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domingo, 28 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28139: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): ainda e sempre os nossos (e)ternos "barcos turras"




Guiné > s/d > s/ l > A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa (embaixador da República de Cabo Verde, reformado) (*).

Foto: © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > 21 de julho de 1969, dia em que o homem chegou à lua... O Valdemar, sentado num saco, em frada nº 2,  vai a caminho de Bissau, num barco civil, daqueles a que chamávamos, depreciativamente, "barco turra" (**). 

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís GRaça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > O Rio Geba... o estreito (do Xime para montante) e o largo (do Xime para jusante)... c. 1970, no tempo seco... O rio era navegável de Bissau até Bafatá!... Mas normalmente, as embarcações civis (os "!barcos turras") iam até Bambadinca... As LDG ficavam pelo Xime, mas chegavam a Bambadinca, pelo menos até a 1968... Dois pontos vulneráveis do percurso eram a Ponta Varela (na margem esquerda do Rio, entre a Foz do Corubal/Ponta do Inglês e o Xime), e o Mato Cão (entre o Xime e Bambadinca, no troço serpenteante do Geba Estreito).

Foto do álbum do Humberto Reis, ex-fur mil op esp (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça &vCamaradas da Guiné]


1. Os ataques e flagelações à navegação no rio Geba, entre Bissau, Xime e Bambadinca não eram sistemáticos nem sequer regulares. Mas ficaram na memória da malta que passou pela Zona Leste (***). 

Em geral, o PAIGC não se metia com a malta da Marinha (as LDG, as LDM que eram "caça grossa"). Preferia a "caça miúda", indefesa, as embarcações civis ( a que nós chamávamos os "barcos turras", por, erradamente ou não, acharmos que os "patrões" pagavam "imposto revolucionário" ao partido do Amílcar Cabral, e que só eram atacados os barcos com as "quotas em atraso")... 

Havia dois ou três pontos críticos: Ponta Varela, Mato de Cão e São Belchior. E em geral, esses ataques ataques e flagelações eram ao fim da tarde ou à noite. A guerrilha sabia que, a essas horas, não seria perseguida pela aviação (e muito menos por forças terrestres de aquartelamentos e destacamentos nas proximidades: Xime, Bambadinca, Enxalé, Finete, Missirá...)

Foi o caso, por exemplo, do ataque à 1 hora e meia da noite, do dia 1 de junho de 1973, ao barco civil, "Bubaque", no Geba Estreito, no troço entre Bambadinca e o Xime, em São Belchior, antes do Mato Cão (que nesta altura já tinha um destacamento permanente das NT); ia a bordo o proprietário e capitão do barco, o Amante da Rosa, pai do nosso camarada (e diplomata, cabo-verdiano, hoje reformado) Manuel Amante.

Uma semana e tal depois, a 10 de junho, ao cair da tarde, há novo ataque, desta vez em Ponta Varela, a oeste do Xime, a um comboio de 3 barcos civis.


2. Pelo pouco que sabemos, a  partir das histórias das unidades e  dos testemunhos e das memórias dos militares e civis que navegaram no Geba, não há indícios de que o PAIGC tivesse desenvolvido uma campanha sistemática para interditar toda a navegação no rio Geba, como aconteceu, por exemplo, em certos troços do Cacheu ou do Corubal em determinadas fases da guerra. 

O que existia eram emboscadas oportunistas, concentradas em alguns locais onde o rio estreitava, obrigando as embarcações a reduzir velocidade ou a aproximar-se das margens.

Esses pontos  críticos eram Ponta Varela (quando o rio começava a estreitar, antes do Xime) e depois no rio Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca: Mato Cão e São Belchior.

Quem serviu no Sector L1 (nos subsetores de Bambadinca,  Xime, Mansambo e Xitole)  fala repetidamente destes locais como "zonas perigosas", embora houvesse longos períodos sem qualquer incidente.

Quanto ao "Bubaque", os registos conhecidos são muito claros.

Na História do BART 3873 surge registado o ataque da madrugada de 1 de junho de 1973, cerca da 01h30, em São Belchior, no troço entre Bambadinca e o Xime, antes do Mato Cão. O barco era propriedade de Amante da Rosa, que seguia a bordo como patrão e comandante. Houve 2 feridos graves na tripulação e o ataque foi suficientemente importante para merecer destaque na história da unidade.

Poucos dias depois, em 10 de junho de 1973, ao fim da tarde, encontra-se registado um novo ataque, desta vez contra um comboio de três embarcações civis, em Ponta Varela. Também este episódio figura na mesma documentação militar. (***)

Há outro aspeto muito interessante, que ajuda a desfazer um mito que muitos de nós ouvimos na época.

O próprio Manuel Amante da Rosa, filho do proprietário do "Bubaque", escreveu anos depois que o pai nunca pagou qualquer "imposto revolucionário" ao PAIGC, nem existiria um acordo de imunidade. 

Segundo ele, o barco fazia simplesmente um serviço público essencial, utilizado indistintamente por população civil, comerciantes, familiares de guerrilheiros, e até guerrilheiros e simpatizantes do PAIGC, além de militares portugueses em deslocação, e sempre desarmados: ninguém levava G3, quando seguia para Bissau, para apanhar o avião da TAP, ir ao dentista, tratar de algum assunto da sua tropa,  ou simplesmente para "desopilar" (o chamado "desenfianço").

Na memória do Manuel Amante da Eosa, o "Bubaque" navegou cerca de dez anos naquela carreira e foi atacado apenas uma vez, precisamente nessa madrugada de 1 de junho de 1973, o que ele considera ter resultado de um erro de identificação.

Enfim, esta explicação parece-nos  bastante plausível e aceitável, mesmo sabendo da ligação do Manuel Amante da Rosa ao PAIGC.

O PAIGC tinha pouco interesse estratégico em destruir barcos (incluindo os da "odiada" Casa Giuveia!) que abasteciam populações sob a sua própria influência, transportavam familiares dos combatentes, asseguravam o comércio local (mas também abastecia a tropa...) e que, na prática, o único meio regular de transporte entre Bissau, Xime e Bambadinca, já que a estrada Bafatá-Mansoa- Bissau estava interdita em diversos troços.

3. Atacar uma LDG ou uma LDM era uma operação muito mais difícil e arriscada. As unidades da Marinha navegavam armadas, tinham treino específico, resposta de fogo muito superior e podiam desencadear rapidamente operações de retaliação. 

Daí que, quando havia ataques, estes incidissem sobretudo sobre embarcações civis desprotegidas ou sobre ocasiões em que se julgava haver militares transportados em número reduzido.

Além disso, os grupos do PAIGC especializados em atacar  embarcações no rios eram poucos e náo tinham o dom da ubiquidade.

A nossa observação sobre a evolução da situação em Mato Cão também faz sentido. Em 1972, com a instalação de um destacamento permanente das NT, o local tornou-se menos favorável para emboscadas prolongadas, o que poderá explicar a deslocação de alguns ataques para zonas como São Belchior (ou a jusante,ou Ponta Varela), onde continuavam a existir boas condições para abrir fogo a partir das margens, embora na mira dos 3 obuses 10,5 cm do Xime.


4. Ao tempo do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), já tinha ocorrido, em 10 de outubro de 1972, às 1h15 da noite, no final das chuvas, e ao fim de dez meses de comissão, o primeiro ataque a um barco civil, o "Mampatá", no Rio Geba Estreito, de que resultaram 4 feridos, 1 militar e 3 civis (um dos quais grave) (***)

Na leitura do comando do batalhão, o ataque do PAIGC ao "Mampatá" inseria-se na estratégia de criar dificuldades ao abastecimento das NT no Leste.

O In voltaria, no mês de julho de 197, a fazer outro ataque ataque, no Rio Geba Estreito, em São Belchior, a seguir ao Mato Cão, desta vez à embarcação "Manuel Barbosa" (ligada a uma comercial de Bissau,); o barco, civil, conseguiu chegar a Bambadinca com um ferido;

5. Talvez valesse a pena  tentar responder à pergunta: quantos ataques houve realmente à navegação no Geba entre 1963 e 1974?

Foram seguramente mais do que aqueles que ficaram na nossa memória, mas certamente muito menos numerosos do que a fama do Geba Estreito poderia fazer supor.  Nalguns casos terima sido "flagelações" ou "tiros sobre embarcações", sem vítimas ou danos importantes, e esses episódios nunca entraram nas cronologias gerais da guerra 8e muito menos no relato da actividade operacional feita nos livros da CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África).

Para fazer a  cronologia completa dos ataques e flagelações à navegação no rio Geba (1963-1974), seria preciso cruzando as histórias das unidades que passaram pelo Sector L1, relatórios da Marinha, testemunhos dos antigos tripulantes dos chamados "barcos turras" (que ninguém sabe quem eram, com exceção do Manuel Amante e do seu filho, que viajava muitas vezes com opai durante as férias escolares, o hoje embaixador Manuel Amante da Rosa).

Penso que esse levantamento mostraria, com bastante rigor histórico, que a navegação no Geba viveu num equilíbrio muito peculiar: 

(i) perigosa o suficiente para nunca deixar ninguém completamente tranquilo;

(ii)  mas suficientemente segura para que, durante anos, centenas de pessoas continuassem a fazer regularmente a viagem entre Bissau, Xime e Bambadinca. 

Isso ajuda a compreender porque esses barcos ficaram tão profundamente gravados na memória de quem serviu na Zona Leste, como eu, o Carlos Marques dos Santos, o Valdemar Queiroz, o Joaquim Mexia Alves, o Humberto Reis, e tantos outros (*****).

_______________



(***) Vd. poste de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28137: As nossas geografias emocionais (68): o temível Mato Cão, no rio Geba Estreito

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27250: As nossas geografias emocionais (59): CIM Bolama, setembro de 1973, o meu CSM (Manuel Rosa, ex-fur mil, Chefia do Serviço de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74)



Guiné > Arquipélago Bolama - Bijagós > Bolama > CIM (Centro de Instrução Militar > CSM (Curso de Sargentos Milicianos) > c. 1973/74 > O  soldado-instruendo, e depois 1º cabo miliciano e depois fur mil, Chefia de Serviço de Intendência do QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (tal como o Carlos Filipe Gonçalv3es).

Fotos (e legenda) : © Manuel Amante da Rosa (2024. Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.



1. Mensagem do Carlos Filipe Gonçalves (ex-fur mil, Chefia do Serviço de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74)

Data - segunda, 22/09/2025, 13:24

Olá, Luis, Bom dia:

Encontrei hoje por acaso no FB esta publicação do nosso camarada e amigo Manuel Rosa, sobre a sua passagem pelo Centro de Instrução em Bolama. É uma recordação com muitos pormenores. Será que já tinha sido publicado no blogue Tabanca Grande? A data é de 15 de Agosto de 2024. Eis o link:

https://www.facebook.com/search/top/?q=Manuel%20Rosa%20CISM%20Bolama

Segue abaixo a cópia que fiz do post, talvez tenha ineresse.

Forte abraço, vida e saúde para todos nós

Carlos Filipe Gonçalves

Jornalista Aposentado


2. Resposta do nosso editor LG, com data de terça, 23/09/20925, 22:24

Carlos, obrigado, é um achado... Vou publicar, penso que o Manuel não se zanga comigo. Conhecemo-nos pessoalmente há bastante anos (c. 2009). Ele teve a gentileza de ir à minha Escola (Nacional de Saúde Pública, no Lumiar, perto do estádio de Alvalade, do SCP) para me conhecer pessoalmente e partir mantenhas.

O Manuel Amante da Rosa (sic) trm c. 4 dezenas de  referências no nosso blogue. Também é amigo da Isabel Brigham Gomes, que foi minha aluna há largos anos, no curso de Mestrado em Saúde Pública. Mas não tenho sabido notícias dele. Julgo que vive agora no Mindelo (pelo que vejo na página do Facebook). Deve estar aposentado ou reformado...Pertencia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros...

Viajei no Geba no "barco-turra" do pai... Dá-lhe notícias minhas/nossas. Dou-lhe conhecimento deste mail, espero que ele ainda use o mesmo endereço de email. Gostaria de poder retomar os nossos contactos. Nunca conheci Bolama, o meu CIM foi em Contuboel (em junho/julho de 1969, na formação da futura CCAÇ 12, uma companhia de fulas, depois colocada em Bambadinca). Mas muita malta do blogue passou por Bolama... Vou ver em que série vou publicar esta deliciosa crónica. Ele sempre escreveu muito bem.

Para ti, um chicoração fraterno. Luís

 
3.As nossas geografias emocionais (**) >   CIM Bolama, setembro de 1973, o meu CSM 



por Manuel Amante da Rosa (ex-fur mil, Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74, hoje embaixador reformado, Cabo Verde; nassceu em Bolama, filho de pais cabo-verdianos)

 Idos de Setembro de 1973, ainda um imberbe de 20 anos, voltava à ilha de Bolama para assentar praça no único e estafado Curso de Sargentos Milicianos (CSM), no Centro de Instrução Militar (CIM),  que se fazia na Guiné. 

Cmo era o único anual e em pleno território em guerra e confrontos armados, quase generalizada, havia exageros ou “heróis” de aquartelamentos. O CIM não fugia à regra.

Muito calcorreámos e rastejámos pela ilha! Em marchas e patrulhas, diurnas e noturnas, forçadas e esforçadas!! Até a pista de lodo de ir e vir ao Farol fizemos. Só quem andou pela guerra na Guiné sabe o que é ter pela frente lodo para atravessar. Afundamo-nos até à cintura. E a G-3 torna-se maldita. Imprestável. Amaldiçoada a cada avanço.

Num quartel de instrução militar que formava todos os militares de recrutamento local, mais de dois mil por ano, a comida era péssima, em pratos e caçarolas de alumínio e servida em dois turnos ou por vezes três. Asseio nulo. 

Até praga de sarna imputada aos numerosos cães do quartel houve pela unidade. Fui uma das vítimas. Micoses e furunculoses (fui notável vítima desta) eram consideradas normais e havia fórmulas (até número 7, dependendo do grau de infecção) e unguentos militares para tratamento de tudo. 

Mas os Fuzileiros eram melhores. O idoso Sargento Enfermeiro deles, que já tinha passado pela Índia e Timor, após prognóstico errado de dois jovens alferes médicos de que ou teria micose ou sarna, graças a uma feliz intervenção do Imediato da Escola de Fuzileiros, curou-me. Disse ser má circulação e alergia possível ao alumínio. 

Curou-me até hoje. Com autossangue. Ía à enfermaria dos Fuzileiros, tirava-me sangue do braço esquerdo, injetava logo na nádega direita e aplicava no braço uma injeção de immunodol (?), segundo penso. 

No dia seguinte voltava para o braço direito e a nádega esquerda. Quinze dias seguidos e tudo desapareceu. Até hoje!! 

Mas no CIM o nosso soldado maqueiro, que por vezes exalava, pela manhã, um hálito de vinho de caju ou outro, era um autêntico médico de ocasião. Sempre disponível!!

Qualquer infecção, mesmo bolhas arrebentadas no pé ou unhas encravadas e infetadas, tosse, dor no corpo, pangabarriga (diarreias), esquentamentos, sarna e/ou micose era tratado com um "cunto” (injecção de penicilina de um milhão de unidades, aplicada bem de manhãzinha antes do furriel ou médico chegarem bem mais tarde).

Abria o armário, regalava os olhos perante tantos “cuntos” à sua livre disposição e em tão pequeno frasco!! Retirava de um pequeno tacho de alumínio a ferver a seringa e a enorme agulha (ainda não havia seringas e agulhas descartáveis) com um olhar de sabedoria e sadismo que baste! 

Eu fechava os olhos e pedia a Deus para me proteger da agulha. De ficar manco. O maqueiro mandava arrear a calça militar e “pimba”. Espetava a agulha sem hesitação! 

Por vezes a “cuntomania” (um milhão de unidades de penicilina) durava uma semana seguida. Desisti porque a furunculose no meio das pernas não passava. Não havia controlo. Mas nunca me apercebi dessa apetência na Guiné pelas injecções (gudja).

Acontecia ter vómitos imediatos de estômago vazio e sentir o sabor estranho de remédio e sobrevinha fraqueza logo depois. Mas todos sobrevivemos. Fosse hoje!!!

Valeu-me muito fingir que almoçava no rancho (sujava o prato de alumínio porque aqueles “heróis de quartel”, alguns até de pingalins, sempre passavam para verificar)
e depois ir jantar no Palácio de Bolama, onde o Administrador do Concelho era o meu querido e saudoso tio. 

Habitualmente era o último instruendo a entrar na porta de armas antes dela ser fechada às 11 da noite.

E dirigia-me para a nossa caserna onde eu próprio e todos os meus antepassados éramos insultados, vernaculamente e na língua de todas as etnias possíveis da Guiné!! Era a minha boa hora de me desobrigar de me sentir na tropa.

Os insultos eram de “koutina na má” para pior. Dependendo da rigidez dos insultos,  respondia com um “Kuk d’obú”! Ou cantava “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal”.(*)

Algo que fazia subir o tom e teor dos insultos na escura caserna. Fazia barulho, acordava alguns mais próximos para perguntar as horas ou me resfolgava ruidosamente. A pior coisa que podia ser feito numa caserna. É um ultraje para a cultura guineense o fazer. Levava de imediato muitos a cuspirem. Palavra!!

A maioria de nós éramos da mesma geração do liceu, tínhamos sido criados juntos e a camaradagem e solidariedade nas piores situações dentro ou fora do quartel era imediata.

Sabíamos que alguns ao fim de 3 anos não sairiam vivos ou ilesos da tropa. A guerra estava no seu auge. O equilíbrio existente até essa altura se desfazia e era percebido. A guerrilha era cada vez mais ativa. E as flagelações aos quartéis mais certeiras. As minas eram cada vez mais implantadas, nas estradas, picadas e trilhos de patrulhas. Faziam muitas vítimas. Mais até que os ataques aos quartéis e emboscadas. 

Havia entre nós a crença de que em patrulhas era melhor usar botas de lona. Porque as minas, se pisadas, somente levariam uma parte do pé. Se com botas de cabedal o sopro levaria todo o pé até onde terminava na canela. Nunca precisei dessa teoria.

Sabíamos também que muitos de nós teriam como destino as Companhias de Caçadores! De recrutamento local, enquadradas por oficiais e sargentos da “metrópole”. Umas espécies de unidades para carne de canhão. Nas piores zonas da “província” !

Lembro-me de ter entrado por duas vezes em vias de facto com dois colegas mais fortes, pelo meio dia, e à tardinha estarmos sentados um ao lado do outro em cavaqueira conversa.

Felizmente e graças a Deus o 25 de Abril pôs fim à guerra! Fomos desmobilizados.

Entramos logo a seguir em novos desafios. Fui ser professor. Mas fica para um outro momento com disposição para rememorar.


(Revisão / fixação de texto, título: LG)


________________


Notas do editor LG:


(*) Último poste da série > 24 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27249: As nossas geografias emocionais (58): A Pousada do Saltinho ou "Clube de Caça", com ar de abandono, em maio de 2025 (João Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74)

(**) Com a ajuda do assistente de IA / ChatGPT, apurei o seguinte:

No crioulo da Guiné-Bissau, insultos como “koutina na má” (“a tua mãe é uma puta”) ou “Kuk d’obú” (“caga no teu pai”) eram das ofensas mais duras, por atacarem a honra familiar. Já cantos como “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal” (“Tin-don, tin-don, pai da lontra, tu és feio”) tinham um tom mais trocista, usados para desarmar tensões ou provocar a rir.

Enquadramento cultural do uso e significado destas expressões na Guiné em 1973:

(i) O valor dos insultos no crioulo

O crioulo da Guiné-Bissau tem um repertório riquíssimo de insultos, quase sempre ligados à família (especialmente à mãe e ao pai). Dizer “koutina na má” (a tua mãe é uma p*ta ) era dos piores insultos possíveis, porque atingia diretamente a honra familiar.

Da mesma forma, “Kuk d’obú” (caga no teu pai) é altamente ofensivo, já que desrespeita a figura paterna, pilar de respeito na cultura guineense.
 
(ii) Resposta com insulto ou com canto

Quando alguém insultava, havia duas opções: responder no mesmo tom (com outro insulto ainda mais duro) ou quebrar a agressão com humor ou música.

O canto “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal” tem um tom trocista. Não é um insulto tão pesado, mas funciona como uma gozação para desarmar a tensão. O ritmo “tindon, tindon” imita um refrão ou um toque de tambor, quase infantil.

Chamar alguém de “pai da lontra” ou “feio” é mais ridicularizar do que agredir seriamente.

(iii) Contexto em 1973


No tempo da guerra colonial, estas expressões circulavam entre soldados (portugueses e guineenses) e também entre crianças e jovens das tabancas. Eram usadas tanto em discussões sérias como em brincadeiras:  na oralidade guineense, até os insultos podem ter uma função lúdica, de provocação amistosa ou de reforço de laços.

Em resumo: os insultos duros marcavam rivalidade e conflito, mas os cantos e troças ajudavam a aliviar tensões e até a criar cumplicidade

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27153: A nossa guerra em números (37): Colonos - Parte II: cabo-verdianos (uma pequena burguesia que, na Guiné, foi viveiro de militantes e dirigentes do PAIGC)


Foto nº 1 > Lisboa > s/d > Sede do BNU - Bnaco NacionalUltramarino (Hoje sede do MUDE - Museu do Design



Foto nº 2 



Foto nº 3

Lisboa > Antiga sede do BNU,  na Rua Augusta, que hoje aloja o Museu do Design   (MUDE). Esculturas de Leopoldo de Almeida (1964), que representam a expansão do BNU como banco emissor pelos antigos territórios ultramarinos portugueses, e os respetivos escudos, incluindo a Guiné (cujo escudo é o da direita, a contar de baixo para cima, inspirado no original, a seguir descrito

"Escudo composto tendo a dextra em campo de prata, cinco escudetes de azul, cada um com cinco besantes de prata em aspa e a ponta, de prata com cinco ondas de verde - pretendiam simbolizar a ligação à metrópole; a sinistra em campo de negro, um ceptro de ouro com uma cabeça de africano, alusão ao ceptro utilizado por D. Afonso V, rei de Portugal à época da exploração da região. Brasão de armas simplificado, de 8 de maio de 1935 a 24 de setembro de 1973."

Fonte: BNU. (Reproduzido com a devida vénia...)

Foto nº 4 > Guiné > s/d > s/ l > A embarcação "Bubaque", ostentando a bandeira portuguesa... Antiga LP 4 (Lancha de Patrulha 4, da nossa Marinha, no ativo entre 1963 e 1964), terá sido anteriormente uma traineira de pesca, algarvia... Depois de abatida ao efetivo, foi comprada pelo pai do nosso camarada Manuel Amante da Rosa, antigo embaixador da República de Cabo Verde em Roma. 

Foto (e legenda): © Manuel Amante da Rosa (2014). Todos os direitos reservados. 8Edição: LG]


1. Os colonos na África Portuguesa não eram só cidadãos portugueses da metrópole, mas também das ilhas atlânticas (Madeiras, Açores e Cabo Verde) e igualmente estrangeiros como os libaneses, ou sírio-libaneses (oriundos do antigo império otomano, que emigraram para a África Ocidental nos anos de 1910/20) (*) sem esquecer os luso-indianos de Goa, Damão e Diu, e até os macaenses. 

Já aqui destacámos o papel dos sírio-libaneses, "comerciantes e empreendedores" (*), e falámos da sua presença na Guiné até à independência (em 1974). Falemos agora de outros grupos e comunidades, começando pelos cabo-verdianos (que eram, na altura,  cidadãos portugueses, a quem não se aplicava o famigerado estatuto do indigenato).


(i) Funcionários e Trabalhadores: A Diáspora Cabo-Verdiana

A emigração de cabo-verdianos para as outras colónias portuguesas em África foi um fenómeno de grande relevo.

Impulsionados por secas e fomes cíclicas (1901-1904, 1920-21, 1941-43,  1947/49) e pela escassez de recursos (agricultura, indústria, educação, saúde, emprego, transportes,  etc.) no seu arquipélago, 
muitos cabo-verdianos procuraram melhores condições de vida na Guiné, em Angola, Moçambique e, especialmente, em São Tomé e Príncipe, onde chegaram a constituir uma parte significativa da população. (Para além de terem emigrado para Portugal, Holanda, EUA.)

Dada a sua familiaridade com a língua e a administração portuguesas, foram frequentemente empregados em cargos de baixa e média hierarquia na função pública, nos correios,  nas alfândegas, na banca, bem como em atividades comerciais, transportes marítimos, etc. e em geral como mão de obra qualificada.

Esta posição intermédia na hierarquia social colonial era, por vezes, fonte de tensões com as outras comunidades como aconteceu na Guiné-Bissau, antes e durante a guerra colonial, bem como depois da independência (golpe de Estado de 'Nino' Vieira,  primeiro-ministro, contra o presidente da república, Luís Cabral, em 14 de novembro de 1980, em que os cabo-verdianos foram "demonizados").

Os cabo-verdianos tiveram um papel importante na colonização da África portuguesa, e em especial a Guiné, onde foram comerciantes, "ponteiros", e ocuparam lugares de nível médio (na administração civil, banca, correios, educação, etc.).

A presença e o papel dos cabo-verdianos na colonização da África portuguesa, especialmente na Guiné, foram marcantes e multifacetados. Desde o início da ocupação portuguesa na África Ocidental, a história da Guiné e de Cabo Verde esteve profundamente entrelaçada, não apenas por laços geográficos, mas também por interesses económicos e sociais compartilhados.

Em boa verdade,  a Guiné  foi tratada como uma "dupla colónia", sendo administrada  por  Cabo Verde até 1879, altura em que foi separada das ilhas, passando a ser governada autonomamente.

Os cabo-verdianos atuaram como comerciantes, estabelecendo-se principalmente na zona costeira e nas margens dos rios guineenses, donde desenvolveram intensas atividades mercantis. Esses comerciantes envolveram-se no tráfico de escravos (até meados do séc- XIX), além de serem depois  detentores de lojas e proprietários de transportes coletivos, fluviais e rodoviários, exercendo influência significativa no mercado local.

Além do papel comercial, muitos cabo-verdianos ocupavam posições médias na administração colonial: eram funcionários na banca, nos correios, na educação, e em outros setores de serviços públicos. Na realidade, ocuparam lugares que os portugueses da metrópole não queriam, devido à "má fama" do território (insegurança, atraso, clima, paludismo e outras doenças tropicais, etc.). 

Registe-se, a par disso, a atividade agrícola como “ponteiros”, ou sejam,  
pequenos agricultores que exploravam "pontas" (geralmente hortas, pequenas quintas), em zonas férteis, nas bacias hidrográficas: Cacheu. Mansoa, Geba, Corubal, Buba, etc.

 Os cabo-verdianos na Guiné também foram proprietários de pequenas embarcações e prestadores de serviços de transporte local. Esses serviços fluviais e costeiros eram essenciais para a interligação das comunidades em regiões onde o rio e o mar eram os principais meios de circulação.

Essa posição como donos e operadores de embarcações permitiu_lhes  ser intermediários cruciais nas trocas comerciais e no transporte de pessoas e mercadorias. 

Por estarem nessa interface, os cabo-verdianos mantinham uma relação próxima com o poder colonial, já que facilitavam a logística e o funcionamento dos mecanismos administrativos e económicos do regime português.

Além disso, essa função conferia-lhes um papel importante como intérpretes culturais, sociais  e económicos, mediando entre as autoridades coloniais e as populações locais de diversas origens étnicas e culturais. 

Essa mediação contribuía para que os cabo-verdianos se posicionassem como uma ponte social, favorecendo a comunicação, negociações e intercâmbios entre diferentes grupos dentro do contexto colonial.

É importante destacar ainda a forte componente crioula presente nesse contexto, já que boa parte dos  grupos intermediários que atuavam nesses espaços eram de origem mista, fruto de séculos de convivência e intercâmbio entre Cabo Verde e a região da Guiné. Essa dinâmica reforçou a ligação social e cultural entre ambas as regiões. Por exemplo, Amílcar Cabarl, nascido em Bafatá em 1924, era filho de pai cabo-verdiano, o professor primário Juvenal Cabral, e de mãe guineense, de etnia fula, Iva Pinhel Évora.

Em resumo, os cabo-verdianos desempenharam um papel crucial na economia e na administração da África portuguesa, especialmente na Guiné, forma verdadeiros marginais-secantes, exercendo funções estratégicas como comerciantes, ponteiros, donos de barcos de cabotagem e ocupantes de cargos de nível baixo e médio na sociedade colonial.
 
Sublinhe-se que a atuação dos cabo-verdianos na sociedade colonial da Guiné foi muito além do comércio e da administração, incluindo também um contributo notável na agricultura de pequena escala e de subsistência.


Apresenta-se a seguir um esquema detalhado sobre o papel dos cabo-verdianos na colonização da Guiné, então colónia portuguesa, com enfoque no século XX, complementada por alguns exemplos históricos


(ii) Papel dos cabo-verdianos na Guiné colonial (séculos XIX e XX)

1. Intermediários, "lançados" e gestores comerciais

  • Desde os séculos XVI e XVII, muitos cabo-verdianos, especialmente mestiços e "lançados",  atuavam como intermediários comerciais ao longo da costa da Guiné; filhos de colonos com mulheres africanas, esses indivíduos formavam uma classe de “lançados” que facilitava o trânsito de mercadorias, escravos e informações entre as ilhas e o continente; eles eram peças cruciais na economia regional, estabelecendo redes comerciais e vínculos sociais locais;

  • Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné (1675), criada em Portugal, conferia privilégios aos residentes de Cabo Verde, mesmo sob monopólio, permitindo-lhes embarcar seus próprios produtos e manter certa autonomia comercial na costa da Guiné.

2. Agricultores ("ponteiros"), grandes proprietários, comerciantes e navegadores fluviais

  • O termo “ponteiros” (donos de “pontas”, pequenas explorações agrícolas em zonas férteis) e grandes proprietários agrícolas, como os envolvidos na produção de arroz, corresponde exatamente à presença de cabo-verdianos que, aproveitando zonas férteis nas bacias hidrográficas, ocuparam-se com a agricultura;

  • Além disso, muitos eram donos de embarcações, que operavam as ligações fluviais, essenciais na mobilidade de pessoas e mercadorias na Guiné.

Embora menos documentado com nomes específicos, esse conjunto de funções estava bem representado na elite cabo-verdiana que ocupava o espaço colonial de forma bastante atuante. (A IA não sabia o que eram "ponteiros", tive que lhe explicar... Há subtilezas da nossa língua e da nossa história, que lhe escapam: como também sabia não distinguir "régulo", termo que só existia na Guiné e em Moçambique, e não em Angola).

Historicamente, o termo "ponteiro" está ligado ao sistema de "pontas", que remonta ao período colonial. Estas "pontas" eram inicialmente zonas de controlo comercial, tendo depois evoluído para explorações agrícolas. A relação entre os "ponteiros"  e os  "tabanqueiros", nem sempre terá sido  isenta de tensões e conflitos,  originando dispustas por terras com criadores de gado (nomeadamente,fulas).

3. Funcionários públicos (pequenos e médios), ensino, correios, banca

  • No século XX, especialmente entre 1920 e 1940, mais de 70% dos postos no sector público da Guiné eram ocupados por cabo-verdianos ou seus descendentes; isso incluía cargos administrativos, ensino primário, correios, banca e outros serviços públicos.

  • Esses emigrantes, escolarizados, foram incorporados ao sistema colonial português, prestando um apoio técnico essencial à administração e à expansão estatal.

4. “Crioulização social” e intelectuais cabo-verdianos, ou de origem cabo-verdiana

  • A chegada massiva de cabo-verdianos à Guiné no início do século XX deu origem a uma "crioulização social", um processo que aproximou as sociedades cabo-verdiana e guineense: o elemento cabo-verdiano funcionava como uma ponte entre colonos e indígenas.

  • Alguns exemplos notáveis na área intelectual, cultural,  educacional e política incluem:

    • Fausto Duarte (1903-1953), romancista;

    • Juvenal Cabral, pai de Amílcar Cabral; professor

    • Fernando Pais de Figueiredo: professor primários; ele e o Juvenal Cabral defenderam a expansão e a melhoria do sistema educativo para a população guineense;

    • Amílcar Cabral (1924-1973) (imagem à direita);

    • António Carreira (1905-1994), administrador , investigador, escritor;

    • Artur Augusto Silva (1912-1983), advogado, escritor, jurista, especialista em direito consuetudinário, casado com Clara Schwarz (1915-2017), professora no liceu Honório Barreto;

    • Não sei exatamente quantas senhoras brancas viviam em Bambadinca no meu tempo (1969/71), mas algumas eram cabo-verdianas, como por exemplo  a professora do ensino primária, que raramente era vista, mas que vivia dentro das nossas instalações militares, no edifício da escola, a dona Violete da Silva Aires e sua mãe; muitos alunos se lembram dela, e que depois foram quadros importantes da Guiné-Bissau (de jornalistas a engenheiros),

    • Carlos Silva Schwarz (1949-2012),  engenheiro agrónomo, director executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento, com sede em Bissau, particularmente ativo depois da independência; membro da nossa Tabanca Grande.


5. Exemplo histórico destacado: Honório Barreto

Resto da estátua do Honório Barreto.
 Foto: João Melo (2025)



  • Um caso emblemático é o Honório Barreto (1813-1859), de ascendência cabo-verdiana por parte de pai, que exerceu funções elevadas como governador da Colónia Portuguesa da Guiné entre 1852 e 1859;  dirigiu a administração, investiu em agricultura, comércio, educação e saúde e até liderou esforços militares para preservar  o controle português, ao mesmo tempo que os seus negócios de família no Cacheu (incluindo o tráfico de escravos). 

  • A sua figura foi muita mal tratada por gente boçal do PAIGC, a seguir à independência.



6. Resumo

Função / Papel | Detalhes / Exemplos
  • Comerciantes e "lançados" | Ativos nas rotas comerciais da Guiné, frequentemente mestiços com redes locais;
  • Ponteiros / Agricultores / Donos de embarcações de cabotagem | Pequenas explorações e produção de arroz; donos de embarcações nas rotas fluvial;
  • Funcionários da administração colonial | Entre 1920–1940, os cabo-verdianos ocupavam >70% dos cargos públicos; foram administradores e chefes de posto, etc.
  • Empregados e quadros intermédios de importantes casas comerciais como a Gouveia e a Sociedade Ultramarina (ligada ao BNU) | Luís Cabral (***)
  • Intelectuais e professores | Fausto Duarte, Juvenal Cabral, Amílcar Cabral, Fernando Pais de Figueiredo, entre outros.
  • Governança e elite local | Honório Barreto (1813-1859): governador, empresário, administrador da Guiné colonial; filho de mãe guineense e de pai cabo-verdiano

~
Luís Cabral (1931-2009)

Enfim, uma pequena burguesia onde o PAIGC foi buscar muitos dos seus primeiros militantes e dirigentes,  a começar pela família e clã Cabral (Amílcar, Ana, Luís, Lucette Andrade, etc.)

Este é ponto central da história social e política da Guiné-Bissau no século XX: a pequena burguesia cabo-verdiana radicada na Guiné, formada por comerciantes, funcionários públicos, professores, empregados de casas comerciais e pequenos proprietários agrícolas. foi decisiva tanto para o funcionamento do sistema colonial como para a génese da luta de libertação. (**).

Ainda a talhe de foice, lembre-se os nomes de Aristides Pereira, que era chefe da Estação Telegráfica dos CTT, e o Fernando Fortes era o chefe da Estação Postal, na prática os "donos" dos CTT , em Bissau.


PS - É difícil saber, com rigor, qual era a população cabo-verdiana (ou de origem cabo-verdiana) na Guiné nos anos de 1950, 60 e 70 (***)

(Pesquisa: IA / Gemini / Perplexity / ChatGPT LG | Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


___________________


(**) Último poste da série > 22 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27141: A nossa guerra em números (36): Auxiliares da administração colonial: régulos, sobas e liurais...

(***) Estimativa do assistente de IA / Gemini. Pesquisa, revisão / fixação de texto:   LG


População Cabo-Verdiana na Guiné-Bissau em Meados do Século XX: Números e Proporções


Na metade do século XX, a presença de cabo-verdianos na então Guiné Portuguesa era uma realidade demográfica significativa, especialmente nos centros urbanos e na administração colonial. 

No entanto, a quantificação precisa dessa população, bem como a sua proporção em relação ao total de habitantes, enfrenta desafios devido à natureza dos registos da época, que distinguiam a população entre "civilizada" e "não-civilizada".

Com base nos dados disponíveis, é possível apresentar uma estimativa detalhada para 1950 e informações mais gerais para 1960 e 1970.

(i) 1950: Uma Presença Notável no Estrato "Civilizado"

No censo de 1950, a população total da Guiné Portuguesa foi registada em 517.290 habitantes. Deste total, a esmagadora maioria, 508.970 indivíduos, era classificada como "não-civilizada".

A população "civilizada" ascendia a 8.320 pessoas (1,61% do total), e é neste grupo que os dados permitem uma análise mais detalhada da presença cabo-verdiana. 

De acordo com estudos demográficos da época, nomeadamente os do investigador António Carreira, os cabo-verdianos representavam uma fatia importante deste estrato:

  • População de origem cabo-verdiana: Cerca de 1.478 indivíduos.

  • Proporção de cabo-verdianos na população "civilizada": Aproximadamente 17,8%.

  • Proporção de cabo-verdianos na população total: Cerca de 0,29%.

Esta expressiva percentagem na população "civilizada" reflete o papel que muitos cabo-verdianos desempenhavam como funcionários públicos, comerciantes e em outras profissões liberais na estrutura colonial.

(ii) 1960: Crescimento Populacional e Lacunas nos Dados Detalhados

Em 1960, a população total da Guiné Portuguesa era de aproximadamente 525.437 habitantes, um ligeiro aumento em relação à década anterior. Contudo, os dados detalhados sobre a composição da população "civilizada" por naturalidade para este ano são mais difíceis de apurar a partir de fontes abertas.

Embora o censo de 1960 tenha sido realizado e analisado em publicações como o "Boletim Cultural da Guiné Portuguesa", os números exatos da população de origem cabo-verdiana não estão facilmente acessíveis. É razoável presumir que a tendência de uma presença cabo-verdiana significativa nos centros urbanos e na administração se mantivesse, mas a sua quantificação precisa para este ano permanece um desafio.

(iii) 1970: O Impacto da Guerra e a Incerteza Estatística

A década de 1970 foi marcada pela intensificação da guerra de libertação/guerra colonial, o que torna os dados demográficos para este período particularmente complexos e, por vezes, divergentes. As estimativas para a população total em 1970 variam consideravelmente, situando-se entre 571.000 (550.000 a 600.000 habitantes para 1970 seria uma estimativa  mais realista e alinhada com os dados históricos).

A realização de um censo em 1970 é documentada, mas a sua execução e a fiabilidade dos dados em todo o território foram certamente afetadas pelo conflito em curso. Além disso, a abolição do estatuto do "indigenato" em 1961 alterou as categorias de recenseamento, o que dificulta uma comparação direta com os censos anteriores.

Não foram encontrados dados específicos que permitam quantificar a população de origem cabo-verdiana na Guiné-Bissau em 1970. É de notar que, durante a luta pela independência, a relação entre as populações da Guiné e de Cabo Verde foi complexa, com muitos indivíduos de origem cabo-verdiana a participarem ativamente no movimento de libertação (PAIGC), que lutava pela independência de ambos os territórios.

Em suma, enquanto para 1950 é possível apresentar um retrato relativamente claro da população cabo-verdiana dentro do quadro estatístico da época, para 1960 e 1970 os dados são mais escassos, impedindo um cálculo preciso da sua dimensão e proporção na população total da Guiné-Bissau.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26917: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - X (e última) Parte : a guerra de nervos nos últimos seis meses




Guiné > Bissau > c- 1973/74 > Messe de Oficiais no QG/CTIG em Santa Luzia > "Eu, na messe e piscina em Santa Luzia;  ao fundo vê-se o ecrã de cinema, que funcionava à noite...Os sargentos podiam frequentar a piscina aos sábados, o cinema era acessível a oficiais e sargentos. 


Foto (e legenda): © Carlos Filipe Gonçalves (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


O "senhor rádio", o Carlos Filipe Gonçalves (Kalu Nhô Roque (como consta na sua página no facebook):

(i) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde;

(ii) foi fur mil amanuense, QG/CTIG, Bissau, 1973/74;

(iii) ficou em Bissau até 1975;

(iv) músico, radialista, jornalista, historiógrafo da música da sua terra, escritor, vive na Praia;

(v) membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, nº 790;

(vi) tem 28 referências no nosso blogue.
(*)


Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) 

IX (e última) Parte : a guerra de nervos nos seis últimos meses


Publico hoje os últimos extractos da 1.ª Parte do livro "Recordações de um Furriel Miliciano, Guiné 1973/74" (*)


Depois das férias em Cabo Verde na Ilha de S. Vicente, regresso a Bissau, no início de novembro  [de 1973], continuava a paranóia latente de guerrilha urbana. Uma situação que vinha de anos anteriores, mas era minimizada… existia, mas não se acreditava que existia! 

No bairro Cupelon e outros a explosão de granadas foi passando de ocasional a frequente, há confusões por tudo e por nada. Lembro-me da mãe de uma funcionária do “ChefInt” que morreu devido à explosão de uma granada! 

Ela estava numa festa, às tantas, um desconhecido foi impedido de entrar, por não ser convidado… momentos depois, ele lançou uma granada para o telhado! Bum! A estrutura do tecto descambou, um pau de cibe acertou no peito da infeliz, que estava sentada num canto. O autor deste acto… despareceu na escuridão!
 
Acontecimentos do género eram corriqueiros! (…).Nelson Herbert (citado anteriormente) que na época era um adolescente, recorda acontecimentos ocorridos desde 1972:

“Ataques atribuídos as células clandestinas dos nacionalistas do PAIGC em Bissau. Um engenho deflagra-se na viatura de um funcionário da PIDE-DGS estacionado junto a sede/cinema do Clube Desportivo, UDIB.” 

Manuel Amante também se lembra, ficou-lhe na memória o caso de “uma bomba que foi metida debaixo do carro de um graduado da polícia, que até era, mau! Não é? Tinha um Mercedes, na altura ele pavoneava-se com aquele Mercedes amarelo, tinha-o parado à porta da UDIB e foi colocada uma bomba que tinha sido transportada numa caixa de sapatos… (#)
 
No final de 1973 a situação em Bissau é extremamente tensa, todo o mundo está alerta e com medo. O ex-militar Abílio Magro e meu colega no QG fez o seguinte comentário:

 “Face ao crescente temor de que um dia a 'coisa' ia chegar a Bissau, o pessoal andava algo receoso e muito nervoso.” 

Nelson Herbert
recordou que “a tal distante guerra, travada contra os «homens do mato» (…) rompe o bloqueio da nossa ingenuidade e chega finalmente ao coração da capital provincial.” (…)

O fim-do-ano de 1973 para 74 passamo-lo de serviço, fechados no quartel! Dias antes do Natal tinha chegado uma ordem para colocar cortinas pretas em todas as janelas; logo depois, foram colocadas em todas as janelas. Dizia-se, era para evitar a localização dos edifícios através da luz, porque temia-se um ataque aéreo nocturno com aviões MiG que os turras tinham recebido em Conacri! 

Circulava no seio da tropa que a “ (…) Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS) na Guiné recolhera informações, dando conta que a guerrilha tem intenção, durante o Natal e o Ano Novo, de usar os MiG em bombardeamentos contra alguns aquartelamentos portugueses.”  (##)
 
Então, a malta preparou-se para o fim-de-ano… a borga seria nas repartições! As gavetas das secretárias ficaram abarrotadas de comes e bebes, que o pessoal foi comprando na cantina e trazia aos poucos às escondidas! 

No dia 31 de dezembro de 1973 saímos do serviço como sempre às 7 horas da noite, fomos jantar na messe. A partir das 20 horas voltámos ao serviço na repartição. Não havia nada para fazer! (…)

Mas, se em Bissau, a quadra do Natal e Ano Novo foi apenas um susto, no mato, a guerra continuava e estava no auge; o ex-Furriel Miliciano Enfermeiro, Abílio Alberto Tavares Faustino, recorda:

 Naquele mês de dezembro aconteceu o “(…) Não Natal de 73. A malta no Cantanhez , sobretudo, as guarnições de Cadique e Jemberém e mais a sul, a de Gadamael, vivia uma situação de exceção devido à crescente pressão por parte do IN (ou seja o PAIGC), aliada ao peso do factor psicológico e físico, o aumento de emboscadas (3 emboscadas, a 15, 17 e 18 de Dezembro) e flagelações que não deixavam de criar uma situação de insegurança. (…)

E assim, foi a passagem de ano, já estamos em 1974.

A queda de aviões Fiat e da localidade de Guileje, os ataques a Guidage e Gadamael, foram sem dúvida factos marcantes de 1973 que ainda estão na memória de todos; no meio da tropa continua a reinar a ansiedade! Mas, como já estamos acostumados com o clima de tensão, encaramos tudo com naturalidade e sempre numa perspectiva de ultrapassar as dificuldades. 

Assim, um início «atribulado» de Janeiro do novo ano de 1974, não é surpresa, pois a guerra continua. A «guerrilha urbana» não reconhecida como tal, vai estar agora bem visível… Uma realidade, que traz o medo e aumenta o sentimento de insegurança! (…)

Em meados de janeiro  [de 1974] soubemos que tinha sido lançada uma bomba contra um autocarro da Força Aérea… Que susto!"

O ex-militar Abílio Magro, citado anteriormente recorda: 

“Apenas me chegou alguma informação difusa de que teria sido colocada uma bomba no autocarro da Base Aérea, sem grandes consequências pelo facto de aquele se encontrar completamente vazio.” 

Nelson Herbert, citado anteriormente recorda: 

“Havia um muro mesmo defronte a Messe dos Sargentos da Força Aérea na Rua Engenheiro Sá Carneiro (…), esse muro foi armadilhado pelo pessoal da Zona Zero ou da clandestinidade do PAIGC em Bissau e foi parcialmente pelos ares… sem vítimas já que o autocarro por obra de qualquer irã resolveu fazer escala nesse dia, alguns minutos mais cedo! (…)"

Em meados de fevereiro, aconteceu uma explosão no QG. Foi pelas 7 da noite, eu estava de serviço de piquete, já tinha jantado na messe, ia para a formatura, depois deveria apanhar o transporte para o local da ronda. Quando a caminho do QG na rua direita depois da rotunda do poilão, ouvi: Buuummm! O chão tremeu! 

Instintivamente, atirei-me ao chão, resvalei logo ali na vala de escoamento de águas pluviais… seguiu-se o barulho de uma chuva de estilhaços, vidros partidos… etc. Depois, ouço um carro apitando… esperei algum tempo… tudo calmo, espreitei! Mas não vi nada! Levantei-me, olho à volta: reina um absoluto silêncio! O portão está fechado… 

Quando chego à porta de armas, vejo através das barras de ferro do portão, pedregulhos, lascas de parede… pastas de arquivo e papelada, caídos na parada! Não me deixam entrar! Há uma confusão total. Volto à messe, onde ouço bocas sobre o acontecido. Só depois das 8 da noite é que tudo se normaliza, lá fizemos a formatura e partimos para a ronda num bairro de Bissau.



O ex-furriel miliciano Abílio Magro recorda: 

“Encontrando-me eu a convalescer de uma operação às varizes a que tinha sido submetido no HMBIS e bebendo uma 'cervejola' sentado na esplanada da Messe de Sargentos de Santa Luzia, num final de tarde, dá-se semelhante rebentamento por ali perto, que julgo me fez levitar por breves segundos. Segue-se de imediato o buzinar contínuo e enervante da sirene de alarme do QG e a debandada geral, desordenada e atarantada do pessoal que por ali estava. "(…)

As coisas pioram com a explosão de uma bomba no Café Ronda, situado a meio da avenida que vai dar à Praça do Império. Naquele dia, eu estava de serviço de guarda, que habitualmente eu fazia na entrada principal do QG em Santa Luzia. À noite depois das 21 horas chegou notícia através do telefone que havia na porta de entrada e estava sob a responsabilidade da PM: houve uma explosão, na esplanada do Café Ronda que estava cheia de gente a tomar a bica depois do jantar! 

O ex-furriel miliciano Abílio Magro descreveu mais tarde: 

“Eu e mais dois ou três camaradas meus, tomamos o nosso cafezinho no balcão referido (Café Ronda) e seguimos de imediato para o cinema UDIB (um pouco acima na mesma avenida) para assistir à exibição de um qualquer filme que por lá andava. Poucos minutos depois do início da exibição do filme, dá-se um tremendo rebentamento lá fora e, quase de seguida se ouvem diversas viaturas com buzinadelas e sirenes, indiciando haver constante transporte de feridos. É interrompida a exibição do filme e surge uma voz aos altifalantes do cinema, solicitando a todos os médicos que eventualmente por ali se encontrassem, o favor de se dirigirem de imediato ao Hospital Militar". (…) 

No dia seguinte, estava eu, de folga, fui a Bissau, ver os estragos… vi que o telhado de zinco, ficou revirado, dava uma ideia da força da explosão. Um militar que estava no Café Ronda disse anos mais tarde, o que lhe ficou gravado mais profundamente na memória:

Foi “(…) a bomba no Ronda, por dois motivos, por estar bastante perto dela e os mortos e feridos mais graves estarem ao pé de mim, um dos mortos, e único na altura, era o empregado nativo que nos estava a servir, (…)

Há, entretanto, outros acontecimentos domésticos marcaram a tensão em Bissau em Fevereiro daquele ano de 1974. Naquele dia de manhã chegou a informação de que na véspera, a PM prendera um soldado Comando Africano, porque andava sem boina, não respeitou estar fardado conforme o regulamento! 

Os Comandos Africanos, tinham fama de destemidos e combatentes intrépidos, lá onde havia «barulho» estavam eles, logo, achavam-se no direito de ser respeitados, mesmo quando desrespeitavam ninharias como essas “coisas” do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) sobre o fardamento! 

47 anos mais tarde, coloco/recordo aquele acontecimento na página “Facebook – Guiné Recordações” e solicito depoimentos aos ex-militares da guerra colonial. 

Fernando Pinto recorda: 

“Estava no BENG (Batalhão de Engenharia) 447 Brá, Bissau, ouvi falar nisso, não sei mais nada!” 

António Almeida diz: 

“Foi verdade, eu na altura era condutor do comandante militar. Todos os grandes ficaram em sentido, fomos para o Q.G até tudo acalmar, com a intervenção do dito capitão. Mas, não foi só dessa vez que a estrada de Santa Luzia pôs tudo em sentido, as coisas eram logo abafadas "(…). 

Refere então a bomba que explodiu no QG:

 “Eu, estava lá e fui de imediato buscar o comandante que ficou ferido!” 

José Carapinha descreve o que viu: 

“Certo é que houve bronca (dos Comandos) e da grossa! Como começou não o sei! O que vi: os Comandos Africanos, desde Oficiais a Soldados armados, nota bem, com mocas e bastões, isso vi, outro tipo de armamento não; tudo isto durante a tarde junto da Amura (Quartel da PM e sede do Comando Chefe). Já pela noite ouvi o «arraial» algures lá para os lados do Alto-Crim!” (…)  (###)

 No seguimento destes acontecimentos, em Bissau, os nervos estão à flor da pele! Já estávamos em março, quando certo dia logo após a minha chegada à repartição contaram-me a bronca da véspera: um sururu no cinema ao ar livre, ao lado da Messe dos Oficiais. Já tinha começado o filme… quando aconteceu um movimento de pânico! Todos a correr e a fugir! 

O ex-furriel miliciano, Abílio Magro que lá estava recorda:

 “De repente vê-se um clarão e a debandada foi geral! Com a confusão, algumas cadeiras «ensarilharam-se» provocando tropeções e quedas e, os que caíam ao chão eram espezinhados pelos outros, como foi o meu caso.” 

Explica então a brincar: 

“A bomba tinha sido uma caixa de fósforos que se incendiara a um soldado, enquanto acendia um cigarro em cima do muro e que se terá desequilibrado!” 

A «paranóia» estava instalada! Mas, com o moral alto e muita esperança, lá vamos passando os dias, trabalhando normalmente. Vamo-nos adaptando ao evoluir da situação… As jantaradas nos restaurantes de Bissau e festas para que sou convidado fazem esquecer… minimizam este ambiente tenso. (…) 

E assim, vou encerrar a publicação dos extractos que dão uma ideia do livro que um dia poderá ser publicado. Extractos dos capítulos seguintes a este foram os primeiros a serem aqui publicados, descrevem o 25 de Abril e a situação que se viveu em Bissau em maio/junho de 1974.

Julgo, fui o único militar da tropa portuguesa (não originário da Guiné) que ficou em Bissau e lá viveu até 1975! Os meus camaradas militares cabo-verdianos todos regressaram. 

Logo, a 2.ª Parte deste livro, é sobre chegada do PAIGC a Bissau, os acontecimentos antes e depois do dia 10 de Setembro de 1974, quando Portugal reconheceu o novo país… Ocorre então uma reviravolta na sociedade, acontecem coisas inimagináveis, reina um clima de incerteza e desconfiança no futuro. 

Se houver um eventual interesse na 2.ª Parte do Livro, da parte dos leitores e da direcção desta página do Facebook "Tabanca Grande Luís Graça» e do blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné",  então poderei iniciar a publicação de mais alguns extractos. 

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Notas do autor:

[#]   No livro consta a entrevista com um dos participantes que explica, como decorreu essa acção; mas tratando-se de extractos, não poderei publicar tudo na integra agora. (….)

[##]  Vários documentos, descrevem o problema de sobrevoos de aviões da Guiné-Conacri desde 1963 e “No dia 2 de Agosto de 1973, o jornal inglês Daily Telegraph dá conta de que o PAIGC está a treinar pilotos na União Soviética para usar aviões MiG, a partir da Guiné-Conakry, em possíveis ataques contra a colónia portuguesa.”

[###]  Há mais depoimentos no livro, de militares e de pessoas que viviam em Bissau sobre este acontecimento. (…)

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos,título: LG)

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