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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Considero que nesta fase da narrativa do Capitão Brosselard surgem várias observações francamente atrativas para a investigação historiográfica. Já vimos como ele aprecia a importância estratégica do Ziguinchor, como, implicitamente, se tornava de toda a conveniência necessário afastar a presença portuguesa do rio Casamansa. Dá-nos uma descrição de Ziguinchor no exato momento em que partimos. Faz uma apreciação da presença portuguesa na região desde o século XVII, refere ou Grumetes e Manjacos e a riqueza das madeiras que se encontram tanto na colónia francesa como na colónia portuguesa. Eu desconhecia que desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos eram exploradas pelo Governo português, e Brosselard não se acanha de propor a exploração destas madeiras na região do rio Cogon. Goste-se ou não, até porque a História não pode ser posta em tribunal nem sujeita a ressentimentos, é implícito nas observações de Brosselard que havia uma coerência territorial que a ganância política desconsiderou. A memória da identidade não se perde e vejam-se as sublevações do Casamansa que não se sente integrado no Senegal.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 17
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando a narrativa, estamos em pleno Casamansa, o Capitão Brosselard rememora dados históricos da presença portuguesa, refere que no século XVII os portugueses se tinham estabelecido no Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e um conjunto de outros lugares. Quem vinha, casava ou coabitava, com as mulheres do país, daí a numerosa população mestiça existente na Guiné. Estas alianças luso-africanas facilitaram as aproximações e as boas relações com os indígenas porque o islamismo não impede ainda que o negro aceite os princípios dos europeus.

Também uma multidão de indígenas fixados perto dos portugueses e unidos por laços de sangue se adaptaram sem resistência aos costumes dos recém-chegados, sofrendo a sua influência religiosa. Assim se formou a população dos Grumetes e dos Manjacos. Os que nós vimos trazem muitas vezes um Cristo em cobre sobre o peito: é uma herança dos seus ancestrais. Apresentando-se como cristãos, os Manjacos são polígamos, bebedores e muito debochados. Porém, são bons agricultores e bons marinheiros. As suas mulheres vestem-se com uma certa elegância e muitas vezes com distinção. Todas as cerimónias, casamentos, enterros, etc. são para os Manjacos uma ocasião para beber aguardente e vinho de palma. Quando uma rapariga se casa, todas as mulheres da povoação se juntam, vestem-se a primor e acompanham-na com cantos e gritos, de casa em casa. É do uso oferecer um presente à noiva e vinho de palma ao cortejo.

Nos dias de festa religiosa ou de procissões passeia-se igualmente pela povoação e os manifestantes fazem novas libações por cada casa por onde passam. Pode avaliar-se da compostura dos fiéis após algumas horas de peregrinação nas ruas. Toda esta gente fala um português incorreto.

O pântano de Cajanolle é um canal de comunicação entre o Casamansa e o rio Cacheu, desagua neste rio, perto de Bolor, que era, há alguns anos, um estabelecimento de uma grande importância, e servia de sanatório a Cacheu. Esta povoação está hoje em decadência; fundada em 1588, foi outrora o centro mais importante dos portugueses nesta costa e o único estabelecimento que tinha a aparência de uma povoação. Tinha alguns funcionários, uma numerosa população branca e as relações com a Europa eram frequentes.

A povoação de Cacheu tinha um aspeto muito especial bastante pitoresco. Existia aqui, ao que parece, uma sociedade de gente destemida que operava com a maior tranquilidade fazendo vigilância desde o anoitecer. Não era preciso contar com a guarnição porque as rondas que eles faziam eram quase tão temidas como os encontros com os bandidos. Atualmente a povoação de Cacheu compõe-se de 1800 habitantes, um terço são brancos. Um forte em más condições, armado de doze canhões, protege a povoação encravada nos limites estreitos de uma muralha feita de terra. O rio Cacheu é navegável até ao posto de Farim, cuja situação no interior corresponde à de Selho; mas esta escala está longe de ter a importância da sua vizinha do Casamansa.

A região compreendida entre Cacheu e o Casamansa a este do pântano de Cajanolle está coberta de magníficas florestas mais ou menos impenetráveis, alguns caminhos permitem passar do rio francês para o rio português. Paralelamente a estes dois rios, é praticamente impossível circular à volta, porque as florestas só têm claridade na vizinhança da fronteira mandinga, no Alto Casamansa.

Todas as madeiras que aqui se encontram são apropriadas para construção; podem convir tanto para marcenaria como para a construção de mobiliário de luxo e poderão ser objeto de um comércio próspero. Porém, será necessário escolher com discernimento os territórios de exploração, porque haverá dificuldades intransponíveis de penetrar em certos lugares destas florestas, e tentar uma exploração longe de zonas pantanosas que não permitem o escoamento de madeira pelos rios.

No Casamansa e Cacheu constroem-se numerosas embarcações com estas madeiras admiráveis, e desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos são exploradas regularmente pelo Governo português.

Trabalhadores vindos de Lisboa escolhem as madeiras e dirigem a operação; a exploração faz-se do lado do rio Cacheu. Todos os anos, um ou dois barcos vindos de Lisboa carregam estas madeiras destinadas às construções navais. Os barcos que fazem este transporte são construídos com as madeiras provenientes destas florestas.

Uma das árvores mais procuradas pelos portugueses pela sua duração e inalterabilidade é a missanda ou árvore de água vermelha, a sua casca avermelhada é um veneno violento, serve para compor a vida que os negros empregam na prova do julgamento de Deus.

Esta madeira não é atacada nem pela humidade nem pelas térmitas. Creio que poderia ser vantajosamente utilizada para fornecer as chulipas dos caminhos de ferro do Senegal.

Podemos constatar com satisfação que todas as essências do Casamansa se encontram igualmente nas margens do Cogon. Sobre um percurso de 400 a 500 quilómetros, este rio está bordejado por uma espessa floresta onde se amontoam árvores magníficas. Nas margens do Cogon mais ainda do que nas do Casamansa, será fiável explorar as madeiras. Poder-se-ão lançar as árvores no rio e levá-las pela corrente até ao baixo Compony, onde será fácil estabelecer uma serração.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Neste bilhete postal faz-se referência aos 212 mil africanos de toda a África ocidental francesa que combateram pela França na I Guerra Mundial. O corpo dos atiradores senegaleses foi criado por Louis Faidherbe, familiar próximo do capitão Henri Brosselard-Faidherbe, Louis Faidherbe foi governador geral da África ocidental francesa. Só muito recentemente a França se ressarciu do tremendo silêncio da sua historiografia, estavam esquecidos os 30 mil mortos vindos da África ocidental.
Bilhete postal da Guiné francesa, um caçador Coniagui
Bilhete postal antigo mostrando o porto de Dakar
Comerciante de Cayor, Senegal, 1910

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Não foi por acaso que juntei a este texto a imagem de uma carta geográfica elaborada pelo Capitão Brosselard mostrando o Casamansa e a colónia portuguesa na Guiné. O oficial francês explica com meridiana clareza as razões pelas quais a diplomacia francesa se bateu estrenuamente para se desembaraçar da presença portuguesa dá margens do Casamansa. Durante as conversações realizadas em Paris e que levaram à elaboração da Convenção Luso-Francesa assinada em 12 de maio de 1886, os representantes portugueses bem argumentaram a nossa longa presença histórica em Ziguinchor, para os franceses era a pedra no sapato, contornaram a questão prometendo oralmente que iriam apoiar a diplomacia portuguesa na questão do Mapa Cor de Rosa. Na hora própria, assobiaram para o lado, e ganharam a pérola de Ziguinchor.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 16
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Estamos agora na apreciação que o Capitão Brosselard faz de Ziguinchor. No meu ponto de vista, constitui algo de muito relevante para se perceber das motivações geopolíticas que levaram o Governo de Paris a tudo fazer para nos afastar liminarmente do Casamansa. Damos a palavra na primeira pessoa do singular ao narrador.

No percurso do rio Casamansa só se encontra uma escala digna desse nome. É Ziguinchor. Tem um fundo de sete metros no cais. A montante desta ancoragem, os navios com um calado de três metros podem subir até à ponta Piedras; com um calado de dois metros podem atingir Selho, a 170 Km da foz; abaixo desta dimensão, as embarcações podem subir algumas milhas para lá de Dianah. Deste ponto às nascentes, a distância só poderá ser feita por pirogas ou canoas de fundo liso.

De Adéane a Dianah, as duas margens são bordejadas por uma vegetação luxuriante e árvores gigantescas, principalmente em Yatacounda onde as únicas clareiras que se encontram são ocupadas pelas povoações. A maré faz-se sentir até Selho, e facilita a navegação a veleiros de um só mastro e escunas da ilha de Gorée que, com exceção de alguns navios costeiros ingleses, carregado de nós de cola, frequentam sozinhos este rio. Um vapor demora doze horas desde a foz do rio Casamansa a Selho; os veleiros precisam de três dias. O principal afluente do Casamansa, o Songrogou, é praticável até Tabor para os pequenos veleiros de um só mastro ou bateiras com um calado de 80cm.

Com a concordância do comissário português, a missão francesa dirige-se a Ziguinchor, em 24 de abril, no aviso Goéland. E toma posse desta Praça portuguesa que fora evacuada dias antes. O pavilhão francês foi hasteado no dia seguinte de manhã na presença dos principais habitantes e saudada pelos regulamentares vinte e um tiros de canhão.

Em Ziguinchor as habitações confortáveis são raras; quando muito, encontram-se três ou quatro casas de comerciantes construídas à europeia; as outras habitações são casas bastante elevadas, de forma quadrangular ou retangular, de vinte e cinco metros (?) de lado, cujas paredes são em barro e o teto em palha; comportam geralmente quatro divisões e um corredor central. Em grande número de povoações do Casamansa as habitações têm mais conforto que as de Ziguinchor. Quando eu explorava os arredores desta antiga escala portuguesa, fui um dia à povoação de Brin. Ergue-se no meio de um bosque de alta floresta; as casas são construídas com terra e têm um primeiro andar que lembra uma sobreloja. Como nas casas de Ziguinchor, esta parte é destinada a guardar as provisões de milho e arroz. Um largo teto de palha cobre tudo; a este teto são adaptados algerozes feitos com palmeira, através deles as águas fluviais escoam-se longe das povoações. Estas casas, no interior, com a sua grande altura, os seus corredores compridos e escuros, os seus postigos e pequenos recantos, lembram muito os velhos castelos medievais.

A ocupação de Ziguinchor regula a questão da posse do Casamansa, que se torna de facto um rio francês. Nós possuímos, além disso, a única escala favorável ao carregamento de grandes navios, Ziguinchor.

Os vapores podem subir com toda a carga e acostar aos pontões acima de seis ou sete metros de água. Esta situação, altamente favorável, atrai há bastante tempo os comerciantes que criam agora em Ziguinchor entrepostos gerais.

Antes da posse da escala portuguesa, os vapores que vinham da Europa descarregavam a sua carga em Gorée, onde tomavam os produtos do Casamansa, trazidos por um vaivém incessante de veleiros de um só mastro ou escunas. Doravante estes vapores virão diretamente aos pontões de Ziguinchor.

A floresta, a quinhentos metros da povoação, presta-se admiravelmente à criação de construções e jardins. Basta arrancar o matagal entre as palmeiras que procuram a sombra, a frescura e fornecem vinho, gordura, tecidos, etc. É um acontecimento feliz para a nossa nova possessão, porque apertado no meio dos seus arrozais, Ziguinchor sufoca nos seus limites atuais e a administração terá que tomar a iniciativa da criação e uma nova povoação na qual poderão estabelecer-se os habitantes que fazem atualmente dinheiro alugando as suas casas a comerciantes.

Graças à brisa marítima que se faz sentir regularmente todos os dias, o clima é relativamente doce, reconhece-se uma reputação de salubridade, porque os únicos franceses que têm descendentes do Casamansa são os que se estabeleceram nesta povoação. O senhor Chambas, um francês, viveu aqui 27 anos. Os habitantes intitulam-se europeus. Ziguinchor é assim uma pequena colónia que parece vir a tornar-se a principal localidade do Casamansa; Selho conservará a sua importância militar e Carabane será o posto alfandegário do rio.

Os habitantes da antiga povoação portuguesa têm somente pirogas, são talhadas a machado no tronco de árvores enormes e atingem grandes dimensões.

Durante muito tempo o tráfico de escravos era o grande negócio de Ziguinchor. Mais tarde, os portugueses contentaram-se em comprar escravos para o cultivo das terras vizinhas. Em 1860, a irmã do governador tinha ainda, só para ela, uma centena de escravos. Hoje os Grumetes não têm mais que os cativos estritamente necessários para as suas necessidades.

Quando os franceses se estabeleceram no Casamansa, os portugueses só mantinham dois soldados negros para guardar a bandeira. O serviço alfandegário era dirigido por um diretor e o culto religioso assegurado por um padre. Em certas alturas, os portugueses tinham posto uma guarnição de vinte homens comandados por um alferes.

A população mostrou muitas vezes antipatia pelo seu governador e que se traduzia por atos de revolta. No entanto, os portugueses manifestavam uma grande tolerância; tinham mesmo deixado subsistir usos e costumes inadmissíveis à sombra de uma bandeira de uma nação civilizada; assim um dos meus primeiros atos foi suprimi-los.

O mais horrível dos costumes que subsistiam ainda era o do julgamento do veneno, que remontava aos maus dias da Inquisição. Em certas épocas do ano, fazia-se beber o veneno às pessoas suspeitas de ser indiferentes à religião. O chefe da povoação (juiz do povo), desempenhava o papel de inquisidor, e o paciente não podia escapar à morte a não ser que se subornasse os seus juízes.

Há na povoação dois partidos: os que habitam o bairro oeste (Vila Fria) e o outro que habita o bairro este (Tabourka). As discórdias entre estes dois partidos levam muitas vezes à morte de homens.

No século XVII, os portugueses estabeleceram-se em Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e num dédalo de outros lugares, fixaram-se na maior parte dos casos sem espírito de regresso. 

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de Saúde de Cuntima (também conhecida por Colina do Norte), Guiné-Bissau, em estado de ruína, é manifesto o abandono. Imagem retirada da tese de doutoramento de Ibrahima Dione disponível no site: https://theses.hal.science/tel-00945314/file/THESE_DIONE.pdf, prende-se com os cuidados de saúde na República do Senegal
Carta do Casamansa e do distrito de Cacheu, elaborada pelo Capitão Henri Brosselard
Imagem extraída do livro La Guinée Portugaise, Subsides pour son Études, pelo antigo Governador Carlos Pereira, 1914
Povoação Mancanha, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 7 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28392: Foi há... (13): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultramar - Parte II: Sobretudo os Açores (mas também a Madeira e Portugal continental) foram a "moeda de troca" de Salazar para entrar na NATO... que no entanto não conseguiu salvaguardar o império colonial

 



Foto (e legenda): "5. Desembarque de um Batalhão de Infantaria em Ponta Delgada - II Guerra Mundial. Col. R. Soares; Rezendes, 2019."


Fonte: Sérgio Rezendes: Receios, Privações e Misérias num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores. Portal de Defesa Nacional, 2023 (com a devida vénia...). cd,. artigo oroiginal: Rezendes, Sérgio – Receios, Privações e Miséria Num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores​. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Portugal no Contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945. [Em linha] Ano III, nº 4 (2023).[Consultado em 30 de setembro de 2026.], https://doi.or​g/10.56092/FWBM1414​

Restauro, melhoria técnica e colorização: IA (ChatGPT/OpenAI), sob prompting e orientação editorial de LG.

Foto original a sépia, do famoso N/T Serpa Pinto (1914-1955), Construído em 1914 na Irlanda , foi adquirtida pela CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1940. A duas hélices, tinha c. 142 metros de comprimento, e c. 8,27 mil toneladas de arqueação bruta. Capacidade: 160 tripulantes,m e 600 passageiros. Comhecido como o "Navio da Amizade" devido ao seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, com inúmeras viagens transatlânticas transportando milhares de refugiados de guerra, incluindo uma grande quantidade de judeus que fugiam do nazismo rumo às Américas. O seu casco exibia orgulhosamente o nome e a bandeira de Portugal em letras garrafais para evitar ataques de submarinos. Mas chegou a estar, em na noite de 26 de maio de 1944, ao largo das Bermudas, a caminho de Filadélfia, na mira de um U-boat para ser afundado, valeu-lhe o veredicto final do almirante Karl Dönitz (1891 - 1980), em Berlim.



Madeira > Funchal > Parque de Santa Catarina > Monumento aos gibraltinos (excerto da lápide, em português e em inglês) (Fonte: adapt de Tripadvisor)

Durante a 2ª Guerra Mundial, cerca de 2000 gibraltinos, na sua maioria mulheres e crianças, foram evacuados para o Funchal, ficando instalados em hotéis, pensões e casas particulares até ao fim do conflito. Muitos deles criaram raízes na Madeira, contribuindo para que a respetiva comunidade tenha, até hoje, uma estreita relação com a cidade.  Cerca de 7 dezenas também morreram durante esse período (1940-1945), a maioria devida a surto de tifo.

O pequeno monumento em mármore foi oferecido à RAM pela comunidade de Gibraltar e  inaugurado em 2008. A cidade do Funchal tem, desde 2009, um acordo de geminação com Gibraltar.

 

1. A II Guerra Mundial e o seu fim (1945) foram vividos de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos diferentes territórios (ilhas adjacentes e colónias)   e as consequências humanitárias, demográficas, sociais e económicas 

Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época, disponíveis em acesso livre:

Ilhas Adjacentes: Açores e Madeira


A importância das Ilhas Adjacentes (Açores e Madeira) no contexto da Segunda Guerra Mundial e no xadrez diplomático da "neutralidade colaborativa" de Salazar é um dos capítulos  da nossa história contemporânea que os portugueses não conhecem ou conhececm mal.

Falemos primeiro dos Açores. O arquipélago  teve um papel estratégico crucial na guerra, especialmente a partir de 1943, quando Portugal cedeu bases aos Aliados sob pressão britânica e americana.

Recorde-se que pelo Acordo de 17 de agosto de 1943, Salazar autorizou os britânicos a usar os portos de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), bem como os aeródromos de Campo das Lajes (Terceira) e Campo de Santana (São Miguel).

A 8 de outubro de 1943, os britânicos desembarcaram em Angra do Heroísmo e construíram a Base Aérea das Lajes, que se tornaria um ponto de viragem na Batalha do Atlântico.

Em 1942, os Aliados tinham perdido 5,48 milhões de toneladas de mercadorias no Atlântico Norte. No último trimestre de 1943, com as operações a partir das Lajes, as perdas caíram para apenas 146.000 toneladas. 53 submarinos alemães (U-Boats) foram afundados graças às operações dos Açores  

Em 1944, oss americanos construíram uma base em Santa Maria e, em 1945, uma nova base na Terceira (a atual Base das Lajes).

  • Açores: a Operação Alacrity e a mudança de rumo na Batalha do Atlântico

O papel dos Açores no conflito transcorreu entre a diplomacia cautelosa  e o realismo militar do Governo Português, mas também dos dois lados do conflito que nunca esconderam a importância do arquipélago.

Antes da cedência formal das instalações em 1943, os Açores estiveram sob ameaça constante de ocupação por ambos os blocos. Ou seja, viveu-se sob o fantasma da invasão (1940–1942).

Os britânicos planearam a Operação Stimson (e mais tarde a Operação Alacrity) para tomar o arquipélago "manu militari" se Portugal caísse sob influência do Eixo. Por seu turno, o Alto Comando alemão equacionou a Operação Félix e a ocupação dos Açores para fechar o Atlântico aos Aliados.

Face ao risco iminente de invasão estrangeira e da perceção de que o continente não conseguiria defender as ilhas à distância (são cerca de 1450 km a distância que separa Lisboa de Ponta Delgada), o governo reforçou massivamente as defesas insulares. 

Entre 1941 e 1943, cerca de 30 mil expedicionários portugueses (do Exército e da Armada) foram enviados para o arquipélago, transformando o quotidiano de ilhas pacatas como a Terceira, São Miguel e Faial. Teve grande impacto demográfico na altura (sxegundo o censo de 1940, os Açores contavan com 287 mil habitantes!). Por outro lado, esta expedição foi um desastre do ponto de vista do planeamento, do financiamento, da logística e da execução, segundo o  historiador açoriano Sérgio Rezendes (op. cit., 2023(.
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Até meados de 1943, existia uma vasta zona no centro do Atlântico Norte fora do alcance da cobertura aérea baseada em terra. Era o chamado "Buraco do Atlântico" (Mid-Atlantic Gap). Era ali que os U-Boote, os submarions alemães,  atacavam os comboios de abastecimento com quase total  impunidade. A abertura da Base das Lajes fechou essa lacuna operacional, permitindo patrulhas antisubmarinas contínuas com aviões de longo alcance (como os B-24 Liberator).
 
Embora as facilidades tenham sido inicialmente concedidas à Grã-Bretanha, no âmbito da velha Aliança Luso-Britânica de 1373, a entrada em cena dos Estados Unidos (através da construção do aeródromo de Santa Maria pela US Army Air Forces em 1944) redefiniu a importância geopolítica dos Açores para o pós-guerra, inserindo Portugal na esfera de segurança atlântica das potências ocidentais.

 A presença militar trouxe dinamismo económico, mas também tensões com a população local, que via a ocupação estrangeira como uma violação da neutralidade.

A Base Aérea N.º 4, sediada na Ilha Terceira, nos Açores, celebrou,  no passado dai 12 de junho de 2021, oito décadas de existência

A importância geoestratégica do arquipélago dos Açores só por si justificou a necessidade de existir uma grande infraestrutura aeronáutica, sobretudo porque garantia uma superioridade aérea sobre a naval. Tal fator foi determinante para a chegada de meios aéreos aos Açores pela primeira vez.

Face à evolução da II Guerra Mundial, em 1941 o Governo Português destacou para os Açores um Corpo Expedicionário, formado por duas Esquadrilhas de Caça: a Esquadrilha n.º 1 com destino à Ilha de São Miguel e a n.º 2 para a Ilha Terceira.

Aquando da chegada da Esquadrilha da Caça n.º 2, a construção da pista nas Lajes já se encontrava quase concluída, tendo sido declarada como apta para operações em 11 de julho de 1941.

A presença das forças da aeronáutica nos Açores conduziu em 4 de agosto de 1942 à criação da Base Aérea n.º 4, na Ilha de S. Miguel, e da Base Aérea n.º 5, no Aeródromo das Lages, na Terceira.

  • Madeira: evacuação de Gibraltar e crise social

Embora a Madeira não tenha acolhido bases aéreas militares estrangeiras, desempenhou um papel importrante, no plano humanitário, logístico e estratégico:

(i) Operação de evacuação de Gibraltar (1940):  dada a sua proximidade com o Rochedo de Gibraltar (sob controlo dos britânicos), a Madeira serviu como ponto de apoio para os Aliados, especialmente após a evacuação de Gibraltar em 1940.

Antecipando potenciais ataques alemães ou espanhóis à fortaleza de Gibraltar, o Reino Unido evacuou a sua população civil. A Madeira acolheu cerca de 2 000 gibraltinos (sobretudo mulheres, crianças e idosos), que permaneceram na ilha até ao final do conflito. Estabeleceu-se uma forte ligação afetiva entre os evacuados e os madeirenses, mobilizando hotéis e quintas no Funchal para os alojar.

A ilha recebeu também outros refugiados (incluindo judeus e outros europeus em fuga do nazismo), embora em menor escala do que Macau ou Lisboa.

(ii) Guarnição militar: a Madeira contou com um contingente reforçado de cerca de 1 000 a 1 500 expedicionários continentais, encarregados da defesa da ilha, do controlo das comunicações por cabo submarino e da vigilância das rotas navais; a ilha não tinha um 
aeródromo.

(iii) Operação Ripper: foi o nome de código de uma operação militar que os britànicos planearam para capturar a Madeira, acção ponderada entre fevereiro de 1942 e meados de 1943.

(iv) Privações económicas e mercado negro: o bloqueio naval e a escassez de combustível paralisaram o comércio tradicional do vinho da Madeira e do bordado, além de dizimarem o turismo. A ilha viveu anos de  escassez de alimentos, inflação, racionamento severo, racionamento de eletricidade, surtos de fome pontuais e o florescimento da especulação e do mercado negro.  A população madeirense teve de enfrentar privações semelhantes ou até maiores do que as do continente

  • Reações insulares ao fim do conflito (maio–agosto de 1945)

A notícia da rendição da Alemanha (Maio de 1945 - Dia V-E) e do Japão (Agosto de 1945 - Dia V-J) provocou reações distintas, mas intensas, em ambos os arquipélagos

(i) Alívio social e desmobilização: a primeira reação da população e das tropas foi de enorme alívio; o fim do conflito significava o regresso progressivo dos milhares de jovens expedicionários ao continente e o restabelecimento das rotas marítimas civis e do abastecimento de bens essenciais;

(ii) Manifestações públicas e tensões políticas: nos Açores e na Madeira, o fim da guerra levou multidões às ruas em celebração da vitória dos Aliados; em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e no Funchal, os desfiles de celebração pró-Aliados transformaram-se por vezes em manifestações de aspiração democrática; setores da oposição ao Estado Novo viam a vitória das democracias ocidentais como o prenúncio da queda das ditaduras ibéricas; o governo de Salazar acompanhou atentamente estas celebrações, limitando ajuntamentos que pudessem derivar em contestação política ao regime;

(iii) O legado das infraestruturas: o fim da guerra deixou um património transformador, sobretudo nos Açores: as pistas, instalações e redes telefónicas construídas em Santa Maria e na Terceira converteram os Açores num nó central da aviação comercial transatlântica no pós-guerra.

A centralidade estratégica demonstrada pelas Ilhas Adjacentes (e sobretudo dos Aççores) durante o conflito foi a principal "moeda de troca diplomática que permitiu a uma ditadura como a de Salazar figurar como membro fundador da NATO em 1949.

Essa é uma das grandes contradições históricas da fundação da NATO / OTAN. . Portugal entrou na NATO em 4 de abril de 1949 como um dos 12 membros fundadores, apesar de o Estado Novo de Salazar ser um regime autoritário e não democrático (partido único "de facto", censura, polícia política, ausência de vredadeirias eleições livres, repressão da oposição). 

Como explicar ? O Tratado dizia, no preâmbulo, que os membros estavam determinados a defender uma civilização fundada na democracia, liberdades individuais e Estado de direito.

Mas o artigo 10.º, que regulava a entrada de novos membros, era muito mais pragmático: permitia convidar, por unanimidade, qualquer Estado europeu, independentemente do seu regime político,  capaz de contribuir para a segurança do Atlântico Norte e promover os princípios do Tratado.  

E a  azão fundamental era bipolarização do mundo no pós-guerra e o início da Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido olhavam sobretudo para a geografia militar. A questão do carácter ditatorial do regime de Salazar foi metida debaixo do tapete. Portugal era então extraordinariamente importante:

  • Açores: posição a meio do Atlântico, fundamental para a ligação aérea e naval entre a América do Norte e a Europa;
  • Portugal continental: posição atlântica e controlo das aproximações marítimas;
  • Madeira: completava, juntamente com o continente e os Açores, o chamado triângulo estratégico português.

Salazar, político hábil,  percebeu perfeitamente o valor dos Açores, o porta-aviões "natural" do Atlântico Norte... Mas Salazar não deu os Açores e recebeu a NATO. Foi uma troca diplomático-estratégica muito mais complexa: Portugal oferecia uma posição atlântica de enorme valor militar e Salazar obtinha reconhecimento internacional e legitimidade para o seu regime.

Mas há aqui uma ironia histórica, que importa sublinhar:  Portugal tentou aproveitar a negociação para, "à boleia",  obter outras vantagens, nomeadamente a inclusão das colónias portuguesas na área do Tratado (que só abrangia o Atlàntico Norte)  e a entrada da Espanha franquista. Os aliados recusaram ambas as pretensões. Portugal entrou, mas não conseguiu transformar a NATO numa garantia da manutenção do império colonial.

 A própria história oficial da NATO hoje reconhece explicitamente que Portugal era, em 1949, uma ditadura sob Salazar,  e que a sua importância estratégica ajudou a ultrapassar essa questão.  Mais: a NATO  não ajudou a “democratizar” Portugal, como alguns esperavam (incluindo alguns setores da oposição democrática) em 1949. Pelo contrário: o regime de Salazar iria permanecer no poder durante mais 25 anos ! 

Mas a NATO também foi uma escola de valores e competências para muitos militares portugueses (de Humberto Delgado a Costa Gomes) que, direta ou indiretamente, acabaram por contribuir para a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Revista Minerva + Diário de Notícias  (Funchal) + NATO +  Defesa Nacional + IA)

(Condensação, revisão / fixação detexto, negritos; LG)
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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Quando um dia os investigadores e até mesmo autores de teses de doutoramento queiram dedicar a sua atenção sobre os graves conflitos que ocorreram na região do Forreá e que levaram à ruína uma economia agrícola que parecia bastante próspera, fará todo o sentido em acompanhar o olhar do Capitão Brosselard. Como se pode ler neste texto, a missão, prestes a encaminhar-se para Buba, percorre Dandum e os grandes rios do sul, das colónias portuguesa e francesa. Fica-se com a opinião sobre Mahmadou-Paté, a importância de Kadé, à ação política de Mody-Yaya. Vai seguir-se a viagem para Buba, prende a nossa atenção a narrativa onde se descreve a vida dos rios, o cuidado em relevar a importância dos povoados e não se esconde a dimensão brutal dos conflitos étnicos que atravessam a região. Brosselard refere várias vezes a ruína do Forreá, proprietários agrícolas e comerciantes abandonaram a sua atividade no Cumbijã, em Cacine no rio Grande de Bolola, ele também descreverá este povoados da agora colónia portuguesa

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 12
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, os dois comissários, Brosselard e Costa Oliveira, percorrem as margens do Corubal e Brosselard cede ao fascínio, rende-se pela escrita ao que vai contemplando:
“As árvores, ávidas de luz, inclinam-se para a clareira que se abre para o rio e os seus ramos alongam-se desmesuradamente, acima das águas. Sobre o rio Corubal está-se ainda em plena floresta, pode perceber-se a margem oposta, mas para reconhecer a direção do rio é preciso caminhar sobre os ramos e avançar até a alguns metros do rio, correndo-se o risco de ser apanhado por um crocodilo. A montante distinguimos alguns pontos de rochedos; este afloramento de rochas permite que na maré-baixa se possa atravessar o rio a vau. Acima desta barragem o rio Koliba chama-se Kokoli, a jusante o curso do rio é livre até à altura de Contabane; a largura do Koliba é de trezentos a quatrocentos metros, é um grande rio.”


Os membros da comissão portuguesa, o Sr. Cabral e o Capitão Bacelar juntaram-se a nós durante a estadia que fizemos em Mahmadou-Guini. As duas missões encontram-se completas e o seu efetivo era o seguinte: a missão portuguesa composta por 4 membros, 50 soldados, 100 carregadores, portanto cerca de 150 a 160 pessoas; a missão francesa composta por 3 membros, 20 soldados e 50 carregadores, portanto 73 pessoas.

A 13 de março, os oficiais continuam as suas operações de reconhecimento para Dandum, o curso do rio Cogon e o do rio Grande (Kokoli, nesta região) divergem, o primeiro para sul e o segundo para norte-noroeste. O rio Grande é um rio majestoso, correndo no meio de uma imensa floresta que se estende a perder de vista. Ligeiras neblinas espalham-se por lugares da floresta da margem direita, e dá para perceber o carácter pantanoso desta região.

Tendo convidado o chefe de Dandum para encontrar um homem de boa vontade para levar a Geba a carta destinada ao Sr. Galibert, este Fula escusou-se a satisfazer o meu pedido; a região entre o Kokoli e Geba, diz ele, está às ordens de um chefe de nome Mahmadou-Paté. É o irmão de Bacar-Guidali, o ex-rei do Forreá destronado e assassinado por Mody-Yaya; ele corta a cabeça a todos os Fulas que apanha, e nenhum homem de Kadé ou Dandum se irá aventurar para lá do Kokoli.

Nós sabíamos, com efeito, que este Mahmadou Paté não deve ser confundido com o seu homónimo do Forreá, fizera-se chefe de todos os descontentes e oprimidos e intersetava todas as comunicações diretas entre Kadé e Geba.

De criação recente, Dandum é uma povoação de escravos do rei de Kadé, a sua população situação entre 800 e 1000 habitantes. Os indígenas fazem grandes esforços para desbravar nas proximidades os terrenos favoráveis ao cultivo. São industriosos e podemos utilizar o concurso dos seus ferreiros para repara certas peças do nosso material. Os seus tecelões fazem com algodão colhido na floresta tecidos talvez grosseiros, mas de uma solidez a toda a prova.

O intérprete Ibrahima regressou de Kadé com dois delegados de Mody-Yaya, mas sem carregadores nem cavalos, mas trouxe cumprimentos calorosos e protestos de amizade. Kadé forma um distrito que depende diretamente da autoridade dos almamis; Mody-Yaya, que usa o título do rei de Kadé, rei do Gabu e rei do Forreá, tem uma autoridade contestada sobre o Gabu, um território essencialmente Mandinga que conseguiu até agora manter uma barreira intransponível ao fluxo Fula. Ele é mais feliz no Forreá, onde fez assassinar em 1886 o rei Bacar-Guidali. Ele deixa de tempos a tempos esta região e só vai a Kadé depois de ter comido o que há nos celeiros, e então rouba tudo o que lhe é conveniente, porque os Fula-Cundas são considerados pela gente de Kadé proprietários sujeitos a impostos discricionários.

Atualmente a povoação de Kadé tem cerca de 400 casas e a sua população é de 3 a 4 mil habitantes. Num raio de 3Km à volta da população estabeleceram-se sucessivamente doze povoados mais pequenos que têm uma população que é o dobro de Kadé, e no seu conjunto pode contar com mil homens livres armados.

A importância que dá a Kadé é devido à ação política de Mody-Yaya. Este chefe, para lá da influência considerável que deve ao seu nascimento, porque ele vem da família dos Alpha que detém com a dos Sory o poder no Futa-Djalon; goza também da devoção absoluta dos seus partidários, que usufruem de benefícios que Mody tem no Forreá. Kadé está situada numa região muito fértil, beneficia de estar próxima das escalas de mercadores, a povoação recebe mercadores europeus e serve de entreposto para as regiões mais longínquas, protegida a norte pelo fosso do Koli e a sul e sudoeste por montanhas inacessíveis, está ao abrigo de investidas dos inimigos da raça Fula e pode ser considerada como uma excelente base de operações para as empresas que se estabeleçam a oeste. Estamos em crer que se não parar o desenvolvimento de Kadé a povoação tornar-se-á a capital do Futa-Djalon.

Chegámos ao fim do primeiro texto publicado em Le Tour du Monde pelo Capitão Henri Brosselard, páginas 97 a 144, primeiro semestre, 1889.

Segue-se também na publicação do primeiro semestre, o segundo e último texto, começa por se dizer que a fronteira sul estava reconhecida e os comissários decidiram regressar a Buba, damos novamente a palavra ao Capitão Brosselard e à primeira pessoa do singular.

A 18 de março, deixo Dandum com a retaguarda da coluna e junto depois a coluna no riacho de Tiancoun-Kapé. A 20, chegámos a Saala, é impossível ver o chefe, partiu à procura do filho. Este andava há seis dias à caça com um escravo, os dois caçadores não regressaram, admite-se na povoação que foram mortos por elefantes. No dia seguinte, mantivemo-nos no local à espera das bagagens deixadas ao cuidado de Mahmadou-Guini. Os oficiais fazem reconhecimentos nos arredores. N’Garanké que tinha trazido uma carta do tenente a Dandum, voltou com um intérprete. Parte de Saala com os carregadores e regressa no dia seguinte, trazendo um grande carregamento, cerca de 40Kg. Em 32 horas percorreram 105Km, dos quais 70 com 40Kg à cabeça. Para encorajar os carregadores faço um presente pecuniário a N’Garanké e dou-lhe uma grande espingarda de caça.

A 22, a coluna francesa deixa Saala, tendo aqui ficado parte das bagagens à guarda de dois atiradores; a coluna atravessa um território abundante em caça e atingimos o riacho de Kevel. O seu leito é rochoso, tem água corrente muito fresca. Faz-se o reconhecimento desta admirável estação que bordeja por toda a parte este curso de água, da foz à sua confluência com o Cogon. Entrámos logo depois em Kevel, povoado e habitado pelos Fulas. Há à sua volta belas savanas onde pastam bois e vacas enormes. A floresta vizinha tem árvores centenárias. As perdizes são aqui abundantes, elas aproximam-se até aos nossos pés e na povoação vêm comer o milho espalhado no chão.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Alameda de poilões, Selho, Casamansa, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Cais de Conacri, bilhete postal antigo
Entrada de Conacri, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É da maior conveniência fazermos uma recapitulação de tudo o que até agora se tem passado nesta narrativa do Capitão Henri Brosselard, que chefia a comissão francesa para a demarcação das fronteiras da Guiné Portuguesa. Estávamos em 1888, ele saiu em janeiro de França e encaminhou-se para a capital da colónia portuguesa. Daqui seguiu para o sul, para o início de uma região chamada Rivières du Sud, esteve nos rios Nuno e Compony ou Cogon; e fez uma longa marcha até Kandiafara, foi aqui que se encontrou com a comissão portuguesa, ambas as comissões deram como definidas as fronteiras entre Ponta Cajet e a região de Kandiafara. Irão seguir depois para Buba. É uma narrativa onde o seu autor muito provavelmente utilizou o seu relatório oficial, os itinerários da viagem estão todos datados, as diferentes atividades de exploração claramente referenciadas; o Capitão Brosselard é observador, esculpe perfis, é exuberante em tudo quanto menciona das paisagens por onde passam, e dá-nos aqui um belo texto sobre a caçada ao elefante e como aqueles paquidermes em fúria destroçam os corpos dos caçadores. Não é demais insistir que o leitor deve retomar o que se publicou no blog sobre a narrativa do chefe da comissão portuguesa, que irá aparecer minuciosamente transcrito em Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 11
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que a coluna do Capitão Brosselard já passou pela fronteira do Forreá e do Futa-Djalon, ia a caminho da pequena povoação de Mahmadou-Guini e assistiu à destruição de uma floresta para a transformar em terras de cultivo. O capitão descreve agora o seu encontro com Mahmadou-Guini.

Mahmadou-Guini veio visitar-me. Este Fula apresenta-se com à-vontade e dignidade. É um negro grande e belo; de largas espáduas, parece estar dotado de um vigor fora do comum, o seu rosto transparece ousadia, tem marca de pertencer a uma raça superior. Na sua conversa, ele testemunha a sua devoção a Mody-Yaya. Em 1886 ele terá prestado grande ajuda ao seu soberano nas lutas que precederam o assassinato do rei do Forreá. Atualmente Mahmadou-Guini contenta-se a fornecer marfim ao rei de Kadé de quem recebe escravos dos dois sexos.

Durante a nossa estadia em Koumataly vi gente de Mahmadou-Guini que regressando a casa devem ter percorrido as florestas ribeirinhas do rio Grande à procura de sinais da passagem de elefantes. Manifestei interesse, se acaso se proporcionasse, de assistir à caça desses grandes animais e acordou-se que eu esperaria a chegada da coluna para nos lançarmos sobre as pistas dos elefantes, se tivéssemos a felicidade de os encontrar.

Alguns dias depois, estes pisteiros chegaram à povoação do seu senhor, anunciando que tinham encontrado a alguns quilómetros indícios muito recentes de um jovem elefante e que não tinham visto nenhum outro nas proximidades; era de supor que todos os da manada tinham atravessado a margem direita do rio Koliba (Koliba em francês, Corubal em português). A experiência indicava aos caçadores que o animal assinalado não ficaria muito tempo sozinho na margem esquerda. Era necessário apressarmo-nos sobre estes vestígios se não se queria perder a oportunidade, não se podia esperar a chegada dos brancos.

Oito caçadores partiram na pista do jovem elefante, bem abastecidos de pólvora e de balas, estavam armados de grandes fuzis que se podem encher de pólvora e de projéteis até à boca do cano. Os caçadores rapidamente reconheceram os indícios identificados pelos pisteiros. Quase nus, para poderem deslizar como répteis através das lianas e silvas, percorreram rapidamente muitos quilómetros e subitamente desembocaram numa clareira; o elefante estava lá, mas era apenas um adolescente e admirámo-nos dos seus companheiros estarem separados dele. Não havia tempo a perder, o jovem elefante deu conta da presença dos caçadores e persentindo um perigo procurou uma saída no matagal. Não havia tempo a perder, era preciso aproveitar deste seu embaraço no meio das lianas para o impedir da fuga rápida, e uma bala atingiu-o quando ele fazia um supremo esforço para abrir caminho. Gravemente ferido, o animal gritou de dor, os seus gritos ecoaram pela floresta. Os caçadores ficaram fora da clareira, na previsão de uma atitude ofensiva do jovem elefante. De repente ouviram-se outros gritos da manada respondendo aos do jovem elefante. Instintivamente os caçadores compreenderam o perigo que os ameaçava, os outros elefantes não estavam longe. Rapidamente os caçadores abandonaram a sua vítima que estava agonizante, e procuraram fugir através da floresta, corriam como loucos, atrás deles estalavam as lianas arrancadas e árvores quebradas, os monstros ganhavam rapidamente terreno.

Para desgraça dos caçadores, esbarraram num mato espinhoso e ficaram bloqueados. Feridos pelos espinhos, com o sangue a escorrer das feridas, não podiam recuar e cinco elefantes avançaram para eles. A fuga era impossível, urgia enfrentar o inimigo e defenderem-se com as armas. A uma boa distância, atiraram-se oito tiros a sangue-frio, todos acertaram, mas o adversário não parava, pelo contrário, precipitaram-se com cada vez mais fúria sobre os Fulas, sete deles foram apanhados pelos elefantes que os tomaram com a tromba e atiraram-nos ao chão ou quebraram-nos contra as árvores. Só um conseguiu escapar, fugiu enlouquecido até ao povoado, aqui os indígenas ficaram horrorizados com o que ele contou: só Mahmadou-Guini não parecia nada perturbado, incitou os mais bravos a segui-lo, todos os homens válidos correram para o lugar da carnificina. Os sete cadáveres que jaziam no chão estavam horrivelmente mutilados e de tal modo desfigurados que só puderam ser reconhecidos pelos familiares, identificados pelos amuletos e vestuário ainda presos aos pedaços de carne.

Mais longe viu-se um dos cinco elefantes, estava ferido, não se podia mexer, foi morto. Enfim, chega-se à clareira onde o jovem elefante fora a causa do acidente, estava sentado sobre o flanco, agonizando, foi morto à catanada.

Durante a nossa estadia ao pé de Mahmadou-Guini uma manhã informaram-me que estava a chegar um Fula que vinha pelo caminho de Dandum. Este homem, vestido de modo ridículo e bizarro, chamou a nossa atenção, os calções cor de cereja e um casaco castanho-esverdeado, trazendo à cabeça um embrulho volumoso e conduzindo pela mão um carneiro com bom tamanho. Passa à frente da habitação onde os oficiais tomam as refeições e apercebendo-se dos negros que comem cuscuz ao pé de uma casa vizinha, dirige-se para ali, senta-se entre os convivas, come e bebe sem ter previamente proferido uma palavra nem dirigindo a palavra a quem ali estava.

Uma vez saciado começa a conversar e cumprimenta todos os presentes, informa-os da finalidade da sua viagem. Parece que esta maneira de proceder é habitual no Futa-Djalon. Este homem era um servidor de Mody-Yaya, dirigia-se a Bolama para oferecer ao governador da Guiné Portuguesa, da parte do rei de Kadé, um dente de elefante quadrado, no volumoso embrulho que transportava à cabeça. Os dois comissários fizeram um reconhecimento do Koliba, eram acompanhados por uma escolta de carregadores, atiradores e soldados portugueses. Não há qualquer caminho para chegar ao rio, caminha-se como se pode através do mato, o capim alto torna por vezes a marcha tão difícil que é necessário deitar-lhe fogo para abrir caminho.

A quinhentos metros do rio, a vegetação toma uma dimensão imponente, é uma verdadeira floresta virgem quase impenetrável, que impede o acesso às margens. Os negros cortam a vegetação com as catanas e os machados, é a única maneira de fazer uma passagem. Chega-se enfim às margens do rio. As roupas estão em farrapos, as mãos feridas, os rostos desfigurados. As imensas árvores em forma de chapéu de sol estão ligadas por uma inextrincável rede de lianas que suspendem e entrecruzam lá nas alturas. Bandos de macacos mandris marcham em filas intermináveis sobre as lianas suspensas no espaço; lançam-se muitas vezes no topo das árvores da extremidade de um ramo para o outro, alguns deixam-se cair, agarram-se a um ramo ou mesmo a uma simples extremidade da folhagem, e lançam-se no vazio. Eles tomam certamente os viajantes por camaradas; não parecem minimamente emocionados pela nossa passagem.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta antiga de África e das ilhas de Cabo Verde, Sanson, cerca de 1680
Bijagós e um morro de bagabaga, desenho de Sirouy, segundo uma fotografia comunicada por Charles Brongniart
Escala de Foundiougne, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Posto de Kawlakh, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.

Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.

A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.

O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.

Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”

Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.

Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”

Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)