proclamava o “êxito” das negociações. A França reagiu e, em fevereiro de 1914, o embaixador francês em Londres avisou que esta aproximação entre Londres e Berlim punha em causa o Acordo Cordial franco-inglês.

Em 3 de agosto de 1914, a Alemanha invadiu a Bélgica, violando o tratado de 1831, que consagrava a sua neutralidade perpétua. No dia seguinte, a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha. A Europa estava em guerra e não demoraria para que Portugal fosse chamado a escolher um lado.

Quando o Congresso da República se reuniu extraordinariamente, em 7 de agosto de 1914, para aprovar um documento relativo à Grande Guerra - que tinha sido iniciada em 28 de julho desse ano, quando o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia - Portugal já enfrentava graves problemas políticos, económicos e coloniais. O conflito europeu viria assim apenas agravar uma conjuntura já marcada por instabilidade e incerteza.


África e a entrada antecipada na Grande Guerra

Em setembro de 1914, Lisboa enviava a 1.ª Expedição a Angola, com 1.526 militares, e no mesmo dia, uma outra com 1.539 militares para Moçambique. Pouco depois, em 11 de novembro, partiu o 1.º reforço de 2.803 soldados para Angola. A mobilização contínua em 1915: em janeiro, mais 4.318 homens foram enviados para reforço e, em setembro, a 2.ª Expedição para Angola, com 1.789 efetivos. Entretanto, para Moçambique, também foi destacada uma 2.ª Expedição com 1.558 militares.

As pressões cresceram quando, em fevereiro de 1916, o governo britânico pediu oficialmente a Portugal que, “em nome da aliança luso-britânica”, apreendesse todos os navios mercantes alemães que se encontrassem nos portos portugueses e ultramarinos. A missão, cumprida a 23 de fevereiro pelo capitão-de-fragata Jaime Daniel Leote do Rego (1867-1923), desencadeou protestos violentos em Berlim. Poucos dias depois, a 9 de março, o representante alemão, Rosen, entregou pessoalmente ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Luís Vieira Soares (1873-1954), em Lisboa, a declaração formal de guerra. Foram apenas quinze minutos de reunião - mas mudariam para sempre o destino de Portugal.

A 15 de junho de 1916, o governo britânico fez um convite formal a Portugal para que participasse nas operações militares ao lado dos Aliados. O Parlamento aceitou esta convocação a 7 de agosto, numa altura em que já decorriam as célebres “Manobras de Tancos”, que reuniram cerca de 30.000 militares provenientes de todas as divisões do país. Enquanto isso, foi organizada a 3.ª Expedição para Moçambique, composta por 4.386 militares, que embarcaram em vários navios entre maio e julho de 1916.


O Corpo Expedicionário Português Rumo a França

No início de 1917, deu-se a grande viragem: a 3 de janeiro ficou previsto que o Corpo Expedicionário Português (CEP) atuasse integrado na Força Expedicionária Britânica (BEF). Poucos dias depois, a 17 de janeiro, o Decreto-Lei n.º 2938 formalizou oficialmente a criação do CEP. A 30 de janeiro, o primeiro comboio de tropas partiu para França em navios britânicos. Até agosto de 1917, foram realizadas 50 viagens, transportando 55.165 militares portugueses para a frente europeia. Entre eles estavam soldados que já tinham sido combatentes em África. Enquanto isso, Moçambique continua a receber reforços: a 4.ª Expedição, entre julho e outubro de 1917, levou mais 5.267 homens, a que se juntou um reforço adicional de 4.509. Para Angola, seguiram dois pequenos contingentes: 566 militares em 1917 e 746 em 1918.

A 11 de novembro de 1918, às 11 horas, soava o armistício e o fim das hostilidades. Mas, para os militares portugueses, o regresso à casa não começou de imediato. O esforço de guerra prolongar-se-ia, marcando profundamente a vida nacional e a memória de uma geração.

Portugal combateu em diferentes frentes durante a Grande Guerra - tendo mobilizado aproximadamente 105.000 militares para África e Europa - morrendo 8.787 e ficando feridos entre 5.000 a 16.000.


Entre 1914 e 1918, Loures viu centenas de seus filhos irem para as frentes da Primeira Guerra Mundial e para África - alguns não regressaram, outros voltaram mudados para sempre. Este artigo regista os nomes, as histórias e o legado desses lourenses, bem como os monumentos que perpetuam a sua memória.

Loures, vila às portas de Lisboa, conquistou o título de “concelho” em 26 de julho de 1886, guarda na memória coletiva páginas de coragem e sacrifícios que ecoam até hoje. Durante a Primeira Guerra Mundial, muitos lourenses deixaram as suas terras para combater em Angola, Moçambique e França. O mais velho, nascido em 1879, partiu com 38 anos; o mais novo, nascido em 1898, tinha apenas 20. No total, cerca de 304 homens do concelho foram mobilizados para diferentes frentes. Oito deles, após servirem em África, integraram o Corpo Expedicionário Português e seguiram para a Europa, elevando para “aproximadamente” 312 o número de lourenses envolvidos neste capítulo marcante da história nacional.

A cada nova partida, crescia a ansiedade entre famílias e amigos, à medida que se formavam sucessivos contingentes: em 1914, três partiram para Angola e cinco para Moçambique; em 1915, nove para Angola, quatro para Moçambique e um para serviço marítimo; em 1916, dez para Moçambique, dois para a Madeira e um para o mar; em 1917, 257 para França e dez para Moçambique; e em 1918, cinco para França e um para Moçambique. Quatro casos permaneceram sem registo documental.

As notícias que chegavam eram muitas vezes vagas e sombrias, trazendo o peso das batalhas, da doença e da dureza do conflito. Entre 1916 e 1919 tombaram em campanha 19 lourenses: 1916 - um em Angola e três em Moçambique; 1917 - um em Angola e três em Moçambique, como no ano anterior; 1918 - seis em França e três em Moçambique; 1919 - já após o fim da Grande Guerra, um em França e outro em Moçambique. A ausência de um corpo para velório e luto tornava a dor ainda mais profunda, deixando famílias presas entre a dúvida e a esperança. Apesar disso, também houve regressos, embora num ritmo lento, fosse por conclusão de missão, doença, acidente ou licença. Entre 1915 e 1919, centenas regressaram vindos de vários teatros de guerra, numa dolorosa reconciliação com a vida e com o lar, marcada pelos sacrifícios e pela falta dos que não regressaram.

Em 1915 regressaram três de Angola e cinco de Moçambique; em 1916, seis de Angola e um de Moçambique; em 1917, um de Angola, seis de França, um da Madeira, um da Marinha e dois de Moçambique; em 1918, 68 de França, um da Marinha e sete de Moçambique; e em 1919, 179 de França, um da Madeira e quatro de Moçambique. Existem ainda sete casos sem dados sobre o ano de regresso.

O luto, mais pesado pela ausência do militar e do próprio corpo, deixou uma ferida aberta na comunidade. Faltava um espaço físico onde, nos momentos de maior saudade, se pudesse homenagear os que partiram, “conversando com eles” mesmo no silêncio. Esta necessidade era ainda mais sentida por órfãos, viúvas e principalmente por quem perdeu um filho, pois permanece até hoje o mistério - e a dor - de a língua portuguesa não ter uma palavra que define “pais que perderam um filho”. Uma saudade imensa, um luto sem fim, que apenas o tempo e a memória proporcionam entrelaçar e transmitir às próximas gerações.

As comunicações às famílias, baseadas nas informações prestadas pelas subunidades combatentes, eram muitas vezes vagas e lacónicas - e a ausência do corpo levantava uma dúvida: entre tantos soldados com nomes idênticos, não teria ocorrido engano? Não estaria aquele filho, afinal, ainda a caminho de casa?

A partida para os diferentes Teatros de Operações, sobretudo para França, fez-se ao longo de quase dez meses; para África, foram efetuadas duas a três viagens por ano. Os regressos davam-se por missão cumprida, incapacidade física, convalescença ou licença. Este retorno, contudo, foi quase sempre lento e marcado pela incerteza, sobretudo porque o repatriamento dos homens que serviram na frente francesa se prolongou por todo o ano de 1919. O luto, assim, mantinha-se - pesado, prolongado e sem corpo a velar, fator fundamental para o ritual da despedida. E continuou a faltar um local de homenagem, onde os mais fragilizados poderiam render tributo, conversando com os ausentes no silêncio das recordações. Esta “terapia silenciosa” ainda hoje conforta órfãos, viúvas e aqueles que perderam os filhos em quem depositaram sonhos e futuro. Na realidade, não foram apenas os familiares, amigos ou vizinhos que sentiram a ausência de “algo” que não regressou no final do conflito. Também a sociedade civil, no seu conjunto, partilhou essa sensação de perda e a necessidade de preservar a memória coletiva. Foi nesse contexto que, a 30 de julho de 1919, a Junta Patriótica do Norte lançou uma proposta para a criação de “padrões” que, através dos tempos, evocavam os que combateram na Grande Guerra e apresentavam uma devida homenagem.

A designação “monumentos”, teve origem numa decisão do governo da época, inspirada nos marcos e padrões deixados pelos portugueses nas suas viagens pelo mundo. O primeiro monumento erguido em Portugal foi inaugurado em 24 de setembro de 1919, por iniciativa de combatentes naturais da freguesia das Cortes, no concelho de Leiria. Com o apoio da população local foi construído no ponto mais alto da freguesia - símbolo de honra, sacrifício e memória.

Na sua tese de doutoramento “Políticas da Memória da I Guerra Mundial em Portugal (1918-1933) - Entre a Experiência e o Mito”, a doutora Sílvia Correia classifica os monumentos da Grande Guerra em quatro tipologias: “Vitorioso”, “Patriótico”, “Cívico” e “Funerário”. Ao Monumento de Loures é atribuída a dupla classificação “Patriótico/Funerário”, refletindo a sua simbologia de heroísmo e luto. De acordo com o Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA), trata-se de um “monumento comemorativo da participação portuguesa na I Guerra Mundial, com um grupo escultórico representando uma cena de combate, com figuras de grande expressividade”.

Embora exista um processo administrativo contendo planta e alçados, não foi encontrada qualquer memória descritiva nem representação completa da escultura. Na ausência desses registos, a interpretação mais aceite é a de que a componente “patriótica” se manifesta na parte traseira do monumento, representando uma trincheira após uma incursão inimiga.
Frente do Monumento de Homenagem ao Combatente da Grande Guerra - Loures
Lateral direita do Monumento
Lateral esquerda do Monumento
Traseira do Monumento

A peça de artilharia de campanha de fabrico francês - calibre de 7,5 cm TR m/1904 fabricada pela Schneider Frères & Cie - operada por uma guarnição de seis militares:
comandante, apontadores e serventes, apresenta-se em posição de tiro horizontal, embora pareça bastante elevado devido à especificidade natural do terreno.  Na figurativa destacam-se duas esculturas humanas. Um dos militares, possivelmente um oficial tombado no terreno, segura na mão uma pistola de fabrico americano - provavelmente uma Savage 7,65 mm m/1915, fabricada pela Savage Arms Company, e distribuída como arma de defesa pessoal. Esta imagem simboliza o sacrifício máximo exigido a um combatente: “a entrega da vida pela Pátria”. O outro militar, em vigia junto da trincheira, empunha uma espingarda Lee-Enfield (SMLE) Mark III de 7,7 mm M/1917 de fabrico inglês. Essa representação evoca a firme determinação de cumprir a missão, mesmo ferido ou em perigo iminente, simbolizando a persistência em defender uma posição confiável. Toda a componente figurativa do monumento é realizada em betão armado.

Depois de se consultar as plantas conservadas no Arquivo Municipal de Loures, reforça-se a ideia de que o monumento foi concebido para representar a entrada simbólica de um espaço cenotáfio - um local construído em memória dos combatentes lourenses sepultados em vários cemitérios da Europa.
Vista Geral do monumento da Grande Guerra de Loures ladeado pelas lápides

O frontispício é formado por dois contrafortes dispostos em posição oblíqua às paredes laterais do monumento, que vão perdendo altura gradualmente, indicando uma descida abaixo do solo. Estes contrafortes de base retangular composta por grandes blocos graníticos, mantém a face interior vertical, terminando em forma quadrangular, com capitéis retos que sustentam, no topo, duas esferas armilares - símbolos universais da identidade portuguesa e da sua história.  Sob um arco de volta perfeito em mármore branco, destaca-se uma Cruz de Guerra, parcialmente suspensa ao centro, acompanhada da inscrição “Aos Mortos da Grande Guerra”. Este seria, originalmente, o acesso ao interior do monumento, que posteriormente seria fechado com pedras e sobreposta por uma moldura onde foram gravados os nomes dos militares naturais do concelho, de que se tinha conhecimento, que tombaram em combate.
Lápide Grande Guerra
Lápide Guerra Ultramar

Para a recolha dos nomes dos lourenses mortos na guerra, tanto em África como na Europa, foram oficiadas todas as juntas de freguesia do concelho através de uma circular datada de 6 de setembro de 1929, assinada pelo Capitão Francisco Marques Beato, combatente em França, então presidente da Câmara Municipal de Loures (32.º presidente, com mandato entre 12 de julho de 1926 e 6 de outubro de 1931).

Foi precisamente durante o seu mandato que se concretizou a inauguração do monumento. De acordo com o livro “In Memorian”, editado pela Câmara Municipal de Loures em novembro de 2016, na Parte II, assinado por Jorge Aniceto e Pedro Rocha, leia-se na página 94: “No dia 8 de Dezembro de 1929, dedicado a Nossa Senhora da Conceição (e às mães), foi finalmente inaugurado o Monumento aos Combatentes do Concelho de Loures mortos na Grande Guerra, o segundo a ser erigido no distrito de Lisboa. O autor do projeto foi Fernando Soares, um conhecido empresário da época. Embora simples, o monumento é expressivo.” 

No verso de um postal de época, editado pela própria Câmara Municipal de Loures e com fotografia do monumento, encontra-se o seguinte texto:
“O envolvimento português na Grande Guerra arregimentou quase 200 mil homens, oriundos de todo o território nacional, incluindo o concelho de Loures. Aqui, o recrutamento militar atingiu largas dezenas de jovens. Todos partiram, mas alguns não regressaram. Ao todo tombaram quase 10 mil no campo de batalha. O heroísmo destes homens foi alvo de uma sentida homenagem dos seus conterrâneos, abraçada por Francisco Marques Beato, presidente da autarquia, militar e combatente que, solicitando a colaboração das juntas de freguesia garantia a realização de uma angariação de fundos para a execução do projecto da autoria do construtor civil Fernando Soares e que estava orçamentado em 25 contos. Assim, a 8 de Dezembro de 1929, dia de Nossa Senhora da Conceição (correspondia, à época, ao dia da Mãe), numa cerimónia que contou com a presença de diversas entidades públicas, Oficiais do Exército, representantes dos combatentes de Arruda, Loures e Lisboa, e de muitos populares que fizeram questão de se associar a este tributo, inaugurou-se o Monumento aos Combatentes do Concelhio de Loures Mortos na Grande Guerra, localizando-se ainda hoje no centro da vila (elevada a cidade em 1990), em lugar de destaque no jardim da Praça da Liberdade, em frente aos Paços do Concelho.”


No dia 8 de dezembro de 1929, o vespertino “O Povo” destacou a inauguração do Monumento aos Combatentes de Loures na sua página 4. Nos dias seguintes, o acontecimento continuou a ser amplamente noticiado, com referências nos jornais “28 de Maio” (edição de 10 de dezembro, página 4), “ABC” (edição de 12 de dezembro, página 8) e “Notícias Ilustradas” (edição de 15 de dezembro, páginas 10 e 11), refletindo a importância nacional e o impacto local desta homenagem.

Durante o serviço militar, o reconhecimento pelos méritos e pelo sacrifício dos soldados chega, muitas vezes, em forma de medalhas e condecorações. Estas insígnias, distinguem atos de bravura, determinação e dedicação. Durante a Primeira Guerra Mundial, os militares de Loures, não foram esquecidos: cinco receberam a insígnia da “Ordem Militar da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito”, grau comendador; cinco foram distintos com a “Medalha Militar da Cruz de Guerra”, uma de terceira classe e quatro de quarta; um militar com a “Medalha Militar de Comportamento Exemplar” nos graus Cobre e Prata; 43 lourenses receberam “Medalhas militar Comemorativas das Campanhas”, com registo de serviço em Angola, Moçambique, França ou na Defesa do Campo Entrincheirado de Lisboa; A “Medalha Militar da Vitória” acordada pelos aliados após a vitória, foi igualmente entregue a 43 combatentes. Houve ainda espaço para distinções de um militar com a “Medalha de Dedicação da Cruz Vermelha Portuguesa, e dois com a Medalha de Conduta Distinta (Distinguished Conduct Medal) atribuída pelo Rei de Inglaterra, Eduardo VII, e ainda foram atribuídos mais vinte e um louvores individuais.

Em novembro de 1968, Loures voltou a ser palco de homenagem aos seus combatentes, no cinquentenário do Armistício da Primeira Guerra Mundial. Junto ao monumento, agora enriquecido com uma nova placa em bronze comemorativa dos 50 anos da paz, reuniram-se militares, autoridades e população, numa cerimónia presidida pelo autarca Joaquim Dias de Sousa Ribeiro. O gesto, público e simbólico, reforça o orgulho e o respeito da comunidade por aqueles que defendem a Pátria, assegurando que o legado dos que serviram permanece presente na vida cívica do concelho.

Décadas depois, este sentimento de memória e reconhecimento foi novamente colocado em destaque. Em 2014, sob a presidência de Bernardino Soares (mandatos de outubro de 2013 a outubro de 2021), o Município de Loures prestou homenagem aos seus combatentes da Grande Guerra. No dia 25 de julho, durante as comemorações do 128.º aniversário da elevação de Loures a concelho, foi anunciada a reabilitação do monumento, com destaque para a recuperação da escultura, limpeza de cantarias e detalhes em bronze, bem como a renovação da base, agora em mármore preto. Mais tarde, a 19 de outubro do mesmo ano, foi descerrada uma placa comemorativa do centenário da Grande Guerra, na presença de representantes da Câmara Municipal, da Direção Central da Liga dos Combatentes e do Regimento de Transportes. Esta homenagem foi acompanhada de investigação histórica detalhada, conduzida por uma equipa multidisciplinar, resultando na publicação da Parte III do livro “In Memoriam” e na identificação específica dos lourenses mobilizados para África e França.

O centenário do Armistício foi assinalado em 11 de novembro de 2018, com a inauguração de um Memorial desenvolvido para aqueles que, cem anos antes, tinham deixado tudo para trás e rumaram para os campos de batalha. A cerimónia decorreu sob chuva intensa, reunindo representantes das Forças Armadas, das Edilidades de Loures e Odivelas, além de combatentes inscritos no Núcleo de Loures da Liga dos Combatentes.

Reconhecendo o interesse da população neste símbolo de memória coletiva, a Câmara Municipal de Loures aprovou, em reunião de 31 de agosto de 2022, a classificação do Monumento aos Mortos da Grande Guerra como Monumento de Interesse Municipal, destacando o seu significado histórico e afetivo para o concelho.

Em 2023, o desejo de perpetuar novas memórias levou à proposta de criar uma lápide dedicada aos lourenses tombados na Guerra Colonial. A ideia foi acolhida pelo presidente do município Ricardo Leão (mandato desde outubro de 2021) e, a partir de outubro desse ano, técnicos e investigadores iniciaram o levantamento dos dados e a validação dos nomes dos militares que perderam a vida nas campanhas de Angola, Guiné e Moçambique, com apoio do Núcleo de Loures da Liga dos Combatentes e com consulta rigorosa aos registos oficiais. Assim, no dia 10 de outubro de 2024, foi inaugurado o Memorial aos Combatentes do Ultramar, dedicado aos lourenses que deram o melhor de si em África, frequentemente a custo da juventude e do futuro. A cerimónia reuniu familiares, entidades civis e militares, e incluiu o chamamento dos nomes dos tombados, deposição de flores e alocuções das entidades presentes.

Estas memórias foram mantidas e celebradas pelo Núcleo da Loures da Liga dos Combatentes, cuja presença se faz notar anualmente nomeadamente em datas marcantes como sejam nos dias 9 de abril e 11 de novembro, junto dos monumentos aos combatentes em Loures, e 2 de novembro, junto dos talhões de combatentes nos cemitérios de Caneças, Loures, Odivelas e Sacavém. Com o avanço dos anos e a chegada de novos conflitos, como a Segunda Guerra Mundial e o Ultramar, a tradição das homenagens continua integrando diferentes gerações de militares na mesma memória coletiva.

Com estes gestos, Loures reforça o seu compromisso com a preservação da memória e da História Militar portuguesa. O jardim central, com o Monumento e as lápides dedicadas aos seus combatentes, tornou-se um lugar de referência, perpetuando os nomes e o sacrifício dos lourenses que cumpriram, até ao último momento, o seu juramento à Pátria.

José da Silva Marcelino Martins
Combatente na Guiné (1968-1970)
Sócio Combatente n.º 80.393
Núcleo de Loures da Liga dos Combatentes

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Nota do editor

Último post da série de 22 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27451: Efemérides (474): Foi há 55 anos a Op Mar Verde, a invasão anfíbia de Conacri... Uma das vítimas colaterais foi Mamadou Barry, "Petit Barry" (n. 1934), colaborador próximo de Sékou Touré, encarcerado 7 anos em duas das mais sinistras prisões do regime