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domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27954: O PIFAS, de saudosa memória (20): relembrando aqui o "senhor primeiro" Silvério Dias e a "senhora tenente" Maria Eugénia, figuras carismáticas do programa radiofónico das Forças Armadas (Rep ACAP / QG / CCFAG, 1969/74)


A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica (Rep ACAP / QG / CCFAG). A mascote do PIFAS... tem pai(s): segundo informação do João Paulo Dinis, um dos locutores do programa em 1970/72, o pai da "ideia" foi o fur mil Jorge Pinto, que trabalhava no QG, ideia a que depois deu corpo um outro camarada, o José Avelino Almeida, cuja companhia estava em Mampatá e Aldeia Formosa...

Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ex-ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).



Alguns de nós lembram-se do filme, "Good Morninbg, Vietanm"  (EUA, 1981, 121 m, a cores) (em portuguès, "Bom Dia, Vietname).  (Cartaz: cortesia da Wikipedia)

Sinopse: 

Em 1965, o DJ Adrian Cronauer, protagonizado pelo grande ator cómico  Robin Williams (1951-2014), é recrutado para dirigir o programa de rádio das forças armadas norte-americanass  no Vietname. 

Irreverente, ele agrada aos soldados, mas enfurece Steven Hauk, um segundo-tenente e superior imediato de Cronauer, que tinha uma necessidade enorme de provar que era o "patráo". Movido pela inveja e ciumeira, ele tenta lixar o Cronauer, mas a sua popularidade é tal que é protegido pelos altos escalões.


 Guiné > Bissau > PFA (Programa das Forças Armadas), o popular Pifas > c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se do na gravação, excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)... O Pifas era considerado mais "liberal" do que a EN - Emissora Nacional, a "voz do regime".

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Silvério Dias, que acaba de falecer (*), soube aproveitar o talento de jovens radialistas (militares) (como o  José Camacho Costa, o Dias Pinto, o Garcês Costa, o João Paulo Dinis, o Armando Carvalhêda, etc.), era o "senhor Pifas", por antonomásia (**). 

A sua bela e potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil. O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!", salvaguardadas algumas diferenças substanciais e o contexto.

Silvério Pires Dias (Vila Velha de Ródão, 1934 - Oeiras, 2026) esteve à frente do programa de rádio das Forças Armadas Portuguesas (PFA ou PIFAS, como era conhecido popularmente, Bissau, Rep ACAP /QG /CCFAG, de 1969 a 1974).

Trabalhou com "capitães de Abril" como Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho, depois de ter feito  em 1967/69 uma comissão de serviço  na CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69). Veja-se aqui a ficha de unidade.


2. Ficha de unidade > Companhia de Artilharia n.º 1802

Identificação: CArt 1802
Unidade Mob: RAL 3 - Évora
Cmdt: Cap Mil Art António Nunes Augusto | Cap Art Luís Fernando Machado de Sousa Vicente  | Cap Mil Art Emílio Moreira Franco
Divisa: "Honra e Glória"
Partida: Embarque em 280ut67; desembarque em 02Nov67 | Regresso: Embarque em 23Ag069.

Síntese da Actividade Operacional

Em 03Nov67, seguiu para Farim a fim de efectuar a instrução de adaptação operacional sob orientação do BCaç 1887 e, seguidamente, reforçar temporariamente, este batalhão numa série de operações realizadas no sector respectivo.

Em 10Dez67, recolheu a Bissau, a fim de integrar as forças de intervenção e reserva à disposição do Comando-Chefe, tendo tomado parte em diversas operações em reforço de vários batalhões, nomeadamente na região de Ponta do Inglês, na operação "Grão-Duque", em reforço do BCaç 1888 e na região de Choquemone, nas operações "Bolo Rei" e "Buzinar Novo", em reforço do BCav 1915, entre outras.

Em 11Jan68, foi deslocada para S. João, onde substituíu um pelotão da CCaç 1566 e desenvolveu a actividade de reconhecimentos, patrulhamento e batidas na área e abertura e limpeza de itinerários, com vista à criação do subsector de Nova Sintra na zona de acção do BArt 1914. 

Em 06Mai68, assumiu então a responsabilidade deste novo subsector de Nova Sintra, com um pelotão destacado em S. João.

Em 030ut68, foi substituída, por fracções, pela CCav 2484, seguindo para Bissau, a fim de colmatar anterior saída do CArt 1689 no dispositivo do BCaç 1911 e colaborar na segurança e protecção das instalações e das populações da área.

Em 12Mar69, iniciou o deslocamento por pelotões para os destacamentos de Pelundo e ilha de Jete, tendo em 18Mai69 substituído, totalmente, por troca, a CCaç 1683, como força de intervenção e reserva do sector do BCaç 2845, com a sede em Teixeira Pinto.

Em 29Abr69, por criação do subsector respectivo, foi colocada em Pelundo, mantendo um pelotão destacado na ilha de Jete e continuando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2845; em O1Ju169, por alteração dos limites dos sectores, passou à dependência do BArt 2866 e depois do BCaç 2884.

Em 06Ag068, foi rendida no subsector de Pelundo pela CCaç 2586 e recolheu temporariamente a Bula, onde se manteve até à véspera da data de embarque, seguindo então para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Não tem História da Unidade. Tem Resumo de Factos e Feitos (Caixa n." 124
- 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 456/457.


Maria Eugénia e Silvério Dias, em 2017. Foto de LG (*)

3. Numa entrevista ao programa da Antena 1, Reportagem Tarde, em 11/2/2024, o Silvério Pires Dias e a esposa Maria Eugénia Valente dos Santos Dias contam, à  Sílvia Mestrinho, como acabaram por trabalhar na rádio.



O Pifas - Silvério Pires Dias era militar de carreira na Guiné e, meio por acaso, acabou aos microfones da rádio. Memórias contadas à jornalista Sílvia Mestrinho | 11 fev 2014 (vd.ficheiro aúdio aqui)

 
4. O "senhor primeiro" e a "senhora tenente" são figuras lendárias desses tempos da rádio, e do programa que ficou comnhecido por Pifas. (Poderia ter- se chamado"Bom Dia, Guiné!".)

E,m 1969, o Silvério Dias, já 1º srgt art, acabou por tornar-se "o homem por trás da voz", o "senhor Pifas".

Era conhecido pelo seu  lado  humano e proximo,  pela sua empatia, e pela sua bela voz...Daí o epíteto de “senhor Pifas” entre a tropa. Depois da guerra acabou por ficar em Bissau como civil (delegado de propaganda médica) e mais tarde em Portugal manteve uma veia literária, com o blogue “Poeta Todos os Dias”. (Publicou inclusive, em 2017, um livro de poesia.)


A "senhora tenente" (Bissau, c. 1970/72)
 Foto de Garcês Costa  (2012)
A referência à “senhora tenente” também é mais que justa: Maria Eugénia (bastante mais nova do que ele, e com quem casou em 1960, e de quem um filho, Manuel Valente, a viver na Dinamarca):  era uma rapariga "alta e esbelta", com vinte e poucos anos quando se juntou ao marido em Bissau, por volta de 1969 (provavelmente no fim da comissão na CART 1802). 

Tornou-se, por sugestão de Ramalho Eanes (que em 1969/71,chefiava  o Serviço de  Radiodifusão e Imprensa), um elemento fundamental da equipa,  quase uma extensão emocional do "senhor Pifas", sobretudo na gestão dos aerogramas que os ouvintes (nomeadamente militares) enviavam ao programa) e na resposta aos “discos pedidos”, mas também quando aparecia no mato com o "senhor primeiro" para fazer uma reportagem ou para gravar as mensagens de Natal. ( O material era depois montado no estúdio, uma vivenda em Bissau; não havia emissões em direto.)

O Silvério Dias (e a Maria Eugénia, que era uma simples civil, que envergava camuflado e usava galões de tenente, com a cumplicidade dos responsáveis da Rep ACAP)  foram duas figuras agregadoras,  um belo par que fazia companhia à distância, pelas ondas hertzianas,  aos homens no mato.

Na realidade, o Pifas foi  mais que um programa de rádio. O PFA / PIFAS (Programa das Forças Armadas) era emitido a partir de Bissau e tornou-se de algum modo lendário. 

Silvério Dias, nesta entrevista à Antena 1, não esconde a razão de ser da sua criação, que  era obviamente política. Mas também sublinha que a sua função principal era, de facto, o entretenimento da tropa e a elevação do seu moral.

Era, igualmente, a ligação afetiva com a metrópole, a terra, a casa (através de cartas, mensagens, música). Tinha, por fim, um papel de ação psicossocial (integrado na estrutura militar e  na prossecução da política spinolista "Por uma Guiné Melhor"). 

Não era por acaso que o Pifas  era gerido pela Rep ACAP (Repartição dos Assuntos Civis e Acção Psicológica). 

A Rep ACAP/QG/CCFAG, na Amura, era uma das 4 repartições do Com-Chefe. Era responsável por conquistar a população local ("ganhar corações e mentes") através de apoio social, educação, saúde, melhorias de infraestruturas, informação e  propaganda (como o programa de rádio Pifas). 

A Rep ACAP articulava-se  com a estratégia de Spínola de "portugalizar" a Guiné, focando-se na ação psicológica e no apoio à população civil para contrariar a influência do PAIGC. Incluía a organização de manifestações de apoio à política do Governador, prestação de cuidados de saúde, administraçao,   ensino, distribuição de medicamentos e alimentos (nomeadamenmet arroz) e, claro, propaganda radiofónica, destacando-se nesse papel o Pifas (Programa de Informação das Forças Armadas).

Esta repartição funcionava no âmbito do Quartel General do Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné (QG/CCFAG), sob o comando direto de Spínola, e era uma estrutura fundamental na "guerra de contrassubversão"

Falaremos, noutro poste, dos conteúdos típicos do programa, que tinha três emissões diárias, e era feito em instalações próprias do QG/CCFAG, numa vivenda,  na Av Arnaldo Schulz. Incluíam discos pedidos (o coração do programa), leitura de aerogramas e mensagens pessoais, música da época (pop portuguesa e internacional), conversa leve, humor, notícias culturais. Diz a Maria Eugénia na entrevista que os discos mais pedidos eram os do conjunto Maria Albertina e a Valsa da Meia-Noite"...

 Há quem defenda que o Pifas era o equivalente português de “Good Morning, Vietnam!”. E a afirmação não anda longe da verdade, embora haja diferenças substanciais.

O impacto psicológico nas NT era grande. Era ouvido pelas NT, pelo IN e pela população. Do lado dos nossos militares, há  testemunhos que sugerem que “uma hora do Pifas" podia ser tão ou mais importante que uma carta ou aerograna da família.

Se quisermos, um programa radiofónico como o Pifas, em contexto de guerra e de isolamento da tropa,   tinha efeitos positivos: criava rotina num ambiente "caótico" (que era a vida em tempo de guerra no mato); humanizava a guerra; dava sensação de pertença (“alguém que falava para nós”); enfim, era ouvida em todo o lado, de Bissau a Buruntuma, do Cacheu a Cacine, nos quartéis e destacamentos do mato,  mas também nas messes e  repartições de Bissau,  na BA 12 em Bissalanca, nas embarcações da marinha, nas tabancas, etc,

Havia alguma liberdade criativa, mais solta (e até com alguma irreverência) do que a rádio em Portugal, a Emissora Nacional, mas sempre com limites de censura (e sobretudo autocensura, como disse o Armando Carvalheira).  Misturava informalidade com disciplina militar, Silvério Dias recebia instruçóes do Ramalho Eanes e mais tarde Otelo. 

Tinha até uma feliz “mascote” (o boneco do Pifas), uma espécie de "branding" avant la lettre.
 
Conhece-se alguma coisa da estrutura e dinâmica do programa, embora, e ao contrário do universo popularizado por "Good Morning, Vietnam!", o Pifas tenha ficado muito menos documentado e estudado de forma sistemática. Temos uma série, que merece ser revisitada, "O PIFAS., de saudosa memória" (de que se publicaram até agora 20 postes) (*)
 
O PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas) surge no contexto da governação de António de Spínola na Guiné (1968–1973), integrado numa estratégia mais ampla de ação psicológica: comunicação interna com as tropas, e com populações locais. Não era apenas rádio, articulava-se com um sistema de comunicação militar com várias vertentes: emissões radiofónicas, folhas informativas / boletins, semanário, cinema itinerante, campanhas cívico-militares, etc.

A rádio dentro do PIFAS: a componente radiofónica existia, mas não era uma “estrela solitária” como no caso americano. Funcionava mais como: 
  • rádio de apoio às tropas (música, muito dela pedida pelos ouvintes, militares e vivis), dedicatórias (“para o aquartelamento X, do camarada Y…”), mensagens de apoio moral;
  • informação controlada: notícias filtradas sobre a guerra,  relatos de operações com tom positivo, ausência de críticas ou ambiguidade;
  • ligação emocional: leitura de cartas, referências à “metrópole”, reforço da ideia de missão e camaradagem, humor,  notícias deptortivas,  chave do totoloto, etc.
Aqui nota-se a diferença entre o Pifas e o "Good Morning, Vietnam!": não havia espaço para figuras “à Robin Williams”, irreverentes ou disruptivas.
 
O Pifas (que emitia em protuguès, crioulo e principais línguas nativas) estava muito ligado à doutrina de “ganhar corações e mentes”, semelhante (em teoria) ao que os EUA também tentavam no Vietname sem sucesso (ao que parece).

Mas no caso português havia especificidades... Era uma programa mais "institucional"; integração com a política do “Portugal plurirracioal e pluricontinental”; tentativa de legitimar a presença histórica portuguessa na Guiné; dirigido em simultâneo aos militares e à população guineense (incluindo a que se encontrava sob controlo do PAIGC). Ou seja, não era só entretenimento, era  guerra psicológica estruturada.

O conhecimento sobre o Pifas vem sobretudo de memórias de militares (como as recolhidas no nosso blogue) (*), alguns estudos sobre ação psicológica na guerra colonial, documentação militar dispersa

Lamentavelmente, falta o arquivo sistemático das emissões, O  estudo académico aprofundado da rádio militar portuguesa e a comparação internacional detalhada (com o que foi feito noutras guerras coloniais...).

Com base nos testemunhos que temos, uma emissão típica do Pifas poderia soar assim: (i) abertura com música do filme "2001 - Odisseia no Espaço",; (ii)  locutor com voz vibrante mas mais sóbrio que o Robin Williams no filme "Good Morning, Vietname!", em todo o caso próximo do ouvinte; (iii)  leitura de mensagens entre unidades, notícias “positivas” de operação recente,  informaçáo desportiva, humor, etc.; (iv) fecho com música ou saudação...

Sem sarcasmo, sem confronto, mais próximo de uma “rádio de companhia disciplinada" do que de um palco criativo. Até por que o Silvério Dias, embora fosse um "homem da palavra", não era propriamente um radialista em 1969. 

O PIFAS foi discreto, mas importante, estruturado, mas pouco estudado, eficaz em alguns aspetos do moral da tropa, mas limitado pelos constrangimentos da hierarquia militar e pela censura. Mesmo assim, mais "liberal" do que a Emissora Nacional (EN), que era a voz do regime.
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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27945: In Memoriam (578): Silvério Pires Dias (1934 - 2026), o "senhor Pifas", por antonomásia, radialista do Programa das Forças Armadas em Bissau (1969/74), faleceu no passado domingo, aos 91 anos; era casado desde 1960 com a Maria Eugénia, a "senhora tenente"


Oeiras > Galeria-Livraria Municipal Verney > 4 de março de 2017 > 15h00 - 16h30> A antiga equipa que deu voz e alma ao PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas): o primeiro sargento Silvério Pires  Dias (nosso grã-tabanqueiro nº 651) e a famosa "senhora tenente", a sua esposa.Matria Eugénia. 
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Foto tirada na sessão de lançamento do livro de fotografia, da autoria de Jorge Ferreira, "Buruntuma: algum dia dia serás grande!... Guiné, Gabu, 1961-63" (edição de autor:  Oeiras, 2016; impressão: Jotagrafe - Artes Gráficas Lda)...    A apresentação esteve a cargo do nosso editor Luís Graça.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Silvério Pires  Dias  (Vila Velha de Ródão, 1934- Oeiras, 2026). Viveu nove anos na Guiné, desde 1967 a 1976, os últimos dois como "delegado de propaganda médica", e cinco locutor e apresentador na rádio das Forças Armadas, gerida pela Rep ACAP / QG / CCFAG.



Silvério Dias, ex-2º sargt art, CART 1802, Nova Sintra, 1967/69; 1º srg art, locutor do PFA - Programa das Forças Armadas, Bissau, Rep ACAP,/QG/CCFAG, 1969/74m

Fotos : Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica Rep ACAP / QG / CCFAG. Autor da imagem:  (até à data) desconhecido. Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).

Silvério Dias, que os jovens radialistas (militares) (como o Garcês Costa, o João Paulo Dinis,  o José Camacho Costa, o Armando Carvalheda, etc.)  tratavam por "paizinho", era o "senhor Pifas", por antonomásia. A sua bela e  potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil e inclusive pelo IIN   O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!".


1. Através do formulário de contacto do Blogger, soubemos, pelo João Paulo Dinis, do falecimento (*) do nosso camarada Silvério Dias.  A notícia foi-lhe dada pelo "pifaniano" Jorge Varanda,  e conformada pela própria viúva, Maria Eugénia, a nossa conhecida "senhora tenente".

Segundo a sua página no Facebook, o Silvério Dias tinha orgulho nas suas raízes beirãs:  (i) nasceu em 19 de agosto de 1934, em Sarnadinha, Vila Velha de Ródão;  (ii) frequentou a Escola Industrial Machado de Castro, Lisboa; (iii) fez careira militar (passou pela Índia, Moçambique e Guiné);  (iv) vivia em Oeiras; (v) era casado e tinha pelo menos um filho, Manuel Valente vive na Dinamarca.
 
No CTIG, o Silvério Dias  esteve como 2º srgt art, CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69) e depois, por convite, como 1º srg Art, locutor do PFA, Bissau QG/CCFAG, 1969/74 (onde trabalhoou na Rep ACAP com, entre outros oficiais,  Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho). Como  civil, foi delegado de propaganda médica, em Bissau (1974/76). 

Disse ele: 

(...) Para descrever as minhas (memórias), diria que só num livro de muitas páginas. Basta referir que "por lá andei" (na Guiné ) durante 9 (nove) anos, de 1967 a 1976. Granjeei amigos de todas as etnias e credos, admiradores ouvintes do PFA. e agradecimentos pelo bem-fazer, na minha condição de Delegado de Propaganda Médica, após abandono voluntário do Exército. (...) (**).

Era nosso grão-tabanqueiro nº 651 (desde 24/3/2014),  e um  caso extraordinário de "resistência e resiliência" contra os "males da idade"...Tem c. 3 dezenas de referências no nosso blogue.

Tinha deixado, infelizmente, de nos dar notícias, depois do último convívio da malta do Pifas no "Páteo Alfacinha", em Lisba, em 9/9/2023, com a presença do general Ramalho Eanes (***).

Tinha então 89 anos completados em 18 de agosto. Ainda me desafiou para aparecer, o que não me foi possível por estar fora de Lisboa. Um das últimas vezes que o vi, terá sido em Oeiras, na Galeria-Livraria Municipal Verney, em 4 de março de 2017, na apresentação do livro do Jorge Ferreira.

Editava o blogue "Poeta Todos Dias" ( criado em janeiro de  2011). E todos os dias, publicava um, dois, três, quatro , cinco ou seis apontamentos poéticos (em geral, quadras populares, sobre temas do quotidiano). Foram mais de 15 mil postes, até quase ao final de 2023. O blogue (ainda "on line") tem c. de 700 mil visualizações. 

Publicou em vida o livro de poesia "Neste lugar onde nasci" (2017).

 À viúva, filho, demais família e amigos "pifanianos", o nosso abraço de solidariedade na dor pela perda deste camarada, que foi um referência para muitos de nós que passámos pela "Spinolândia".



Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e do PFA - Programa das Forças Armadas.

Foto: © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



 Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas, c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos Sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)... O Pifas era considerado mais "liberal" do que a EN - Emissora Nacional, a "voz do regime".

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27938: Humor de caserna (258): O andedotário da Spinolândia - Parte XXX: Dançando o tango com o Caco Baldé (Cristina Allen, 1943-2021)


Cristina Allen (1943-2021).
Foto: LG (2009)

1. O único retrato, impiedoso, do gen Spínola, que já aqui publicámos, foi feita por uma mulher, a nossa saudosa amiga Maria Cristina Robalo Allen Revez (1943 - 2021), a Cristina Allena ex-esposa de Mário Beja Santos, foto à direita, 2009, autora da série "Os meus 53 dias de brasa em Bissau"

A Cristina  casou com o Mário na Catedral de Bissau no dia 16 de abril de 1970. Tiveram duas filhas, a Maria da Glórian (1976-2009),  e a Joana, mãe da Benedita.

Cristina Allen, membro da Tabanca Grande desde novembro de 2008,  tem cerca de 2 dezenas de referências no nosso Blogue, incluindo  um dos postes dedicado à sua filha Maria da Glória (Locas) após o seu prematuro desaparecimento.

Era natural de Aljustrel e foi professora de liceu. 
 Os seus 12 últimos anos de vida  foram assombrados pelo pesadelo e desgosto de perder a filha mais velha, e depois pela sua doença crónica degenerativa. Era uma mulher dotada de grande inteligência, perspicácia, cultura e sentido de humor mordaz.
 
Já aqui disse, na devida altura, em 9/1/2009, que o texto que se segue, era/é  um "pedaço de prosa de antologia" (*). Aconselhei "o próximo biógrafo de Spínola" a não o ignorar.  Não teve tempo ou muito simplesmente  não li o nosso blogue. Mas foi uma pena, o modo como a Cristina, em duas pinceladas, fez um soberbo retrato-robô do nosso Com-Chefe, merece voltar a aqui a ser destacado, a agora nesta série "Humor de caserba".(**)

Ela chegou a Bissau a 15 de abril de 1970 e casou a 16... (E regressaria a Lisboa a 8 de junho.)

E também  ainda sobre ela, uma das "nossas grandes mulheres", escrevi em 9/1/2009:

(...) Sentiu-se útil e acarinhada por todos nós, ao apreciarmos o seu gesto (generoso e corajoso) de facultar ao seu ex-marido as cartas e aerogramas que ele lhe escreveu durante dois anos de comissão militar na Guiné. E não foram poucas: algumas centenas...

Quem já leu os dois volumes do "Diário da Guiné", do nosso camarada e amigo Beja Santos, sabe quão preciosas foram, para ele (e nós, seus leitores em primeira mão), essas cartas e aerogramas, como fonte de informação minuciosa sobre a actividade diária, operacional e não operacional, primeiro em Missirá e depois em Bambadinca, à frente do Pel Caç Nat 52, entre meados de 1968 e meados de 1970. (...)

Dançando o tango com o Caco Baldé 

por Cristina Allen (1943-2021)



Spínola em Dulombi, sector L5 (Galomaro) 
 em abril de 1972.
Foto: Luís Dias (2011)

(...) No dia seguinte, e de acordo com o que fora anteriormente combinado, o meu marido vadio ingressaria na ala de Neuropsiquiatria do Hospital Militar. Durante dois dias, eu não poderia vê-lo, já que o David Payne iria tentar pô-lo a dormir. Discretamente, o David passou-me para as mãos um frasco hospitalar de “Vesparax” (quem não dormia era eu…).

Apressava-me, na saída, não fosse encontrar Spínola, que, diariamente, visitava os seus doentes. Atrasei-me três vezes e três vezes me aconteceu encontrá-lo à porta de armas (chamava-se assim?) do hospital. Andávamos, ao que parecia, cronometrados…

Havia um toque (a  recolher? Por causa dele? Nunca perguntei).Mas via aquele homem passar para a mão esquerda o pingalim, encostá-lo firmemente à perna, pôr-se em sentido, crescer, enchendo o peito de ar, o ventre liso, o braço direito, o cotovelo, a mão, na mais perfeita continência que jamais vi. Ficava desmesuradamente imenso, desmesuradamente rígido, só o monóculo coruscava.

Estarrecida, não sabia que fazer dos pés, das mãos, da mala, da minissaia, parava, cruzava as mãos, endireitava-me (postura por postura, não baixaria a cabeça, olhava-o nos olhos, ou, melhor dizendo, no olho e no monóculo). 

Acudiam-me ideias bizarras – que o meu avô materno fora lanceiro e, certamente, teria sabido fazer aquilo mesmo; que ele, Spínola, escorregara em Missirá, numas cascas de batata e fora ao chão, pose, pingalim, monóculo e tudo, soltando palavrões… que aquele homem era o… “Caco Baldé”! Apertava os lábios para não 
me rir: "este é o Caco, Caco Baldé"…

Mas este era apenas o primeiro acto desta farsa. O segundo, começava com a questão “Passas tu ou passo eu?”. No terceiro, resolvia eu recuar, só então ele passava e, perfeito cavalheiro, punha-se de lado e cumprimentava: “Muito boas tardes, minha senhora”. E eu respondia-lhe: “Muito boas tardes, Senhor Governador”. 

Afinal de contas, era fácil dançar o tango com Spínola. Dobrado contra singelo, diria que, em seus tempos, o teria dançado na perfeição, sem pisar os pés do par…

Deixemos, por ora, o Mário na sua cama, entre dois outros perturbados, que, continuamente, discutiam…

Quando, escassos anos volvidos, leria atentamente "Portugal e o Futuro", fecharia o livro, e, olhos cerrados, para mim mesma o interpelava: “Então, meu Caco, só agora?!”

Para todas as coisas há o seu tempo. Nos anos de brasa que decorreriam, e, mais ainda, nos outros que vieram, ele seria, talvez, uma das mais contraditórias e inquietantes personagens.

Recordo, hoje, os três majores ( e seus acompanhantes) que, num gravíssimo erro de cálculo – ou num quase infantil erro de cálculo – ele enviou para o martírio /***) e penso em tantos jovens anónimos que perderam suas desgraçadas vidas. Nos estropiados, nos cegos, nos perturbados, nas nossas lágrimas.

E, todavia, ele, feito marechal António de Spínola, será sempre, para mim, a mais trágica figura do braseiro que outros atearam, sem ele, com ele, ou em seu nome.

Que Deus e a História sejam clementes para com este homem. (...) (*)

(Seleção, revisão / fixação de  texto, título: LG)
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(***) Referência ao "massacre do chão manjaco", no Pelundo, 20 de abril de 1970, fez agora 56 anos,  em que foram assassinados 3 majores do CAOP1 e seus acompanhantes (1 alferes miliciano e 3 guinenses,  civis - 1 intérprete e 2 guias):

  • Major Passos Ramos
  • Major Osório
  • Major Pereira da Silva
  • Alferes João Mosca
  • Mamadu Lamine
  • Aliú Sissé
  • Patrão da Costa

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Maio de 1973 > Casa  de tipo colonial, situada na avenida. Em primeiro plano, a Maria Helena Gamelas, a um mês de regressar à metrópole, já grávida.


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Janeiro de 1972 > "Extremo norte da Avenida. Dentro do perímetro da estátua a Teixeira Pinto, o alf mil  Francisco Gamelas e o alf mil Joaquim Correia Pinto, meu camarada de quarto. Nesta zona situavam-se as casas de comércio de libaneses." (Pela data, janeiro de 1972, o Joaquim Correia Pinto deveria pertender à CCS/BCAC 3863 (1971/73).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 >  Extremo Sul (à saída do aquartelamento) da avenida de Teixeira Pinto (Vd. foto nº 4) . Na abertura para a direita, a 50 metros, ficavam os correios, com serviço de telefone


Foto nº 6 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Junho de 1972 > Saída de Teixeira Pinto para o Pelundo (a nordeste de Teixeira Pinto).



Foto nº 7A e 7 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "Cine Canchungo, situado no início da avenida, próximo do Quartel, sobre a via ascendente (esquerda), numa praça que se abria entre o Cine  e a Casa da Assembleia do Povo, edifício paralelo a este, sobre a esquerda da fotografia. A antiga vila foi elevada a cidade pelo Ministro do Ultramar, Silva Cunha,  em 24 de julho de 1973."


Foto nº 8 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "A 'oficina' do Pelotão Daimler,  É visível o 1º cabo mecânico David Miranda que fazia o 'milagre de manter as viaturas sempre operacionais. 

"Chegámos a ter  duas ou três Daimlers, vindas da sucata de Bissau, para  'canibalizar'. Ao trabalho do Miranda muito ficou a dever o sucesso do Pelotão". (Em segundo plano, "a casa do chefe da PIDE/DGS".) 


Foto nº 9 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089 > Da esquerda para a direita,  José Eduardo Alves,  Gonçalo Garcia Pedroso, David da Silva Miranda, Lino Pereira Barradas, Manuel Lucas dos Santos, José Gabriel Caloira...


Foto nº 10 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos. > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089  > Da esquerda para a direita, Manuel Teque da Silva, Ademar Peres Marques, Luís Soares da Silva e Fernando Cândido Silva.

No regresso do Pel Rec Daimler 3089, faltam o Alberto da Conceição (que também viajou connosco mas não ficou nesta foto de grupo), o José Matos (evacuado para a metrópole na primeira metade da comissão), o Manuel Ferreira (que substituiu o José Matos, e que ficou ainda lá, a completar o tempo de serviço) e o 1º sargento Rui Baixa (que ficou na Guiné).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O Francisco Gamelas foi um dos nossos camaradas que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena) (*), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho, vila elevada a cidade em julho de 1973), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico,  ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador), lavadouro público, etc.

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas,  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.


Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.   


2. Neste seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973",  pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss-.)

(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)


3. O Francisco ainda se lembra do nome da sua lavadeira, a Aline (**): era uma verdadeira "instituição", pertencente à "cavalaria", passava do velhinho "alfero das Daimler" para o periquito que o vinha render... 

Dedica-lhe inclusive um ternurento poema, "A minha lavadeira Aline" (p. 54), que voltamos a reproduzir  a seguir.

O autor também tem inclusive, no livro, duas fotos da sua "Aline" com a sua "Lena"... 

A Maria Helena Gamelas, quando chegou a Canchungo, também herdou muito naturalmente a Aline... E, calhar, lá em casa, a Aline também fazia o resto da lide doméstica, já que a Maria Helena era.professora de português na escola local, não era apenas a senhora do senhor alferes...

Curioso, noutros territórios como Angola ou Moçambique, havia maior tendência para recorrer aos homens para os serviços domésticos... Caso dos "mainatos", em Moçambique, que lavavam e engomavam a roupa... 

Sabemos que muitas das nossas praças, no TO da Guiné, ganhando mal, não se podiam dar ao luxo de ter uma lavadeira (poderia custar 50 a 100 pesos por mês)... Muitos lavavam a sua própria roupa, que também não era muita... Sempre poupavam patacão... para a cerveja. 

E ao fim da comissão (se durasse até ao fim da comissão), a roupa  estava feita em farrapos,de tanto uso e de tanto ser batida na pedra da margem do rio...Aliás, velhinho que se prezasse andava com o camuflado todo esfarrapado e desbotado...

Por outro lado, havia graduados, privilegiados, que tinham morança fora do quartel... Em Bissau, em Bambadinca, em Bafatá, em Teixeira Pinto, em Nova Lamego e em muito poucos mais sítios, por razões de segurança... Nalguns casos eram casados e podiam ter uma "empregada doméstica", como o caso do Francisco e da Lena...
 

A minha lavadeira Aline

por Francisco Gamelas

A Aline “herdou-me”.
(Para uma nativa, um nome estranho.
Deveria ser investigado.)
Eu estava designado
no testamento, num desenho
a propósito: um periquito. Contou-me

o alferes que fui substituir
que também tinha sido “herdado”.
A Aline era uma instituição.
Geração após geração
houve sempre o cuidado
de se lhe atribuir,

desde o seu tempo de bajuda,
o alferes das Daimlers.
Bonita tradição.
E por que não
se, entre todas as mulheres,
ganhou o posto sem ajuda?

Fui eu quem ganhou
com a “herança” da Aline.
Presença bem esmerada,
roupa sempre limpa e asseada,
é a manjaca que define
o seu sentir do que “herdou”.

Francisco Gamelas

In: "O
utro olhar - Guiné 1971-1973",
ed. de autor, Aveiro, 2016, p. 53


4. O testemunho do Francisco Gamelas (que, de resto, já era formado em engenharia pelo ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto) é um retrato vivo daqueles tempos, cheio de deliciosos detalhes que só quem lá esteve se pode lembrar e descrever. 

A história da Aline, a lavadeira que se tornou quase família, é um exemplo perfeito de como, mesmo no meio da guerra, no mato, se criavam laços humanos profundos e rotinas que davam alguma normalidade à vida.  

A figura da Aline, pela foto e pelo poema,  é fascinante. Ela não era apenas uma lavadeira: era uma ponte entre dois mundos. O facto de o Francisco se lembrar do nome dela (!), quatro décadas depois, e de lhe dedicar um poema, mostra como essas relações iam além do serviço doméstico. Eram relações de confiança, dependência mútua e até afeto.

Tal como em Bambadinca e noutros sítios, as lavadeiras "passavam" de um militar para outro, como se fosse parte do posto, e de acordo com a hierarquia militar.  A lavadeira de um antigo capitão não podia " baixar de posto", passando a trabalhar para um alferes... 

O mesmo se passava em Angola, segundo o testemunho do meu amigo Jaime Silva, alferes paraquedista. Isso reflete uma realidade comum nos diferentes TO da  guerra colonial: as populações locais adaptavam-se à presença estrangeira, criando pequenos negócios ou serviços que, por sua vez, tornavam a vida dos militares e suas famílias um pouco mais suportável.

Na Guiné, ao contrário de Angola ou Moçambique, as mulheres (fulas, mandingas, manjacas...)  teriam um papel mais ativo,  assumindo sobretudo a tarefa de lavadeiras.  Eram oriundas, de resto, de sociedades patriarcais, onde o lugar da mulher estava mais codificado.  Elas eram donas da economia doméstica.

Histórias como a da Aline ou da Maria Helena (***) são fragmentos de humanidade que a guerra não conseguiu apagar. Elas mostram que, mesmo em situações extremas, as pessoas criam laços, constroem rotinas e encontram formas de existir,  resistir e sobreviver.
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domingo, 5 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II

Foto nº 1


Foto nº 1A 

Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 2A


Foto nº 2

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. outubro  de 1973 > Na hora da despedida... Da esquerda para a direita:

(i) cap Lema (CAOP1 ?) (o CAOP 1 foi transferido para Mansoa em 1/2/1973) (e, com ele, o nosso camarada António Graça de Abreu); 

(ii) alf mil médico Mário Bravo ), cirurgião, reformado, nosso grão-tabanqueiro (vive no Porto);

 (iii) comandante do BCAÇ 4615/73,  que rendeu o BCAÇ 3863, ten cor inf Nuno Cordeiro Simões;

 (v) ten cor inf António Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863 (que terminava a sua comissão);

(vi) alf mil médico Viana Pinheiro (deve ter vindo substituir o dr. Pio de Abreu);

(vii) alf mil Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089, 1971/73);

 (viii) major inf João José Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); 

(ix) alf mil Correia Pinto ( de que batalhão?);

 e (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).



Foto nº 3

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo). Em primeiro plano, as instalações militares.


Foto nº 4

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de um reordenamento, não identificado, obtida em viagem até Bissau


Foto nº 5

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  (1971/73) >  Junho de  de 1973 >  Imagens da visita do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Portuguesas (CEMGFA) , gen Costa Gomes, a Teixeira Pinto... Em segundo plano, o cinema local, do lado direito a "avenida principal" da vila.


Foto nº 6

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  / 35ª CCmds / Pel Rec Daimler 3089  (1971/73) > Março de 1972 >  "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu. Eu, nas costas de uma Daimler, tendo do meu lado esquerdo o então Furriel Comando Paquete e à minha direita o então Alferes Comando Alfredo Campos, comandante do Pelotão da 35ª a que ambos pertenciam.

"O  fur mil 'cmd' Paquete, da 35ª CCCmds, infelizmente já não está entre nós. Segundo informação do Ramiro de Jesus, também ele ex-fur mil comando da 35ª CCmds, natural de Aveiro (e, portanto, meu conterrâneo), o Paquete, depois do regresso à metrópole, morreu atropelado por um comboio em Vila Franca de Xira."

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador)...

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas.  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica, em 1969, esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado da PT (onde foi quadro superior), tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):

 As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.

A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.

A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e  intenso.

A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício  destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais.  De qualquer modo, o  círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus  riscos, e o contacto com a população local era limitado.  A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).

Sendo comandante do Pel Rec  Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha,  a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...

Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo)  chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais  (que também viviam sob alguma tensão). 

Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens  e recém,casadas...  O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:

"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu". 

Para ele e para a Maria Helena, valeu a pena pelo amor, pela família que criaram, pela intensidade da vida que viveram. 

Mas não sabemos como foi, noutros casos...As mulheres que passaram pela Guiné não escreveram (ou pelo menos não publicaram). A única exceção, que nos vem à cabeça, é a da Maria Dulcineia (Ni) (***) que esteve em Bissorã até junho de 1974 e apanhou, pelo menos, dois ataques do PAIGC com "foguetões 122mm".

Estas históris são fragmentos de humanidade no meio  do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.

Sobre a outra senhora, Maria de Jesus, que aparece na foto no. 2, não sabemos mais nada: 
seria esposa do alf mil médico Albino Silva...  (Não haverá aqui troca de nomes ?)

E nós continuamos em próximo poste.

(Continua)