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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28473: Humor de caserna (300): O plano de vacinação da tropa: a nossa "dose de cavalo" (Carlos Vinhal, José Câmara, António Murta, Luís Graça, José Teixeira)









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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Carlos Vinhal | José Câmara | António Murta | Luís Graça | José Teixeira  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



1. Comentários aos poste P28470 (*):

1.1. José Câmara (EUA):

Mano Carlos,

Em Tavira eramos mais sotisficados. A referida vacina, se bem me lembro, foi dada na nádega e na parada do CISMI.

Abraço atlântico fraterno.

José Câmara
quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 22:45:21 WET


1.2. António Murta (Figueira da Foz):

Olá, Carlos Vinhal.

Eu também passei por uma cena caricata no dia das vacinas, mas não desmaiei. A bicha para receber a vacina foi formada na rua e, como a vacina era dada no braço, mandaram-nos descer o blusão para as costas e deixá-lo preso nos braços. 

O ritual da vacinação foi exactamente como descreves. Ora, quando o enfermeiro (que eu pensava que era o último) enfiou a seringa na agulha e a despejou, seguiu para o "cliente" seguinte sem uma palavra. Eu, sem mais aquelas, julgando ter-me já safado, puxei o blusão para os ombros e fiquei a aguardar. 

Uns minutos depois aparece outro enfermeiro e, fitando-me nos olhos, perguntou-me onde é que eu tinha posto a agulha. Perguntei-lhe "qual agulha?" e ele mandou descer o blusão e abriu muito os olhos quando viu a agulha ainda no braço. Olhei de esguelha e nem quiz acreditar... Não desmaiei mas nunca mais me esqueci do incidente.

António Murta.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 23:38:48 WET

1..3. Tabanca Grande Luís Graça:

Carlos e António: Não me lembro de ter desmaiado na vida...

Mas nessa "cena da vacinação" na tropa, na recruta, nas Caldas da Rainha (julgo eu), comecei a ver as cores do arco-íris a desaparecer...Já estava entre o verde e o amarelo desmaiado, o céu cada vez mais a desbotar-se, quando, cheio de orgulho machão, arrebitei, endireitei o corpo, ergui a cabeça ao alto... Mas foi por um triz, senão tinha caído ao chão, e não seria o primeiro, naquela enorme fila de espera onde estava os bravos filhos do povo...

Sei que estive em tronco nu, ao sol, de manhã (?), com pouca coisa no estômago... Estávamos em bicha de pirilau, e o ritual está muito bem descrito pelo Vinhal...

Aquilo parecia uma linha de montagem automóvel, e cada enfermeiro (da tropa!) tinha uma função "especializada": um homem, uma tarefa, um posto de trabalho... O "taylorismo" também tinha chegado à tropa...

Ainda não descobri foi o raio da vacina que apanhámos !... Tétano, febre tifóide... ? A da  febre amarela apanhava-se mais tarde era só para os felizes contemplados com um cruzeiro (de borla) até ao Ultramar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 09:39:20 WET


1.4. Tabanca Grande Luís Graça:

Numa pesquisa rápida na IA / Google, apurei o seguinte:

(i) Durante os anos 60 e 70, no contexto da Guerra Colonial / Guerra do Ultramar, os militares mobilizados na Metrópole (Portugal Continental) para servir na Guiné eram sujeitos a um protocolo de vacinação militar obrigatório bastante rigoroso antes de embarcarem;

(ii) A administração das vacinas ocorria habitualmente na reta final da recruta ou durante a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO), nas unidades mobilizadoras, para garantir que as reações secundárias não perturbassem os treinos iniciais;

(iii) As principais vacinas obrigatórias administradas na Metrópole incluíam:

  • Vacina contra a Febre Amarela: era a imunização mais crítica e exigida pelo Regulamento Sanitário Internacional para quem viajava para a África Ocidental; o registo era feito no célebre Certificado Internacional de Vacinação (a famosa caderneta amarela) que todos os militares tinham de transportar;
  • Vacina contra a Varíola: ainda uma ameaça global na época, a vacinação (ou revacinação) antivariólica era aplicada a todo o contingente (através do método de escarificação no braço);
  • Vacina contra a Febre Tifóide (frequentemente combinada com a vacina TAB, hoje em descontinuada): protegia contra a febre tifoide e paratifoides A e B, doenças comuns em teatros de operações com condições de saneamento, água e alimentos precários;
  • Vacina contra o Tétano: essencial para militares expostos a ferimentos de combate, picadas e cortes no terreno;
  • Vacina contra a Cólera: administrada consoante os surtos ativos e as exigências sanitárias do período da mobilização (já existia em 1971)....

Ainda não havia, nem ainda há, vacina contra o paludismo... Mas há havia a vacina contra a Pólio (Poliomielite): durante as décadas de 1960 e 1970, na sequência da introdução global da vacina oral Sabin, a vacinação contra a poliomielite passou também a fazer parte do protocolo sanitário e da caderneta de vacinação das Forças Armadas. Não sei se já fomos abrangidos...

(iv) Outras medidas profiláticas:

Para além das vacinas injetáveis aplicadas nos quartéis, os militares iniciavam ainda na Metrópole (ou imediatamente antes do desembarque) a toma diária ou semanal de comprimidos de quimioprofilaxia contra o paludismo (malária ou "sezonismo"), habitualmente à base de quinino ou cloroquina, que continuavam a tomar rigorosamente durante toda a comissão na Guiné. (Se hoje estamos surdos, agradeçam ao quinino que era  ototóxico...)

(Pesquisa: LG + IA / Google) (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 09:45:32 WET

1.5. José Teixeira (Matosinhos):

Eu, como todos nós, passei pelo "castigo" das vacinas. Numa segunda fase já como pronto e colocado no Ral 2 em Santa Clara, Coimbra, fui um dos que participei em duas ou três séries de aplicações da vacina, antes de ir para a Guiné.

Devia estar presente o médico da unidade e acolher cada recruta antes de ser dada a vacina. Porém, o médico da unidade trabalhava no Hospital Civil de Coimbra e ia ao quartel quando o rei fazia anos.
Para o substituir e preencher o questionário clínico, fui o felizardo escolhido, talvez por usar óculos. Recebidas as orientações, vesti uma bata branca, esteto ao ombro, sentado numa cadeira no fundo da sala. Cada recruta entrava e era direcionado para mim para o questionar.

Depois de preenchido o inquérito e antes de o mandar sentar na cadeira do martírio seguinte, fazia-lhe uma pergunta sacramental.

− Então não te queixas de nada?... Nem da carteira?

 − Sr. Dr., dinheiro não tenho.

− Então senta-te a seguir ao último.

E o outro, a seguir;

− Sr. Dr.,  não me posso queixar muito.

− Ótimo. Então, estás a ver aquelas seringas partidas,  ali à porta.? Os pobres rapazes enfermeiros têm de as pagar. Deixa lá cinco coroas para os ajudar.

Houve um ou outro que reagiu:

− E se eu der vinte paus e o Sr. Dr. diz para serem meiguinhos comigo?!...

− Ó nosso cabo, tome nota. Este que vai sentar-se agora,  deve ser tratado com cuidado.

No fim, seguíamos todos para a cantina, comprávamos umas latas de atum, casqueiro e umas cervejitas e petiscávamos, à custa dos mancebos que foram vacinados, logo na sexta-feira seguinte à sua entrada para a especialidade de condutores no Cica de Coimbra.

José Teixeira
quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 14:44:31 WET


(Seleção, revisão / fixação de título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Camaradas, a final qual era a famosa "dose de cavalo" ou "a de cavalo", na nossa  gíria militar ?

A que deixou  marcas e memórias dolorosas na rapazida  era a vacina TAB,  a vacina contra a Febre Tifóide e Paratifoides A e B (frequentemente administrada em fórmula tripla ou associada ao Tétano, a TAB-T).

Mas eu não sei qual era exatamente o plano de vacinação obrigatório da tropa que era mobilizada... Temos que admitir que não todos apanhávamos as mesmas vacinas... Falta aqui o testemunho dos nossos médicos e dos nossos enfermeiros. Além disso, náo eram tomadas todas de uma só vez. Quem não era mobilizado para o Ultramar, não tomava a vacina contra a febre amarela... Havia vacinas que se tomavam na recruta e outras antes do embarque para o Ultramar. Temos de ter em conta essas particularidades...

Na documentação sobre o plano de vacinação dos militares portugueses destinados aos teatros de operações, encontramos, por exemplo, em 1963, a vacinação contra:

  • Varíola;
  • Febre tifoide;
  • Febre amarela;
  • Tétano;
  • Poliomielite.

No início da décadaa de1970, aparece também a vacina contra a cólera.

Mas eis algumas das razões por que a TAB, que podia ser ou não combinada com a  vacina contra o Tétano, deixou em muitos de nós marcas traumáticas:

(i) Volume e agulhas eeutilizáveis:

Na época, ainda hão havia as seringas de plástico descartáveis, pelo menos não chegavam às nossas "cavalariças"...  As vacinas eram administradas em massa com seringas de vidro e agulhas grossas de metal, fervidas e reutilizadas dezenas e dezenas de vezes, até "partirem"... A densidade da dose e o calibre da agulha tornavam a penetração muscular e a injeção extremamente dolorosas.

(ii) Administração dolorosa (subcutânea / muscular profunda): muitas vezes era administrada no braço, mas também era frequente ser inoculada na região subscapular (nas costas/omoplata) ou no peitoral; a sensação no momento da aplicação era descrita como "um ferro em brasa" ou um "soco de chumbo".

(iii) Reações secundárias violentas (Efeito pós-vacinal): sendo composta por bactérias inativadas (Salmonella enterica de vários serotipos), a TAB era extremamente reatogénica; poucas horas após a administração, a malta desenvolvia uma série de sintomas : febre muito alta (frequentemente acima dos 39 °C) e calafrios intensos; dores musculares e articulares generalizadas (mialgias e artralgias); dor local incapacitante: o braço ou a zona das costas onde fora dada a injeção ficava inchado, vermelho e tão dorido que o militar mal conseguia mover o membro ou apoiar-se; cefaleias (dores de cabeça) fortes, náuseas e prostração total...

Era habitual companhias inteiras ficarem "de baixa" no dia seguinte à aplicação da TAB. Nos quartéis, o dia da vacinação resultava em camaratas cheias de homens prostrados na cama, com febres altas e a queixarem-se do "braço dorido" ou da "picada nas costas". (Aqui não havia "heróis" !)

Embora a varíola deixasse a característica marca de escarificação (a cicatriz circular no braço) e a febre amarela fosse a mais exigida internacionalmente, no imaginário e na memória, dorida (!),  da tropa que embarcou para a Guiné, Angola e Moçambique, a TAB foi indiscutivelmente a rainha do "terror sanitário" .

Pesquisa: LG + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Open AI) (Condensação, revisão / fixação  de texto: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. posgte de 28 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28470: (Ex)citações (450): Quando o "115" precisou de emergência médica (Carlos Vinhal, ex-Fur Mil da CART 2732)

(**) Último poste da série > 25 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28463: Humor de caserna (299): Só foi pena os lagostins, após o "incidente" com o Unimog, na estrada Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28470: (Ex)citações (450): Quando o "115" precisou de emergência médica (Carlos Vinhal, ex-Fur Mil da CART 2732)

Ilustração gerada por inteligência artificial com o ChatGPT, baseada em recordações pessoais da recruta nas Caldas da Rainha, durante o Curso de Sargentos Milicianos (abril–julho de 1969).


QUANDO O "115" PRECISOU DE EMERGÊNCIA MÉDICA

O último post do nosso amigo Artur Conceição,[1] sobre as vacinas que nos eram ministradas na tropa, lembrou-me um episódio passado no RI 5, Caldas da Rainha, durante a recruta.

Um dia fomos todos para a enfermaria do quartel a fim de recebermos a célebre vacina ou "injecção de cavalo", como era conhecida na gíria.

Longos bancos corridos num enorme corredor sombrio de chão de mosaico preto e branco, o pelotão todo em tronco nu esperava sentado, calmamente, a dita injecção.

Vem então um enfermeiro com algodão embebido em álcool, desinfectando um por um os recrutas. Mais atrás o segundo enfermeiro com uma tina cheia de agulhas que vai espetando nos nossos ombros. A seguir vem outro enfermeiro que vai injectando o desgraçado líquido e, finalmente, o último que de imediato remove as agulhas.

Todos nós conhecemos esta cena, mais ou menos assim.

No RI 5, cada um de nós tinha um número de ordem, na minha Companhia, a 6.ª, os números andavam pelo 2000. Eu era o número 2109, o meu amigo e vizinho de Leça, o Coelho, era o 2105, um camarada de S. Mamemede de Infesta (Matosinhos) era o 2107 e um camarada de Gaia, que dormia na cama ao lado da minha, seria o 2111.

Se bem se lembram, o número do emergência, hoje 112, era naquele tempo o 115. E nós tínhamos o nosso "115", mais propriamente o 2115, do qual não lembro o nome. Era um moço bastante alto, rondaria 1 metro e 80, magro e ar um pouco pálido.

Quando o enfermeiro, a quem competia injectar a vacina, passou, o 115 levantou-se de pronto, ainda com a agulha espetada. Alertámo-lo de que se devia manter sentado até lhe ser tirada. Ele, olhando por cima do ombro, vendo o canhão da agulha, de imediato perdeu os sentidos.

O "115" foi prontamente socorrido pelo pessoal de saúde ali presente, passando a partir daquele dia, e por uns tempos, a ser alvo das nossas piadas.

Lembro-me de a maioria de nós ficar com o braço "empenado" por uns dias. Acho até que nos mandaram de fim de semana prolongado.

_____________

Notas do editor:

[1] - Vid. post de 27 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28395: (Ex)citações (449): A velha placa que terá estado colocada em Mansoa (Artur Conceição, CART 730)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28313: (De) Caras (253): Manuel Joaquim (ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67): escreveu-nos o último mail há 4 anos, por razões de saúde do foro oftalmológico deixou de poder ler o blogue... Temos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ele...

 

Manuel Joaquim > Maio de 2022> 
"Vivinho da costa!"


Foto (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




1. Mensagem do Manuel Joaquim, que vamos publicar com... 4 anos de atraso.

Foi o último mail que recebemos dele, mas escrito por um dos seus netos. Por ser muito pessoal, não o publicámos na altura. Nele fazia confidências sobre o seu estado de saúde, justificando-se por não poder mais acompanhar regularmente o nosso blogue. Ontem voltámos a falar com o Manel. Nems equer falámos deste mail "esquecido na caixa do correio". Mas por ele continua connosco, e fez 85 anos,  achámos que era a altura certa para a publicar.

Recorde-se que o Manuel Joaquim:

(i) é professor primário reformado;

(ii)  foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67));

(iii)  é membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009;

(iv) tem 114 referências no blogue;

(v) é  autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra";

(vi) é pai de duas amorosas filhas e avô babado de netos;

(vii) é padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também desembarcou no T/T Uíge, no Cais da Rocha Conde d'Óbidos, em 9/5/1967; e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim) (*).

Ontem, ele fez anos (85), falei com ele ao telemóvel: estava a almoçar, feliz, com a família (esposa, filhos, netos). Está relativamente otimista: o seu problema de saúde do foro oftalmológico está  estável, ao fim de 4 anos, estando a ser medicamente acompanhado... Está  fazer tudo para "salvar" a sua vista direita.

Enfim, metaforicamente falando, el ainda consegue "ver luz ao fundo do túnel":  tem autonomia para andar na rua, mas infelizmente não consegue seguir o n0sso blogue. Não pode ler...nem sequer  letras garrafais... Depende dos filhos e dos netos, para ler e escrever. E não me pareceu psiquicamente me baixo: incentiva-nos a continuar a editar o nosso blogue...  

Fiquei feliz por saber dele, apesar dos seus problemas de saúde. Falámos de camaradas que vieram totalmente cegos da guerra como o Arruda (Moçambique) (já falecido) e o Patuleia (Angola),  ambos dirigentes  da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Camaradas que ele conheceu. Eu referi o caso mais concreto do nosso grão-tabanqueiro nº 870,  o Manuel Seleiro, natural de Serpa (**).

O Seleiro, por explosão de uma mina, ficou completamente cego, sem uma mão, só tem dois dedos na outra... Aprendeu a recorrer a um leitor de ecrã, um programa de computador que os deficientes visuais usam para ter mais autonomia no computador, e de modo a facilitar o acesso às aplicações mais populares da Internet.  Com software de síntese de voz e a placa de som do PC, a informação do ecrã é lida,  permitindo o acesso a uma variedade de aplicações de trabalho, educacionais e de lazer, e o envio de informações para uma linha (em braille). Ele não sabe braille, mas tem competências informáticas que lhe permitiram criar e editar um blogue e uma página pessoal. É casado, tem um filho, só pode andar de transportes públicos, a esposa esposa também é deficiente visual (não tem visão lateral).
 
Transmiti-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Tabanca Grande, o nosso grande apreço por ele, amizade, camaradagem, solidariedade. E deixo-lhe mais à frente um comentário, mais pessoal,  na sequência da nossa conversa ao telefone. LG
____________________

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim


Olá, Luís, boa tarde

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa (*).

 (...) Como vês estou vivo. Pediste-me um sinal de vida e aqui estou eu com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, perante ti e de mais editores pedindo desculpa pelo meu silêncio que mesmo me parecendo inadmissível aconteceu. Estou aqui hoje a dar notícias, já o fiz na página do Facebook da Tabanca da Linha.

Há uns dois anos comecei a ter problemas oftalmológicos cuja causa foi posteriormente diagnosticada como Degenerescência Macular (DM). Em resultado disso, hoje estou sem visão frontal no olho esquerdo e a lutar para que não me aconteça o mesmo no olho direito, onde já há sinais de DM. 

Para “ajudar” , no dia 1 de maio de 2021 sofri um enfarte agudo do miocárdio a que se seguiu um edema pulmonar. Parece-me que a minha recuperação do enfarte vai bem. Vi-me obrigado a emagrecer (15 quilos até agora), sinto-me muito bem assim mais leve e aqui estou dando notícias.

Na prática o meu grande problema é a leitura e a escrita; não consigo fazê-las sozinho. Perdi a assiduidade de leitura deste blogue. A situação está melhor agora com a aplicação de “leitura em voz alta” do computador; o problema é não conseguir ler documentos digitalizados. Para escrever é que é mais difícil, só me valendo da visita de algum dos netos como acontece agora.

Anexo uma foto de hoje para veres como estou rijo (na aparência)!

Termino com votos de saúde para todos vocês meus queridos amigos, que sejam muito felizes! (**)

Um grande abraço

Manuel Joaquim

(Revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentário do editor LG: 

Manel, ontem, ao falar contigo pelo telefone, fiquei muito feliz por te ouvir e por saber que estavas aí, à mesa, rodeado pela tua família, a festejar os teus 85 anos.

E fiquei a pensar numa coisa: tu dizes que já não consegues acompanhar o nosso blogue porque não podes ler, devido à DM. Pois então teremos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ti.

Porque há uma coisa que quero que saibas: tu não deixaste a Tabanca Grande. Continuas a ser um dos nossos. O teu lugar à sombra do nosso poilão, é vitalício,  está lá, mesmo que os teus olhos já não consigam ler o que escrevemos.

Temos 114 referências tuas no blogue, temos as  “Memórias de Manuel Joaquim”, temos as tuas “Cartas de Amor e Guerra”, temos a fabulosa saga  do teu "minino Zé Manel": tudo isso faz parte da memória colectiva dos camaradas da Guiné. E tens, sobretudo, muitos amigos que não te esquecem nem te esquecerão, na Tabanca Grande, na Tabanca da Linha, na Ajuda Amiga... 

Tu foste professor. Tem hábitos de aprendizagem, disciplina, curiosidade e capacidade de comunicar. Aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a sua aprendizagem tecnológica. Sabes melhor do que nós que nunca é tarde para aprender. E aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a tua aprendizagem tecnológica.  

Hoje há leitores de ecrã e síntese de voz muito mais capazes do que em 2022. O neto que te ajuda poderá configurar-lhe o computador ou, talvez ainda melhor, o telemóvel/tablet para ouvires os novos postes do blogue e os comentários dos leitores, em vez de os oleres, como também ditares respostas por voz, em vez de as escreveres. Não precisamos  sequer de recorrer a tecnologia sofisticada. Um áudio de WhatsApp, enviado por uma das tuas  filhas ou por um neto, pode devolver-te uma pequena janela para o mundo da Tabanca Grande.

Repara: se eu te falei do Manuel Seleiro não foi para comparar, relativizar ou atenuar a tua desgraça e o teu sofrimento, mas para te mostrar que a perda da visão não significa necessariamente a perda da autonomia intelectual nem da possibilidade de comunicar.

E, de facxto,  se não conseguires escrever, há uma solução ainda mais simples: falas e nós escrevemos. Tu contas-me uma história da Guiné, ou uma lembrança, ou uma coisa que te venha à memória. Um neto grava. Eu trato do resto, dentro das limitações que também temos. E depois fazemos chegar-te o texto em voz, para que o possas ouvir.  

Não queremos que voltes ao blogue por obrigação. Queremos apenas que saibas que o blogue continua a ser também teu.

E quando me disseres outra vez “Aqui estou eu, vivinho da costa!”, eu fico feliz.

Um grande abraço do teu amigo e camarada,

Luís

(Revisão / fixação de texto, negritos, links: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de  2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27765: As nossas geografias emocionais (61): Boé, do Cheche a Lugajole: uma missão de três meses dos Médicos Sem Fronteira, em 1987 (Ramiro Figueira, ex-alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72, Nova Sintra, 1972/74)


Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Coruba, ao fundo a margem norte (direita), com a estrada seguindo depois para Canjadude e Gabu



Foto nº 2A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche > "Cambança" do rio Corubal: em primeiro, o médico Ramiro Figueira, acompanhado por um dos médicos, o Dr. João Luís Baptista. (Partimos de Lisboa num dia que não recordo, em Setembro de 1987 com uma equipa de 4 médicos, um enfermeiro e um encarregado da logística.)



Foto nº 3A e 3 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >  "Cambança" do rio Corubal em jangada



Foto nº 4A e 4 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé >  Cheche > Rio Corubal > O ministro que nos acompanhou, decidiu tomar um banho...


Foto nº 5  > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé  > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Cheche >Os "djubis", sempre curiosos



Foto nº 6 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Canjadude> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Partimos de Gabu (antiga Nova Lamego), passando por Canjadude, a caminho do Cheche (ponto de "cambamça" do rio Corubal"), Béli e Lugajole  (destino final)



Foto nº 7A e 2 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé> 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Tabanca perto do Cheche (antes ou depois da cambança?)



Foto nº 8A e 8 > Guiné-Bissau > Região de Gabu >  Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > A paisagem árida, semidesértica, perto de Béli, a caminho de Lugajole.  Estas formações são "bagabagas", num paisagem algo lunar.



Foto nº 9A e 9 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Pequena tabanca, a caminho de Lugajole. A Missão não passou por Madina do Boé (em 1987 ainda minada!)



Foto nº 10A  e 10 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiros ao Boé > Lugajole >  Orre Fello > A morança que teria pertencido ao Amílcar Cabral. Fello, em fula, quer dizer montanha, colina ( que na região andam pela cota  50,  100, 150, máximo  200/300 metros; Orre Fello tem 200 metros).


Foto nº 11A e 11 > Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé > 1987 > Missão dos Médicos Sem Fronteiras ao Boé > Lugajole > Orre Fello > Palanque onde teria sido proclamada a independència da Guiné -Bissau em 24 de setembro de 1973, segundo o guia local.

Fotos (e legendas): © Ramiro Figueira (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Antigo mapa geral (1961) (Esacala 1/500 mil) > Percurso a amarelo seguido pela missão dos MSF, em setembro de 1987 (Gabu - Canjadude - Cheche - Béli - Lugajole). O rio Corubal corre no sentido nordeste-sudoeste. A estrela a vermelho assinala o ponto Orre Fello (cota 200 metros). Vd. carta de Béli (1959).

Infografia: Ramiro Figueira / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Boé >  Posição relativa de Cheche (no rio Corubal), Madina do Boé, Tiankoye (já na Guiné-Conacri, corredor do ataque a Madina do Boé em 10/11/1966 em que morreram Domingos Ramos e muitos outros combatentes do PAIGC), Beli, Lugajole, Vendu Leidi (e perto de Lugajole, Orre Fello) e, por fim, Lela, também já do outro lado da fronteira. 

Infografia. Jorge Araújo / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).  



Ramiro Figueira, médico aposentado, foi alf mil op esp, 2ª CART/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74); membro da Tabanca Grande desde 23 de junho de 2022, tendo 10 referências no blogue; em 1987, cumpriu uma missão de 3 meses em Lugajole, Boé, Guiné-Bissau, como membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).


1. Mensagem de Ramiro Figueira:

Data -  Data: 23 de fevereiro de 2026, 16h35
Assunto -  Boé

Boa tarde

Como de costume, espreito diariamente o blogue da  Tabanca Grande, virou um hábito curioso mas certamente saudável.

Tenho seguido essas últimas crónicas que lentamente vão juntando a história (triste) da aposentadoria do Boé em 1969. 

Foi cerca de três anos antes da minha chegada à Guiné, em junho de 1972. E fui para um lugar ainda distante do Boé, Nova Sintra, no região de Quínara. Mas todos fomos ouvindo as histórias daquele desastre, que  constavam da memória de toda a gente na Guiné.

Quis o destino que, 13 anos depois de ter voltado para casa (em setembro de 1974), fosse enviado para a Guiné (agora Guiné-Bissau), mais propriamente para o Boé (*), e mais especificamente para a tabanca de Lugajole (ou Lugadjole), perto de fronteira com a Guiné-Conacri.

Essa circunstância se deveu ao facto de pertencer aos Médicos Sem Fronteiras que ali iam abrir uma missão junto às populações fronteiriças.

Assim seguimos para Bissau e depois para Gabu (Nova Lamego) onde ficámos um dia instalados na casa de um tal Paulo, governador da região que, pelo que percebi, era um antigo combatente do PAIGC, o que se notava bem já que era notória a deficiência que apresentava coxeando da perna direita (durante a estadia em Gabu viemos a saber que era por ter uma prótese, dado ter sido amputado por uma mina). 

De lá seguimos no dia seguinte, passando por Canjadude, até a margem do Corubal para a passagem do jipe ​​​​e caminhão de material em que transportávamos todo o material necessário.

Pelo caminho de Canjadude a Chche, ainda havia vários destroços de veículos, provavelmente militares, abandonados. Era a tristemente cambança do Cheche, de que eu tanto ouvira falar durante a guerra.

Assim atravessámos na jangada o Corubal até à margem seguinte, confesso que me recordo bem, passados ​​​​estes anos de ter sentido um arrepio ao pensar que, naquele mesmo local, vinte anos antes ali tinham ficado quarenta e tal camaradas. 

No que não fiquei sozinho, comigo na equipa ia outro médico que, na mesma época que eu, tinha sido fuzileiro  e conversámos na altura várias vezes sobre o assunto.

Na chegada a Lugadjole, depois de uma viagem atribuladíssima e demorada, nos deparámos com uma tabanca razoavelmente organizada com bastante gente e muitos prédios em bom estado, mas abandonados. 

Ficámos sabendo que se tratava de prédios construídos pela União Soviética que estivera ali explorando bauxite mas que se mostrou não ser viável depois de alguns anos de exploração Eles deixaram o local deixando algum material, inclusive um grande gerador. 

Foi num desses prédios que instalámos a nossa base logística para dormir, um modesto refeitório e o depósito de medicamentos.

Iniciámos nosso trabalho, começando por instalar um hospital de campanha que nos fora fornecido pelas Forças Armadas, após o que abrimos as consultas e os tratamentos.

Durante a minha estada em Lugadjole, também tivemos a oportunidade de viajar, acompanhados pelo administrador local, Kassifo N'Kabo, ao mítico local da declaração de independência em 1973
 [Orre Fello]. (**)

Foi uma viagem também bastante conturbada por trilhos terríveis e subidas íngremes, mas você acaba chegando lá. 

Era uma colina de onde se disfrutava uma vista extensa, onde havia uma espécie de palanque coberto e relativamente bem arranjado e, ao lado uma bonita palhota em cimento que o  Kassifo garantia como tendo sido a morança  de Amílcar Cabral. 

Pessoalmente não acredito que fosse assim e também não acredito que aquele era o local da declaração de independência, mas isso são outras discussões. 

Ainda tentei que me levassem ao [antigo] quartel de Madina do  Boé, mas a recusa foi peremptória: “Terreno com muita mina”. 

Não sei se era assim ou não, mas lá tinha que ser.

Foram três meses de missão num país que ficou para sempre gravado em minha memória.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos;  LG)


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ramiro. Se tiveres mais fotos do tempo desta tua missão ao serviço dos MSF, iniciada em setembro de 1987 (e que se prolongou até dezembro, não?!), e achares de interesse divulgar, manda, podemos depois fazer um dossiê.

Poucos de nós, antigos combatentes, conhecemos o Boé (Béli foi retirado em meados de 1968, Madina do Boé e Cheche em 6/2/1969). A sul do rio Corubal, no Boé, deixa de flutuar a bandeira verde-rubra.

E, de facto, continuamos sem saber onde foi extamente o "berço da Nação" (guineense)... Duvido que algum dia as coordenadas corretas apareçam. Não havia GPS. Nem o PAIGC tinha cartas. Nem se guiava por elas. Nem sei ainda há testemunhas  diretas ou atores desse evento, os "históricos" já terão morrido todos (com exceção de algum cabo-verdiano ou outro, Manecas dos Santos, Pedro Pires; a Amélia Araújo, a "Maria Turra", essa, acaba de morrer).

E a IA hoje  só lança ainda mais confusão, quando a gente lhe pergunta onde foi o "berço da Nação". Como sabes, a IA não faz pesquisa em primeira mão, muito o menos em arquivos.  
Só trabalha com a "papinha feita" pelos humanos. Documentos em acesso livre. Nós sabemos muito mais que ela, que tem a mania que sabe tudo... Mas não, não sabe tudo, "canibaliza" o que os humanos produzem, e só atrapalha as vezes. E recorre muito ao nosso blogue, quando se fala da guerra na Guiné. Enfim, pode ser (ou é) útil, desde que usada com... inteligência humana.

O assunto ainda é polémico. Ou talvez não, afinal estamos a discutir o "sexo dos anjos". O nosso blogue levantou a questão pelo menos em 2009: o Patrício Ribeiro esteve lá, em Lugajole, em 2005, com a equipa da televisão (SIC). E levantou a dúvida: os historiógrafos (a começar pelos "tugas") replicam a propaganda do PAIGC. O que é feio, ou pelo menos não é bonito para um historiógrafo (que não é exatamente a mesma coisa que um historiador).

Passados mais de 50 anos, ainda há muita boa gente a aceitar, acriticamente, que a independência da Guiné-Bissau foi proclamada em "Madina do Boé". Para muitos guineenses (e cabo-verdianos) que nunca foram em visita ao "berço da Nação", Boé e Madina do Boé é tudo igual. É como o "Pulo do Lobo" no "Alentejo profundo": nunca ninguém lá tinha ido, exceto o prof Cavaco Silva, em 1994 (se não erro). (Por acaso já lá fui, tive curiosidade, e não queria morrer estupido: fica no limite do concelho de Mértola com o de Serpa no Parque Natural do Vale do Guadiana.)

Já temos muita documentação sobre o Boé, mas é preciso colocá-la, em dossiês temáticos, em pdf, formato mais facilmente pesquisável na Net.

Temos, nós, ex-combatentes (e sobretudo nós, portugueses desta geração) a obrigação de deixar pistas para esclarecer esses e outros pontos, mais ou menos obscuros, da história recente da Guiné-Bissau, que também é parte da nossa história. Tudo com calma, mas credível, com o rigor possível de quem não é investigador encartado.

A ignorância é muita, a incultura geral ainda mais. E nem tudo o que vem à rede é peixe. Duvido até que os jovens guineenses saibam onde fica(va) a mítica Madina do Boé... Hoje, sim, uma pequena tabanca, reconstituída na picada que segue do Cheche até à fronteira (sul).

Há umas semanas, conversando com jovens guineenses (homens e mulheres) que fazem parte da segurança privada de um hospital público, e que estão aqui em Portugal há 10 anos ou mais, constatei que eu conhecia muito muito melhor a geografia e a história do seu país do que eles.  Já nasceram em Bissau e de lá só saíram para emigrar para Portugal. O toca-toca não vai até Cheche, Béli, Lugajole, Vendu Leidi, Madina do Boé. E se for,  leva uma pequena fortuna.

É gente, estes netos  de Amilcar Cabral,  com alguma escolaridade, a suficiente para poderem  trabalhar doze horas por dia como "seguranças", à noite e por turnos, no departamento de psiquiatria e saúde mental de um hospital na Europa.

Quanto a ti, Ramiro, és sempre bem aparecido. 
Um alfabravo. 
Luis

PS - Ramiro, recordo (para os nossos leitores) o que escreveste em comentário em 14/7/2022 (**):
(...) Conforme o mapa, o local  [Orre Fello] situa-se muito perto da fronteira mas antes de Vendu Leide, portanto dentro da Guiné Bissau.
(...) Sobre o desfile militar na cerimónia da independência, nada sei. O local tem um espaço relativamente grande e plano em frente à construção pelo que é possível ter feito ali um "ronco" com desfile de tropas. A construção (suspeito, sem certezas nenhumas) será de depois mas, dado que a fotografia foi feita em 1987 (14 anos depois da declaração), eventualmente já existiria.

Como já se publicou tanta coisa sobre este local vamos, ver se aparece alguém com indicações precisas sobre o assunto. (...)


quinta-feira, 14 de julho de 2022 às 17:40:29 WEST

(Revisão / fixação de texto: LG)
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série : 29 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)


(...) Chegámos a Lugadjole já ao anoitecer e ainda tivemos de descarregar a camioneta para termos camas onde dormir, dado que a casa onde fomos alojados nada mais tinha do que paredes, eram casas construídas pelos soviéticos quando tentaram explorar bauxite naquele local, o que acabou por não se revelar rentável e o local foi abandonado.

Os dias foram-se passando entre as consultas e trabalhos para nos instalarmos e um belo dia conseguimos convencer o responsável local, um homem de poucas falas, chamado Kassifo N’ Kabo, a levar-nos ao local onde fora declarada a independência.

No jipe dele e ainda no jipe que nos tinha sido cedido pelo governo guineense, saímos a caminho da fronteira com a Guiné Conacri e, pouco antes da tabanca de Vendu Leidi,  subimos a um ponto um pouco mais alto, que na crónica da Tina Kramer fiquei a saber que se chamava Orre Fello, onde uma estrutura meio abandonada nos foi indicada como tendo sido o local da declaração da independência.

Na verdade, não sei se realmente terá sido ali que se deu o acontecimento, mas dada a proximidade da fronteira (Vendu Leidi situa-se praticamente nela) e o local meio perdido nos confins do Boé, admito que terá sido esse o tal local.

Por agora é só, as descrições do trabalho em Lugadjole são longas e provavelmente fastidiosas. Resta dizer que montámos o hospital de campanha que tinha bloco operatório e que esteve a funcionar creio que cinco ou seis anos. (...)