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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28293: A Nossa Poemateca (12): Ruy Belo (1933-1978) no "país sem olhos e sem boca", onde "não acontece nada", que "é o que o mar não quer", e que tem "a forma do sável que vem nas enxurradas"... Como construir o "Portugal futuro" ?


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Fez agora 48 anos que morreu Ruy Belo (Rio Maior, 1933- Monte de Abraão, Queluz, Sintra, 1978).
 
Morreu cedo, aos 45 anos. De edema pulmonar. Em  9 de agosto de 1978. Desconfio que a Pátria, ingrata, distraída ou descuidada, o deixou morrer (para não dizer que que o matou, precocemente, por negligência). Como tem deixado morrer ou matado, precocemente, alguns dos melhores de nós... 

Ele, um dos "vencidos do catoliscismo",  não foi soldado de armas na mão, mas lutou por (e sonhou com)  "O Portugal futuro"... 

Este é justamente um dos poemas  de que eu mais gosto, ao ponto de o ter reproduzido na dedicatória (à Alice, à Joana e ao João),  constante da minha tese de doutoramente em saúde pública/saúde ocupacional, "Política(s) de saúde no trabalho: um inquérito sociológico às empresas portugueses" (Universidade NOVA de Lisboa, 2004).

Tal como gosto, particularmente, dos três outros poemas, que aqui também reproduzo na nossa poemateca (*):  "Portugal sacro-profano - Lugar onde",  "Portugal sacro-profano - Vila do Conde" e "Morte ao Meio-Dia". 

Na "explicação preliminar" à 2ª edição do seu livro de 1970, "Homem de Palavra(s)", ele escreveu, três meses antes de morrer,  que em "O Portugal futuro"  nos surge "um país descolonizado", que tinha a forma de um "sável", um peixe que vinha nas enxurradas, em Rio Maior, "quando os barcos navegavam entre as cepas" (Ruy Belo, "Todos os poemas", 2000, pág. 187)...

Já nos  nos outros dois poemas ele retoma o tema da dicotomia pátria / país (onde nada acontece), que lhe era particularmente caro. "Desenhar" um país novo implicaria, de algum modo, renunciar ao passado: afinal, "o meu país é o que o mar não quer", diz ele no célebre e genial verso do poema "Morte ao Meio-Dia":

(...) No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça (...)

(...) A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


E o que o mar não quer,  são os "náufragos", os destroços da história trágico-marítima, do Império, do Estado Novo, os pescadores, os marinheir0s, os cavadores de enxada, as mulheres que pariam com dor os futuros s soldados, mas também os mortos das guerras de descolonização,  os desterrados, os retornados, e todos os demais perdedores...
 
Quando leio e releio este poema icónico, não posso deixar de pensar nos soldados 
que, como eu, se sentiram "náufragos" de uma guerra sem sentido... (Eu, pelo menos, nunca consegui encontrar o fio à meada no labirinto desta guerra.)

Por outro lado,  chama a Portugal "país sem olhos e sem boca", uma "pátria" que da palavra só tem a "superfície"...

E Vila do Conde, "o lugar onde o coração se esconde"  ? Bom, foi lá que o poeta, ribatejano,  se casou com uma minhota, Maria Teresa Carriço Marques, professora de liceu, mãe dos seus 3 filhos, um deles um notável fotógrafo, Duarte Belo.

Não sendo um poeta "fácil", Ruy Belo merece ser lembrado e sobretudo melhor conhecido, por nós, antigos combatentes... Um poema como  "Portugal sacro-profano: lugar onde",  ajuda-nos a questionar o que foi (e é)   "Portugal", milenar, um lugar de memória, de ausência, de conflitos (internos e externos)...

Por outro lado, o título ("Portugal sacro-profano") sugere uma tensão dicotómica entre o sagrado (o ideal, o espiritual, o transcendente, a missão, o dever) e o profano (o real, o quotidiano, o imanente, a violência, a dúvida). 

Eu leio-o como  uma metáfora poderosa para a experiência da guerra da Guiné: o ideal de servir a pátria 'versus' a realidade brutal de um conflito absurdo, e  sem fim à vista.

Ruy Belo era um homem de/da palavra. Também um artesão. Um perfeccionista. E um incansável poeta.  Teríamos hoje uma obra gigantesca, se ele fosse vivo.  (Mesmo assim, a sua obra completa, em edição crítica da Assírio & Alvim, é um grosso volume de quase 7 centenas de páginas.)

São quatro poemas, os da minha antologia pessoal,  que têm uma estrutura, um ritmo, uma cadência, uma oralidade,  que os torna fáceis de ler em voz alta, em qualquer  uma das nossas tertúlias... ou encontros de antigos combatentes. (Gostaríamos de os levar comigo, na minha derradeira viagem, quando me despedir um dia destes da Terra da Alegria: é, de resto, o título do seu penúltimo livro de poesia, publicado em 1977, "Despeço-me da Terra da Alegria".)

Não são poemas panfletários, "à Guerra Junqueiro", não têm uma leitura imediatista, são intemporais, o que é um  ponto a favor do nosso  público-alvo de quem se diz que "não gosta nem  sabe nada de poesia"... O que até nem é verdade: fomos também na Guiné homens de/da palavra, veja-se o nosso "cancioneiro da guerra", com os seus lamentos e protestos, a  sua irreverência, o seu humor de caserna, o apelo à liberdade, à justiça, à paz, enfim, com letras que glosavam a  saudade, a esperança do regresso, sem esquecer a paródia que fazíamos a letras de fados, baladas, canções, bem como a grandes obras e poetas, como os "Lusíadas", de Luís Vaz de Camões...  LG
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PORTUGAL SACRO-PROFANO ‑ LUGAR ONDE

Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria de palavra apenas tem a superfície)
os comboios são mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com a saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após as sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca

(pp. 196/197)

PORTUGAL SACRO-PROFANO – VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

(pp. 197/198)

O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

(pp. 199/200)


MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência  cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga  calado cada prestação
Para banhos de sol nem se precisa
E cai-nos  sobre os ombros quer a armaquer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

(pp. 363/364)


Ruy Belo (1933.1978) - Todos os Poemas. Liaboa: Assírio e Alvin, 2000 (com  devida vénia...) 






(1978), “Diário de Lisboa”, n.º 19727, ano 58, quarta, 9 de agosto de 1978, Fundação Mário Soares e Maria Barroso / Ruella Ramos, Disponível em: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_3667 (consultado em 2026-08-23)


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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 27 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27262: A Nossa Poemateca (11): "Aforismos", de Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

Postes anteriores da série:

12 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27007: A Nossa Poemateca (10): Ovídio Martins (Mindelo, 1928 - Lisboa, 1999), um grande poeta cabo-verdiano bilingue

28 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26536: A Nossa Poemateca (9): Cesário Verde (1855-1886): Excertos de "Nós", seguidos de "O sentimento de um ocidental"

10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26482: A Nossa Poemateca (8): José Gomes Ferreira (Porto, 1900 - Lisboa, 1985), por Mário Gaspar

21 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26410: A Nossa Poemateca (7): Adília Lopes (1960-2024): "Os amores / que não tive / (e foram muitos) /moeram-me / o juizo"...

4 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26347: A Nossa Poemateca (6): Adeus, de Eugénio de Andrade ("Os Amantes Sem Dinheiro", 1950) (escolha de Mário Vitorino Gaspar, ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé,1967/69)

2 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26335: A Nossa Poemateca (5): Romance de Tomasinho Cara-Feia, de Daniel Filipe (Ilha da Boavista, 1925-Lisboa, 1964 ) (escolha de Alberto Branquinho, ex-alf mil, CART 1689,1967/69)

31 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26331: A Nossa Poemateca (4): Força de Crecheu, de Eugénio Tavares (1861 - 1930) (escolha de Luís Graça)

30 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26328: A Nossa Poemateca (3): Adeus, irmão branco!, de Geraldo Bessa Victor (Luanda, 1917 - Lisboa, 1985) (escolha de Fernando de Sousa Ribeiro, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3535 / BCAÇ 3880, Zemba e Ponte do Zádi, Angola, 1972/74)

29 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26323: A Nossa Poemateca (2): "Lágrima de preta" (1961), de António Gedeão / Rómulo de Carvalho (1906-1997) (escolha de Beja Santos, nosso crítico literário)

27 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26318: A Nossa Poemateca (1): "Ladainha dos Póstumos Natais" (1971), de David Mourão Ferreira (1927-1996) (escolha de Valdemar Queiroz, minhoto de criação, alfacinha por adoção)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia


Lourinhã > Praia da Areia Branca - GAPAB - Grupo dos Amigos da Praia da Areia Branca > Varanda do Vigia > 9 de agosto de 2026, 20:26 > Pôr do sol. Ao fundo, do lado direito as Berlengas e o cabo Carvoeiro.

Foto (e legenda) © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Talvez um dia

por Luís Graça


talvez um dia o sol 
volte a girar à volta da terra

talvez um dia a gente não aguente
a fé inabalável na ciência

talvez um dia tu percas a fé 
e a decência 
e o controlo dos esfíncteres 

talvez um dia Galileu Galilei jure que não 
e o Ptolomeu diga que sim, 
muito simplesmente

talvez um dia tu caias na armadilha, 
antipessoal, 
de querer viver (e)ternamente 

talvez um dia se descarte, 
afinal, 
a dúvida metódica de Descartes 

talvez um dia a gente se desidrate 
até à útima gota 
d'água 

talvez um dia o sol 
caia
a pique 
sobre
a tua
cabeça 

talvez um dia,
com mágoa, 
tu deixes de pensar
e de ter um sitio para onde  ir,

e logo desistas  de existir

praia da areia branca | vigia
7 de agosto de 2026
(no 50º aniversário de casados do Luís & Alice)

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Nota do editor LG:

Último poset da série > 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28225: Manuscrito(s) (Luís Graça) (291): As minhas geografias emocionais: Ainda o conventinho da Arrábida... Salazar gostava de lá ir... E eu também gosto.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28091: Efemérides (397): Desfile Militar do Dia 10 de Junho de 1964, Dia de Camões, no Terreiro do Paço, em Lisboa (António Bastos, ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953)

1. Mensagem do nosso camarada António Paulo Bastos (ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953, Teixeira Pinto e Farim, 1964/66), com data de 10 de Junho de 2026:

Bom Dia para todos os Camaradas da Tabanca Grande e não só.
Como não podia deixar passar este Dia sem o recordar, aqui vão umas fotos cá do Periquito.
E já lá vão (26 Anos) ou não 62.

Um abraço para todos os Camaradas e muita Saúde.
António Paulo S. Bastos
Pelotão Caçadores 953


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Nota do editor

Último post da série de 11 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28090: Efemérides (396): Cerimónia de Comemoração do Dia de Portugal e de homenagem aos Combatentes de Leça da Palmeira mortos na Guerra do Ultramar

Guiné 61/74 - P28090: Efemérides (396): Cerimónia de Comemoração do Dia de Portugal e de homenagem aos Combatentes de Leça da Palmeira mortos na Guerra do Ultramar

CERIMÓNIA DE COMEMORAÇÃO DO DIA DE PORTUGAL E DE HOMENAGEM AOS COMBATENTES DE LEÇA DA PALMEIRA MORTOS NA GUERRA DO ULTRAMAR

O Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes promoveu, em colaboração com a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, a cerimónia em epígrafe, que contou com as presenças do Presidente do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes, Tenente Coronel Armando Costa, do Presidente da Junta de Leça da Palmeira, Dr. Plácido Santos, da Presidente da Câmara, Dra. Luísa Salgueiro, membros dos Órgãos Sociais do Núcleo, sócios da Liga, familiares e amigos e cidadãos de Leça da Palmeira entre os quais o Sr. Jorge Ortigão, irmão do ex-Alferes Mil Manuel Ortigão de Oliveira, falecido em Angola em 1962, o clarim dos Bombeiros de Matosinhos-Leça da Palmeira, o Porta Guião do Núcleo, num total de dezenas participantes.

Pelas 10H30, iniciou-se a cerimónia na entrada do parque público Fernando Pinto de Oliveira, em frente ao edifício da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira, com a concentração dos presentes em frente ao Memorial, onde se encontram os nomes dos combatentes leceiros que tombaram pela Pátria. O orador da cerimónia, Vogal da Direção, Sargento Ajudante Joaquim Oliveira, deu início à leitura do guião da cerimónia a que se seguiu a audição e entoação do Hino Nacional por todos os presentes.

O Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Núcleo, Sr. Ribeiro Agostinho, fez a chamada de todos os combatentes mortos da freguesia na Guerra do Ultramar, seguindo-se a deposição de duas coroas de flores e o orador leu a prece do Exército. A cerimónia prosseguiu com o respetivo toque de homenagem aos mortos e, após um minuto de silêncio, o clarim dos Bombeiros de Matosinhos-Leça da Palmeira fez o toque de alvorada.

De seguida, decorreram os discursos feitos pelo Presidente da Direção do Núcleo, pelo Presidente da Junta e pela Presidente da Câmara. Por último, ouviu-se o Hino da Liga dos Combatentes. Fez-se cumprir pela 19.ª vez, a tradição de uma iniciativa de um grupo de combatentes leceiros (que são presentemente sócios da Liga) que, antes da existência do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes, a realizavam anualmente em Leça da Palmeira, no dia 10JUN.


O Combatente Ribeiro Agostinho faz a chamada dos camaradas caídos em campanha
Toque de silêncio
Deposição de uma coroa de flores pelo Presidente da Direcção e Presidente da Mesa do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes
Deposição de uma coroa de flores pela Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos e Presidente da Junta da Freguesia de Leça da Palmeira
Alocução do Presidente do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes
Alocução do Presidente da Junta de Freguesia de Leça da Palmeira
Alocução da Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos
Memorial aos Combatentes de Leça da Palmeira, caídos em campanha, inaugurado no dia 28 de Junho de 2025

Texto: Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes
Fotos: José Trindade, editadas por Carlos Vinhal

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Nota do editor

Último post da série de 3 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28069: Efemérides (395): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte VI: CCAÇ 2591/CCAç 13, "Os Leões Negros" (1969/71)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28069: Efemérides (395): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte VI: CCAÇ 2591/CCAç 13, "Os Leões Negros" (1969/71)

Guiné > Região do Oio > Binar > Nhamate > 1970 > CCAÇ 13 > Spínola de visita ao reordenamento de Nhamate, cumprimenta o cap mil inf Álvaro Alberto Durão, o primeiro capitão da CCAÇ 13 (1969/71).

Foto do álbum de Adriano Silva, ex-fur mil, CCaç 13 (a companhia passou por Bissau, Bolama, Bissorã, Encheia, Binar e Biambi;foi substituída, em Binar, em finais de março de 1970, pela CCAÇ 2658, que terá mais tarde, numa coluna de Nhamate a Binar, 8 mortos.

Foto: Cortesia de Carlos Fortunato, ex-fur mil,  CCAÇ 13 (1969/71), o melhor sítio na Net sobre companhias individuais que estuveram no CTIG > Guerra na Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13, Binar, 1970


1. Uma das companhias que seguiu connosco (CCAÇ 2590 /CCAÇ 12) no T/T Niassa, com destino à Guiné,  em 24 de maio de 1969 (fez agora 57 anos), foi a CCAÇ 2591 (será extinta em 18 de janeiro de 1970, dando origem à CCAÇ 13). 

Infelizmente temos escassas referências à CCAÇ 2591.  Alguma informação estava disponível no sítio criado e administrado pelo nosso amigo e camarada Carlos Fortunato:  CCAÇ 13 -Os Leões Negros: Memórias da Guerra na Guiné (1969/71), já há muito descontinuado. Felizmente foi recuperado, como arquivo morto, podendo ser consultado aqui, no  Arquivo.pt:

https://arquivo.pt/wayback/20100531194155/http://leoesnegros.com.sapo.pt/index.html

Tal como a CART 11, CCAÇ 12, CCAÇ 14, etc., esta subunidade passou a fazer parte da "nova força africana", tão cara ao gen Spínola.


2. Comecemos pelas fichas de unidade das CCAÇ 2591 e CCAÇ 13


Carlos Fortunato
 : tem cerca
de uma centena de referências


Companhia de Caçadores n.º 2591


Identificação: CCaç. 2591

Unidade Mob: RI 16, Évora

Cmdt: Cap Mil Art Álvaro Alberto Durão

Divisa: "Conduta brava e em tudo distinta"

Partida: Embarque em 24Mai69;  desembarque em 30Mai69 | Extinção em l8Jan70

Síntese da Actividade Operacional

A subunidade foi constituída com quadros e especialistas metropolitanos e enquadrou pessoal natural da Guiné, da etnia Balanta, tendo efectuado a 2ª fase da instrução de formação no CIM, em Bolama, 
 e sido utilizado em patrulhamentos, reconhecimentos e contactos com as populações da região.

Em 05Nov69, foi colocado em Bissorã, como força de intervenção e reserva do BCaç 2861, tendo sido empregada em várias acções, patrulhamentos e emboscadas nas regiões de Namedão, Cate e Camã.

Em Jan70, destacou dois pelotões para Binar, a fim de efectuar a segurança e protecção dos trabalhos da estrada Binar-Nhamate.

Em 14Jan70, a subunidade foi colocada em Binar, a fim de colaborar nos trabalhos de recuperação das populações da área da península de Encherte e na instalação e autodefesa dos reordenamentos.

Em 18Jan70, a subunidade passou a designar-se CCaç 13, sendo subunidade de guarnição normal, a partir daquela data.

Observações - Não tem História da Unidade.

Fonte: livro Resenha histórico militar das Campanhas de África, 7º Volume, Fichas das Unidades, Tomo II - Guiné


Companhia de Caçadores n.º 13


Carlos Prata, membro da Tabanca Grande
desde  24/11/2011

Identificação: CCaç 13

Cmdts:
  • Cap Mil Inf Álvaro Alberto Durão
  • Alf Mil Inf (Ranger) Adelino Manuel de Almeida Pimenta Correia
  • Cap Mil Inf João Carlos Carvalho de Castro
  • Cap Mil Cav (Ranger) Carlos Matos de Oliveira - 06/72 a 03/74
  • Cap Cav Carlos Alberto Duarte Prata - 03/74 a 04/74(?)
  • Cap Mil Inf Humberto Manuel Teixeira Gonçalves de Figueiredo - 05/74(?) a 08/74
Início: 18Jan70 (por alteração da anterior designação de CCaç 2591) | Extinção: 20Ago74


Síntese da Actividade Operacional




Em 18Jan70, foi criada por alteração da sua designação anterior, integrando os quadros e praças especialistas metropolitanos e pessoal natural da Guiné, predominantemente da etnia Balanta, que constituíam, anteriormente, a CCac 2591.

Continuou instalada em Binar, então orientada para a segurança e protecção dos trabalhos dos reordenamentos da península do Enxerte, tendo estabelecido o seu estacionamento em Nhamate, a partir de 02Fev70, com os seus pelotões disseminados por Manga, Encherte e Unche.

Em 14Mar70, substituída no subsector de Nhamate pela CCaç 2658, foi colocada em Bíambe, passando então à dependência directa do CAOP l como subunidade de intervenção e reserva daquele comando e, a partir de 30Mai70, do BCaç 2861., tendo tomado parte em diversas operações realizadas nas regiões de Encherte, Queré, Chaté-Inquida e Mores, entre outras.

Em 12Jun70, foi deslocada para Bissorã, a fim de assumir a responsabilidade do respectivo subsector, em. substituição da CCaç 2.444, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2861 e sucessivamente do BCaç 2927, do BCaç 4610/72 e do BCav 8320/73.

Em 20Ago74, foi desactivada e extinta.

Obs - Tem História da Unidade a partir de OlMar72 (Caixa n." 128 - 2.ª Div/ 4ª Sec,
do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 633

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Nota do editor LG:

sábado, 30 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28060: Efemérides (394): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte V: Menos de dois meses depois, a guerra acaba para o Sori Jau, o Braima Bá e o Udi Baldé, os primeiros feridos graves da CCAÇ 2590/CCAÇ12, em Madina Xaquili


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Junho de 1969 > CCAÇ 2590 (futura  CCAÇ 12) > O 2º Grupo de Combate, ainda em período de instrução da especialidade no CIM de Contuboel , 
que pertencia ao sector L2 (Bafatá). O Braima Bá e o Udi Baldé estão aqui na foto, mas não consigo identificá-los.

O 2º Gr Comb era comandado pelo alf mil at inf António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018),  que aparece na aqui fotografia, na primeira fila, ajoelhado, olhando no sentido oposto ao do fotógrafo. Atrás dele o soldado Arménio, o nosso "Campanhã", taxista no Porto (era cabo, antes de embarcar mas foi despromovido, por ter apanhado uma porrada, por participação do 1º srgt cav Fragata).

De pé, na terceira fila, os fur mil at inf Tony Levezinho (com quem passei ontem "um dia para mais tarde recordar", na Tabanca da Ponta de Sagres - Martinal)  e o OE / Ranger Humberto Reis. Na segunda fila, meio agachados, os 1ºs cabos Branco e Alves (de alcunha o "Alfredo",  já falecido).

Um grupo de combate da CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12) era constituído por 30 homens. Havia 4 Gr Comb. Cada grupo de combate, comandado por um alferes, tinha três secções (1 furriel e 1 cabo e oito soldados, estes africanos).

Cada secção era especializada. Havia a secção dos LGFog, com o respectivo apontador e municiador (1 LGFog 8.9, 1 LGFog 3.7). Havia a secção do Morteiro 60 (apontador e municiador ). E havia ainda a secção da Metralhadora Ligeira HK 21 (apontador e municiador). Cada combatente estava equipado com a espingarda automática G-3 e granadas defensivas. Em geral havia ainda dois apontadores de dilagrama (neste caso, 1ª e 3ª secção). 

Fotos (e legendas): © António Levezinho (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. A presença de Spínola, ainda brigadeiro, na cerimónia de juramento da bandeira dos soldados da PU (província ultramarina) da Guiné, não deixa de ser significativa do seu empenho pessoal no projecto de africanização ou, melhor, guineização da guerra. 

As futuras CART 11 e CAÇ 12, bem como CCAÇ 13 e CCAÇ 14, são uma das primeiras unidades da "nova força africana", por quem o  novo governador e comandante-chefe tinha muito carinho e orgulho, e de quem esperava muito.

No caso da CCAÇ 259o / CAÇ 12, Spínola visitar-nos-ia várias vezes, incluindo na nossa semana de campo, em Contuboel. Tal gesto tinha um especial significado para as nossas praças africanas e para alguns de nós, quadros metropolitanos.

Confesso que nunca simpatizei com a personagem (embora fosse o com-chefe). Digo-o, sem com isso querer escamotear ou ignorar o seu papel nas mudanças operadas em Portugal com o 25 de Abril de 1974, nem muito menos ofender os seus admiradores. Para todos os efeitos, foi (e é)  uma figura de referência nacional, e como tal a sua memória deve ser respeitada. Competirá aos historiadores definir o seu papel da nossa história.

2. Na época em que demos a instrução de especialidade às nossas tropas africanas (de 2 de junho a 17 de julho de 1969), Contuboel era, ainda era, um oásis de paz. Lá ainda se podia "brincar às guerras" num raio de alguns quilómetros, no meio de uma vegetação luxuriante. Lembro-me de haver lá uma serração de um tuga, o que indiciava abundância de madeiras exóticas. Tomávamos banhos no rio (Geba), andávamos de canoa, íamos às "pontas" comprar frutas e legumes, passeávamos pelas belíssimas tabancas, plenas de gente jovem, alegre e ruidosa. Não voltei a encontrar gente tão feliz!

Ao longo dessas curtas e rápidas semanas aprendemos a conviver com os nossos soldados fulas (e alguns futa-fulas, dois mandingas e um mancanha, num total de menos de uma centena de homens). 

A maior parte não falava o português, não estavam habituados a andar calçados, não faziam a mínima ideia onde ficava Portugal,  eram "desarranchados"... Isto pode dar uma ideia do grau ou do esforço penetração da nossa cultura, no leste da Guiné, depois de "cinco séculos de missão civilizadora", escrevia eu com ironia no meu diário.

Nestas condições, a instrução de especialidade (bem como a IAO), como se deve imaginar, não foi nada famosa. Estávamos a 4 mil km do nosso ponto de partida, o Campo Militar de Santa Margarida, onde, ainda bem me lembro, também brincámos às guerras, e fizemos os nosso "roncos" no essencial, assalto aos "acampamentos do IN a fingir", e pilhagem de tudo o que era bebível e comestível.

Em plena época das chuvas, ainda em fase de adaptação ao terrível clima da Guiné, hostil a qualquer "tuga", em farda nº 3 , espingarda automática G3 ao ombro e cartuchos de salva nos carregadores (à cautela, não fosse o diabo tecê-las, os graduados, tugas, levavam alguns carregadores com bala real)... Estão a imaginar esta "guerra-de-faz-de-conta" ?!

Era ainda a "dolce vita" da Guiné (como eu escrevia no meu diário), aqui e ali perturbada pelas histórias (reais) que a velhice nos contava, a nós periquitos, de Madina do Boé,  de Gandembel, e Guileje,  "lá longe no sul"...ou mais perto, no sector L1 (Bambadinca) onde decorrera a Op Lança Afiada, três meses antes (março de 1969).

A companhia dos "Lacraus" aquartelada em Contuboel, do Abílio Duarte, Valdemar Queiroz, Renato Monteiro, etc. (CART 2479, futura CART 11) já havia dado a recruta às nossas praças, em março e abril de 1975. 


3. A 18 de Julho de 1969 , a futura CCAÇ 12 (que, por enquanto, ainda era a CCAÇ 2590) é dada como operacional. Atendendo à origem étnico-geográfica das suas praças do recrutamento local, por sugestão do Com-Chefe, ficamos radicados em chão fula, às ordens do BCAÇ 2852 (1968/70), com sede em Bambadinca.

A 21 de julho, menos de dois meses depois da nossa chegada à Guiné, quando ainda nem sequer tinham sido distribuídos os camuflados à nossa tropa africana, temos a nossa primeira "saída para o mato" , seguida do nosso "baptismo de fogo", no sector L1...

De facto, em Madina Xaquili, temos o nosso primeiro ferido grave, evacuado para Bissau, a 24; e a 28, mais dois feridos graves, numa ataque nocturno àquela aldeia fula que será definitivamente abandonada pela sua população e, mais tarde (em outubro), pelas NT.

Para três dos nossos soldados africanos, a guerra havia acabado, mal começara: ficarão definitivamente inoperacionais e/ou incapacitados, não sem que um deles tenha de passar, primeiro, por outro inferno, o do Hospital Militar da Estrela, em Lisboa...

Pergunto-me, com amargura, o que será feito de vocês três, camaradas guineenses, 57 anos depois  ?  O mais provável é que já tenha morrido todos:

  • o Sori Jau (3º Gr Combate, evacuado para o HM 241); 
  • o Braima Bá (inoperacional, do 2º Gr Com);
  • o Udi Baldé (evacuado para Lisboa e retornado a casa com 35% de incapacidade física), também do 2º Gr Comb ?

Madina Xaquili é uma história para voltar a recordar.  Ficava enter o rio Corubal e Dulombi, no sub-sector de Galomaro que foi depois transformado em Sector L5 da Zona Leste.  

(Continua)

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Nota do editor LG:

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28058: Efemérides (393): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte IV: "E tudo o vento levou"... Os navios de transporte de tropas


A caminho da Guiné > A bordo do Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > Quadros metropolitanos da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), na viagem de Lisboa-Bissau. Da esquerda para a direita: 2º sargento Alberto Videira (já falecido), furriéis milicianos António Branquinho (já falecido), Tony Levezinho, Humberto Reis, Joaquim Fernandes, eu (Graça Henriques) e Luciano Almeida (já falecido). Na mesa de trás, ao fundo, receonhece-se, à ponta, do lado esquerdo, o  João Martins, o nosso "pastilhas" (fur mil enf).

Foto: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Foi há 57 anos que embarquei para a Guiné no T/T Niassa,  regressaria 22 meses depois no T/T Uíge (*). 

Hoje, olhando para trás, impressiona a dimensão logística e humana daquele esforço militar que o nosso país fez. Entre partidas e regressos, milhares de portugueses cruzaram o Atlântico e o Índico em navios que ficaram para sempre associados à memória da Guerra do Ultramar / Guerra Colonial  

Para muitos antigos combatentes, recordar o Niassa, o Uíge ou o Vera Cruz é recordar uma etapa decisiva da sua juventude, feita de camaradagem, incerteza, medo, distância e saudade. (E já não falo das "viagens de retorno" de centenas de milhares de portugueses, vítimas da descolonização, em 1974 e 1975.)

Recorde-se aqui a "epopeia" do transporte marítimo (e depois aéreo) de tropas para o Ultramar, a pretexto de mais uma efeméride.

Em finais dos anos 50, depois de investimentos públicos de grande envergadura, a marinha mercante portuguesa tinha atingido o seu desenvolvimento máximo. Éramos uma "potência marítima",  com uma frota de 22 paquetes, somando no total de 167 000 toneladas. (Sem esquecer a frota pesqueira, e nomeadamente a "frota branca", que  ia á pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia.)

Na marinha mercante  destacavam-se   quatro gigantes, Santa Maria, Vera Cruz, Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique:
  • com cerca de 30 000 toneladas cada um;
  • sendo capazes de transportar mais  de 1000 passageiros ou mais de 2000 soldados.

Quase todos estes paquetes foram requisitados em diversas ocasiões para transporte de tropas, muito especialmente na fase inicial da guerra. De resto, todas as unidades da marinha mercante seriam essenciais para manter o esforço de guerra em África.  Entre os  mais requisitados na ligação a África  destaca-se  o Vera Cruz, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíge.

O Niassa foi o primeiro paquete fretado como transporte de tropas e de material de guerra, por portaria de 4 de Março de 1961. O Vera Cruz, por sua vez, seria aquele  a fazer mais viagens, chegando a realizar 13 num ano:

  • em 1961, efectuaram-se 19 travessias por nove paquetes em missão militar;
  • o ritmo aumentou à medida que a força expedicionária em África crescia;
  • em 1963, tinham-se efectuado 27 viagens por oito paquetes;
  • e, em 1967, 33 por nove. 
  • até 1974, o mar foi grande via de ligação ao império, tendo mais de 90 por cento da carga e de 80 por cento do pessoal metropolitano empenhado na guerra sido transportado em navios

 Fonte: Adapt de Centro de Documentação 25 de Abril, com a devida vénia.

 2. Recorramos, mais uma vez,  ao nosso "enciclopédico" Pedro Marquês de Sousa, autor de "Os números da Guerra de África" (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pp. 306 e ss.), que tem informação preciosa sobre esta matéria no seu capítulo IV (As despesas da guerra).

Escreveu ele: "Estes três navios que asseguraram 75% das viagens de ligação de Lisboa para África realizaram 146 viagens para Angola, 50 para a Guiné e 30 para Moçambique" (pag. 306). 

Analisando o período entre 1965 e 1970 (seis anos), o autor apurou que o número médio anual de viagens foi 18, 8 e 5, para Angola, Guiné e Moçambique, respetivamente (pág. 307).  

Por sua vez, a média de militares transportados (ida e volta), por ano foi a 70 mil: mínimo, 54 mil em 1966, máximo, 74,9 mil em 1969.

Discriminam-se a seguir os navios que transportaram tropas entre 1961 e 1975, por ordem decrescente do nº de viagens. O destaque vai para o Vera Cruz, o Niassa, o Uíge e o Ana Mafalda, com mais de duas dezenas de viagens:

  • Vera Cruz: 85;
  • Niassa: 66;
  • Uíge: 47; 
  • Ana Mafalda: 22;
  • Índia: 13;
  • Cuanza: 11;
  • Império: 9;
  • Pátria:7;
  • Carvalho Araújo: 5;
Total=265.

Estes nove  seriam os principais navios afetos ao transporte de tropas... Mas o autor fala num frota de 15... Há outros que fizeram também viagens, mas esporádicas: 

  • Arraiolos (em 1961, para Angola, e depois em 1974, para a Guiné); 
  • Sofala (em 1963, para a Guiné);
  • Timor: 2 viagens para a Guiné em 1967;  outra, em 1969, para a Guiné; em 1970, para Angola; em 1971, outra para Angola e Moçambique,

Mas há mais: 

  • em 1974, os navios Bragança, Cabo Bojador e Alcobaça, fizeram uma viagem para a Guiné; 
  • e em 1975 realizaram uma viagem a Angola e Moçambique os navios Lendas, Beiras, Amarante,  Infante D. Henrique, e o Serpa Pinto;
  • e ainda em 1975, mas só para Angola, viajaram o Papacostas, o Panarrange (duas viagens), o Lobito, o Novo Redondo e o Leixões (pág. 309), nomes de navios de que nunca tínhamos ouvido falar...

Mas, no caso de transportes de tropa para a Guiné (e da Guiné), há omissões: 

  • não são referidos o N/M Angra do Heroísmo, o N/M Rita Maria e o N/M Alenquer; 
  • o N/M Lima não sabemos se alguma vez foi à Guiné; 
  • mas há ainda o N/M Alfredo da Silva (que viajava para a Guiné, era da SG / CUF);
  • e, se calhar outros,  que não nos vêm à memória.

Vejam-se aqui as referências todas que temos no nosso blogue aos navios a motor (N/M) (às vezes designados por T/T no texto), por ordem decrescente de referências:


Segundo a fonte que  temos vindo a citar (Sousa, 2021, pág. 309),  o Uíge (com lotação de 571 passageiros e 139 tripulantes)  fez mais viagens (28) para a Guiné do que o Niassa (22). 

O Ana Mafalda também fez muitas viagens para a Guiné, "sobrelotado com unidades dos Açores e da Madeira, chegando a levar duas companhia (cerca de 300 homens), apesar de a sua lotação ser apenas de 52 passageiros e 47 tripulantes".

O N/M Funchal nunca transportou tropas que eu saiba, era um navio de cruzeiro... Transportou, sim, em fevereiro de 1968,  o presidente da República, Américo Tomás, e sua comitiva na visita  à Guiné, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz. Daí ter uma referência no nosso blogue.

3. Nunca, ao longo da nossa história secular, recrutámos, mobilizámos e transportámos tantos combatentes, para teatros de operações,  distantes, em milhares de quilómetros, em África, como durante o período de 1961/75. 

Basta recordar que nos três teatros de operações (Angola, Guiné e Moçambique) estiveram empenhados cerca de 800 mil militares portugueses: cerca de 70% provenientes da metrópole, e sendo os restantes do recrutamento local (pág. 199).

Nessa época Portugal tinha uma belíssima  frota da marinha mercante, à qual podia requisitar navios para transporte de tropas, material de guerra, víveres e outros meios logísticos. 

Em 1971, o país aumentaria a sua capacidade de transporte por via áerea, com a aquisição de dois aviões Boeing 707, por parte dos TAM - Transportes Aéreos Militares. Começaram a operar na ligação Lisboa-Luanda, trajeto que faziam em 10 horas (enquanto o Vera Cruz demorava 10 dias). 

É bom recordar aqui a demora média das viagens  para os três teatros de operações, por via marítima:  
  • 9/10 dias, Lisboa-Luanda;
  • 5/6 dias, Lisboa-Bissau; 
  • 19/22 dias, Lisboa-Moçambique (dependendo do porto de desembarque).
(Continua)
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