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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Maio de 1973 > Casa  de tipo colonial, situada na avenida. Em primeiro plano, a Maria Helena Gamelas, a um mês de regressar à metrópole, já grávida.


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto >  Janeiro de 1972 > "Extremo norte da Avenida. Dentro do perímetro da estátua a Teixeira Pinto, o alf mil  Francisco Gamelas e o alf mil Joaquim Correia Pinto, meu camarada de quarto. Nesta zona situavam-se as casas de comércio de libaneses." (Pela data, janeiro de 1972, o Joaquim Correia Pinto deveria pertender à CCS/BCAC 3863 (1971/73).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 >  Extremo Sul (à saída do aquartelamento) da avenida de Teixeira Pinto (Vd. foto nº 4) . Na abertura para a direita, a 50 metros, ficavam os correios, com serviço de telefone


Foto nº 6 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Junho de 1972 > Saída de Teixeira Pinto para o Pelundo (a nordeste de Teixeira Pinto).



Foto nº 7A e 7 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "Cine Canchungo, situado no início da avenida, próximo do Quartel, sobre a via ascendente (esquerda), numa praça que se abria entre o Cine  e a Casa da Assembleia do Povo, edifício paralelo a este, sobre a esquerda da fotografia. A antiga vila foi elevada a cidade pelo Ministro do Ultramar, Silva Cunha,  em 24 de julho de 1973."


Foto nº 8 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > "A 'oficina' do Pelotão Daimler,  É visível o 1º cabo mecânico David Miranda que fazia o 'milagre de manter as viaturas sempre operacionais. 

"Chegámos a ter  duas ou três Daimlers, vindas da sucata de Bissau, para  'canibalizar'. Ao trabalho do Miranda muito ficou a dever o sucesso do Pelotão". (Em segundo plano, "a casa do chefe da PIDE/DGS".) 


Foto nº 9 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089 > Da esquerda para a direita,  José Eduardo Alves,  Gonçalo Garcia Pedroso, David da Silva Miranda, Lino Pereira Barradas, Manuel Lucas dos Santos, José Gabriel Caloira...


Foto nº 10 > Lisboa > Cais da Rocha do Conde de Óbidos. > 11 de outubro de 1973 > O regresso do Pel Rec Daimler 3089  > Da esquerda para a direita, Manuel Teque da Silva, Ademar Peres Marques, Luís Soares da Silva e Fernando Cândido Silva.

No regresso do Pel Rec Daimler 3089, faltam o Alberto da Conceição (que também viajou connosco mas não ficou nesta foto de grupo), o José Matos (evacuado para a metrópole na primeira metade da comissão), o Manuel Ferreira (que substituiu o José Matos, e que ficou ainda lá, a completar o tempo de serviço) e o 1º sargento Rui Baixa (que ficou na Guiné).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O Francisco Gamelas foi um dos nossos camaradas que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena) (*), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho, vila elevada a cidade em julho de 1973), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico,  ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador), lavadouro público, etc.

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas,  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica (ISEP, 1969), esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado (foi quadro superior da PT),  tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.


Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.   


2. Neste seu livro, "Outro olhar - Guiné 1971-1973",  pode encontrar-se uma detalhada descrição da Teixeira Pinto daqueles tempos (pp. 16 e ss-.)

(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância. 

"O quartel albergava as sedes de uma batalhão [o BCAÇ 3863] e de um CAOP [1]. Este com uma companhia de forças especiais - comandos [a 35ª CCmds]. 

"Na avenida, ou a ela chegados, sediavam-se os serviços disponibilizados, próximos do quartel. (...) 

"De ambos os lados erguiam-se casas de habitação de aspecto colonial, tendencialmente as melhores da cidade. Que me recorde, em nenhuma delas habitava uma família nativa". (...)


3. O Francisco ainda se lembra do nome da sua lavadeira, a Aline (**): era uma verdadeira "instituição", pertencente à "cavalaria", passava do velhinho "alfero das Daimler" para o periquito que o vinha render... 

Dedica-lhe inclusive um ternurento poema, "A minha lavadeira Aline" (p. 54), que voltamos a reproduzir  a seguir.

O autor também tem inclusive, no livro, duas fotos da sua "Aline" com a sua "Lena"... 

A Maria Helena Gamelas, quando chegou a Canchungo, também herdou muito naturalmente a Aline... E, calhar, lá em casa, a Aline também fazia o resto da lide doméstica, já que a Maria Helena era.professora de português na escola local, não era apenas a senhora do senhor alferes...

Curioso, noutros territórios como Angola ou Moçambique, havia maior tendência para recorrer aos homens para os serviços domésticos... Caso dos "mainatos", em Moçambique, que lavavam e engomavam a roupa... 

Sabemos que muitas das nossas praças, no TO da Guiné, ganhando mal, não se podiam dar ao luxo de ter uma lavadeira (poderia custar 50 a 100 pesos por mês)... Muitos lavavam a sua própria roupa, que também não era muita... Sempre poupavam patacão... para a cerveja. 

E ao fim da comissão (se durasse até ao fim da comissão), a roupa  estava feita em farrapos,de tanto uso e de tanto ser batida na pedra da margem do rio...Aliás, velhinho que se prezasse andava com o camuflado todo esfarrapado e desbotado...

Por outro lado, havia graduados, privilegiados, que tinham morança fora do quartel... Em Bissau, em Bambadinca, em Bafatá, em Teixeira Pinto, em Nova Lamego e em muito poucos mais sítios, por razões de segurança... Nalguns casos eram casados e podiam ter uma "empregada doméstica", como o caso do Francisco e da Lena...
 

A minha lavadeira Aline

por Francisco Gamelas

A Aline “herdou-me”.
(Para uma nativa, um nome estranho.
Deveria ser investigado.)
Eu estava designado
no testamento, num desenho
a propósito: um periquito. Contou-me

o alferes que fui substituir
que também tinha sido “herdado”.
A Aline era uma instituição.
Geração após geração
houve sempre o cuidado
de se lhe atribuir,

desde o seu tempo de bajuda,
o alferes das Daimlers.
Bonita tradição.
E por que não
se, entre todas as mulheres,
ganhou o posto sem ajuda?

Fui eu quem ganhou
com a “herança” da Aline.
Presença bem esmerada,
roupa sempre limpa e asseada,
é a manjaca que define
o seu sentir do que “herdou”.

Francisco Gamelas

In: "O
utro olhar - Guiné 1971-1973",
ed. de autor, Aveiro, 2016, p. 53


4. O testemunho do Francisco Gamelas (que, de resto, já era formado em engenharia pelo ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto) é um retrato vivo daqueles tempos, cheio de deliciosos detalhes que só quem lá esteve se pode lembrar e descrever. 

A história da Aline, a lavadeira que se tornou quase família, é um exemplo perfeito de como, mesmo no meio da guerra, no mato, se criavam laços humanos profundos e rotinas que davam alguma normalidade à vida.  

A figura da Aline, pela foto e pelo poema,  é fascinante. Ela não era apenas uma lavadeira: era uma ponte entre dois mundos. O facto de o Francisco se lembrar do nome dela (!), quatro décadas depois, e de lhe dedicar um poema, mostra como essas relações iam além do serviço doméstico. Eram relações de confiança, dependência mútua e até afeto.

Tal como em Bambadinca e noutros sítios, as lavadeiras "passavam" de um militar para outro, como se fosse parte do posto, e de acordo com a hierarquia militar.  A lavadeira de um antigo capitão não podia " baixar de posto", passando a trabalhar para um alferes... 

O mesmo se passava em Angola, segundo o testemunho do meu amigo Jaime Silva, alferes paraquedista. Isso reflete uma realidade comum nos diferentes TO da  guerra colonial: as populações locais adaptavam-se à presença estrangeira, criando pequenos negócios ou serviços que, por sua vez, tornavam a vida dos militares e suas famílias um pouco mais suportável.

Na Guiné, ao contrário de Angola ou Moçambique, as mulheres (fulas, mandingas, manjacas...)  teriam um papel mais ativo,  assumindo sobretudo a tarefa de lavadeiras.  Eram oriundas, de resto, de sociedades patriarcais, onde o lugar da mulher estava mais codificado.  Elas eram donas da economia doméstica.

Histórias como a da Aline ou da Maria Helena (***) são fragmentos de humanidade que a guerra não conseguiu apagar. Elas mostram que, mesmo em situações extremas, as pessoas criam laços, constroem rotinas e encontram formas de existir,  resistir e sobreviver.
_______________


domingo, 5 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II

Foto nº 1


Foto nº 1A 

Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 2A


Foto nº 2

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. outubro  de 1973 > Na hora da despedida... Da esquerda para a direita:

(i) cap Lema (CAOP1 ?) (o CAOP 1 foi transferido para Mansoa em 1/2/1973) (e, com ele, o nosso camarada António Graça de Abreu); 

(ii) alf mil médico Mário Bravo ), cirurgião, reformado, nosso grão-tabanqueiro (vive no Porto);

 (iii) comandante do BCAÇ 4615/73,  que rendeu o BCAÇ 3863, ten cor inf Nuno Cordeiro Simões;

 (v) ten cor inf António Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863 (que terminava a sua comissão);

(vi) alf mil médico Viana Pinheiro (deve ter vindo substituir o dr. Pio de Abreu);

(vii) alf mil Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089, 1971/73);

 (viii) major inf João José Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); 

(ix) alf mil Correia Pinto ( de que batalhão?);

 e (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).



Foto nº 3

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo). Em primeiro plano, as instalações militares.


Foto nº 4

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de um reordenamento, não identificado, obtida em viagem até Bissau


Foto nº 5

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  (1971/73) >  Junho de  de 1973 >  Imagens da visita do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Portuguesas (CEMGFA) , gen Costa Gomes, a Teixeira Pinto... Em segundo plano, o cinema local, do lado direito a "avenida principal" da vila.


Foto nº 6

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  / 35ª CCmds / Pel Rec Daimler 3089  (1971/73) > Março de 1972 >  "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu. Eu, nas costas de uma Daimler, tendo do meu lado esquerdo o então Furriel Comando Paquete e à minha direita o então Alferes Comando Alfredo Campos, comandante do Pelotão da 35ª a que ambos pertenciam.

"O  fur mil 'cmd' Paquete, da 35ª CCCmds, infelizmente já não está entre nós. Segundo informação do Ramiro de Jesus, também ele ex-fur mil comando da 35ª CCmds, natural de Aveiro (e, portanto, meu conterrâneo), o Paquete, depois do regresso à metrópole, morreu atropelado por um comboio em Vila Franca de Xira."

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador)...

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas.  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica, em 1969, esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado da PT (onde foi quadro superior), tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):

 As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.

A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.

A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e  intenso.

A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício  destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais.  De qualquer modo, o  círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus  riscos, e o contacto com a população local era limitado.  A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).

Sendo comandante do Pel Rec  Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha,  a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...

Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo)  chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais  (que também viviam sob alguma tensão). 

Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens  e recém,casadas...  O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:

"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu". 

Para ele e para a Maria Helena, valeu a pena pelo amor, pela família que criaram, pela intensidade da vida que viveram. 

Mas não sabemos como foi, noutros casos...As mulheres que passaram pela Guiné não escreveram (ou pelo menos não publicaram). A única exceção, que nos vem à cabeça, é a da Maria Dulcineia (Ni) (***) que esteve em Bissorã até junho de 1974 e apanhou, pelo menos, dois ataques do PAIGC com "foguetões 122mm".

Estas históris são fragmentos de humanidade no meio  do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.

Sobre a outra senhora, Maria de Jesus, que aparece na foto no. 2, não sabemos mais nada: 
seria esposa do alf mil médico Albino Silva...  (Não haverá aqui troca de nomes ?)

E nós continuamos em próximo poste.

(Continua)  

segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27848: Esposas de militares no mato (1): Bambadinca, ao tempo do BART 2917 (1970-72) - Parte I



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º Srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Eram pouco os sítios, fora de Bissau, no mato, no interior da Guiné, onde viveram esposas (e nalguns casos filhos) de militares metropolitanos, oficiais e sargentos, do QP ou milicianos.

 A maior parte malta que respondeu a um inquérito nosso "on line", em 2016, nunca esteve com familiares de militares, europeus, em quartéis do mato (*).

Como exceções, fora da capital, Bissau, poderíamos citar, na Zona Oeste, Mansoa, Teixeira Pinto, São Domingos, Farim,  talvez Bula; e na zona leste, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego...

Comecemos por Bambadinca, no início da década de 1970. Estamos  em plena Spinolândia. 

O Comandante-Chefe já tinha posto "um par de patins", nos pés do ten-cor art Domingos Magalhães Filipe, de alcunha o "Nord Atlas"  ("um bom homem, mas que de guerra efectivamente só deveria saber o que vinha nos livros", escreveu o David Guimrães, há mais de 20 anos). 

O Magalhães Filipe foi comandante do BART 2917, de 15/11/69 a 12/11/70, sendo substituído nessas funções pelo 2º comandante, o maj art José António Anjos de Carvalho (desde 12/11/70 a 2/2/71). Por fim Spínola nomeou como comandante do BART 2917  o ten cor inf João Polidoro Monteiro (até ao fim da comissão, em 27/3/72).

O maj art Anjos de Carvalho não deixou saudades a ninguém, bem pelo contrário: os graduados da CCAÇ 12, que nos renderam em março de 1971, chamavam-lhe o "Alma Negra", e parodiaram-no, usando uma canção tradicional, que a Amália Rodrigues imortalizou ("Tiro-Liro-Liro") (**):

"Cá em cima está o tiro-liro-liro, / cá em baixo está o tiro-liro-ló / Juntaram-se os dois à esquina / A tocar a concertina, a dançar o solidó"... 

Passou a ser o hino da CCAÇ 12, cantarolado até à exaustão nos convívios anuais... Era uma cantiga de escárnio e maldizer, em que o visado era o 2º comandante do BART 2917, o então major art Anjos de Carvalho: tinha um gosto, dizem que compulsivo, por comandar operações "by air", ou seja, através do PCV - Posto de Comand0 Volante, em DO-27... (Estamos a falar do tempo antes dos Strela...).


2. Voltando à foto acima, do Vitor Raposeiro (que é de Setúbal e vive lá. mas de quem há muito não temos notícias), e agora destacando as senhoras: 
  • à direita do Brito, a Helena, mulher do alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende); (o Carlão que veio do CSM, já faleceu) (***):
  •  à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref);
  •  e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). 

Analisando a foto do Vitor Raposeiro, não há dúvida que se tratou da festa de anos do nosso Primeiro Brito (tem uma chupeta pendurada ao peito, brincadeira da malta...). Também me parecia que esta festa, na messe de sargentos, não podia ter sido o jantar de Natal, ou coisa parecida: nessa altura, no final do ano, as relações com o major art Anjos de Carvalho, a três meses de acabar a nossa comissão, eram muito tensas ( por causa da Op Abencerragem Candente, e outras chatices). A CCAÇ 12, como companhia de intervenção, africana, estava adida ao comando do setor L1.

O 1º Brito era de facto um "grande senhor 1º sargento", e que mantinha com a malta da CCAÇ 12  (os furrieis milicianos) uma "relação muito especial"... 
Este jantar terá ocorrido nos  primeiros tempos, após a chegada do BART 2917 (em finais de maio de 1970) a Bambadinca,  vindo  render o BCAÇ 2852 (1968/70)... 

3. Na altura, eram estas, se não erramos, as únicas três senhoras, brancas,  que existiam no quartel de Bambadinca (não contando com a senhora professora do ensino primária, cabo-verdiana, que raramente era vista, mas que vivia dentro das nossas instalações militares, no edifício da escola, a dona Violete da Silva Aires;  nem me consta que alguma vez tivesse sido convidada para a messe de oficiais ou convivido com as outras senhoras)...

Os militares guineenses, do recrutamento local (da CCAÇ 12 e outras subunidades, como os Pel Caç Nat que estiveram connosco) (cerca de 270 militares) em geral eram casados e tinham consigo as famílias mas fora do arame farpado, vivendo em Bambadinca ou em Bambadincazinho.

4. No tempo do BCAÇ 2852, e até ao ataque a Bambadinca, em 28/5/1969, julgo que  terão chegado a lá estar três senhoras, pelo menos: 
  • e creio que também  a esposa do médico, David Payne (mais tarde psiquiatra, já falecido).

O Torcato Mendonça confirma

"Bambadinca era uma maravilha para nós [CART 2339, "Os Viriatos", Mansambo, 1968/69]. Vivia-se lá um clima de tranquilidade e de bom convívio. Para isso contribuía o Comandante e vários militares. Como a segurança era boa, estavam lá as esposas do comandante, do médico e do tenente da secretaria".


 5. Comentário do editor LG:

Na decisão de levar ou não levar a família para o teatro de operações, deviam pesar muitos fatores... 

Não era uma decisão fácil, no final da década de 1960, nove anos depois de ter começado a guerra colonial... Sobretudo para os militares do quadro, alguns já com 2 ou 3 comissões de serviço no ultramar.

É verdade, dirão alguns,  que foi a "vida" que escolheram, os oficiais e os sargentos dos três  ramos das forças armadas portuguesas... 

Por razões logísticas, de segurança, de saúde, de isolamento, etc., era mais difícil aos militares do exército levarem, para o mato, as famílias, as esposas sem filhos ou as esposas com filhos... 

No caso dos oficiais superiores, era diferente: tinham direito a alojamento em Bissau,  os filhos podiam frequentar o liceu, havia aerporto, hospital, lojas, resuarantes, havia, enfim, um arremedo de civilização...

Nos aquartelamentos do mato, dependia da companhia (CCS ou unidade de quadrícula, região, localidade, acessibilidade, instalações, segurança relativa,  transportes, logística, habitação, etc.). 

Não me lembro de ver famílias de militares, não guineenses, nas unidades de quadrícula do BCAÇ 2852 e do BART 2917, no setor L1: Xime, Mansambo, Xitole, Saltinho (que depois passa para o setor L5)... Muito menos em destacamentos onde as condições hoteleiras eram deploráveis ou inexistentes (Fá Mandinga, Missirá...). Era de todo impensável alguma senhora viver nestes "resorts"...

Para os jovens furriéis e alferes, do QP ou milicianos,  "just married", acabados de casar, ou que casavam a meio da comissão, ainda sem filhos, era uma decisão aparentemente mais fácil, lógica e natural, mas não isenta de riscos, sobretudo se o militar fosse um operacional..

Também não terá havido muitos "operacionais" com as esposas no TO da Guiné, mesmo em Bissau (por ex, tropas especiais).

Apesar da "milicianização" e "africanização" da guerra ( nos 3 TO),  ninguém estava à espera que aquele conflito  pudesse  durar 11/12/13/14 anos...

Sobretudo entre os militares de carreira, ninguém estava preparado para estar muitos anos longe da mulher e dos filhos (e com estes a crescer)... Ou de adiar a decisão de ter filhos.

Mas esse foi o cenário em que viveram muitas famílias portuguesas ao longo dos séculos, desde os "Descobrimentos": uma viagem de ida e volta à Índia podia demorar 1 e tal  / 2 anos...

Faltam-nos testemunhos dos homens e mulheres que cresceram com os pais, militares, em comissões de serviço em África... 

Salazar, que não era casado nem tinha filhos, nunca poderia saber avaliar os custos (emocionais, afetivos, de saúde, etc.) que a "guerra do ultramar" ou "guerra de África" ou "guerra colonial" (como se queira chamar) também teve para os militares  e as suas famílias, os homens (e as mulheres) que a fizeram (e a sofreram)...
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(***) Vd. poste de 15 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25744: In Memoriam (507): António Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ex-alf mil at inf, CCÇ 2590 / CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadina, 1969/71) (Jorge Alvarenga, amigo da família)

domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27847: Humor de caserna (250): O anedotário da Spinolândia (XXII): A carecada do Arfan Jau e o "embaraço" da senhora do capitão


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) Canquelifá > 1970 > Festas do fim do Ramadão > Lutas fulas, de corpo a corpo... Repare-se no risco, dividindo os dois campos...

Foto (e legendagem)  © Valdemar Queiroz (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Nova Lamego > Quartel de Baixo > Junho de 1970 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > O Valdemar Queiroz (12) ao lado do alf mil Pina Cabral (13) e o 4º.Pelotão...  Restantes furriéis: Pinto (5) e Macias (9). 

O Arfan Jau desta história é o nº 8 (imagem à esquerda; vd,. também em cima à direita). A seu lado o ex-fur mil Manuel Macias, membro da nossa Tabanca Grande e da Tabanca da Linha.

Ambos pertenciam à "nova força africana", que começou a ser constituída no CIM de Contuboel, com a CART 11 (depois, CCAÇ 11) e a CCAÇ 12, no  1º semestre de 1969, e que era uma das "coqueluches" do novo comandante-chefe, António Spínola. (No CIM de Bolama, estavam a formar-se a CCAÇ 13 e CCAÇ 14.)
 
A propósito das poucas esposas de oficiais e sargentos, do QP e milicianos, que também "foram à guerra" (leia-se: acompanharam os maridos no mato, durante a comissão ou parte da comissão) (*), há uma história deliciosa que o Valdemar Queiroz quis partilhar connosco, há quase uma década atrás (**). E que se encaixa bem na série "Humor de caserba" e na subsérie "O amedotário da Spinolândia" (***)-

Recorde-se que o Valdemar Queiroz  foi fur mil,  CART 2479 /CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70), e que a sua morte, ainda recente (fez agora um ano, em 3 de março) deixou-nos a todos desolados.

É impossível ler ou reler este texto sem sentir a sua falta np blogue.  Ele tinha um talento único para contar, geralmente na caixa de comentários,  pequenos apontamentos do nosso dia-a-dia  que ajudavam  humanizar a guerra. E tinha um especial carinho pelos seus soldados guineenses.  A cena final desta história com a resposta do Arfan Jau, é um exemplo perfeito de como o humor nasce da mistura de línguas, culturas e situações absurdas. Em honra da sua memória, espero que o brindem com os comentários que ele e a sua história merecem.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A carecada do Arfan Jau e o "embaraço" da senhora do capitão

por Valdemar Queiroz (1945-2025)

O Arfan Jau, soldado do meu 4º. Pelotão, da CArt 11, era um lutador profissional, ou quase, dado que

 tinha 18 anos e fazia vida, para ganhar algum dinheiro, com as lutas 'à fula' (género greco-romana) em dias de festa.

Era, ainda com pouca idade, um grande campeão. Mas o Arfan Jau também era nosso soldado. E que grande soldado, em valentia, porte físico e humildade.

Ele era da secção do ex-fur mil Manuel Macias e logo entendeu que o furriel precisava dum guarda-costas. Para onde ia o Macias lá estava o Arfan Jau (ver acima foto do 4º Pelotão em Nova Lamego e lá está o Arfan ao lado do Macias).

O ex-alf mil Pina Cabral, cmdt do nosso Pelotão, achou que o Arfan Jau estava adquirir um estatuto especial e a tornar-se muito refilão e, para levar uma carecada por grande 'reguila', faltou pouco e assim foi. E lá o valente lutador Arfan Jau levou uma carecada disciplinar.

Coitado já não podia lutar, parece que era o cabelo que lhe dava força [tal como o Sansão da Dalila].

Um dia, o Arfan Jau ainda com uma grande carecada e com
o quico debaixo do braço, entrou, na hora do almoço, na messe de oficiais e sargentos a perguntar pelo furriel Macias . 


Cap mil Aniceto Pinto
 (****)
Logo à entrada era a mesa do Capitão e dos Alferes e também da esposa do nosso cap mil art Analido Aniceto Pinto  [foto á direita] que já estava a viver com ele em Nova Lamego.

– Então,  Jau? O que é que te aconteceu? – perguntou a senhora quando o viu careca.

Respondeu o Arfan Jau, com toda a humildade e com palavras em bom português que tinha aprendido com soldados do Porto;

– Senhora, Arfan Jau cá tem cabelo,  manga de fodido.

Que maravilha!!! 

Já não me lembro se houve um silêncio embaraçoso ou umas gargalhadas estridentes.[Provavelmente, um silêncio embaraçoso, por atenção à senhora do capitão e ao seu estado interessante: "embaraço, em português, tanto quer dizer "constrangimento" como  "gravidez". LG]

A esposa do Capitão ainda por lá ficou uns meses, depois por já estar em estado avançado de gravidez foi evacuada.


Valdemar Queiroz,  22 de outubro de 2016 às 00:11

(Revisão / fixação de texto, título: LG) 
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(***) Último poste da série >  21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard

Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais



Foto nº 1A >  Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Finais de 1968  > O jovem casal, cap inf Carlos Alberto Cardoso, novo cmdt da CCS, e a esposa, "just married".



Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > Finais de 1968  > Jantar presidido pelo 2º comandante, maj inf Américo Correia... Do lado direito, o jovem casal, cap inf Cardoso, novo cmdt da CCS, e a esposa.

 

Foto nº 2  > 
Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >  Jantar e Ceia de Natal de 1968, na messe de oficiais em São Domingos > De costas, a esposa do cap inf Cardoso, do outro lado da mesa a esposa do ten mil médico Cortez.

 Havia pelo menos mais duas senhoras, a esposas dos comandantes do Pel Rec Daimler 1130 e do Pel Morteiros.
 


Foto nº 3 > Nova Lamego > Dezembro de 1967 > Na sala de cinema local,  onde passavam alguns filmes para divertir a malta. Na primeira fila a esposa do nosso médico, tenente miliciano Cortez.



Foto nº 4 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) >  1969  > Espectáculo programado para o dia de Novo Ano de 1969, com todos os militares a participar na festa. Brancos, negros e população civil, todos foram convidados. Na primeira fila, o 2º Comandante e a esposa do ten mil médico Cortez.

Fotos (e legendas): © Virgílio (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Foto n- 5 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas checas (de Pancerovka P-27) > Foi detetada por picadores da CART 1744> Na foto o cap inf Cardoso, cmdt da CCS, e o alf mil inf MA Machado, também da CCS. Foto do álbum do Eduardo Figueiredo, também alf mil,  da CCS, cmdt Pel Rec indo.


Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

‪‪‪‪1. Mensagem do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69).


Data - terça, 17/03/2026, 00:26


O Capitão Cardoso era um jovem militar oriundo da academia militar, arma de Infantaria.

Chegou ao nosso batalhão em meados de 1968. Veio substituir o nosso antigo comandante da CCS, Cap Figueiral que foi colocado no QG.

O cap Cardoso chegou com a sua jovem e bonita esposa, acabados de casar, numa Lua de Mel inolvidável. O casal viveu sempre no seio da passarada e acho que nunca existiu qualquer problema.

Tinham aposentos próprios, mas as refeições eram tomadas na Messe.

Teve grande parte do tempo a companhia de outras senhoras, sejam a esposa do médico, e as esposas dos comandantes dos pelotões Daimler e  Canhões s/r.

Nunca tive grandes relações com o capitão e a   esposa, pois eu não tinha na prática um comandante da companhia.

O segundo comandante era o meu chefe e nem ele se metia comigo por razões de um pacto que fizemos em Santa Margarida.

Nunca soube mais do cap Cardoso até agora ver esta foto (nº 5) 
 e o seu relatório do sucedido com a mina levantada pelo meu amigo Machado (o primeiro a morrer depois da peluda e do nosso batalhão).

Pode ver se na foto nº 1 (e 1A), de frente o cap  Cardoso ao lado da esposa. 
A foto deve ser após 20nov 68, depois de ter sido evacuado o nosso comandante (ten-cor Campos Saraiva), pois ele não está a presidir ao jantar mas sim o comandante interino.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27831: (De)Caras (244): Alf mil inf MA Machado, natural do Porto, e alf mil inf Eduardo Figueiredo, que tinha casa em Bissau; ambos já falecidos (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)


Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 25 de dezembro de 1968 > Almoço de Natal com o pessoal da CCS e da CART 1744... À direita, o alf mil MA Machado, seguido do nosso camarada Virgílio Teixeira, ambos naturais do Porto.


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 25 de dezembro de 1968 > Almoço de Natal com o pessoal da CCS e da CART 1744. Do lado direito, ten SGE Godinho, alf Azevedo do Pelotão de Morteiros, Alf Carvalheira da Ferrugem e eu, Vt. Não está o alf Figueiredo. Este de óculos não sei quem é (à esquerda, em primeiro plano).


Foto nº 3 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 24 de dezembro de 1967 > Ceia de Natal > Presidida pelo comandante de Batalhão, tenente coronel Armando Vasco de Campos Saraiva, pessoa de uma rara delicadeza e personalidade. (**)

No segundo ano, 1968, já assim não aconteceu, o trágico desfecho de uma mina A/P em 20 de novembro desse ano, levou-o definitivamente para a Metrópole, onde após operações sucessivas, conseguiu sobreviver e se encontrou, passados mais de 15 anos, com os seus militares num almoço realizado em Tomar. (Foi substituído pelo ten cor inf Renato Nunes Xavier; o 2º cmdt era o maj inf Américo Correia.)

Pode ver-se no topo da mesa o nosso saudoso comandante, fardado, ladeado, como ele gostava, de duas senhoras, a mulher do tenente mil médico Cortez, e da mulher do alferes mil Figueiredo, recrutado na Guiné, onde vivia. Perto dele, os dois majores, Américo Correia e Graciano Henriques, bem como o médico.

Podem ver-se o cap inf José Bento Guimarães Figueiral Figueiral (comandante da CCS), Martins (o oficial de informações e ainda o oficial de pessoal e reabastecimentos), e outro que não conheci muito bem.

No outro topo da mesa, está o pessoal menor, os alferes milicianos.


Foto nº 4 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 31 de dezembro de 1967 > Jantar de fim de ano na messe de oficiais, o Comandante à civil, a brindar a todos. Os protagonistas são os mesmos, vê-se de óculos, o alferes comandante do Pel Rec Daimler 1143, Carvalho. Foi a última fotografia que tenho do nosso Comandante Campos Saraiva. O Machado será o primeiro da esquerda.



Foto nº 5 > Guiné > Região do Gabu > Nova Lamego > CCS/BCAÇ 1933 (1967/69) > 31 de dezembro de 1967 > Jantar de fim de ano na messe de oficiais. O Figueiredo só se vê a cabeça, em grande plano, e a esposa, ao lado.

Fotos (e legendas): © Virgílio Teixeira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



O Virgílio e a esposa Manuela, na Tabanca de Matosinhos, 
Restaurante Espigueiro (ex-Milho Rei), 
5 de setembro de 2018 
(Foto: LG, 2018)

1. Seleção de fotos do álbum do nosso camarada Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69). Mensagem de 13 do corrente, sexta, 000:01:

Luís estou a enviar algumas fotos onde aparecem os nossos visados (*), todos da CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69), a que eu pertenci:
  • Machado - Alf Mil de Minas e Armadilhas, natural do Porto;
  • Eduardo Figueiredo - Alf Mil de Pelotão de Reconhecimento e Informações, a viver em Bissau na altura do recrutamento;
  • Carlos Alberto Cardoso - Cap inf, cmdt da CCS (em substituição  do Figueiral).

Tens fotos em jantares na messe de oficiais, com ou sem a presença do nosso comandante de batalhão, quer em Nova Lamego quer em São Domingos.

Tinha muito que procurar e não há tempo por agora. A ideia é ver como eram estes três camaradas no tempo em que estivemos juntos,

Tens numa das fotos o Figueiredo, de costas e a sua esposa ao lado. Mas já te enviei mais.

Tens o Machado na messe ou noutros eventos. É fácil reconhecer. Tens o capitão Cardoso, oriundo da academia e a sua jovem esposa em lua de mel. Também está, em muitas fotos, o nosso médico, capitão mil Cortez, e a sua esposa. (A ver em próximo poste desta série.)

Faz o que entenderes, pois eram, os três camaradas impecáveis, que só conheci na tropa. Com o Figueiredo e o Machado tive convivência mais chegada no nosso quarto de 5 ou 6 pax. E na messe.

Se tiveres dúvidas pergunta por favor. Tentei legendar mas dava sempre erro.
Abraço, Vt.




Foto do Eduardo Figueiredo (*)


2. Comentários do Vt, ao poste P27811 (*)

Tenho ideia deste acontecimento que não causou vítimas.

O Machado, a que chamávamos na brincadeira de Machadão, pelo seu porte acima do normal, era também colega de quarto comigo e outros oficiais, alferes e um tenente. Era um grande amigo. Depois em 20nov68, houve a tal mina e emboscada às portas do quartel onde o comandante ten cor Saraiva ficou ferido com as pernas ao dependuro.

Morreu alguém que não posso precisar e o nosso Machadão ficou ferido e foi também evacuado. (Náo parece ter morrido ninguém, no CTIG, em 20/11/1968 | LG.)

Encontrei-o uns anos depois. No Porto. Na praça D. João l. Mais tarde soube que morreu antes do tempo.

Tinha algumas cenas para contar, talvez num próximo dia. Dele e do Figueiredo.

O nosso capitão Cardoso, foi substituir o nosso primeiro comandante da CCS, o capitão Figueiral (que foi para o QG). Estivemos em alguns almoços. Mas já faleceu também. O capitão Cardoso esteve lá em São Domingos. Com a mulher em lua de mel.

Tenho várias fotos com ambos que enviarei ainda hoje, sexta feira, por email para o Luís Graça. Tenho alguma nostalgia estar agora a relembrar esses tempos. (...)

quinta-feira, 12 de março de 2026 às 00:50:00 WET
 

(...) Agora reparei melhor o nosso homem das minas e armadilhas, baixado,  a retirar uma enorme mina! Pelo aspecto vê-se bem o seu bom aspecto de homem grande!

Era mesmo assim. Não sei nada de minas. Tenho um cunhado que também era sapador em Mueda, Moçambique. (Teve uma cruz de guerra, enaltecendo a sua pessoa, mas em particular, pela sua descontração e paciência na sua missão. Acho que era outra adjectivação mas já não me lembro. Essa condecoração valeu-lhe vários privilégios entre eles regalias nos estudos dos filhos. Ainda hoje é de uma calma impressionante. Era essa a palavra que me faltava. Calma. 
Nunca falámos das suas missões.)

O Machado era mesmo assim. Também de uma grande calma. 

O também já falecido Eduardo Figueiredo, enorme nas suas brincadeiras, teve aqui uma bela e inolvidável foto.

Quanto ao alf mil Figueiredo, conforme HU, apresentou-se na CCS /BCAÇ 1933, em 19nov67. Não era da formação do batalhão do RI15.

Era de infantaria, não constando ser de operações especiais, nem nunca se falou disso. Salvo melhor opinião.

Foi um companheiro que se integrou bem junto dos seus camaradas de quarto e vivência.
Mas nas alturas em que estava a esposa, encontrávamo-nos na messe ao almoço e jantar.
Ele teria outros aposentos, em Nova Lamego e em São Domingos, que nunca soube onde eram. (...)

E Viva São Domingos,  que também aparece neste enorme blogue. (...) (***)

quinta-feira, 12 de março de 2026 às 10:13:00 WET

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 11 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27811: Fotos à procura de... uma legenda (200): mina anticarro reforçada... na estrada de S. Domingos-Susana, 10/8/1968... 13 kg de trotil... Felizmente detetada e levantada em segurança, o sapador do IN era um trolha da construção civil... (Eduardo Figueiredo / José Salvado)

(**) Vd. poste de 24 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19329: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LVII: Festas de Natal e Ano, Nova Lamego 67, São Domingos 68

(***) Último poste da série > 31 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27688: (De) Caras (243): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte III